{"id":76970,"date":"2019-09-03T15:41:36","date_gmt":"2019-09-03T18:41:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=76970"},"modified":"2019-09-03T15:41:36","modified_gmt":"2019-09-03T18:41:36","slug":"no-fim-do-imperio-brasil-tentou-substituir-escravo-negro-por-semiescravo-chines","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/geral\/no-fim-do-imperio-brasil-tentou-substituir-escravo-negro-por-semiescravo-chines\/","title":{"rendered":"No fim do Imp\u00e9rio, Brasil tentou substituir escravo negro por \u201csemiescravo\u201d chin\u00eas"},"content":{"rendered":"<p>Neste ano, dois marcos das rela\u00e7\u00f5es entre o Brasil e a China fazem anivers\u00e1rio. O rompimento dos la\u00e7os diplom\u00e1ticas completa 70 anos \u2014\u00a0em 1949, a revolu\u00e7\u00e3o comunista liderada por Mao Tse-tung levou o presidente Eurico Gaspar Dutra a cortar a liga\u00e7\u00e3o com o pa\u00eds asi\u00e1tico. O reatamento, por sua vez, completa 45 anos \u2014\u00a0em 1974, o presidente Ernesto Geisel passou por cima das diverg\u00eancias ideol\u00f3gicas e restabeleceu os contatos oficiais com Pequim.<br \/>\nDocumentos hist\u00f3ricos guardados no Arquivo do Senado, em Bras\u00edlia, mostram que as rela\u00e7\u00f5es entre os dois pa\u00edses remontam \u00e0 \u00e9poca de dom Pedro II. Em 1880, o governo imperial enviou diplomatas ao outro lado do mundo para assinar um tratado bilateral por meio do qual o Brasil esperava substituir os escravos negros por \u201csemiescravos\u201d chineses.<br \/>\nNesse momento, a escravid\u00e3o d\u00e1 claros sinais de que est\u00e1 com os dias contados. Desde 1850, a Lei Eus\u00e9bio de Queir\u00f3s pro\u00edbe o tr\u00e1fico de africanos. Desde 1871, a Lei do Ventre Livre garante a liberdade aos beb\u00eas nascidos de escravas. Nesse contexto de mudan\u00e7a, os fazendeiros do Imp\u00e9rio, temendo que o encolhimento da m\u00e3o de obra leve a lavoura de caf\u00e9 ao colapso, pensam nos \u201cchins\u201d como solu\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u2014 O trabalhador chim, al\u00e9m de ter for\u00e7a muscular, \u00e9 s\u00f3brio, laborioso, paciente, cuidadoso e inteligente mesmo \u2014 argumenta no Senado, em 1879, o primeiro-ministro Cansan\u00e7\u00e3o de Sinimbu. \u2014 Por sua frugalidade e h\u00e1bitos de poupan\u00e7a, \u00e9 o trabalhador que pode exigir menor sal\u00e1rio. Assim, deixa maior soma de lucros \u00e0quele que o tem a seu servi\u00e7o. \u00c9 essa precisamente uma das raz\u00f5es por que devemos desej\u00e1-lo para o nosso pa\u00eds.<br \/>\n<figure id=\"attachment_76972\" aria-describedby=\"caption-attachment-76972\" style=\"width: 339px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-76972\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/imagem-2-339x450.jpg\" alt=\"\" width=\"339\" height=\"450\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-76972\" class=\"wp-caption-text\">Revista refor\u00e7a imagem negativa de imigrantes chineses (imagem: Biblioteca Nacional)<\/figcaption><\/figure><br \/>\nO primeiro-ministro tenta convencer os senadores a aprovar a libera\u00e7\u00e3o das verbas necess\u00e1rias para o envio de uma miss\u00e3o diplom\u00e1tica \u00e0 China para negociar o tratado. A escassez de bra\u00e7os na lavoura preocupa o governo porque o caf\u00e9 para a exporta\u00e7\u00e3o \u00e9 a maior fonte de renda do Brasil.<br \/>\nA viagem que os diplomatas teriam que fazer seria bem longa, a bordo de um navio de guerra da Marinha, o que demandaria dos cofres imperiais 120 contos de r\u00e9is. N\u00e3o \u00e9 pouco dinheiro. O valor \u00e9 igual aos or\u00e7amentos somados da Biblioteca P\u00fablica, do Observat\u00f3rio Astron\u00f4mico, do Liceu de Artes e Of\u00edcios, da Imperial Academia de Medicina e do Instituto Hist\u00f3rico e Geogr\u00e1fico Brasileiro para todo o ano de 1879.<br \/>\nOs chineses, como avisa Sinimbu, seriam assalariados. Na pr\u00e1tica, contudo, o que os fazendeiros brasileiros desejam \u00e9 reproduzir a experi\u00eancia de pa\u00edses como Estados Unidos, Cuba e Peru, que v\u00eam explorando os chineses de uma forma tal \u2014 com pagamentos irris\u00f3rios, jornadas extenuantes, ambientes insalubres e castigos f\u00edsicos \u2014 que os trabalhadores ficam na t\u00eanue fronteira entre a liberdade e a escravid\u00e3o.<br \/>\nLevas de trabalhadores abandonam o imp\u00e9rio chin\u00eas, entre outras raz\u00f5es, por causa da superpopula\u00e7\u00e3o (370 milh\u00f5es de habitantes, contra 10 milh\u00f5es no Brasil), da escassez de alimentos e da crise decorrente da derrota nas Guerras do \u00d3pio.<br \/>\nNo Brasil, nem todos recebem bem a ideia da imigra\u00e7\u00e3o chinesa. Parte da sociedade sente temor e repulsa diante da possibilidade de encontrar homens de olhos puxados, cabelos tran\u00e7ados a partir da nuca e roupas ex\u00f3ticas transitando pela fazendas e cidades do Imp\u00e9rio.<br \/>\nReverberando o pensamento desse grupo, h\u00e1 senadores e deputados que se manifestam contra a celebra\u00e7\u00e3o do tratado com a China. O Arquivo do Senado preserva os discursos proferidos a esse respeito no Parlamento. Muitos deles s\u00e3o abertamente racistas e xen\u00f3fobos.<br \/>\n\u2014 Senhores, n\u00e3o sei que fatalidade persegue este Imp\u00e9rio, digno de melhor sorte: ou h\u00e1 ter africanos, ou h\u00e1 de ter chins? \u2014 critica o senador Dantas (AL). \u2014 Li numa mem\u00f3ria acerca da coloniza\u00e7\u00e3o chim que diz ser essa uma ra\u00e7a porca que muda de roupa s\u00f3 duas vezes ao ano. Pois, quando as nossas leis estabelecem pr\u00eamios \u00e0queles que trouxerem para o Imp\u00e9rio boas ra\u00e7as de animais, tratam de mandar buscar rabichos e caricaturas de humanidade?<br \/>\n\u2014 Depois de tantos anos de independ\u00eancia e de estarmos mais ilustrados a respeito da marcha dos neg\u00f3cios do mundo, havemos agora de voltar atr\u00e1s e introduzir nova ra\u00e7a, cheia de v\u00edcios, de f\u00edsico amesquinhado, de moral abatido, que n\u00e3o tem nada de comum aqui e n\u00e3o tem em vista formar uma p\u00e1tria e um futuro? Havemos de introduzir semelhante ra\u00e7a somente para termos daqui a alguns anos um pouco mais de caf\u00e9? \u2014 questiona o senador Junqueira (BA).<br \/>\n<figure id=\"attachment_76973\" aria-describedby=\"caption-attachment-76973\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-76973\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/imagem-3-450x314.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"314\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-76973\" class=\"wp-caption-text\">Chineses que participaram da constru\u00e7\u00e3o da Ferrovia Transcontinental, nos EUA (foto: Amon Carter Museum of American Art)<\/figcaption><\/figure><br \/>\n\u2014 Venham muitos chins, para morrerem aos centos, aos milhares \u2014 ironiza o senador Escragnolle Taunay (SC). \u2014 Deles, ficar\u00e1 apenas o trabalho explorado pelos espertalh\u00f5es. \u00c9 um trabalho que se funda na mis\u00e9ria de quem o pratica e no abuso de quem o desfruta. Que erro colossal! Que cegueira!<br \/>\nPara Taunay, \u00e9 dif\u00edcil que os fazendeiros consigam se adaptar aos asi\u00e1ticos:<br \/>\n\u2014 Acostumado \u00e0 conviv\u00eancia branda e amistosa dos antigos escravos brasileiros, fazendeiro nenhum ser\u00e1 capaz de suportar o contato dos chins. Seus v\u00edcios se exacerbam com o uso detest\u00e1vel e enervante do \u00f3pio. S\u00f3 o cheiro que os chins exalam bastar\u00e1 para afugentar o fazendeiro mais recalcitrante.<br \/>\nNessa \u00e9poca, est\u00e3o em voga no mundo ideias racistas disfar\u00e7adas de teorias cient\u00edficas. Segundo o racismo pseudocient\u00edfico, os brancos formam a ra\u00e7a superior e os negros, a ra\u00e7a inferior. No meio deles, como ra\u00e7a intermedi\u00e1ria, surgem os amarelos ou orientais. Entre os te\u00f3ricos da hierarquiza\u00e7\u00e3o das ra\u00e7as, est\u00e3o Arthur de Gobineau, Ernest Renan e Gustave Le Bon. Gobineau, diplomata franc\u00eas que serviu no Rio de Janeiro, concluiu que o Brasil era um pa\u00eds atrasado por causa da miscigena\u00e7\u00e3o entre brancos e negros.<br \/>\n\u2014 A ci\u00eancia da biologia ensina que, nesses cruzamentos de ra\u00e7as t\u00e3o diferentes, o elemento inferior vicia e faz degenerar o superior \u2014 diz o senador Visconde do Rio Branco (MT), alertando os colegas para o \u201cperigo amarelo\u201d.<br \/>\nDe acordo com o historiador Rog\u00e9rio Dezem, professor do Departamento de Hist\u00f3ria e Cultura Brasileira da Universidade de Osaka, no Jap\u00e3o, o preconceito dos brasileiros tinha origem nos Estados Unidos, onde os trabalhadores chineses haviam chegado d\u00e9cadas antes e eram odiados \u2014 mas n\u00e3o por quest\u00f5es de ra\u00e7a, e sim de mercado de trabalho:<br \/>\n\u2014 Na constru\u00e7\u00e3o de ferrovias nos Estados Unidos, por exemplo, sempre que os imigrantes europeus faziam greve exigindo melhores sal\u00e1rios e condi\u00e7\u00f5es de trabalho, os patr\u00f5es recorriam aos chineses, que aceitavam pagamentos mais baixos para dar continuidade ao servi\u00e7o interrompido. Era uma esp\u00e9cie de concorr\u00eancia desleal. Os chineses, ent\u00e3o, come\u00e7aram a ser odiados, e surgiu a hist\u00f3ria de que eram sub-ra\u00e7a, degenerados, perigosos. O governo americano, diante das press\u00f5es, chegou a proibir a entrada de novas levas de imigrantes chineses. Esse mesmo \u00f3dio acabou chegando ao Brasil, principalmente por meio da imprensa, e aqui eles logo passaram a ser vistos como sujos, ladr\u00f5es de galinha, viciados em \u00f3pio. Foi uma vis\u00e3o deturpada que se instalou no inconsciente coletivo dos brasileiros.<br \/>\nEm 1878, o governo brasileiro organiza o Congresso Agr\u00edcola, no Rio de Janeiro, para discutir os rumos da cafeicultura diante do iminente fim da escravid\u00e3o. O sonho dos fazendeiros \u00e9 substituir os escravos negros por trabalhadores origin\u00e1rios da Europa. As equivocadas teorias racistas levam \u00e0 cren\u00e7a de que, para o bem do pa\u00eds, \u00e9 necess\u00e1rio \u201cembranquecer\u201d a popula\u00e7\u00e3o brasileira.<br \/>\n\u2014 Formar uma ra\u00e7a que seja varonil e tenha grande desenvolvimento e expans\u00e3o \u00e9 hoje uma quest\u00e3o que est\u00e1 ocupando os estadistas em toda parte do mundo.<br \/>\nDevemos, pois, garantir o futuro do pa\u00eds por meio do trabalho de ra\u00e7as inteligentes, robustas e crist\u00e3s \u2014 afirma, no Senado, o senador Junqueira.<br \/>\nAt\u00e9 mesmo o deputado Joaquim Nabuco (PE), expoente da luta pela aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o negra, usa a tribuna da C\u00e2mara para apontar os in\u00fameros \u201cdefeitos\u201d que fazem dos chineses uma ra\u00e7a inconveniente para o Brasil. Nabuco diz temer a \u201cmongoliza\u00e7\u00e3o\u201d do pa\u00eds e uma \u201csegunda edi\u00e7\u00e3o da escravatura, pior que a primeira\u201d.<br \/>\nA lavoura n\u00e3o poderia passar a ser cultivada por camponeses brasileiros, em vez de se recorrer a imigrantes europeus ou chineses? Segundo Kamila Czepula, historiadora e professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio), os cafeicultores descartaram a m\u00e3o de obra nacional logo de cara:<br \/>\n<figure id=\"attachment_76974\" aria-describedby=\"caption-attachment-76974\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-76974\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/imagem-4-310x450.jpg\" alt=\"\" width=\"310\" height=\"450\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-76974\" class=\"wp-caption-text\">O vice-rei Li Hung Chang, que firmou o acordo (foto: Russell &amp; Sons)<\/figcaption><\/figure><br \/>\n\u2014 A respeito dos brasileiros brancos, corria a ideia de que eram pregui\u00e7osos, pouco propensos ao trabalho. Tamb\u00e9m se dizia que cobrariam valores altos demais para o trabalho na lavoura. Os negros livres, os mesti\u00e7os e os \u00edndios tamb\u00e9m estavam fora de cogita\u00e7\u00e3o porque eram sin\u00f4nimo de atraso e de inferioridade racial. Os imigrantes europeus eram tidos como os tipos ideais. Al\u00e9m de serem brancos e cat\u00f3licos, considerava-se que eles j\u00e1 estavam preparados para o trabalho assalariado.<br \/>\nItalianos, espanh\u00f3is e portugueses, contudo, n\u00e3o se animam a se mudar para o Brasil. Eles temem o calor sufocante dos tr\u00f3picos e o chicote dos feitores das fazendas. Al\u00e9m disso, desejam possuir terra pr\u00f3pria, o que a estrutura fundi\u00e1ria do Imp\u00e9rio n\u00e3o permite. Assim, preferem migrar para os Estados Unidos e a Argentina.<br \/>\nDiante da dificuldade de trazer bra\u00e7os da Europa, o Congresso Agr\u00edcola tra\u00e7a um plano B: espalhar \u201csemiescravos\u201d chineses pelas planta\u00e7\u00f5es de caf\u00e9. A ideia \u00e9 que sejam utilizados provisoriamente, at\u00e9 os europeus mudarem de ideia e come\u00e7arem a vir para o Brasil.<br \/>\nUm dos primeiros parlamentares a defender a contrata\u00e7\u00e3o dos chineses para substituir os escravos de origem africana, ainda na d\u00e9cada de 1850, \u00e9 o senador Visconde de Albuquerque (PE). Ele discursa:<br \/>\n\u2014 Se queremos nos desembara\u00e7ar dos escravos, por que havemos de rejeitar homens industriosos que n\u00e3o t\u00eam o orgulho europeu, que podem facilitar esse salto entre a escravid\u00e3o e a liberdade? Senhores, j\u00e1 estive na China e conhe\u00e7o bem os chins.<br \/>\n<figure id=\"attachment_76975\" aria-describedby=\"caption-attachment-76975\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-76975\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/imagem-450x384.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"384\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-76975\" class=\"wp-caption-text\">Campon\u00eas do norte da China (foto: Library of Congress)<\/figcaption><\/figure><br \/>\nDizem que s\u00e3o porcos, e eu n\u00e3o conhe\u00e7o povo mais asseado. Eles poder\u00e3o estar com as suas vestes sujas, mas o seu corpo \u00e9 lavado e esfregado todos os dias.<br \/>\nAt\u00e9 mesmo os defensores da imigra\u00e7\u00e3o asi\u00e1tica acabam recorrendo a argumentos pouco lisonjeiros para os chineses. O senador Visconde de Albuquerque prossegue:<br \/>\n\u2014 Dizem que os chins v\u00eam amesquinhar a nossa ra\u00e7a, mas n\u00e3o est\u00e3o a\u00ed os nossos \u00edndios? Qual de n\u00f3s n\u00e3o gosta muito de ter um desses \u00edndios para o seu servi\u00e7o? E isso piora a nossa ra\u00e7a? Vejam que tememos ra\u00e7a chim e n\u00e3o tememos a ra\u00e7a preta!<br \/>\nOs chins n\u00e3o nos v\u00eam perturbar a ordem dom\u00e9stica. Pelo contr\u00e1rio, s\u00e3o muito humildes, servem muito, trabalham. S\u00e3o at\u00e9 excelentes cozinheiros. N\u00e3o s\u00e3o revolucion\u00e1rios, n\u00e3o t\u00eam pretens\u00f5es. Acho que \u00e9 uma boa importa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO senador C\u00e2ndido Mendes de Almeida (MA) acrescenta:<br \/>\n\u2014 S\u00e3o s\u00f3brios, infatig\u00e1veis e econ\u00f4micos. Sendo materialistas, s\u00f3 visam o lucro. Al\u00e9m de materialistas, s\u00e3o educados sob o regime autorit\u00e1rio o mais severo que lhes imp\u00f5e desde o nascer. \u00c9 com esse esp\u00edrito de ordem que trabalham.<br \/>\nEm discurso no Senado, o primeiro-ministro Cansan\u00e7\u00e3o de Sinimbu procura tranquilizar o Imp\u00e9rio garantindo que n\u00e3o h\u00e1 risco de \u201cabastardamento das ra\u00e7as\u201d do Brasil porque os chineses n\u00e3o ficar\u00e3o para sempre aqui:<br \/>\n\u2014 Ainda que venha grande n\u00famero de trabalhadores asi\u00e1ticos, \u00e9 manifesto que eles nutrem sempre a inten\u00e7\u00e3o de voltar para o seu pa\u00eds. Eles levam t\u00e3o longe o amor ao solo da p\u00e1tria, que nos contratos que costumam celebrar at\u00e9 estipulam que os seus cad\u00e1veres ser\u00e3o remetidos para a terra natal. Isso prova que n\u00e3o \u00e9 de prever que queiram fixar-se definitivamente entre n\u00f3s.<br \/>\nAp\u00f3s muitas discuss\u00f5es, o Senado e a C\u00e2mara aprovam em 1879 a libera\u00e7\u00e3o dos 120 contos de r\u00e9is para que a miss\u00e3o diplom\u00e1tica v\u00e1 \u00e0 China. Em 1880, pela primeira vez, um navio brasileiro chega ao outro lado do mundo e, meses depois, retorna ao Rio de Janeiro e completa a volta no planeta.<br \/>\nNa cidade de Tientsin (hoje Tianjin), nos arredores de Pequim, os diplomatas brasileiros negociam com o vice-rei Li Hung Chang. Quando ouve que o Brasil tem apenas 58 anos como na\u00e7\u00e3o independente, ele demonstra assombro e conta que seu imp\u00e9rio existe h\u00e1 4 mil anos.<br \/>\nO grande empecilho para a migra\u00e7\u00e3o de chineses para o Brasil \u00e9 uma lei local que os pro\u00edbe de deixar o seu pa\u00eds sem o consentimento do imperador. Como quem n\u00e3o quer nada, os diplomatas brasileiros\u00a0incluem na minuta de tratado um gen\u00e9rico artigo que d\u00e1 aos &#8220;chins&#8221; o direito de viajarem livremente para o Brasil. Durante as negocia\u00e7\u00f5es, os enviados de dom Pedro II\u00a0nunca v\u00e3o revelar\u00a0suas verdeiras inten\u00e7\u00f5es. Eles juram que buscam apenas a amizade do imp\u00e9rio asi\u00e1tico.<br \/>\nTraumatizado pelo hist\u00f3rico de viol\u00eancias sofridas pelos s\u00faditos chineses nas Am\u00e9ricas, o vice-rei reluta em assinar o acordo com o Brasil, mas acaba cedendo. Ap\u00f3s v\u00e1rios meses de negocia\u00e7\u00e3o, a vers\u00e3o final do Tratado de Amizade, Com\u00e9rcio e Navega\u00e7\u00e3o \u00e9 finalmente assinada em 1881, garantindo o livre tr\u00e2nsito de cidad\u00e3os entre os dois imp\u00e9rios. \u00c9 uma vit\u00f3ria da diplomacia brasileira. Um consulado se instala em Xangai.<br \/>\nNo in\u00edcio de 1882, dom Pedro II profere a fala do trono (discurso que abre os trabalhos do Senado e da C\u00e2mara) sem fazer nenhuma men\u00e7\u00e3o ao tratado com a China. Os fazendeiros entendem a mensagem: o governo n\u00e3o gastar\u00e1 mais nenhum centavo; se quiserem os \u201cchins\u201d, que os busquem com seu pr\u00f3prio dinheiro.<br \/>\nUm comerciante chin\u00eas chega a desembarcar no Rio de Janeiro para tratar do transporte dos trabalhadores, mas vai embora sem fechar nenhum neg\u00f3cio. A maledic\u00eancia contra os orientais acabou deixando muitos fazendeiros com um p\u00e9 atr\u00e1s.<br \/>\nAl\u00e9m disso, a pr\u00f3pria China n\u00e3o tem interesse em mandar gente para o Brasil. Logo em seguida, come\u00e7a a imigra\u00e7\u00e3o italiana. A solu\u00e7\u00e3o chinesa \u00e9, assim, abandonada sem que os trabalhadores de fato venham para o Brasil.<br \/>\nEm 1884, o ministro dos Neg\u00f3cios Estrangeiros, Soares Brand\u00e3o, vai ao Senado para informar a quantas anda a execu\u00e7\u00e3o do Tratado de Amizade, Com\u00e9rcio e Navega\u00e7\u00e3o assinado tr\u00eas anos antes. N\u00e3o h\u00e1 muito a dizer. Constrangido, ele afirma:<br \/>\n\u2014 Pela primeira vez, um navio de guerra brasileiro penetrou nos mares da China e do Jap\u00e3o, mostrando nossa gloriosa bandeira aos governos e povos daquelas regi\u00f5es.<br \/>\nUm senador quer saber o que tem feito o rec\u00e9m-nomeado c\u00f4nsul em Xangai. O ministro responde:<br \/>\n\u2014 Mas que servi\u00e7o prestar na China? Quero crer que no futuro possam haver rela\u00e7\u00f5es que venham demonstrar que n\u00e3o s\u00e3o de todo destitu\u00eddos de vantagem e conveni\u00eancia os servi\u00e7os de um c\u00f4nsul na China.<br \/>\nEle nem imagina que, mais de um s\u00e9culo depois, a China se transformar\u00e1 numa pot\u00eancia econ\u00f4mica mundial e ser\u00e1 o maior investidor estrangeiro no Brasil.<br \/>\nFonte: Ag\u00eancia Senado<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste ano, dois marcos das rela\u00e7\u00f5es entre o Brasil e a China fazem anivers\u00e1rio. O rompimento dos la\u00e7os diplom\u00e1ticas completa 70 anos \u2014\u00a0em 1949, a revolu\u00e7\u00e3o comunista liderada por Mao Tse-tung levou o presidente Eurico Gaspar Dutra a cortar a liga\u00e7\u00e3o com o pa\u00eds asi\u00e1tico. O reatamento, por sua vez, completa 45 anos \u2014\u00a0em 1974, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":12,"featured_media":76971,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[2],"tags":[322],"class_list":["post-76970","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-geral","tag-escravidao"],"aioseo_notices":[],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pbKhrD-k1s","jetpack-related-posts":[{"id":94805,"url":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/geral\/relacoes-entre-brasil-e-china-sao-modelo-para-paises-em-desenvolvimento-diz-xi-jinping\/","url_meta":{"origin":76970,"position":0},"title":"Rela\u00e7\u00f5es entre Brasil e China s\u00e3o modelo para pa\u00edses em desenvolvimento, diz Xi-Jinping","author":"da Reda\u00e7\u00e3o","date":"3 de janeiro de 2023","format":false,"excerpt":"Mereceu pouca aten\u00e7\u00e3o a carta que o presidente chin\u00eas, Xi Jinping, enviou cumprimentando Lula por sua posse como presidente da Rep\u00fablica. 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