Argentina: em eleição tranquila, candidatos falam em união

Dizem os jornais brasileiros que Cristina Kirchner sofreu uma derrota na eleição de domingo, embora seu candidato, Daniel Scioli. tenha vencido o primeiro turno.
Em 2011,  Cristina Kirchner conquistou sua reeleição com 54% dos votos, sem oposição.
Agora, apoiado por ela,  Scioli fez apenas 36,2% e não conseguiu evitar um segundo turno, inédito na Argentina, contra Maurício Macri, filho de um dos empresários mais ricos do país, que alcançou  34,7% dos votos.
Scioli ainda é o favorito, mas mesmo sua vitória, se ocorrer, não deixará de  representar um desgaste da presidente Cristina Kirshner. Pelo seu perfil, \à direita do kirchnerismo, e pelas circunstâncias políticas: pela primeira vez terá que negociar com uma oposição que sai das urnas fortalecida.
Uma vitória importante do governo, não devidamente destacada, foi o clima de tranquilidade em que se deu a votação.
As eleições foram definidas como “as mais controladas da história”, e os partidos recrutaram um exército de interventores para evitar qualquer tipo de fraude.
A seleção de rúgbi, que disputava o mundial com a Austrália, foi citada pelos dois principais candidatos como exemplo para o país. Scioli expressou seu desejo de que seu país fosse reflexo do espírito de Los Pumas, como é chamada a seleção.
“Os Pumas são uma expressão do que deve ser o país. Que nos contagiemos pelo espírito dos Pumas. Eu digo isso como esportista. Eu acredito nesses valores. Essa é a garra que temos que ter.”
Macri também aderiu à ideia. “Vejo muita alegria na rua, hoje pode ser um dia histórico. Os argentinos votam por continuar igual ou mudar, esperemos que votem pela mudança”, disse Macri e contou que veria a partida em família. “Eles são um exemplo, é a Argentina que queremos, todos unidos e olhando para a frente”, concluiu.
Sergio Massa,  dissidente peronista que fez 21% dos votos e vai ser decisivo no segundo turno, também parecia eufórico: “Para além do resultado, para além das questões políticas, tomara que comece uma nova fase na Argentina a partir da decisão das pessoas”. Massa foi o único que falou de pequenas fraudes: “Acabaram de me avisar que tivemos um pequeno incidente de roubo de cédulas, hoje todos os argentinos temos a responsabilidade de cuidar do voto das pessoas”, afirmou.
O segundo turno está marcado para 22 de novembro.
A crise econômica é a principal causa do desgaste governista. De 2012 em diante, a economia se manteve parada e, em 2014, uma forte desvalorização do peso fez disparar a inflação, que atualmente chega a 25% e superou os reajustes salariais.
Multiplicaram-se os casos de corrupção,  que chegaram ao vice-presidente da Argentina, Amado Boudou, processado em dois casos, e afetaram inclusive a família da presidente, com o caso Hotesur. Sua guerra com a mídia, por conta da “ley de médios” que atingiu os grandes grupos, também foi fator de grande desgaste
Apesar de tudo, Cristina  mantém sua popularidade acima dos 40%. Ainda é presente na memória de  muitos eleitores  a crise de 2001, antes de o kirchnerismo chegar ao poder, quando a Argentina registrou os maiores índices de pobreza a desemprego de sua história.
ARGENTINA NA ERA DO AJUSTE
(Do El Pais)  – A Argentina foi um dos primeiros países a se juntar à era dourada da esquerda latino-americana, que teve como líderes Néstor Kirchner,Lula e Hugo Chávez. Todos eles viveram os anos de bonança e expansão econômica.
Agora, quando o continente entra em uma crise decorrente da queda do preço das matérias primas, a Argentina vota neste domingo e, ganhe quem ganhar, todos os políticos e empresários consultados preveem que chega uma nova etapa muito mais centrada e de provável ajuste.
Até o candidato do Governo, Daniel Scioli, está muito à direita dos Kirchner e aponta para uma virada.
A esquerda latino-americana mais antagônica aos Estados Unidos tem um marco institucional: a cúpula de Mar del Prata em 2005, quando Kirchner, Lula e Chávez, apoiados por um Evo Moralesainda na oposição e outros líderes emergentes, romperam com a ALCA, a área de livre comércio das Américas promovida pelos Estados Unidos, e desdenharam de George Bush com discursos muito duros. Dez anos depois, a Argentina é novamente o lugar onde se inicia uma mudança de ciclo, mas em sentido contrário.
O que os argentinos votam neste domingo é a velocidade dessa virada, mas a direção parece indiscutível. Se, como indicam as pesquisas, ganhar Daniel Scioli, que foi vice-presidente de Néstor Kirchner, embora sempre estivessem distanciados, essa virada será gradual. Se optarem por dar uma oportunidade a Mauricio Macri, o candidato mais forte da oposição, que só tem chance de ganhar se conseguir forçar um segundo turno, a guinada será muito mais rápida.
Scioli é muito diferente dos Kirchner, mas agora se entregou ao kirchnerismo porque precisa dos seus votos
Scioli vem da ala mais à direita do peronismo e foi contratado pelo ex-presidente Menem, mas mantém vínculos muito estreitos com os líderes da esquerda latino-americana, que viajaram a Argentina para fazer campanha com ele, em especial Lula e Evo Morales. Não compareceu o venezuelano Maduro, mas Scioli evitou qualquer enfrentamento com ele e não disse uma palavra de condenação pela prisão do líder opositor Leopoldo López. Macri, que suavizou sua imagem em busca do voto peronista, está mais irmanado com a direita e tem bons amigos no PP espanhol. Ele sim fez duras críticas a Maduro e anunciou que se ganhar as eleições reunirá os líderes do Mercosul para condenar a Venezuela.
Segundo os sciolistas, o governador de Buenos Aires vai inaugurar uma nova era pós-kirchnerista em que vai se aproximar de uma economia mais ortodoxa, mas sem chegar ao ajuste fiscal duríssimo do Brasil. “Nós olhamos para o continente e aprendemos com os outros. Temos dois exemplos recentes. A Venezuela continuou com as mesmas políticas apesar da crise e da queda do preço do petróleo, e foi um desastre. E o Brasil deu uma guinada radical para o ajuste duro e também foi um desastre, político e econômico. Scioli vai inaugurar uma terceira via aprendendo com os erros alheios”, afirma um sciolista importante.
Scioli é muito diferente dos Kirchner, mas agora se entregou ao kirchnerismo porque precisa dos seus votos. Tira fotos com o embaixador dos Estados Unidos, um anátema para o kirchnerismo, e promete aproximar-se da UE. Seus homens mais fiéis divulgam aos investidores que Scioli vai consertar os desajustes da economia e pactuar com os recursos abutre para que a Argentina deixe de estar economicamente isolada e sem acesso ao crédito barato.
Promessas e planos reais
Scioli, filho de um rico empresário italiano de eletrodomésticos, não desperdiça nenhuma ocasião para deixar claro que ele vai fazer políticas a favor dos investidores porque necessita que retorne ao país uma parte dos 300 bilhões de dólares que se supõe que os argentinos ricos e não tão ricos mantenham a salvo fora de sua terra. Macri é ainda mais claro quando promete que eliminará a armadilha cambial, que limita a compra de dólares e provocou um mercado negro que está em pleno apogeu diante da incerteza das eleições.
No entanto, a suposta virada de Scioli e Macri é um pacto implícito. Nenhum deles conta seus planos reais. Os argentinos dão uma espécie de cheque em branco a seus candidatos. Quase todos os presidentes fizeram o contrário do que prometeram em suas campanhas. Os eleitores sabem e não parece ser um problema grave.
Tudo está nas entrelinhas, em códigos que os argentinos, interessados em política como poucos povos no mundo, entendem melhor que ninguém. Para ter uma ideia, basta reproduzir o anúncio de campanha de Scioli mais repetido nas rádios: “A única coisa que lhes peço é uma oportunidade. O resto deixem comigo. Eu sei o que preciso fazer e como fazer”. Os detalhes virão depois das eleições.

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