Geraldo Hasse
Esteve em Porto Alegre o deputado federal alemão Klaus Mindrup, biólogo socialdemocrata que atua em Berlim. Ele foi ciceroneado pelo economista Raul Pont, prefeito da capital gaúcha na época do primeiro Fórum Social Mundial, o megaevento que há 15 anos espalhou que seria possível criar um mundo melhor.
Em Berlim a vida melhorou para a maioria, mostrou Mindrup. Em Porto Alegre também, mas não para todos. Quando Mindrup perguntou a Pont quanto subsídio a prefeitura local dá ao transporte público, o ex-prefeito gaúcho respondeu constrangido: “NIX!”
Em Berlim, livre do Muro há 25 anos, a maior parte da poupança está nas mãos de caixas populares, que financiam a democratização de todas as instâncias da vida da população – educação, saúde, transporte, arte, cultura, lazer.
Mindrup é sócio de uma cooperativa habitacional que comprou 20 prédios prédios antigos, restaurados para habitação, escritórios e pequenos negócios. Em pleno capitalismo, Berlim conseguiu criar um mundo melhor para a maioria com subsídios do governo da cidade. Porto Alegre, ao contrário, parece ter perdido terreno(s).
“Desde 2010 foram aprovados oito projetos de shoppings centers em Porto Alegre”, disse Rodrigo Oliveira, presidente do PT da capital, na abertura do evento POA Mais!, que tenta resgatar o espírito original do Fórum Social Mundial, cujas boas intenções foram devastadas por eventos internacionais sinistros como a destruição das torres gêmeas de Nova York em 2001, a crise financeira global de 2008 e o surto de guerras e terror dos últimos anos. “É a economia, idiotas!”, dizem os pragmáticos submissos à lógica capitalista.
Embora não possam ser encarados como um mal em si, oito novos shoppings se ajustam mais à ideia do Fórum de Davos, cujo enfoque é predominantemente econômico. Enquanto isso, uma parcela da população da capital tenta conter a ocupação do centenário Cais Mauá por um projeto mais comercial do que social. Submisso às propostas dos empreendedores dos setores imobiliário e da construção civil, o poder formal não ousa tomar nenhuma iniciativa em favor das necessidades da população carente que ronda os inúmeros prédios vazios de áreas decadentes do centro da capital. Segundo o vereador Carlos Comasseto, em Porto Alegre há 750 vilas fora da lei e 50 comunidades em situação precária.
Ainda que Porto Alegre não seja páreo para Berlim, ou talvez por isso mesmo, a retomada do Fórum Social Mundial foi tema capaz de lotar o auditório do Hotel Everest. Na noite de segunda-feira (7/12), cerca de 200 pessoas foram lá ouvir três personalidades: além do visitante alemão Klaus Mindrup, deram seu recado o polonês naturalizado brasileiro Ladislau Dowbor, um dos principais economistas (de esquerda) em atividade no país; e o economista Marcio Pochmann, ex-presidente do IPEA e atual comandante da Fundação Perseu Abramo, do PT.
Ladislau Dowbor, coordenador dos cursos de pós-graduação da PUC-SP, “baixou” para o auditório uma série de dados sobre a destruição do planeta. “Desde 1970 liquidamos com a existência de 52% dos vertebrados”, disse, dando a impressão de que gastaria seus 20 minutos com a apresentação de um quadro de horrores. Não, ele foi equânime. O Brasil deu uma boa melhorada em seus indicadores sociais. Por exemplo, de 1991 para 2010, o índice de mortalidade infantil caiu de 30/1000 para 15/1000; a expectativa de vida subiu de 65 anos para 75 anos; e a maioria absoluta dos municípios se livrou do conceito de “baixo” no Índice de Desenvolvimento Humano. Em compensação, “é mais fácil tirar o essencial dos pobres do que o supérfluo dos ricos”, disse ele, citando um político francês. De fato, os dados mostram que o Brasil se tornou prisioneiro do sistema financeiro. “Este ano, o governo vai pagar R$ 400 bilhões para o custeio da dívida pública”, disse Dowbor, salientando que, nesse estado de coisas, não sobra dinheiro para custear obras. Hoje no Brasil tanto os investimentos públicos quanto os investimentos privados estão travados pelo nó do endividamento.
Temos assim uma situação inversa à da Alemanha: lá, 60% dos recursos financeiros disponíveis são administrados por caixas populares de poupança que visam o bem-estar social; aqui, onde o Produto Interno Bruto soma R$ 5,5 trilhões, um total de R$ 3,1 trilhões está girando em crediários, títulos e aplicações financeiras cujo foco é sustentar os bancos e os rentistas. “O problema do Brasil não é falta de recursos, mas falta de organização política”, resumiu o economista, que sugeriu ao público captar no Google o estudo “Resgatando o Potencial Financeiro”, de sua autoria.
Em sua palestra, Márcio Pochmann condenou o curtoprazismo, “que não dá espaço para as utopias”. Para ele, a globalização do capitalismo não apenas colocou a economia em primeiro lugar, mas tornou a política irrelevante. Dessa situação advêm o descrédito dos partidos e a desimportância dos sindicatos. O mundo está imerso num surto de conservadorismo alimentado por corporações gigantescas que dominam 80% do comércio mundial e controlam 2/3 dos investimentos em criação de tecnologia. Segundo Pochmann, 147 grupos econômicos controlam 60% do PIB mundial e apenas seis países têm orçamentos maiores do que as receitas das quatro maiores corporações globais, que interferem a seu feitio sobre os poderes locais, regionais e nacionais. No Brasil, um dos sintomas da distorção do processo político está na eleição de 272 deputados ‘ruralistas’ por uma população 86% urbana. Na esteira dessa dessintonia vão se criando inovações transitórias que correpondem menos ao interesse público e mais aos interesses privados. “Alguns estados estão terceirizando o ensino”, lembrou Pochmann, que está preocupado com o crescimento da população de idosos. Atualmente, o Brasil possui 3,2 milhões de pessoas com mais de 80 anos; dentro de 20 anos, eles serão 20 milhões. Outro dado preocupante é que um terço dos aposentados brasileiros continua trabalhando, o que significa que logo ali adiante vão faltar recursos já que, dos 23% do PIB que o Estado brasileiro dedica aos gastos sociais, 11,5% vão para aposentadorias e pensões.
No final, o auditório se deu conta de que Pochmann, o mais jovem dos palestrantes, foi o mais pessimista.
SERVIÇO
As inscrições para o FSM 2016 Porto Alegre 15 Anos estão disponíveis no site www.fsm.org.br
O evento, que acontecerá de 19 a 23 de janeiro de 2016, em Porto Alegre, terá atividades concentradas no Parque Farroupilha, Auditório Araújo Vianna, Largo Zumbi dos Palmares, Assembleia Legislativa, Câmara Municipal e diversos outros locais. Outras informações em escritorio.iafsm@gmail.com ou pelo telefone (51) 3289.3845
Porto Alegre tenta captar as lições de Berlim
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