Poti Silveira Campos*
Dois meses depois de deflagrada, a ocupação Lanceiros Negros instala divisórias e organiza espaços para famílias em prédio localizado no centro de Porto Alegre. A ocupação dos quatro andares do imóvel de número 352 da Rua General Câmara, esquina com Rua Andrade Neves, teve início no último dia 14 de novembro. A coordenação do movimento pretende assegurar moradia para 34 famílias.
O prédio, sem uso havia 12 anos, abrigou a antiga sede do Ministério Público Estadual do Rio Grande do Sul. “Quem tem mais filhos ganha mais espaço”, explica Jussara Vaz dos Santos, 59 anos, que conduz a visita da reportagem ao local. Alegando questões de segurança, fotografias foram permitidas somente no saguão.
Pedidos de vagas se repetem diariamente. Um homem utilizando muletas bate à porta e solicita permissão para se instalar no prédio. Jussara explica as regras: “aqui não entra bebida, não entra cigarro e o acesso é limitado a partir das 23h”. O homem concorda, mas não há mais vagas. Em seguida, um representante do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre anuncia a existência de um lote de camisetas à disposição na sede da instituição. O sindicato é vizinho da ocupação, uns cem metros acima na Ladeira, como é conhecida a Rua General Câmara. Três garotos saem em disparada para buscar as caixas com confecções. “Tudo o que a gente tem vem de doações. É assim quase todos os dias”, diz Jussara.
De acordo com ela, aproximadamente 30 crianças e 70 adultos estão acomodados no prédio. Durante a visita, entre 15h e 16h, encontramos poucos adultos no local, mas a presença de menores é visível e, desde a rua, bastante audível. Um salão no térreo, nos fundos, foi transformado em área de lazer para a meninada. Oito meninos e meninas brincavam no local, enquanto outros três varriam a peça. Na parede, uma inscrição afirma que “Se a classe operária tudo produz, a ela tudo pertence”.

No quarto andar, Jussara mostra a cozinha onde são preparadas refeições – café da manhã, almoço, café da tarde e janta. No mesmo andar, um grupo de jovens trabalhava na instalação das divisórias dos espaços para famílias. São pequenos “apartamentos” de uma única peça – os maiores têm cerca de 10 metros quadrados. As madeiras utilizadas estão acumuladas no térreo e são levadas pela escada até o andar mais alto – o único elevador do prédio, um modelo ainda de portas pantográficas, está desligado. Um esforço considerável. “Aqui, as pessoas encontram teto e comida livres de ratos e baratas”, diz a mulher, nascida em Porto Alegre, “mas criada em São Jerônimo”, município distante 70 quilômetros da capital gaúcha.
Última dos 14 filhos de um ex-escravo, Jussara viveu na Chocolatão, loteamento irregular no centro da cidade reassentado em 2011 no Morro Santana, o mais alto dos morros de Porto Alegre, com 311 metros, distante uma hora em viagem de ônibus desde o centro. “Para os ricos, preto e pobre, quanto mais longe, melhor”, diz. Na ocasião do reassentamento, ela conseguiu resolver por si mesma o problema de moradia, mas jurou “que iria ajudar quem não tem possibilidades na vida”.

O prazo determinado pela Justiça para que as famílias deixem o local está encerrado. Apesar disso, não há definição ou previsão para que ocorra operação de reintegração de posse do imóvel pertencente ao governo do Estado. A ocupação Lanceiros Negros é a primeira realizada pelo Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) no Rio Grande do Sul. O MLB surgiu há 16 anos em Recife (PE). O nome da ocupação presta homenagem à tropa homônima constituída de negros livres ou libertos pela República Rio-Grandense, que lutou na Revolução Farroupilha (1835 – 1845). A tomada do prédio ocorreu no último dia 14 de novembro, data em que ocorreu o Massacre de Porongos (1844), quando um número desconhecido de lanceiros negros – calcula-se entre cem e 700 homens –, sob as ordens do general David Canabarro, líder farroupilha, foi morto por tropas imperiais.
* Jornalista
Ocupação Lanceiros Negros completa dois meses e reorganiza espaços
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