Aos 92 anos, morreu na sexta, 22, Salim Miguel, escritor catarinense com mais de 30 livros publicados.
Afetado por uma doença ocular, em seus últimos anos de vida lia com dificuldades, mas desfrutava de leituras feitas por sua companheira, Eglê Malheiros, mãe de seus cinco filhos.
O texto abaixo foi escrito em 2011 por Geraldo Hasse, que atendeu assim ao pedido do editor de um livro organizado em Florianópolis sobre o autor de Nur, belíssimo livro de memórias.
“MEU TIO LIBANOCATARINA”
“Me interessei por Salim Miguel em 2000, quando fui morar em Florianópolis e comecei a me aprofundar na história da ilha e seu entorno. No meio século anterior eu tinha lido en passant sobre o escritor, mas não havia registrado as informações na memória.
Lendo aqui e ali, descobri que Salim tinha uma biografia interessantíssima, a começar pela migração, em criança, do Líbano; a morada na pequena Biguaçu, um vilarejo de beira-rio, perto do mar; a ida para a capital do estado; a prisão em 1964; a migração para o Rio; e a volta para a querência, que é como os sulistas brasileiros, particularmente os gaúchos, chamam a terra natal.
Em 1999, havia sido lançado Nur na Escuridão, seu livro premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte como o melhor romance do ano.
Comprei um exemplar e caí na leitura. Era um saboroso livro de memórias devorado em poucos dias.
O passo seguinte foi conhecer pessoalmente o escritor, entrevistá-lo. Descobri um ser humano de primeira qualidade. Humilde, irônico, sem afetação. Afável, bom de papo.
Como na escrita, sua fala guardava ainda um último resquício de sotaque libanês: aquela ligeira trava que sinaliza a hesitação diante da palavra estrangeira.
A visita durou duas horas. Saí do apartamento dele e de Eglê, sua mulher, com dois ou três livros doados pelo próprio. Num sebo, dias depois, encontrei outros livros dele.
Escrevi então um perfil de Salim Miguel para o caderno de fim-de-semana do diário Gazeta Mercantil. Foi publicado no caderno de 20, 21 e 22 de abril de 2001. Matéria longa, ocupou 2/3 de página standard de jornal.
Título: “Mascate da Memória Familiar”. Ele gostou. Desde então nos falamos algumas vezes. Aos poucos fui descobrindo o quanto Salim Miguel é conhecido, querido e admirado.
<em>Ele cultiva amigos em todo o Brasil, desde Porto Alegre até João Pessoa, na Paraíba, onde se mantém há mais de 50 anos como colaborador do suplemento literário do maior jornal local – colaborador não remunerado!
Morando no Rio Grande do Sul desde 2005, não perdi o contato com “meu tio libanocatarina”.
Em 2008, escrevendo um livro sobre a história da navegação no Rio Grande do Sul, dei-me conta de que cabia incluir um capítulo sobre as balsas de toras que outrora desciam o rio Uruguai, nas enchentes.
Lembrei-me então do conto Ponto de Balsa, no qual Salim Miguel narra a aventura de dois ou três balseiros que se metem na correnteza, pilotando uma jangada-monstro, desde Chapecó até Uruguaiana, centenas de quilômetros de uma aventura única.
Esse conto é a versão literária de uma reportagem feita por Salim Miguel quando se iniciava no jornalismo. Sinal de que toda vivência, por mais antiga que seja, pode ser transformada em ficção.
Em agosto de 2011, Tio Salim me enviou seu último livro, Reinvenção da Infância, mais um volume de memórias calçado nas lembranças mais remotas de um guri vindo do Oriente.
Desigual, mas com trechos deliciosos, como as 10 páginas do capítulo 23 – Lição Dois, em que o rapazote relata uma noite maldormida numa pensão fuleira da capital, onde perdera o último ônibus para sua pequena Biguaçu.
Tenho comigo uma dezena de livros de Salim Miguel e acredito que conheço o essencial da sua obra, mas não o suficiente para fazer uma análise comparativa.
Como muitos e muitos escritores, ele começou como jornalista, dividiu-se entre empregos privados e públicos, foi livreiro, meteu-se no cinema e encerrou sua carreira profissional como chefe na editora da universidade federal de seu estado.
Sua carreira literária, mais de 30 livros, foi construída nas horas vagas, com a ajuda e solidariedade de sua companheira Eglê Malheiros, mãe de seus cinco filhos. “Nunca ganhei nada com meus livros”, disse-me o autor, na entrevista de 2001.
Dez anos depois, pode-se dizer que ele ganhou, sim, fama, sem falar do cheque recebido há alguns anos em Passo Fundo, onde foi aplaudido como um dos mais antigos e fieis militantes das letras do Brasil”.
Salim Miguel: uma obra feita nas horas vagas
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