A conversão socialista

Naira Hofmeister, de Havana, Cuba*

Miguel, de 42 anos, é guia turístico na Sierra Maestra. Ao pé da montanha onde Fidel Castro e Che Guevara iniciaram a revolução cubana, Miguel lamenta, mas não pode subir “sem o pago”. São 18 pesos convertibles (a moeda que os turistas usam, equivalente ao dólar) para ele e mais dez convertibles pelo táxi que facilita a escalada até a comandância de La Plata, o quartel general dos 300 guerrilheiros há 50 anos.

Miguel é graduado pela Universidad de La Habana em Artes Plásticas e Economia. Há dez anos vive do turismo, como autônomo. Em vez de salário, recebe pagamento dos visitantes que leva para conhecer os caminhos de Che e Fidel. Trabalha sem nenhum tipo de contrato, apesar de o governo estar ciente de sua presença na Sierra Maestra.

Ele poderia ser empregado do governo, como a maioria dos cubanos. Receberia no máximo 500 pesos cubanos por mês (mais ou menos 20 pesos convertibles). “Isso eu ganho num dia aqui, atendendo um único grupo de turistas”.
Trabalhando menos de dez dias por mês, Miguel junta o suficiente para ir ver as filhas, que vivem em Bayamo, e ir a Havana tratar-se do vitiligo. O tratamento é gratuito, inclusive os medicamentos. Ruim é o ônibus, caro e não funciona.

O guia tenta comover os turistas com sua história. Fala das filhas gêmeas de 15 anos que cria sozinho, da mulher que o trocou pelo sonho de Miami. Queixa-se que não pode oferecer seus trabalhos de artesão aos turistas. Pode ser expulso dali se fizer isso, mas ele às vezes dá um jeito.

Já teve obras vendidas na Europa, por um marchand que se impressionou com as cores de sua pintura. “Ganhei uns mil dólares nessa ocasião”. Hoje ele divide um quarto semi-mobiliado com um colega de profissão, come arroz e feijão uma vez por dia e engana a fome com bananas que ganha do campesinato. “Não gosto do sabor, então o povo já sabe que quando me vê comendo banana é porque a barriga está incomodando demais”, explica com a boca cheia da fruta.

O turismo é hoje a principal fonte de emprego dos cubanos. As estatísticas oficiais falam em mais de dois milhões de turistas por ano, serão cinco milhões até 2010. São muitos engenheiros, médicos, advogados, trabalhando em hotéis ou restaurantes, como garçom ou carregador de malas. Poucos são autônomos, como Miguel. A grande maioria é empregado do governo.

*Leia íntegra da reportagem na Revista JÁ, número 1 que está nas bancas.

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