Guilherme Kolling
A professora de literatura e pesquisadora de teorias da leitura e de história literária, Regina Zilberman, é uma referência nacional e internacional em sua especialidade.
Ela foi convidada a repercutir a conferência de Roger Chartier “História: a leitura do tempo”. Na palestra, proferida no Salão de Atos da UFRGS no ciclo Fronteiras do Pensamento, em 22 de maio, o pensador francês abordou as relações entre história e literatura.
Nesta entrevista, Regina Zilberman explica em que medida a literatura se compromete com a verdade, as relações que ela estabelece com história – como fonte e como inspiração, através do uso de suas técnicas narrativas – e observa que a literatura foi a primeira a reagir “quando ‘alguns profetas’ anunciavam o fim da história, trazendo o gênero para o primeiro plano em muitas narrativas, como ocorre, por exemplo, com Saramago, premiado com o Nobel”.
Em sua conferência no Fronteiras do Pensamento, Roger Chartier disse que a principal diferença entre literatura e história é a coleta de provas e verificações, necessárias para estabelecer a confiabilidade do relato histórico para o leitor. Em que medida a literatura se compromete com a verdade/realidade?
O compromisso da literatura de ficção não é com a verdade, mas com a verossimilhança, isto é, com a coerência daquilo que é apresentado ao leitor. Por isso, ao contrário da história, ela pode lidar sem constrangimentos com a fantasia e a imaginação mais exagerada, como fez, recentemente, o chamado realismo mágico ou, nas primeiras décadas do século XX, o surrealismo.
Chartier também observou que o historiador contemporâneo não busca mais a verdade, mas sim a verossimilhança, pois o passado é aberto a múltiplas interpretações. Isso pode representar um diálogo que se intensifica entre os campos da história e da literatura? O que há de positivo e de negativo nessa troca?
Não sei se os historiadores entendem a verossimilhança da mesma maneira que os teóricos da literatura: a verossimilhança na literatura decorre do arranjo interno dos acontecimentos. De todo modo, como a história é também narração, ela importa da ficção literária o processo de organização dos acontecimentos que, para fazerem sentido, precisam ser coerentes.
Roger Chartier explicou que uma das razões da “crise da história” é a confusão com a narrativa de memória e a literatura. Há historiadores, e jornalistas que escrevem sobre história, utilizando técnicas da narrativa literária para deixar seus relatos mais atraentes. Essa prática pode causar confusão ou imprecisão no relato histórico?
Com efeito, gêneros que estavam mais próximos da história, como a biografia, passaram a utilizar sem constrangimentos artifícios da narrativa literária, como a apresentação da intimidade dos biografados, seus pensamentos mais secretos, etc., como se fosse possível cogitar como foi a interioridade de uma personalidade já desaparecida, que passa a ser vista de dentro. Por outro lado, não há como conferir a precisão do relato histórico, quando esse pretende reproduzir o que efetivamente aconteceu. Talvez esse seja o maior desafio da história, quando quer dar conta dos acontecimentos pretéritos: trata-se sempre de uma interpretação, ainda que mediada por documentos; contudo, deve, também, se precaver permanentemente contra os riscos de substituir o documento pela imaginação, de completar lacunas com especulações e de transformar uma personalidade do passado em figura fictícia.
O gênero biográfico é literatura ou história? E o romance histórico? Como a senhora vê essa aproximação literatura-história?
Atualmente o gênero biográfico está mais próximo da literatura que da história; mas talvez devesse ser o contrário. O romance histórico pertence ao campo da literatura, pois os eventos históricos formam o pano de fundo onde atuam personagens inteiramente imaginárias. A aproximação entre literatura e história vem marcando muito a literatura dos últimos 30 anos, em substituição à experimentação das primeiras décadas do século XX. Não se trata de julgar se isso é válido ou não, mas de constatar a preferência do público por esse tipo de criação literária. É curioso igualmente verificar que, no momento em que alguns profetas anunciavam o “fim da história”, a literatura foi a primeira a reagir, trazendo a história para o primeiro plano em muitas narrativas, como ocorre, por exemplo, com Saramago, premiado com o Nobel.
A literatura pode cumprir o papel de fonte para a história? Como? Que exemplos destacaria?
A literatura não pode ser fonte para a história, é evidente. Caso contrário, teria de abrir mão de sua principal característica – ficção, decorrente do emprego da imaginação e da fantasia, marcas principais da humanidade do homem.
O uso da internet para pesquisa histórica está aumentando, mas não deve substituir os arquivos físicos de papel em bibliotecas e acervos, segundo Chartier. O que pensa do meio eletrônico como fonte documental?
Não me parece que o meio eletrônico seja fonte, mas suporte. O arquivo contém papéis, porque o papel foi o suporte preferido para a documentação a partir da Idade Média. Se se optar pelo meio eletrônico para substituir o papel, é preciso discutir que tipo de técnica de preservação dessa documentação será empregada.
A literatura foi a primeira a reagir “ao fim da história”
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