Elmar Bones
A prática da simulação introduzida pelo regime militar (era uma ditadura que simulava que era democracia) é o vírus que contamina até hoje o organismo político do país, segundo Flávio Tavares. “Até hoje vivemos isso, todos simulam que defendem o interesse público, mas cada um só defende seu próprio interesse”, disse o jornalista no lançamento da revista JÁ sobre as consequências da ditadura.***
Posso dizer que vivi um dia histórico no sábado passado, 26, na Associação Riograndense de Imprensa, quando lançamos o nosso “kit antiditadura” – as três edições da revista especiais da JÁ sobre os idos de 1964.
Tive a honra de ter a meu lado na mesa dois dos maiores lutadores pela democracia no Brasil – o jornalista Flávio Tavares e o presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos, Jair Krischke.
“Aqui mais que a liberdade de imprensa, defendemos a liberdade de pensamento e expressão”, disse o presidente Batista Filho, ao registrar que o evento fazia parte dos 80 anos da ARI.
Na plateia, alguns de meus mestres como Valter Galvani, João Borges de Souza, Carlos Bastos, Carlos Alberto Kolecsa, Antonio Goulart e Ercy Thorma. Kenny Braga a relembrar nossa prisão na Rua da Praia…Lutadores impenitentes como José Wilson da Silva, Alfredo Daudt… Jovens colegas, estudantes.
O que mais me impressionou: mais de duas horas de conversa e ninguém arredou pé. Não fosse o compromisso com o programa de rádio da ARI, a discussão teria ido pela tarde adentro.
Leve-se em conta que era sábado e faltou o Carlos Araújo, nosso terceiro convidado. Em convalescença, até a manhã de sábado ele manteve a expectativa de participar, mas não foi possível. Fica para outra ocasião a discussão que ele propõe sobre a luta armada contra a ditadura. “A luta armada foi um erro”, diz ele na entrevista exclusiva à revista.
Flavio Tavares trouxe a ideia que norteou os debates: a prática de simulação introduzida pelo regime militar (era uma ditadura que simulava que era democracia) é o vírus que contamina até hoje o organismo político do país. “Até hoje vivemos isso, todos simulam que defendem o interesse público, mas cada um só defende seu próprio interesse”.
Krischke lembrou um caso exemplar da prática da simulação: o documentos da polícia política do Rio Grande do Sul. O então governador, Amaral de Souza, anunciou publicamente em 1982 que eles foram queimados. Na verdade, foram queimados os registros em papel, todos previamente micro-filmados e mantidos em sigilo até hoje. “Estão no QG do Comando Militar do Sul”, assegura Jair.
O despreparo do eleitorado, que na semana seguinte não lembra em quem votou, foi trazido ao debate pelo jornalista Kenny Braga, como uma a fonte das mazelas da política nacional. Quais as causas disso? Entre elas, um sistema de comunicação que se conformou na ditadura, para sair dela fortalecido e contaminado pelo vício da omissão da informação e da manipulação do noticiário.
“Pelé também disse que o povo não sabia votar”, lembrou Flávio Tavares. “Mas era noutro contexto. Foi em 1972, ali ele estava verbalizando o discurso da ditadura: o povo não tem condições de escolher os governantes, justificando as eleições indiretas. Agora é diferente: estamos supostamente numa democracia:o povo é que deve escolher, mas ele não tem informações, ele é manipulado”.
Uma dura crítica à imprensa se seguiu: “A imprensa que temos também é uma herança da ditadura”.
“O virus da simulação contamina a política"
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