A República de Santa Cruz

Matheus Chaparini
A Casa do Estudante Santacruzense foi fundada em 29 de março de 1953, no número 278 da Tomaz Flores. Desde então, três gerações de jovens de Santa Cruz que iveram estudar em Porto Alegre já passaram por ali.
Antes disso, a casa funcionava como pensionato, e já abrigava jovens que vinham do interior em busca de uma formação na capital. Um grupo de estudantes decidiu se unir e compra-la, através de um financiamento de 300 mil cruzeiros na Caixa Econômica Federal. A casa foi quitada através de diversas doações de políticos locais e órgãos públicos e para administrá-la foi fundada a União dos Estudantes Santacruzenses.
Atualmente a casa pertence à Uesc, mas funciona de forma autônoma, apenas com recursos próprios. As tarefas são divididas e todo morador tem de assumir algum cargo administrativo, como presidência, tesouraria ou secretarias: de manutenção, comunicação, compras, limpeza. A capacidade total é para 21 pessoas, divididas em 10 quartos. Hoje são dez moradores fixos, mais três visitantes e três intercambistas – duas argentinas e uma venezuelana.
Todo começo de semestre é aberto o processo seletivo para novos moradores, neste mês serão 10 vagas. O critério é ser estudante universitário e ser de Santa Cruz. Não precisa necessariamente ter nascido na cidade, basta comprovar que morou e estudou lá por pelo menos um ano.
Nos últimos anos, tem sido difícil completar todas vagas com santacruzenses, então abre-se exceções para moradores de outras cidades do interior e intercambistas. “Eu acho que muita gente está ficando lá. Pelo Prouni, pelas bolsas que estão saindo na Unisc, já tem mais gente conseguindo ficar e estudar sem ter que vir pra capital”, explica Bruno Félix Segatto.
Bruno é mestrando em História na UFRGS, vive na Cesc desde 2009 e não é natural de Santa Cruz. Nascido em Venâncio Aires, morou na cidade de 97 a 99 e de 2006 a 2009. Mais antiga na casa que ele, somente a gata Tchanga. “Quando eu me mudei pra cá ela estava morando aqui há duas semanas”, conta Bruno.
Para ele o principal motivo pelo qual os jovens escolhem a Cesc é o contato com gente da cidade. “Como todo mundo é de Santa Cruz, muita gente já se conhece. Alguns já frequentavam a casa, outros tinham familiares que moraram aqui. Porque a casa é bem conhecida em Santa Cruz. Então ela já é uma referência pra quem vem pra cá e não sabe onde vai morar.”
Outro fator é a boa localização, próximo aos campi Centro e Saúde da UFRGS e acessível de ônibus para o Vale e a PUC. A questão financeira também pesa na escolha. Como a casa é propriedade da União dos Estudantes de Santa Cruz, não é necessário pagar aluguel. A mensalidade de R$130 cobre as contas da casa e eventuais custos de manutenção. Fica bem mais barato que dividir o aluguel de um apartamento. Inclusive um dos critérios utilizados na seleção é a baixa renda.

Bruno e a gata Tchanga, os moradores mais antigos da Cesc
Bruno e a gata Tchanga, os moradores mais antigos da Cesc

As camas penduradas no teto para aproveitar espaço
As camas penduradas no teto para aproveitar espaço

Fichas conservam memória
Os arquivos ainda bem conservados guardam boa parte da história da casa. No quarto que funciona como sala de estudos há um gaveteiro de metal que guarda fichas de papel amareladas, com fotos 3×4 bem produzidas, telefones de 4 dígitos, assinaturas caligrafadas e dezenas de sobrenomes alemães. Ali encontramos diversos ex-moradores da Cesc, como um dos fundadores, o radialista e político Lauro Haggeman, falecido em maio deste ano e o ex-prefeito de Santa Cruz e secretário da casa civil do governo Yeda, José Alberto Wenzel.
Pesquisando nos arquivos, encontramos a ficha de uma moça, raridade nos tempos antigos. “Era pouco comum gurias saírem do interior e virem estudar na capital. Não sei se chegava a ser proibido ter guria aqui na casa, a questão é que nenhuma guria ia vir morar aqui. Imagina como a família ficaria mal afamada naquela época em Santa Cruz: uma menina, morando numa casa de estudante, com um monte guri em Porto Alegre.” explica Bruno. Gisela Thecla Becker se mudou para a casa em 1955 quando veio prestar vestibular.
Ficha de Gisela, primeira mulher na casa
Ficha de Gisela Becker, primeira mulher na casa

No começo de cada semestre, acontece uma festa de integração, para dar as boas vindas aos novos moradores. Johannes Kolberg, que vive na casa desde 2012, comenta que as festas já foram mais frequentes na Cesc. “Deu uma acalmada, porque teve uma vizinha que reclamou e foi estabelecido um horário de silêncio.
A gente procura manter essa boa relação. Mas a casa já foi mais ativa em relação a festas, afinal é uma casa de estudantes, né? Hoje em dia tá todo mundo responsável, mudou o perfil do estudante.” A maioria dos moradores da casa estuda e trabalha, então acaba sobrando pouco tempo para as confraternizações. Inclusive o dono do mercadinho tem observado que o pessoal de Santa Cruz já consumiu mais cerveja em outros tempos.
O registro mais antigo encontrado nos arquivos da Cesc é um documento de compra e venda, datado em 1919. Ao longo do tempo a casa passou por algumas mudanças, mas a estrutura é basicamente a mesma. No ano passado, um ex-morador apareceu para visitar e, percebendo a necessidade da uma reforma na rede elétrica – que era da década de 80 e já não dava conta das três geladeiras e diversos notebooks – fez uma doação. “Ele veio aqui, participou de algumas jantas conosco e doou uma quantia para ajudar na reforma”, conta Johannes.
Causos de amor e repressão
A Cesc também proporciona belos causos de amor, como a Shakespeariana história de Jonas Monteiro. O antigo colega de quarto de Johannes conheceu sua namorada na casa, ou melhor, em cima da casa. Na parede dos fundos tem uma escada de ferro que leva até o telhado. Jonas costumava subir e lá em cima conheceu uma moça, moradora de um dos prédios vizinhos que tem as janelas viradas para a casa. Ali em cima conheceram, apaixonaram-se e o relacionamento começou com visitas pela janela, à la Romeu e Julieta. Hoje Jonas está formado em Engenharia Mecânica e não mora mais na casa – quem se forma tem direito a morar apenas mais um semestre na Cesc. O relacionamento continua.
Mas as paredes verdes do casarão da Tomas Flores não guardam apenas histórias de amor. Sendo uma casa de estudantes e tendo atravessado o período da ditadura militar, a Cesc já teve alguns problemas com a repressão. Um senhor que diz ter morado na casa na década de 70 reapareceu há alguns meses e compartilhou com os atuais moradores um destes episódios. Johannes conta que chegava em casa e o homem estava parado na calçada, olhando admirado.
Ao colocar a chave no portão, foi abordado pelo saudoso visitante “Tu sabe que aqui já foi uma casa de estudante? Sabia que eu já morei nessa casa?” Convidado a entrar, o visitante proporcionou uma tarde de memórias. Conta ele que um dia voltava da aula à tarde e ao entrar pela porta notou que não havia ninguém em casa, algo incomum em um lar com tantos viventes. Foi um vizinho que deu a notícia: os milicos estiveram aí e levaram todo mundo. Tivesse chego um pouco mais cedo, quem sabe tivesse a mesma falta de sorte dos outros.

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Comentários

Uma resposta para “A República de Santa Cruz”

  1. Avatar de Jaff Entei

    A casa realmente já foi beeeeeeem mais barulhenta. Hehehehe
    Mas todos que saíram de lá conquistaram uma carreira promissora. De lá saíram políticos, donos de empresa (dono da Technos morou lá), Engenheiros da Petrobás (Rodrigo Borré), administradores, médicos, historiadores, agrônomos etc.
    Prova de quê, mesmo com a bagunça, consegue-se ser responsável. =D

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