“Quando o agronegócio sofre com a ignorância e o preconceito” é o título de um artigo do presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de SC (Faesc) e do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar/SC), José Zeferino Pedrozo, que circula nas redes sociais.
A “ignorância e o preconceito” a que se refere o articulista vem do samba-enredo da Imperatriz Leopoldinense, que este ano escolheu como tema os povos do Xingu e que numa ala apresenta o agronegócio predador, responsável pelo etnocídio de índios, a poluição de rios e a destruição de florestas.

“O Brasil”, diz Pedroso, “pode se orgulhar de ter uma agricultura forte, moderna, avançada e sustentável, responsável por garantir alimento farto e saudável a toda a população. Além da qualidade, o alimento produzido aqui é um dos mais baratos e acessíveis do mundo”.
Mais: ele afirma que “foi essa condição que permitiu ao País erradicar a fome, nas últimas décadas, e não os programas sociais do governo. Carnes, cereais, lácteos, frutas, oleaginosas, fibras, hortigranjeiros – nós somos autossuficientes em quase tudo”.
“O mundo reconhece a pujança brasileira na produção de comida. Por isso, somos líderes na exportação de carnes e grãos.”
“O nível de eficiência produtiva é elevadíssimo: conseguimos tudo isso ocupando menos de 30% do território nacional. E mais: a agricultura verde-amarela é altamente sustentável. O produtor produz e, ao mesmo tempo, preserva os recursos naturais porque sabe que essa conduta assegura a perpetuação da atividade. Prova disso é que 65% do território mantêm a cobertura florestal”.
“Por produzir a comida boa e barata que alimenta a Nação, a agricultura e o agronegócio deveriam ser os setores mais festejados e reconhecidos da sociedade brasileira. A imprensa especializada e as autoridades do setor já manifestam esse reconhecimento, mas, amplos estamentos da sociedade expressam profunda desinformação a esse respeito.”
“Só o mais tosco dos preconceitos ou uma visão ideológica coletiva insana e destorcida conduziria uma agremiação a esse desatino: ofender, difamar e caluniar uma parcela da sociedade brasileira formada por famílias rurais cujo trabalho tornou-se o último reduto do combate à crise econômica que castiga o País”.
“A agricultura e o agronegócio merecem respeito. Nosso total repúdio à Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense que, neste ano, conspurca vergonhosamente os princípios de paz, respeito e harmonia do carnaval brasileiro com inverdades históricas e negação da realidade”.
(Nota do Editor: Pode ser que uma generalização do agronegócio como predador seja um excesso carnavalesco, mas essa visão idílica dos abnegados que se arriscam para oferecer “a comida boa e barata que alimenta a nação” tira a autoridade da crítica).
As críticas de Pedroso se somam a muitas outras que a Imperatriz vem enfrentando nos últimos dias de parte do agronegócio por homenagear povos do Xingu. Diz o refrão do samba enredo:
“O índio luta pela sua terra,
da Imperatriz vem o seu grito de guerra!
Salve o verde do Xingu”

O tema “Xingu, o clamor que vem da floresta” foi criado pelo carnavalesco Cahê Rodrigues, 40, com o intuito de homenagear os indígenas da região e sua luta pela preservação da floresta e de sua cultura.
A música também critica o extrativismo insustentável, a hidrelétrica de Belo Monte e agradece aos irmãos Villas-Bôas, enquanto as alas mostram a exuberância da cultura indígena e os males que os afetam, como desmatamento, uso agressivo de agrotóxicos, queimadas e poluição.
Uma das fantasias, em especial, desagradou parte do setor do agronegócio.
Ela mostra um fazendeiro, com um símbolo de caveira no peito, a pulverizar agrotóxicos.
Em nota de repúdio, a Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ) afirmou ser “inaceitável que a maior festa popular brasileira, que tem a admiração e o respeito da nossa classe, seja palco para um show de sensacionalismo e ataques infundados pela Escola Imperatriz Leopoldinense”.
No dia seguinte, a Associação Brasileira dos Criadores de Girolando também se manifestou contra a Leopoldinense.
A polêmica tende a esquentar.
Uma reportagem da Carta Capital sobre o assunto diz que “mais da metade das substâncias usadas aqui é proibida em países da União Europeia e nos EUA, e os agrotóxicos atingem 70% dos alimentos, segundo um dossiê da Associação Brasileira de Saúde Coletiva. Em um ano, um brasileiro terá consumido cinco litros dessas toxinas, de acordo com o Instituto Nacional do Câncer (INCA).
Responsáveis por 70 mil intoxicações agudas e crônicas anualmente em países desenvolvidos, os agrotóxicos também estão altamente associados à incidência de câncer e outras doenças genéticas, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Para elaborar o tema, o carnavalesco carioca estudou durante quase um ano os povos do Xingu, e passou quatro dias em uma oca, vivendo ao lado deles.
“Eu vi quanto o índio depende da floresta para sobreviver e quão forte é o contato com a terra, com o verde. Logo pela manhã, quando acordei, vi curumins brincando de correr atrás de borboletas, é a brincadeira preferida deles, e subindo em árvores para pegar uma fruta, descascar e comer com a mão. O índio é a própria natureza. E quando você agride a natureza, está agredindo diretamente a vida do índio”, conta Cahê.
O medo e a ameaça de uma nova invasão, de perderem seu espaço de direito, que os índios vivem quase diariamente, também marcou Rodrigues. “Pude sentir na pele essa angústia, e a Imperatriz não está inventando nada, faz parte da história do Brasil”.
Para ele, a ABCZ e outras empresas que seguiram a crítica foram precipitadas. “Nunca foi intenção agredir o agronegócio diretamente. A ala que leva o título de “fazendeiros e agrotóxicos” aponta o uso indevido da substância que mata os peixes, polui os rios e agride a vida dos índios e a nossa. Estamos falando do caos que cerca a vida do índio”.
Em outra passagem, o samba-enredo diz “o belo monstro rouba as terras dos seus filhos”.
Segundo o carnavalesco, é uma analogia à construção da usina hidrelétrica de Belo Monte e à desapropriação de terras de povos indígenas. Para a ABCZ, foi uma crítica a suas práticas: “Chamados de “monstros” pela escola, nós, produtores rurais, respondemos por 22% do PIB Nacional e, historicamente, salvamos o Brasil em termos de geração de renda e empregos”.
Agronegócio reage a samba-enredo sobre a questão indígena
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