
As obras vão custar R$ 3 milhões e incluem nova cobertura, reforma nos banheiros, camarins e piso
(Fotos: Helen Lopes)
Helen Lopes
Interditado há um ano, o Araújo Vianna tem futuro incerto. A cobertura precisa ser substituída e a Prefeitura não tem como bancar. A solução aventada é a concessão à iniciativa privada.
A proposta, apresentada pela Secretaria Municipal de Cultura (SMC), tem como objetivo viabilizar as reformas e a manutenção do auditório. Em troca, a empresa usará o espaço para shows e eventos, além de agregar seu nome ao espaço.
“Estamos propondo uma licitação de patrocínio mediante a concessão de uso entre 8 a 10 anos”, conta o secretário de Cultura, Sergius Gonzaga. O edital, em análise na Procuradoria Geral do Município (PGM), prevê a concessão de 80% dos dias de uso à iniciativa privada.
Os demais, cerca de 70 dias, ficariam a disposição da administração municipal. “Isso é muito mais do que usamos”, garante Gonzaga. “Em 2004, por exemplo, o auditório foi ocupado em apenas cinco oportunidades”, lembra o secretário.
As obras vão custar R$ 3 milhões e incluem nova cobertura, reforma nos banheiros, camarins e piso. O cercamento do prédio está em estudo porque o auditório fica no Parque Farroupilha, Patrimônio Histórico e Cultural do Município desde 1997.
A empresa também irá zelar pelo local e bancar gastos com custeio, que oscilam entre R$ 20 mil a R$ 30 mil ao mês. “Não significa que a Prefeitura vai privatizar o Araújo Vianna. O fato é que não temos recursos para reformar e manter o espaço”, sustenta o secretário. A Prefeitura não vai controlar os preços dos ingressos praticados pela empresa.
Secretária de Cultura por mais de oito anos, a vereadora Margarete Moraes (PT) faz restrições à proposta de concessão à iniciativa privada. “Sou favorável ao aperfeiçoamento técnico da cobertura, mas privatizar o espaço público, não”.
Ela observa que a SMC sempre teve dificuldades orçamentárias. Quando assumiu a pasta, recebia 0,04% da verba do município. O índice melhorou ao final de sua gestão, mas não ultrapassa insuficientes 2,5%. “Tudo é uma questão de estabelecer prioridades”, acredita Margarete. Para 2006, estão previstos R$ 26 milhões para a Cultura, 1,21% do orçamento.
Coordenador de música da SMC e administrador do auditório, Henrique Mann defende a retomada das atividades, mesmo que para isso o local tenha que ser cedido a empresas. Mann destaca a vantagem de acomodações adequadas e som de qualidade, ao contrário do que acontece hoje.
O jornalista e produtor cultural Gilmar Eitelwein, que coordenou o setor de Música da SMC duas vezes nas gestões petistas, concorda com a iniciativa da atual administração, mas alerta. “É preciso ter cuidado para não tornar o auditório privado”. Para ele, é fundamental que o Araújo continue sendo palco de encontros, eventos, shows e assembléias populares.

Cobertura proposta é de madeira e resina
A cobertura rígida
A nova cobertura foi projetada pelos arquitetos Carlos Fayet e Moacir Moojen Marques, responsáveis pelo desenho do Araújo Vianna. Eles propõem uma cobertura com base de madeira revestida com uma camada de poliuretano expandido – um isolante termo-acústico – e outra camada de resina impermeável.
Moojen conta que esse é um projeto antigo dos dois que foi atualizado. “A superfície resinada não tem essa deteriorização da lona”, constata o arquiteto. Fayet ilustra: “É estrutura rígida com acabamento perfeito como o casco de um veleiro”. De acordo com eles, a forma e a cor da cobertura atual permanecem, inclusive a estrutura metálica instalada para a colocação da lona será aproveitada. Além disso, o material melhora a acústica e diminui o ruído externo.
Os arquitetos estão entusiasmados e ansiosos para rever o Araújo em pleno funcionamento. “O auditório cumpre uma função importante na nossa sociedade e é uma casa que faz falta por ter uma capacidade intermediária”, considera Fayet. Para Moojen, o espaço projetado há tanto tempo atrás foi bem aceito pela comunidade, principalmente, pelos jovens.
Falta de recursos
O espetáculo da falta de recursos sempre esteve em cartaz no Araújo Vianna. A primeira sede, construída em 1927 nas proximidades da Praça da Matriz, foi demolida por falta de conservação. Deu lugar à Assembléia Legislativa. O atual auditório foi inaugurado em 1964. Passou por várias crises nos anos 80. Em 1985, foi desativado e só reabriu em 1989.
Depois de 30 anos de debate sobre a cobertura do auditório, foi instalada uma de lona plástica. Um show antológico de João Gilberto marcou a inauguração, em 4 de outubro de 1996. Mas a alegria durou pouco – logo surgiram as primeiras goteiras e deformações. Em 2002, venceu o período de vida útil da lona. Em abril de 2005, o local foi interditado por questões de segurança. Parecer técnico da Prefeitura aponta que, sob vento forte, há risco de ruptura na lona e possibilidade de que o cabo de aço caia na platéia.

Sem-teto habitam embaixo das marquises
Pedindo socorro
As paredes externas e algumas partes da lona que cobre o auditório estão pichadas. O prédio também sofre com a degradação do tempo. As tampas das calhas, localizadas no chão, por onde passam os fios elétricos estão enferrujadas e o piso está descascando. Os pombos tomaram conta da concha acústica, fazem ninhos e defecam no palco. Além disso, moradores de rua vivem em baixo das marquises. Cozinham e utilizam o local como banheiro.

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