Por Enio Squeff
É possível que não exista um país com tantos intérpretes quanto o Brasil. Talvez o tamanho do país justifique tantos esforços genéticos.
Euclides da Cunha do mais fundo da sua veia crítica, admitia que “estamos condenados ao progresso”.
O nunca assaz louvado Ariano Suassuna, falecido na semana passada, partia do mesmo pressuposto. Apesar de seu viés também crítico, ou, quem sabe, justamente por isso, não se cansava de louvar o Brasil. E de uma forma que talvez escandalizasse Euclides.
Ariano contava causos, fazia críticas que muitos consideravam xenófobas, mas era impagável em suas famosas “aulas- espetáculos.”
Euclides da Cunha não gostava de ouvir anedotas. Para o genial autor de “Sertões”, o mundo e, particularmente, o Brasil suscitavam, certamente, um sentido de tragédia, que a sua imorredoura memória do massacre de Canudos não suportava.
Suassuna, pelo contrário, considerava tudo uma pândega. Gostava de provocar a plateia, em suas famosas aulas-espetáculo, com frases de efeito – um pouco como seus personagens Chicó e João Grilo, de sua peça mais famosa, “O Auto da Compadecida”.
Tudo lhe parecia motivo para o riso, inclusive a morte. Chamava-a de “Caetana” e dizia que, se dependesse dele, a tal de Caetana não o surpreenderia jamais. Do alto de seus 87 anos dizia e repetia que ela, a morte, a malfadada Caetana não era dada a pegar gente de muito riso e pouco siso.
Seus principais personagens, justamente, João Grilo e Chicó, ressuscitam por obra e graça de seu humor, do qual nem mesmo a Nossa Senhora da peça ficou indiferente.

Na própria encenação, a Virgem anuncia que quem não gosta de rir é o Demo. Ariano acreditava que enquanto risse – e fizesse rir -, ela não o surpreenderia. No caso, ou o demônio ou a morte.
Nisso tudo, a começar pelo título da peça, que evocava os “autos” medievais, Suassuna foi, sobretudo e paradoxalmente, um homem de alta erudição.
Em meio aos causos e piadas, principalmente com a americanização do Brasil – odiava anglicismos, motivos de suas chacotas mais ferinas – reivindicava seu direito à crítica por alentar tanto a sabedoria da cultura popular, quanto o acervo da alta cultura representada, ora pela tradição portuguesa, ora pela alta cultura do Brasil.
Ao criticar a mais “importante música” de um grupo de rock – de cuja letra, no seu rudimentarismo, ele se lembrava para gozar e provocar gargalhadas na plateia, ele se referia a um crítico da “Folha” que achava o compositor do grupo “um gênio” (sic).
Depois de brincar com a indigência da letra e da música do rock, ele perguntava: se o autor, como dizia o crítico da “Folha”, era realmente genial, que expressão usaria, então, para definir Beethoven?
Nisso tudo, Suassuna não era bem visto por certos jornalistas, normalmente mais representativos da “Caetana”, com seu mau-humor, sempre mais para a morte do que para a vida.
Por isso, ele jamais constava dos lembretes oficialescos dos jornais hegemônicos. Não podia ser bem visto pelo mundo neoliberal – aquele que dizia serem irrelevantes quaisquer laivos nacionalistas, já que o “consenso de Washington” estribava-se inclusive no fim da história.
Povos, línguas e cultura, identidades, enfim, todas se fariam tábula rasa diante do mundo globalizado sob a égide da língua inglesa.
Em sua cruzada anti-globalista Ariano Suassuna provocava preferencialmente o mundo acadêmico, que ele julgava alienado e ao qual contrapunha, aí sim, a sua imensa erudição.
Era capaz de recitar, de cor, tanto a longa trova de um cantador nordestino, quanto páginas e páginas de um sermão do padre Vieira, ao qual, não raro, acrescentava poemas de Camões, ou as mais intrigantes e engraçadas cenas do “Dom Quixote” de Cervantes. Tudo literalmente.
No fundo, foi um quixotesco na expressão da palavra: não o constrangia que o chamassem de “velho palhaço” que efetivamente ele era – mas só que um palhaço clássico, talvez mais que tudo um “Clown” ,aquele personagem do circo tradicional, que fingia não ter habilidade alguma, mas que conseguia se equilibrar magnificamente numa corda bamba, disfarçando sua uma capacidade, maior que todos os acrobatas do picadeiro. Ou que, muitas vezes, levava os espectadores às lágrimas, ao começar a tartamudear um instrumento qualquer para, de repente, tocá-lo como um virtuose, que se escondia no mau jeito.
Talvez seja essa a definição mais condigna de Ariana Suassuna. Foi um clown da Cultura brasileira.
Ao contrário de seu conterrâneo Gilberto Freyre, que também descreveu as origens do Brasil pelo lado positivo, ou de outros que buscaram a gênese do país naquilo que ele tinha de mais profundo – como Sérgio Buarque de Holanda, Darcy Ribeiro e o próprio Euclides da Cunha – Ariano Suassuna encarnou o homem do interior brasileiro – mas que fingia ser um bronco, para se mostrar logo em seguida, um dos homens mais cultos do Brasil. Fala-se da alta cultura – aquela representada também pelos entreguistas, que ele invectivou nas suas críticas. E que naturalmente, nunca o perdoarão.

Mais um santo da cultura brasileira de todos os tempos, sem, porém, o sentido do trágico; ou talvez com este senso, mas transmudado em humor, um dos mais finos e excelsos, algo que o faz um legítimo herdeiro também de Cervantes, que ele conheceu como poucos no Brasil.
Ariano Suassuna e os intérpretes do Brasil
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texto asjjsa akskalsa
Comentários
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Imaginam que o mestre morreu, porém só os mortais morrem.

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