Em junho de 2005, o JÁ lançava uma edição de seu jornal de reportagens – hoje transformado em revista – que trazia em um de seus destaques de capa a foto de Lauro Hagemann, falecido nesta segunda-feira (11), aos 84 anos.
“Botaram gambá no galinheiro”, era a manchete da capa, explicada pela chamada das páginas 4 e 5, nas quais foi publicada. “O poder público cedeu a interesses privados”.
Era uma referência ao planejamento urbano de Porto Alegre, cidade em que viveu a maior parte de sua vida – Hagemann era natural de Santa Cruz do Sul.
Cinco vezes vereador da Capital, em seu último mandato 1997-2000), assumiu a função de relator do Plano Diretor da Capital, que estava sendo elaborado naquele momento.
Foi com esta prerrogativa que, exatos 10 anos atrás, nos dia 13 e 16 de maio de 2005, o comunista recebeu o repórter Guilherme Kolling em seu apartamento no bairro Petrópolis.
Apenas cinco anos após ajudar a construir a lei que regulamenta a ocupação e o desenvolvimento urbano de Porto Alegre, Hagemann havia se tornado um crítico do texto. Para o jornalista, apesar da fama de ser uma cidade organizada, a Capital gaúcha estava crescendo de forma desequilibrada. “Isso aqui parece um pé de mandioca! Sai uma raiz para cada lado”, criticou.
Era a deixa para fazer a reflexão que deu origem ao título da matéria. “Esse desequilíbrio é de origem econômica”, observou.
“O setor interessado em valorizar cada vez mais o território urbano predomina na reformulação da cidade. E isso não é bom, porque a cidade não é propriedade de uns poucos, ela deve ser apropriada por todos. É duro dizer, mas deram o galinheiro para o gambá cuidar”, lamentou.
Hagemann, entretanto, preferiu ser diplomático ao ser provocado pelo repórter para explicar melhor sua insatisfação. “Não quero agredir ninguém. Entenda quem quiser”, provocou.
pressão da construção civil
Segundo seu relato, durante a elaboração do Plano Diretor na Câmara Municipal, houve grande pressão do setor da construção civil – o que não o surpreendia. “Esse campo é muito propício a isso, cada centímetro quadrado de terreno nessa cidade vale uma fortuna, imagina os interesses que movem essa divisão”, pontuou.
Sua tarefa, como relator, foi escutar as demandas da construção civil – encarnadas na pressão organizada do Sinduscon – e buscar uma solução conciliatória. “Que (se) faça concessões para os interesses imobiliários, mas que esses interesses imobiliários revertam alguma coisa em favor das massa populacional”, pregou, ilustrando em seguida, os diálogos que tinha com os dirigentes da área.
“Vocês vão levar o pedaço que cabe a vocês. Mas o pedaço que cabe a população vocês têm que respeitar”.
Hagemann admitiu que “muitas concessões foram feitas, em termos de números, volumetria”. “Isso tudo era negociável”. Mas tinha fé que essas negociações haviam trazido vantagens também para a cidadania.
Porém, sua impressão sobre o processo de revisão – que começava naquele ano de 2005, mas só seria concluída em 2008 – era bastante pessimista. “Agora receio que o desequilíbrio seja tão grande, que a correlação tenha mudado tanto que não se consiga impedir mais as modificações estruturais que vão nos levar para o brete”, avaliou.
população está a parte
Seu temor, segundo confidenciou na entrevista, era que a cidade acabasse refém de um debate sobre planejamento urbano centrado em interesses privados – tantos da categoria política, que nas suas palavras “vive de interesses imediatos”, focada na reeleição, como dos empresários “aproveitadores”. “A cidade pode ficar liquidada por ação da pressa ou da inépcia”, alertou na ocasião.
A saída para evitar um conchavo que unisse interesses de ambos seria trazer a população para o centro do debate – coisa que Hagemann sabia que era difícil. “É um tema árido! Todo cheio de pontas e muito técnico”.
Por isso, o comunista alertou para o grande trunfo da informação sobre o que ocorre na cidade. “Já imaginou se cada cidadão de Porto Alegre soubesse exatamente o que é o Plano Diretor? Estes grandes construtores não iriam a lugar nenhum. Eles precisam desta ignorância”, concluiu.
A íntegra da entrevista pode ser lida neste link.
Arquivo Lauro Hagemann: "O poder público cedeu a interesses privados"'
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