Artigo: Quem é, afinal, o ‘mercado’?

Rodrigo de Azevedo Weimer
Historiador, Pesquisador da FEE
Em 4 de dezembro de 2015, diante da abertura de processo de impeachment contra a Presidente Dilma Rousseff, o ‘mercado’ ficou ‘tão feliz’, informava a revista Exame. Já em 18 de dezembro, os ânimos haviam mudado: ao menos de acordo com o mesmo periódico, havia ‘apreensão’ no ‘mercado’ pela iminência de saída de Joaquim Levy do Ministério da Fazenda.
Conforme o sítio G1, em 22 de dezembro, com a assunção da pasta por Nelson Barbosa, o ‘mercado’ teve uma ‘reação negativa’, mas de acordo com o Valor econômico do dia 30, ‘deu o benefício da dúvida’ ao novo ministro. Segundo, a Folha de São Paulo, o novo titular da pasta despertava ‘temores’ no ‘mercado’.
Em 22 de janeiro de 2016, o mesmo jornal afirmava que a manutenção das taxas de juros em 14,25% ‘arranhou a confiança’ do ‘mercado’ no Banco Central. Em 24 de fevereiro, a perda do grau de investimento do Brasil por parte da agência Moody’s implicou em um humor ‘mais negativo’; ao longo do dia, graças à recuperação do preço do petróleo, segundo o site Exame.com, seus ânimos ‘melhoraram’, em uma rara demonstração de resiliência.
A efervescente conjuntura política do mês de março levou o ‘mercado’ a uma frenética etapa de ciclotimia. Conforme o site UOL no dia 10, as acusações contra o Partido dos Trabalhadores geravam ‘otimismo’ no ‘mercado’. Vejamos. No dia 3, o ‘mercado’ ‘gostou’ e ‘comemorou’ o primeiro vazamento da delação premiada do senador Delcídio Amaral, ao que assevera o sítio InfoMoney. No dia seguinte, conforme o mesmo site, a condução coercitiva do ex-Presidente Lula e a busca e apreensão em seus imóveis ‘agitou’ o ‘mercado’ que, de acordo com o Estado de São Paulo, entrou em ‘euforia’.
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Retorno de Lula ao governo sacode o humor do mercado
O pedido de prisão preventiva de Lula gerou ‘otimismo’ no ‘mercado’, conforme o site UOL do dia 10, ainda que a Veja reportasse, no dia seguinte, que seus efeitos não foram ‘convincentes’. Conforme a CBN, a ‘reação do mercado’ deveria ser positiva às manifestações anti-Dilma do dia 13; o ‘recado’ das ruas ao governo era algo que o ‘mercado’ procurava mapear, de acordo com notícia do dia seguinte do sítio Valor Investe.
Como alegria de ‘mercado’ dura pouco, diante das especulações quanto à ida de Lula ao ministério de Dilma, ele vivenciou um ‘movimento de incerteza’, dava conta o site UOL do dia 15, certamente em virtude de possibilidades de mudanças na política econômica, conforme a Folha de São Paulo do mesmo dia.
Ainda que a nomeação de Lula ministro tenha sido ‘recebida com cautela’ – afirmava o jornal UOL, em 16 –, a expectativa de um impeachment a partir do grampo vazado pelo juiz Sérgio Moro e da suspensão para o ex-Presidente assumisse a Casa Civil devolveu sua ‘euforia’, reportava a Folha de São Paulo em 17. No dia seguinte ocorreram manifestações favoráveis à Presidente da República, apesar das quais o ‘mercado’ mantinha a expectativa por um novo governo, conforme a Exame.
Antropomorfização do ‘mercado’ mascara influência de seres humanos reais
Essas rápidas e constantes flutuações nos seus humores, bem como a atribuição de características humanas, merecem ser problematizadas. Existem, é claro, definições técnicas de mercado, originárias da economia e da sociologia econômica. À parte a verificação de que essas conceituações não são levadas em conta em uma concepção vulgarizada, não cabe aqui analisá-las propriamente.
Tampouco nos interessam, aqui, analisar as conjunturas específicas que levaram àquelas flutuações e os efeitos dos processos políticos na economia, ou mesmo as muito claras inclinações políticas do ‘mercado’. Limitamo-nos à constatação das práticas discursivas que levam o jornalismo econômico – de diferentes matizes – a naturalizá-lo como entidade de feições, comportamentos e mesmo sentimentos humanos, bem como suas consequências.
O ‘mercado’ dorme e desperta. ‘Reage’ a estímulos positivos e negativos. Nutre ‘expectativas’ e ‘faz previsões’. Fica ‘inseguro’, ‘nervoso’, ‘inquieto’, ‘pessimista’ ou ‘disperso’ e, até mesmo, ‘triste’. Muito raramente, ‘otimista’ ou ‘feliz’. Em algumas circunstâncias ‘confia’ e, no mais das vezes, ‘desconfia’ ou ‘teme’. ‘Comemora’, ‘se assusta’ e fica ‘apreensivo’.
Figuras de linguagem são recursos fundamentais da comunicação humana; contudo, a encarnação de disposições afetivas neste ente abstrato não é inocente. Dentre elas, está o ocultamento das reais atitudes e a eventual isenção de responsabilidades de sujeitos econômicos específicos: economistas de diversas orientações, investidores, especuladores, lobistas. Quer dizer, na antropomorfização do ‘mercado’, mascara-se a agência de seres humanos reais que efetivamente conformam seu funcionamento, mesmo que de forma difusa. Cria-se, ainda, uma ilusão de uniformidade de interesses de atores econômicos de fato heterogêneos.
Há uma dissonância com as falas que propugnam a livre atuação dos agentes econômicos, já que na imprensa seu desempenho é representado como iniciativa de uma personagem coletiva e não de indivíduos atomizados. É desnecessário dizer que não há qualquer institucionalização ou regulação em sua ação. Contraditoriamente, aqueles que prosperam no ‘mercado’ apresentam sua riqueza como meritória conquista individual.
Seu funcionamento é apresentado como algo um tanto misterioso, mas de difícil questionamento pelos cidadãos, já que mecanismos complexos são ocultos sob essa figura genérica. Ele se torna incontestável em virtude de ‘vontades’ e ‘ânimos’ bastante inflexíveis. Produz-se um discurso alarmista em que o ‘descontentamento’ de tal ente teria potenciais verdadeiramente aniquiladores.
Assim, uma característica do ‘mercado’, tal como nos é apresentado pelo noticiário econômico, é a sucessão de humores e sentimentos. Fica evidente nesta prática discursiva a representação do ‘mercado’ como um ser temperamental e arisco. Qualquer movimento em falso pode contrariá-lo. Isso cria efeitos reais.
Aqueles que o essencializam conforme as ditas características procuram, em suma, encorajar o cortejo e o agrado ao ‘mercado’ que, caso contrário, poderá ficar ‘instável’ ou ‘irritado’. Esses discursos difundidos nos meios de comunicação encontram repercussão na opinião pública, à qual os governantes procuram dar alguma satisfação. É certo que o Estado encontra-se assessorado por especialistas, mas também fica claro que necessita dar conta dos mais diferentes tipos de pressão.
Grandes capitalistas emergem como entidade abstrata
Vejamos: em outubro de 2015, os prazos da dívida pública foram encurtados com a finalidade de satisfazer um mercado considerado ‘instável’, conforme a Folha de São Paulo. No dia 16 de dezembro de 2015, as conjecturas em relação à saída do ministro Levy da pasta da Fazenda levaram a Presidente à cautela, visando não ‘assustar o mercado’, asseverava o jornal Sul21. Segundo a revista Época, ao assumir a pasta, em 2 de janeiro de 2016, Barbosa fez um discurso ‘formatado para agradar ao Planalto e ao mercado’.
Exatamente um mês após, o site Exame.com anunciava que, diante do desgaste do ex-Presidente Lula, o governo teria ‘de acender duas velas, uma para o mercado, outra para a esquerda.’
Em suma, a própria prática governativa acaba por levar em conta essa concepção essencializada e vulgar de um mercado abstrato, mesmo como representação genérica de agentes econômicos mais palpáveis. É claro que os grandes capitalistas são conhecidos, mas, como coletividade, emergem como entidade abstrata detentora de grande poder, exatamente porque oculto.
Não convém naturalizar acriticamente uma entidade que consiste em uma construção discursiva. São necessários cuidados a fim de evitar um descolamento entre a ‘vontade de mercado’ ideologicamente produzida e outros interesses sociais, que são necessariamente plurais diante da concepção unitária implícita nos textos aqui analisados.

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