GERALDO HASSE
Há na Mídia e nas ruas um martelar incessante reclamando “austeridade” na gestão das contas públicas. Muito justo: é preciso acabar mesmo com a roubalheira do dinheiro público.
No entanto, se examinarmos a fundo o que querem os adeptos da “austeridade”, veremos uma maioria disposta a cortar os programas de amparo aos pobres, como o Bolsa Família, o principal legado das gestões petistas.
Tirar dos pobres para promover o equilíbrio fiscal não é nada justo. “Se está faltando dinheiro, o governo deve tirar dos ricos, nunca dos pobres”, me disse um veterano empresário gaúcho que foi tropeiro na juventude, nos anos 1940.
Católico praticante, ele também está revoltado com a descoberta da corrupção na cúpula da Petrobras, mas nem por isso pede o corte dos programas que permitiram ao Brasil dar um passo gigantesco na busca da igualdade econômica, justiça social e equalização dos direitos humanos.
Infelizmente, são cada vez mais fortes os sinais de que as políticas sociais estão por um fio. Tome-se por base o afã de deputados e senadores para flexibilizar as leis trabalhistas, um dos projetos mais perversos dos conservadores e liberais para, como eles dizem, “acabar com a proteção a essa cambada de vagabundos”.
Trata-se de uma hipocrisia irrigada pela mais profunda ignorância política. Como se pode construir uma democracia forte – e um mercado rico, que é o que mais interessa aos empresários – sem promover a inclusão das camadas carentes da população?
Com a erosão da credibilidade do governo Dilma e o descrédito do PT, parece restar pouco para sustentar a aliança de movimentos sociais e grupos responsáveis pelos avanços obtidos desde a Constituição de 1988.
A defesa das políticas sociais enfraqueceu-se, os direitos humanos mais elementares começam a ser alvo de chacota e um retrocesso ronda o estado de direito no âmbito do Judiciário, justamente o poder encarregado de garantir o cumprimento da Constituição.
O que parecia uma marolinha antiPT virou uma onda na qual surfam delegados, procuradores, juízes e ministros sob os holofotes da Midia estabelecida, todos empenhados num esforço para incriminar especialmente os governos petistas.
Se a corrupção é mais ou menos generalizada e vem desde outros governos, por que não atacar em todas as frentes?
O clamor antiPT só vê os 35 bilhões de reais investidos no Bolsa Familia e fecha os olhos para o descalabro da Bolsa Dívida, cujo serviço, entre amortizações e juros, custou um trilhão de reais ao Tesouro Nacional em 2015.
Em artigo publicado no final de fevereiro no site Congresso em Foco, o cientista político Antonio Carlos de Medeiros declarou-se convencido de que “chegamos ao final de um ciclo” e que é preciso “criar um novo bloco de poder” que seja capaz de formular “um novo modelo de crescimento” – mais liberal, naturalmente, com menos intervenção do Estado, cujo inchaço nas últimas décadas fortaleceu a burocracia e a tecnocracia, além de onerar pesadamente o Tesouro.
Por aí vemos que muitos estudiosos já dão por encerrado o ciclo do petismo, só faltando que a presidenta Dilma seja impedida de continuar no Palácio do Planalto. Como será feito isso:
1 – Pelo voto popular em 2018?
2 – Mediante uma conspiração ampla orquestrada pelo Consenso de Washington?
3 – Com ou sem sangue?
LEMBRETE DE OCASIÃO
“Só na foz do rio é que se ouvem os murmúrios de todas as fontes”
Guimarães Rosa
Atiram no governo mas querem acertar nos programas sociais
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