Autor escreve livro para lançar aos 100 anos: “Não tenho tempo para morrer”

ELMAR BONES
João Gomes Mariante, psicanalista e jornalista, completou 98 anos em 26 de fevereiro de 2016.
Deste então, entre outras coisas, trabalha num livro que irá concluir em fevereiro de 2018, com o título: Como cheguei aos 100 anos.
Ele escreve a mão, com uma caneta tinteiro, letras grandes bem desenhadas, em folhas soltas que vai numerando. Quando há ouvintes, gosta de testar os trechos que já escreveu:
“Não fui amamentado por minha mãe e sim por muitas amas de leite que invariavelmente entravam em choque com ela.”
Levanta os olhos do papel e acrescenta, com a voz magoada: “Ela brigava com todas”.
Nascido em Porto Alegre, foi “ainda em fraldas” para Porto Mariante, pequeno povoado à beira do rio Taquari, do qual a família de seu pai era fundadora. Criou-se na fazenda do avô autoritário, que não o estimulava a estudar. Queria que fosse bom pialador (que derruba o boi na corrida, jogando o laço nas patas dianteiras)
Tinha 12 anos quando se alfabetizou. Estudou em Porto Alegre, cursou Medicina no Rio de Janeiro, foi funcionário da embaixada brasileira em Buenos Aires, psicanalista em São Paulo.
Voltou para Porto Alegre com planos de se estabelecer como psicanalista. Enfrentou dificuldades, principalmente o início de uma surdez que hoje o aflige. “Pedir para o paciente repetir, não dá.”
Voltou-se para o jornalismo, valendo-se da experiência pioneira com a Revista de Medicina Social, que editou no Rio na década de 1940.
Lançou em outubro de 2002 o jornal MenteCorpo, mensário, voltado para a popularização do conhecimento médico e psicanalítico.
O número que está circulando é o 137, uma edição especial toda dedicada à cidade de Venâncio Aires, feita quase integralmente por ele, como todas.
Ele determina a pauta, escreve os editoriais e as principais matérias, além de mobilizar numerosos articulistas, para compor as 48 ou mais páginas de cada edição.
Além de editor, ele é o empresário, que capta publicidade, cuida da distribuição e comanda uma pequena equipe de colaboradores. Em cima da mesa já estão espalhadas as provas da próxima edição. “Essa madrugada vou escrever o editoral e a Personalidade do Mês, que ainda não sei quem é…”
tres_no_diva_1308531602bTodos esses encargos não o impediram de lançar três edições revisadas e ampliadas de um livro em que explora seus conhecimentos de psicanálise e suas relações com três ícones da política do Rio Grande do Sul: Osvaldo Aranha, Flores da Cunha e Getúlio Vargas.
Ele conheceu os três no Rio de Janeiro, onde era estudante. Era afilhado de um ministro de Vargas.
Frequentou churrascos aos quais Vargas comparecia e dele chamou atenção por uma frase, dita numa roda de estudantes paulistas: “São Paulo é a locomotiva do Brasil, mas o carvão é de São Jerônimo e o maquinista é de São Borja”.

Mariante é o homem de bigode atrás de Vargas
Mariante é o homem de bigode atrás de Vargas

A frase arrancou uma das famosas gargalhadas de Vargas e então lhe apresentaram o jovem gaúcho atrevido que estudava no Rio.
Foi amigo desde a escola de um dos filhos de Osvaldo Aranha e conheceu Flores da Cunha no Rio, quando era estudante de medicina e, numa emergência, até aplicou-lhe algumas injeções.
Com Osvaldo Aranha
Com Osvaldo Aranha

Seus anos de dedicação à profilaxia do suicídio, levaram-no a identificar um traço autodestrutivo na conduta política dos caudilhos gaúchos. Daí resultou o livro, do qual já publicou duas edições.
Em junho deste ano lançou um novo ensaio de 200 páginas fixando-se em Getulio Vargas, procurando rastrear os sinais inconscientes de que Vargas teve em mente, desde sempre, o suicídio como uma saída.
O lançamento mais recente
O lançamento mais recente

“Em vários momentos, em situações cruciais, ele considerou a ideia de se dar um tiro se tudo desse errado. Até que chegou naquele 24 de agosto, quando tudo havia realmente dado errado”.
Para a autobiografia que está escrevendo, prevê umas 300 páginas: “Vai ser uma coisa simples, talvez faça algum sucesso”, pondera.
Já descreveu a primeira surra que levou da mãe, pelo susto que deu numa tia muito carola. A tia o obrigava a confessar e a comungar. Ele odiava: “Eu cuspia na hóstia”. À noite tinha que rezar em pé junto da cama, antes de deitar.
Um dia a tia tomou-lhe a reza e ele lascou um verso que aprendera na rua: “Deita-te corpo /espicha-te rabo/arreganha esse cú/ para todos os diabos”.
Diverte-se com suas memórias
Diverte-se com suas memórias

A tia desmaiou. A surra foi tamanha que até hoje ele fica em dúvida se o verso não é “muito forte” para entrar nas memórias.
Depois de um longo expediente, ele sente dificuldade para erguer-se da poltrona de onde comanda a editora e o jornal, mas não aceita ajuda:
“Deixa comigo…”, diz empunhando a bengala.
Vai até a cozinha e volta com uma garrafa de uísque. “Já vou trazer o gelo.” Vai e volta com passinhos curtos. Fala dos seus planos, das próximas edições do jornal, da campanha que vai lançar, da viagem a Buenos Aires. Quer lançar um outro livro com as crônicas que publicou no Jornal do Comércio nos últimos 20 anos. Reclama que a Zero Hora não tem publicado seus artigos. Desespera-se com a incapacidade de organizar papéis. “É uma desgraça!”. Mostra a capa do livro que ele mesmo  idealizou: uma ampulheta com um restinho de areia na parte de cima.
Pergunto se no livro ele vai revelar o segredo. “Que segredo?”. De como chegou aos 100 anos. “Ah, acho que fui salvo pela psicanálise. Embora tivesse condições genéticas, não teria chegado a essa idade se não fosse a psicanálise”.
Conta que foi um jovem turbulento, duas vezes baleado. Levanta a perna da calça para mostrar a cicatriz do tiro que levou num entrevero em Santa Cruz. Isso não revela também uma tendência suicida? “Sem dúvida, tinha esse componente.”
Parece buscar a origem desse componente. “Meu avô queria um filho homem, não aceitou o fato de ter vindo uma mulher, minha mãe. Ele não escondia a decepção e isso causou nela um trauma muito grande, ela nunca superou. Quando nasci, ele quis fazer de mim o filho que não teve.”
Outro ingrediente de sua receita de vida é dormir pouco. Sempre foi assim. Sai da cama antes das quatro.
Dorme uma hora depois do almoço e depois vai até nove, dez da  noite. “Não tenho tempo para morrer”, brinca.  Diz que vai “parar duas horas antes, para arrumar alguns papéis…”. E sintetiza tudo: “O trabalho é a grande e única terapia”. Mas é preciso gostar do que faz.
Ele por exemplo, no final de semana, percorreu mais de mil quilômetros para dar autógrafos e palestra em Dom Pedrito. Com frequência, toma um ônibus e vai a Santana do Livramento, gosta de ir ao cassino de Rivera.
Na segunda-feira, já tem compromisso na agenda: “Quero falar com aquele rapaz para o site. Quero fazer o jornal on line”.
Palavras escolhidas com precisão a cada texto, discurso ou palestra
Palavras escolhidas com precisão a cada texto, discurso ou palestra

Além da atividade intensa com o jornal, com os livros e com uma agitada agenda social, os 98 anos não impedem João Gomes Mariante de acompanhar os fatos do noticiário e de ter uma lúcida opinião sobre eles.  Confira:
“Estou com muito medo de uma guerra civil. Medo de estourar esse movimento de rua, esse Bolsonaro quer liderar o golpe. O Exército vai ter que sair para guerra…”
“Corrupção é sempre a desculpa para os golpes. Getulio não roubava mas protegia os corruptos. O Jango a mesma coisa.  Em 1964, os milicos prometiam moralizar mas não pegaram o Ademar de Barros e tantos outros que eram aliados deles”.
“Eduardo Cunha é um psicopata. É diferente do psicótico, o psicopata se caracteriza pela ausência de culpa. Não tem controle interno, projeta no outro, nunca aceita a culpa. Ele não se compromete. Cunha compromete os outros…”
“A Lava Jato abriu os olhos do povo, o PT se excedeu na roubalheira. Nunca tantos roubaram tanto de tantos. E, depois, a arrogância, o povo não tolera mais o arrogante”.
“Lula é muito inteligente, mas é um paranóico, tem mania de grandeza, se sente perseguido.  Acredito que ele está terminado, nunca mais”.
Eleições municipais: “Para mim não foi surpresa, o pessoal quer coisa nova. Os que se declararam não políticos, levaram. Não está na ordem dos contagiados”.
Violência: “Enquanto não se fizer uma varredura na polícia, não vai se resolver o problema da criminalidade no Brasil, porque os grandes criminosos estão dentro da polícia. Tinha que ter um projeto: submeter todos eles a um exame psiquiátrico”.
Caso Plinio Zalevski: “Pra mim não foi suicídio, foi homicídio. Quem se mata não dá dois cortes. Dificilmente, quando dá um corte profundo, dá o segundo. Não consegue dar. A motivação também é pouco convincente. Mais plausível é que o tenham obrigado a escrever aquilo”.
 

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