Ave, Mutantes!

Naira Hofmeister

Incomum o lugar: um teatro austero, cadeiras estofadas, ar condicionado. Fazer a cabeça era difícil: baseado ou LSD estavam fora de cogitação pela alta concentração de seguranças no local. A cervejinha não saía por menos de cinco pilas, uma long neck.

O valor do tíquete de entrada, entre R$ 80,00 e R$ 120,00, transformou o show dos Mutantes no Teatro do Sesi, em Porto Alegre, num sonho quase inatingível mesmo para hippies-chiques.

Ao menos o pessoal da Tim distribuiu chocolatinhos promocionais, que amenizaram a larica de quem saiu ‘pronto’ de casa. E o tradicional galão de água ao lado do banheiro do teatro teve que ser reposto algumas vezes.

A balada que metaforicamente traduzia a situação do público – majoritariamente de jovens – sem dúvida era “O meu cigarro apagou, o meu dinheiro acabou, e hoje eu me liguei só no rock n’roll”.

A nova formação dos Mutantes chegou a Porto Alegre ostentando o título (estranho para quem esteve sempre na contracultura) de “Melhor Banda de pop-rock do Brasil”.

Abraçados, os irmãos Arnaldo Baptista (teclados) e Sergio Dias (guitarra), o baterista Dinho e a vocal substituta de Rita Lee, Zélia Duncan, entraram no palco ao som da marcha interpretada pelos demais integrantes da banda – uma baterista rastafari, um multi-intrumentista (que tocou flauta, teclados, guitarra), um baixista e um outro tecladista.

Dividido entre os tradicionais cabeludos, as meninas de saia plisê – encarnação do espírito ‘Rebelde’ contemporâneo – e um bando de tiozãos nostálgicos, o público sacudiu o Teatro do Sesi, literalmente.

Nos primeiros acordes de Dom Quixote, que abriu o show, uma meia dúzia de jovens provou que a hipongagem vinha para marcar presença. Ignorando as 17 fileiras de poltronas de trás, o pessoal da primeira fila da platéia baixa levantou e iniciou a dança-ritual que caracteriza essa tribo. Pés e mãos se movem em câmera lenta e os olhos permanecem fechados.

O restante do teatro, ainda hesitante, se limitava a sacudir os braços e assoviar alto. Mas ninguém resistiu à animação de Virgínia, a quarta canção apresentada. Cadeiras foram esquecidas, senão pisoteadas. Quem estava bem em frente ao palco pode testemunhar o chão balançando para trás e para frente.

Na hora e meia que seguiu, ninguém ficou parado. Cantor de Mambo, Baby, Caminhante NoturnoBalada do Louco, Ave Lúcifer e até Le premier bonheur du jour foram destaques do show. Em El Justiciero, Sérgio fez referências a Lula e Chávez.

Arnaldo Baptista foi o mais ovacionado entre os antigos Mutantes, recebendo reverências constantes da platéia. Sérgio Dias também recebeu os devidos cumprimentos ao solar sua guitarra e Dinho também teve seu momento. Zélia Duncan não foi alvo de nenhuma manifestação espontânea da platéia, mas durante a apresentação da banda, recebeu muitos aplausos por sua performance discreta e eficiente.

Ainda que a banda não mantenha a espontaneidade dos tempos do tropicalismo – salvo sob as manifestações bem humoradas de Arnaldo, que segue Lóki – a apresentação não deixou a desejar. Foram quase duas horas de música e quase nada de papo. O retorno ao palco num bis preparado previamente encerrou a apresentação com Bat Macumba e, claro, Panis Et Circenses.

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