Tsunami de refugiados põe em cheque projeto europeu de civilização

Mariano Senna
De Berlim
O dilema dos refugiados na Europa é manchete em todos os grandes meios de comunicação do continente há mais de um ano. As fotos de crianças refugiadas mortas em praias do litoral da Turquia se apresentam agora como último e desesperado apelo para sensibilizar a opinião pública sobre o assunto. Ou será uma cartada final para desumanizar a crise e abrir o caminho de uma solução drástica?
A dúvida vem da forma seletiva e descontextualizada como alguns veículos apresentam o problema. A revista Der Spiegel, por exemplo, foca a questão dos refugiados barrados na estação de Budapeste em sua viagem rumo a Munique na Alemanha. Estima-se que sejam 3.000 pessoas esperando pelo trem na capital da Hungria. Até a última semana de Agosto, autoridades alemãs contavam mais de duas mil pessoas chegando ao país por essa via diariamente.
Blindada contra crises econômicas e incensadas por uma imagem humanista pós-segunda guerra, a Alemanha é hoje o destino preferido daqueles fugindo dos horrores da guerra, ou da falta de perspectiva econômica. O governo federal de Berlin já deixou claro que só receberá quem de fato for refugiado de guerra. Mas se já não é fácil diferenciar quem é quem num mar de gente, que dirá encontrar recursos para dar abrigo para todo esse povo.
E eles veem de todos os lados e por todas as vias. Dados oficiais indicam a entrada de mais de 100 mil pessoas nessa condição no país no último mês. Segundo estimativas, só na capital alemã chegarão 70 mil novos refugiados este ano em busca de abrigo. Os programas de rádio citam cálculos de ONGs prevendo 800 mil pessoas chegando de fato à Alemanha até o início de Setembro. Um “tsunami” de gente segundo os principais veículos de informação do país.
Surpreendida pela onda de pessoas buscando refúgio ou simplesmente uma vida melhor, a Europa se defronta com sua verdadeira face. Editoriais já falam no “naufrágio” europeu. Com grandes dificuldades para manterem coeso seu projeto político de união política e econômica, os países do bloco fazem um jogo de empurra-empurra com o problema humanitário. Todos se dizem sobrecarregados com desabrigados, para muito além das suas “cotas”. Bruxelas propõe emergencialmente aumentar tal “contingente” em 120 mil pessoas. Um paliativo, que nem de longe enfrenta toda complexidade da questão.
Bem longe da política, a situação dos refugiados em capitais como Berlin toma contornos Kafkianos. Pelo processo convencional, qualquer pedido de asilo deve ser encaminhado no país de origem. Algo impossível nas regioes assoladas pela guerra. Os que chegam à Europa em sua grande maioria nem passaporte têm. Outros nem mesmo documentos de identificação carregam. Soma-se a isso a barreira da língua. A comunicação, como tantas outras coisas, depende de intérpretes voluntários.
Exemplos abundam. “K.D.” é um refugiado do Mali. Trabalhava desde os 14 anos com o pai no transporte de carga para países vizinhos, especialmente a Líbia. Com a queda de Muammar Kaddafi, perdeu não só o trabalho, mas a perspectiva de vida, pois radicais islâmicos que assumiram o vácuo do poder passaram a ameaçar todos que não se convertessem ou aceitassem os mandamentos da religião.  O jovem chegou à Espanha há dois anos depois de atravessar o mar Mediterrâneo em um barco de pesca junto com outras centenas de pessoas.
Hostilizado pelos espanhóis, decidiu migrar para o Norte. Foi levado de carro para a Alemanha, sob a promessa de um tratamento mais amigável. Ficou um ano e meio concentrado em um abrigo improvisado no interior do Estado da Saxônia, no centro-sul do país. Como não tinha seguido os trâmites da burocracia oficial, caiu num limbo, como a maioria dos refugiados. Nao possui passaporte, autorização de trabalho, seguro saúde, e nenhum outro direito, só o de continuar vivo.
Incitado por amigos refugiados, resolveu tentar ajuda na capital Berlin. Conhecida por sua multiculturalidade, a cidade é o destino predileto dos que buscam alguma saída para o problema da burocracia. Acabou abrigado ilegalmente em uma república estudantes. Ali, além de abrigo, recebe comida, roupas, aulas de alemão, esporte, lazer e até assessoria jurídica. Hoje aos 20 anos, anda mais confiante de que vai encontrar uma saída. “As pessoas me dizem que eu terei que casar para ficar aqui, mas não foi para isso que vim para cá”, conta ele.
Por conta da paralisia das autoridades, as soluções para dramas como esse têm aparecido de iniciativas individuais. Em sua maioria oferecida por estudantes e suas agremiações. Boris Jacob é um desses exemplos. Estudante de PhD na Universidade Humboldt de Berlim, ele tem dedicado suas manhas para voluntariamente ajudar centenas de refugiados abrigados em alojamentos espalhados pela periferia da cidade. Entre as atividades, uma das mais importantes é o recolhimento de alimentos doados por supermercados e restaurantes. “É o mínimo que posso fazer, apesar de toda a dificuldade, uma forma de manter a esperança”, explica ele, dizendo que não lê mais nenhum jornal, nem acompanha nenhum noticiário para evitar ser contaminado pela propaganda “desumanizante” que circula pelos veículos de informação.
Outro exemplo é o Festival Contra Racismo que acontece pelo quarto ano em Kreuzberg, bairro boêmio da capital alemã. Patrocinado e organizado basicamente pelos grêmios estudantis das três maiores universidades da cidade, o festival oferece atrações culturais e artísticas de cunho conscientizador. O público apesar de pequeno se mostra bastante engajado. “Discriminação racial está na base das nossas políticas de migração. É fundamental promover a consciência sobre isso se quisermos enfrentar o problema dos refugiados adequadamente”, ensina Thomas Eckermann, que foi ao evento este fim de semana junto com seu filho de 8 anos.
*Foto: a imagem colhida pelo fotógrafo italiano Massimo Sestini enquanto acompanhava o trabalho da Guarda Costeira Italiana está entre as exibidas na Exposição World Press Photo que acontece até 11 de Setembro na Estação Central de Berlin (Hauptbahnhof).

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