Geraldo Hasse
Um dos maiores lançamentos da Feira do Livro de Porto Alegre em 2017 é a biografia de Antônio Cecchin, irmão marista que trabalhou em tempo integral com as comunidades desvalidas da região metropolitana de Porto Alegre.
Tanto pelo volume (400 páginas) quanto pela qualidade do papel (couché 90 gramas), o livro em formato A4 é uma marcante obra ecumênica recheada de fotos e depoimentos de pessoas que conviveram com Cecchin, falecido em 10 de novembro de 2016 aos 89 anos.
Mais do que uma biografia, “Seguindo o Caminho em Busca da Terra Sem Males” é um documentário sobre o esforço missionário de Antônio Cecchin junto aos catadores das ilhas do Guaíba, aos índios de São Gabriel e aos sem-terra em geral.
Organizado por sua irmã Matilde Cecchin, que bancou a maior parte dos custos e recebeu ajuda do Centro de Editoração Marista, o livro recebeu uma edição gráfica primorosa de Clô Barcellos, fundadora da Editora Libretos, que lhe deu o aspecto dinâmico de um jornal. É um calhamaço de dois quilos vendido a R$ 40 nas bancas da Entrelivros e da Palmarinca.
Ao organizar os catadores de lixo em galpões de reciclagem, Cecchin se tornou uma das maiores personalidades da história gaúcha no século XX. Por sua fidelidade às causas populares, era respeitado pelas autoridades envolvidas com educação, saúde e assistência social no Rio Grande do Sul. Entretanto, é pouco conhecido fora da área social, pois trabalhava sem chamar atenção para si.
Sua história pessoal tem servido como inspiração para os jovens e referência para adultos preocupados com as injustiças sociais e as desigualdades econômicas no Brasil e no mundo.
Filho de pais pobres que trabalhavam na chácara dos maristas em Santa Maria, viveu a vida inteira à sombra da instituição religiosa criada em 1817 pelo francês Marcelino Champagnat.
Formado em Letras e em Direito, foi professor em três colégios maristas, trabalhou na Faculdade de Filosofia da PUC e ganhou bolsa de estudos do governo gaúcho em Paris. Na época do Concílio Vaticano II (1961-63), trabalhou nos bastidores da Santa Sé, em Roma, onde se desencantou com os meandros do poder na Igreja Católica.
Ao voltar para o Brasil, engajou-se integralmente na causa da Teologia da Libertação, que prega a “opção preferencial pelos pobres”. Além dos ícones do catolicismo, Cecchin admirava na época o Papa João XXIII, o arcebispo pernambucano D. Helder Camara e o sociólogo Paulo Freire, criador da Pedagogia do Oprimido.

Nas lutas sociais e políticas, envolveu-se com participantes da luta armada contra a
ditadura. Em 1969 foi preso por ajudar Frei Betto, dominicano mineiro que colaborava com a Aliança de Libertação Nacional, liderada por Carlos Marighella. Em 1980 apoiou a fundação do Partido dos Trabalhadores, que lhe devolveria o apoio a partir da eleição do sindicalista Olívio Dutra para a Prefeitura de Porto Alegre, em 1988.
Como orientador de comunidades eclesiais de base, amparou desempregados, organizou catadores/catadoras e apoiou invasões de terrenos públicos para construção de moradias populares. “Só usei minha carteira de advogado para dar carteiraço à direita e à esquerda quando, em apoio a povo organizado em meios urbanos, ajudei a fazer ocupações de terrenos…”, disse num longo depoimento ao Instituto Humanitas, da Unisinos (http://www.ihu.unisinos.br/?id=537856).

Quase sempre de boné na cabeça, Cecchin aderiu à luta dos sem-terra por uma reforma da legislação agrária. A partir de certo momento de sua vida identificou-se com a figura de Sepé Tiaraju, o líder nativo morto em 1756 pelos colonizadores europeus.
A “Terra Sem Males” mencionada no título do livro é uma referência direta ao Nhengatu (Paraíso) dos guaranis. Para Cecchin, a Igreja Católica deve o título de santo a Sepé Tiaraju, a quem se atribui a frase “Esta Terra Tem Dono”.
Biografia de Antônio Cecchin, um marco para a Feira do Livro
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