Brasil prepara mega-Proálcool

Geraldo Hasse, especial para o JÁ

O Brasil está preparando um grande salto na produção de cana para atender à demanda internacional por etanol. Estudo da Universidade de Campinas, encomendado pelo Ministério de Ciência e Tecnologia, estima que nos próximos 20 anos o país poderá aumentar de 2,8 bilhões para 200 bilhões de litros a exportação de etanol. Para chegar a esse patamar, capaz de render 100 bilhões de dólares por ano, o Brasil terá de aumentar a área cultivada dos atuais 5,6 milhões para 20 milhões de hectares.

A expansão se daria principalmente no cerrado, onde a cana pode ocupar – como já vem ocupando, só que em ritmo lento – áreas de pastagens anti-econômicas. A um ritmo de mais um milhão de hectares de cana por ano, haveria uma expansão dos canaviais também em outros ecossistemas como a Amazônia e o semi-árido. O Instituto Agronômico de Campinas já foi consultado sobre a possibilidade de produzir variedades aptas a atravessar o período de estiagem do cerrado, onde não chove de maio a outubro.

Além de grande investimento agrícola, esse projeto exigirá a implantação de usinas de produção de etanol. Em ambos os casos, não faltariam parceiros interessados em participar da grande empreitada. Entre os candidatos, destacam-se os japoneses, norte-americanos e europeus. De uma forma ou de outra, todos eles já investem no cerrado. Os japoneses financiaram a ocupação do cerrado com café e soja. Os americanos vêm investindo em grandes lavouras de soja. Trading companies internacionais são as principais negociadoras da produção agrícola dos estados do centro-oeste brasileiro.

Na prática, o que está se configurando é um programa vinte vezes maior do que o Proálcool, criado em 1975 no governo do general Ernesto Geisel para enfrentar o desafio do encarecimento do petróleo pelo cartel da Organização dos Países Produtores de Petróleo (OPEP). O Proálcool demorou a decolar. Foi inicialmente boicotado pela indústria automobilística e, mais tarde, pela Petrobras. No auge, em meados dos anos 1980, o programa deixou de contar com o aval do governo. Entregue à própria sorte, chegou a produzir 10 bilhões de litros de álcool por ano – apenas para o mercado interno.

Na entrada do século XXI, sem usar toda sua capacidade instalada – estimada em 16 bilhões de litros/ano -, o Brasil estava produzindo cerca de 13 bilhões de litros de álcool por ano para serem usados apenas como aditivo da gasolina. A exportação não passava de 500 milhões de litros por ano. Os importadores compravam o etanol brasileiro para a indústria química.

A entrada em vigor do Protocolo de Kyoto, em fevereiro de 2005, provocou uma lenta mudança no comportamento dos países poluidores. A ascensão do álcool como antipoluente é a mais recente conseqüência da tomada de consciência dos consumidores e dos governantes do mundo.

O lançamento dos motores bicombustíveis, aptos a consumir tanto álcool como gasolina, recolocou na ordem do dia a questão da biomassa como fonte energética. Com todos os problemas em torno do carro a álcool, o Brasil é uma referência mundial no assunto. A liderança brasileira na produção de cana, açúcar e álcool está consolidada. O álcool substituiu parcialmente a gasolina, mas se firmou mesmo como aditivo. Agora, é definitivamente alternativo. Só que tem muito mais futuro do que a gasolina, pois é renovável, não polui e, transcendendo o aspecto energético, tornou-se o insumo certo para ajudar na redução dos níveis de poluição ambiental provocada pela queima de combustíveis fósseis.

Até agora, o mercado internacional de etanol estava em banho-maria. O protecionismo agrícola na Europa e nos Estados Unidos impedia que o álcool de biomassa se transformasse numa commodity. Agora, com o relatório da ONU sobre as mudanças climáticas divulgado no dia 2 de fevereiro, iniciou-se uma corrida para reduzir a poluição atmosférica.

Em conseqüência, a indústria canavieira brasileira tende a assumir a liderança nas exportações nacionais. Deverão importar grandes volumes o Japão, a Europa e os Estados Unidos. Em sua visita ao Brasil, em março, o presidente norte-americano George Bush deve tratar do assunto com Lula, que está bem informado. Ele sabe que em abril de 2004 a Câmara de Representantes dos Estados Unidos aprovou a legislação que cria um mercado interno de 19 bilhões de litros/ano de álcool anidro até 2015. Isso representa um Proálcool e meio.

Os americanos fazem álcool com as sobras do milho que produzem, mas vão ter de importar quantidades crescentes de álcool do Brasil. É uma grande oportunidade para São Paulo, Minas Gerais e Goiás, que lideram a produção de cana, mas até mesmo o Rio Grande do Sul poderá tirar partido da mudança que vem aí. Por causa do frio há limitações para a lavoura de cana  no Sul, mas de qualquer vegetal é possível produzir etanol.

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