Naira Hofmeister
O tempo escasso para a produção do projeto e a exigência de que o arrendatário do Cais Mauá possuísse um patrimônio mínimo de R$ 400 milhões levaram um grupo de arquitetos residentes em Miami a desistirem de participar da licitação pública de revitalização da área.
“Estávamos muito empolgados e chegamos a avançar em pactos e parcerias, porém, eram apenas três meses entre o lançamento do edital e a apresentação das propostas e não houve tempo hábil para formalizar os contratos e detalhar os projetos”, lamenta a engenheira civil e hoje professora de arquitetura na Miami Dade College, Adriana Schönhofen Garcia.
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Natural de Belém do Pará, Adriana se “considera gaúcha”, já que a família é do interior e ela mesma morou durante muitos anos na Capital do Rio Grande do Sul. Entre idas e vindas dos Estados Unidos, onde cursou arquitetura (após a conclusão da graduação em Engenharia Civil na Ufrgs), ela estava em Miami em 2010, quando a licitação para revitalização do Cais Mauá foi lançada pelo governo do Estado.
“Soube pelos jornais e decidi participar. Achei o modelo proposto ruim e queria mostrar uma alternativa. Consegui o apoio de um arquiteto norte-americano muito reconhecido – Bernard Zyscovisch, que já ganhou a medalha de ouro do Instituto dos Arquitetos dos Estados Unidos (AIA, na sigla em inglês). Ele se entusiasmou com as possibilidades que via para o espaço”, rememora.
Adriana falou ao JÁ por videoconferência, porém esteve recentemente em um ato do coletivo Cais Mauá de Todos na abertura da 61ª Feira do Livro de Porto Alegre.
A primeira dificuldade para convencer o colega e sua equipe a ingressarem na disputa foi o idioma. Embora fosse considerada uma licitação internacional todo o material disponível estava em português. “Eu pensei: meu deus, como vou fazer para traduzir tudo isso sozinha?”, revela.
Superada a passagem à língua estrangeira, Adriana anteviu um problema de tempo: entre o lançamento do edital e a entrega das propostas havia apenas três meses, no qual seria preciso fazer o projeto arquitetônico. “Apesar de ser curto, avaliamos que seria possível detalhar tudo em dois meses para em seguida, sair atrás de parceiros”, explica.
Esse, aliás, outro entrave na concepção da arquiteta: o vencedor do certame precisaria demonstrar um patrimônio de R$ 400 milhões – coisa que o escritório de arquitetura, embora famoso, não possuía. Ela garante que conseguiu vender a ideia a grandes empresas com tal capital: uma construtora com sede em São paulo e até uma gerenciadora de imóveis. “O problema é que era preciso apresentar os contratos e isso foi impossível”, lamenta.
Regras favoreceram vencedor
Adriana acredita que esses itens favoreceram a vitória do consórcio Cais Mauá do Brasil, que atualmente tenta dar prosseguimento às obras, embora venha sofrendo críticas e até questionamentos do Tribunal de Contas do Estado.
Ela explica: a licitação de revitalização foi feita a partir de um conceito desenhado anteriormente por pessoas que depois formaram o grupo Cais Mauá do Brasil, como o arquiteto curitibano Jaime Lerner e as empresas espanholas Gis Trade Center e Spim (que depois, abandonariam o consórcio em uma operação investigada pelo Tribunal de Contas do Estado).
Isso significa, na análise de Adriana, que enquanto os demais concorrentes tiveram apenas três meses para pensar um projeto que guardasse semelhanças com o modelo proposto pelo Estado – e desenvolvido pelo grupo de Jaime Lerner – o Cais Mauá do Brasil trabalhava com a ideia havia quase três anos, já que a primeira licitação, do modelo de negócio, foi lançada em julho de 2008.
“É injusto”, assevera, para logo explicar: “Eles não apenas tiveram mais tempo para experimentar possibilidades, como puderam sair em busca de parceiros com toda essa antecedência”.
Tem mais: o edital de arrendamento da área previa que o consórcio vencedor deveria ainda pagar os custos do projeto desenvolvido na primeira etapa, de R$ 700 mil. “Só que sabendo que o mesmo escritório que criou o conceito estará concorrendo, ninguém vai querer utilizar o que eles projetaram como base, pois é evidente que as melhores soluções seriam as deles, que já estavam há anos trabalhando nelas”, observa.
Trocando em miúdos: seria dinheiro posto fora por qualquer outro grupo que vencesse a licitação.
Consórcio não cumpre exigências
O que mais incomoda Adriana é ter abandonado a licitação por não poder cumprir os requisitos técnicos e dar-se conta de que o grupo vencedor tampouco os apresentou. É o que diz um relatório do Tribunal de Contas do Rio Grande do Sul (TCE-RS), cujo conteúdo foi levado pelo coletivo Cais Mauá de Todos ao Ministério Público.
Recentemente, o jornal Zero Hora detalhou as irregularidades apontadas pelo órgão. Entre elas estão justamente a “falta de garantias financeiras”, ou seja, a comprovação de um patrimônio mínimo de R$ 400 milhões e a falta de apresentação dos projetos executivos em um prazo de 120 dias após o certame. Essa falta gerou uma multa aplicada ao consórcio de R$ 2,7 mil.
Adriana, que tem um olho treinado para avaliar projetos porque é professora de arquitetura no Miami Dade College – a maior instituição de Ensino Superior dos Estados Unidos – se surpreende com os esboços conhecidos publicamente.
“Tem qualidade inferior a de trabalhos de alunos do primeiro semestre; não tem conteúdo, só imagens enfeitadas”, lamenta a profissional.
Cais Mauá: grupo internacional desistiu de participar da licitação
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