Tania Faillace*
Estive na audiência, porque essa é uma luta que vem de longe, inclusive junto com os portuários.
Revitalização de um cais significa corretamente: modernização e reestruturação da função portuária, fundamental para o desenvolvimento econômico do RS.
O objetivo real dessa proposta ridícula de inutilizar em definitivo o porto para nele instalar comércio varejista – Porto Alegre é a cidade brasileira com maior número de shoppings por habitante – é impedir a retomada plena do transporte aquaviário, assim como já se travou a expansão da rede ferroviária.
São essas as modalidades seguras, eficientes e econômicas para o translado de pessoas e mercadorias, cuja falta vem provocando encarecimento da operação produtiva, sobrepreço nos produtos, além do absurdo de transportar safras inteiras através de centenas ou milhares de carretas, que seriam vantajosamente substituídas por alguns navios e alguns comboios.
Trata-se do lobby rodoviarista – iniciado com JK – favorecendo as empreiteiras com a manutenção permanente das estradas, destroçadas por excesso de peso (sem falar do número de mortes e acidentes ocasionados por esse tráfego irracional e perdulário).
Esse lobby também tem suas broncas com o transporte aeroviário – como ficou patente em uma das visitas do ministro Padilha, que parecia interessado em acabar também com o aeroporto Salgado Filho. Nesse caso, é interessante lembrar, havia quem quisesse vender um terrenão para um aeroporto PRIVADO.
Trata-se, pois, do vampirismo contra o Estado, o interesse público e dos cidadãos e produtores de nosso País.
Temos que revitalizar, sim, o cais Mauá. Temos que revitalizá-lo como porto, capaz de cumprir suas responsabilidades na triangulação do transporte de carga de todo o Estado através de nossa rede fluvial, até Porto Alegre, e daí a Rio Grande, e de Rio Grande ao mundo.
É mentira que a extensão do cais Navegantes possa substituir o Mauá, porque não tem subsolo consistente para suas responsabilidades. E se observarmos a extensão de todo o cais, a partir de alguma das ilhas do Delta, não deparamos com um só navio seja de que porte for.
A ânsia para o apoderamento privado de área pública (neste caso federal) passa por cima de todas essas considerações do interesse maior do estado do Rio Grande do Sul.
Shoppings se fazem em qualquer lugar. Portos são estruturas especialíssimas e de valor estratégico geral, que não se constróem à-toa, em qualquer lugar, por preços de ocasião.
São maus gaúchos e maus brasileiros, aqueles que propõem mais shoppings para destroçar de vez o minguado comércio portoalegrense, que vem decaindo justamente em função do excesso de shoppings, que são empreendimentos imobiliários construídos de costas para o interesse do comércio de varejo.
Sequer o governador gaúcho que tanto se queixa de miséria e falta de arrecadação, parece ter percebido que, sem incrementar a economia estadual através de investimentos/incentivos para sua maior produtividade e melhor transporte e distribuição, não haverá de pagar suas contas – ainda que os CCs gaúchos não se tenham queixado até agora.
Queremos navios em nosso porto. Navios de carga. Navios de passageiros. Navios e barcos de turismo. Navios-escola. Navios científicos (Jacques Cousteau já esteve aqui). Navios de guerra de nossa Marinha. Tudo isso é cultura.
Por outro lado, o cais Mauá não é local para play ground infantil, porque sua fundura ultrapassa os sete metros, e parece contar com repuxo. É área para trabalho, em condições de oferecer ocupação para muita e muita gente, e impulsionar a economia gaúcha.
* Jornalista e escritora de Porto Alegre.
Cais Mauá: projeto de revitalização impede retomada do transporte aquaviário
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