Câmara levanta mapa do livro

Guilherme Kolling

Um levantamento inédito da Câmara Riograndense do Livro vai revelar o número e a localização das livrarias no Rio Grande do Sul. A pesquisa deve ficar pronta em 2007.

“O empresário terá um mapa completo, onde poderá ver as carências e as oportunidades em todo o Estado”, observa o presidente da Câmara do Livro, Waldir da Silveira. A falta de pontos de venda é uma das principais queixas de editores e distribuidores.

A Câmara estima que dois terços dos municípios gaúchos não tenham livraria. “Isso acontece até em cidades com 100 mil pessoas, quando a Unesco recomenda uma livraria para cada 10 mil habitantes”, lembra Paulo Ledur, ex-presidente da CRL e diretor da AGE Editora.

Se o interior sofre com a escassez, Porto Alegre vive outra realidade desde que começaram a chegar as grandes redes, como Saraiva, Siciliano, Porto e Cultura, que instalaram lojas imensas nos shopping centers da cidade. Uma conseqüência imediata foi o fechamento de diversas lojas pequenas. “É uma tendência perigosa que se observa no Brasil, pois afeta o ponto de venda e por conseqüência os editores”, lamenta Ledur.

Ledur reclama da falta de pontos de venda no Estado (Foto: Guilherme Kolling/JÁ)

Luis Gomes, editor da Sulina, não tem ilusões: “A tendência é que surjam mais dessas grandes livrarias. E a presença delas resulta na queda do livreiro de bairro, que terá cada vez menos espaço”. João Cervo, proprietário das livrarias Cervo e tesoureiro da CRL vai no mesmo tom: “As mega estão centralizando o mercado”.

O presidente da Câmara do Livro, Waldir Silveira, procura relativizar o efeito: “Sempre existe um impacto com a chegada das grandes. Mas elas estão ocupando uma lacuna deixada no mercado pela quebra da Sulina, da Mercado Aberto e a crise da Globo”.

“Pequeno tem que se especializar”

“É pena que estejam fechando as livrarias de calçada em função das grandes cadeias porque, salvo exceção, o atendimento é muito ruim. Vendem sapatos ou livros do mesmo jeito”, lamenta João Carneiro, editor da Tomo Editorial.

Ele acha que a tendência do consumidor é ir ao shopping e que “a livraria, como espaço de convivência, onde o livreiro orienta o cliente sobre as novidades,  infelizmente, está acabando”.

O representante dos livreiros na Câmara Riograndense do Livro, Vitor Zandomeneghi, entende que a chegada das grandes empresas é um fenômeno natural do capitalismo. “A economia é movida por essas regras, busca-se ganho de escala, por isso essa onda de fusões, essa concentração”, avalia.
Ele acha, no entanto, que há soluções e aponta o exemplo dos minimercados, que se mantiveram mesmo com a vinda de Carrefour, Sonae e Wall-Mart. “Os pequenos terão que se habituar à concorrência e resistir”.

O diretor da L&PM, Paulo Lima, concorda que as grandes redes, salvo exceções como a Cultura, pecam no preparo do balconista. E vê nisso uma oportunidade para o pequeno, “que pode dar um atendimento personalizado”. “O livreiro precisa de uma identidade que o diferencie”, concorda Zandomeneghi. “É necessário desenvolver um nicho, atividades na loja, estreitar relacionamento com clientes, criar promoções”, sugere o diretor da Artes e Ofícios, Luís Fernando Araújo.

“O filão do pequeno livreiro é a especialização”, repete o presidente da Câmara do Livro. “Tem que oferecer um bom serviço, com funcionários qualificados, que conhecem o livro, sabem falar das obras, como faz com sucesso o Rui, da Palmarinca. Ou ter um mix de atividades, como a Palavraria e a Livraria do Arvoredo”, exemplifica Silveira.

“Aqui não tem Paulo Coelho”

Naira Hofmeister

O pequeno livreiro começa a buscar alternativas para competir com as megastores. Comprando grandes quantidades de livros, as redes ganham descontos que podem chegar a 60%, enquanto a livraria recebe entre 25% e 30%. Uma saída seria a Lei do Preço Fixo, como propõe a Associação Nacional dos Livreiros.

Na Europa, a lei limita em 6% o desconto que pode ser dado a um lançamento, no primeiro ano. Aqui, enquanto a proposta não vira lei, a saída é se aproximar do cliente e resgatar a relação leitor-livreiro. “Quem tem prazer na leitura gosta de escolher com calma, ler trechos e discutir com alguém o conteúdo”, lembra Carlos Luiz da Silva, sócio da Palavraria, que já tem três anos na rua Vasco da Gama. A opinião dos livreiros é que esse leitor não vai à livraria de bairro atrás dos best sellers. “Aqui não tem Paulo Coelho. Se o cliente pede, eu encomendo, mas se colocar na estante, posso até me queimar”, revela Silva.

Além de manter uma prateleira com títulos diferenciados, lançamentos, cursos e o café expresso se tornaram quase um imperativo para as casas de médio e pequeno porte. Foi isso que perceberam os proprietários de duas novas livrarias do Bom Fim. “Fizemos uma pesquisa com clientes e, mais do que ter um site, eles acham necessário o café e o espaço cultural”, relata Blásio Hickmann, que durante 25 anos manteve a Livraria Digital – especializada em informática – e agora aposta na diversificação do acervo, com a Letras & Cia, na avenida Osvaldo Aranha.

Natalie Illanes Nogueira veio de São Paulo com dois amigos para abrir a Zouk, uma loja onde os clientes encontram “livros renegados pelas grandes livrarias”. Durante a reforma da casa na rua Garibaldi, ela conta que foram tantos os pedidos para que a livraria tivesse um café que não viu alternativa. “Apesar disso, é raríssimo alguém entrar aqui só para isso”.

Ventura busca saída na internet

O fim de 2006 deve marcar o encerramento das atividades de mais uma livraria no centro de Porto Alegre. Desta vez é a Ventura, que há quatro anos funciona numa loja alugada na Marechal Floriano Peixoto, 489. O atendimento à clientela será mantido por telefone e Internet. “Vou ter um custo cinco vezes menor e manter 70% da clientela”, diz o proprietário Gustavo Ventura, o Gus. “A geração que renovaria as vendas de balcão é internauta, usa muito o computador. A partir do acervo virtual estou atingindo gente da Paraíba, por exemplo, que jamais viria até a loja comprar”.

Com 13 anos de experiência no mercado livreiro da capital, Gustavo vê a figura do livreiro se tornando anacrônica, como o amolador de facas. “Não há mais a relação afetiva com o espaço da livraria, nem com o proprietário”. Mesmo assim, ele espera que a solução virtual seja temporária e que com os resultados possa voltar ao que realmente gosta – a atividade no balcão em meio às prateleiras de livros e em contato com os clientes. “É uma estratégia para enfrentar um momento de crise”, diz. “Pretendo usar a ferramenta da Internet para sustentar o projeto do balcão, do perfil da Ventura, da constituição de um acervo de bons títulos, independente de preço”.

Ventura: recuo estratégico na livraria (Foto: Naira Hofmeister/JÁ)

Ao serem informados da crise, alguns clientes tradicionais tentaram reagir. Um deles despachou um e-mail com um apelo no melhor estilo S.O.S, pedindo aos amigos que fossem até o balcão comprar os títulos que pudessem para salvar a Ventura. “Aquela livraria com iluminação discreta, silenciosa, que só tinha livros e não nos entupia com badulaques de papelaria. Dava para ficar em silêncio, para sentar num banquinho e ler. Suspendia o tempo”.

Gustavo recebeu muitos telefonemas e manifestações de apoio, mas nada que pudesse reverter a situação. Parte do acervo, cerca de 3 mil títulos, já estão no site www.estantevirtual.com.br.

Prosa i Verso fechou as portas

Outro exemplo das dificuldades dos pequenos é a Prosa i Verso, livraria de 23 anos que fechou as portas em outubro. Referência para fãs de literatura, o espaço foi homenageado com um texto de Luis Fernando Verissimo na inauguração. Ainda que a proprietária Sara Turkenitch sublinhe que a decisão foi resultado da vida pessoal e não do mercado, ela admite que está mais difícil manter uma livraria. “A entrada da Saraiva até não prejudicou muito, mas depois que a Cultura chegou nós sentimos, porque lá virou um point”. A instalação da Siciliano no shopping Moinhos também dividiu a clientela da Prosa i Verso.

Gilberto Tarakdian, proprietário da Rogil Livraria, também foi atingido pelas novas megastores. Ele chegou a ter três filiais, todas com grandes espaços. Hoje opera num espaço pequeno no Centro Comercial Bom Fim. “A gente tinha uma loja na 24 Outubro que ia bem, mas com a construção do shopping Moinhos, fomos obrigados a fechar”, lembra. Os livreiros concordam em um outro ponto: a época áurea da venda de livros na Capital foi o início dos anos 90. Mas da segunda metade em diante, os clientes começaram a sumir. Sara acredita que não é um caso isolado. “Não conheço segmento isento da crise”.

Sebos também reclamam

Mesmo os donos de sebos – que trabalham com faixas de preço inferiores ou com títulos esgotados – reclamam da queda nas vendas. Mas a culpa não recai sobre as grandes redes. “Há espaço para todos no mercado”, garante Neiva Maria Piccinini, sócia do Beco dos Livros, que mantém 6 lojas no centro de Porto Alegre. No caso dos usados, o problema é a renovação da clientela. Os antigos consumidores estão morrendo e os jovens não adquiriram o hábito de freqüentar sebos. “Não sei onde foram parar os velhinhos poliglotas que levavam livros em três ou quatro idiomas”, lamenta Eduardo Luizelli, proprietário da Livraria Aurora, que chegou a ter quatro lojas no auge dos seus 50 anos.

Hoje, afogado nos 150 mil volumes da loja que restou, Luizelli planeja a aposentadoria. Gustavo Venura, que também vende usados, diz que o principal público – universitário – tem pouco tempo para ir até o Centro. Prevendo o problema, Carmem Menezes implantou em 1998 o site A Traça, que comercializa usados pela Internet. “No início era devagar, mas hoje vendemos diariamente e somos conhecidos nacionalmente”. A tendência, na opinião dos livreiros, é que o mercado virtual cresça ainda mais. Mas é pouco provável que os sebos acabem. “A maioria dos clientes que entra aqui gosta de ficar com as mãos sujas de pó, procurando o livro que quer”, observa Neiva.

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