Carlos Araújo e a luta armada: "Foi uma rebeldia cega"

Morreu neste sábado, 12/08, o ex-deputado Carlos Franklin Paixão Araújo, 79 anos.
Araújo foi um dos fundadores do PDT, partido no qual foi ligado a Leonel Brizola e pelo qual se elegeu deputado estadual por três vezes. Era advogado trabalhista e tinha escritório em Porto Alegre. Ele deixa uma única filha, com a ex-presidente Dilma, Paula Rousseff de Araújo.
Durante da ditadura militar, ele foi militante da organização Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (Var-Palmares), onde conheceu a ex-presidente Dilma Rousseff, com quem foi casado.
A Santa Casa de Porto Alegre confirmou o falecimento, na madrugada deste sábado. Ele estava internado desde o dia 25, com problemas pulmonares crônicos e uma infecção das vias aéreas, na unidade de terapia intensiva do Pavilhão Pereira Filho.
O velório será na Assembleia Legislativa, das 15h às 21h deste sábado. Em seguida, o corpo será cremado em cerimônia privada com a família. 
A ex-presidente Dilma estava no Rio de Janeiro quando soube da notícia, mas já retornou para Porto Alegre. 
Para lembrar o pensamento e a trajetória de Araújo, o JÁ republica a entrevista para a edição especial da revista sobre os 50 anos da ditadura de 1964
ELMAR BONES
A esquerda que pegou em armas contra a ditadura de 1964 acreditou que poderia queimar etapas e pular direto para o socialismo. Sem apoio popular, os guerrilheiros ficaram isolados e foram trucidados.
Esta é a síntese que se pode extrair de uma conversa com Carlos Araújo sobre esse período de trevas, que a história rotulou de Anos de Chumbo (1969/1975), quando muitas organizações pegaram em armas para derrubar o regime militar.
Ele tem autoridade para falar. Filho de um advogado comunista, viveu infância e adolescência em meio a reuniões políticas e a conspirações. Em 1964, estava mergulhado até o pescoço nos movimentos sociais que pressionavam o governo Jango por reformas.
Com Francisco Julião, o líder das Ligas Camponeses, percorreu a América Latina, conheceu Fidel Castro e Che Guevara.
Foi preso por alguns meses depois do golpe e voltou à ativa, organizando trabalhadores e defendendo sindicatos em Porto Alegre.
Depois do AI-5, convenceu-se de que o caminho para enfrentar a ditadura era a luta armada. Nesse período conheceu e casou com Dilma Rousseff. Preso e torturado, tentou o suicídio para se livrar dos suplícios.
Amargou quatro anos de cadeia e, com a redemocratização, retomou a vida política, ajudou a fundar o PDT, foi eleito deputado estadual três vezes e foi candidato a prefeito de Porto Alegre, onde vive e, aos 77 anos, ainda cumpre sua rotina de advogado trabalhista.
Ele recebeu o repórter duas vezes em sua casa para falar das experiências do guerrilheiro Max. O que segue é um resumo dessas conversas.

Não está na hora de uma autocrítica sobre a luta armada?

É importante fazer essa revisão. É o momento de mexer nisso, mas com muito cuidado, tem muita gente viva e são pessoas corretas, embora equivocadas politicamente.
Foi equívoco de quem?
É preciso ver um pouco da formação da esquerda brasileira e latino-americana. Até 1956, por aí, rigorosamente a esquerda era só o partido comunista, em vários países. Tinha uma esquerda trotskista, pouco expressiva. O “Partidão” era tão respeitado socialmente nessa época que o cara que saía ou “era saído” ficava malvisto, ficava “queimado”. Eu pude acompanhar isso tudo, entrei para o partido comunista com 14 anos. Meu pai era comunista e veio para Porto Alegre para ser advogado dos sindicatos. Foi o primeiro advogado no Brasil a defender só trabalhadores.
Nessa época, os comunistas faziam forte oposição a Vargas…
Totalmente contra. Lembro que fizeram uma reunião do partido na minha casa, de manhã… eu estava curando uma pneumonia… De repente nós ouvimos tiros, saímos para ver. Era uma multidão nas ruas quebrando tudo e partindo pra cima do Exército. O Getúlio havia se matado… e nós preparando um manifesto contra ele.
Era o 24 de agosto de 1954…
A multidão, sem ninguém que orientasse, foi de jornal em jornal quebrando tudo… Rádio Farroupilha, Diário de Notícias, a imprensa que atacava o Getúlio. Eu fui junto, de repente a massa se dirige para a sede da Tribuna Gaúcha, o jornal do Partidão… A multidão foi lá e quebrou tudo. Fiquei chocado, louco com aquilo… algo estava errado! O povo está de um lado e nós estamos de outro!
O povo estava com Vargas…
Aí veio o relatório do (Nikita) Kruschev, O Estado de S. Paulo publicou na íntegra, num caderno especial. Fomos questionar a direção do Partidão, na época: o Luiz Carlos Prestes, o Giocondo Dias (que era quem mandava mesmo), o Mário Alves, o Jacob Gorender, o João Amazonas, o Carlos Marighella, os caciques. O Partidão respondeu dizendo que era tudo falso.
Coisa da imprensa burguesa…
Exato. Aí, em 1957, no 5º Festival da Juventude, em Moscou, quase 40 mil pessoas de vários países, a delegação brasileira foi com 500 pessoas. Lá, vimos que o povão estava com o Stalin. Custamos a entender esse processo, mas, quando voltamos, fomos questionar a direção do partido. Aquilo não era coisa da imprensa burguesa, nós vimos lá dentro do Kremlin. Houve um debate, acabamos saindo do Partidão.
Foi a primeira dissidência…
Formamos a Associação de Estudos e Debates Castro Alves, que reuniu uma gurizada, quase mil jovens. Alugamos uma sala grande na Galeria do Rosário, que estava em construção. Foi um período de grande agitação e iniciativas precursoras. Mas o problema era o seguinte: não tinha pra onde ir, não tinha mais esquerda. Não ia aderir aos trotskistas, não ia voltar para o Partidão. Então caiu do céu a Revolução Cubana. Ficamos fidelistas, debraystas. Então vamos estudar Debray (Regis Debray), a teoria do foco, a guerrilha. “Somos cubanos”. Quando começamos a ativar os focos, em Goiás e Mato Grosso, o Jango assumiu o governo e com isso desviamos o nosso foco. Como iríamos fazer guerrilha com o Jango no poder?
Como era a esquerda nesse momento?
Havia o Partidão, com muitas dissidências, os trotskistas, o PCdoB e nós, os debraystas, os foquistas. Quer dizer, chegamos em 1964 com as esquerdas fragilizadas, divididas, sem base teórica, ninguém tinha conhecimento, nunca estudaram a história dos países. Nós fomos ser foquistas porque não tínhamos preparo político. Se tivéssemos maior preparo teórico, conhecêssemos mais o marxismo, não teríamos seguido esse caminho. A nossa ignorância, o exemplo de Fidel…
Cuba era o grande exemplo…
A Revolução Cubana era uma coisa maravilhosa, que emocionava a todos nós, na nossa cegueira, parecia o único caminho. A luta armada no Brasil é produto da rebeldia contra a ditadura, mas uma rebeldia cega, mal direcionada. Hoje eu posso dizer que tenho orgulho de ter feito isso, era jovem, desprendido, fomos para o pau, porque achávamos que tínhamos que ir, embora estivesse errado em tudo.
Não tinham base popular.
O MDB veio nos mostrar que estavam certos, a realidade mostra isso. Em 1974, com a vitória nas urnas, foi o começo da libertação, da queda da ditadura. Nós, da esquerda despreparada, não tínhamos outro caminho a não ser o esquerdismo, o espontaneísmo. Tinha Cuba, o discurso de Fidel… a ideia de que se ele fosse brasileiro, a ditadura não duraria um dia a mais no Brasil… Ora, aquilo para Cuba estava bem, até para a Nicarágua foi bom; pro Brasil, não.
O que seria bom para o Brasil?
A realidade brasileira era uma ditadura violenta e, tentando confrontá-la, uma esquerda muito frágil. Aquilo que o Lênin chamava de a doença infantil do comunismo. Se olhar a história da esquerda brasileira, é um fracasso completo. O Prestes era uma nulidade política. Quando ele acertou foi por oportunismo, mas tão fugaz que não teve significado nenhum. Foi um cara dedicado, um excepcional estrategista militar, um companheiro brilhante, tudo bem, mas essa é outra história. A trajetória política real é um desastre. Em 1934, Getúlio escreveu um bilhete para o Osvaldo Aranha dizendo assim: “Osvaldo, esses comunistas aí são os nossos principais aliados, pena que eles não sabem, porque são muito ignorantes.” E, realmente, um ano depois tentaram derrubar o Getúlio com uma quartelada imbecil.
Também um grave erro de avaliação.
Então, a luta armada no Brasil é fruto da violência da ditadura e do confronto com a esquerda espontaneísta. Só podia dar no que deu, fomos destruídos. Quando a ditadura brasileira apertou, em dois anos liquidou com a luta armada. O problema é que não reconhecíamos nossa fragilidade. Dá para contar detalhadamente sobre essa fragilidade, onde ela se revelava. Não agora, talvez…
Se revelava nos rachas…
E na cadeia… aí a coisa se revelou da forma mais grotesca, violenta possível, nada ético, nada moral. Porque tu tá fechado numa sala e vem todo o ódio pra cima de ti, 24 horas por dia. Eu estive num cadeião, com 700, 800 presos. O pau quebrava, violência total.
Qual é a conclusão?
Nós temos que nos orgulhar por termos ido à luta, desprendidos, alguns perderam suas vidas, mas isso é insuficiente para a vitória. Isso pode ensinar um comportamento, a viver no perigo, mas não ilumina ninguém teoricamente e não faz que entenda a realidade. Claro, discutir isso mais detalhadamente é importante, mas vai atingir pessoas que estão aí, algumas influentes na sociedade, pessoas honestas… E alguns não irão admitir essas coisas, seus comportamentos na cadeia, é compreensível…
Foste preso em São Paulo?
Fiquei dois anos preso em São Paulo e fui transferido para Porto Alegre, na Ilha do Presídio. Aquilo era antiga Casa da Pólvora, paredes de pedra bruta, quase um metro, e só tinha uma entrada. Lá dentro botaram um assoalho, e dividiram em celas, abertas, tinha uns 50 presos ali. Aí instituímos uma rotina de estudos, criamos a Associação de Presos da Ilha do Presídio, tiramos CNPJ, e até ganhamos uma licitação da Brigada Militar para fazer cinturão, coldre e outras coisas de couro. Produzíamos muita bolsa de couro, era moda, e os familiares vendiam pra nós no Centro. De manhã nós estudávamos. Ali na ilha eu fiquei pouco tempo, seis meses, depois fomos levados para o Presídio Central. Na verdade eu e um companheiro, o Elói Martins, estávamos marcados para morrer, mas consegui avisar meu pai na noite em que iam nos levar… ele botou a boca no trombone e o plano furou.
Houve tortura no início?
No início, lá em São Paulo, me bateram muito, apanhava até desmaiar. Tanto que decidi me matar, inventei que tinha um ponto com o Lamarca (o que eles mais queriam) e quando cheguei na rua me atirei embaixo de uma Kombi. Fui pro hospital todo quebrado, fiquei nove dias, quiseram me torturar no hospital, mas uma freira impediu.
Por que não houve, até hoje, uma autocrítica sobre a luta armada?
Porque nós não somos uma esquerda evoluída, embora tenhamos melhorado bastante em alguns aspectos. E também porque uma autocrítica mais profunda envolve referência a pessoas e muitas estão aí vivas. Não querem se envolver mais com isso. Há um infantilismo político também, mas falta distanciamento histórico.
Por que havia tantos rachas?
Todos tinham como metas a revolução socialista, a divergência era na tática. Os grupos tinham muitos militares, que não viam motivo para se fazer um trabalho urbano, de organização dos trabalhadores. Eles nos viam como bundas-moles, que queriam ficar na cidade, em vez de ir pra Serra. “Em vez de comprar arma tu quer editar jornalzinho”. Aí começavam os rolos intermináveis.
Outra fragilidade era a falta de apoio da população.
Sim. As ações nas cidades eram complicadas por isso. Por exemplo: a gente pegava um caminhão de carne e levava lá pro morro e distribuía com panfletos… ninguém queria saber, só queriam pegar a carne. Abríamos um supermercado pra quem quisesse pegar qualquer coisa, ninguém parava para nos ouvir, pegavam qualquer produto e saíam correndo. Nós fomos assaltar um banco e fizemos discurso em frente ao banco… ninguém parava para nos ouvir. Tinham medo, queriam que aquele assalto acabasse logo. Uma ação desastrosa podia ferir, matar alguém.
Faltou a base popular, da qual a esquerda tanto fala…
A gente não fala muito disso porque é hilário, o esquerdismo é hilário. Então a gente tem que ter essa compreensão. O povo desconhecia a nossa existência e, quando conhecia, ficava contra. Porque nós estávamos fora da realidade.
Qual era a dimensão desses grupos no início?
Aqui nós tínhamos um grupo com muita gente, uns 200 caras organizados, discutindo e fazendo trabalho de base. Aí começamos ver ações em quartéis, em bancos. E marcamos uma reunião com a turma do Colina, no Rio. Fui à reunião,  conheci a Dilma lá. ​Depois fizemos uma reunião com a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e decidimos que o nome seria Vanguarda Armada Revolucionária Palmares. Aí fomos para outra reunião em São Paulo e depois um encontro, grande e demorado, em Teresópolis. Todo mundo com uma metralhadora na mão. As divergências eram muitas e houve momentos de grande tensão. Aí rachou, alguns dos nossos apoiaram a VPR, militarista, e alguns dos deles ficaram ao nosso lado, os “massistas”. E nós ficamos só como VAR Palmares. Não chegamos a fundir com a VPR, cada um foi para um lado.
O cofre do Ademar de Barros foi depois disso?
A ação no cofre do Ademar foi da VAR Palmares e tinha dois caras da VPR, convidados por nós a participar. A VPR tinha as armas, e nós tínhamos o dinheiro. A tentativa de fusão fracassou, mas VAR continuou, a VPR também, até matarem todos. Lamarca foi o último, era um socialista espontâneo.
Havia romantismo?
Havia. A Beth Mendes era da VAR. Tinha 18 anos, queria coordenar uma ação. Fez todo o planejamento de uma ação na casa de um colecionador de armas e foi. Ela fez todo o levantamento. Ela era a artista mais famosa daquela época. O principal assessor dela nessa ação foi o Pérsio Arida… e o Pedro Farkas.
 
Getúlio deu o rumo [da aglutinação das forças sociais]. Ele foi um fenômeno. Eu, que pretendo ser marxista, tenho que admirar Getúlio
 
Havia também um ambiente…
Nesse período havia a mística das revoluções. Havia um ambiente internacional, as esquerdas todas queriam saber o que fazer. Cuba, Nicarágua, Vietnã, na França, em 68. Uma conjuntura internacional em ebulição. ​​O movimento social que havia no Brasil era trabalhismo, onde estavam os operários, os sindicatos. A direita dizia que eram pelegos, porque apoiavam o governo getulista, e a esquerda entrou nesse papo, mas como fazer o Prestes entender isso? O Getúlio ofereceu ao Prestes o comando militar na Revolução de 30. Se o cara fosse um marxista ele tinha que aceitar na hora. Os dois eram amigos e o Prestes não quis papo. Em 32, o Getúlio mandou chamar o Prestes, ele recusou… Há pouco, fui convidado para uma palestra na USP. Estou pensando em falar sobre o Getúlio Vargas. Era Vargas um marxista?
Era?
Talvez. As provas dele na Faculdade de direito estão aí, todas, inteirinhas. Na prova de Economia Política, de 1903, Getúlio, com 21 anos, escreveu: “Minhas referências filosóficas e políticas são Saint Simon, Herbert Spencer e Karl Marx”. Ainda estou pesquisando, mas acho que ele conhecia bem o Marx. No primeiro discurso dele à nação, após a Revolução de 30, ele diz o seguinte: “Meu governo terá por fundamento uma democracia social, uma democracia econômica e uma democracia política. O Estado será o indutor do desenvolvimento. Agora, as rédeas do processo estarão nas mãos firmes das forças sociais”. Ele disse isso, e omitiu a palavra “proletariado”, mas depois ele falava direto a palavra “proletariado”. O governo Lula tinha isso intuitivo. O Lula começou a ler Getúlio, os livros do Lira Neto, e ficou louco, se apaixonou.
O golpe de 64 dizia-se contra o comunismo. Na verdade, era contra os avanços do trabalhismo.
Claro. O Getúlio era um homem muito consciente. Quando tomou o poder em 30, ele tinha em mente uma pergunta: como vai se construir o capitalismo brasileiro? E ele respondeu no primeiro pronunciamento à nação: “No meu governo, haverá por fundamento uma democracia social, uma democracia política e uma democracia econômica. O Estado será indutor do desenvolvimento e as rédeas do processo estarão nas mãos firmes das forças sociais”.
Não há um certo ‘comtismo’ nessa postulação?
Pode ser, mas nessa época, o Getúlio já havia superado o comtismo. Acho que têm outras coisas no meio disso.
O Estado como o “conciliador das classes”…
Ele apostava nisso. Mas o Getúlio rompeu com o comtismo em 1925, 1926. Quando ele criou o Banrisul, em 1928, ele rompeu por completo, porque os comtistas jamais imaginaram que o Estado tivesse um banco. As elites paulistas e mineiras diziam que as tais “forças sociais” não teriam, de forma alguma, condições de conduzir, o processo. Só o capital internacional, que tem experiência e grana. O embate é o mesmo até hoje, só o nível um pouco diferente. Isso foi o que derrubou o Getúlio, em 45. Depois, o levaram à morte em 54, e depois derrubaram o Jango. E levaram o Lula a enfrentar quatro eleições até ser presidente. Porque, de certa forma, o governo Lula deu continuidade àquilo lá.
 
O Brizola já dizia que, na América Latina, a social-democracia é uma revolução. É isso mesmo
 
A linha trabalhista, nesse sentido de aglutinar as forças sociais, é a mesma?
Sem dúvida nenhuma. Getúlio deu o rumo. Ele foi um fenômeno. Veja o seguinte: em 1866, veio a primeira eleição na Inglaterra, o inglês não sabia o que era voto. Sabiam o que era rei. Dois candidatos: um representante do capitalismo que estava nascendo e, o outro, do feudalismo que estava morrendo. O Marx era presidente da 1ª Internacional dos Trabalhadores. Os jornais fizeram a pergunta: em quem os trabalhadores devem votar? O capitalismo na época era aquele negócio terrível das pessoas trabalhando horas e horas sem descanso semanal, crianças trabalhando durante horas, morrendo. O Marx reponde: os trabalhadores devem votar no capitalista, porque é a nova sociedade, que vai trazer progresso, um passo adiante daquela que está morrendo, vai criar uma classe operária forte, aí depois essa classe saberá conduzir uma nova sociedade.
Os marxistas, de modo geral, sempre foram hostis a Vargas…
Sim, porque eles não eram marxistas, achavam que eram. Achavam…
Voltando à ditadura de 1964, o País ainda se ressente daqueles 21 anos, não?
Um dos piores legados da ditadura foi acabar com a vida política estudantil. Uma geração inteira não fez política. Há uma retomada agora, mas é muito difícil. Eu dou palestras em colégios, e noto que querem aprender a fazer política. Eu digo que, com a idade deles, eu já participava de grêmio estudantil, a escola nos obrigava a ter um pensamento político. Uma menina de 17 anos me perguntou o que meus pais diziam de tudo aquilo que nós fazíamos.Isso mostra certa ingenuidade.
O decreto 477 foi para acabar com o movimento estudantil.
Aquilo foi um atraso significativo para o Brasil. E está ligado ao atraso tecnológico, porque nossos principais cientistas foram estudar fora do País. É um milagre que a Embrapa tenha sobrevivido. O descaso com o conhecimento e a tecnologia foi um crime do regime militar quase tão grave como o que aconteceu no campo político. Ficamos para trás. Ainda hoje estamos longe de recuperar o terreno.
Queria retomar… às primeiras tentativas de resistência…
Eu comecei a participar de 1966 pra frente. Eu fazia movimento operário, clandestino. Sem partido. Só organizando o movimento operário. Fizemos a primeira greve na ditadura. E nós tínhamos um grupo forte em Porto Alegre, com pessoal das fábricas, tinha operários, estudantes e muitos seminaristas de Viamão. Tínhamos jornal e tudo, e daqui a pouco começamos a ver pelo Brasil muitas organizações armadas, em Minas, São Paulo.
Vocês tinham contato com eles?
Fizemos contato com o pessoal da organização Colina, de Belo Horizonte, e fomos num encontro em janeiro de 69, teve um encontro no Rio, nos identificamos com eles, mas já estavam muito fragilizados, muitos presos, até mortos, mas tinha muita gente de várias partes do País, Pernambuco, Bahia, São Paulo, Rio. Fizemos uma reunião e decidimos juntar todo mundo. Num encontro lá na serra no Rio de Janeiro.
E a aproximação com a VPR?
Nessa mesma época, a VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) do Lamarca nos contatou para ver se contava com a gente. Marcamos um encontro em São Paulo e fomos, sete companheiros nossos e sete deles. Parte deles se identificavam com a posição minha e da Dilma, de dar ênfase ao trabalho de base, de organização. Parte do nosso grupo se identificava com os outros da VPR, militaristas. E aí decidimos uma fusão. E, marcamos uma reunião em Teresópolis, reunimos, numa casa, 50 pessoas, era democrático, cada estado vinha com uma representação. Havia muitas divergências e ninguém queria abrir mão de nada. Uns eram militaristas, queriam fazer foco, enquanto outros queriam ficar no trabalho político, nos sindicatos, nos bairros. Metade de um grupo apoiava a metade do outro, era uma confusão geral.
João Goulart?
Acho que o Jango foi prisioneiro do Partido Comunista, que teve muita influência. Porque o Jango era um progressista, era preparado para aquilo lá, mas quem o apoiava? Ele coloca ao seu lado o Partidão, não tinha outro, e o Partidão, muito equivocado sempre, começou a cometer mais equívocos.
 
O Jango era um líder preparado, mas ele ficou isolado. Tentou se apoiar no Partido Comunista, mas o partido sempre equivocado só piorou as coisas
 
Quais os equívocos?
O principal deles: não ter organizado uma resistência ao golpe. Não houve reação ao golpe. Por exemplo, o Darcy Ribeiro, um homem preparado, um homem excepcional, mas não para fazer política. O general Assis Brasil, comandante, mas política zero. Então, quem restava ali?
O Almino Afonso?
Eu convivi com o Almino, nós somos muito amigos, ele acabava se consumindo, era indispensável. Um grande orador, um grande articulador, mas era uma batalha dia a dia ali no Congresso.
O Jango estava sozinho.
O Jango era um gênio. A precocidade do Jango era inacreditável. Mas, era solitário. O Getúlio também, só teve o Osvaldo Aranha para falar. Faltou um Osvaldo Aranha para o Jango. Em 34, o Getúlio diz para o Osvaldo Aranha: “Osvaldo, esses comunistas aí são nossos principais aliados, pena que nem sabem porque, são muito ignorantes”. O que é o PT hoje, o Lula, a Dilma, a hegemonia das forças sociais, está óbvio. Nós estamos discutindo o desenvolvimento capitalista, não outra coisa. Até porque o socialismo vem depois do capitalismo, nós temos que entender isso, que o socialismo vem para dividir fartura, não miséria.
A revolução é outra?
Só vontade de fazer não basta. Hoje está colocado na ordem do dia desenvolver o capitalismo. O Brizola dizia: a social democracia na América Latina é uma revolução, vamos tirar milhões de companheiros nossos da miséria. Isso vai criar outra coisa e não sabemos o que vai vir atrás disso aí. É verdade. Aqui a social democracia é uma revolução. Como não? Como tiramos 30 milhões da miséria? Isso não é uma revolução? Claro que é. Só aqui no Brasil que a mídia diz que não é. Em qualquer parte do mundo consideram uma revolução.
 
Cadeia não é bom para ninguém, mas me fez bem. Eu nunca tinha estudado, fiquei quatro anos lá e foi onde pude estudar
 
A revolução armada…
Era um voluntarismo. Mas há um aspecto interessante: nós fomos derrotados, dizimados, nos deram um tapa e nos derrubaram, mas sentimos orgulho daquilo que fizemos. Mesmo porque foi um baita equívoco nosso, a luta militarizada. Mas nós tomamos uma atitude, errada, mas… Pra mim, quem estava certo era o MDB que foi para a eleição em 74 e com voto e voto deu aquela vitória esplendorosa. Eles mostraram que estavam certos e nós errados. Pra nós, que sobrevivemos, foi uma lição muito forte.
A um custo alto…
Tem outros aspectos que a gente não fala, porque não dá clima, cadeia não é bom para ninguém, mas me fez bem. Eu nunca tinha estudado, fiquei quatro anos lá e foi onde pude estudar e ler pra valer, estudava 10, 12 horas por dia, um negócio sistemático. Claro que tirando a fase da tortura, mas depois que você vai para o presídio e fica ali estudando, aí a gente não fala isso porque pode ser mal compreendido. Sei que hoje está meio cedo para falar isso tudo. É que você tem que tirar coisas boas das situações ruins e entender que nada é tão bom assim, sempre tem um lado ruim também.

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