Elmar Bones
Carlos Araújo está se recuperando de uma pneumonia. Move-se com dificuldade e ainda mantém no nariz o tubinho de plástico para receber oxigênio quando sente falta de ar.
Mas quando o assunto é política nada parece incomodar o ex-deputado do PDT, que voltou à cena nacional com a chegada de Dilma Rousseff na presidência da República – eles foram casados e mantém até hoje uma relação muito próxima, de amizade e aconselhamento.
Ele se acomoda na cadeira e nem espera uma pergunta:
“Esse processo é uma vergonha, quase inacreditável. O mundo inteiro está perplexo. O presidente da Câmara, um corrupto, comandando um processo contra uma presidente que não está implicada em nada”.
Ele não tem dúvidas: tudo decorre do medo dos conservadores de perder mais uma eleição.
“Se o Lula morresse hoje, terminava tudo. Tudo é por causa da eleição de 2018. Eles já perderam quatro eleições seguidas. Não suportam a ideia do Lula vencer de novo, pois não tem liderança e nem unidade para enfrentá-lo. Aécio e Alckmin disputam no PSDB. A Marina é fracote, não é para chegar lá, é pra fazer meio de campo. Eles não tem parelheiro para correr esse páreo”.
Araújo tinha 16 anos quando Getúlio Vargas se suicidou para não ser destituído da presidência da República, em 1954. Já era militante do Partido Comunista Brasileiro, o Partidão, que fazia oposição a Vargas.
“Estávamos reunidos decidindo uma passeata contra Vargas, quando vimos a massa tomando as ruas e quebrando tudo porque o presidente tinha se matado. O povo estava certo e nós estávamos errados”.
Hoje ele vê, “do lado de lá”, a mesma “fração da elite” querendo derrubar Dilma. Primeiro, investiram contra Vargas e, depois, contra João Goulart, derrubado por um golpe militar em 1964. “É uma fração golpista, é um comportamento histórico deles”.
Até o núcleo ideológico que arregimenta forças contra Dilma é o mesmo, liderado pela Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp). “Ali está entranhado o golpismo anti-popular”.
Seus instrumentos são também os mesmos. O jornal O Estado de São Paulo, da família Mesquita, o jornal O Globo, dos Marinho e, mais recentemente, a Folha de São Paulo.
“O Estadão é quase pré-capitalista. Parou em 1932 e não consegue sair dali. É um fazendeiro que não enxerga nada além da sua porteira. A Folha é um jornal de origem fascista. Os Frias são fascistas. O Globo… bem aí é o banditismo, o capitalismo selvagem”.
E vai dar certo de novo, contra Dilma?
“Olha, é uma jogada muito perigosa dessa fração das elites. A gente sabe como vai começar essa história, ninguém sabe como vai terminar. Não digo nem por luta armada, essas coisas, não estou falando isso, mas o processo histórico é que vai cobrar. Ninguém sabe como vai se desdobrar esse golpe”.
‘dialoguei até com torturadores’
Em 1964, Carlos Araújo se engajou na luta armada, na mesma organização de Dilma Rousseff. Conheceram-se e casaram na militância clandestina contra a ditadura.
Preso e torturado, ele não abandonou uma conduta: não se deixar levar pelo ódio. “Sempre mantive o diálogo, mesmo com os torturadores”.
Sempre manteve, também, a disposição de ver aspectos positivos, mesmo nas situações mais terríveis. Como agora:
“Vejo aspectos interessantes nesse processo. O mais importante deles é a volta da política à ordem do dia. Vejo meu filho e vejo uma gurizada que não queria nada com nada, agora estão discutindo política. Isso é muito importante”.
E o processo de impeachment que a Câmara está votando neste domingo?
“Eu acho que a Dilma pode ganhar ainda. Mas vai ser bigode a bigode, ali…uma parada muito dura. Ainda mais com um cara sem escrúpulos como o Cunha comandando o processo”.
Economia pode dar louros a Temer
Ele admite até que um governo Temer pode-se se dar bem num primeiro momento, se a situação econômica melhorar.
“A situação econômica é de extrema dificuldade e foi agravada pela oposição política que paralisa do governo. Mas as condições para retomar o desenvolvimento estão mais ou menos dadas… já começam a surgir os primeiros sinais de aquecimento, ainda tímidos, alguns setores da indústria voltam a crescer, a inflação começa a ceder, os investimentos afloram… Quer dizer, pode ser uma ironia…se derrubarem a Dilma, podem fazer o Brasil crescer no ano que vem e sair com esses louros…”
O problema será a reação dos setores organizados, como os sindicatos e as centrais de trabalhadores. “Para fazer a política que eles querem, vão mexer em direitos, a CLT vai acabar praticamente…Isso não vai passar sem muita resistência”.
Segundo Araújo, Dilma acha que vai ganhar. “Ela está confiante”. E ele?
“Sou mais reticente…O bombardeio negativo, na televisão, rádio, jornais é prolongado e intenso. Me dizem que temos 249 votos, não sei. O certo mesmo vai se ver na hora. Tem sempre essa faixa cinzenta dos que não se definem”.
Como será o dia seguinte, caso a Câmara aprove o impeachment
Bem, ela já disse que vai resistir até o fim. A Dilma terá que se preparar para resistir por 180 dias, caso o Senado inicie um processo de impeachment. A expectativa é que o ajuste fiscal de Temer, a pressão dos grupos de esquerda, as tentativas de esvaziar a Lava Jato, tudo isso crie um ambiente para que ela volte.
A Lava Jato corre risco?
Bem, o Moro anunciou ontem que Lava Jato vai terminar em dezembro. Já terá cumprido seu papel?.
E se a Dilma for mantida, enfraquecida por uma quase derrota?
Terá que governar com minoria, não tem problema. Esses episódios todos provam que essa aliança com o PMDB esgotou-se. Terá que buscar aliança com setores minoritários. Se houver alguma melhora na economia, os caras vem correndo, temos aí um ano eleitoral…
Carlos Araújo exclusivo: "Ninguém sabe como vai terminar isso"
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