Desde o começo da década, a empresa pública de ônibus de Porto Alegre vem apresentando uma queda vertiginosa. Prejuízos enormes e crescentes, diminuição na qualidade do serviço e graves problemas de gestão, chegando a ter mais de cem ônibus parados por falta de peça.
Até 2010, a Carris dava lucro. Os balanços eram positivos e a empresa recebia prêmios pela qualidade do serviço. Nos anos anteriores, chegou a ser escolhida duas vezes a melhor empresa de transporte público do Brasil, em 1999 e 2001.
Foi no início da gestão de José Fortunati na prefeitura que a empresa começou a apresentar prejuízos. Em 2011, o prejuízo foi de quase R$ 6 milhões. Em 2012, um salto negativo: mais de R$ 21 milhões negativos. O déficit nas contas da empresa chegaram a mais de R$ 50 milhões em 2015 e 2016. Para este ano, a previsão é de resultados ainda piores.
Funcionários já falaram publicamente que há um processo de sucateamento provocado. Reclamam também de assédio e falta de diálogo, por parte da nova direção. Desde o início de ano, um diretor-presidente recém nomeado, Luís Fernando Ferreira, em fevereiro, e uma procuradora, Jaqueline Simões, em julho, pediram demissão da Carris.
Ao longo de quase onze meses de governo, a atual gestão não apresentou um plano de recuperação para a empresa. Periodicamente, o prefeito Nelson Marchezan Júnior cita a Carris como um problema em suas entrevistas. Agora, Marchezan subiu o tom. Afirmou que a empresa não é mais viável e está com seus dias contados.
Mais de cem ônibus parados

Com cento e quarenta e cinco anos de serviços prestados, levando e trazendo a população de Porto Alegre, de bonde ou de ônibus, a Carris vê no horizonte o fim da linha. Pelo menos é o que se desenha, na gestão do prefeito Nelson Marchezan Júnior, para o modelo de empresa pública de transporte de passageiros.
Se ao longo da campanha eleitoral, a possibilidade de venda da empresa era negada pelo então candidato Marchezan, desde que assumiu o Paço, o prefeito volta e meia dá o recado. Recentemente, Marchezan foi taxativo: “a Carris está com os dias contados.” O prefeito já apresentou as três possibilidades: privatização, venda ou extinção.
Um mar de ônibus parados, na garagem da empresa, é o retrato da grave crise de gestão. Um terço da frota da Carris não vai para a rua, garante funcionários da empresa. Ao longo deste semestre, o número varia entre 100 e 120 automóveis parados, a maioria por falta de peças. No dia 14, dos 347 carros da frota, 112 não tiveram condições de sair.
“Considerando que já passamos muito do número da frota reserva (32), todos os dias são cerca de 80 ônibus que não andam pela cidade, cerca de 300 viagens que deixam de serem realizadas. É a realidade atual”, lamenta o delegado sindical da Carris, Felipe Suteles. Segundo o sindicalista, a situação, que vem piorando gradualmente na última década, piorou de vez nos últimos meses.
Quase metade dos automóveis são da Volvo e a reposição de peças depende de um contrato com a montadora. Assim, veículos novos, com falta de peças simples, dividem o espaço com carcaças que já foram descartadas. “Há ônibus parados por falta de parafusos de poucos reais”, lamenta.
A falta de entendimento entre os funcionários, direção e o prefeito também tem se tornado uma rotina. Na mais recente controvérsia, Marchezan declarou em entrevista que o alto índice de roubo de peças é uma das causas da situação precária da empresa. Os funcionários responderam com indicativo de greve, mensagens pela internet e panfletos distribuídos para a população. “Já houve alguns furtos de peças, sim, mas justificar a precariedade atual com isso é criminoso”, classifica Suteles.
Em entrevista recente, Marchezan afirmou que o índice de furto de peças na empresa é muito alto. Funcionários reagiram, afirmando que a intenção do prefeito é desmoralizar os servidores. Um procedimento interno está apurando a denúncia. Funcionários da empresa ainda se queixam de uma rotina de assédio por parte da direção. “Foram revistar o meu carro na saída, eu disse ‘pode revistar, se tiver roubo não é aqui, é lá dentro”, afirmou um servidor da companhia que não quis ser identificado.
Tribunal de Contas: auditoria especial não é necessária
O caso da Carris chegou ao judiciário. Vereadores do PT pediram providências ao procurador geral do Ministério Público de Contas (MPC), Geraldo Da Camino. Em junho, o MPC solicitou à presidência da companhia um relação da frota constando quantos veículos estavam em circulação e quantos estavam parados.
Também foram questionados se a frota atual era suficiente para atender a demanda exigida e se a empresa cumpria os horários e itinerários. A Carris respondeu que haviam 47 veículos retirados por problemas mecânicos aguardando manutenção, um número bem abaixo do denunciado por funcionários da empresa.
Em agosto, Da Camino pediu ao Tribunal de Contas (TCE) uma auditoria na Carris em razão de um possível sucateamento da frota, além dos prejuízos acumulados nos últimos exercícios. Em outubro, uma nova manifestação do MPC foi entregue ao Tribunal de Contas. Nela, o procurador pediu “que seja elaborado diagnóstico atualizado da gestão operacional da Carris”. Da Camino também pediu que a apuração tivesse caráter obrigatório.
O TCE não realizará uma auditoria especial como quer o procurador. Segundo a assessoria de imprensa do Tribunal, a área técnica do órgão analisou o pedido do MPC e avaliou não ser necessária a auditoria especial, visto que o TCE avaliará os mesmos itens e pontos questionados por Da Camino no relatório 2017-2018 da empresa.
Do sucateamento ao déficit
Desde o ano passado, as empresas privadas de ônibus da Capital gaúcha vem reclamando de prejuízos na prestação do serviço. Atualmente, nenhum dos consórcios consegue cumprir a tabela, gerando centenas de multas emitidas pela EPTC. As gratuidades e a redução na quantidade de passageiros do sistema então entre as causas apontadas. Entretanto, o problema da Carris é anterior.
Em duas ocasiões foi eleita a melhor empresa de transporte público do Brasil pela ANTP (Associação Nacional dos Transportes Públicos), em 1999 e em 2001. É também a empresa de transporte público mais lembrada pelos porto-alegrenses, com 17 prêmios Top of Mind, promovido pela revista Amanhã.
Em seis anos
, a companhia passou de referência no transporte público do país a empresa deficitária a caminho da privatização. Até 2010, os balanços eram positivos. Em 2011, começaram os crescentes prejuízos. Para este ano, a projeção é de que os cofres do Município precisem colocar aproximadamente R$ 60 milhões para zerar as contas.
Ao longo deste período, foram abertos procedimentos para apurar irregularidades. Em 2016, o ex-diretor-presidente, Sérgio Zimmermann, foi condenado a devolver R$ 317 mil.
O diretor nomeado por Marchezan para criar um plano de salvação da empresa, Luis Fernando Ferreira, durou apenas 20 dias no cargo e pediu demissão. A vaga foi ocupada quase dois meses depois por Helen Machado, que assumiu afirmando não se tratar de um problema para ser resolvido “em dois ou seis meses”. Até o momento, não foi anunciado nenhum plano de recuperação para a Carris.
O que diz a direção
Ao longo de uma semana, o JÁ tentou entrevistar a direção da Carris. Na tarde de sexta-feira, 17, a empresa enviou uma resposta por email ao jornal. A Carris afirma que o contrato com a Volvo foi retomado e 50 ônibus voltaram a circular na primeira quinzena de novembro.
A frota total é de 347 ônibus, sendo 32 destinados à reserva. No dia 17, eram apenas 33 carros retidos, segundo a direção. A empresa ainda coloca que está implementando projetos de manutenção preventiva dos veículos. o que não era feito anteriormente.

Carris: do lucro a um déficit anual de 50 milhões, em sete anos
Escrito por
em
Adquira nossas publicações
texto asjjsa akskalsa

Deixe um comentário