Helen Lopes
A revista Carta Capital denuncia, na edição desta semana, que a grande mídia ocultou fatos importantes no caso da compra do dossiê contra José Serra. Na reportagem, o jornalista Raimundo Rodrigues Pereira entrelaça informações que só circularam no meio jornalístico e ouve os editores das empresas de comunicação envolvidas no episódio que a revista intitulou “A trama que levou ao segundo turno”.
Conforme a reportagem, a cobertura do caso – que estourou 15 dias antes da eleição – está repleta de contradições. Sonega fatos cruciais e inverte técnicas jornalísticas. Carta Capital confrontou princípios básicos do jornalismo com a atitude de cada veículo, repórteres e direção dos veículos.
Antes mesmo dos presos Valdebran Padilha e Gedimar Passos, ligados ao PT, chegarem no prédio da Polícia Federal em São Paulo, as equipes de campanha de Geraldo Alckmin e de José Serra já estavam no local. Ao lado da perua da Rede Globo.
A reportagem trilha ainda o caminho das fotos dos cerca de R$ 1,7 milhão, em notas de real e dólar, que estamparam as primeiras páginas dos jornais dois dias antes das eleições.
Conforme a revista, o delegado Edmilson Bruno, além de tirar as fotos do dinheiro de forma ilegal e distribuí-las aos jornais Folha de S. Paulo, Estado de S.Paulo, O Globo e à rádio Jovem Pan, contou com a cumplicidade dos jornalistas para fazer de conta que as fotos tinham sido roubadas dele.
Os repórteres alegam que estavam preservando a fonte, no entanto, a análise das matérias feita pela Carta Capital mostra que além de endossar a versão do delegado, a imprensa não divulgou a gravação do delegado.
De acordo com a reportagem, o delegado Bruno ainda procurou um repórter do Jornal Nacional para entregar as fotos: “Tem de sair à noite na tevê, tem de sair no Jornal Nacional”, relata uma fonte. Na noite de 29 de outubro, dois dias antes da eleição, dia em que caiu o avião da Gol e morreram 154 pessoas, o Jornal Nacional renegou o desastre à poucos minutos e se dedicou à cobertura da foto do dinheiro.
Dois pesos e duas medidas
A grande mídia não repercutiu a reportagem de Carta Capital. Nem os veículos citados gastaram uma linha com a matéria da Carta Capital. No entanto, abriram espaço para a denúncia da Veja contra o ministro da Justiça, Marcio Tomaz Bastos, que estaria obstruindo as investigações da Polícia Federal.
Episódios de manipulação e ocultação de fatos são constantes na trajetória da mídia nacional em período eleitoral. Caso emblemático aconteceu em 1989, quando a Rede Globo editou o último debate entre os presidenciáveis Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Collor de Melo. Não esquecendo que a compra do dossiê é crime eleitoral, o resultado dessa “trapalhada” da comunicação brasileira é que mais uma vez negativa para o jornalismo, que perde o que resta de independência e responsabilidade.

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