Castañeda quer batalha de idéias entre as duas esquerdas latino-americanas

O cientista político, economista e escritor mexicano, Jorge Castañeda: “Monopólio da imprensa é tão grave quanto censura a jornalistas” (Fotos: Divulgação/JÁ)

Guilherme Kolling

O ex-ministro das Relações Exteriores do México, Jorge Castañeda, apresentou em 46 minutos um diagnóstico político da América Latina em sua conferência no ciclo Fronteiras do Pensamento, na noite da terça-feira 17 de abril, no Salão de Atos da UFRGS.

Para ele, houve dois grandes avanços nos últimos anos: a consolidação da democracia representativa, o que foi comprovado com a realização de mais de dez eleições que ocorreram sem qualquer conflito, e um crescimento econômico médio de 5% ao ano, de 2003 para cá.

Castañeda observa que essas melhoras não foram suficientes para resolver o problema da pobreza, da miséria e da desigualdade social. E que os governos de esquerda, predominantes hoje no continente, tem dois tipos de projetos.

O primeiro é de uma esquerda reformista, moderna, globalizada, respeitadora dos direitos humanos, a favor da democracia representativa, da economia de mercado, e que mantém boas relações com os Estados Unidos. Este grupo tem entre seus representantes o Chile de Michelle Bachelet, o Brasil de Lula e o Uruguai de Tabaré Vásquez.

A outra vertente é nacionalista, hostil aos Estados Unidos, anti-globalização e populista. Nesse bloco, liderado por Hugo Chávez da Venezuela, também estão Cuba, a Bolívia de Evo Morales, o Equador de Rafael Correa e a Nicarágua de Daniel Ortega. “Não estou dizendo que esses governos são todos iguais. Mas há traços comuns. Cada grupo tem uma origem”.

Na análise de Castañeda, a esquerda reformista vem dos velhos partidos comunistas, socialistas e de grupos guerrilheiros que lutaram contra os regimes da ditadura. “Estes setores passaram pela tragédia do desaparecimento do partido comunista. Tiveram que fazer a autocrítica, um ajuste de contas e entenderam que esse modelo deixou de funcionar”.

A outra esquerda vem da tradição do populismo, uma turma que, na visão do cientista político mexicano, não tem êxitos, mas os inventa no discurso. “Kirchner nada mais é que um peronista. E Chávez, um Perón com petróleo”. A comparação rendeu palmas do público.

Para Castañeda é importante que haja uma batalha de idéias, colocando de um lado a esquerda moderna e a centro-direita ilustrada (cujos representantes hoje estariam nos governos do México e da Colômbia) contra a esquerda populista.

“É preciso demonstrar que o caminho proposto por Fidel e Chávez não leva a nada. É um filme que já vimos. No primeiro minuto, já sabemos tudo que vai acontecer, como quem assiste a Rocky 5, com Sylvester Stallone. Há tempos nós sabemos que este sistema não funciona. Está provado”.

Castañeda teme que com o avanço do populismo se percam as duas conquistas recentes da América Latina: a democracia representativa e o crescimento e econômico. “É claro que são sistemas com muitos defeitos. O Brasil, por exemplo, vai completar 16 anos de mediocridade [oito anos com FHC e oito anos com Lula]. Mas no atual momento da América Latina, esta estabilidade é muito boa. Essa mediocridade é positiva”, avalia.

O intelectual mexicano aponta que sem a democracia representativa e o crescimento não poderemos combater a pobreza e desigualdade. “Temos que defender o projeto da esquerda moderna nessa batalha de idéias, para que em 2010, quando completarmos 200 anos de independência, possamos comemorar a consolidação dessa democracia e avançar na luta contra a miséria. Temos muito a ganhar”, conclui.

“Monopólio da imprensa é tão grave quanto censura a jornalistas”

O cientista político Jorge Castañeda foi, até o momento, o conferencista mais reverenciado pelo público do ciclo Fronteiras do Pensamento. Depois de sua fala na noite da terça-feira 17 de abril, foi ovacionado por quase um minuto. Ao longo de sua palestra, foi interrompido pelo menos cinco vezes pelas palmas da platéia.

Uma delas na penúltima pergunta, sobre o papel da imprensa na democracia representativa. “Isso não existe sem liberdade de expressão e espaço para que os diferentes segmentos exponham suas idéias. Por isso, o monopólio é um entrave tão grave quanto a censura a jornalistas”, afirmou.

O exemplo que ele deu se aplica ao Brasil. “Esse problema acontece em países que apresentam um monopólio televiso. Não sei em quais países, mas isso acontece”, disse, irônico, provocando risos.

Castañeda entende ainda que a mídia na América Latina tem um poder desmesurado, não há regulação necessária. “A imprensa brasileira ainda é a ‘menos ruim’ da América Latina. Vejam, eu insisto, a menos ruim. No meu país há uma grande irresponsabilidade”, atacou.

O ex-ministro das Relações Exteriores mexicano observa que depois de anos de censura, a independência se manifesta através da crítica estridente. “Quanto mais intensa a crítica, mais independente se sente o jornalista”, conta.

Castañeda ainda relatou a vigência da “comentocracia” no México. “São sempre os mesmos que falam em rádio, TV, jornal, e opinam sobre tudo, são especialistas em tudo. Falam sobre a guerra do Iraque, as mortes na Universidade Virginia, as eleições no Equador, o aquecimento global”.

Para o cientista político, esses comunicadores opinam com desfaçatez autoritária. “O acadêmico especialista em meio ambiente, por exemplo, diria, que o aquecimento global pode estar afetando os ursos polares. O jornalista diz em tom alterado: ‘É inaceitável que estejam morrendo milhares de ursos polares todos os dias!’. Essa é apenas parte da irresponsabilidade da mídia”, analisou o conferencista. Ao final de 48 minutos atendendo aos questionamentos do público, foi aplaudido de pé.

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