Categoria: X.Categorias velhas

  • Casas da Luciana de Abreu se deterioram

    Helen Lopes

    Há um ano, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) proibiu a demolição de seis casas na rua Luciana de Abreu adquiridas pela empreendedora Goldsztein para a construção de edifício de 16 andares. O casario só poderá ser demolido após a conclusão da Ação Civil Pública do Ministério Público que verifica o valor histórico, cultural e paisagístico do local.

    Como o STJ não previu manutenção, o conjunto de casas da década de 30 apodrece ao sabor do tempo. Árvores e arbustos tomam conta do pátio, telhas caem no gramado, esquadrias de madeira viram habitação de cupim e a tinta, em muitas partes, já não existe mais.

    O MP chegou a pedir a conservação dos imóveis, no entanto, a Justiça entendeu que isso ocasionaria mais gastos à construtora – que teve o empreendimento suspenso e paga o aluguel de dois proprietários que receberiam unidades no novo imóvel. “A decisão do STJ foi muito importante, mas sem manutenção, as casas podem ser inutilizadas”, entende o presidente da Associação de Moradores do Bairro Moinhos de Vento – Moinhos Vive, Raul Agostini.

    Segundo a promotoria do Meio Ambiente, o processo ainda está tramitando em primeira instância e não há previsão para conclusão.

    Casa de mestre cervejeiro

    O prédio número 272 é um palacete projetado em 1929 pelo arquiteto austríaco Egon Weindörfer, um dos introdutores da arquitetura moderna em Porto Alegre. Os outros cinco casarões geminados, entre os números 242 e 266, são do arquiteto alemão Franz Filsinger, que trabalhou com Theodor Wiedersphan, um dos mais importantes arquitetos da história do Estado.

    As casas da Luciana de Abreu datam de 1930 e foram construídas para mestres cervejeiros que vieram da Alemanha trabalhar na Cervejaria Becker – que depois originou a Continental e mais adiante a Cervejaria Brahma.

    *Esta reportagem é um dos destaques da edição 377 do JÁ Bom Fim/Moinhos, que já está circulando nos pontos de comércio da região central de Porto Alegre.

  • Operários duvidam de cumprimento de prazo para Conduto Álvaro Cháves

    Alexandre Haubrich

    Dificilmente a Cel. Bordini estará liberada até o fim do ano. É a aposta dos operários que trabalham de sol a sol na obra.  Nenhum dos trabalhadores que conversaram com nossa reportagem mostrou-se esperançoso no cumprimento do prazo estipulado pela prefeitura, ainda que a obra tenha adquirido um ritmo muito mais rápido do que nos meses anteriores.

    Mesmo assim, o diretor do Departamento de Esgotos Pluviais (DEP), Sérgio Zimermann, garante que até 31 de dezembro, a circulação será normalizada. “As obras estarão concluídas e o trânsito liberado ainda em 2007. Em janeiro, vamos tirar de uso a estrutura antiga e acionar a nova, através de interligações. Em fevereiro o Conduto estará operando”, garante Zimermann.

    A despeito do otimismo de Zimmermann, um operário chegou a afirmar que “só deus sabe” quando as obras estarão concluídas. Outro fez brincadeira com as promessas do prefeito José Fogaça quando visitou a obra. “Ele fala isso porque está no escritório com ar condicionado”.

    O Conduto Forçado Álvaro Chaves-Goethe prevê 15 mil metros de canalização pluviais sob 34 vias de Porto Alegre e vai beneficiar moradores dos bairros Moinhos de Vento, Auxiliadora, Mont Serrat, Rio Branco, Bela Vista, Higienópolis, São Geraldo, Floresta e Navegantes.

    *Esta reportagem é um dos destaques da edição 377 do JÁ Bom Fim/Moinhos, que já está circulando nos pontos de comércio da região central de Porto Alegre.

  • João Bosco e PianOrquestra surpreendem Teatro Renascença

    Alexandre Haubrich

    O Teatro Renascença esteve completamente lotado na última segunda-feira, 12 de dezembro, para receber o show de João Bosco e da PianOrquestra.

    O evento, parte das comemorações dos 30 anos do Projeto Pixinguinha, trouxe a Porto Alegre um espetáculo cheio de novidades e criatividade.

    Pagando apenas R$ 10 o ingresso, o público se encantou com a apresentação do PianOrquestra, que abriu os trabalhos. São cinco músicos tocando um piano a dez mãos. Mas o mais incrível é que eles não usam apenas as teclas do instrumento. Batucam, mexem nas cordas e fazem diversas estrepolias utilizando vários materiais inusitados e produzindo sons inacreditáveis. A platéia delirou e aplaudiu de pé.

    Então, João Bosco foi ao palco, e a expectativa aumentou. Depois de um começo devagar, a apresentação embalou, também graças aos excelentes músicos – Kiko Freitas (bateria), Ney Conceição (baixo) e Nelson Faria (guitarra) -, principalmente quando o dinossauro da MPB dividiu o palco com os jovens da PianOrquestra.

    No bis de João Bosco, já sem a PianOrquestra, a consagração final, com os sucessos Papel Machê e O Bebado e o Equilibrista.

  • Moradores acionam MP contra casa noturna

    Helen Lopes

    Há três meses os vizinhos do Shopping Total reclamam de noites insones devido ao ruído da danceteria República de Madras. Em outubro entregaram um abaixo-assinado com quase 200 assinaturas ao Ministério Público, que chegou a abrir inquérito, mas suspendeu depois que os proprietários da casa se comprometeram a melhorar o isolamento acústico.

    Segundo moradores das ruas Cristóvão Colombo, Santo Antonio, Gonçalo de Carvalho e Tiradentes, o barulho noturno não diminuiu. “Nada mudou e vamos entrar com uma ação cível junto ao MP”, antecipa a presidente da Associação dos Moradores e Amigos do Bairro Independência (Amabi), Ana Lucia D`Angelo.

    Além dessa ação, moradores estão registrando todas queixas na Policia Civil para entrar no Juizado Especial. Eles já estiveram até na Tribuna Popular da Câmara Municipal para reclamar do barulho.

    Segundo os proprietários da casa, todas as providências foram tomadas. “Isolamos até as janelas dos banheiros e colocamos uma pessoa para fazer o monitoramento da quadra de duas a três vezes por noite”, conta Tiago Escher de Borba, antes de finalizar: ”Cumprimos todas as exigências legais e ainda fomos além, por isso não quero mais alimentar essa polêmica”.

    Smam descarta ruído excessivo

    A Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Smam) realizou medições no local e não constatou ruído excessivo. Os estabelecimentos na Capital não podem ultrapassar cinco decibéis além do ruído de fundo, que é o barulho ocasionado pela conversa. No dia 17 de dezembro, acontece uma reunião para esclarecer a comunidade.

    *Esta reportagem é um dos destaques da edição 377 do JÁ Bom Fim/Moinhos, que já está circulando nos pontos de comércio da região central de Porto Alegre.

  • Imprensa: quantidade e diversidade

    Folheando as edições pioneiras do JÁ Bom Fim, encontrei os traços do cartunista Santiago, denunciando fraudes eleitorais.
    Santiago, Kayser e Moa acabam de ser despedidos por um patrão que, a exemplo da maior parte da mídia, dominada pelos anunciantes, não aceita determinados pontos de vista.
    Dia desses uma jornalista de um diário de Porto Alegre disse que não lia o próprio jornal no qual trabalhava “porque sabia como era feito”.
    Outro repórter, também de um jornalão da capital, argumentou que não era difícil produzir matérias com pouco tempo para apuração: “é só fazer mal feito”.
    Enquanto isso o Bispo Edir Macedo escreve no editorial da Folha Universal “saiam da nossa frente pois vamos passar como rolo compressor”.
    Sempre defendi que, na imprensa, vale a tese do quanto mais, melhor. Mas atualmente me parece que a quantidade de jornais em Porto Alegre – a maior dos últimos 25 anos – não se reflete necessariamente em informação diversificada.

  • Casarão da Venâncio não abrigará Centro de Cultura Negra

    Helen Lopes

    O casarão histórico, localizado na esquina da Venâncio Aires com a João Pessoa, não abrigará mais o Centro de Cultura Negra, conforme previa um convênio assinado com o Estado há quase dois anos.

    Em outubro, a Associação das Mulheres Negras (Acnum), responsável pela instalação do Centro, devolveu o prédio tombado ao poder público.

    “Optamos por encontrar outro espaço com auxílio do governo”, explica a presidente da entidade, Simone Cruz, ao lembrar que o local exigia uma profunda reforma e serviço de segurança. No ano passado a Ong ocupou por um período breve o prédio, mas desistiu depois de assaltos consecutivos.

    “Há sondagens de entidades, mas ainda não temos uma definição sobre o futuro da casa, pois requer investimentos em recuperação”, esclarece o chefe de gabinete da Secretaria da Administração e dos Recursos Humanos (SARH), Alfredo Scherer.

    A Secretaria, com auxilio da Brigada Militar e do DMLU, limpou e retirou sem-tetos e foragidos que invadiram o prédio. A SARH também providenciou um vigia para evitar novas invasões e prevê um segurança 24 horas.

    *Esta reportagem é um dos destaques da edição 377 do JÁ Bom Fim/Moinhos, que já está circulando nos pontos de comércio da região central de Porto Alegre.

  • Orçamento: equilíbrio só a longo prazo

    Elmar Bones

    O déficit de R$ 1,3 bilhões previsto no orçamento 2008, que a Assembléia aprovou na última quinta feira, 6 de dezembro, sinaliza para uma situação de grandes dificuldades no próximo ano, com cortes drásticos nas despesas correntes e investimentos com receitas próprias chegando quase a zero.

    Esta é a avaliação do economista Darcy Francisco dos Santos, especialista em finanças públicas, com vários livros publicados sobre o assunto. “Se o governo fosse apenas cumprir o que determina a constituição, o déficit já chegaria aos R$ 2,5 bilhões”, garante Santos.

    Segundo ele, há muito o governo estadual não cumpre as disposições constitucionais de destinar 10% para a saúde e 25% para educação, entre outras. E a curto prazo não tem como alterar essa realidade

    Na atual perspectiva, de acordo com o economista, só haverá equilíbrio no orçamento estadual se ocorrer uma combinação de crescimento econômico com congelamento de despesas por um período de oito a dez anos.

    “Será necessário que a receita aumente uns 40%, por conta do crescimento da economia, e que a despesa permaneça nos níveis atuais, para se eliminar o déficit”, diz ele.

    O crescimento da receita é bem possível, uma vez que as perspectivas da economia brasileira são boas a médio prazo. Mas a estabilidade das despesas é uma questão problemática. A folha de pagamentos, por exemplo, tende a se manter crescente, mesmo com um congelamento de salários.

    “A cada ano, cerca de 25% dos funcionários requerem aposentadoria, o que obriga a uma reposição, ainda que não integral, aumentando a folha. Fora isso há o caso das reposições obtidas na Justiça, que tendem a elevar os gastos”.

    Somente este ano, por conta de ações contra os cortes feitos no governo Britto a folha de salários foi inchada em mais de R$ 1 bilhão. Para o ano que vem, a previsão otimista é de que ações semelhantes custem mais R$ 1 bilhão em reposições.

    O economista não considera um desastre a rejeição pela Assembléia do aumento de impostos pretendido pela governadora no seu Programa de Recuperação do Estado.

    “Esses aumentos de impostos geralmente fazem com que se negligencie a contenção dos gastos e depois, quando cessa o efeito do aumento, o déficit se torna ainda maior. Foi o que aconteceu no governo Rigotto. Quando cessou o prazo dos aumentos, a receita caiu e a situação ficou pior”.

    O aumento de impostos, segundo ele, “representa uma receita transitória que não resolve, porque não toca nas causas do déficit crônico”, entre as quais se destaca o descontrole dos gastos .

    A governadora Yeda Crusius, na avaliação do economista, está certa em sua determinação de cortar despesas, melhorar a gestão e ter um orçamento realista. “É esse o caminho e sem ajustar a folha, que é o maior gasto, pouco será conseguido. Sem arrocho, não há solução”.

  • Políticas Indigenistas

    Fernando Ernesto Baggio Di Sopra, estudante de Geografia da UFRGS
    Enquanto na Bolívia as línguas Guarani, Quechua e Aymara são consideradas oficiais pelo Estado, no Brasil o índio não é nem ser humano apto a ocupar cargos públicos: pela nossa legislação os indígenas encontram-se sob tutela da Fundação Nacional do Índio, que administra o orçamento destinado a eles. Supondo que a verba anual da FUNAI seja 5 milhões de reais, qual será o percentual desse dinheiro que realmente chega até as aldeias e quanto é gasto desnecessariamente com burocracias e cargos políticos? Nos últimos três anos o ex-presidente da FUNAI realizou 235 viagens de avião representando o governo e, dentre essas, 16 foram para países europeus e somente 12 foram para reservas indígenas. O montante gasto por ele com passagens de avião, nestes três anos, foi de 252 mil reais provindos dos cofres públicos. Por quê, então, o governo brasileiro não repassa essa verba diretamente aos caciques das aldeias?
    Assim como hoje ainda ocorre no Brasil, os membros da etnia dominante Han negavam, antes da Revolução Cultural, a multirracialidade na China, denominando todos os seus habitantes de chineses. Entretanto, Tibetano é Tibetano, Tibetano não é Han. Do mesmo modo, Kaingang não é Tupinambá. Tanto é, que também há kaingangs na Argentina e no Paraguai. É deprimente perceber que o Brasil não considera oficial nem a língua nem a cultura dos povos originários do continente americano. Xavante não é Charrua, que não é Guarani, que não é Tapuia, que não é Xokleng…
    Na China há o Instituto das Minorias, onde cidadãos das 54 minorias étnicas matriculam-se para estudar e manter sua cultura, gratuitamente. Na Bolívia, o Google é também disponibilizado na língua Quechua. Mas, como garantir a igualdade cultural? Através do registro burocrático e institucional? Através de teses acadêmicas de antropologia? Fazendo documentários para exibir na televisão? Na China, independente do percentual da população e da etapa de desenvolvimento sócio-econômico em que se encontrem, as minorias étnicas passaram a participar ativamente do governo. Seria o mesmo que se no Brasil escolhêssemos um deputado entre os euro-descendentes, um entre os afro-descententes, um da etnia Jê, outro da Tupi, outro da Guaycuru…
    Apesar de significar certa justiça histórica, a lei das cotas raciais é absurda sob a seguinte perspectiva: substituir brancos por negros significa o mesmo que substituir as monoculturas de eucalipto pelas de pinus. Ora, as duas são culturas estrangeiras que ocupam o espaço onde naturalmente existiriam pitangueiras, jabuticabeiras, araucárias, erva-mate… Em vez de classificar os humanos em negros e brancos, deveríamos resgatar o modo de vida dos primeiros habitantes da América. Claro, isso se o orçamento da FUNAI fosse diretamente repassado às aldeias, e não mais às supérfluas viagens dos burocratas aos países europeus.

  • Estado deve economizar R$ 600 milhões em 4 anos

    Naira Hofmeister

    O empréstimo de US$ 1 bilhão que o BIRD aprovou para o Rio Grande do Sul foi uma notícia animadora, entre tantos fatos negativos que o  governo Yeda Crusius enfrentou neste final de ano. Ele representa a recuperação do Estado perante os organismos internacionais de crédito e um pequeno alívio na pressão que a dívida, já na casa dos R$ 34 bilhões, exerce sobre o setor público gaúcho.

    O dinheiro que deve chegar aos cofres do Rio Grande do Sul em maio de 2008,  vai render uma economia real estimada em R$ 150 milhões ao ano nos próximos quatro anos, por conta das taxas menores praticadas pelo BIRD.

    Outro cálculo realizado pelo Governo Estadual para certificar-se da vantagem nessa negociação revela que serão economizados 296 milhões em dívidas: cada débito que for saldado possui um desconto real que gera esse valor. O cálculo foi feito supondo a estabilidade do dólar. “São as projeções do mercado, do Copom”, observa Roberto Calazans, técnico do Tesouro do Estado.

    Os técnicos da Secretaria da Fazenda afirmam que o Governo Federal já aprovou as contas apresentadas apesar de não haver nenhum comunicado formal. O empréstimo depende da avaliação do Governo Federal, que será fiador.

    Caso receba parecer favorável, a Fazenda já planeja quais dívidas serão priorizadas. Para o próximo ano, a previsão é que sejam saldadas parte das contas do Proes (estimado em R$ 1 bilhão e 400 milhões), Fundação Banrisul (731 milhões), dívidas
    imobiliárias (160 milhões) e o Fundef (22 milhões).

  • Sucateamento dos órgãos ambientais dificulta o combate à poluição do ar no RS

    Adriana Agüero, Especial para o JÁ

    A estudante de Engenharia Química, Sabrina Feltes de Moura, apresentou durante o XIX Salão de Iniciação Científica da UFRGS a no final de outubro, uma pesquisa que, mesmo parecendo contraditória, dá uma noção da complexidade do problema da poluição do ar.

    Intitulado “Quantificação dos Níveis de Ozônio na Região Metropolitana de Porto Alegre-RS”, o trabalho identificou que, apesar do aumento da frota, houve redução da média do ozônio entre os anos de 2005 a 2006. O trabalho baseou-se num único aparelho de medição adquirido graças a um convênio com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O monitor está instalado em Canoas e faz parte da Rede de Monitoramento da Qualidade do Ar da Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luiz Roessler – RS (Fepam).

    Sabrina crê que um dos motivos da redução dos níveis de ozônio é relacionado ao Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores (Proconve), que submete a testes desde 1986 os novos modelos de carros nacionais e importados, e que também exigiu combustíveis de melhor qualidade e a fabricação de motores mais eficientes. Nessas duas décadas, o programa conseguiu reduzir a emissão de poluentes em mais de 90% nos automóveis e 80% nos caminhões. Entre os gases controlados estão o monóxido de carbono (CO), hidrocarbonetos (HC) e óxidos de nitrogênio (NOx). Estes dados foram apresentados no seminário Proconve: Caminho de Sucesso e Tecnologias para o Futuro, realizado pela Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA) em março de 2006.

    A professora-orientadora da pesquisa e técnica da Fepam, Elba Calesso Teixeira, explica que os óxidos de nitrogênio são oriundos das fontes móveis, ou seja, dos automóveis e motocicletas, de onde vêm também hidrocarbonetos e partículas inaláveis. À medida que se reduz a emissão destes óxidos (NOx) diminui-se a formação de ozônio. Elba adverte, contudo, que não se pode afirmar que estes foram os únicos motivos para a queda deste contaminante. “Seriam necessários outros estudos e cálculos mais aprofundados, mas essa variação não chega a ser uma mudança significativa”, avalia.

    Apesar da redução, Sabrina indica que os parâmetros nacionais utilizados pela Fepam para classificar a qualidade do ar não se aplicam muito bem à realidade gaúcha. “Estamos dentro dos padrões aceitáveis pela Legislação, mas isso é discutível, porque ele é conveniente para a região sudeste que possui um pico industrial muito superior”, argumenta a ex-estagiária da Fundação.

    O engenheiro químico, Eduardo Rodrigo Ramos de Santana, não discorda. “Nós obedecemos à legislação do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) do Ministério do Meio Ambiente, mas certamente se fossem empregados índices mais restritivos teríamos faixas consideradas inadequadas na região”, afirma.  Segundo o técnico, Porto Alegre oscila na média entre os índices “bom” à “regular”: 70% das vezes a qualidade do ar na capital é boa, 25% aponta “regular” e os outros 5% “inadequado”. Para Santana, a adição do biocombustível (combustível renovável e biodegradável) contribuiu para a diminuição da poluição atmosférica. “Antes do Proconve, o diesel metropolitano tinha até 2% de enxofre, hoje ele tem menos de 0,1%. Houve uma diminuição de 20 vezes no teor deste poluente,” informa o técnico da Fepam.

    Para o técnico do Departamento de Qualidade do Ar da Fepam, o doutor em Química, Marcelo Christoff, a situação é mesmo pior do que os números apontam. Ele lembra que a melhora as emissões individuais dos automóveis ainda não é suficiente para reverter o quadro. “Dois terços da nossa frota são de veículos antigos com mais de dez anos e que não passam por nenhuma fiscalização”, explica.

    Projeto Ar do Sul

    A Rede de Monitoramento da Qualidade do Ar – Ar do Sul – existe há dez anos e prevê a atividade de monitoramento contínuo do ar. Ela é composta por nove estações fixas que se constituem de um container dotado de equipamentos de análise, além de uma estação móvel (trailer rebocável) que se desloca até os locais de interesse não cobertos.

    A Rede foi viabilizada com recursos do Pró-Guaíba e identifica seis poluentes: partículas totais em suspensão (PTS), material particulado inalável (Pl10), dióxido de enxofre (SO2), dióxido de nitrogênio (NO2), ozônio (O3) e monóxido de carbono (CO). As Informações são enviadas a cada 20 min, via on line, para a Central de Monitoramento Automático da Qualidade do Ar, na sede da Fepam. “A Rede é um instrumento de gestão ambiental, gerando dados que ficam à disposição para consulta pública na internet, conceitua a coordenadora do Projeto Ar do Sul, Iara Brito Martins.A equipe de cinco técnicos faz a análise dos dados processados, medindo o desempenho de cada estação durante o dia. A estação manual é menos sensível que a automática, porque faz a média dos poluentes do dia a cada seis dias. Dentro dela existe uma câmara com um filtro que retém o material particulado e o SO2. “Para identificar cada tipo de poluente são exigidos ‘filtros’ apropriados aos monitores da Rede”, esclarece Iara.

    Os técnicos da Fepam não sabem precisar quanto da poluição é atribuída à indústria e quanto aos veículos automotores. “É mais fácil controlar um grande poluidor do que cada um dos veículos de uma região”, explica Cristoff. A Fepam concede às empresas a licença ambiental onde estão previstas o monitoramento contínuo das chaminés e os limites máximos de emissão previstos. Quando elas ultrapassam são alertadas e, caso a situação não se regularize, elas são multadas.

    Duas estações, localizadas nos municípios de Canoas e Esteio, foram adquiridas pela Refinaria Alberto Pasqualini (Refap) em 2002, mas somente a partir de dezembro de 2005 a Petrobrás iniciou o monitoramento contínuo. A explicação para o atraso no envio dos dados foram as dificuldades iniciais do período de adaptação aos equipamentos, pela falta de quem as operasse, além dos contratempos naturais, como um raio que caiu sobre uma das estações. “Isso explica, mas não justifica”, critica Christoff.

    Ele explica que antes de serem licenciadas as empresas devem enviar estudos de nível de poluição potencial em função do lugar onde estão localizadas para que possam ser tomadas as medidas de controle. Mesmo assim, os técnicos detectaram há dois anos um grande incremento do número de dióxido de enxofre, com nível dez vezes maior do que o normal, nas proximidades da Refap. “Este gás é emitido principalmente pelas grandes fontes poluidoras, mas pode ser obtido também em qualquer queima. O perigo é que este óxido se hidrata na atmosfera podendo formar a chuva ácida, que é altamente corrosiva”, explica Christoff.“A concentração industrial, o aumento da densidade urbana e o intenso tráfego de veículos na BR-116 também colaboram para que as estações de Esteio e Canoas apresentem nível regular de qualidade do  ar” acrescenta Christoff. Quando ocorrem aumentos bruscos de emissão, a equipe da Qualidade do Ar comunica a direção da Fepam. “De posse dessas informações, a empresa é acionada e recebe um prazo para se adequar. Caso a situação não se reverta e o limite de emissões previsto na licença continue sendo ultrapassado, ela é multada”, afirma Santana.

    Sucateamento ambiental

    A estação da Rodoviária, no centro de Porto Alegre, acusou um aumento da concentração de material particulado em 2006, mas devido à defasagem do aparelho, em 2007 não se obteve nenhum dado sobre os níveis de emissão deste poluente. “O ideal seria medir todos os contaminantes, mas isso não acontece pela precariedade do setor”, confirma Santana. O material particulado pode ser mais ou menos agressivo, variando de acordo com os metais pesados que o compõem. O meteorologista do Projeto Ar do Sul, Flávio Wiegand, explica que a concentração não é o único agravante para a saúde humana. “A composição das emissões é outro ponto importante para a análise, mas não costuma ser lembrada ou discutida”, informa.

    Mesmo com a Rede no Estado, funcionários da Fepam confirmam que os equipamentos estão defasados; pelo menos quatro deles estão estocados numa das salas do órgão ambiental aguardando pela manutenção. Para Santana, dos 39 módulos da Fepam, apenas 40% deles funcionam. Para se ter uma idéia, as estações foram instaladas em 1997, mas entraram em operação apenas no final de 2000 devido a entraves burocráticos.

    Além da burocracia, um outro obstáculo são os altos investimentos exigidos para consertar a Rede. “O kit de manutenção preventiva anual por módulo custa, por baixo, em torno de $ 2 mil dólares; se for necessário consertá-la, então, o valor é muito superior”, explica Santana. “Para arrumar a casa hoje a Fepam precisaria de um investimento de R$ 2,5 milhões; para a manutenção seriam necessários R$ 400 mil por  ano”, estima Santana.

    A Fepam realiza a manutenção preventiva simples a cada duas semanas, mas conforme o engenheiro, uma verdadeira manutenção exigiria a reposição das peças a cada três, seis e 12 meses, o que não vem sendo feito por falta de verba. Sem recursos próprios para reparar os aparelhos, o técnico esclarece que à Fepam resta apenas contar com o dinheiro vindo de licenciamentos e multas aplicadas a empresas privadas. E tendo em vista a declarada crise financeira do Estado, a tendência é que o problema persista. “Dentre todas as pastas, a Ciência e Tecnologia é a que menos recebe recursos; a do Meio Ambiente vem logo atrás em penúltimo lugar”, completa Christoff.

    Christoff mostra-se insatisfeito com a pouca valorização dada às atividades desempenhadas para o controle da poluição e  com o sucateamento geral do órgão do Estado. Além de funcionário da Fepam ele dá aulas na Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS). “O Estado deveria dar mais condições para o combate à poluição. Acompanhar a qualidade do ar não é um custo, é um investimento”, defende.

    A boa notícia é que a partir de janeiro de 2008 está previsto um aporte de R$ 700 mil para as peças da Rede Automática e de R$ 230 mil para corrigir as falhas nos equipamentos. O recurso virá através de um estudo desenvolvido entre a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) do Ministério da Ciência e Tecnologia com a Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (Fapergs) da Secretaria de Estado da Ciência e Tecnologia para o acompanhamento das emissões do biodiesel.

    A Fepam participará com a divulgação dos dados coletados pelos módulos. “Com este aporte, estimo que pelo menos 70% do maquinário da Rede de Monitoramento volte a funcionar em boas condições”, entusiasma-me Santana. Será comprado também um novo aparelho de monitoramento. Segundo o técnico da Fepam, o custo da unidade sai entre R$ 20 mil a 60 mil, variando de acordo com a necessidade de filtros específicos para cada um dos poluentes analisados.