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  • Atlas Ambiental inspira ecologia nas escolas municipais

    Adriana Agüero, especial para o JÁ

    Uma abordagem local. Essa foi a idéia da professora Cleonice Silva, da Escola Municipal Judith Macedo de Araújo, ao criar o projeto “Construindo conceitos e valor a partir do Atlas Ambiental de Porto Alegre”. No caso da escola, que está situada no Morro da Cruz, na zona leste de Porto Alegre, foi feito um detalhado estudo do relevo e da vegetação da área. “Porto Alegre é estudada dentro da imensa paisagem natural do planeta Terra; ressaltamos a fauna e a flora exclusivas da cidade, valorizando o bioma local, para que o aluno aprenda a valorizar o espaço onde vive e, a partir disso, ser um agente multiplicador”, explica Cleonice.

    Outro exemplo é a Escola Municipal Chapéu do Sol, que desde 2000 desenvolve o projeto “O meio ambiente é o meu ambiente”. O projeto se estrutura no tripé holístico: o cuidado de si, do outro e do meio. A diretora da escola, professora Rosane Pereira, explica que o diferencial da Chapéu do Sol é a dimensão da educação ambiental para além da preservação ecológica, a partir da perspectiva da natureza como uma extensão do ser humano. “Não podemos falar de preservação quando os alunos apresentam situações de agressividade e maus tratos em casa. Por isso, partimos do pressuposto de que, se não há auto valorização, auto estima elevada e respeito pelo próximo, também não há cuidado com o entorno”, salienta.

    A abordagem tem dado resultados dentro da própria escola, com a conservação do espaço físico limpo e sem depredações. “Eu acredito que a preservação da nossa escola está relacionada à noção de responsabilidade que o aluno adquire pelo bem público, com o uso cuidadoso e não exploratório daquilo que é de domínio coletivo”, expõe a diretora.Apesar dos bons resultados, nem todas as 93 escolas da rede municipal de ensino aderiram à educação ambiental.

    Para o professor de Ciências da Escola Chapéu do Sol, Vinícius Machado, o “carro-chefe” deste trabalho foi o curso de Extensão sobre o Atlas Ambiental de Porto Alegre, promovido pela Secretaria Municipal de Educação (SMED) e o Instituto de Geologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. “Mesmo assim vejo que não conseguimos explorar nem 30% da potencialidade do Atlas para o uso na escola”, comenta.Pelo curso, que teve apenas quatro edições, passaram mais de 200 professores da rede municipal.

    Questões como os impactos ambientais da especulação imobiliária, a ocupação urbana na capital e a preservação dos morros são debatidas, mas fundamentalmente, a cidade é apresentada como uma região rural e urbana, com micro climas diferentes, espécies próprias, caminhos rurais e população indígena particular.Segundo a assessora de Educação Ambiental da SMED, Teresinha Sá Oliveira, que fez o elo entre a Prefeitura e a Universidade no projeto, a formação através do Atlas, que em 2006 teve lançada sua 3ª edição, já está esgotada.

    O novo plano agora é a criação de um curso de pós-graduação em Educação Ambiental. “Para isso estamos conversando com o Instituto de Geologia da UFRGS, mas ainda não temos nenhuma previsão de quando abriremos turmas”, diz.

    A Secretaria Municipal do Meio Ambiente (SMAM) também desenvolve trabalhos de educação ambiental. Entre eles o Projeto Extremo-Sul, que integra escolas da rede municipal e estadual do extremo sul da capital, com cursos de capacitação de monitores ambientais para alunos e professores.

    Ainda assim, segundo a funcionária do Centro de Educação e Informação Ambiental da SMAM, Jaqueline Lessa Maciel, a disseminação de uma cultura ecológica não atinge a todos os educadores, porque faltam recursos públicos para promover cursos de formação. “Apesar do apoio do governo, esbarramos na falta de verbas do município. Para pagar os lanches dos professores durante um curso, por exemplo, muitas vezes é a nossa equipe que se mobiliza e tira do próprio bolso o dinheiro necessário”, conta.Empolgada com a formação adquirida no curso sobre o Atlas Ambiental, a professora de Geografia, Cleonice Silva, da 1ª turma, elaborou planos para serem aplicados na Escola onde leciona.

    “No início eu batalhei muito sozinha para provar que o projeto traria resultados positivos. Tive de convencer a direção da escola e meus colegas para que apoiassem a idéia e a tornassem interdisciplinar. Somente depois de ter ganhado muito prêmios, até no exterior, obtive reconhecimento. Hoje eu tenho 20 horas semanais para trabalhar com os alunos do turno inverso ao que eu leciono”, explica.

    Em 2000 a professora formou o Grupo de Educação Ambiental Amigos do Verde. Ali os alunos recebem formação para serem agentes multiplicadores tanto na escola quanto na família e na comunidade. A aluna do Ensino Fundamental e presidente do Grupo, Natália da Silva Raythz, de 14 anos, explica que com as trilhas ecológicas e saídas de campo os alunos enxergam os problemas locais e podem intervir. “O Grupo descobriu em 2001 um lixão a céu aberto numa das nascentes do Arroio Moinho no Morro Pelado. Anotando as placas dos caminhões que depositavam lixo para poder identificar os criminosos. Depois, organizamos um mutirão de limpeza no local e extraímos dali 10 caminhões de lixo”, conta.

    Depois que o espaço foi todo aterrado, famílias começaram a
    estabelecer casas no local. Preocupada com o problema, a estudante e integrante do Grupo, Ana Miriã Goulart, de 13 anos, avisou aquela comunidade dos perigos de construir moradias num local que corre o risco de explosão, devido ao gás metano que se encontra embaixo da terra. “Eu conversei com algumas pessoas, mas eles disseram que não vai explodir, que eu era louca. Então, quando eu passo por ali tem um homem que grita: Olha a bomba! Aí vem a bomba!”, relata Ana.

    Entre outras ações, os jovens implantaram a separação do lixo na escola, com reuniões de esclarecimentos aos funcionários e à comunidade quanto à importância da reciclagem. Construíram também uma horta comunitária; confeccionaram uma mapoteca do bairro; construíram maquetes de cidades ambientalmente corretas e replicas de prédios históricos na disciplina de Artes e coletaram rochas, fotos, gravuras antigas da cidade, documentários e textos de jornais e revistas para formar o Laboratório de Inteligência do Ambiente Urbano (Liau) numa das salas de aula.

    “Nosso objetivo é tornar a escola um centro de saber local que faz a diferença na comunidade. Já que aqui não temos espaços verdes como outras escolas, construímos o Laboratório para que seja um espaço de estudos e exposição permanente, porque queremos construir, acima de tudo, um conhecimento que seja perene”, observa Cleonice.

    Além disso, os alunos realizam oficinas de sabonetes, fotografia, papel reciclado e confecção de lixeiras. Com a produção e a venda destes produtos, eles financiam suas saídas de campo a cidades próximas, como Gramado e Canela, visitas a reservas ambientais e ao centro histórico da cidade. “Fazemos todo esse trabalho sem verba nenhuma. Eu busco materiais por conta própria para atualizar os alunos. Os painéis expostos no Liau foram doados pela UFRGS, mas todos eles estão escritos em inglês. Estamos lutando por materiais em português agora”, revela a professora.Também são promovidos intercâmbios sobre questões ambientais com outras escolas.

    A professora Cleonice recebeu em 2000 um convite para apresentar seu projeto na Feira de Hannover, na Alemanha. “Para ir até Hannover eu contei com o apoio financeiro de um colégio particular em que eu também lecionava na época, senão teria sido impossível”. Agora intercâmbistas da Alemanha e da Itália também vão até a Escola para escutar dos próprios alunos explicações sobre a fauna e flora de Porto Alegre dentro do Liau.

  • Artista ou mago?

    Naira Hofmeister

    Tudo indicava que a chuvarada de domingo em Porto Alegre ia continuar noite adentro. Mas, como num passe de mágica, pouco antes do início da intervenção anunciada por Antoni Muntadas, às 19h, no Torreão da Santa Teresinha, as nuvens se dissiparam e o que ainda restava de raios de sol pôde entrar pelas “Janelas Abertas”, a criação conceitual do artista.

    Quem foi ao local esperando ver a “performance” anunciada por um jornal da capital ou a mais nova criação de um vanguardista da arte contemporânea saiu decepcionado. Na sala do Torreão, nada além das 12 janelas, arqueadas e finas, escancaradas: a vista e os sons da rua, o vento soprando.

    “Olhar pela janela, eu posso da minha casa”, esbravejou um espectador. E possivelmente essa era a proposta de Antoni Muntadas, que, pelo menos na última década, têm desenvolvido projetos a partir da frase “Atenção, percepção requer envolvimento”.

    “Esse gesto de abrir as janelas é muito simples, mas compreende uma metáfora de sentir coisas que não estamos esperando. A mudança da luz, da temperatura, do cheiro, do espaço alteram a percepção”, esclareceu.

    Simples ou não, a intervenção de Muntadas foi fruto de um longo processo de gestação. “A primeira vez que estive aqui foi em 2002 e saí já com essa idéia”, recordou. Muntadas só colocaria em prática a proposta se fosse mantida em segredo absoluto pelos curadores do Torreão.

    “Foi um desafio e me lembrou muito uma obra de Marcel Duchamp, chamada Barulho Secreto”, comparou Elida Tessler, que organiza e escolhe as exposições que serão sediadas pelo espaço. Duchamp morreu em 1968, sem saber qual objeto seu marchand havia escondido dentro do cubo negro que ele chamou de Barulho Secreto.

    Muntadas estava mais interessado em ouvir o que as pessoas tinham para falar do que, ele mesmo, explicar seu objetivo. “Seria um gesto contraditório porque a idéia é exatamente provocar uma reação, não induzi-la”.

    Ainda assim, o artista fez questão de sublinhar que nesse caso especifico, atitude do espectador frente à obra de arte deve ser de uma certa passividade. “A pessoa não deve esperar que aconteça alguma coisa, possivelmente não vai acontecer. Ou vai… basta que dedique um tempo a ficar aqui, observando o que é natural mas, às vezes, imperceptível”.

    Apesar das poucas dissidências, o público soube interpretar – e aproveitar – a proposta de Muntadas. “A obra de arte não tem que ser necessariamente material. Gostei muito da surpresa de não a encontrar aqui. Em compensação, há esse brilho especial da luz depois da chuva”, observou a também artista plástica Maria Luiza Sarmento.

    O artista leva tão a sério a necessidade da observação do mundo exterior que recentemente, durante uma viagem que fez até Paris, recebeu um telefonema de um vizinho. “Deixei as janelas da casa de Veneza abertas durante esses dias que estive fora e, com as chuvas, diversos cômodos foram inundados”, ilustrou.

  • O renascimento da arte

    Helen Lopes

    Depois de quase dois anos de restauração, os três quadros históricos que ornamentam o saguão do Instituto de Educação estão prestes a ser reinaugurados. As telas serão entregues no início do ano letivo.

    A recuperação das pinturas gigantes – entre as cinco maiores do Brasil – está nos retoques, mas ainda faltam recursos para as molduras e para instalar iluminação adequada. Os quadros estão na escadaria do Instituto de Educação desde 1935 e, desde os anos oitenta, freqüentes tentativas de conserto foram feitas.

    No dia 19 de novembro, representantes dos governos estadual e federal poderão ver em primeira mão o resultado do trabalho, que custou desde março de 2006 cerca de R$ 400 mil, financiados através das leis de incentivo à cultura.

    “Precisamos da verba para concluir a recuperação e proteger as obras”, explica a presidente da Associação de Ex-alunos do colégio, Amélia Bulhões, que pretende transformar o local em uma pinacoteca e projeta para março de 2008 a inauguração oficial do espaço. Apesar de ainda não estarem totalmente prontos, os quadros já podem ser visitados pelo público, às quintas-feiras, mediante agendamento.

    Debruçados sobre as telas

    Seis pessoas, coordenadas pela artista plástica Leila Sudbrack, trabalharam na restauração dos quadros pintados entre 1919 e 1923 por ordem do então governador do Estado Antônio Borges de Medeiros.

    A primeira pintura a sofrer intervenção dos restauradores, em março de 2006, foi A Tomada da Ponte da Azenha, de Augusto Luiz de Freitas. Apesar do péssimo estado de conservação em que se encontrava, o material de qualidade utilizado pelo gaúcho em 1922 facilitou o trabalho da equipe de Sudbrack e evitou uma intervenção radical, que alteraria suas características originais. “Graças aos conhecimentos técnicos do artista a tela sobreviveu com exemplar dignidade aos maus tratos sofridos na sua primeira fase no Brasil”, elogia o relatório.

    A tela mais deteriorada era Garibaldi e a Esquadra Farroupilha, de Lucílio de Albuquerque, pois estava na parede que mais sofreu com infiltrações. A pintura do piauiense é também a mais antiga das três e data de 1919. A maior das três, A Chegada dos Casais Açorianos – que tem quase sete metros de largura – está recebendo os últimos retoques e deve estar plenamente concluída no final de novembro.

    Para proteger as obras, todas as molduras ganharam um suporte metálico para que não fiquem grudadas na parede, que por ser extremamente úmida, foi uma das principais causas da deterioração ao longo dos últimos setenta anos.

    *Esta reportagem é um dos destaques da edição 376 do JÁ Bom Fim/Moinhos, que já está circulando nos pontos de comércio da região central de Porto Alegre.

    O renascimento da arte

  • O Furacão de Arequito

    Cleber Dioni

    O furacão de Arequito ou, simplesmente, La Sole. Assim foi batizada pelos fãs a cantora argentina que vem arrastando multidões com seu ritmo folclórico sul-americano. Ela fez sua estréia no Brasil na última quarta-feira, 14 de novembro, na abertura do 22º Musicanto de Nativismo, em Santa Rosa.

    O festival acontece até o próximo sábado, dia 17 de novembro, no parque de exposições do município. A coordenação do evento espera a chegada, para logo mais, de dezenas de excursões de diferentes cidades e estados, além do Uruguai e da Argentina.

    Considerada uma das mais expressivas representações da nova geração da música argentina, Soledad Pastorutti nasceu em 12 de outubro de 1980 na cidade de Arequito, ao Sul da Província de Santa Fé, distante 360 quilômetros de Buenos Aires. Foi nesse povoado, com cerca de sete mil habitantes, que La Sole ganhou o apelido de furacão por contagiar o público com sua energia e o reboleio do poncho, que se tornou marca registrada da artista.

    Cantora desde muito pequena, herdou dos pais o amor pela música. Aos 6 anos, começou a estudar piano, aos 8 anos estudou violão e aí começou a cantar entre familiares e colegas da escola. Seu repertório envolvia artistas como Teresa Parodi, Mercedes Sosa, Los Cantores del Alba, Los Chalchaleros e Horacio Guarany, a quem considera seu padrinho artístico.

    Fez seu primeiro show como profissional aos 15, no tradicional Festival da Canção em Cosquín. Aí veio o primeiro contrato de trabalho, em 1996, com a gravadora Sony BMG, com quem está até hoje. Seu primeiro álbum foi Poncho ao Vento, gravado em 1997 num estúdio humilde, acompanhada de dois violões e um bombo legüero. Vendeu mais de um milhão de cópias, um dos discos mais vendidos em todo o país para espanto da crítica e um fenômeno comercial para a música folclórica.

    A partir do quarto álbum, gravado em Miami, a carreira da artista ganhou ares internacionais. Produzido pelo cubano Emilio Estéfan, seu trabalho ganhou outros ritmos. Fez shows no Chile, Uruguai, Paraguai, Bolivia, Estados Unidos e alguns países europeus. Além do grupo que sempre a acompanha, tem na irmã Natalia uma companheira em quase todas as apresentações.

    Seu último trabalho foi o álbum duploDiez Años de Soledad que reuniu as que já estouraram nas rádios, como Tren del Cielo e Adonde Vayas a alguns composições novas, como Pa´todo el año, um clássico da música mexicana.

    Apesar de contar mais de uma década de carreira e já ter rodado pelo mundo, La Sole ainda é desconhecida do grande público brasileiro. Através de sua assessoria ela explicou que sempre quis se apresentar no Brasil, mas via algumas barreiras como o idioma e a quantidade de artistas famosos no país, o que segundo ela a deixaria em segundo plano.

    Musicanto dará R$ 25 mil em prêmios

    O 22º Musicanto terá 24 músicas concorrentes, sendo apresentadas 12 em cada noite de eliminatória. Foram inscritas quase 600 músicas, dos mais diversos rincões brasileiros e latino-americanos – Peru, Uruguai, Argentina, Belém do Pará, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre e interior gaúcho entre eles.

    O público ouvirá milongas, chacareras, chamamés, canções, emboladas, zambas, gato, candombles, entre outros ritmos. O coordenador do festival, Cláudio Joner, confirmou a presença.

    Serão distribuídos mais de R$ 25 mil em prêmios, sendo R$ 12 mil para o vencedor, R$ 6 mil para o segundo e R$ 3 mil para o terceiro colocado.

    O Musicanto foi orçado em R$ 410 mil, tendo parte do valor aprovado nas leis de incentivo à cultura, estadual e federal, e o patrocínio da Eletrobrás, que garantiu R$ 80 mil, e de empresas locais.

    Confira a programação:

    Abertura – às 21h

    – Sesi Show
    – Concorrentes do Musicanto Universitário
    – Soledad in concert

    Dia 15- Show da Família Guedes
    – Concorrentes do 22º Musicanto

    Dia 16

    – Show com Luiz Marenco – Concorrentes do 22º Musicanto
    Dia 17- Tributo a Gonzaguinha (Vitor Hugo, Geraldo Flach e do Ó)
    – Final do 22º Musicanto Valores:
    Mesa primeiro setor (4 cadeiras): R$ 240,00
    Mesa segundo setor (4 cadeiras): R$ 200,00
    Arquibancada: R$ 5,00 (exceto na quarta, 14, para o show de Soledad, que custará R$ 20,00).
    Maiores informações pelo fone 3512 4861.
    Valores:
    Mesa primeiro setor (4 cadeiras): R$ 240,00
    Mesa segundo setor (4 cadeiras): R$ 200,00
    Arquibancada: R$ 5,00 (exceto na quarta, 14, para o show de Soledad, que custará R$ 20,00).
    Maiores informações pelo fone 3512 4861.

  • Cerros dos Porongos deve ser tombado

    Guilherme Kolling

    Cerro dos Porongos, no município de Pinheiro Machado, pode ser mais um local da Revolução Farroupilha tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). O processo está em andamento há quatro anos, desde que o movimento negro passou a se mobilizar pelo resgate do massacre de Porongos, que aconteceu no local.

    Foi uma batalha no final da Guerra dos Farrapos, em 14 de novembro de 1844 – completa 163 anos nesta quarta-feira –, que resultou na morte de um grande contingente de soldados negros, entre eles o famoso corpo de lanceiros negros.

    Com isso, o local deve ser o primeiro relacionado aos negros que será reconhecido como patrimônio histórico. A Prefeitura de Pinheiro Machado comprou 3 hectares da região, onde deve ser feito o Memorial dos Lanceiros Negros. O projeto já foi escolhido através de concurso nacional de arquitetura, promovido pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil.

    Outros cinco locais relacionados à Guerra dos Farrapos estão entre os bens tombados pelo IPHAN, todos relacionados a personagens brancos. São imóveis de personagens importantes ou prédios que foram usados como base de líderes dos exércitos.

    Piratini abriga três desses locais: o Palácio do Governo Farroupilha (construído em 1826 e tombado em 1941), o Quartel General Farroupilha (construído no início do século XIX e tombado em 1952), e a casa do general Giuseppe Garibaldi (tombada em 1941).

    Em Triunfo, está a morada onde Bento Gonçalves nasceu – hoje ela abriga o Museu Municipal Bento Gonçalves (construída em 1754 e tombada em 1940). Santana do Livramento tem a casa de passagem do comandante David Canabarro (construída em meados do século XIX e tombada em 1953).

    A casa de Canabarro será sede do Museu do Pampa, que vai contar a biografia do ícone farroupilha e um pouco das práticas e lidas campeiras. O local foi tombado em 1953, graças à mobilização iniciada pelo historiador da cidade Ivo Caggiani.

    Legenda: Área foi palco de batalha que dizimou solados negros do exército farrapo
    Crédito: Acervo IPHAN

    Traição ou surpresa?

    Em 1844, imperiais e farroupilhas lidavam para pôr fim à Guerra dos Farrapos que se arrastava por quase 10 anos. Os negros que lutaram ao lado das tropas revolucionárias eram um empecilho ao acordo, pois ficariam livres tão logo acabasse o confronto. Como conciliar uma província com negros libertos e um país escravocrata? A solução foi pragmática.

    Na madrugada de 14 de novembro de 1844, o exército farroupilha acampado no Cerro dos Porongos sofreu um ataque de surpresa das tropas sob comando do coronel Francisco Pedro de Abreu, o Chico Moringue, que foi direto ao ponto onde se concentravam os lanceiros negros. Sem munição, recolhida na véspera sob pretexto de uma possível revolta, eles foram massacrados. Soldados brancos e índios, acampados ao lado, tiveram tempo de fugir e se salvaram.

    Esta versão da penúltima batalha da Guerra dos Farrapos vem ganhando força nos últimos anos. Seus defensores dizem que o episódio até agora conhecido como “Surpresa de Porongos” merece ser chamado de “Traição de Porongos”. Além de martirizar os soldados negros mortos na revolução farroupilha, é uma revisão que fere a biografia de dois heróis: o general David Canabarro e o Duque de Caxias, comandantes dos dois exércitos e responsáveis pelas negociações de paz.

  • Da história da arte ao feminismo

    Guilherme Kolling e Naira Hofmeister

    Foi a conferência mais longa da série de palestras do Fronteiras do Pensamento em 2007. Camille Paglia falou por quase duas horas para uma platéia atenta no Salão de Atos da UFRGS, na quinta-feira, 8 de novembro.

    As luzes foram apagadas para que Camille projetasse no telão imagens que construíram a identidade feminina, representada através da arte. Desde a idade da pedra até Hollywood, estátuas, quadros, telas, filmes, fotografias forjaram os conceitos de beleza e feminilidade. “A preferência por formas femininas magras ou gordas, vai e volta”, comentou ela, depois da alternância de slides que exibiam, por hora, formas mais finas e, em outros momentos, mais arredondadas.

    Explicando a trajetória do conceito que hoje obriga as mulheres a estarem em permanente atenção com a forma magra e esbelta, Camille – para a alegria da platéia – sentenciou: “Na maior parte da história, o homem teve preferência por uma mulher mais forte ou gorda. Essa é a beleza autêntica, de uma mulher com personalidade”, disparou.

    Para a feminista americana, a homogeneização do padrão de beleza tira a originalidade de cada uma. “Hoje há um afinamento da mulher com o uso do photoshop, que alonga as figuras femininas. Existe um medo de exibir a gordura, a partir dos valores ditados pelas revistas de moda, que acabaram predominando. É uma tentativa de treinar os olhos para não aceitar os contornos autênticos femininos”, criticou.

    Brincando de formas e cores

    “Hoje as mulheres fazem lipoaspiração, é o modelo atual. Mas houve uma época em que ter os quadris largos era bonito”, observou. Na sociedade medieval, não era apenas a importância estética: reservas de gordura eram tidas como necessárias para uma gravidez bem sucedida.

    A vida absolutamente tomada pelos afazeres domésticos, com poucas oportunidades de deslocamento e onde a culinária consumia grande parte do tempo feminino, também influenciou os padrões de beleza. “Os quadris eram inchados de gorduras, e os pés sumiam debaixo de grossos tornozelos”.

    O formato tão combatido atualmente pelas cirurgias plásticas, os quadris largos, foi um dia um símbolo da função genitora da mulher. “O corpo feminino tinha a forma de um vaso que significava o útero como recipiente do esperma do homem”.

    Camille Paglia também mostrou as tradicionais imagens de mulheres com serpente, geralmente interpretadas como um objeto fálico. “Na verdade, representam uma ligação com a origem da vida, com a terra”, interpretou.

    Ela também falou na cor da pele, que hoje tem como moda um tom mais escuro, a ponto de as pessoas se submeterem a sessões de bronzeamento artificial. No antigo Egito, por exemplo, os vestidos eram muito justos, revelando as formas do corpo feminino. “Essa roupa translúcida deixava ver até os pelos pubianos”. O tom da pele, já desde essa época – também era padrão de feminilidade. “Era bem clara, a mulher estava protegida, se resguardava do sol. Por isso podemos observar os homens com uma tez muito mais escura”.

    A revolução sobre a cor ideal da pele da mulher só aconteceu depois da primeira Guerra Mundial, quando a estilista Coco Chanel voltou bronzeada de uma viagem e considerou esse um tom chique.

    Permitindo a feminilidade através dos tempos

    Se no século XXI os padrões de beleza são ditados pelas fotografias publicadas nas revistas masculinas – e com o apoio do photoshop -, o corpo da mulher demorou até ser exposto por completo em imagens. Ao longo dos tempos, a arte mostrou uma evolução na permissão do feminino: o que antes era exclusivo das prostitutas torna-se, na contemporaneidade, um comportamento normal de qualquer mulher.

    Durante o período helênico, por exemplo, ainda que os atletas fossem representados nus nas estátuas, isso jamais seria aceito se tratando de uma mulher. “Só se fosse prostituta”.

    Afrodite foi a primeira a aparecer nua, mas ainda timidamente. “Ela segura os panos que querem cair, mostrando-se apenas da cintura para cima”, complementa Camille Paglia. A mesma insinuação acontece com a Vênus de Milo, que é representada com a perna erguida para levantar a roupa que está escorregando, já na altura dos quadris. “O nu feminino era apenas imaginado, ao contrário do que acontecia com os atletas, que veneravam o corpo publicamente”.

    A mesma relação pode ser percebida nos papéis femininos nos filmes. No cinema mudo as garotas eram vitorianas e só depois da Primeira Guerra Mundial aparecem as primeiras mulheres despidas. “Uma representação de Cleópatra com os seios protegidos apenas por uma serpente foi um dos marcos”, exemplificou. Também foi na telas do cinema que a mulher começou a se ver com os lábios pintados de batom escuro e de onde pendia um cigarro. “Esse antes era um comportamento de prostituta”, compara.

  • Scliar contra o maquiavelismo

    Naira Hofmeister

    Na entrevista coletiva que reuniu Asne Saierstad e Moacyr Scliar na mesma bancada, na tarde de terça-feira, 30 de outubro, predominaram questões para a norueguesa. Mas aproveitando alguns ganchos da escritora, o médico judeu – e único integrante gaúcho da Academia Brasileira de Letras – soube dar seu recado sobre a intolerância, tema que movimenta o maior sucesso editorial da jornalista, O Livreiro de Cabul.

    “Esse é um momento oportuno para debatermos a questão do ocidente versus oriente. Temos que evitar o raciocínio ‘sim, mas’”, polemizou Scliar ao criticar o pensamento que separa as realidades. Por exemplo, “Sim, no Brasil temos muitos pobres, mas os filhos deles sequer vão à escola”.

    Na opinião de Scliar, essa maneira maquiavélica de ver o mundo está equivocada. “Precisamos usar a conjunção ‘e’, pois um equívoco não justifica o outro”, provocou. Uma discussão livre de estigmas, na opinião de Scliar, conduziria a um projeto mundial de civilização.

    Ainda assim, ele foi duro nas críticas aos costumes machistas que imperam em alguns países orientais. “Alguns médicos são obrigados a examinar suas pacientes através de um orifício num lençol, pois não podem toca-las”, advertiu. “Chega um momento em que a intolerância faz mal à saúde”, atacou.

    E conclamou, por fim: “Temos direitos humanos que precisam ser difundidos”, elogiando a imprensa nacional, que considera corajosa no que se trata de cobertura de intolerâncias. “Houve uma época em que havia uma censura violenta”, lembrou do regime Militar, que o proibiu certa ocasião, de escrever um comentário sobre um livro indígena. “A evolução da mídia é notável, e foi ela quem fez o Brasil deixar de ser retrógrado”.

  • Uma mulher no front

    Naira Hofmeister
    Foi uma coletiva de imprensa muito concorrida. Jornalistas de diversos veículos entrevistaram a colega Åsne Seierstad, autora de best-sellers como O Livreiro de Cabul e 101 dias em Bagdá. A conversa aconteceu no anexo do Salão de Atos da UFRGS, antes de sua conferência no Fronteiras do Pensamento, e durou pouco mais de uma hora. A seguir, os principais momentos da entrevista:
    No caso de O Livreiro de Cabul, a convivência com a família não atrapalha a análise do objeto da sua reportagem?
    A convivência é o próprio livro, ele consiste nisso. Não importa se é um jornalista ou um escritor, um texto sempre será resultado de uma determinada experiência. Claro que o ideal, no sentido de objetividade, é que ficássemos invisíveis, ou que fossemos câmeras na parede, mas isso é impossível.
    Por outro lado, a oportunidade de gastar tempo com um assunto específico me parece essencial. Porque uma pessoa pode fazer de conta por uma hora, duas. Pode fazer de conta até por uma semana. Mas com o tempo, o verdadeiro caráter acaba aparecendo.
    Mas durante a minha permanência no Afeganistão, houve momentos em que eu me tornava invisível, pois estava de burca. Essa vestimenta me permitiu vivências que eu jamais teria como ocidental e principalmente como jornalista. Um exemplo disso foi uma vez que acompanhei uma jovem numa entrevista de emprego. Ela queria ser professora, e a acompanhei na escola, vestida como um afegã. Se eu fosse “como eu mesma”, certamente teriam me oferecido café, teriam sido muito gentis. Não foi o que aconteceu.
    Também experimentei a sensação das mulheres que são obrigadas a viajar no bagageiro dos táxis, se houver um homem no banco. Se eu estivesse vestida como ocidental, certamente o táxi não teria parado ou o homem desembarcaria para me dar lugar.
    Que mensagem você destinaria às pessoas dessa família afegã?
    Minha estadia na casa deles foi resultado de coincidências. O personagem central, o
    livreiro, falava muito bem inglês e tinha um certo traquejo social. Convidou-me para jantar em sua casa e descobri que ali havia um livro. Uma mensagem para a família inteira é algo difícil de pensar, pois era completamente desfuncional. Não havia uma unidade familiar, cada um possuía um projeto de vida diferente.
    Eu ainda mantenho contato com algumas dessas pessoas, principalmente com Leila, que na época era uma moça e hoje leva uma vida de uma senhora afegã casada, absolutamente normal. Não é muito próspera, mas eu tento ajudá-la como posso.
    Já com o livreiro… bem vocês devem saber. Nosso conflito dura quatro anos. Eu
    acredito que sua raiva pelo livro é proveniente da diferença de expectativas quanto ao que deveria ser publicado ou o que é um livro. Eu sinceramente acreditava que ele iria ler o texto cuidadosamente e, após uma reflexão, entenderia minhas concepções. Mas ele tentou tirar o livro de circulação e inclusive propôs um encontro para que reescrevêssemos o livro.
    Mas de fato ele nunca foi concreto ao dizer no que exatamente o livro está errado. Ainda assim, ele esteve na Noruega, jantamos juntos e conversamos sobre amenidades em um a ocasião. Mas imagino que ele não quer que esse conflito termine, pois muitas soluções foram propostas.
    Por que ele não quer o fim da briga?
    Falei sobre as nossas diferenças de expectativas: ele imaginava que seria representado no livro como um anjo afegão. Que o livro fosse um conto de fadas. Mesmo porque, essa era a literatura a que estava habituado: histórias heróicas de reis afegãos. Apesar de ser um homem da elite, proprietário de uma livraria, seu contato único era com a produção local. Ele não conhecia sequer os clássicos do século XVII e XIX.
    Por exemplo, ele aprovou que suas mulheres contassem as próprias histórias. Mas não imaginava que elas fossem tão francas. Na verdade, o grande problema é que ele desejava ser um herói para o oeste, falando de democracia no Afeganistão e, ao mesmo tempo, um herói local, que adere aos valores tradicionais de controle e repressão social. E isso é impossível.
    Muitas mulheres afegãs que vivem na Europa e leram o livro me agradeceram por tê-lo escrito. Mas falaram que tive uma abordagem muito superficial, que havia muitas outras coisas a falar. Que as coisas que relato, são de fato algo comum no país. De toda a forma, o personagem Livreiro de Cabul tem seus méritos. Era um homem interessado na difusão cultural. E também não era uma pessoa violenta.
    Você leu livro que ele escreveu? O que achou?
    É um livro muito pequeno, por isso li rapidamente. Tem letras grandes e bordas
    largas e realmente pouco texto. Ele havia me adiantado o conteúdo durante um jantar em minha casa, na Noruega. Mas me chamou muito a atenção a maneira com que ele aborda a história. Ele narra que está sentado no hall de um hotel em Karachi e pela janela entram dois trolls, que são figuras mitológicas das montanhas da Noruega.
    Esses personagens não têm um caráter definido, são bons e maus ao mesmo tempo. No livro eles são enviados pelo rei dos trolls para descobrir a verdade dos fatos. E dizem a ele que querem fazer-lhe perguntas, evidentemente aquelas que ele gostaria de responder. Sua promessa é provar que não sou culpada, mas que quando fui à sua casa, levei alguns trolls na minha mochila, que fizeram que eu escrevesse aquilo.
    Mas ele me retrata como culpada. E ainda nega alguns detalhes, como o fato de seus
    filhos não irem à escola. No seu livro, ele argumenta que as escolas estavam fechadas naquele ano, mas isso não é verdade, pois havia um sobrinho dele que
    freqüentava aulas regularmente. Ainda assim, acho uma maneira democrática de
    resolver os problemas. Eu escrevi meu livro e ele o dele. Se todos os conflitos do
    mundo se solucionassem dessa maneira, seria excelente, não é?
    Qual a cobertura jornalística mais difícil que você fez?
    Difícil responder. Há muitas dificuldades quando se está numa guerra. Mas certamente uma das tarefas mais complicadas foi descobrir a verdade por trás das frases feitas com que os iraquianos respondiam as minhas perguntas sobre o regime de Saddam Hussein. Como o jornal para o qual eu trabalhava me exigia uma reportagem diária, era muito complexo.
    Como é seu dia-a dia fora das guerras, seu trabalho?
    Não trabalho quando não há conflitos…. (risos). De toda a maneira, sempre fui uma jornalista independente, free lancer a maior parte do tempo. Nunca tive a pretensão de me tornar uma repórter, meu interesse era ser pesquisadora. Por isso minhas reportagens são repletas de personagens e sentimentos. Durante um ano, trabalhei numa rede de televisão e fui uma jornalista medíocre.
    Mas um dia, me enviaram para a guerra de Kosovo e então descobri que era o que eu gostaria de fazer: buscar histórias interessantes. Não por ser uma guerra, mas porque era um momento decisivo para a humanidade, algo que iria mudar o mundo. Me interesso pelos destinos das pessoas.
    Como você vê a situação das mulheres atualmente, no mundo e no Brasil?
    Na Noruega vivemos numa democracia ocidental e há uma família real que cumpre funções protocolares, como receber chefes de Estado. Há algum tempo, a princesa norueguesa concedeu uma entrevista para uma repórter sueca. E disse que na Noruega os homens e as mulheres são iguais, e inclusive recebiam o mesmo salário. Isso gerou muitos protestos, porque mesmo no meu país, as mulheres ainda recebem 80% do vencimento dos homens.
    Não posso falar sobre a realidade brasileira, porque desconheço. Por exemplo, se uma família pode colocar apenas um dos filhos numa universidade, vai escolher o homem. De toda a maneira, a imagem que temos de vocês é um pouco clichê, ma sé positiva: mulheres que sambam e são lindas.
    Os direitos humanos estão acima da cultura. Uma pancada não dói menos numa afegã, porque lá isso é mais comum do que no Brasil ou na Europa. Também não é porque sua origem é oriental que não tem o direito de estudar. Há muitas africanas exiladas na Noruega e suas famílias as mandam – quando atingem oito ou nove anos de idade – de “férias” para suas cidades natal, onde são submetidas à clitoridectomia, que é a mutilação do clitóris. Agora há uma lei que permite prender ou processar essas famílias, por exemplo.
    A mídia não estaria auxiliando no fortalecimento dessa visão maniqueísta das culturas: o oriente é mau e atrasado e o ocidente é democrático e desenvolvido?
    Não podemos impor uma solução nesses países, eles mesmos têm que querer mudar. Por isso, uma parte da renda de O Livreiro de Cabul está destinada a educar as meninas afegãs. Montei uma escola para meninas em Cabul, onde elas aprendem a ler e escrever. Está no terceiro ano de operação e lá estudam 600 meninas. Meu sonho é que um dia possam narrar suas próprias histórias.
    O estigma é um problema, com certeza, em ambos os lados e certamente a mídia o reforça. Surpreendi-me quando fui ao Egito e fui muito bem recebida, muito bem tratada. Isso que sou razoavelmente bem informada. Mas também há revistas lá no Oriente que demonizam o Ocidente, por causa das drogas e da desintegração da família. É por isso que precisamos de livros, para aprofundarmos os assuntos.

  • Lançada segunda edição do Pioneiros da Ecologia

    Com a primeira edição completamente esgotada, JÁ Editores relança Pioneiros da Ecologia que resgata a memória do movimento ambientalista no Rio Grande do Sul.

    A segunda edição foi revista e ampliada e apresenta um panorama da consolidação da luta pela natureza no Estado, que inicia com Henrique Luís Roessler e culmina com a fundação da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), no início da década de 70.

    Além do conteúdo exclusivo da primeira edição – como os bastidores da demissão de José Lutzenberger no Governo Collor – a republicação traz acréscimos como o depoimento de Caio Lustosa e novas imagens, entre elas, a inédita foto de Lutz no DOPS, no dia seguinte ao famoso episódio em que o estudante Carlos Dayrell subiu numa árvore na avenida João Pessoa, em frente à Faculdade de Direito, para evitar seu corte.

    Uma precisa narração dos fatos históricos mais relevantes – a poluição da Borregaard e contestação aos agrotóxicos – fruto da pesquisa dos jornalistas da JÁ Editores, é acompanhada de depoimentos em primeira pessoa dos personagens desse embate.

    Augusto Carneiro narra detalhes da fundação da Agapan. Giselda Castro e Magda Renner falam sobre as artimanhas das ecofeministas da Ação Democrática Feminina Gaúchas para protestar em plena ditadura militar, contando com a proteção da polícia.

    O capítulo dedicado a Lutzenberger apresenta a compilação de três depoimentos do agrônomo, concedidos em 2001, um ano antes de sua morte. A síntese de suas principais idéias, observações, gostos e desgostos estão materializados em quarenta páginas.

    Seguem-se as memórias de Hilda Zimmermann, Sebastião Pinheiro e Celso Marques. O depoimento de Flávio Lewgoy recebeu acréscimos nessa segunda edição.

    Para fechar o livro, textos e documentos importantes para a formação do movimento ambientalista, como a Ata da primeira reunião da Comissão Verde, a Lei dos Agrotóxicos, e os já clássicos A Insensatez da Agroquímica, e Por uma ética ecológica, ambos de José Lutzenberger.

    Sobres os autores
    Elmar Bones da Costa nasceu em Cacequi em 1944. O jornalista trabalhou na equipe que montou a revista Veja na capital paulista em 1968. Desde então exerceu as funções de repórter, editor e diretor nas redações de grandes veículos da mídia nacional como Folha da Manhã, Coojornal, Gazeta Mercantil, O Estado de São Paulo, revista Isto É. Há dez anos dedica-se a uma intensa produção literária sobre temas históricos: “A Paz dos Farrapos” (1995), que já vai para a quarta edição, “O General que não aceitou a Paz” (1996), “Luiz Rossetti – O Editor Sem Rosto” (1996), “A Cabeça de Gumercindo Saraiva” (1997), “A Espada de Floriano” (2000), “O Cardeal e o Guarda-Chuva – Histórias da Santa Casa ”(2003). A partir de 1997 foi o editor-chefe dos álbuns História Ilustrada de Porto Alegre e Histórias Ilustrada do Rio Grande do Sul, publicados em fascículos e encartados no jornal Zero Hora em 1997 e 1998 respectivamente. Hoje é diretor da JÁ Editores.

    Geraldo Hasse nasceu em Cachoeira do Sul, em 1947. Diplomou-se na Universidade Católica de Pelotas, em 1968, quando começou a exercer a profissão de jornalista. Entre 1969 e 2002, colaborou com a revista “Globo Rural”, foi repórter e editor de “Veja”, e ainda trabalhou nas redações de “Exame”, “Guia Rural’ e “Gazeta Mercantil”. Morou em São Paulo nos anos de 1993 a 1996, onde foi editor-chefe do “Diário da Região”, de São José do Rio Preto, e no Espírito Santo, como consultor da Agência de Desenvolvimento do Estado entre 1997 a 1999. Foi vencedor do Prêmio Esso de Reportagem Econômica em 1979 e do Prêmio Interamericano de Jornalismo IICA em 1992. Geraldo Hasse já publicou 9 livros, entre eles, Eucalipto – Histórias de um Imigrante Vegetal (JÁ Editores, 128p.).

    Serviço
    Pioneiros da Ecologia – 2ª edição
    Autores: Elmar Bones e Geraldo Hasse
    JÁ Editores, 2007
    232 páginas
    Preço na Feira: R$ 28,00

  • Fábrica de craques chega a Cidade Baixa

    Alexandre Haubrich

    Surgiu uma nova chance para os garotos porto-alegrenses que sonham em ser o novo Ronaldinho, o novo Kaká. O Cruzeiro, de Minas Gerais, acaba de abrir uma franquia na capital gaúcha. Uma das sedes é na Cidade Baixa, na rua Joaquim Nabuco.

    O dono da franquia é Auri Montenegro, que já trabalhou nas categorias de base do São José de Porto Alegre. Ele conta com um time de peso para ajudar na administração dos garotos. Por enquanto, são oito professores, coordenados por Nestor Henrique, o homem que, nos seis anos em que treinou times de base do Grêmio, lançou nomes como Assis, Danrlei e Emerson. Há ainda o plano de contratar, para logo, uma psicóloga e uma nutricionista. Tudo isso para trabalhar com mais de duzentas crianças e adolescentes, dos cinco aos 17 anos.

    O Cruzeiro sede apenas a marca, os uniformes e a possibilidade de futuro aos garotos que, através da mensalidade – os que podem pagar -, sustentam o negócio, recebendo em troca a chance de encaminhamento para a Toca da Raposa, sede do clube em Belo Horizonte.

    A parceria com a prefeitura traz muitos jogadores em dificuldades financeiras, além da cessão de dois campos no Parque Marinha do Brasil, onde ocorre boa parte dos treinamentos. Os menores começam pelo futebol de salão, nas quadras alugadas na Joaquim Nabuco e na Silva Jardim.

    O projeto ainda engatinha, mas a idéia é seguir o padrão de regras das categorias de base do clube mineiro. A exigência de bom desempenho escolar, por exemplo, ainda não é aplicada, mas já há uma preocupação nesse sentido. Todos os professores farão estágios na Toca da Raposa, de modo a adquirirem experiência para ser aplicada posteriormente por aqui. Todos admitem que a estrutura ainda está longe da ideal, com campos esburacados e sem vestiários, mas a força de vontade faz com que se treine abaixo de chuva ou de sol, com lama ou com campo seco.

    É possível que até o fim do ano funcionários do Cruzeiro venham a Porto Alegre acompanhar o andamento do projeto e observar alguns dos garotos, podendo já levá-los para Minas. É um projeto audacioso, que prevê também a disputa de campeonatos a partir de 2008.

    Como em qualquer grande clube, o assédio aos novos craques já começou. Jogadores dispensados ou relegados a segundo plano na dupla Gre-nal têm se destacado, e já despertam interesse de empresários e dos próprios Grêmio e Inter. Mesmo assim, o experiente Nestor Henrique garante: “A diferença é que aqui todos têm oportunidade. Quem não está no time principal, assiste aos treinos para se espelhar naqueles garotos e se integrar a eles. Todos têm sua chance”.

    O filho da Dona Divina quer jogar

    O nome dele é Carlos Handerson Pacheco Barbosa, mas a mãe o chama de “Hãn”. Ele tem 15 anos, e mora na Restinga com o pai, o irmão de 17 anos – também jogador – e a maior incentivadora: Divina Maria Pacheco.

    Handerson treinou nas categorias de base do Grêmio desde os 7 anos de idade. Ali, não tinha muitas oportunidades, e foi nelas que pensou quando viu no jornal a chamada para a primeira peneira que o clube mineiro promoveria na capital gaúcha, em agosto.

    Agora, o garoto de pernas finas e cerca de 1,70 m treina duas vezes por semana e espera ser chamado o mais breve possível para a Toca da Raposa, sede do Cruzeiro em Minas Gerais. Seria o início da realização do grande sonho: jogar no Arsenal, da Inglaterra, como seu ídolo, o francês Thierry Henry.

    Gremista e volante, o garoto se inspira em Lucas, hoje no Liverpool, mas gostaria de jogar mais avançado, na armação. Quem defende o garoto e ataca a violência é a mãe, Dona Divina, que, desde que o filho foi assaltado na saída de um treino, percorre com ele de ônibus o longo trajeto da Restinga ao Parque Marinha. Promete fazer isso até terminarem suas férias de duas semanas, no trabalho como auxiliar de serviços gerais.

    A companheira de torcida é Taisa Fortes, dona de casa. Taisa tem dois filhos jogando no Cruzeiro, Luis Ricardo e João Vitor, de 14 e 11 anos, respectivamente. Os dois são atacantes, e nunca jogaram em outros clubes.

    Divina conta que, apenas este ano, viu cerca de 20 crianças conhecidas serem mortas no bairro onde mora, e garante que o esporte e as oportunidades são o caminho para afastar seu tesouro do crime. “Muitos meninos convidam ele para dar uma volta na hora do treino, dizem que ele perde tempo, que o tráfico é o caminho mais fácil. O esporte dá a chance de uma vida diferente, e não deixa que ele fique batendo perna, sem ter o que fazer”, explica.

    Handerson quer ganhar dinheiro para ajudar a mãe, que ganha um salário mínimo por mês, mas ela tem outra visão: “Na nossa idade, não precisamos de mais nada. Quero é que ele consiga dar para os filhos a vida que eu não pude dar a ele”.