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  • Moradores da Bela Vista querem manter área verde

    Vista aérea do local que deve receber o empreendimento (Reprodução)

    Helen Lopes

    A construção de três edifícios residenciais no número 1230 da rua Cabral e o prolongamento de 200 metros da Coronel Bordini – entre as vias Casemiro de Abreu e a Cabral – estão gerando polêmica no bairro Bela Vista.
    A Associação de Moradores da Bela Vista (Amobela) quer manter a área verde de 8 mil m² que será usada para o empreendimento, considerado o pulmão do bairro que não possui nenhum parque com grande extensão. “Queremos urbanizar a área e transformá-la numa praça”, propõem Alexandre Sperotto, que reside na avenida Passo da Pátria.

    A discussão esquentou no dia 30 de julho, quando a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Smam) convocou os moradores para uma reunião onde apresentou uma nova proposta, preservando 20% das árvores. “O projeto já está aprovado pela Secretaria de Obras e Viação (Smov), o que estamos fazendo é diminuir o corte de árvores”, observa Lisiane Cortez, bióloga da Smam.

    De fato a polêmica se arrasta há muitos anos e desde 2003, a Prefeitura, através da Smov, licenciou a obra. Mas no final do ano passado, quando projeto retornou à Smam para autorização dos cortes, o secretário do Meio Ambiente, Beto Moesch, pediu uma reavaliação da proposta. Conseguiu que a empresa Bolognesi, responsável pela obra, se comprometesse a deixar um cinturão verde na área a ser construída e também aumentasse a compensação ambiental – que será de 2.048 mudas.

    Segundo o estudo solicitado pelo órgão ambiental à empreiteira, no local existem 473 vegetais com mais de dois metros de altura. Conforme o novo projeto, a empresa preservaria 39 árvores – 22 a mais que o projeto anterior. “É o que podemos fazer. Não há lei que proíba o corte de árvores na área urbana”, afirma o secretário.

    No entanto, as mais de cem pessoas que lotaram uma sala do Hotel Blue Tree Towers, na Lucas de Oliveira, não estão satisfeitas com a proposta. O presidente da Amobela, João Paulo Fagundes, entende que a abertura da Cel. Bordini é importante para o escoamento do trânsito da região, mas alerta que a sombra dos prédios de 13 e 14 andares pode matar as árvores. “Não adianta deixar cinturão, o que tem que mudar é o Plano Diretor da cidade para impedir prédios tão altos”, defende.

    Os moradores querem fazer um levantamento de fauna e flora. “É preciso um estudo isento, sem intervenção da empresa, para sabermos quais as espécies que habitam o local”, diz o advogado Decio Martins, que acompanhou a reunião a convite de Carlos Sperotto, presidente da Farsul.  Sperotto, que mora num edifício atrás da área verde e perderá iluminação solar, era um dos mais exaltados. “É um absurdo o que querem fazer ali”, diz Sperotto, que reside no local há 20 anos.

    Favoráveis

    Também estavam lá moradores favoráveis ao projeto, como Maria Sonia Marin, que mora ao lado do terreno e sofre com o lixo jogado no local e a falta de iluminação. “Sou a favor porque o lugar serve de lixão e para o pessoal usar droga”, conta.

  • Consumidor desconfiado

    Pesquisa realizada pela IBM entre consumidores americanos e ingleses aponta uma queda significativa da confiança nas informações que as empresas de produtos de consumo fornecem sobre conteúdo, origem e impacto no meio ambiente. Recentes contaminações e recalls, somados a problemas de propaganda enganosa, são fatores decisivos para a desconfiança.
    A IBM entrevistou 1.676 consumidores nos Estados Unidos e no Reino Unido. Desses, 70% expressaram um nível geral baixo de confiança nas afirmações feitas em “produtos alimentícios de marca” sobre o seu impacto no meio ambiente e os benefícios para a saúde e para o bem-estar. Quase metade dos consumidores está mais preocupada com segurança e, aproximadamente, dois em cada cinco disseram que hoje compram marcas diferentes devido a essas preocupações.
    Cerca de 60% dos entrevistados disseram ter agora maior conhecimento sobre o conteúdo dos alimentos que estão comprando do que tinham há dois anos. Apesar dessa maior conscientização, 72% querem ainda mais informações sobre a fonte, os métodos de produção e o conteúdo dos produtos alimentícios embalados que estão comprando.

    Pesquisa retrata consumidor que decide

    A pesquisa foi conduzida on-line para a IBM pela Harris Interactive. Participaram 1.064 pessoas dos Estados Unidos e 612 do Reino Unido, com 18 anos ou mais. Os entrevistados escolhidos foram classificados como responsáveis por decisões de compras de supermercado, com base nas responsabilidades que possuem em seu domicílio.

  • Restabelecendo a confiança

    A IBM sugere no estudo que as empresas alinhem o planejamento de “rastreabilidade de valor total” com sua visão de marca, de modo a se diferenciar dos concorrentes. Esses sistemas novos podem proteger o fornecimento de alimentos e viabilizar a confiança e a transparência necessárias para gerar confiança no consumidor e, desse modo, proteger e fortalecer as marcas de empresas individuais.
    Trazendo a questão para a realidade local e respaldando-se na crescente queda da confiança do consumidor, a consultora Ana Serres, questiona: “Como restaurar esta confiança?” Para isto, ela aponta como um dos caminhos a transparência. Ela observa que se houver um interesse sincero nas necessidades do consumidor e cada um fizer o seu melhor – tanto fornecedor como cliente – pode-se chegar num coeficiente positivo. “O importante é acreditar que não há bilhete premiado. Tudo tem seu custo de produção”, observa Ana, lembrando que no Brasil as empresas têm ainda que agregar, um bom planejamento e testes baseados na realidade local e de acordo a cultura local.

  • Construção civil vence embate no Conselho Plano Diretor

    Guilherme Kolling
    Os debates no Conselho do Plano Diretor seguiram a linha das audiências públicas e, mais uma vez, o segmento da construção civil saiu vencedor, aprovando ou vetando artigos da lei conforme seus interesses. Ficou claro, de novo, o recuo estratégico do setor, que aceitou baixar as alturas e aumentar os afastamentos entre os prédios.
    E com mais um avanço para os moradores: a fim de incluir a proposta feita pela UFRGS, a ala liderada pelo Sinduscon (Sindicato da Indústria da Construção Civil) aceitou aumentar os recuos mais do que havia sido proposto. Assim prédios com até 27 metros de altura terão afastamento mínimo de 18%; edificações entre 27m e 42m terão 20%; e os empreendimentos com 42m a 52m de altura, 25% de recuo.
    O mapa que definiu os limites de altura para a área radiocêntrica, bairros entre o Centro e a Terceira Perimetral, é o mesmo (publicado no JÁ Bom Fim/Moinhos, edição 372 – julho 2007), com um máximo de 52m nas grandes avenidas, 42m, 33m e 27m nas demais áreas. Com um detalhe: através do Solo Criado, os construtores podem subir seus empreendimentos em até três andares.
    A proposta sofreu contestação, não dos movimentos de bairro, que não estão participando do Conselho, mas dos técnicos da Prefeitura. Os urbanistas do Município foram derrotados em todos os temas em que houve divergência: área livre vegetada, sacadas, recuos, afastamentos, projetos especiais e alturas.
    Em 8 de agosto, o secretário José Fortunati entregou o texto ao prefeito José Fogaça, que deve encaminhar o projeto de revisão do Plano Diretor até o final de agosto. Lideranças comunitárias já se mobilizam para convencer os vereadores sobre seus pontos de vista. Paralelamente, seguem atos questionando empreendimentos aprovados pelo atual Plano, casos de espigões no Petrópolis e na Bela Vista.
    Os debates no Conselho do Plano Diretor seguiram a linha das audiências públicas e, mais uma vez, o segmento da construção civil saiu vencedor, aprovando ou vetando artigos da lei conforme seus interesses. Ficou claro, de novo, o recuo estratégico do setor, que aceitou baixar as alturas e aumentar os afastamentos entre os prédios.
    E com mais um avanço para os moradores: a fim de incluir a proposta feita pela UFRGS, a ala liderada pelo Sinduscon (Sindicato da Indústria da Construção Civil) aceitou aumentar os recuos mais do que havia sido proposto. Assim prédios com até 27 metros de altura terão afastamento mínimo de 18%; edificações entre 27m e 42m terão 20%; e os empreendimentos com 42m a 52m de altura, 25% de recuo.
    O mapa que definiu os limites de altura para a área radiocêntrica, bairros entre o Centro e a Terceira Perimetral, é o mesmo (publicado no JÁ Bom Fim/Moinhos, edição 372 – julho 2007), com um máximo de 52m nas grandes avenidas, 42m, 33m e 27m nas demais áreas. Com um detalhe: através do Solo Criado, os construtores podem subir seus empreendimentos em até três andares.
    A proposta sofreu contestação, não dos movimentos de bairro, que não estão participando do Conselho, mas dos técnicos da Prefeitura. Os urbanistas do Município foram derrotados em todos os temas em que houve divergência: área livre vegetada, sacadas, recuos, afastamentos, projetos especiais e alturas.
    Em 8 de agosto, o secretário José Fortunati entregou o texto ao prefeito José Fogaça, que deve encaminhar o projeto de revisão do Plano Diretor até o final de agosto. Lideranças comunitárias já se mobilizam para convencer os vereadores sobre seus pontos de vista. Paralelamente, seguem atos questionando empreendimentos aprovados pelo atual Plano, casos de espigões no Petrópolis e na Bela Vista.

  • Consumo é o grande tabu da mídia da catástrofe climática

    Mariano Senna da Costa, de Berlim, especial para o JÁ
    Desde que o Painel Intergovernamental da Mudança Climática (IPCC, sigla em inglês) divulgou em fevereiro seu segundo relatório confirmando a responsabilidade humana sobre o fenômeno, alternam-se na mídia versões e contra-versões a respeito das causas e efeitos do problema.
    Um exemplo interessante foi o da edição de junho da revista alemã Cicero. “A mentira do clima – Um dossiê contra o Eco-pânico”, dizia o título. Entre análises parciais sobre o interesse de ONGs no assunto e um glossário com as dúvidas que ainda persistem na discussão, a revista criticou a forma sensacionalista como a grande imprensa tem abordado a questão. Logo na primeira página do texto há uma reprodução da capa de dois jornais de Berlin, o Die Tageszeitung e o Berliner Zeitung. Ambos publicados no dia 3 de fevereiro, noticiando a profecia da ONU para a catástrofe climática, mas exibindo em suas capas cenários opostos. Um trazia uma montagem do portão de Brandenburgo, símbolo turístico da capital alemã, inundado. O outro ilustrava o mesmo lugar transformado em um deserto.
    Independente das diferentes interpretações, o fato é que mesmo prevendo catástrofes, a grande mídia ainda se nega a debater o ponto nevrálgico para enfrentar a mudança climática: o consumo. Seja na Europa, nos EUA, ou na América Latina, e salvo raríssimas exceções, nenhum veículo toca no assunto. E ele não é nenhuma novidade. “Como pode a economia crescer infinitamente num planeta finito? De onde virão os recursos? Temos que mudar a forma de contabilizar o uso dos nossos recursos”, defendia o ecologista José Lutzenberger jà na década de 90.
    Clima de consumo
    Ultimamente o alerta vem sendo reforçado por experts do aquecimento global. “Nós vamos ter problemas tanto com a quantidade de consumo quanto com o padrão das coisas que compramos”, declarou o pesquisador do INPE, Carlos Nobre, em entrevista ao jornal Folha de São Paulo no dia 08 de março deste ano. Como uma das maiores autoridades brasileiras sobre a mudança climática, Nobre faz coro com outros nomes conhecidos internacionalmente. Em seu último livro “The Revenge of Gaia” (A Vingança de Gaia), James Lovelock diz que o maior desafio mundial na luta contra a mudança climática é o que ele chamou de “inércia social”. “Pense em como será difícil para nações como China, Índia e Estados Unidos mudar o comportamento de suas populações”, traz o texto publicado em fevereiro de 2006.
    Uma das tentativas de abordar o tema de forma mais profunda e abrangente foi feita pelos norte-americanos Michael Maniates, Thomas Princen e Ken Conca no livro “Confronting Consumption” (Confrontando o Consumo). Publicado em 2002 o livro descreve cases, faz análises e reflexões sobre conceitos tipo “imersão social do consumo”, “soberania do consumidor” e “políticas do consumo”. “O desafio não é apenas confrontar o consumo, mas transformar as estruturas que sustentam ele”, diz a conclusão do livro.
    A publicidade é uma dessas estruturas. “Realmente é uma questão ainda sem respostas. Como mudar a mentalidade das pessoas, como fazê-las refletir sobre a abundância de que dispõe, se o sistema de comunicação que as condiciona e educa diariamente depende primordialmente da publicidade, das vendas e do consumo? Eu realmente não sei”, declara Michael Maniates, professor de ciência política e ciência ambiental no Allegheny College na Pennsylvania.
    Iniciativa X Inércia
    Entre as iniciativas que tentam enfrentar o desafio está a revista “Adbusters”. Com sede no Canadá e 90 mil “apoiadores” em todo o mundo, ela visa combater o que chama de “poluição física e mental” das grandes corporações. Na capa de Agosto do site há um artigo sobre a iniciativa da Prefeitura de São Paulo de regular a publicidade ao ar livre. A idéia vem sendo seguida por outras capitais brasileiras, como Porto Alegre, mas em ambos os casos os argumentos para a implementação de leis que regulem a publicidade não tem a ver com a “racionalização do consumo”, mas com o que se pode chamar de “bem estar urbano”.
    De maneira geral mídia e governos falam confortavelmente sobre uma solução tecnológica ou política para o controle das emissões de gases estufa. Porém, parecem não querer ver que quando o foco é o indivíduo as contradições continuam cada vez maiores. “Conheço uma mulher absolutamente convencida de que algo precisa ser feito. Mas ela nem cogita deixar de ter a água da sua piscina na temperatura de uma taça de chá bem quente durante todo o inverno, não importa o que isto custe”, exemplifica a jornalista britânica Deborah Orr em artigo no The Independent. Uma das poucas vozes a atacar sistematicamente a incoerência de políticos e grandes empresas de comunicação, ela usa a autocrítica como forma de abordar temas escamoteados do noticiário. “Em alguns momentos, a habilidade para convencer a nós mesmos de que desastres são coisas que acontecem com outras pessoas é realmente muito podedorosa”, comenta ela em outro artigo.
    Sentado confortavelmente em seu jardim no subúrbio de Berlim, o médico aposentado Claus Kuhlmann, sabe que o consumo é um ponto importante no debate para “salvar o mundo”. Mas ele também sabe quão difícil é imaginar uma mudança de hábitos. “Dói só de pensar em reduzir aquilo que normalmente compro, mesmo que seja algo supérfluo”, admite. Aos 64 anos, Claus acredita que só depois que “algo muito grave acontecer” é que as pessoas talvez acordem. “Dificíl imaginar um mundo sem crescimento econômico, sem capitalismo. É como pensar numa volta à idade média”, comenta ele, concordando com o slogam da cúpula do G8 deste ano: “Nenhuma política do clima sem a economia”.
    Otimismo e Ceticismo
    Para Wolfgang Pomrehn, geofísico e meteorologista que atua como jornalista especializado em assuntos do clima e energia desde meados da década de 90, a redução do consumo não é nem desejável, nem factível. “Eu sou cético quanto a isso. Primeiro há uma questão moral aí, pois mesmo na Alemanha, há pessoas que já consomem o mínimo, que dirá em outros países do mundo”.
    Outro aspecto, segundo ele, diz respeito a questões como a estrutura e a tecnologia de geração, sobre as quais o cidadão comum tem pouca ou nenhuma influência. “Para os proprietários de apartamentos e casas alugadas, por exemplo, pouco interessa se os inquilinos precisam gastar mais ou menos energia com aquecimento por conta das condições do isolamento térmico dos imóveis”. Wolfgang defende assim, uma série de medidas políticas de difícil implementação. Entre elas está uma valorização do transporte coletivo, em detrimento da “cultura do automóvel”. Isso sem afetar o bem estar social. “Algumas medidas já estão sendo postas em prática, mas ainda são muito poucas e vem aparecendo muito devagar”, avalia ele que em setembro estará lançando um livro sobre o tema.
    Apesar da inércia do debate, o otimismo continua sendo a base do discurso oficial. “Uma das coisas maravilhosas do capitalismo é que a economia consegue aperfeiçoar aquilo que o público deseja comprar”, acredita o secretário de meio ambiente da Embaixada brasileira em Berlim, Flávio Mello. E essa visão também é válida para a “sustentabilidade da mídia”. “Eu acho que é possível que os órgãos publicitários e a iniciativa privada de modo geral se antecipem a essa necessidade de mudança. Acho que o ‘consumo destrutivo’ tende a diminuir progressivamente porque ele é autodestrutivo e as pessoas têm instinto de preservação”, pondera o secretário que é um dos interlocutores da política brasileira para biocombustíveis na Alemanha.
    Aliás, uma das grandes promessas para combater os problemas provocados pela queima de combustíveis fósseis é a sua substituição por produtos de origem vegetal. Pelo menos para o Brasil. “Para discutir a questão climática com seriedade, tem que olhar a questão dos biocombustíveis. E olhar com muito carinho”, avisou o presidente Lula durante o encontro do G8 na Alemanha. O objetivo, segundo o presidente, seria convencer o mundo de que os biocombustíveis são a solução para a substituição dos combustíveis fósseis, para a despoluição do planeta e para a geração de renda. “Os países ricos precisam aceitar que os países em desenvolvimento têm o direito de crescer como eles cresceram, para conquistar a mesma qualidade de vida que eles conquistaram”, arrematou Lula.
    Na contramão desse discurso estão entidades malditas para o stablishment. “Não creio que os países em desenvolvimento precisam ser ajudados pelos países desenvolvidos. Devemos lutar todos juntos por uma mudança de paradigma”, acredita a agricultora francesa, Isabelle Rouet, de 27 anos. Integrante da Via Campesina, ela defende que antes de falar em substituição de combustíveis é fundamental reduzir o seu consumo. “As pessoas na Europa devem entender que elas usam muito mais recursos do que dispõe. Esse excedente vem de fora, através de uma relação comercial bastante desequilibrada”. Para Isabelle a simples mudança de produtos, ou insumos não tornará as relações entre ricos e pobres mais justa. “É uma questão de cultura e filosofia”. Mas movimentos como a Via Campesina, que só na França tem cerca de 10 mil membros, estão fora do governo e da grande mídia.

  • A conversão socialista

    Naira Hofmeister, de Havana, Cuba*

    Miguel, de 42 anos, é guia turístico na Sierra Maestra. Ao pé da montanha onde Fidel Castro e Che Guevara iniciaram a revolução cubana, Miguel lamenta, mas não pode subir “sem o pago”. São 18 pesos convertibles (a moeda que os turistas usam, equivalente ao dólar) para ele e mais dez convertibles pelo táxi que facilita a escalada até a comandância de La Plata, o quartel general dos 300 guerrilheiros há 50 anos.

    Miguel é graduado pela Universidad de La Habana em Artes Plásticas e Economia. Há dez anos vive do turismo, como autônomo. Em vez de salário, recebe pagamento dos visitantes que leva para conhecer os caminhos de Che e Fidel. Trabalha sem nenhum tipo de contrato, apesar de o governo estar ciente de sua presença na Sierra Maestra.

    Ele poderia ser empregado do governo, como a maioria dos cubanos. Receberia no máximo 500 pesos cubanos por mês (mais ou menos 20 pesos convertibles). “Isso eu ganho num dia aqui, atendendo um único grupo de turistas”.
    Trabalhando menos de dez dias por mês, Miguel junta o suficiente para ir ver as filhas, que vivem em Bayamo, e ir a Havana tratar-se do vitiligo. O tratamento é gratuito, inclusive os medicamentos. Ruim é o ônibus, caro e não funciona.

    O guia tenta comover os turistas com sua história. Fala das filhas gêmeas de 15 anos que cria sozinho, da mulher que o trocou pelo sonho de Miami. Queixa-se que não pode oferecer seus trabalhos de artesão aos turistas. Pode ser expulso dali se fizer isso, mas ele às vezes dá um jeito.

    Já teve obras vendidas na Europa, por um marchand que se impressionou com as cores de sua pintura. “Ganhei uns mil dólares nessa ocasião”. Hoje ele divide um quarto semi-mobiliado com um colega de profissão, come arroz e feijão uma vez por dia e engana a fome com bananas que ganha do campesinato. “Não gosto do sabor, então o povo já sabe que quando me vê comendo banana é porque a barriga está incomodando demais”, explica com a boca cheia da fruta.

    O turismo é hoje a principal fonte de emprego dos cubanos. As estatísticas oficiais falam em mais de dois milhões de turistas por ano, serão cinco milhões até 2010. São muitos engenheiros, médicos, advogados, trabalhando em hotéis ou restaurantes, como garçom ou carregador de malas. Poucos são autônomos, como Miguel. A grande maioria é empregado do governo.

    *Leia íntegra da reportagem na Revista JÁ, número 1 que está nas bancas.

  • Fortunati teme que revisão na Câmara só termine em 2009

    Guilherme Kolling
    Quando as discussões no Conselho do Plano Diretor se tornam mais demoradas em torno de um tema, o secretário municipal de Planejamento, José Fortunati, trata logo de coibir os colegas e cobra uma definição do grupo. Ele também reage aos pedidos de adiamento, que eventualmente os conselheiros sugerem, para fazer uma redação mais elaborada de determinado artigo.
    “Não se trata de encolher ou atropelar o debate. É uma questão de bom senso. A demora nos trabalhos pode inviabilizar a revisão do Plano Diretor em 2007”, adverte Fortunati. Ele explica que o texto ainda tem que passar pela Procuradoria Geral do Município, antes de o prefeito entregar o projeto à Câmara.
    Ou seja, se demorar para chegar aos parlamentares, o projeto não vai ser apreciado este ano. “Já fui vereador e posso falar, por experiência própria. Se o Plano Diretor chegar só em setembro, não vai ter revisão este ano. E muito menos em 2008, que é ano eleitoral. Por isso faço um apelo para que encaminhemos o quanto antes essa discussão”, propôs o secretário do Planejamento.
    Pelo prognóstico de Fortunati, é bem provável que o Plano Diretor só seja revisado em 2009, isto é, quase uma década depois que ele foi posto em prática. Para evitar isso, uma das medidas estabelecidas foi aumentar o tempo de trabalho do Conselho, com reuniões de três horas, ao invés de duas.
    Leia mais sobre a revisão do Plano Diretor
    – Debates no Conselho do Plano Diretor chegam à fase decisiva
    – Câmara promove audiências sobre Plano Diretor
    – Plano Diretor: Comunidade obtém vitória parcial

  • Debates no Conselho do Plano Diretor chegam à fase decisiva

    Guilherme Kolling
    O auditório da Secretaria Municipal de Planejamento, na avenida Borges de Medeiros, vai ser palco de um dos debates decisivos sobre a revisão do Plano Diretor, nesta quinta-feira, 2 de agosto. A partir das 18h, o Conselho de Desenvolvimento Urbano Ambiental (CMDUA) se reúne para discutir sete artigos da lei, abordando temas como Solo Criado, alturas e afastamentos.
    Por sugestão do representante do Gabinete do Prefeito, Pipa Germano, ao invés de duas intervenções de três minutos – uma contra e outra a favor – os conselheiros poderão se manifestar mais vezes, inclusive com apresentações de mapas e exibição de imagens em data-show. “Este é o ponto nevrálgico da discussão. Tem que ser mais detalhado”, explicou.
    O CMDUA dedica-se exclusivamente à revisão do Plano Diretor desde o início de julho. A partir da segunda quinzena do mês, o grupo passou a se reunir duas vezes por semana para votar os temas em que não há consenso entre Conselho e Secretaria do Planejamento.
    Pelo que foi visto nos cinco encontros até aqui realizados, haverá polêmica. Desta vez, ao invés do antagonismo entre Sinduscon e associações de moradores, o embate se dará entre técnicos da Prefeitura e o segmento da construção civil. Até o momento, a vantagem é dos construtores.
    O principal duelo se refere à questão das alturas das edificações. A Prefeitura apresentou um projeto reduzindo-as nos bairros da área central da cidade, até a Terceira Perimetral. Os sindicatos da construção civil aprovaram, na audiência pública, um texto que prevê a diminuição do tamanho das edificações, baixando de 52 metros para 27m, 33m e 45m, a exceção das grandes avenidas.
    Só que incluíram o uso do Solo Criado, isto é, a possibilidade de aquisição de índices construtivos para permitir o aumento na altura das edificações. Assim, onde o máximo é 27m, com Solo Criado se pode chegar a 33m. Onde é 45m, com Solo Criado se pode chegar a 52m.
    “É coerente. As alturas estão mais baixas, mas é permitido que o empreendedor suba dois pavimentos no seu projeto, gerando recursos para habitação popular”, entende Sandra Saffer, conselheira representante do Sinduscon.
    Para o arquiteto Newton Baggio, da Secretaria do Planejamento, o zoneamento de alturas da Prefeitura é o melhor. Ele é contra a proposta do segmento da construção civil.
    A idéia do secretário do Planejamento, José Fortunati é concluir o trabalho até a próxima semana, quando devem ser entregues ao prefeito José Fogaça quatro textos: o projeto original da Prefeitura; as 454 propostas de entidades antes das audiências públicas; as resoluções aprovadas nas votações das audiências; e o projeto do Conselho do Plano Diretor.
    Destes quatro objetos, sai a poição final da Prefeitura sobre as mudanças no Plano Diretor. A expectativa é que Fogaça encaminhe o texto à Câmara Municipal ainda este mês.

  • Artesãos do Brique já preparam Feira de Natal

    Naira Hofmeister

    Ainda nem chegou o dia dos pais, mas os artesãos do Brique da Redenção já estão se organizando para promover a maior Feira de Natal de todos os tempos. Pela primeira vez a feira vai unir expositores do sábado e do domingo que somam mais de 500 artesãos.

    A primeira reunião entre os coordenadores aconteceu na primeira semana de agosto e a partir de agora, serão freqüentes. A Feira de Natal tradicionalmente ocupa toda a rua José Bonifácio durante quinze dias de dezembro.

    Sábado também será de Brique

    A partir de agosto, o Brique de Sábado vai ter logomarca e promoções específicas. As ações marcam uma nova etapa da feira – antes separada em quatro e agora unificada. Com a mudança, 423 expositores farão parte do Brique de Sábado. “Vai ser a maior feira de artesanato do sul do Brasil”, anuncia Júlio Pedro Querotti, presidente da Associação de Artesãos do Brique de Sábado.

    Além da marca comum, as bancas serão identificadas e haverão mapas para o consumidor se localizar. Outra novidade será o lançamento de uma revista com notícias sobre a produção dos expositores. Para marcar a inauguração, serão produzidas 50 mil sacolas ecológicas, além de bandeiras que demarcarão a área da feira.

    Atualmente existem quatro diferentes feiras aos sábados, na José Bonifácio. Uma no entorno do Mercado Bom Fim – ainda em via de regularização –, a ecológica e as que se reúnem nas duas associações de artesãos: a Associação de Artesãos do Brique de Sábado (AEBS),  e a Associação da Feira de Artesãos do Brique de Sábado da José Bonifácio (AFABSJB). Junho marcou a data dos quinze anos de realização da feira.

    O convênio entre as entidades tem o apoio da Secretaria Municipal de Indústria e Comércio – SMIC e da loja Mão de Ouro Artigos para Artesanato, que está produzindo a nova identidade visual. O logotipo deve enfocar o Monumento ao Expedicionário, considerado pelos artesãos o símbolo do Parque Farroupilha.

    O parque de diversões Zapt Zum também apostou no sucesso da empreitada e se agregou aos artesãos. Novas parceiras deverão ser anunciadas na próxima semana com empresas de cartão de crédito.

  • Manifestantes pedem em Berlim o fim da violência policial no Rio

    Mariano Senna da Costa, de Berlim, especial para o JÁ

    Um grupo de aproximadamente 30 pessoas esteve terça-feira, 24 de julho, na embaixada brasileira  em Berlim, na Alemanha, para uma tarefa tão nobre quanto ingrata. Formado por alemães e brasileiros vindos de toda Europa, o grupo protestava contra a violência policial nas favelas do Rio de Janeiro durante os jogos pan-americanos iniciados no último dia 13 deste mês.

    “Jogos Pan-americanos – Sol e lucro para os ricos, violência contra os pobres”, diz o slogan impresso nas camisetas e na faixa aberta em frente à representação diplomática na capital da Alemanha. Apoiados pela Rede Contra Violência e fazendo coro com instituições como a Anistia Internacional, eles distribuíram panfletos e deram esclarecimentos ao pequeno público que passou pela embaixada naquela manhã ensolarada. “A pena capital é vigente nas comunidades faveladas do Rio. São assassinatos onde a única versão que chega ao público é a da polícia”, acusa o produtor cultural Márcio Jerônimo, radicado há dois anos na Suíça. Segundo ele, o governo do Rio tem bloqueado as tentativas de investigações por organismos independentes, evitando assim “abrir a caixa preta da polícia”.

    Nas camisetas e na faixa: “Jogos Pan-americanos – Sol e lucro para os ricos, violência contra os pobres”

    No final de maio, o governador do Rio, Sergio Cabral, já havia deixado claro qual a abrangência da ação policial às vésperas do Pan. Em entrevista à Rede Globo, ele justificava a repressão como necessária para o desenvolvimento social. E avisou: “A nossa ação é uma ação permanente e ela vai se intensificar”.

    De acordo com o panfleto distribuído em Berlim mais de 50 pessoas foram executadas pela polícia nas favelas do Rio desde o início de maio. O fato mais grave ocorreu em 27 de Junho quando 19 pessoas foram mortas durante a entrada da polícia no Complexo de Favelas do Alemão. Mais inusitado, contaram os manifestantes, foi que dois representantes da Rede Contra a Violência foram presos no último fim de semana no Rio de Janeiro. A acusação, segundo eles, é que ambos comercializavam camisetas onde o mascote do Pan 2007 aparece disparando um rifle automático da polícia, desrespeitando os direitos de uso da imagem do símbolo.

    Outra crítica feita pelos manifestantes é a forma distorcida e preconceituosa como a mídia tem apresentado a discussão. “A grande mídia continua tratando a favela como um lugar de bandido”, reclama Sandra Bello, artesã carioca há 10 anos em Berlim. Ela corrobora com a análise feita esta semana pelo jornalista Juca Kfouri sobre a relação da mídia com os produtores do evento. “A grande mídia, que atinge a maior parte da população, tem tido um comportamento lastimável. Não deu um minuto sequer de crítica. É a velha confusão entre ‘ser dona dos direitos de transmissão do evento’ e confundir isso com ‘ser sócio dos donos do evento’. E sócio não critica”, diz.

    Dentro da embaixada brasileira o sentimento era misto entre a surpresa e a indiferença. “Leio UOL e Globo, mas lá não vi nada sobre esse problema. Se havia não me chamou a atenção”, comentou Pedro Diehl Filho, gaúcho de Butiá e morando na Europa há 18 anos. Opinião semelhante a da estudante de direito Laura Fritzen, apenas de passagem por Berlim. Ela foi à embaixada obter informações sobre a possibilidade de imigrar para a Alemanha, projeto que pretende realizar após terminar seus estudos em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. A respeito da violência policial pouco sabia. “Acho que as mortes lá são constantes, por isso que nem chama mais a atenção”, ponderou a estudante que tem a Zero Hora como jornal preferido.

    Os representantes consulares se mostraram mais sensíveis à questão. O vice-embaixador, Tovar da Silva Nunes, responsável pela área de negócios da embaixada foi quem recebeu os manifestantes, já que o embaixador estava viajando. Após meia hora de reunião disse que iria encaminhar o pedido de esclarecimentos ao Departamento de Direitos Humanos do Itamaraty em Brasília. Sobre a veracidade das denúncias foi cuidadoso. “É difícil julgar, pois não há fotos sobre essas mortes na Internet, mas parto do pressuposto de que se há pessoas reclamando é porque algo aconteceu”.

    Mariano Senna da Costa, de Berlim, especial para o JÁ

    Um grupo de aproximadamente 30 pessoas esteve terça-feira, 24 de julho, na embaixada brasileira  em Berlim, na Alemanha, para uma tarefa tão nobre quanto ingrata. Formado por alemães e brasileiros vindos de toda Europa, o grupo protestava contra a violência policial nas favelas do Rio de Janeiro durante os jogos pan-americanos iniciados no último dia 13 deste mês.

    “Jogos Pan-americanos – Sol e lucro para os ricos, violência contra os pobres”, diz o slogan impresso nas camisetas e na faixa aberta em frente à representação diplomática na capital da Alemanha. Apoiados pela Rede Contra Violência e fazendo coro com instituições como a Anistia Internacional, eles distribuíram panfletos e deram esclarecimentos ao pequeno público que passou pela embaixada naquela manhã ensolarada. “A pena capital é vigente nas comunidades faveladas do Rio. São assassinatos onde a única versão que chega ao público é a da polícia”, acusa o produtor cultural Márcio Jerônimo, radicado há dois anos na Suíça. Segundo ele, o governo do Rio tem bloqueado as tentativas de investigações por organismos independentes, evitando assim “abrir a caixa preta da polícia”.

    Nas camisetas e na faixa: “Jogos Pan-americanos – Sol e lucro para os ricos, violência contra os pobres”

    No final de maio, o governador do Rio, Sergio Cabral, já havia deixado claro qual a abrangência da ação policial às vésperas do Pan. Em entrevista à Rede Globo, ele justificava a repressão como necessária para o desenvolvimento social. E avisou: “A nossa ação é uma ação permanente e ela vai se intensificar”.

    De acordo com o panfleto distribuído em Berlim mais de 50 pessoas foram executadas pela polícia nas favelas do Rio desde o início de maio. O fato mais grave ocorreu em 27 de Junho quando 19 pessoas foram mortas durante a entrada da polícia no Complexo de Favelas do Alemão. Mais inusitado, contaram os manifestantes, foi que dois representantes da Rede Contra a Violência foram presos no último fim de semana no Rio de Janeiro. A acusação, segundo eles, é que ambos comercializavam camisetas onde o mascote do Pan 2007 aparece disparando um rifle automático da polícia, desrespeitando os direitos de uso da imagem do símbolo.

    Outra crítica feita pelos manifestantes é a forma distorcida e preconceituosa como a mídia tem apresentado a discussão. “A grande mídia continua tratando a favela como um lugar de bandido”, reclama Sandra Bello, artesã carioca há 10 anos em Berlim. Ela corrobora com a análise feita esta semana pelo jornalista Juca Kfouri sobre a relação da mídia com os produtores do evento. “A grande mídia, que atinge a maior parte da população, tem tido um comportamento lastimável. Não deu um minuto sequer de crítica. É a velha confusão entre ‘ser dona dos direitos de transmissão do evento’ e confundir isso com ‘ser sócio dos donos do evento’. E sócio não critica”, diz.

    Dentro da embaixada brasileira o sentimento era misto entre a surpresa e a indiferença. “Leio UOL e Globo, mas lá não vi nada sobre esse problema. Se havia não me chamou a atenção”, comentou Pedro Diehl Filho, gaúcho de Butiá e morando na Europa há 18 anos. Opinião semelhante a da estudante de direito Laura Fritzen, apenas de passagem por Berlim. Ela foi à embaixada obter informações sobre a possibilidade de imigrar para a Alemanha, projeto que pretende realizar após terminar seus estudos em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. A respeito da violência policial pouco sabia. “Acho que as mortes lá são constantes, por isso que nem chama mais a atenção”, ponderou a estudante que tem a Zero Hora como jornal preferido.

    Os representantes consulares se mostraram mais sensíveis à questão. O vice-embaixador, Tovar da Silva Nunes, responsável pela área de negócios da embaixada foi quem recebeu os manifestantes, já que o embaixador estava viajando. Após meia hora de reunião disse que iria encaminhar o pedido de esclarecimentos ao Departamento de Direitos Humanos do Itamaraty em Brasília. Sobre a veracidade das denúncias foi cuidadoso. “É difícil julgar, pois não há fotos sobre essas mortes na Internet, mas parto do pressuposto de que se há pessoas reclamando é porque algo aconteceu”.