O atual modelo econômico incentiva a importação e exportação de produtos, enfraquecendo o mercado nacional e permitindo a migração de forma desenfreada, inclusive, para o sul do país, de transnacionais. Frente a essa situação, é necessário questionar se é esta a melhor atitude para promover o crescimento econômico do país.
Como há 500 anos, o Brasil continua sendo uma colônia de exploração. Empresas de fora se instalam no país com a contra partida da geração de empregos. Porém, o que faz é extrair as suas riquezas naturais. O emprego não é gerado, apenas mão de obra barata, sendo a justificativa falsa. A cada 185 hectares, é criado apenas um emprego. Já a agricultura camponesa gera cinco empregos em um hectare Além disso, a grande parte do que é produzido não é revertido para o consumo nacional.
A conseqüência é a terra empobrecida e os resultados do massacrante trabalho imposto pelas empresas, como mutilações e mortes. Somado a isso, a biodiversidade do Bioma Pampa é a maior do mundo. São cerca de 3 mil espécies, entre leguminosas e gramíneas. Trocar essa riqueza natural por desertos verdes torna-se um desperdício. Plantar árvores numa região de estepe gramíneo-lenhosa, que possui as melhores pastagens do planeta, como afirma a bióloga Ana Paula Fagundes, é um erro ainda mais grave.
Zoneamento, alternativa para a preservação
O estudo de Zoneamento Ambiental para Atividade de Silvicultura no Rio Grande do Sul (ZAS) realizado pelo Estado, através da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), é o que pode reverter esse quadro. Na origem do zoneamento está a Resolução nº 084/2004 do Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema), que incluiu a silvicultura no sistema de licenciamento por integradora. Tanto o zoneamento como o licenciamento estão previstos pelo Código Estadual do Meio Ambiente (Lei 11/520/2000). O ZAS ainda não foi aprovado pelo Consema, porém as empresas já receberam autorização para iniciar os plantios apenas com o apoio em normas contidas em um Termo de Ajustamento de Conduta que as libera da obrigatoriedade de respeitar as diretrizes do ZAS. Por isso, se fez necessário a sua aprovação, que pode garantir a preservação e melhor utilização do biomba pampa.
O estudo de zoneamento dividiu o Estado em 45 unidades de paisagens naturais e, a partir disso, aplicou uma matriz de vulnerabilidade ambiental, indicando o grau de fragilidade de cada unidade em relação aos diferentes itens considerados. Esses correspondem aos principais impactos do desenvolvimento em larga escala da atividade de silvicultura. Foram identificadas 12 unidades de baixo impacto ambiental, 15 de médio e 18 de alto impacto. Entre os critérios analisados, estão a presença de comunidades quilombolas e/ou indígenas, sítios arqueológicos, rotas turísticas e Mata Atlântica. Levou-se em consideração, ainda, a questão hídrica (lugares com maior nível de água terão impacto menor, por exemplo).
O Termo de Ajuste de Conduta (TAC) proposto em 2006, quando o acordo firmou entre as partes (empresas de celulose, Ministério Público Estadual (MPE) e Governo Estadual) que deveriam ser retiradas as plantações de eucalipto que estivessem em locais impróprios, foi refeito este ano. O novo TAC assinado prevê novos plantios, respeitando o ZAS e o documento elaborado pelo Grupo de Trabalho criado pela Secretaria Estadual de Meio Ambiente (SEMA), formado por empresários, grupo este não considerado legítimo por muitos, mas sim pelo MPE. Os relatórios das audiências públicas, previstas por lei, também serão levados em consideração.
Audiências públicas, falsa democracia
Conforme depoimento de Jânio Alberto Lima, do FUNRIO, WWBrasil, “ao participarmos da audiência em Alegrete presenciamos fatos lamentáveis promovido pela Força Sindical, empresas, políticos e por pessoas que por relato próprio, sequer ao menos sabiam o que faziam nas audiências. Isto nos causou um profundo desapontamento. Sindicalistas, orientados e dirigidos por forças nem tanto ocultas, com claro e expresso intuito de causar terror, pânico e impacto da ordem emocional, incitavam essas pessoas para que agissem com agressão contra aqueles que tinham posições contrárias. Ações que lembraram à época do Fascismo, onde queriam manter o povo em submissão cega aos seus verdadeiros interesses, mudavam as leis, ditavam ordens e regras e traziam desolação e desgraças irreversíveis para todos”. Iporã da Silva Haeser, que tentou participar da audiência pública em Pelotas, conta que “havia na frente do local um grande número de faixas com o logotipo da Força Sindical e também alguns da Força Verde, lembrando que plantar eucalipto é fonte de emprego e que preserva a mata nativa. Porém, o que mais me chamou a atenção é que eu esperava encontrar lá um grande número de ambientalistas, mas não, o grande público eram trabalhadores da Votorantim Celulose e Papel, que vieram em ônibus, de diversos municípios da região. A concentração de pessoas às portas era grande e os brigadianos controlavam a entrada. Quando me enfiei em meio à muvuca e me aproximei da entrada, ouvi “não entra mais ninguém”. Vi, inclusive quando um secretário municipal da região apresentou seus documentos e mesmo assim, teve sua passagem barrada.
Ana Paula que participou da audiência em Caxias do Sul, relatou que “as audiências estão sendo um verdadeiro circo lotado de empregados das empresas, cerca de mil, que vão de uma audiência a outra. Não há a participação da comunidade local, tampouco discussão do ZAS, o que é objetivo. Até mesmo a entrada nas audiências de quem não é da Força Sindical ou Força Verde, está sendo dificultada”. O relatórios das audiências mais os documentos que podem ser enviados à Fepam até o dia 29 de junho serão avaliados para então ser dado o veredicto final.
Para a bióloga, é importante frisar que o eucalipto não é o problema, mas a plantação em grande escala. O solo que recebe plantio contínuo de uma mesma espécie é sempre enfraquecido. Ainda mais o Biomba Pampa, uma área aberta sem o histórico do cultivo de árvores. “Qualquer outra que fosse plantada em larga escala e em monocultura seria inadequado para a natureza, que é biodiversa. O Brasil é o país mais megadiverso do mundo, temos que conviver com a biodiversidade e não criar sistemas que vão contra ela. A biodiversidade nos dá uma possibilidade de desenvolvimento econômico e social incrível”.
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Desrespeito ao zoneamento ambiental do bioma Pampa favorece interesses transnacionais
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INTER, Orgulho do Brasil ganha nova edição

Ao se tornar campeão mundial interclubes, o Internacional conquistou o mais importante título de sua história. Esse é apenas um capítulo dos grandes momentos do clube. Em INTER – Orgulho do Brasil, toda a trajetória do Colorado é contada. O livro remonta as origens do Sport Club Internacional, mostrando sua origem democrática, que foi o primeiro a ter um jogador negro atuando no time.
Em poucos anos, o Inter tornou-se o clube mais popular do Estado, impulsionado pelas atuações do lendário Rolo Compressor. Essa famosa equipe é apresentada através de seus feitos na década 40. Também aparece o grupo treinado por Teté nos anos 50, que promoveu façanhas como a vitória por 6×2 no Gre-Nal de inauguração do Olímpico e serviu de base à Seleção Brasileira que conquistou o título Pan-Americano de 1956. Os jogadores do Inter, em sua maioria, também vestiram a camisa canarinho nas Olimpíadas de Los Angeles, em 1984, conquistando a inédita Medalha de Prata.
Mas antes o Inter conquistou o Brasil, no tricampeonato de 1979, título invicto e inigualado. Isso sem falar no octacampeonato gaúcho de 1976, na conquista da Copa do Brasil, em 1992, na supremacia em clássicos Gre-Nal e na Libertadores em 2006. Todos esses feitos e vitórias são contados seguindo uma ordem cronológica e com riqueza de detalhes, narrados de maneira apaixonada pelo jornalista Kenny Braga. Por tudo isso, é uma obra fundamental para todos os colorados e desportistas em geral que buscam conhecer a história do clube.
INTER, Orgulho do Brasil chega à sua quarta edição, revisada e ampliada, com capítulos inéditos sobre a conquista da Tríplice Coroa – Copa Libertadores da América, Mundial Interclubes e Recopa.
Ricamente ilustrados com fotografias, os novos capítulos incluem a narração dos jogos decisivos e perfis dos atletas, como o de Alexandre Pato. A obra de 232 páginas mostra ainda um panorama do clube com reportagens sobre a modernização do Beira-Rio, o trabalho das categorias de base, dos consulados, da Fundação de Educação e Cultura e a participação dos torcedores.
Sessão de autógrafos
INTER, Orgulho do Brasil será lançado na próxima quinta-feira, 5 de julho, no Centro Municipal de Cultura e Lazer Lupicínio Rodrigues (Avenida Erico Verissimo, 307). A partir das 18h30, Kenny Braga autografa e recebe o público para a confraternização.
Sobre o autor
Kenny Braga nasceu no mês de dezembro de 1944, em Santana do Livramento. Jornalista, escritor e radialista, ele se notabilizou pela defesa intransigente do Internacional no programa Sala de Redação, da Rádio Gaúcha, do qual participa desde 1980. Há seis anos, Kenny também assina a coluna “Paixão Colorada”, no jornal Diário Gaúcho. Com passagem em diversos veículos do Estado e do país, o jornalista já publicou 10 livros.
Serviço
INTER, Orgulho do Brasil
Autor: Kenny Braga
JÁ Editores, 2007
232 páginas
R$ 36,00 -
HPS: Um grito de socorro

Naira Hofmeister*
Baratas circulam entre os vidros de medicamentos, ataduras estão expostas aos respingos do ar condicionado estragado, ratos cruzam portas e atravessam corredores e pedaços de gente morta apodrecem sem nenhuma providência. Parece cenário de filme de terror, mas é uma realidade que pode ser constatada dentro do maior Pronto Socorro do Estado, na esquina da avenida Osvaldo Aranha com Venâncio Aires.
O HPS completou 63 anos em abril. O presente de aniversário seria uma reforma no andar térreo programada para começar antes do final do ano. O Governo Federal prometeu a verba para ampliar e qualificar a emergência do hospital. “O dinheiro já está separado, falta apenas a assinatura dos papéis”, alega o Dr. Paulo Roberto Azambuja, diretor do hospital.
Enquanto a burocracia não é resolvida, a Prefeitura não vai investir em reformas imediatas, exatamente porque espera o auxílio do Governo Federal. “Qualquer outra obra agora seria um desperdício de dinheiro público”, acredita Azambuja. O problema é que a previsão mais otimista do diretor do HPS é que as verbas sejam liberadas em novembro. “Depois do pontapé inicial, serão cerca de 10 meses até a entrega das novas instalações”, projeta.
“Os políticos dão discurso e a gente acha soluções reais” protesta uma enfermeira. Falta ventilação no espaço, as janelas não abrem. “Aqui tem gente com tuberculose e meningite”, comenta. Para minimizar o problema, médicos e enfermeiras da emergência improvisam.
No lugar onde deveria haver um ar condicionado, há um compensado de madeira colado com fita adesiva. “Hoje está frio, abre só um pouquinho”, avisa a funcionária que “regula” a temperatura. Em dias de calor, o tapume é retirado e surge outro problema. “Uma família mora aí embaixo desse buraco”. Uma paciente firma a voz e diz: “Eles têm cachorro e tudo… fico imaginando a sujeira que entra”.
Os problemas de higiene assustam. “Barata desfila por aqui”, comenta a enfermeira. Os ratos que transitam pelos corredores já deixaram de ser novidade. Enquanto narra essas situações, abre uma porta na extremidade esquerda da sala, e chama a reportagem. “O que te diz isso aqui?”. Dois ou três sacos de lixo, muitas garrafas de álcool, urinóis e caixas empilhadas dão a impressão de se tratar de um depósito.
Por falta de espaço, a sala onde são despejados cocô e xixi dos pacientes é utilizada pelos enfermeiros para aplicar medicação intravenosa. “É um absurdo, mas macas ocupam o espaço privativo onde deveriam ser feitas a injeções”, protesta.

A direção do hospital admite os problemas, mas não cogita qualquer obra emergencial, pois aguarda a verba do SUS. “Um investimento agora seria desperdício de dinheiro público”, acredita o diretor Paulo Roberto Azambuja. O médico afirma que a infestação de ratos e baratas foi pontual. “Temos uma empresa contratada para fazer a desratização e dedetização, que no momento está aplicando doses mais poderosas”, elucida.
Burocracia estadual
Outra promessa é a reforma da ala de queimados, a única UTI do Estado para tratamentos do gênero. Campanha da Fundação Pró-HPS, lançada em 2006, arrecadou R$ 3 milhões e 200 mil.
O projeto está enquadrado na Lei de Solidariedade, mas a Secretaria de Justiça e Desenvolvimento Social não está segura que se trata de um investimento social. “Estamos de mãos amarradas”, lamenta Rogério Beidacki, diretor da Fundação.
Enquanto isso, falta espaço até para os funcionários trocarem de roupa. Eles usam o corredor. “Já conhecemos todas as cuecas – para não dizer mais”, ironiza uma técnica.
Rebelião na morgue
Se a refrigeração faz falta na emergência, é possível imaginar o que acontece se a morgue não possui ar condicionado. A saleta que abriga os falecidos no HPS foi alvo de uma rebelião dos funcionários no mês passado.

A geladeira onde são depositadas as “peças” extraídas em cirurgias – sinal ou membro amputado – estragou e os funcionários da limpeza se negaram a entrar na sala, tamanho o fedor e a contaminação.
“Tinha braço, perna, pedaço de dedo que ficaram mais de vinte dias sem remoção”, denuncia uma das porteiras. A providência foi tomada na marra, conta. Os serventes do hospital obrigaram o secretário de saúde do município, Pedro Gus, a entrar no espaço para ver – e sentir – de perto a realidade. “Agora até lavaram as paredes”, diz aliviada.
O diretor administrativo do HPS rebate as críticas. Diz que a geladeira ficou desativada por pouco tempo. “No máximo, dez dias”, avalia Luiz Funari. A rotina dos patologistas, responsáveis pela retirada das peças, também foi modificada para não haver problemas de contaminação.
“Normalmente eles passam uma ou duas vezes por semana, e, quando houve essa situação, faziam a retirada do material diariamente”, garante. Além da reforma da geladeira antiga, que já foi feita, um novo equipamento está sendo providenciado, anuncia Funari. “Essa que temos é ultrapassada e dá problema toda a semana”.
*Matéria publicada na edição de junho do jornal JÁ Bom Fim/ Moinhos, que está circulando
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Setor florestal mostra força em audiência pública em Pelotas
Carlos Matsubara, especial para o JÁ
A audiência pública realizada segunda-feira à noite (11/06) em Pelotas para tratar do Zoneamento Ambiental da Silvicultura evidenciou a força das empresas de celulose, em especial da Votorantim Celulose e Papel (VCP), com sede e projetos na cidade.
Cercado de grande expectativa, o confronto entre os favoráveis aos plantios de eucalipto das empresas de celulose e os seus opositores, não vingou. Os ambientalistas mesmo com apoio de movimentos sociais não foram páreo para a mobilização do setor e de prefeituras locais. Na primeira das três batalhas previstas, os ecologistas perderam de lavada.
Álvaro Bueno, da Associação Gaúcha de Empresas Florestais (Ageflor), calcula que, das mais de mil pessoas presentes ao Teatro Guarani, 60% das manifestações foram favoráveis aos projetos, partindo especialmente de pessoas e entidades preocupadas com a geração de empregos e com a possibilidade de perder os vultuosos investimentos anunciados por Aracruz, VCP e Stora Enso. “O maior apoio veio da Força Sindical e do pessoal das prefeituras da região”, ressaltou.
Outros 20% das manifestações, segundo a Ageflor, partiram de entidades ambientalistas locais e por membros do MST. “Em geral, as críticas foram as mesmas de sempre, do discurso contrário ao latifúndio e defendendo a agricultura familiar contra os projetos das empresas. “Ficamos surpresos com a baixa presença de ambientalistas. Esperávamos uma presença maior”, acrescentou.
Ainda pelos cálculos da entidade, as críticas ao documento elaborado pela Fepam responderam pelos outros 20% das manifestações. As empresas e a própria Ageflor aproveitaram para reforçar seu descontentamento. Segundo Bueno, o setor mantém a posição contrária a utilização de aspectos paisagísticos para dividir o Estado, como foi feito pelos técnicos da Fepam, e não por bacias e sub-bacias como defende. “Vamos manter essa posição, entre outras, em todas as audiências públicas e esperamos que seja levada em conta no Conselho Estadual de Meio Ambiente”, afirmou.
Aspectos sociais
A Ageflor também considera o estudo da Fepam muito restritivo a atividade, no que diz respeito ao percentual de plantio nas propriedades, principalmente na Metade Sul. “Embora seja um documento muito técnico, bem elaborado, ele peca por não levar em conta aspectos sociais”. Segundo a entidade, a audiência serviu para que outras vozes, que não a Ageflor, tivessem a chance de mostrar que o trabalho, apesar de bem-feito, não leva em conta aspectos sociais. “E essa foi a preocupação dos sindicalistas presentes”, ponderou.
Por meio de sua assessoria de imprensa, a Fepam explica que a sua equipe técnica, responsável pela proposta do Zoneamento Ambiental da Silvicultura, “demonstrou que os critérios adotados não impossibilitam a atividade da silvicultura em grande escala no Rio Grande do Sul, mas existem áreas de baixo, médio e de grande impacto ambiental”.
Segundo a presidenta do órgão ambiental, Ana Maria Pellini, “a Silvicultura representa, especialmente para a região sul do Estado, uma oportunidade de desenvolvimento, após um longo período de depressão econômica” e apresenta “duas características extremamente importantes para o nosso meio ambiente gaúcho: a sua forma extensiva, ocupando homogeneamente grandes extensões do território, e sua localização prioritária no bioma Pampa”.
Em sua manifestação na audiência, Ana Pellini também lembrou que no Pampa “predominam as vegetações rasteiras e esparsas, com biodiversidade e patrimônio genético bastante diferenciados do resto do território brasileiro e cujo uso é marca indelével de nossa cultura, protegido inclusive pela Constituição Estadual.”
Derrota da coletividade
Mas se para a Ageflor, o encontro de Pelotas representou uma vitória, para os ambientalistas teve significado diferente. Cíntia Barenho, do Centro de Estudos Ambientais (CEA), ONG de Pelotas, destaca que “enquanto alguns se intitulam “vencedores” da AP, se esconde os que realmente saem perdendo: o ambiente e a coletividade.”
Ao microfone, um representante do sindicato dos servidores públicos chamou a atenção para o fato de que o Zoneamento não é tão restritivo quanto afirmam as empresas. De acordo com ele, o estudo permite o plantio de árvores em aproximadamente nove milhões de hectares no Estado, enquanto as empresas planejam plantar algo em torno de 1 milhão de hectares.
Luiz Rampazzo, do CEA, acredita que o EIA-Rima deveria ser exigido, conforme estabelece a Constituição Brasileira. De acordo com ele, isso não foi cumprido pelo governo, pois o mesmo tem liberado o plantio de tais árvores exóticas, com o consentimento do Ministério Público Estadual que ao invés de utilizar os instrumentos jurídicos para coibir tal desrespeito à lei ambiental, acabou por realizar ações que, na prática, flexibilizaram as normas de proteção do Pampa. “Isso não é desenvolvimento sustentável, mas sim um blefe quanto à geração de renda, de empregos”, criticou.
Barrados no baile
Sobre a fraca mobilização das ONGs, Cíntia Barenho denuncia que o local do evento não teve sua capacidade total de público utilizada. A bióloga relata que muitas pessoas foram impedidas de entrar porque o acesso ao local estava bloqueado pela Brigada Militar, tendo inclusive, suas portas fechadas durante a audiência pública, sendo abertas apenas quando grande parte da multidão já havia deixado o teatro.
“Fatos dessa natureza comprometem o exercício da cidadania e a legalidade da AP, pois a mesma deve ter seu acesso franco a qualquer um do povo”, critica. Cíntia antecipou ainda que o CEA está estudando as medidas legais a serem adotadas com relação ao cerceamento de participação na audiência.
A Fepam explica que, por motivos de segurança, cerca de 200 pessoas não puderam ingressar ao teatro.
Outra crítica da ONG quanto à organização do encontro refere-se ao fato de que na mesa de abertura, onde foram permitidas manifestações, só houve a presença de representantes de órgãos públicos, sem espaço para a representação de ONGs e de colegiados ambientais. “A maioria da mesa foi composta por pessoas com posição pública favorável a monocultura”, lamenta.
Participaram da mesa de abertura: o secretário estadual do Meio Ambiente, Carlos Otaviano Brenner de Moraes, a diretora-presidenta da Fepam, Ana Maria Pellini; o prefeito de Pelotas, Adolpho Fetter Júnior; o presidente da Azonasul (Associação dos Municípios da Zona Sul), Jorge Luiz Cardoso, prefeito de Arroio Grande; o vice-presidente da Câmara Municipal de Pelotas , vereador Ademar Ornel; o representante do Ministério Público Estadual (MPE/Pelotas), dr. Paulo Roberto Charqueiro. A condução da audiência, posteriormente, coube ao chefe da Assessoria Jurídica da Fepam, dr. Paulo Régis, e ao secretário substituto do Meio Ambiente, Francisco Luiz da Rocha Simões Pires.
Outro fato inaceitável, na visão do CEA, foram os privilégios dados a algumas pessoas para o acesso ao evento, como não entrar em fila e nem apresentar identificação, passando a frente de quem esperava para entrar no teatro. “Ordem que também foi alterada nas falas dos inscritos”, acrescenta Cíntia Barenho.
O segundo round dessa batalha acontece amanhã (13/07) em Alegrete, quando se realiza mais uma audiência pública promovida pela Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Fepam para apresentar e recolher contribuições da sociedade à proposta de Zoneamento Ambiental da Silvicultura. Uma terceira está marcada, faltando definir o local, para o dia 19, terça-feira próxima, em Caxias do Sul.
Além das contribuições orais durante as audiências públicas, a Fepam seguirá recebendo, até 10 (dez) dias após o último encontro, documento escritos com análises e propostas. O que for recolhido será consolidado e, após a proposta final do Zoneamento Ambiental da Silvicultura será encaminhada para apreciação do Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema). -
Futuro da Coolméia é incerto

Helen Lopes
á faz um ano que o prédio que abrigava a cooperativa ecológica Coolméia, no Bom Fim, fechou as portas. Dois assaltos consecutivos foram o estopim para a crise financeira que assombrava o negócio há anos. Os cooperativados decidiram parar as operações na loja e no restaurante para averiguar a situação e buscar alternativas. As únicas atividades da cooperativa que seguem normalmente são as feiras ecológicas no Bom Fim e no Menino Deus.
A medida, que deveria durar seis meses, completa um ano sem perspectivas. Até agora os associados não conseguiram elucidar muita coisa. Sabem que existe uma dívida trabalhista, que gira em torno de R$ 1,2 milhão, oriunda de uma multa que se multiplicou, e escassa documentação para montar um panorama financeiro.
Alguns papéis da administração sumiram após os assaltos em abril do ano passado e outros estão espalhados entre os associados. “É uma dívida impagável, além dos dez anos de documentação para colocar em ordem”, lamenta o produtor Ireneu Scheuer, cooperativado há 16 anos.
Entre os associados remanescentes o clima é de desesperança. “Nada avançou. Sinceramente, acho que não vai reabrir e o futuro da cooperativa é incerto”, reconhece Jerônimo Carvalho, que atua na organização da feira ecológica, no Bom Fim.
Eles tentaram lançar uma campanha para buscar o apoio de voluntários nas áreas administrativa e jurídica. O SOS Coolméia não decolou. Algumas pessoas se propuseram a ajudar, mas a falta de organização e de local para as reuniões acabou minando a iniciativa. “Poucos se dedicam e, como a feira vai bem, quase ninguém sabe da nossa situação”, diz Danilo Paiva, que há 15 anos optou pela alimentação orgânica e é um dos integrantes da comissão que tenta salvar a cooperativa.
Iniciativa pioneira
Fundada em 1978, por pessoas que buscavam alimentação livre de agrotóxicos, a Coolméia já foi considerada referência mundial em produção e distribuição de alimentos orgânicos. É formada por três categorias de cooperativados: consumidor, produtor e operacional (quem trabalhava fixamente no entreposto).
No início de 2006, a cooperativa tentava se reerguer de uma duradoura crise econômica. Saiu da tradicional sede na José Bonifácio, defronte ao parque da Redenção, e foi para um novo local, na Osvaldo Aranha, em frente ao Araújo Vianna, onde sofreu dois assaltos consecutivos. Além de levar os alimentos, os ladrões reviram os documentos.
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Celular não é brinquedo

Cleber Dioni Tentardini
A Câmara Federal levou a Brasília especialistas de diversos países para um seminário sobre os efeitos do telefone celular e outras fontes de radiações eletromagnéticas no organismo humano. Tramitam na Casa sete projetos sobre o assunto.
O encontro ocorreu em abril e não mereceu atenção da imprensa, nem antes, nem durante, nem depois, apesar das graves advertências feitas por pesquisadores respeitados, como Francisco de Assis Tejo, da Universidade Federal de Campina Grande, Martin Blank, da Columbia University, Estados Unidos, Carlos Abrahão, de Campinas, e Álvaro Salles, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Salles foi particularmente incisivo ao alertar para os riscos e defender regras mais severas do que as recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), seguidas na legislação do Brasil e de muitos países.
Doutorado pela University College London e membro de associações científicas internacionais, ele foi taxativo no seminário de Brasília: “Já existem evidências científicas suficientes para que o assunto seja tratado como uma questão de saúde pública”.
Chefe do Laboratório de Comunicações Eletro-Óticas do Departamento de Engenharia Elétrica da UFRGS, Salles coordena uma equipe de pesquisadores, que há mais de dez anos estuda os efeitos biológicos das radiações eletromagnéticas no organismo humano.
Foi com sua ajuda e muita pressão dos movimentos comunitários, que Porto Alegre se tornou a primeira cidade do país a ter legislação modelo sobre a instalação de Estações de Rádio Base, os equipamentos que transmitem o sinal para os aparelhos celulares. Nas paginas seguintes, Álvaro Salles fala sobre o assunto em entrevista exclusiva.
No meio científico a polêmica é grande
Os meios científicos esperam para o final deste ano a conclusão do International EMF Project, pesquisa da OMS, em andamento há onze anos para avaliar os efeitos da exposição do organismo a campos eletromagnéticos.
A coordenadora do Projeto, Emilie van Deventer, presente ao encontro em Brasília, afirmou que os resultados parciais já divulgados não mostram relação entre a exposição a certos níveis de radiação e ocorrência de doenças como o câncer.
Segundo ela, os limites recomendados pela OMS contemplam ampla margem de segurança, pois o nível máximo admitido (0,08W/kg) é 50 vezes inferior ao menor nível a partir do qual se observaram efeitos térmicos sobre o corpo humano (4 W/kg).
“Não existe qualquer comprovação científica de que a exposição à radiofreqüência na faixa de até 4 W/kg ofereça danos à saúde humana”, afirmou Emilie.
No meio científico a polêmica é grande. Apesar dos riscos apontados em diversas pesquisas, muitos especialistas, como o professor Renato Sabbatini, da Faculdade de Ciências Médicas, da Unicamp, consideram que ainda não há dados conclusivos sobre os danos das radiofrequências à saúde. “Existe muita especulação sobre o assunto, mas o que se sabe é que podem ocorrer danos para freqüências muito mais altas”, disse.
Os limites aceitos pela Organização Mundial da Saúde foram estabelecidos pela Comissão Internacional para Proteção contra Radiações Não Ionizantes, a ICNIRP – organização não governamental formada por cientistas independentes. A União Européia e outros 30 países, o Brasil inclusive, têm suas leis baseadas nestes critérios.
Legislação sobre antenas é confusa
Outro aspecto polêmico da questão das radiações está relacionado às antenas, as chamadas Estações de Rádio-Base, que reproduzem os sinais da telefonia celular.
Presente no seminário em Brasília, o presidente-executivo da Associação Nacional das Operadoras Celulares, Ércio Alberto Zilli, reclamou da profusão de leis para disciplinar as antenas das operadoras de telefonia celular. Citou 174 legislações municipais e estaduais, com diferentes restrições e alertou para o risco de se tornar inviável o trabalho das operadoras.
“Em Criciúma (SC), por exemplo, uma lei determina que o limite de exposição à radiação seja quase cem vezes menor do que o recomendado pela Anatel, que já é bastante restritivo. Isso desacredita as operadoras perante a opinião pública”, criticou o executivo.
O presidente da Anatel, Plínio de Aguiar Júnior, disse que a agência tem dificuldades de fiscalizar todas as antenas de telefonia celular. “A medição é feita por amostragem ou quando há demanda de moradores, preocupados com a proximidade do equipamento de suas residências”, afirmou.
Câmara tem sete projetos sobre o assunto
Foi discutido ainda no seminário em Brasília o projeto de lei do deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), para regular a instalação de fontes emissoras de radiação eletromagnética.

Também determina que 5% dos recursos do Fundo para o Desenvolvimento Tecnológico das Telecomunicações (Funttel) sejam destinados à pesquisa sobre a exposição humana a campos de radiofreqüência e que a Anatel seja a responsável por fiscalizar a aplicação das novas regras. Entre elas, a exigência de que os fabricantes de celular informem no manual de operação ou na embalagem que o produto atende aos limites legais da taxa de absorção de radiação.
Tramitam na Câmara outros seis projetos de lei semelhantes, como o do deputado Henrique Fontana, do PT gaúcho, que estabelece limites de exposição à radiação menores do que os atuais, determina a obrigação de alvarás e licença ambiental prévia para a instalação de ERBs e o compartilhamento de torres pelas empresas prestadoras do serviço celular.
As restrições propostas se assemelham com a legislação que vigora hoje em Porto Alegre: incluem a proibição de instalação das antenas em prédios e terrenos públicos, em áreas de lazer, centros comunitários e culturais, museus e teatros, a menos de trinta metros de clínicas médicas, centros de saúde, hospitais, escolas e residências; e em posições que prejudiquem a paisagem natural e urbana de seu entorno.
Entrevista exclusiva: professor e engenheiro Álvaro Salles
“Estamos servindo de cobaias”
Cada vez mais cientistas acreditam que o uso constante do telefone celular pode estar relacionado com o aumento dos casos de tumores cerebrais. Os estudos não são conclusivos, mas um ponto já é consenso: as crianças são muito mais sensíveis aos efeitos das radiações.
As grandes indústrias do setor já desembolsaram algumas centenas de milhões de dólares em estudos. Existem dois grandes projetos sobre a telefonia celular em andamento, envolvendo 16 países de quatro continentes.
Hoje, mais de três bilhões de pessoas utilizam a telefonia móvel. No Brasil, já são mais de 100 milhões de usuários, perto de 57% da população, segundo dados da Anatel, de fevereiro deste ano.
O pouco interesse no assunto deve-se à falta de informação, segundo o engenheiro Álvaro Augusto Almeida de Salles, um dos maiores especialistas em pesquisas sobre telecomunicações.

Em entrevista exclusiva ao JÁ, o professor falou sobre as duas grandes pesquisas em andamento, como os países estão lidando com as novas descobertas, os efeitos nas crianças e que medidas o Brasil deve adotar para prevenir os usuários dos perigos dessa tecnologia, que veio para ficar.
JÁ – O que está claro nesse terreno, professor?
Uma coisa é certa: está se usando amplamente uma tecnologia que ainda não se mostrou inócua à saúde. Ao contrário, os resultados das pesquisas disponíveis mostram diversos efeitos danosos à saúde, inclusive câncer. Então, estamos servindo de cobaias. Como afirmou o doutor Leif Salford, neurocirurgião na Universidade de Lund, na Suécia, referindo-se às bilhões de pessoas no mundo que conversam pelos celulares, forçando livremente radiações eletromagnéticas para seus cérebros: “Esta é a maior experiência biológica na história do mundo”. Há pesquisas em andamento no várias partes. Em Naila, na Alemanha, e em Netanya, em Israel, os estudos mostram que o risco de novos casos de câncer é bem maior entre as pessoas que viveram durante dez anos num raio de 400 metros das Estações de Rádio Base (ERBs). Este estudo mostrou que não é mais possível assumir que não há relação casual entre emissões de rádio freqüências e o aumento de incidência de câncer.
JÁ – Esses riscos já foram reconhecidos pelas empresas?
Não publicamente. São os efeitos biológicos, que nós chamamos de não-térmicos. Como falei no seminário em Brasília, em abril, já existem evidências científicas suficientes sobre os efeitos biológicos da radiação emitida pelos celulares. Por isso, não existe outra alternativa senão a adoção imediata do Princípio da Precaução. Principalmente pela disseminação dos celulares entre as crianças.
JÁ – As crianças estão mais expostas à radiação dos celulares?
Crianças e adolescentes. Os efeitos são mais críticos que em adultos, especialmente porque nas crianças e adolescentes a espessura do crânio é menor e maior a penetração, a onda atinge a regiões mais internas do cérebro. Além disto, nas crianças verifica-se que o metabolismo é mais rápido e quaisquer efeitos danosos devem ser mais críticos, e normalmente, as recomendações de prudência e cautela são menos consideradas.
JÁ – Há estudos com crianças?
O professor Ohm Gandhi, da Engenharia Elétrica e Computação da Universidade de Utah (EUA), publicou uma pesquisa sugerindo que os cérebros das crianças absorvem 50% a mais a radiação dos telefones móveis do que adultos. William Stewart, do Departamento da Saúde da Inglaterra, alertou há dois anos que crianças com idade inferior a nove anos não deveriam utilizar telefones móveis porque o tecido do cérebro é particularmente vulnerável e que o crânio em crescimento das crianças é menos espesso que aqueles dos adultos, e então menos resistente à radiação.
JÁ – E as pesquisas sobre as Estações de Rádio-Base?
A população normalmente está bem afastada das ERBs e a distância é fundamental porque a radiação decai na medida em que a pessoa se afasta da antena. Mas é preciso meios eficazes para fiscalizar essas antenas. Então, o aparelho celular passa a representar o maior perigo, por estar encostado na cabeça. Mas o mais grave nisso é que os estudos trabalham com níveis de exposição à radiação bem abaixo dos limites permitidos. Nesse estudo de Naila, por exemplo, os níveis de radiação estavam cerca de 800 vezes menor.
JÁ – O que acha da legislação de Porto Alegre?
Em Porto Alegre, a lei 8.706, de 14 de janeiro de 2001, proposta pelo então vereador Juarez Pinheiro (PT) obriga os fabricantes de aparelhos celulares a divulgar os níveis de radiação eletromagnética emitidos pela antena dos telefones e substituir os aparelhos cujo nível de radiação supere o limite aceito internacionalmente. Não vingou. Nessa mesma época surgiu um projeto de lei na Assembléia Legislativa gaúcha que tornaria obrigatório às operadoras de telefonia colocar adesivos nos aparelhos para advertir os usuários sobre os riscos à saúde, como nas carteiras de cigarro, mas não sei o que houve, deve ter sido engavetado.
JÁ – O que significa o Princípio de Precaução
É um critério que já foi adotado em vários países diante do alto grau de incerteza científica frente aos potenciais riscos de determinada tecnologia, no caso, a telefonia móvel celular. Toma-se uma atitude preventiva sem esperar os resultados da pesquisa científica. Porque se os riscos existem, são sem dúvida problemas de Saúde Pública, e como tal devem ser tratados. A própria Organização Mundial da Saúde decidiu que já é hora de adotar o Princípio da Precaução sobre o uso do celular e do funcionamento das Estações de Rádio-Base.
JÁ – Esse princípio tem amparo na legislação em vigor?
A Anatel é a reguladora. Ela precisa estabelecer normas mais rígidas do que está em vigor, já que os estudos apontam a possibilidade de ocorrer prejuízos à saúde dos usuários em níveis muito abaixo da radiação emitida hoje pelos aparelhos.
JÁ – A Anatel adotou uma norma ineficiente?
Acontece que as normas existentes para os aparelhos celulares e para as ERBs prevêem somente os efeitos térmicos, de curta duração, que já foram comprovados, como o aquecimento dos tecidos internos do ouvido e de outras partes do corpo. Hoje, a Anatel utiliza a norma adotada pela ICNIRP, que estabelece a radiação emitida pelo celular, a Taxa de Absorção Específica (SAR) máxima permitida é de dois miliwatts por grama de tecido (2 mW/g), considerando-se a antena do parelho a uma distância mínima de dois centímetros da cabeça. Só que pesquisas recentes mostram repetidas vezes efeitos danosos à saúde em níveis de exposição substancialmente abaixo da norma ICNIRP.
JÁ – Quem estipula a SAR?
Pela própria ICNIRP. SAR significa a potência por unidade de massa de tecido.
JÁ – Em quanto a norma é superada?
Em muitas vezes. A dois centímetros você está no limite da norma. À medida que a antena se aproxima, esses valores começam a crescer, a ponto de que, a um centímetro, você já superou três ou quatro vezes a norma. E, quando a antena está encostada na cabeça, esse limite é superado entre cinco e dez vezes. A Anatel adotou esse limite em 1999 e já está na hora de adotar uma norma mais rígida, que proteja os usuários. O problema é que a norma existente está baseada somente nos efeitos térmicos, que já foram comprovados, mas a precaução vai além, justamente para proteger as pessoas do que pode ocorrer.
JÁ – Qual é a norma mais rígida?
Sugerimos como limite de exposição aos campos eletromagnéticos 0,6 V/m, adotado em Salzburg, na Áustria. A norma suíça e italiana também são recomendáveis. Esse limite está sendo pleiteado na França, através de dois projetos de lei em tramitação na Assembléia Nacional.
JÁ – Quais são os problemas com os aparelhos celulares?
São muito ineficientes. O principal problema é com a antena atualmente utilizada na grande maioria dos telefones móveis, que é do tipo monopólo convencional. Pior ainda nos aparelhos com antena interna. Quando está afastada de qualquer obstáculo, esta antena irradia simetricamente em torno de si mesma, em um plano perpendicular a ela. Quando está muito próxima á cabeça, perde a irradiação em simetria, em círculo, e cerca de 70% da energia que deveria chegar a uma ERB é absorvida pela cabeça, ficando menos de 30% para a função principal, que é a comunicação com a Estação mais próxima. E geralmente em potência elevada devido ao ajuste automático dos aparelhos. Nestas condições, os resultados medidos mostram que mesmo normas restritivas são substancialmente superadas. Essa tecnologia não foi dimensionada para operar próxima da cabeça, mas foi aproveitada de um tipo de antena que já existia, dos rádios portáteis, por exemplo.
JÁ – Quais prejuízos dos efeitos térmicos?
Os mais notados são no olho. Quando há aquecimento, o globo ocular pode ficar esbranquiçado, que chamamos de opacidade, e se aproxima de uma catarata interna. E também pode haver casos de glaucoma. Esses efeitos são conhecidos há mais de trinta anos. E as normas como do ICNIRP são baseadas nesses efeitos.
JÁ – Existem casos comprovados de glaucoma?
Alguns casos já foram relatados na literatura médica. O olho está mais exposto porque é um tecido muito sensível e a antena deve ficar distante mais de cinco centímetros do olho. A gente vê policiais, pessoal de organização de eventos usando aparelhos de comunicação na frente dos olhos…é um risco.
JÁ – A Universidade Federal da Paraíba concluiu uma pesquisa sobre os efeitos da radiação, mas em ratos.
É. Dizem que houve redução em 26% na fertilidade dos animais expostos. Esses são efeitos biológicos.
JÁ – Os não-térmicos?
É. Efeitos no sistema nervoso, no sistema cardiovascular, no metabolismo, em fatores hereditários, com problemas hormonais. As mais sensíveis são as células nervosas, neurônios e moléculas de DNA, os cromossomos. Se fosse só calor externo não tinha problema. Mas lá no cérebro as coisas podem estar acontecendo muito pior, porque você não tem sensores térmicos ali, então não percebe. Esses tecidos não se regeneram. Se você perder 10 mil neurônios de 100 mil nem vai notar, mas a médio e longo prazo vai sentir.
JÁ – O que representa médio e longo prazos?
Médio prazo é cinco, dez anos. Tendo em vista que cerca de 3 bilhões de pessoas utilizam os terminais móveis, e no Brasil já são mais de 100 milhões, isto se tornou uma questão de saúde pública, e não existe outra alternativa responsável senão a adoção imediata do Princípio da Precaução. Caso isto tardar, já poderá ser tarde demais para a reparação dos danos. Qual será o custo disto? Quem pagará esta conta?
JÁ – E qual seria a antena ideal?
O melhor seria uma antena diretiva, que emitisse energia no sentido oposto da cabeça. Como o farol do automóvel, que tem diretividade. Ele concentra energia num determinado facho. Então, a cabeça ficaria protegida. Já existem antenas assim, algumas já foram patenteadas. A Motorola está fazendo pesquisas com as antenas diretivas. Patrocinou um estudo no Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) em São José dos Campos, um projeto de 100 mil dólares, se não me engano. Mas isso nem precisaria porque eles já têm patente internacional dessas antenas, era só colocar em prática. Em 1995, esse tipo de antena não era novidade nos Estados Unidos.
JÁ – Por que não estão disponíveis no mercado?
Realmente, eu tenho pensado bastante nisso, mas não tenho resposta. Como a norma é ultrapassada várias vezes, além de ser um problema de saúde pública, eu digo que também é um problema de direitos humanos e de defesa do consumidor. Porque os usuários têm o direito de serem informados sobre as normas e precauções. Mas, para muitos, isso não é conveniente que seja divulgado.
JÁ – Essa nova antena poderia elevar o custo do produto?
Não seria um custo muito maior, cerca de 10 ou 20 dólares. Serviria até como um bom marketing para os fabricantes.
JÁ – Mas aí os fabricantes teriam que substituir os atuais modelos?
É. Talvez seja uma estratégia mercadológica para vender mais do primeiro tipo e depois entrar com o outro. Quanto tempo eles tiverem, melhor. Não estou dizendo que essa é a estratégia. Agora, está comprovado que essa antena é um dos piores projetos de engenharia das últimas décadas, não há a menor dúvida.
JÁ – Alguma semelhança com a indústria do cigarro?
Assim como ocorre há décadas com as indústrias de tabaco, agora é a vez das fabricantes de telefones celulares enfrentarem os tribunais de diversos países. Um dos primeiros processos, que abriu as portas para centenas de ações contra a indústria de telefonia móvel, iniciou em 2000 contra a Motorola. Advogados do neurologista norte-americano, Christopher Newman, 43 anos, vítima de câncer no cérebro, usaram a análise para sustentar uma ação de US$ 800 milhões. Michael Murray, de 35 anos: US$ 1,5 bilhões, Outras cinco causas, de mais que US$ 1 milhão cada, todos envolvendo tumores cerebrais associados ao uso do aparelho celular. Como disse o Veríssimo (L.F. Veríssimo, ZH, 1/3/2004): o cigarro, comprovadamente, mata. A venda de cigarro não é proibida porque os impostos pagos pela indústria do fumo são responsáveis por um naco gigantesco do orçamento estatal e o vício que mata sustenta boa parte das atividades do governo…
JÁ – Que providências a Anatel poderia tomar?
A Anatel deveria emitir uma determinação para que os fabricantes medissem a SAR de todos aparelhos em uso no Brasil e divulgassem amplamente os valores. Os que estivessem acima da norma, de preferência uma mais rígida, deveriam ser recolhidos, uma coisa elementar.
JÁ – O que falta, então?
Há muito interesse em jogo. Enquanto estiverem vendendo os aparelhos… Agora, o que precisa haver é uma imposição oficial que obriguem a fazer o negócio direito. Só que a Anatel tem que impor isso. Assim como deve mandar ser visíveis na caixa do celular os índices de radiação que o usuário está sujeito com aquele aparelho.
JÁ – O representante da Agência que esteve lá no seminário em Brasília, Maximiliano Martins, declarou que o único efeito comprovado das ondas eletromagnéticas é o aquecimento dos tecidos.
Ele declarou que os limites da ICNIRP são 50 vezes abaixo da faixa considerada segura. Mas as pesquisas indicam que mesmo em níveis muito baixos os riscos são reais.O Relatório de Progressos do projeto Reflex, que envolve sete países, indica efeitos danosos a saúde em baixos níveis de exposição, e deu como exemplo as quebras simples e duplas nas moléculas de DNA. Do outro Projeto, chamado Interphone, envolvendo 13 países, ainda não existe o relatório final. Mas já foram publicados artigos que mostram pesquisas epidemiológicas onde aparecem aumentos de riscos de tumores cerebrais para usuários constantes de celulares.
JÁ – O professor Renato Sabbatini, colaborador da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, disse que apenas 1% ou 2% dos estudos mostraram a possibilidade de algum dano às pessoas.
Essa é a opinião dele. Acontece que há estudos que comprovam a relação entre a exposição às ondas eletromagnéticas provenientes principalmente de celulares e de antenas de transmissão do sinal desses aparelhos com a maior incidência de câncer na população. O representante das operadoras (presidente-executivo da Associação Nacional das Operadoras Celulares, Ércio Alberto Zilli) reclamou do excesso de regras. Citou a existência de 174 decretos, leis e resoluções em seis estados, 141 municípios. Mas não vejo outra alternativa.
JÁ – Fale mais do Projeto Interphone
Projeto iniciado em 2001, envolvendo os principais laboratórios em 13 países (Suécia, Finlândia, Dinamarca, Inglaterra, Alemanha, Noruega, Itália, França, Austrália, Nova Zelândia, Canadá, Israel, Japão). Alguns liberaram resultados dos estudos, sendo a maioria publicada na Revista Internacional de Oncologia. Todos fizeram pesquisas com pessoas que usam constantemente o aparelho celular a mais de dez anos. Dos sete estudos, cinco encontraram relação com o aumento de tumores cerebrais, dos tipos meningioma, glioma e neurinoma acústico. Um dos estudos, realizado na Universidade de Orebo, na Suécia, revelou que pessoas que utilizam o celular por mais de meia hora por dia, durante 10 anos, tem 310% de risco de desenvolver tumor no sistema auditivo (Neurinoma Acústico) e, durante 15 anos, o risco chega a 380%.
JÁ – E o Projeto Reflex?
É um estudo financiado pela União Européia, envolvendo sete países (Alemanha, Áustria, Espanha, Finlândia, França, Suíça e Itália), e orçado em mais de 3 milhões de Euros), cujos resultados detectaram alteração no DNA e nos fibroblastos (uma das estruturas celulares) mesmo quando a exposição ao campo magnético ocorre em níveis menores do que os permitidos pela ICNIRP. O neurocirurgião Leif Salford e o biofísico B. Persson, da Universidade de Lund, na Suécia, mostraram que níveis muito baixos de exposição (SAR = 0,002 W/Kg, durante somente duas horas) podem alterar a Barreira Cérebro-Sangue, permitindo que substancias químicas penetrem em neurônios no córtex, no hipocampo e em gânglios basais do cérebro. Esta alteração permanecia ainda evidente quatro semanas após uma única exposição de duas horas. O professor Francisco Tejo, da Universidade Federal de Campina Grande, divulgou resultados de pesquisas que indicam que a exposição a campos eletromagnéticos, independentemente da intensidade, reduz em cerca de 40% a produção de melatonina, substância produzida pelo cérebro que tem a função de identificar e destruir células defeituosas. Sua atuação principal é na proteção contra o câncer de mama e de próstata. Quer mais?
JÁ – Claro
O estudo de doutor Lennart Hardell, do Örebo Medical Center, na Suécia, mostrou que os usuários de telefones celulares apresentavam uma probabilidade 2,5 vezes maior para desenvolver tumores nestes lobos, no lado da cabeça onde o aparelho era normalmente operado. Em outros estudos ele verificou aumento do risco de câncer cerebral quando o telefone móvel é usado do mesmo lado da cabeça que o tumor, quando há excesso no número de horas de uso dos telefones móveis e com os anos de uso dos aparelhos. Outra pesquisa coordenada por Hardell, publicada em 2005, mostra que os usuários de celulares em áreas rurais tinham 50% a mais de riscos de desenvolver tumores cerebrais em comparação com os usuários dos locais urbanos. Essa probabilidade cresce para 250% para pessoas que usaram celulares durante mais de cinco anos. Os celulares digitais podem irradiar potência cerca de mil vezes maior quando estão em áreas onde o sinal é fraco, normalmente afastados das ERBs.
JÁ – Quando os europeus começaram a se preocupar com essa tecnologia?
A Inglaterra foi um dos primeiros países a advertir os usuários contra o uso excessivo do aparelho, principalmente por crianças. O Ministério da Saúde britânico soou o alerta depois que o jornal de medicina Lancet publicou um artigo do médico Gerard Hyland, da Universidade de Warwick, onde ele afirmou que as freqüências do celular interferem nas freqüências do corpo humano e que os usuários com menos de 18 anos são vulneráveis a dores de cabeça, perda de memória e distúrbios do sono. Na Alemanha, estudos mostraram que as freqüências de rádio emitidas pelos celulares e torres poderiam provocar modificação genética em células e animais de laboratório, podendo chegar ao câncer.
JÁ – Uma pergunta que parece óbvia: você usa celular?
Não, e estou sempre recomendando aos meus familiares que utilizem o menos possível.
JÁ – Que tipo de recomendações o senhor pode deixar para o nosso leitor?
Falar o menor tempo possível no celular; não encostar o aparelho na cabeça quando estiver falando; quando for possível, levantar a antena ao máximo; e evita que crianças utilizem esse telefone. Se for utilizar fones de ouvido, manter o aparelho afastado do corpo.
Entenda melhor
Radiação eletromagnética – conjunto de ondas elétricas e magnéticas, que se propagam no espaço transportando energia. Alguns tipos: microondas, rádio, tevê, raios X, ultravioleta, infravermelho.
ICNIRP (Comissão Internacional de Proteção às Radiações Não Ionizantes) – organização formada por cientistas independentes de vários países que desenvolvem estudos de saúde e segurança sobre exposições a ondas de radiofreqüências.
IEEE (Institute of Electrical and Electronic Engineer) – organização fundada nos Estados Unidos por engenheiros eletricistas e eletrônicos, que trabalha no estabelecimento de normas e padrões e na edição de publicações técnicas.
SAR (Specific Absorption Rate) – Taxa de Absorção Específica, é a intensidade de radiação absorvida por grama de tecido do corpo.
MW/g – Miliwatts por grama de tecido. De acordo com a ICNIRP, a SAR máxima admitida de um aparelho de celular é de 2 mW/g, dependendo da intensidade emitida e respeitando uma distância mínima de dois centímetros da cabeça.
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Comemoração anarquista

Cleber Dioni
A sede dos anarquistas em Porto Alegre se tornou pequena nos últimos três meses. Até gente do Interior tem vindo participar do planejamento das ações para marcar os 90 anos da Guerra dos Braços Cruzados, a primeira mobilização nacional de trabalhadores, que paralisou as indústrias e boa parte dos serviços, dos transportes ao abastecimento.Começou em junho de 1917, nas fábricas têxteis dos bairros paulistanos da Moóca e do Ipiranga, estendeu-se para o Rio de Janeiro e outros centros industriais. Cerca de 50 mil pessoas aderiram. No Rio Grande do Sul, o primeiro foco grevista surgiu em Santa Maria. Um grupo de ferroviários tomou uma locomotiva para protestar contra as condições de trabalho na ferrovia.
Hoje os anarquistas não são mais sapateiros, ferroviários, alfaiates ou carpinteiros, mas estudantes, professores, um e outro artesão e gráficos. “O momento é de reforçar nossa participação política no movimento operário”, acredita Eduardo Colling, porto-alegrense de 28 anos, gráfico, estudado e com discurso afiado. Anderson Pereira Corrêa, 30 anos, está há um mês na capital. Professor de História numa escola estadual, veio do Alegrete tentar uma bolsa de mestrado. “Enquanto os social-democratas procuravam sempre amenizar os protestos, os anarquistas saíam às ruas e pressionavam até arrancar algumas conquistas da classe patronal ou do governo”, frisa Corrêa.
Não planejam promover protestos ou greves, mas organizar palestras, eventos de música, teatro e mostras de documentários. No livro A Greve Geral de 1917 e as Origens do Trabalhismo Gaúcho (Porto Alegre: L&PM, 1979), o economista e cientista político mineiro Miguel Bodea registra as reivindicações, entre elas, água, comida, aluguel e bonde mais baratos, aumento salarial, redução da jornada de trabalho para 8 horas para os homens e de 6 horas para mulheres e crianças. Panfletos distribuídos pela Liga em 30 de julho anunciavam um grande comício para o dia seguinte na Praça da Alfândega, em Porto Alegre, que já amanheceu com as ruas tomadas de manifestantes e policiais.
Na Alfândega, o tipógrafo Cecílio Vilar fala a cerca de cinco mil pessoas: “O momento não é para conciliações, é de luta. A luta mais justificável, a luta pela vida. Os operários devem se erguer como um só homem, para sair às ruas e conquistar o pão que nos está sendo roubado”. Em 1o de agosto de 1917, estima-se que 30 mil pessoas cruzaram os braços: pedreiros, padeiros, chapeleiros, trapicheiros, estivadores, eletricitários, operários das indústrias têxtil e moveleira, carroceiros, caixeiros, choferes e tipógrafos.
No dia 2, uma comissão dos grevistas ouve do presidente do Estado, Borges de Medeiros, que algumas reivindicações serão atendidas. Entre elas, editar medidas de controle da exportação, de redução de horas de trabalho e de aumento salarial para o funcionalismo público.
Apesar das promessas do governador, a greve não acabou e os ânimos continuaram exaltados. A maioria das categorias encerrou a greve no dia 5 de agosto. Os ferroviários só voltaram ao trabalho no dia 6 por não suportarem mais a violenta repressão policial. Foi uma das classes que não obteve conquistas trabalhistas.
O filósofo que desafiou Marx
O russo Mikhail Aleksandrovitch Bakunin descendia de família rica. Estudou filosofia e, em suas andanças por países europeus, conheceu Karl Marx e Proudhon. Em 1848, participou da Revolução Proletária em Paris. Foi preso e condenado à morte, mas fugiu para o Japão e depois se exilou na Suíça. Criticou o positivismo e o comunismo, os socialistas “autoritários”.
As divergências com Marx resultaram na sua expulsão da Associação Internacional de Trabalhadores. Sobre o marxismo, dizia : “… O governo da imensa maioria das massas populares se faz por uma minoria privilegiada. Esta minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim, com certeza, de antigos operários, mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários e por-se-ão a observar o mundo proletário de cima do Estado; não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem duvida disso não conhece a natureza humana.”
Bakunin passou a liderar a organização de grupos anarquistas em diversos países e ganhou adeptos como o russo Piotr Kropotkin e o italiano Errico Malatesta. Morreu em 1876, na Suíça. Diz-se que seus métodos de ação são notados hoje em grupos ambientalistas e movimentos de reforma agrária e urbana.
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Entidades denunciam política anti-ecológica do governo gaúcho
Carlos Matsubara, especial para o JÁ
Entidades ambientalistas reforçadas por movimentos sindicais estiveram reunidas nesta terça-feira, 5 de junho, na sala José Lutzenberger da Assembléia Legislativa para denunciar o descaso do governo Yeda Crusius com o meio ambiente. Aproveitando o Dia Mundial do Meio Ambiente, as críticas se referiam especialmente às plantações de árvores exóticas em larga escala, principalmente na região do Pampa.
Rogério Mongelos, da ONG Mira-Serra, afirma que o atual governo cede às pressões de grandes grupos empresariais em detrimento da preservação ambiental. Mongelos atua na Serra Gaúcha, onde a ONG mantém uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) e reclama da falta de uma política de criação e manutenção de corredores ecológicos na região. “A Serra sofre com o avanço das plantações de pinus para indústria moveleira”, lembrou.
Francisco Milanez, conselheiro da Agapan, ressaltou a necessidade de “afinar” os discursos entre os diversos setores organizados da sociedade civil. “É preciso mostrar as incoerências do governo”, afirmou. O ambientalista citou como exemplo o zoneamento ambiental realizado pela Fepam. De acordo com ele, o documento sempre foi uma prioridade dos técnicos do órgão ambiental. “Curiosamente o maior instrumento de preservação que existe parece não interessar ao governo”, ironizou.
Milanez classificou como incoerência a escolha do Pampa para concentrar os plantios de eucalipto das empresas de celulose. Lembrou que o bioma não tem suporte para plantios massivos e sugeriu a região do Planalto para os projetos das papeleiras. “Ainda que a monocultura seja ruim é uma região mais propícia por estar extremamente degradada”, explicou.
Para o professor da UFRGS e membro da ONG Amigos da Água, Ludwig Buckup, “o Rio Grande do Sul passa por uma crise ambiental através de um desmonte sistemático da gestão ambiental chegando a um estado crítico”. Buckup tem sido requisitado para palestrar em diversas partes do Estado sobre a Silvicultura. No próximo dia 12 vai participar de uma reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) em São Gabriel, quando vai falar sobre os impactos da monocultura do eucalipto.
Uma das representantes dos movimentos sindicais, a diretora do Semapi, sindicato que reúne os funcionários das fundações gaúchas e secretária de Políticas Sociais da CUT/RS, Regina Abrahão, lembrou que o governo estadual cortou verbas e horas-extras de trabalhadores que realizaram o zoneamento ambiental da Fepam. “Hoje esses trabalhadores estão mobilizados nessa defesa (do zoneamento)”, argumentou. Já o representante da ONG Ingá, Vicente Medaglia, comentou que o descaso do Executivo está servindo, pelo menos, para unificar as lutas dos movimentos que estão preocupados com o futuro. Acrescentou ainda que a desconsideração com a legislação ambiental do atual governo já era prevista mesmo antes da eleição de Yeda Crusius.Alternativas
Na tentativa de combater os argumentos de que faltam alternativas econômicas para a Metade Sul do Estado, Carla Villanova, do Núcleo Amigos da Terra Brasil, lembrou algumas das dezenas de propostas econômicas sugeridas para a Metade Sul durante o I Seminário Internacional Pampa e Sustentabilidade: em busca de alternativas produtivas. Ela recordou que, no evento realizado dia 11 de maio em Pelotas, muitos palestrantes apresentaram sugestões para a região, tida como a mais pobre do Estado. Inácio Beninca, assessor parlamentar da Assembléia Legislativa, falou sobre a criação de cooperativas de agroindústria na Metade Sul, mas que atualmente necessitam de maiores investimentos e incentivos, no sentido de formar novas redes entre os inúmeros agricultores e pecuaristas familiares nela existentes.
Outro participante do evento, Édson Ortiz da Divinut Indústria de Nozes, empresa de Cachoeira do Sul, comentou que existe uma grande demanda desta matéria-prima, nozes pecan, no Brasil, afirmando que o mercado está em expansão. A produção deste tipo de nozes, segundo ele, é uma ótima alternativa de renda ao agricultor da Metade Sul, que quer diversificar seu sistema produtivo. “Usando-se o valor atual de mercado, que é de R$ 4,00/kg, no teto de rendimento da plantação, quando o pomar está com 18 a 20 anos, o produtor rural poderia ter um rendimento de 80 a 100 mil reais /ha/ano”, explicou.
Mais uma alternativa foi apresentada por Juarez Antonio Felipe Pereira de Mariana Pimentel. O agricultor expôs a transformação que vivenciou, ao passar de agricultura convencional à uma agricultura agroecológica. Atualmente, em sua pequena lavoura, conduzida sob o manejo biodinâmico, existem pelo menos sete variedades de arroz, como o cateto. Segundo ele, sua qualidade de vida melhorou muito, pois além de não ter de lidar mais com agrotóxicos, agora executa todo o processo produtivo de arroz, desde a plantação até a comercialização na Feira da Coolméia em Porto Alegre.
O pecuarista Cleomar de Witt, da Leite Sul, relatou seu trabalho de assistência junto a assentamentos de toda região sul do Brasil. Neste, explica, é dada assistência técnica ao agricultor que trabalha na produção de leite, auxiliando o mesmo desde o manejo do campo nativo (como no caso do pastoreio rotativo), nos cuidados com o rebanho, até a comercialização, feita de maneira cooperativada.
Carta Aberta ao Povo Gaúcho
Ao final do encontro, as entidades apresentaram a Carta Aberta ao Povo Gaúcho, na qual apresentam seus descontentamentos com a política ambiental da governadora Yeda Crusius.Ação Civil Pública e protesto
As entidades ambientalistas e sindicatos que assinam a Carta devem entrar na próxima semana com uma ação civil pública no Ministério Público contra o governo do Estado. Ainda não está definido se a ação será encaminhada ao Ministério Público Estadual ou Federal. Segundo alguns presentes ao encontro de ontem, a maior probabilidade é que seja encaminhada ao MPF. “A preocupação com os recursos hídricos deve levar a questão ao nível federal”, disse Buckup. Um protesto no centro de Porto Alegre está marcado para esta quarta-feira. A reunião foi organizada pelo Sindicato dos Empregados em Empresas de Assessoramento, Perícias, Informações e Pesquisas e de Fundações Estaduais do RS (SEMAPI) e pelo NAT/Brasil.
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"Sou adepto da participação do Terceiro Setor na formulação das políticas públicas", diz secretário da SEMA

Carlos Matsubara, especial para o JÁ
Carlos Otaviano Brenner de Moraes é procurador de Justiça há 27 anos e tomou posse no último dia 18 de maio. Ex-presidente da Associação do Ministério Público estava atuando na 2ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça. Em seu discurso de posse afirmou que buscará o equilíbrio entre a preservação ambiental e o desenvolvimento econômico que viabiliza a sobrevivência da sociedade.
O novo titular da Secretaria Estadual do Meio Ambiente assume o posto de Vera Calegaro, quarto nome do primeiro escalão a sair do governo Yeda Crusius e afirmou não aceitar pressões, nem por parte de ambientalistas, tampouco de empresários. Brenner garantiu que buscará junto ao Executivo, a permanência dos recursos financeiros oriundos da Fepam no próprio órgão ambiental.
Em entrevista exclusiva, Brenner de Moraes, novo titular da SEMA, fala que tentará conciliar a preservação ambiental com a chegada de empreendimentos vultosos do setor florestal.
Confira a primeira parte da entrevista, que terá seqüência na próxima semana.
JÁ – Durante sua posse, o senhor afirmou que buscará o equilíbrio entre a preservação ambiental e o desenvolvimento econômico. De quais maneiras isso pode ser feito?
Brenner – O papel da SEMA é o de estabelecer políticas que assegurem a preservação do meio ambiente e da vida em todos aspectos, além do cumprimento da Lei e isso se dá na fiscalização, no licenciamento, em atividades típicas da Secretaria. Só que na vida real, na rua, há uma série de interesses, econômicos, na Saúde, Segurança e Educação. O Estado no seu conjunto tem que, se possível prover tudo isto. Onde o imperativo ambiental impuser uma preservação absoluta ela vai ter que se dar, e ali frear uma ação humana que a coloca em risco. Agora onde a realidade demonstrar que o estado ambiental já apresenta algum grau de alteração pelo homem e que historicamente essa alteração não tenha provocado uma mudança na qualidade da vida, então vamos contemporizar. A coisa é nesse sentido, balancear os interesses, cada interesse é um interesse. No caso da Silvicultura, por exemplo, há regiões onde talvez não seja possível, ou naquela projeção que se imagina.
JÁ – O senhor e a nova diretora da Fepam, Ana Pellini, prometeram dar agilidade aos licenciamentos ambientais. Como fazer isso considerando a precariedade de recursos e de pessoal, em especial na Fepam?
Brenner – Tem dois momentos. Tem o momento emergencial, é inegável que existe uma demanda represada e o Estado tem o dever de enfrentá-la. Seja pra dizer sim ou para dizer não. Esse mérito é técnico. Hoje temos necessidade de horas-extras que estão cortadas, para criar forças–tarefa enfrentando aquilo que seja prioritário, do ponto de vista do Estado como empreendedor, ou dos municípios, ou empreendedor privado quando a envergadura desses projetos tenham uma verdadeira importância para o ciclo econômico e social. Não que não se vá atender o pequeno, mas no balanceamento dos interesses ele vai ser preponderante em determinado momento. Então é assim que pretendemos enfrentar o presente, e o futuro, você tem razão, pro futuro esse governo tem chamado de enfrentar o foco atual e olhar acima dele para projetar no futuro uma modificação estrutural. Para o futuro temos que pensar em recuperar as perdas que a Fepam teve e não foi só na Fepam, também em outros órgãos como o DEFAP, DRH, em termos de pessoal, que muitos foram levados para o mercado.
JÁ – A diretora Ana Pellini afirmou que pretende melhorar o desempenho estabelecendo metas de resultados para técnicos e um número mínimo de análise. Isso não causaria um atropelo na concessão das licenças?
Brenner – Não acredito porque isso vai gerar uma necessidade de horas-extras.
JÁ – Mas hoje elas não estão proibidas?
Brenner – Mas se tivermos essa prioridade teremos de criar condições para isso.
JÁ – Qual a posição da governadora frente a essa escassez de recursos, ela vai liberar…
Brenner – Não vou adiantar porque não tenho essa posição nesse momento, mas acredito que sim. É essencial, é preciso, entendeu?
JÁ – A governadora Yeda Crussius prometeu um “reforço de caixa” para a área ambiental. De quanto seria esse reforço e onde será utilizado?
Brenner – A Fepam produz receita, a Zoobotânica produz, o Defap também produz e isso vai tudo para o caixa único, então nós queremos que aquilo que a secretaria vem produzindo, ao longo do governo, volte para dentro da própria secretaria.
JÁ – Mas isso já foi pleiteado junto à governadora, já foi acertado?
Brenner – É um propósito que estamos pleiteando.
JÁ – O que o senhor pensa sobre as críticas à flexibilização da legislação ambiental para agilizar os licenciamentos para silvicultura?
Brenner – Não houve flexibilização. É injusto dizer isso da outra gestão ou do Ministério Público. De lá para cá não mudou nada no panorama, não é? Diria que antes do segundo aditamento, que gerou o terceiro da flexibilização, houve ali quem sabe um procedimento que não deveria ter sido tomado, então foi preciso desfazer, e aí surgiu o terceiro mas não significa que foi um enfraquecimento do rigor da legislação, tanto que de lá para cá não mudou em nada.
JÁ – Qual deve ser o papel das ONGs e da sociedade em geral nessa discussão?
Brenner – O papel é o de representação da sociedade, sou um adepto da participação do Terceiro Setor na formulação das políticas públicas. Alguns anos atrás eu criei dentro do Ministério Publico um gabinete de responsabilidade social para implementar no Poder Público a responsabilidade Social, que nasce no Terceiro Setor. Depois como presidente da Associação do Ministério Público, realizei em 2006 um congresso nacional que tinha como tema a Responsabilidade Social no Setor Público. Tenho muito clara a noção da importância e essencialidade das ONGs em um Estado que, muitas vezes, não se mostra operante. Agora essa participação tem que ser qualificada, tem que realmente contribuir para o esclarecimento.
JÁ – E o senhor acredita que a oposição aos projetos das empresas de celulose está sendo bem conduzida?
Brenner – Não conheço a fundamentação deles, nunca me foi apresentada. Na última reunião do Consema (18/05), uma representante disse que ia apresentar um material e eu disse que aceitaria e que, inclusive, forneceria aos membros do conselho. E farei assim que receber esse material, até para conhecer as suas bases. Isso é uma contribuição, porque parafernália por parafernália, que também não quero do outro lado, das empresas. Não adianta vir aqui uma agência, associação de florestadores e dizer que tem que ser de tal jeito, tem que mostrar…
JÁ – Qual será a orientação da secretaria com relação a pressão das empresas de celulose sobre o zoneamento ambiental para a silvicultura?
Brenner – Não é uma pressão sobre a minha pessoa, mas é uma preocupação minha porque é um assunto que me intranqüiliza. Há uma necessidade de enfrentamento. Existem pessoas que podem perder seus empregos no setor florestal, então o que existe é uma série de interesses, ecológicos, econômicos.
JÁ – O senhor já teve alguma reunião com representantes das empresas, ou de municípios?
Brenner – Não, nunca houve. Estou aqui há poucos dias.
JÁ – Há críticas de que a reforma administrativa, proposta pelo Executivo, cause um desmonte das políticas existentes para a gestão de recursos hídricos, já que transfere algumas atribuições da SEMA para a nova Secretaria de Irrigação.
Brenner – A questão é de gestão operacional porque a legislação ambiental permanece a mesma.
JÁ – Não há risco de desmanche na secretaria então? O que trará de bom essa nova gestão ?
Brenner – Acho que vai deixar o Estado mais ágil na concepção de uma política de irrigação, então é preciso que se reúnam os instrumentos capazes de proporcionar esses efeitos, mas não significa que ao reuni-los se ignore a legislação correspondente. Quer ver uma coisa, hoje se você tem alguma licença você vem aqui, vai lá na Fepam, depois no Defap, depois no DRH, pra mesma atividade. Ou seja, se criássemos aqui um balcão único agilizaria esse processo. Não quer dizer que a Fepam vai passar por cima do Defap.
JÁ – O senhor defende a unificação das autarquias, é isso?
Brenner – Não, estou tentando exemplificar uma ação do Estado perante o cidadão em uma janela única para facilitar, agora internamente o cara do balcão vai chamar a Fepam, o Defap. É uma unificação do gerenciamento, mas não nas tarefas, cada um faz o seu.
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A literatura foi a primeira a reagir “ao fim da história”
Guilherme Kolling
A professora de literatura e pesquisadora de teorias da leitura e de história literária, Regina Zilberman, é uma referência nacional e internacional em sua especialidade.
Ela foi convidada a repercutir a conferência de Roger Chartier “História: a leitura do tempo”. Na palestra, proferida no Salão de Atos da UFRGS no ciclo Fronteiras do Pensamento, em 22 de maio, o pensador francês abordou as relações entre história e literatura.
Nesta entrevista, Regina Zilberman explica em que medida a literatura se compromete com a verdade, as relações que ela estabelece com história – como fonte e como inspiração, através do uso de suas técnicas narrativas – e observa que a literatura foi a primeira a reagir “quando ‘alguns profetas’ anunciavam o fim da história, trazendo o gênero para o primeiro plano em muitas narrativas, como ocorre, por exemplo, com Saramago, premiado com o Nobel”.
Em sua conferência no Fronteiras do Pensamento, Roger Chartier disse que a principal diferença entre literatura e história é a coleta de provas e verificações, necessárias para estabelecer a confiabilidade do relato histórico para o leitor. Em que medida a literatura se compromete com a verdade/realidade?
O compromisso da literatura de ficção não é com a verdade, mas com a verossimilhança, isto é, com a coerência daquilo que é apresentado ao leitor. Por isso, ao contrário da história, ela pode lidar sem constrangimentos com a fantasia e a imaginação mais exagerada, como fez, recentemente, o chamado realismo mágico ou, nas primeiras décadas do século XX, o surrealismo.
Chartier também observou que o historiador contemporâneo não busca mais a verdade, mas sim a verossimilhança, pois o passado é aberto a múltiplas interpretações. Isso pode representar um diálogo que se intensifica entre os campos da história e da literatura? O que há de positivo e de negativo nessa troca?
Não sei se os historiadores entendem a verossimilhança da mesma maneira que os teóricos da literatura: a verossimilhança na literatura decorre do arranjo interno dos acontecimentos. De todo modo, como a história é também narração, ela importa da ficção literária o processo de organização dos acontecimentos que, para fazerem sentido, precisam ser coerentes.
Roger Chartier explicou que uma das razões da “crise da história” é a confusão com a narrativa de memória e a literatura. Há historiadores, e jornalistas que escrevem sobre história, utilizando técnicas da narrativa literária para deixar seus relatos mais atraentes. Essa prática pode causar confusão ou imprecisão no relato histórico?
Com efeito, gêneros que estavam mais próximos da história, como a biografia, passaram a utilizar sem constrangimentos artifícios da narrativa literária, como a apresentação da intimidade dos biografados, seus pensamentos mais secretos, etc., como se fosse possível cogitar como foi a interioridade de uma personalidade já desaparecida, que passa a ser vista de dentro. Por outro lado, não há como conferir a precisão do relato histórico, quando esse pretende reproduzir o que efetivamente aconteceu. Talvez esse seja o maior desafio da história, quando quer dar conta dos acontecimentos pretéritos: trata-se sempre de uma interpretação, ainda que mediada por documentos; contudo, deve, também, se precaver permanentemente contra os riscos de substituir o documento pela imaginação, de completar lacunas com especulações e de transformar uma personalidade do passado em figura fictícia.
O gênero biográfico é literatura ou história? E o romance histórico? Como a senhora vê essa aproximação literatura-história?
Atualmente o gênero biográfico está mais próximo da literatura que da história; mas talvez devesse ser o contrário. O romance histórico pertence ao campo da literatura, pois os eventos históricos formam o pano de fundo onde atuam personagens inteiramente imaginárias. A aproximação entre literatura e história vem marcando muito a literatura dos últimos 30 anos, em substituição à experimentação das primeiras décadas do século XX. Não se trata de julgar se isso é válido ou não, mas de constatar a preferência do público por esse tipo de criação literária. É curioso igualmente verificar que, no momento em que alguns profetas anunciavam o “fim da história”, a literatura foi a primeira a reagir, trazendo a história para o primeiro plano em muitas narrativas, como ocorre, por exemplo, com Saramago, premiado com o Nobel.
A literatura pode cumprir o papel de fonte para a história? Como? Que exemplos destacaria?
A literatura não pode ser fonte para a história, é evidente. Caso contrário, teria de abrir mão de sua principal característica – ficção, decorrente do emprego da imaginação e da fantasia, marcas principais da humanidade do homem.
O uso da internet para pesquisa histórica está aumentando, mas não deve substituir os arquivos físicos de papel em bibliotecas e acervos, segundo Chartier. O que pensa do meio eletrônico como fonte documental?
Não me parece que o meio eletrônico seja fonte, mas suporte. O arquivo contém papéis, porque o papel foi o suporte preferido para a documentação a partir da Idade Média. Se se optar pelo meio eletrônico para substituir o papel, é preciso discutir que tipo de técnica de preservação dessa documentação será empregada.

