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  • Jornal JÁ ganha Prêmio ARI de contribuição à comunicação social

    Presidente da ARI, Ercy Torma (esq), lembrou a trajetória de 21 anos do jornal JÁ, dirigido por Elmar Bones (Foto: Tânia Meinerz/JÁ)

    O Jornal JÁ recebeu na noite de quarta-feira, 6 de dezembro, no Theatro São Pedro, o Prêmio ARI de Contribuição Especial à Comunicação Social – Prêmio Antônio Gonzalez. A Associação Riograndense de Imprensa destaca pelo menos um veículo de comunicação por ano.

    O presidente da ARI, Ercy Pereira Torma, ressaltou a trajetória de 21 anos do jornal JÁ, observando que, apesar de pequena, a empresa tem feito uma produção de excepcional qualidade.

    “JÁ Editores tem publicado trabalhos muito importantes, como a obra completa de Simões Lopes Neto e os textos de Carlos Reverbel. Além, é claro do jornal, criado como uma alternativa, mas que hoje nem deve mais ser chamado assim, é uma realidade”, observou.

    Após receber o troféu, o diretor-editor do JÁ, Elmar Bones, agradeceu a seus colegas de empresa e a todos colegas jornalistas. Falou por cerca de 10 minutos, sendo interrompido por palmas da platéia em mais de um momento. “Quem faz o jornalismo são os jornalistas, não as empresas”.

    O experiente repórter observou ainda a precariedade da profissão, que tem limitações como tempo, espaço e pressões econômicas, políticas e dos próprios patrões. Bones também falou da importância da pluralidade nos meios de comunicação.

    “Apenas um grupo não é suficiente para expressar a pluralidade da sociedade, por mais veículos que tenha. Não podemos aceitar o pensamento único. A diversidade é fundamental”, disse, sendo interrompido por mais uma salva de palmas.

    Para finalizar, o jornalista ainda falou da importância da Associação Riograndense de Imprensa. “É uma instituição fundamental para a classe, devemos fortalecê-la”.

    Mais dois prêmios

    Kolling e Bones: três prêmios para o JÁ

    O Jornal JÁ Porto Alegre obteve o primeiro lugar no Prêmio ARI de Reportagem Econômica – Prêmio Banrisul, com a matéria “Máquina sem Governo”, de Elmar Bones. Também foi contemplado com o Prêmio ARI de Reportagem Esportiva – 2º lugar, com a matéria “Força e Luz: um time na marca do pênalti”, de Guilherme Kolling.

    O JÁ foi finalista em todas as categorias de reportagem do Jornalismo Impresso. Além da Econômica e Esportiva, disputou em Reportagem Geral, com a matéria “Duas décadas de imprensa” e Reportagem Cultural, com “Negro Gaúcho ganha história”, ambas de Guilherme Kolling.

    Confira a lista de todos os vencedores do Prêmio ARI 2006:

    1) JORNALISMO IMPRESSO

    a) Reportagem Geral

    1º lugar – “O novo retrato do Pampa”, de Carlos Roberto Fialho Etchichury e Nilson Cezar Mariano, publicada no jornal Zero Hora.

    2º lugar – “A vida em Comunidade”, de Luís Marcelo Miranda, publicada no Jornal NH, do Grupo Sinos.

    Menção Honrosa: “A guerra vista pelos dois lados”, de Rodrigo Guimarães Lopes, publicada no jornal Zero Hora.

    b) Reportagem Esportiva

    1º lugar – “Racismo e Futebol”, de Jones Lopes da Silva, publicada no jornal Zero Hora.

    2º lugar – “Força e Luz: um time na Marca do Pênalti”, de Guilherme Kolling, publicada no Jornal JÁ Porto Alegre.

    Menção Honrosa: “A Batalha dos Aflitos”, de Luis Henrique Gomes Benfica, publicada no jornal Zero Hora.

    c) Crônica

    1º lugar – “Estou farto”, de David Wagner Coimbra, publicada no jornal Zero Hora.

    2º lugar – “De que sonhos falava Agassi?, de Mario Marcos de Souza, publicada no jornal Zero Hora.

    Menção Honrosa: “E nunca mais voltou”, de Liberato F. Vieira da Cunha, publicada no jornal Zero Hora.

    d) Fotojornalismo – Prêmio José Abraham

    1º lugar – “O oásis do crime”, de Ronaldo Guilherme Bernardi, publicada no jornal Zero Hora.

    2º lugar – “Sem teto e sem esperança”, de Emílio Carlos Sales Pedroso, publicada no jornal Zero Hora.

    Menção Honrosa: “Festa na oficina”, de Valdir Gomes Friolin, publicada no jornal Zero Hora.

    e) Planejamento Gráfico

    1º lugar – “A copa do salto alto”, de Luiz Adolfo Lino de Souza, publicada no jornal Zero Hora.

    2º lugar – “O novo retrato do Pampa”, de Márcio da Silva Câmara, publicada no jornal Zero Hora.

    Menção Honrosa: “As copas que eu vi”, de Norton R. Lindermann Voloski, publicada no jornal Zero Hora.

    f) Charge – Prêmio Sampaulo

    1º lugar – “Contusão do Robinho”, de Neltair Rebés Abreu (Santiago), publicada no Jornal do Comércio.

    2º lugar – “Varig, Varig, Varig… Glub”, de Gilmar Luiz Tatsch (Tacho), publicada no Jornal NH, do grupo Sinos.

    Menção Honrosa: “Amigo Secreto”, de Moacir Knorr Gutterres, publicada no Jornal do Comércio.

    h) Reportagem Cultural

    1º lugar – “O colapso da Civilização Maia”, de José Airton Machado Ortyz, publicada no Jornal do Povo, de Cachoeira do Sul.

    2º lugar – “As Gauchadas de um Catarina”, de José Schenkel Weis, publicada no Jornal Extra Classe, do SINPRO.

    Menção Honrosa: “Mario Quintana – um poeta a ser redescoberto”, de Daniel Ricardo Feix, publicada na Revista Aplauso.

    g) Reportagem Econômica – Prêmio Banrisul

    1º lugar – “Máquina sem governo”, de Elmar Bones da Costa, publicada no Jornal JÁ Porto Alegre.

    2º lugar – “Drama no Ar”, de Lúcia Ritzel, publicada no jornal Zero hora.

    Menção Honrosa: “Futuro sustentável” (série), de Paulo César Oliveira Teixeira, publicada na Revista Amanhã.

    2) RADIOJORNALISMO

    a) Reportagem Geral

    1º lugar – “Nazistas Sulinos”, de Cid Martins, veiculada na Rádio Gaúcha AM.

    2º lugar – “Na linha do crime”, de Cid Martins e Jocimar Farina da Cunha, veiculada na Rádio Gaúcha AM.

    Menção Honrosa: “86 toneladas – o peso da morte no Sinos”, de Márcio Américo Vieira Pessoa, veiculada na Rádio FM Cultura.

    b) Reportagem Esportiva

    1º lugar – “A Máfia dos Cambistas”, de Eduardo Vieira Gabardo, veiculada na Rádio Gaúcha AM.

    2º lugar – “A saga tricolor: o heróico retorno do Grêmio à 1ª Divisão”, de Filipe Pereira Gamba, veiculada na Rádio Guaíba AM.

    Menção Honrosa: ” A Copa passada a limpo”, de Filipe Pereira Gamba, veiculada na Rádio Guaíba AM.

    c) Produção

    1º lugar – “Eleições 2006 – o lado humano”, de André Luiz de Mello Machado e Equipe, veiculada na Rádio Gaúcha AM.

    2º lugar – “História das Copas – a Copa do Mundo contada de um jeito diferente”, de André Silva da Silva, veiculada na Rádio Gaúcha AM.

    Menção Honrosa: “Natal de todos”, de Jayme Copstein, veiculada na Rádio Gaúcha AM.

    3) TELEJORNALISMO

    a) Reportagem Geral

    1º lugar – “A Polêmica dos Eucaliptos”, de Angélica Coronel Couto, veiculada na TVE – Canal 7.

    2º lugar – “A farra dos Vereadores Turistas”, de Giovani Antonio Grizotti, veiculada na RBS TV.

    Menção Honrosa: “Os pequenos trabalhadores”, de Nilton Schüler, veiculada na TVE – Canal 7.

    b) Reportagem Esportiva

    1º lugar – “A luta pela vida”, de Glauco de Oliveira Pasa, veiculada na RBS TV.

    2º lugar – “Preparativos para a Copa do Mundo 2006” (série), de Andrei dos Santos Rossetto, veiculada na TVE – Canal 7.

    Menção Honrosa: “Desde a preparação da Seleção Brasileira na Suíça”, de Francisco Ribeiro Neto, veiculada na TV Bandeirantes.

    c) Imagem

    1º lugar – “Incêndio do ônibus em Rio Grande”, de Rogério Pinto de Andrade, veiculada na TVE – Canal 7.

    2º lugar – “Rios Grandes do Sul”, de Antonio Cioccari, veiculada no SBT – Canal 5.

    Menção Honrosa: “Lagoa do Peixe”, de Rogério Pinto de Andrade, veiculada na TVE – Canal 7.

    4) CONTRIBUIÇÃO ESPECIAL À COMUNICAÇÃO SOCIAL – PRÊMIO ANTÔNIO GONZALEZ:

    Jornal JÁ – Elmar Bones

  • Saneamento para região do Sinos entra em lista de prioridades do Estado

    Reunião na Fiergs para apresentação das prioridades de investimento no Estado reuniu senadores e deputados (Fotos: Carlos Matsubara)

    Carlos Matsubara, especial para o JÁ.

    O tratamento de esgotos dos 32 municípios do Vale do Rio dos Sinos por pouco ficou de fora das prioridades do Rio Grande do Sul. A lista foi resultado da união da bancada gaúcha no Congresso Nacional e apontou 20 ações prioritárias para receberem recursos da Lei Orçamentária Anual.

    O relator-geral da proposta de Lei Orçamentária Anual, senador Valdir Raupp (PMDB-RO), esteve nesta segunda-feira, 4 de dezembro, na sede da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs), em Porto Alegre para ouvir de parte da bancada as necessidades do Estado.

    Foram 17 emendas propostas pelos deputados federais e mais três oriundas do Senado. A última delas, justamente a que prevê R$ 200 milhões para serem investidos em saneamento na região, apresentada pelo senador Paulo Paim (PT-RS) e já aprovada pela Comissão de Meio Ambiente do Senado.

    Apesar da aprovação da comissão e ainda sob apelo do desastre ambiental ocorrido em outubro passado, não significa que o recurso esteja garantido. E mesmo se estivesse, não seria suficiente.
    Paim admite que o valor não é solução para o problema, “mas pode ser o começo”.

    Dentre os 32 municípios da região, o que possui melhor situação é São Leopoldo com 20% do seu esgoto tratado. “Há municípios que sequer realizam o tratamento primário”, diz Torvaldo Antonio Marzolla Filho, diretor do Conselho de Meio Ambiente da Fiergs.

    Segundo Marzolla, o grande investimento do Governo Federal nos próximos anos na área de Meio Ambiente deve ser o saneamento básico nas cidades. “Sem saneamento, não há meio ambiente”, afirma. Ele ainda aproveitou a ocasião para defender o nome de Paim como o “Senador Ambiental do Congresso”. Paim, claro, aprovou a idéia. “Sempre estive atento às questões ambientais”.

    Escassez de recursos

    Deputado Eliseu Padilha (esq), disse que o Estado, normalmente, pede poucos recursos

    O relatório de receitas para 2007 foi divulgado semana passada e estima em R$ 613,2 bilhões o total de receita bruta. Com um acréscimo de ultima hora de R$ 9 bilhões, R$ 3 bilhões deverão ser transferidos para estados e municípios; e R$ 6 bilhões, distribuídos para os relatores setoriais do
    Orçamento de 2007, para atender a emendas coletivas (de bancadas e de comissão).

    Raupp também deixou um total de R$ 1,25 bilhão bruto em receitas para ser usado em uma possível desoneração tributária. Isso equivale a uma correção de 5% na tabela do Imposto de Renda.

    Para atender as 20 prioridades da bancada gaúcha, estão previstos R$ 5,7 bilhões das emendas coletivas, do total de R$ 80 bilhões para todo o Brasil.

    Raupp reconheceu o esforço da bancada gaúcha em unir-se em prol de uma causa comum, mas não garantiu que as demandas sejam atendidas e sugeriu o BNDES e os fundos de pensão como alternativas. “Essas duas fontes somadas são o triplo do que temos para o Estado”, disse.

    Lembrou ainda que os Estados podem recorrer as Parcerias Publico-Privadas (PPP’s). O deputado Eliseu Padilha (PMDB-RS) argumentou que o Rio Grande do Sul, normalmente, pede pouco e quando o faz, pede o que é justo. Defendeu a ampliação do calado do Porto de Rio Grande em mais 18 metros e investimentos em irrigação como “prioridades dentre as prioridades” dos gaúchos.

    Padilha disse que não acredita nas PPP’s como solução para as deficiências do Estado em infra-estrutura porque as agencias reguladoras, fiadoras dos contratos, estariam “partidarizadas”.

  • Estudo constata que poluição causa anomalias em peixes do Guaíba

    Poluição do Guaíba causa anomalias em peixes (Foto: Tânia Meinerz/Arquivo/JÁ)

    Ana Luiza Leal, especial para o JÁ

    Os peixes que vivem na altura da Usina do Gasômetro, no lago Guaíba, em Porto Alegre, apresentam atrofia nas nadadeiras e má formação dos ossos da cabeça. As anomalias estão relacionadas à média elevada de coliformes fecais – a mais alta da bacia hidrográfica do Guaíba – e à baixa oxigenação da água na região. As constatações são fruto de uma tese de doutorado realizada no Instituto de Biociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

    O impacto da poluição sobre o aspecto externo dos peixes também foi analisado em outros pontos da bacia: Saco da Alemoa, em Eldorado do Sul (delta do Rio Jacuí); foz do arroio Celupa e Praia da Alegria, ambas no município de Guaíba; Barra do Ribeiro; praia de Ipanema, em Porto Alegre; e os rios Caí, Gravataí e Sinos. A Usina do Gasômetro é a campeã em poluição da água e anomalias.

    De acordo com os parâmetros estabelecidos pelo Conama, a qualidade da água varia de regular a ruim em toda a bacia. O monitoramento teve duração de dois anos.

    O autor do trabalho, Fábio Flores Lopes, espera que os dados sirvam de alerta para as políticas públicas. “Constamos que o problema existe, mas faltam estudos sobre em que nível está a degradação. Não se sabe o que pode estar provocando essa situação e as conseqüências disto para a sobrevivência dessas espécies”, afirma.

    A utilização de peixes como bioindicadores da qualidade da água já foi tema de análise do Centro de Estudos Costeiros, Limnológicos e Marinhos da UFRGS (Ceclimar), que pesquisou as alterações no sistema imunológico dos peixes no rio Tramandaí, em 2002. No ano anterior, um trabalho do Centro de Genética da universidade constatou a contaminação em bagres e tainhas no mesmo rio, devido ao alto grau de poluição provocada por vazamentos nas plataformas da Petrobras em Imbé e Torres.

  • Indústria se defende do desastre do Rio dos Sinos

    FIERGS reúne jornalistas para defender indústrias do desastre ambiental no Rio dos Sinos

    Carlos Matsubara, especial para o JÁ

    Coube à poderosa Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs) defender o setor no episódio da morte de mais de 100 toneladas de peixes no Rio dos Sinos no dia 7 de outubro. A entidade reuniu bom número de jornalistas ontem (23/11) para apresentar sua versão dos fatos.

    O objetivo da coletiva apareceu já na fala de Ricardo Lins Portella Nunes, coordenador do Conselho da Infra-Estrutura da entidade e primeiro a comentar o desastre. “Queremos mostrar a realidade do que aconteceu no rio naquele dia”.

    A realidade seria discordar do relatório apresentado pela Fundação Estadual de Porteção Ambiental (Fepam), que apontou à imprensa e à população seis empresas que acabaram autuadas pelo órgão ambiental na ocasião. Torvaldo Marzolla Filho, coordenador do Conselho de Meio Ambiente da Fiergs, seguiu o raciocínio. Segundo ele, a responsabilidade das empresas multadas é próxima de zero, uma vez que a falta de saneamento nos municípios da bacia dos Sinos seria a grande culpada.

    “A Fiergs não compactua com nenhum tipo de má-conduta por parte de empresas, porém não podemos responsabilizá-las por algo que os governos não fazem”, afirmou. De acordo com Marzolla, a própria ação da Fepam de injetar oxigênio puro no rio nos últimos dias evidencia a inocência do setor industrial.

    Adjalmo Gazen, conselheiro do Grupo Temático de Saneamento do Conselho de Infra-Estrutura decretou: “Matéria química não provoca falta de oxigênio na água, causa-mortis dos peixes”. Especialista em Saneamento, Gazen concorda com a tese da coincidência de fatores para explicar o desastre.

    As coincidências foram: período de baixa vazão do rio, agravada pelo uso para irrigação de lavouras de arroz, algumas sem a devida outorga, represamento das áreas a partir do Delta do Jacuí ocasionado pela incidência do vento sul, ocorrência de temperaturas mais elevadas provocando a aceleração da degradação de matéria orgânica, além da coincidência da piracema, período de outubro a março em que os peixes se deslocam para as nascentes para a desova. “Seria ingenuidade pensar que aquela quantidade de peixes é normal naquela parte do rio”, sugere.

    De acordo com um documento apresentado pelo Conselho de Meio Ambiente da Fiergs, os 31 municípios que compõem a bacia dos Sinos apresentam um percentual de 10% do esgoto doméstico com algum tipo de tratamento.

    O mesmo documento registra que a poluição industrial, que já foi de extrema gravidade, especialmente dos grandes curtumes, hoje apresenta níveis satisfatórios: 961 toneladas por ano de carga DBO (demanda bioquímica de oxigênio) contra 7.907 toneladas por ano de carga DBO de origem doméstica. Trocando em miúdos, são 11% de poluição industrial e 89% de poluição doméstica de origem orgânica no Rio dos Sinos.

    “Sabemos que o nível de qualidade alcançado se deve à imposição de rigorosos padrões de controle ambiental pela Fepam ainda na década de 1970”, reconhece Gazen. Cálculos apresentados pela Fiergs demonstram que as 106 indústrias da bacia dos Sinos gastaram R$ 18 milhões, no ano passado, no controle de poluição dos seus processos.

    A Fiergs entende ainda que as empresas que cometem irregularidades devem arcar com suas responsabilidades e corrigir eventuais falhas. “Por outro lado, não se justifica a tentativa de transferir responsabilidades a todo um setor que vem atendendo os padrões estabelecidos pelos órgãos ambientais”, afirma Gazen.

    O documento da Fiergs parece ainda sugerir um outro culpado: “Devem ser implementadas medidas de controle quantitativo das águas de irrigação de arroz com a aplicação, controle e monitoramento das outorgas, sob pena de serem comprometidos os usos para abastecimento público e mais agravada a situação já crítica do Rio dos Sinos”.

  • A bibliografia da escravidão

    Na obra de Valéria Zanetti: o passado dos negros na Capital, com detalhes da vida familiar, cultural, os crimes e os castigos a que foram submetidos, e um capítulo que debate a visão da historiografia acerca do escravo urbano. (Reprodução)

    Naira Hofmeister

    Começava o mês de dezembro, em 1964, quando Carlos Reverbel condenava a ausência de registros na mídia sobre o livro de Fernando Henrique Cardoso, Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional. “Ainda não tivemos a oportunidade de ler uma notícia sequer, a respeito da referida obra, quanto mais um juízo crítico, que viesse atravessar tão duradoura e espessa cortina de silêncio”, dizia o jornalista. A obra, resultado da tese de doutoramento de FHC na Faculdade de Filosofia da USP, havia sido publicada dois anos antes e não teve repercussão alguma nas paginas de jornais.

    Passaram 42 anos desde que Reverbel expôs sua indignação no artigo do Correio do Povo. De lá para cá foi instituído o Dia da Consciência Negra – feriado em diversas capitais do Brasil – que lembra a morte de Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga, em Alagoas.

    Mais recentemente, uma lei nacional tentou emplacar o ensino de História e Cultura Afro-brasileira em todos os níveis escolares, medida ainda não adotada em nenhuma instituição. No Rio Grande do Sul, um monumento em Pinheiro Machado vai lembrar o massacre da tropa dos Lanceiros Negros em 1844, quando os líderes farrapos ensaiavam os primeiros passos para a rendição e acordo com os imperialistas.

    Mesmo com os avanços do Movimento Negro em busca de políticas de inserção, a reclamação de Reverbel parece se repetir em 2006: “É de causar espécie um livro editado em 1962 não ter sido objeto de atenção até a presente data no nosso Estado”.

    Seis anos depois de lançada, a Coleção Malungo, da Editora UPF,  ainda não mereceu espaço na imprensa gaúcha. Com 10 títulos já publicados e  dois no prelo, a obra aborda a escravidão no Brasil Colonial.

    “Realmente a coleção está merecendo uma abordagem jornalística, nem que seja por se encontrar precisamente no Rio Grande do Sul e, salvo engano, ser a única coleção no Brasil dedicada exclusivamente a estudos científicos sobre a escravidão colonial brasileira”, concorda Mário Maestri, coordenador do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade de Passo Fundo e diretor da Editora da UPF, que abraçou um projeto originariamente bancado por uma editora de São Paulo, na década de 80.

    “Malungo era a designação dada pelos africanos angolanos escravizados, aos companheiros aos quais estavam acorrentados ou com os quais compartiram a terrível viagem transatlântica nos tumbeiros”, explica o historiador.

    Na atual coleção, todos os livros são – assim como a obra em questão no artigo de Reverbel – fruto de trabalhos acadêmicos desenvolvidos principalmente nas universidades gaúchas, mas não exclusivamente.

    “Alguns dos livros publicados na coleção Malungo eram antigas teses ou dissertações, de elevada qualidade, inéditas há anos, por falta de espaço editorial, como o estudo de Théo Loubarinhas Piñeiro, professor da UFF, sobre a crise da escravidão no Rio de Janeiro, ou de Maria do Carmo Brasil, então professora da UFMS, sobre a escravidão no Mato Grosso”, destaca.

    Dos 10 títulos já disponíveis para compra, 5 abordam a escravatura no Rio Grande do Sul, cujo acesso, lembra Maestri, era restrito aos exemplares depositados nos programas de pós-graduação. Entre os trabalhos gaúchos, chamam a atenção os estudos de Ana Regina Simão – hoje professora da Unisinos – e da mineira Valéria Zenetti, sobre a escravidão urbana em Pelotas e Porto Alegre, respectivamente.

    Em Resistência e acomodação: a escravidão urbana em Pelotas – RS (1812-1850), Ana Regina Simão debate a dicotomia escravocrata refletida nas idéias surgidas no final da década de 70, quando se delineou a linha de raciocínio que “reconhecia a dinâmica escravista a partir da categoria contradição-consenso e não contradição-resistência”, escreve Maestri na apresentação do livro. Ou seja, a condição servil se dava não apenas por causa da opressão dos senhores, mas também por falta de resistência, entende esse viés de pesquisa.

    O resultado dessa inversão de conceitos, segue explicando, foi uma mudança no paradigma das investigações, que deixam de se concentrar no campo e chegam aos centros urbanos, até então ignorados pelos estudos. “Entre todos os protagonistas das pesquisas arroladas que tive o privilégio de orientar, a autora foi sempre a mais atraída pelo pólo acomodação”, reforça.

    Em seis capítulos a autora situa o leitor na sociedade escravista brasileira e nas particularidades sulinas, pontua as diferenças entre a prática escravocrata urbana daquela no campo e traça o panorama da cidade de Pelotas e de sua principal atividade econômica:  as charqueadas. “Principais produtos de exportação do Rio Grande do Sul na primeira metade do século XIX, a produção de charque e do couro ensejou a expansão das grandes fazendas pastoris, dando origem a uma sociedade apoiada no braço do cativo, que ensejou um centro urbano escravocrata de grande opulência, como Pelotas”, descreve Ana.

    A alforria, a família e a saúde dos escravos também são contemplados no minucioso estudo, que, segundo Maestri, propõe um cenário rico e complexo. Se as alforrias eram quase uma exclusividade das mulheres escravizadas, eram as negras que sofriam problemas de saúde, pois eram os trabalhadores de sexo masculino que recebiam tratamento hospitalar na Santa Casa. A autora lembra ainda que nos registros de filhos de escravas “a paternidade era ignorada”.

    Também em Calabouço Urbano – Escravos e Libertos em Porto Alegre (1840-1860) aparece novamente a oposição entre o campo e a cidade. Nos estudos de Valéria Zanetti, além da narrativa sobre o passado dos negros na Capital – que também inclui detalhes sobre a vida familiar, cultural, os crimes e os castigos a que foram submetidos –, há um extenso capítulo que se dedica a debater a visão da historiografia acerca do escravo urbano. “A reconstituição histórica de Valéria Zanetti apresenta-nos uma Porto Alegre estranhamente negra, escravista e plebéia, em forte oposição aos cenários tradicionais que diluíram a onipresença do cativo negro nas cidades sulinas”, opina Maestri.

    Aliam-se a esses estudos trabalhos acadêmicos recém-defendidos, entre os quais Maestri destaca o de Leandro Daronco, sobre a escravidão em Cruz Alta, e o próximo lançamento da Coleção Malungo onde Beatriz Eifert, aborda a escravidão nas fazendas de Soledade.

    A coleção conta ainda com outros títulos de gente que Maestri define como “consagrados historiadores de outras regiões do Brasil”, Entre eles, Flávio dos Santos Gomes, professor do PPGH da UFRJ, que publicou coletânea de ensaios especializados sobre a escravidão, e o economista e professor da universidade Federal do Piauí, que publicou sua tese sobre a escravidão nas fazendas públicas piauiense e, agora, reeditou seu trabalho “já clássico sobre a resistência e violência escravista no RS”, Triste pampa: resistência e punição de escravos em fontes judiciárias do Rio Grande do Sul (1818-1833).

    A extensão territorial não pára aí: Maestri revela que a coleção começa a dar os primeiros passos internacionais: “Já está em análise a publicação de dois trabalhos relacionados com a escravidão no norte do Uruguai.”

    Publico não falta para as publicações, já que nas últimas da Feira do Livro de Porto Alegre, a banca da UPF tem sido ponto de encontro dos historiadores na Praça da Alfândega. “Isso assinala, simpaticamente, sua definitiva inserção em nosso panorama cultural”, completa um orgulhoso Mário Maestri.

    Os livros podem ser encomendados através do endereço eletrônico da editora – http://www.upf.br/editora/ – ou no próprio Campus da Universidade, no Km 171 da BR 285, em Passo Fundo. O telefone da Editora da UPF é (54) 3316-8100.

  • Funcionários da RBS protestam contra baixo piso salarial

    Na faixa, grupo condena a opção pelos lucros ao invés do trabalhador  (Foto: Priscila Gonçalves/JÁ)

    Priscila Gonçalves, especial para o JÁ

    Um grupo de funcionários da RBS realizou um protesto ontem (23) em frente a um dos prédios da empresa localizado na avenida Érico Veríssimo, em Porto Alegre. O objetivo era chamar a atenção em relação ao baixo piso salarial.

    A proposta é uma antiga reivindicação dos radialistas do interior, que acreditam ser discriminados com relação ao piso da capital. Em uma reunião ocorrida quarta-feira (22) no Sindirádio, os representantes dos trabalhadores apresentaram aos patrões a sua contraproposta para o reajuste da categoria.

    Foi reivindicado a integralidade do índice do INPC para todos os trabalhadores, 2,71% mais o acréscimo de 5% nos pisos dos operadores. O objetivo é alcançar um piso único. Segundo um dos participantes da manifestação, haverá um outro protesto em frente a RBS TV, que fica no morro Sta. Teresa na próxima segunda-feira (27).

  • Mais chuva não garante qualidade à água gaúcha

    Guaíba é uma das fontes de captação na Capital (Foto: Tânia Meinerz/JÁ)

    Cláudia Viegas, especial para o Jornal JÁ

    Os dois últimos verões gaúchos têm sido lembrados como um pesadelo por quem leva a sério o cuidado com o consumo de água. Ainda está bem vivo na memória o conflito travado no ano passado entre homem e os efeitos dele mesmo sobre a natureza, especialmente no crítico mês de janeiro, em que a captação de água para as lavouras de arroz precisou ser temporariamente suspensa pela Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan), quando o Rio Gravataí atingiu 50 centímetros de profundidade em relação ao nível do mar, deixando em alerta a situação de abastecimento para consumo doméstico.

    A partir de um prognóstico do 8º Distrito de Meteorologia do Ministério da Agricultura para entender como será o comportamento das chuvas, aliado a opinião dos diretores de Operações da Corsan e do Departamento Municipal de Água e Esgoto (Dmae) de Porto Alegre, pode-se saber o que os municípios abastecidos por essas empresas podem esperar quanto ao próximo trimestre.

    As prvisões atinge um universo aproximado de 1,3 milhão de habitantes na cidade de Porto Alegre, servidos pelo órgão municipal, mais seis milhões de gaúchos (um terço dos habitantes do Estado) abastecidos pela estatal em 367 localidades.

    Um bom começo

    O mais recente boletim do 8º Distrito de Meteorologia (Disme), que foi lançado na sexta-feira passada (20/11), informa que na primeira quinzena deste mês “as precipitações ficaram dentro e acima do padrão climatológico na maior parte do Estado, com exceção do nordeste e norte do vale do Uruguai”.

    Isto indica um bom começo, mas não quer dizer que as condições serão mantidas sempre assim pelos próximos meses. Conforme o coordenador do 8º Disme, Solismar Damé Prestes, os prognósticos baseiam-se principalmente nas condições da temperatura da superfície do mar (TSM), obtidas pelos cientistas por meio de complexos cálculos e instrumentos. “Não podemos prever se vai ou não faltar água, até porque não conhecemos as condições dos reservatórios. Nosso papel é indicar as projeções da meteorologia para os próximos meses”, observa.

    O boletim do 8º Disme explica que “devido às condições atuais da TSM do Oceano Pacífico Equatorial, são esperadas precipitações entre o padrão normal e acima no mês de dezembro em praticamente todo o Estado”.

    “Piorar não vai. No início deste ano, já vínhamos com um período de estiagem que perdurou ao longo de 2005. Neste ano, o modelo estatístico, que leva em conta as águas do Pacífico, mostra chuvas acima da média em novembro e dezembro, ou seja, um pouco acima da média, em até 50%”, indica Prestes.

    Alerta para janeiro

    Para quem pensa que o tempo da abundância de água voltou, um conselho: nada de gastar mais, porque a situação muda em janeiro e fevereiro. “Devido ao possível resfriamento da TSM no Oceano Atlântico Subtropical, é esperada uma redução das precipitações principalmente na metade sul do Estado” – isto principalmente em janeiro de 2007, com a situação amenizando um pouco em fevereiro.

    O documento lança um aviso: “Alertamos para o manejo adequado dos recursos hídricos excedentes até o final do ano, pois há indicativos de redução das precipitações para os meses de janeiro e fevereiro”.

    Os mapas do boletim do 8º Disme apresentam um quadro tranqüilo para o mês de dezembro, com chuvas um pouco acima do normal nas regiões norte e central do Estado, e normal na região sul.

    Em janeiro, porém, a situação muda bastante, e a expectativa é de que todo o território tenha precipitações abaixo do normal, com exceção de uma pequena área bem ao norte. A região da fronteira com o Uruguai aparece como a mais castigada, com previsão de chuvas abaixo do convencional, mais do que no restante do Estado.

    Em fevereiro, é o sul do Estado e a Região Metropolitana que ficam com chuvas abaixo da média. “O sul é a parte mais crítica. As médias de chuvas são menores também devido ao resfriamento do Oceano Atlântico. Recomendamos, então, que as pessoas economizem água e não pensem que só porque tende a chover um pouco mais no Estado, que essas chuvas sejam com a mesma intensidade”, destaca Prestes.

    Disputa e qualidade

    Além de intensificar a cultura de consumo racional de água, as empresas de abastecimento enfrentam outros dois desafios: gerenciar bem o destino e garantir a qualidade do liquido potável.

    A disputa da água entre consumidores domésticos e outros – especialmente a agricultura, que absorve 85% das águas nas bacias dos rios dos Sinos e Gravataí – polariza boa parte dos esforços da Corsan. “Temos participado ativamente de todas as reuniões dos comitês de bacia do Estado. Na Região Metropolitana, nas bacias do Gravataí e do Sinos, temos o conflito pelo uso da água, e a Constituição Estadual manda que a prioridade seja para o abastecimento público”, relata o diretor de Operações da estatal, Jorge Accorsi.

    Tragédia no Rio dos Sinos pode afetar qualidade da água (Foto: Divulgação/JÁ)

    Segundo ele, o sinal de alerta aparece quando o Gravataí, por exemplo, atinge um metro acima do nível do mar nos pontos de captação. “Aí nós começamos o bombeamento alternado, com três dias sim e dois não para a agricultura”, explica. “No ano passado, tivemos 50 centímetros, e a captação para os arrozeiros foi paralisada até que se normalizasse o quadro. E mesmo há poucos dias, tivemos o rio com 80 centímetros”, acrescenta.

    Accorsi está otimista a partir dos dados da meteorologia para os próximos meses: “Temos previsão de que vai chover na média ou um pouco abaixo e de que, portanto, não haverá problemas de abastecimento. A situação é bem melhor do que no ano passado”.

    A qualidade da água, porém, é um fator de preocupação, ainda mais depois do acidente ocorrido no início de outubro no Rio dos Sinos. “Baixou muito o nível de oxigênio e tivemos que aumentar a dosagem de produtos químicos – cloro, sulfato de alumínio, permanganato de potássio e carvão ativado”, conta. “Tudo isto para manter os padrões dentro das exigências da Portaria 518/2004 (dispositivo do Ministério da Saúde que trata de normas de qualidade da água para consumo humano)”.

    Captação no Guaíba depende de produtos químicos

    Em Porto Alegre, o Dmae também está tranqüilo quanto à capacidade de fornecimento. “Temos oito estações de captação no Lago Guaíba, no qual a variação de volume não é tão expressiva, pois enquanto um rio se reduz em 20% a 30% de seu volume numa estiagem, o lago não sofre este problema, ele é formado por sete rios que o abastecem, sendo o Jacuí o de maior vazão”, afirma o diretor de Operações do Departamento, Valdir Flores.

    De acordo com ele, um ponto crítico de captação nos últimos meses é o localizado no bairro Navegantes, que abastece esse bairro e o São João, próximo à altura da Rua Câncio Gomes. “O porto foi deslocado para lá e, desde então, o movimento dos navios gera uma mexida no fundo do lago, causando alguma turbidez”, conta.

    Já quanto ao problemático ponto de captação junto ao clube Veleiros do Sul, no bairro Tristeza, Flores assinala que foi deslocado para 1,5 mil metros lago adentro, a fim de sair da área de influência do Arroio Cavalhada, onde há instalações do Departamento de Esgotos Pluviais (DEP). “Ali, nosso maior problema era o esgoto doméstico”, diz.

    Flores corrobora a avaliação de Accorsi com respeito à qualidade da água. “Este é o nosso maior problema, em especial a ocorrência de algas quando o tempo está seco por um período prolongado e há sol radiante”, explica. Nessas situações, a água apresenta odor e cor.

    O sulfato de alumínio é o produto tradicional utilizado para melhorar as condições do líquido, mas, conforme Flores, o Dmae introduziu, no ano passado, o policloreto de alumínio. “Trata-se de um processo piloto que estaremos utilizando neste verão”, informa.

    A diferença é que o sulfato de alumínio faz baixar o pH (potencial de hidrogênio ou índice de acidez/alcalinidade) da água para 5, enquanto que o pH dela nos pontos de captação é de mais ou menos 6. “Para equilibrar o pH, precisamos usar hidróxido de cálcio ou hidróxido de sódio”, afirma.

    O policloreto de alumínio, que está sendo introduzido, não altera o pH, além de dispensar o uso de corretores de acidez. Assim, mesmo sendo um produto importado e que exige instalações especiais para sua utilização, é considerado vantajoso pelo técnico. “Temos um estoque de policloreto de alumínio para uso neste verão. O resultado da experiência piloto foi muito bom, mas não queremos abandonar o uso de sulfato de alumínio porque é um produto nosso, produzido localmente. O policloreto de alumínio será nosso produto alternativo” resume Flores.

    Mudança climática

    Se esta é uma expressão que preocupa países e faz ONGs marcharem contra o excesso de queima de combustíveis fósseis, ainda não está na agenda estratégica da Corsan, do Dmae e mesmo do 8º Disme. “Para nós ainda são especulações os efeitos da mudança climática no Estado. Sabemos que podem aumentar as anomalias e os eventos extremos, mas não temos nada específico quanto a este assunto. O que temos é a previsão climática para três meses”, afirma Solismar Prestes.

    Ele assinala, porém, que as séries de dados mostram um aumento das temperaturas mínimas no Estado, nos últimos anos. “Se levarmos em conta os últimos 40 anos, vamos constatar que a média de chuvas até aumentou no Estado, situação bem diferente da que temos se considerarmos apenas os últimos três ou quatro anos”, ressalta o meteorologista.

  • Quem polui o Rio dos Sinos

    Elmar Bones

    O diretor técnico da Fepam, Jackson Muller, é biólogo. Mas naquela manhã ele mais parecia um médico à beira de um paciente terminal. Próximo a seus pés, na beira d’água, peixinhos se debatiam, asfixiados. A trinta metros, no meio do rio, um aerador agitava a água para melhorar a oxigenação. “Ele ainda está sob terapia intensiva. Nos pontos mais críticos vamos ter que colocar linhas de oxigênio puro para ajudar”, diz Muller, fitando a outra margem.

    Quando menino, Muller vinha ali pescar com seu pai: “Vínhamos com caniços, a gente jogava a linha lá no meio do rio”. Agora, aos 42 anos, ele dirige uma operação custosa que envolve barcos, draga, bombas d’água, compressores e oxigênio – uma operação de emergência para tentar reanimar o rio dos Sinos, atingido por uma brutal carga de poluição que deixou um trecho de 15 quilômetros praticamente sem vida. “Estamos tentando criar um corredor de passagem a fim de que os peixes possam subir para a desova”, explica.

    Ele aponta a curva onde os peixes mortos formaram um tapete, no local chamado Pesqueiro, entre Portão e Sapucaia do Sul. É um ponto onde o rio faz um cotovelo e o movimento das águas é mais lento. Ali se acumulou a carga tóxica. Como é época da piracema, uma grande quantidade de peixes vinha subindo o rio, para desovar na nascente. “Quando chegaram aqui, os cardumes ficaram sem oxigênio, começaram a buscar refúgio nas margens e a morrer”.

    O oxigênio é o indicador da vida no rio. Normalmente, o índice de oxigênio naquele ponto é de 5 miligramas por litro. No dia do desastre chegou a zero e agora, um mês depois, ainda está em 0,8 miligramas por litro, insuficiente para que os peixes sobrevivam.

    Mediadas paliativas:

    “É o maior desastre ambiental no Sinos em 40 anos”, segundo Muller. Foram recolhidas 100 toneladas de peixes de 16 espécies – Cascudo, Grumatã, Viola, Cará, Jundiá, Cará (2), Lambari, Piava, Traíra, Dourado, Branca, Mandi, Pintado, Biru, Biru (2), Voga – além de exemplares de outras duas espécies exóticas de peixes.

    A mortandade foi causada por um conjunto de fatores coincidentes. O rio estava com o nível baixo em função das chuvas que foram insuficientes no inverno e da captação de água fora do normal para as lavouras de arroz. Fora isso, a água estava sendo represada pelo vento e, em alguns pontos, pelo assoreamento.

    Para completar o quadro da tragédia, uma carga maior de efluentes tóxicos foi lançada por indústrias, fato bastante comum nos fins de semana. No ponto em que se concentrou essa carga, o oxigênio foi a zero, matando os cardumes que subiam em direção à nascente. “Esse episódio é um divisor de águas”, avalia Muller, lembrando que o problema é recorrente e cumulativo. “A situação do rio vem se deteriorando ano a ano”, diz. Na verdade, há meio século a mortandade de peixes no rio dos Sinos já era preocupação do ecologista Henrique Luís Roessler, o primeiro a denunciar a transformação do rio num esgoto a céu aberto.

    Crime

    O movimento Viva São Leopoldo, que inclui diversas entidades de lojistas, empresários e lideranças comunitárias da cidade lançou um manifesto, cobrando providências efetivas e exigindo a divulgação dos culpados pelo crime do Rio dos Sinos.

    O texto, de 31 de outubro, entregue aos meios de comunicação e às autoridades da região e do Estado, diz que nada tem sido feito pelo rio há muitos anos. “O Sinos e seus afluentes estão pela hora da morte, envenenados por pessoas sem escrúpulos”, denuncia o grupo.

    As instituições apoiadoras da iniciativa garantem que não vão abrir mão da apresentação dos culpados. “As empresas devem ser denunciadas publicamente para que todos possamos saber quem são os algozes do rio dos Sinos. As multas devem ser expressivas para que eles possam avaliar o abalo moral da sua empresa e quanto custaria se adequarem à legislação ambiental”.

    O manifesto diz ainda que “se sabe quem são as empresas poluidoras, mas por conchavos, propinas, desconversações e descaso, nada é cobrado e fiscalizado e os desgastes ambientais continuam, só que cada vez mais, em maiores proporções”.

    O movimento Viva São Leopoldo exige ainda que o trabalho da Fepam seja constante daqui para frente, para que os dados coletados sirvam de prova para poder autuar os infratores.

    “Jogaram produtos muito fortes no rio”

    Sábado, 7 de outubro. O barco Martim Pescador, com 54 pessoas a bordo, retorna de Porto Alegre em direção a São Leopoldo. Era em torno de quatro da tarde, quando, já no rio dos Sinos, começaram a aparecer os peixes mortos, muitos se debatendo asfixiados. Na altura em que o Arroio Portão deságua no Sinos, próximo a Sapucaia do Sul, uma verdadeira tragédia – milhares de peixes mortos cobrem a superfície do rio.

    O relato é do ex-prefeito e ex-secretário do Meio Ambiente de São Leopoldo, Henrique Prieto, 68. Ele é presidente do Instituto Martim Pescador, que criou há quatro anos e que se dedica à educação ambiental. Estava regressando de uma aula com seu barco-escola, quando presenciou o desastre.

    Ali mesmo, Prieto resolveu fazer um documento, para confirmar que a mortandade começava no Arroio Portão. Todas as pessoas no barco assinaram o texto. Outra providência imediata foi contatar a Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) e a secretaria de Meio Ambiente de São Leopoldo.

    As primeiras informações chegaram ao Serviço de Emergência da Fepam por volta das 18h, pelo biólogo Joel Garcia, coordenador do serviço de fiscalização da Secretaria do Meio Ambiente de São Leopoldo. Quem atendeu ao chamado foi a bióloga Cleonice, da Fepam.

    Às 13h do dia seguinte, ela se deslocou ao rio dos Sinos acompanhada do engenheiro químico Renato das Chagas, para a localidade de Passo do Carioca. Lá, iniciaram a avaliação do estrago e tomaram as primeiras medidas para atenuar o desastre.

    Ao longo do sábado e do domingo, os peixes mortos foram se acumulando. Na segunda-feira, 9 de outubro, os cardumes começaram a ser retidos. Também neste dia, iniciou-se a coleta de amostras de sedimento, água, peixes e efluentes, trabalho que prosseguiu até o dia 13.

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    Barco Martim Pescador foi o primeiro a registrar o desastre

    Ainda indignado com o acontecimento, Henrique Prieto é pessimista sobre a solução para o caso. “Vai acabar em pizza mais uma vez”, prevê. “Primeiro porque a Fepam demorou a fazer a análise do rio, só começou na segunda-feira. Foi possível detectar os produtos que causaram a mortandade, mas não identificar quem fez isso”, entende.

    O presidente do Instituto Martim Pescador não tem dúvidas de que a gota d’água para a ocorrência da mortandade foi o despejo de efluentes industriais. “Em um determinado momento, jogaram produtos muito fortes no rio”, acredita.

    “Se a Fepam tivesse uma fiscalização eficiente, isso não teria acontecido. O problema é que o órgão ambiental não tem condições, falta gente. O arroio Portão é uma verdadeira cloaca, mas até hoje não aconteceu nada. É preciso vontade política para montar essa grande estrutura de fiscalização. E multar”, defende.

    Documento para Yeda

    A Fepam diz que o desastre totalizou 80 toneladas de peixes, o Instituto Martim Pescador calcula que sejam 160 toneladas. O órgão ambiental do Estado estima em 1 milhão o número de peixes mortos. “Pensamos que foram mais de 2 milhões, porque a ocorrência se deu no período de reprodução, havia muitos peixes pequenos”, diz Henrique Prieto, presidente da ONG.

    Além de denunciar e contabilizar os danos da tragédia, o Instituto Martim Pescador também agiu para que os culpados sejam encontrados. Dois dias depois do crime, lançou um disque-denúncia, que recebeu 24 mensagens. O conteúdo foi encaminhado à Fepam, Ministério Público e Polícia Civil de Sapucaia do Sul, que abriu inquérito.

    Houve ainda outras atividades como o abraço ao Rio dos Sinos, bloqueio simbólico da BR-116, e um protesto em 7 de novembro, quando o episódio completou um mês. “A idéia é promover alguma ação no dia 7 de cada mês, para não deixar que este fato seja esquecido”, promete o presidente do Instituto Martim Pescador.

    Prieto conta ainda que a ONG fará uma exposição com fotos, números, mapas e o conteúdo das mensagens recebidas no disque-denúncia. O Instituto também está preparando um documento a ser entregue para a nova governadora, exigindo medidas para o meio ambiente, como a melhoria na infra-estrutura e a contratação de mais funcionários.

    “Meio ambiente não é prioridade”

    A Associação dos Servidores da Fepam (Asfepam) encaminhou carta aberta ao Conselho Estadual do Meio Ambiente e à sociedade gaúcha em 7 de novembro. O texto diz que o monitoramento do rio mostra que a qualidade da água cai cada vez mais pelo despejo de esgoto sanitário e industrial. “Isto tem gerado ocorrências cíclicas de mortandade de peixes”. A Asfepam lembra que desde 1977 o órgão ambiental tem se esforçado para mitigar impactos gerados pelas atividades poluidoras naquela bacia, como a portaria de curtumes no início da década 80, o sistema de monitoramento e o Comitê da Bacia.

    Para o grupo de funcionários da Fepam, o episódio evidencia falhas dos sistemas planejados para proteger o ambiente no Rio Grande do Sul. A falta de estrutura e de recursos dificulta, por exemplo, o trabalho de enquadramento dos rios (metas de qualidade) e dos planos de bacias como diretrizes definidoras da recuperação e manutenção da qualidade da água. Os servidores também criticam a descontinuidade administrativa no setor. Desde a criação da Secretaria Estadual de Meio Ambiente, há sete anos, foram cinco secretários – somente no último quadriênio, quatro pessoas assumiram o cargo. Além disso, a Asfepam reclama que “o corpo técnico foi publicamente desacreditado”, apesar de trabalhar de forma anônima, evitando muitos outros desastres.

    “O que o episódio comprova é que meio ambiente não é prioridade para os representantes da sociedade deste Estado”, resume a Asfepam, observando que o desenvolvimento tem sido pensado sem preocupações em impedir agravos ao meio ambiente. “É urgente a implementação de ações preventivas. São necessários gestores com conhecimento e comprometimento com as causas ambientais, garantia de execução dos recursos orçamentários do Estado para os órgãos do Sistema Estadual de Proteção Ambiental”, conclui o manifesto.

    Prefeituras tem 180 dias para apresentar plano

    A situação de emergência ambiental levou a Fepam a publicar uma portaria em 11 de outubro, determinando a redução em 30% da vazão licenciada de todas as atividades industriais situadas na sub-bacia do Arroio Portão.

    A medida para combater a poluição industrial não é isolada. A mesma portaria define o prazo de 180 dias para os municípios apresentarem uma proposta de Plano de Saneamento, voltado a redução do lançamento de esgoto doméstico sem prévio tratamento. As cidades da Bacia do Rio dos Sinos tratam, em média, apenas 10% do esgoto.

    “São Leopoldo trata só 18%, Novo Hamburgo 2%, Sapiranga 2%. Cerca 90% do esgoto doméstico dos 32 municípios é despejado in natura no rio. E essa região tem uma população de 1,3 milhão de habitantes. O problema é que as prefeituras não têm dinheiro para tratar esgotos. A única maneira é a criação de um fundo federal com esse fim”, entende o presidente do Instituto Martim Pescador, Henrique Prieto, que é ex-prefeito de São Leopoldo.

    Além do esgoto, há casos de lavouras em Áreas de Proteção Permanente, uso indiscriminado de agrotóxicos, ocupações irregulares de banhados, extração mineral, pesca predatória na piracema, destruição de vegetação ciliar, depósito de areia e lixo.
    Boa parte dos 190 km de extensão do rio dos Sinos está comprometida. A bacia hidrográfica possui uma área de 3.820 km2, correspondendo à 4,5% da bacia hidrográfica do Guaíba e 1,5% da área total do Estado do Rio Grande do Sul.

    Suas nascentes estão localizadas na Serra Geral, no município de Caraá, a cerca de 900 metros de altitude correndo no sentido leste-oeste até a cidade de Novo Hamburgo, desembocando no delta do rio Jacuí entre as ilhas Grande dos Marinheiros e das Garças.

    Em dois anos, 313 empresas multadas

    Depois do desastre ambiental no Rio dos Sinos em 7 de outubro, a Fepam autuou seis indústrias, entre os dias 8 e 19: dois curtumes, duas papeleiras, uma empresa de alimentos, e uma química. Ao todo, as multas aplicadas superam R$ 1,2 milhão.

    Foram punidas a UTRESA (União dos Trabalhadores em Resíduos de Estância Velha), a Três Portos S/A – Indústria de Papel, de Esteio, e a Gelita do Brasil, curtume de pele de porco, de Estância Velha. As outras três infratoras não puderam ser identificadas após obterem liminar no dia 19 de outubro.

    Uma delas é a PSA Indústria de Papel, de São Leopoldo. Essa empresa, aliás, foi flagrada pela Fepam fazendo um novo despejo de carga poluidora no Rio dos Sinos, em 11 de novembro. As imagens foram mostradas na televisão, mas o nome da empresa, mais uma vez, não foi citado.

    Funcionários da Fepam lembram que as seis companhias identificadas não são as únicas culpadas. “Não vamos conseguir encontrar todas as responsáveis. Mas através de análises de procedências, identificamos essas seis cometendo irregularidades”, explica o diretor técnico Jackson Muller.

    O fato é que apenas nos últimos dois anos, em 1.283 vistorias, o órgão ambiental multou 313 empresas de 30 municípios. Todas essas companhias estavam infringindo a lei, despejando resíduos tóxicos sem tratamento no rio.

    A Fundação de Proteção Ambiental do Rio Grande do Sul informa a localização e a atividade dos autuados, mas não libera o nome.A fiscalização do órgão governamental é feita conforme o volume de efluentes de cada empresa. Até 20 metros cúbicos por dia é fiscalizada semestralmente, mais de 20 metros cúbicos/dia é mensal. São feitas coletas para análise da água: Ph, temperatura, DQO, presença de metais pesados.

    A poluição industrial chega diretamente ao Sinos, mas também deságua nele, através de pequenos cursos d’água como o arroio São Joaquim, Cruzinha, Portão, João Correia Pinto, Gauchinho, Pampa e outros nos quais várias empresas lançam seus efluentes. “As demandas cresceram exponencialmente e a capacidade do rio é a mesma, ou até inferior, porque ele tem menos água”, diz Muller.

    Maior desastre ambiental dos últimos 40 anos na Bacia do Rio dos Sinos matou peixes de 18 espécies | Fotos: Divulgação
    Maior desastre ambiental dos últimos 40 anos na Bacia do Rio dos Sinos matou peixes de 18 espécies | Fotos: Divulgação

    As seis empresas autuadas pela Fepam, entre 8 e 19 de outubro de 2006:

    1-Liminar concedida pela Pretora da 2ª Vara Civil de São Leopoldo em 19/10/06 – 14h:40 min
    (impedido de divulgar) – R$ 131.175,00
    2-Liminar concedida pelo Juiz de Direito Pela 3ª Vara Civel de São Leopoldo em 19/10/06 -14h:20min (impedido de divulgar)   – R$ 166.086,00
    3-U.T.R.E.S.A – União dos Trabalhadores em Resíduos de Estância Velha Estância Velha  R$ 463.386,00
    4-TRES PORTOS S/A – INDUSTRIA DE PAPEL Esteio  R$ 109.423,34
    5-GELITA DO BRASIL LTDA (curtimento de pele de porco, alta carga orgânica)  Estância Velha  R$ 158.604,00
    6- Liminar concedida pelo Juiz de Direito pela 3ª Vara Civel de São Leopoldo em 19/10/06 -14h:20min (impedido de divulgar) – R$ 188.432,00

    Valor total das multas  R$ 1.217.106,63

    Canoas e Campo Bom lideram a lista

    Dos 32 municípios que fazem parte da Bacia do Rio dos Sinos, apenas Glorinha e Caraá, onde se localiza a nascente, não têm empreendimentos autuados pela Fepam nos últimos dois anos. A lista é liderada por Canoas, que registra 57 empresas autuadas, a maior parte do setor de transporte rodoviário de produtos e ou resíduos perigosos.

    Em segundo lugar, está Campo Bom, que apresenta 38 companhias de diversos ramos multadas por cometerem irregularidades com prejuízos ao meio ambiente. São empresas como fábricas de calçados, de artefatos de plásticos, de produtos químicos, entre outras. A lista ainda tem Cachoeirinha (27 ocorrências), Gravataí (25 autuados), Portão e São Leopoldo (23 empresas multadas, cada), Novo Hamburgo (22 ocorrências), Estância Velha (16), Gramado (12), Esteio (10) e Santo Antônio da Patrulha (10).

    Curtumes e fábricas de calçado ainda são vilões

    Entre as atividades mais poluidoras que foram multadas pela Fepam entre 2004 e outubro de 2006 na Bacia do Rio dos Sinos, destaca-se o ramo coureiro-calçadista. As fábricas de calçado, componentes para calçados, acabamento em couro e curtume completo somam 39 empreendimentos autuados.

    Outros ramos também representativos são: comércio varejista de combustíveis (postos de gasolina), que somou 23 ocorrências; transporte rodoviário de produtos e ou resíduos perigosos (19); fábricas de artefatos de material plástico (16); fábricas de produtos químicos (10); e fábricas de artefatos de papel (7).

    Rio dos Sinos, vítima antiga

    A poluição do Rio dos Sinos pelas indústrias e as seguidas mortandades de peixes. Era exatamente este um dos temas de Henrique Luís Roessler há meio século, quando ele começou a publicar no Correio do Povo as suas crônicas, pioneiras do ambientalismo no Brasil.

    Sua atualidade é atestada pelas manchetes e as fotografias nos jornais dos nossos dias. Ele mostra como o Sinos, manancial que nasce cristalino e em cujas margens se desenvolveu a colonização alemã no Rio Grande do Sul, é uma vítima antiqüíssima do descaso.

    “Em 1924, quando se comemorou o centenário da Imigração Alemã, já havia 700 curtumes instalados junto à bacia dos Sinos”, diz o autor do livro. Em 1957, Roessler já denunciava a mortandade de peixes e denunciava as indústrias e prefeituras.

    O ecologista, segundo Centeno, atribuía a quatro fatores a degradação dos recursos naturais no Rio Grande do Sul: ineficiência do governo, o descaso dos políticos, atitude predatória dos empresários e a passividade da sociedade. “Todos esses fatores estão presentes nos acidentes ambientais de hoje”, diz Centeno. É sempre assim: “Quando acontece, há uma gritaria, as empresas pedem tempo e prometem resolver, depois o assunto cai no esquecimento, até acontecer de novo”, resume.

  • Copesul lança o projeto cultural Fronteiras do Pensamento

    Luiz Fernando Cirne Lima, superintendente da Copesul e Paul Kennedy, pensador norte-americano durante a coletiva de impensa que anunciou os convidados do projeto em 2007 (Foto: Fernanda Davoglio/ Divulgação)

    Helen Lopes

    A Copesul lançou na noite de terça-feira, 21, o seu projeto cultural 2007 – Fronteiras do Pensamento. Antes da palestra do historiador norte-americano Paul Kennedy – que esteve em Porto Alegre especialmente para a abertura do projeto – o superintendente da empresa, Luiz Fernando Cirne Lima, juntamente com o cienista-político Fernando Schüler, anunciou, no Salão de Atos da UFRGS, uma série de seminários com pensadores internacionais que acontecerá o longo do próximo ano, sempre as terças-feiras.

    Com Fronteiras do Pensamento, a Copesul pretende instigar o debate de temas contemporâneos, na perspectiva de que não há certezas absolutas. No vídeo de apresentação, o jornalista Paulo Markun falou de aspectos que inquietam a sociedade moderna e convidou a todos para “uma aventura intelectual”.  “Quais sãos os grandes desafios da democracia? Como gerar um capitalismo dinâmico que incentive a inovação e promova a justiça social? O que passa na arte e no cinema contemporâneo?”, instigou Markun.

    O projeto cultural Copesul 2007 se diferencia de todos os programas realizados pela empresa nos últimos anos. Além de trazer conferencias de todas as partes do mundo – 30 já estão confirmados –, Fronteiras do Pensamento valerá como curso de extensão universitária em quatro instituições do Estado (UFRGS, UERGS, Unisinos e PUCRS).

    Também serão produzidos quatro documentários, com 54 minutos cada, destinado a tevês educativas, universidades e espaços culturais, um livro de ensaios, com as palestras e os textos originais dos intelectuais convidados, e ainda quatro cadernos paradidáticos direcionados aos professores e aos estudantes do ensino médio.

    Conforme Schüler, a intenção é debater “temas de fronteira como estética, arte, pensamento e economia”.  “A vinda de Paul Kennedy, que é um pensador global, representa o que queremos: fazer uma discussão global”, anunciou o professor. O superintende da Copesul, Luiz Fernando Cirne Lima, apenas resumiu: “É um projeto ambicioso”.

    Entre os nomes aguardados para o Fronteiras do Pensamento estão: Bernard Henry Lévy, filósofo e jornalista, escritor de O século de Sartre, Michel Houellebecq, escritor de Partículas Elementares, que provocou polêmica na França em 1998; Pierre Lévy, filosofo e pesquisador da cibercultura e Jorge Casteñeda, historiador e chanceler mexicano entre 2000 e 2003.

    Serviço

    O seminário internacional Fronteiras do Pensamento será realizado entre os dias 20 de março e 4 de dezembro de 2007, em 22 conferências, sempre as terças-feiras. A organização informou que a programação  definitiva será apresentada em janeiro e que poderá sofrer alterações.

    Para participar dos encontros, os interessados devem adquirir um passaporte – no valor de R$ 500,00 – que dá direto há um ingresso por conferência.

    Onde adquirir o passaporte

    Livraria do Arvoredo
    Rua Félix da Cunha 1213 – Bairro Moinhos de Vento

    Livraria Bamboletras
    Centro Comercial Nova Olaria – Rua Gen. Lima e Silva 776, loja 03 – Bairro Cidade Baixa

    Loja do MARGS – Museu de Arte do Rio Grande do Sul
    Praça da Alfândega s/nº – Centro
    Central de Atendimento 51 3333.6475 – de segunda a sexta, das 9h às 18h.
    Através do site www.copesulcultural.com.bram

  • Encontro entre o passado e o presente da cerveja gaúcha

    Prédio será ocupado pela Dado Bier  (Fotos Edson Vara/Divulgação)

    Naira Hofmeister

    Era o único dos prédios projetados por Theodor Wiederspahn para a Cervejaria Bopp em 1910, ainda desocupado desde a inauguração do Shopping Total, em maio de 2003. Na construção funcionava o coração da cervejaria, pois eram nos três pavimentos – que totalizam 950m² – que tonéis, tanques e fermentadores fundiam malte, lúpulo e água para a produção da bebida. Em todo o prédio detalhes denotam a importância do local, como as imagens dos homens bebendo entalhadas nas grades ou a enorme escultura de Gambrinus, o deus da cerveja, que brinda com os visitantes na parte externa da construção.

    Depois de oito anos desativado, quando em 1998 a Brahma – que sucedeu as cervejarias Bopp, Continental e Ritter na produção local – fechou as portas, a construção reencontra sua vocação original através de uma parceria com a Dado Bier, que pretende implantar ali um restaurante temático. “É sem dúvida uma oportunidade única no mundo, pois estamos fundindo o passado e o presente da cerveja em Porto Alegre”, comemora Eduardo Bier Corrêa, proprietário da microcervejaria inaugurada há 11 anos.

    O edifício será ocupado por um bar-restaurante, com cozinha coordenada pelo Edevaldo Nunes, responsável pelo comando das cozinhas dos restaurantes Dado Bier. Além da metragem interna, outros 500m² de varanda serão ocupados pelo novo empreendimento, que deve custar cerca de dois milhões à cervejaria. Em julho de 2007 deve estar concluído. “Nos próximos 90 dias começaremos as obras”, garante Eduardo Bier Corrêa.

    Através de um resgate arquitetônico, o local vai servir como memorial da cerveja, contando a história da produção local da bebida e da relação do espaço com a população. Ao ser inaugurada, a Cervejaria Bopp foi considerada a mais vasta edificação de cimento armado do Brasil. Além do projeto do alemão Theodor Wiederspahn, que inclui uma torre, arcos e cúpulas, a fachada possui ornamentos e relevos executados pela equipe de escultores de João Vicente Friederichs.

    Detalhes arquitetônicos da fachada, como a torre e a escultura de Gambrinus

    A atividade de meio século que a Brahma desenvolveu no espaço levou o empresário a procurar a AmBev – Companhia de Bebidas da América, que absorveu a marca gaúcha,  para participar do projeto: “Seria inadequado esse lugar ser Dado Bier, se foi a Brahma que marcou história aqui”, lembra. A parceria, no entanto, ainda não foi oficializada.

    Em 1924, a Cervejaria Bopp – que funcionava desde 1911 – se tornou Cervejaria Continental, empresa constituída pela fusão das cervejarias Bopp Irmãos, Bernardo Sassen e filhos e sucessores de Henrique Ritter, tradicionais famílias cervejeiras, sendo na ocasião aumentada e dotada de modernos recursos técnicos. Em 1946, a Cervejaria Continental, então o maior grupo cervejeiro do Rio Grande do Sul, foi adquirida pela Brahma, permanecendo ativa até 1998.