Categoria: X.Categorias velhas

  • Câmara levanta mapa do livro

    Guilherme Kolling

    Um levantamento inédito da Câmara Riograndense do Livro vai revelar o número e a localização das livrarias no Rio Grande do Sul. A pesquisa deve ficar pronta em 2007.

    “O empresário terá um mapa completo, onde poderá ver as carências e as oportunidades em todo o Estado”, observa o presidente da Câmara do Livro, Waldir da Silveira. A falta de pontos de venda é uma das principais queixas de editores e distribuidores.

    A Câmara estima que dois terços dos municípios gaúchos não tenham livraria. “Isso acontece até em cidades com 100 mil pessoas, quando a Unesco recomenda uma livraria para cada 10 mil habitantes”, lembra Paulo Ledur, ex-presidente da CRL e diretor da AGE Editora.

    Se o interior sofre com a escassez, Porto Alegre vive outra realidade desde que começaram a chegar as grandes redes, como Saraiva, Siciliano, Porto e Cultura, que instalaram lojas imensas nos shopping centers da cidade. Uma conseqüência imediata foi o fechamento de diversas lojas pequenas. “É uma tendência perigosa que se observa no Brasil, pois afeta o ponto de venda e por conseqüência os editores”, lamenta Ledur.

    Ledur reclama da falta de pontos de venda no Estado (Foto: Guilherme Kolling/JÁ)

    Luis Gomes, editor da Sulina, não tem ilusões: “A tendência é que surjam mais dessas grandes livrarias. E a presença delas resulta na queda do livreiro de bairro, que terá cada vez menos espaço”. João Cervo, proprietário das livrarias Cervo e tesoureiro da CRL vai no mesmo tom: “As mega estão centralizando o mercado”.

    O presidente da Câmara do Livro, Waldir Silveira, procura relativizar o efeito: “Sempre existe um impacto com a chegada das grandes. Mas elas estão ocupando uma lacuna deixada no mercado pela quebra da Sulina, da Mercado Aberto e a crise da Globo”.

    “Pequeno tem que se especializar”

    “É pena que estejam fechando as livrarias de calçada em função das grandes cadeias porque, salvo exceção, o atendimento é muito ruim. Vendem sapatos ou livros do mesmo jeito”, lamenta João Carneiro, editor da Tomo Editorial.

    Ele acha que a tendência do consumidor é ir ao shopping e que “a livraria, como espaço de convivência, onde o livreiro orienta o cliente sobre as novidades,  infelizmente, está acabando”.

    O representante dos livreiros na Câmara Riograndense do Livro, Vitor Zandomeneghi, entende que a chegada das grandes empresas é um fenômeno natural do capitalismo. “A economia é movida por essas regras, busca-se ganho de escala, por isso essa onda de fusões, essa concentração”, avalia.
    Ele acha, no entanto, que há soluções e aponta o exemplo dos minimercados, que se mantiveram mesmo com a vinda de Carrefour, Sonae e Wall-Mart. “Os pequenos terão que se habituar à concorrência e resistir”.

    O diretor da L&PM, Paulo Lima, concorda que as grandes redes, salvo exceções como a Cultura, pecam no preparo do balconista. E vê nisso uma oportunidade para o pequeno, “que pode dar um atendimento personalizado”. “O livreiro precisa de uma identidade que o diferencie”, concorda Zandomeneghi. “É necessário desenvolver um nicho, atividades na loja, estreitar relacionamento com clientes, criar promoções”, sugere o diretor da Artes e Ofícios, Luís Fernando Araújo.

    “O filão do pequeno livreiro é a especialização”, repete o presidente da Câmara do Livro. “Tem que oferecer um bom serviço, com funcionários qualificados, que conhecem o livro, sabem falar das obras, como faz com sucesso o Rui, da Palmarinca. Ou ter um mix de atividades, como a Palavraria e a Livraria do Arvoredo”, exemplifica Silveira.

    “Aqui não tem Paulo Coelho”

    Naira Hofmeister

    O pequeno livreiro começa a buscar alternativas para competir com as megastores. Comprando grandes quantidades de livros, as redes ganham descontos que podem chegar a 60%, enquanto a livraria recebe entre 25% e 30%. Uma saída seria a Lei do Preço Fixo, como propõe a Associação Nacional dos Livreiros.

    Na Europa, a lei limita em 6% o desconto que pode ser dado a um lançamento, no primeiro ano. Aqui, enquanto a proposta não vira lei, a saída é se aproximar do cliente e resgatar a relação leitor-livreiro. “Quem tem prazer na leitura gosta de escolher com calma, ler trechos e discutir com alguém o conteúdo”, lembra Carlos Luiz da Silva, sócio da Palavraria, que já tem três anos na rua Vasco da Gama. A opinião dos livreiros é que esse leitor não vai à livraria de bairro atrás dos best sellers. “Aqui não tem Paulo Coelho. Se o cliente pede, eu encomendo, mas se colocar na estante, posso até me queimar”, revela Silva.

    Além de manter uma prateleira com títulos diferenciados, lançamentos, cursos e o café expresso se tornaram quase um imperativo para as casas de médio e pequeno porte. Foi isso que perceberam os proprietários de duas novas livrarias do Bom Fim. “Fizemos uma pesquisa com clientes e, mais do que ter um site, eles acham necessário o café e o espaço cultural”, relata Blásio Hickmann, que durante 25 anos manteve a Livraria Digital – especializada em informática – e agora aposta na diversificação do acervo, com a Letras & Cia, na avenida Osvaldo Aranha.

    Natalie Illanes Nogueira veio de São Paulo com dois amigos para abrir a Zouk, uma loja onde os clientes encontram “livros renegados pelas grandes livrarias”. Durante a reforma da casa na rua Garibaldi, ela conta que foram tantos os pedidos para que a livraria tivesse um café que não viu alternativa. “Apesar disso, é raríssimo alguém entrar aqui só para isso”.

    Ventura busca saída na internet

    O fim de 2006 deve marcar o encerramento das atividades de mais uma livraria no centro de Porto Alegre. Desta vez é a Ventura, que há quatro anos funciona numa loja alugada na Marechal Floriano Peixoto, 489. O atendimento à clientela será mantido por telefone e Internet. “Vou ter um custo cinco vezes menor e manter 70% da clientela”, diz o proprietário Gustavo Ventura, o Gus. “A geração que renovaria as vendas de balcão é internauta, usa muito o computador. A partir do acervo virtual estou atingindo gente da Paraíba, por exemplo, que jamais viria até a loja comprar”.

    Com 13 anos de experiência no mercado livreiro da capital, Gustavo vê a figura do livreiro se tornando anacrônica, como o amolador de facas. “Não há mais a relação afetiva com o espaço da livraria, nem com o proprietário”. Mesmo assim, ele espera que a solução virtual seja temporária e que com os resultados possa voltar ao que realmente gosta – a atividade no balcão em meio às prateleiras de livros e em contato com os clientes. “É uma estratégia para enfrentar um momento de crise”, diz. “Pretendo usar a ferramenta da Internet para sustentar o projeto do balcão, do perfil da Ventura, da constituição de um acervo de bons títulos, independente de preço”.

    Ventura: recuo estratégico na livraria (Foto: Naira Hofmeister/JÁ)

    Ao serem informados da crise, alguns clientes tradicionais tentaram reagir. Um deles despachou um e-mail com um apelo no melhor estilo S.O.S, pedindo aos amigos que fossem até o balcão comprar os títulos que pudessem para salvar a Ventura. “Aquela livraria com iluminação discreta, silenciosa, que só tinha livros e não nos entupia com badulaques de papelaria. Dava para ficar em silêncio, para sentar num banquinho e ler. Suspendia o tempo”.

    Gustavo recebeu muitos telefonemas e manifestações de apoio, mas nada que pudesse reverter a situação. Parte do acervo, cerca de 3 mil títulos, já estão no site www.estantevirtual.com.br.

    Prosa i Verso fechou as portas

    Outro exemplo das dificuldades dos pequenos é a Prosa i Verso, livraria de 23 anos que fechou as portas em outubro. Referência para fãs de literatura, o espaço foi homenageado com um texto de Luis Fernando Verissimo na inauguração. Ainda que a proprietária Sara Turkenitch sublinhe que a decisão foi resultado da vida pessoal e não do mercado, ela admite que está mais difícil manter uma livraria. “A entrada da Saraiva até não prejudicou muito, mas depois que a Cultura chegou nós sentimos, porque lá virou um point”. A instalação da Siciliano no shopping Moinhos também dividiu a clientela da Prosa i Verso.

    Gilberto Tarakdian, proprietário da Rogil Livraria, também foi atingido pelas novas megastores. Ele chegou a ter três filiais, todas com grandes espaços. Hoje opera num espaço pequeno no Centro Comercial Bom Fim. “A gente tinha uma loja na 24 Outubro que ia bem, mas com a construção do shopping Moinhos, fomos obrigados a fechar”, lembra. Os livreiros concordam em um outro ponto: a época áurea da venda de livros na Capital foi o início dos anos 90. Mas da segunda metade em diante, os clientes começaram a sumir. Sara acredita que não é um caso isolado. “Não conheço segmento isento da crise”.

    Sebos também reclamam

    Mesmo os donos de sebos – que trabalham com faixas de preço inferiores ou com títulos esgotados – reclamam da queda nas vendas. Mas a culpa não recai sobre as grandes redes. “Há espaço para todos no mercado”, garante Neiva Maria Piccinini, sócia do Beco dos Livros, que mantém 6 lojas no centro de Porto Alegre. No caso dos usados, o problema é a renovação da clientela. Os antigos consumidores estão morrendo e os jovens não adquiriram o hábito de freqüentar sebos. “Não sei onde foram parar os velhinhos poliglotas que levavam livros em três ou quatro idiomas”, lamenta Eduardo Luizelli, proprietário da Livraria Aurora, que chegou a ter quatro lojas no auge dos seus 50 anos.

    Hoje, afogado nos 150 mil volumes da loja que restou, Luizelli planeja a aposentadoria. Gustavo Venura, que também vende usados, diz que o principal público – universitário – tem pouco tempo para ir até o Centro. Prevendo o problema, Carmem Menezes implantou em 1998 o site A Traça, que comercializa usados pela Internet. “No início era devagar, mas hoje vendemos diariamente e somos conhecidos nacionalmente”. A tendência, na opinião dos livreiros, é que o mercado virtual cresça ainda mais. Mas é pouco provável que os sebos acabem. “A maioria dos clientes que entra aqui gosta de ficar com as mãos sujas de pó, procurando o livro que quer”, observa Neiva.

  • Moradores fazem abaixo-assinado contra terminal de ônibus na Cidade Baixa

    A Associação dos Moradores da Cidade Baixa está se mobilizando contra a instalação de um terminal de ônibus no Largo Zumbi dos Palmares, como prevê o projeto Portais da Cidade, apresentado no mês passado pela Prefeitura de Porto Alegre.

    Há três semanas, a comunidade iniciou um abaixo-assinado e busca, através do Conselho do Plano Diretor, uma reunião com o secretário de Gestão e Acompanhamento Estratégico, Clóvis Magalhães, para saber mais detalhes da proposta, que estabelece a construção de mais dois terminais – Cairu e Azenha – com o objetivo de diminuir o fluxo no Centro da Capital.

    De acordo com a vice-presidente da Associação, Kira Zanol, os moradores do bairro não foram ouvidos na elaboração do projeto. “Não houve discussão, essa proposta caiu de pára-quedas”, reclama.

    Além do tumulto noturno dos bares, que tomaram a Cidade Baixa nos últimos anos, a moradora prevê maior movimento durante o dia, aumento da violência e desvalorização do bairro. “Junto com o terminal virão os camelôs, os trombadinhas, a poluição sonora e atmosférica”, entende.

    Moradora iniciou a mobilização

    A moradora Ana Lúcia Lucas teve a iniciativa e montou uma “barraca” no meio da feira Modelo, que acontece as terças-feiras no Largo. Munida de uma faixa improvisada, um banquinho e duas caixas de fruta, que servem de mesa, e algumas laranjas para segurar as folhas, Ana Lúcia ataca todos que passam pela feira para falar do terminal.

    Aos sábados, ela e outra vizinha, utilizam o capô da caminhonete de um dos feirantes para arrecadar as assinaturas. O abaixo-assinado também foi distribuído nos prédios e no comércio do bairro.

    Segundo a Ana Lúcia, já são mais de 4 mil assinaturas. “Toda a comunidade é contra. Não queremos que a feira saia daqui, nem que transformem esse local num terminal de ônibus”, diz a moradora.

    Feirantes não querem deixar o Largo

    Os feirantes do Mercadão do Produtor e da Feira Modelo, realizados no Largo aos sábados e as terças-feiras respectivamente, também são contra o projeto, mas não estão se mobilizando por medo de retaliações da administração municipal.

    “Dependemos da licença da Prefeitura, por isso não podemos agir contra, mas o ideal seria ficar no local, porque tem estacionamento e fácil acesso aos ônibus”, diz Antônio Fonseca, presidente da Associação dos Usuários dos Mercadões da Ceasa, entidade representativa dos feirantes.

    A Prefeitura pretende transferir as feiras para a rua da República, entre a João Alfredo e a Praia de Belas, mas os comerciantes não aprovam a idéia. “As vendas devem diminuir de 20% a 30% com a mudança, porque na República o acesso é mais difícil e não estaremos à vista da população”, prevê Fonseca, que trabalha há 20 anos na feira de sábado.

    Mais de 80 feirantes participam das feiras da Epatur. Cerca de 50 aos sábados, dos quais 30% são pequenos produtores, e 30 nas terças-feiras. A feira de sábado, chamada de Mercadão do Produtor, é uma das mais antigas da cidade, funciona desde 13 de outubro de 1982.

  • Mais títulos, menos vendas

    Em 2005 foram vendidos 18 milhões de exemplares a menos que em 2004 (Foto: Carla Ruas/Arquivo JÁ Editores)

    Guilherme Kolling

    Desde 1990, a Câmara Brasileira do Livro (CBL) promove a pesquisa “Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro”. As informações mais recentes mostram uma tendência curiosa. O número de títulos lançados aumentou, mas a venda de livros caiu. Em 2004, foram 34.858 livros em primeira edição e reedição, contra 41 mil em 2005. Mas as vendas, que chegaram a 288 milhões de unidades em 2004 baixaram para 270 milhões no ano passado.

    “Trata-se de um fenômeno mundial. E o antídoto utilizado pelos editores é diversificar o número de títulos, atendendo ao mercado consumidor e aos autores. Escreve-se cada vez mais e os meios de produção facilitaram a publicação”, observa Paulo Ledur, diretor da AGE Editora.

    Para o editor da Sulina, Luis Gomes, a queda nas vendas se explica pela baixa qualidade do conteúdo. “Aumentou muito a quantidade de livros técnico-científicos. As pessoas têm vontade de publicar e as editoras aceitam, mas com menos cuidados e critérios do que seria desejável. Nos livros de ficção também há uma oferta muito grande”, avalia.

    O diretor da Artes e Ofícios, Luís Fernando Araújo, diz que a explicação é a demanda por novidades. “O mercado está na mão das grandes redes do varejo e elas impõem a compra, sob consiganção, somente de novidades, ou seja, o que já foi lançado há quatro ou seis meses já era. O sistema montado impõe que se lancem livros. Mas aumentar o número de publicações não significa que o brasileiro está lendo mais”.

    Independente da qualidade editorial, a avaliação de que há, no declínio das vendas, grande influência da questão econômica é unanimdade. O empresário João Cervo, proprietário da Cervo, uma rede com oito livrarias, afirma que a queda não está relacionada à falta de interesse ou ao preço do livro, mas sim ao baixo poder aquisitivo da população, que gasta em outras necessidades. “O consumidor acaba tendo que fazer escolhas, a começar pelo lazer. Vai gastar R$ 40 num livro ou em cerveja, cinema?”, exemplifica Luis Gomes.

    “A crise econômica do Estado é um fator determinante na queda das compras de livro”, observa ele. O presidente da Câmara do Livro, que distribui para editoras de obras didáticas sabe bem disso. “Os problemas da agricultura gaúcha se refletem diretamente na compra até do livro escolar. A crise do setor calçadista, a pobreza da Metade Sul, tudo isso atrapalha”, aponta.

    O propreitário da livraria Terceiro Mundo e representante dos livreiros na CRL, Vitor Zandomeneghi, cita outro componente. A disputa com outras mídias, como internet. “As pessoas continuam lendo, só que não necessariamente o livro”, acredita. Apesar de concordar que o item é dos primeiros a serem cortados no orçamento familiar, ele cita a tendência mundial de diminuição do impresso.

    “Livros e jornais não estão muito mais caros. Mas as vendas e as tiragens continuam caindo. Além disso, o Brasil não tem um mercado consumidor de livros forte. Uma grande fatia da população, independente de classe social, não tem o hábito da leitura”, ressalta Zandomeneghi.

    Apesar da queda nas vendas de 18 milhões de exemplares na comparação entre 2004 e 2005, o faturamento aumentou no ano passado. “Com a diversificação dos títulos, as tiragens ficam menores e o preço unitário do livro aumenta. Isso é inevitável em qualquer processo produtivo. Mas ainda assim, convertendo o preço para dólar, o livro brasileiro é até barato”, acredita Paulo Ledur.

    * Pesquisa realizada todos os anos desde 1990 que fornece um completo panorama da indústria do livro brasileira. São os mais confiáveis dos dados disponíveis sobre a quantidade de títulos e exemplares produzidos no Brasil. É patrocinada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL).

    Na contramão, L&PM registra crescimento

    Na avaliação do diretor da L&PM, Paulo Lima, a queda na venda de livros tem uma razão simples: preço alto e baixo poder de compra da população. Ou seja, a saída é vender livro barato, mas essa solução esbarra num hábito arraigado. “O editor brasileiro gosta de livro caro. E o livreiro brasileiro também. Acha que vai ganhar mais. Não percebe que o poder aquisitivo é baixo”, constata Lima. Prova de que esse não é o caminho é a própria L&PM, que vem crescendo em suas vendas de 20% a 35% por causa da coleção pocket, que tem preços acessíveis, cerca de um terço do preço do livro convencional. A oferta é a partir de R$ 6 e vai até por R$ 24, mas nesses casos, são livros com centenas de páginas. Os pockets representam 85% das vendas da L&PM.

    Paulo Lima: mais de 6 milhões de pockets vendidos (Foto: Tânia Meinerz/Arquivo JÁ Editores)

    Além do preço baixo, a estratégia da editora inclui a diversificação na distribuição, com a abertura de novos canais de venda, como supermercado, padaria, posto de gasolina. São 3 mil pontos de venda em todo Brasil. Se deixasse só em livrarias, esse número seria um terço disso.

    “A questão do preço é muito importante. A redução do mercado aconteceu de fato. Mas não afetou a L&PM”, garante Lima. A editora lançou 80 pockets em 2006 e 12 livros convencionais. Ano que vem projeta 100 pockets e 40 livros. Já tem mais de 6 milhões de pockets vendidos desde 1997.

    Leia mais sobre o assunto

    Crise financeira do Estado afeta setor livreiro

  • Uma marcha, muitas histórias

    Caminha começou por volta das 7h na BR-290 (Foto: Daniel Cassol/Divulgação)

    Helen Lopes

    O sol estava nascendo na manhã do Feriado de 15 de novembro, quando mais de 500 integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) – cerca de 100 crianças – começaram uma caminhada rumo ao trevo de Charqueadas, na BR-290 com a RS-401, última parada antes do destino final: a fazenda Cabanha Dragão, em Eldorado do Sul.

    O MST saiu do Km-139 da BR-290, no município de Arroio dos Ratos, por volta das 7h da manhã. A reportagem do JÁ encontrou os sem-terra às 8h30. Nessa hora e meia, já tinham percorrido quase dois dos oito quilômetros previstos. Quem passava na estrada identificava a mobilização a partir de uma carroça com a bandeira vermelha do Movimento.

    Um carro de som dava o ritmo da mobilização. “Estão cansados?”, pergunta uma das coordenadoras. “Não”, gritam os sem-terra, organizados em duas fileiras no acostamento da via. Alguns metros adiante, o carro da polícia rodoviária desvia o trânsito.

    A caminhada segue em ritmo rápido, apesar dos rostos marcados pelo sol, testas franzidas, suor escorrendo e pés marrons de poeira. Às vezes se houve apenas o barulho do arrastar dos chinelos ou uma foice roçando no asfalto, em outros momentos, palavras de ordem.

    Nesse meio tempo, Ana Hanauer e Mauro Cibulski, coordenadores estaduais do MST, explicam à imprensa o porquê da mobilização. A reivindicação é que o Governo Federal cumpra a meta estabelecida pelo Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) de assentar 1.070 famílias em 2006. Há menos de dois meses do final do ano, apenas 98 famílias foram assentadas no Estado.

    “Também pedimos a liberação de R$ 2,4 milhões, repassados da União ao Governo do Estado, que nos últimos quatro anos não assentou nenhuma família”, afirma Mauro. Em Eldorado do Sul, o MST quer a desapropriação da Fazenda Dragão, de 760 hectares.

    Propriedade de um jordaniano, que está envolvido num inquérito policial por tráfico de droga, a área chegou a ser vistoriada, mas como o MST ocupou a fazenda em junho de 2005, a vistoria foi suspensa pelo Tribunal Regional Federal da 4a Região (TRF), com base na lei que impede a desapropriação de áreas ocupadas pelos sem-terra.

    “Esse local serve ao crime organizado e à lavagem de dinheiro do tráfico. Deveria beneficiar dezenas de famílias”, diz Ana Hanauer, lembrando que a mídia negligencia essa parte da história. “Não esperamos outra posição, pois a imprensa é financiada pelo grande capital, só enxerga nossos pontos negativos. Temos problemas, sim e são muitos, mas temos também muitas coisas que dão certo”, sustenta Ana, natural de Roque Gonzáles, que está há 10 anos no Movimento.

    Ao chegar na beira da estrada, em menos de uma hora as  barracas estavam quase prontos (Foto: Helen Lopes/JÁ)

    Após três horas e meia de caminhada, às 10h30, o grupo chega ao destino e começa levantar acampamento – o material já estava lá, fora levado por caminhão. Em menos de uma hora, as barracas estão quase montadas, um poço começa a ser limpo e o almoço preparado. Ana passa instruções aos colonos, que vêm de três acampamentos – Nova Santa Rita, Charqueadas e Arroio dos Ratos –, indicando o ponto em que cada grupo vai se instalar.

    Os coordenadores do MST anunciam que ficam por tempo indeterminado na beira da estrada do trevo de Charqueadas, mas uma das integrantes do setor de alimentação dá a dica. “Temos comida para mais ou menos uma semana”.

    Ao fundo, os fardos de arroz, farinha e feijão (Foto: Helen Lopes/JÁ)

    A pedagoga que virou professora do MST

    Integrada à marcha, encontramos a pedagoga Julia, professora da rede estadual em Mato Grosso. Aos 42 anos, ela decidiu mudar de vida e passou a educar os filhos dos sem-terra no Rio Grande, seu estado natal. Depois de criar os dois filhos homens, ela e o marido partiram em busca da “realização pessoal”. Ela garante que a família apóia. “Entendem que o importante é que eu esteja feliz”, conta.

    Julia explica que “sempre sentiu uma inquietação, queria ajudar a construir a conscientização coletiva”. Para isso, acha que o ensino é o melhor meio. Há oito meses no Movimento, ela educa 50 crianças na Escola Itinerante do acampamento de Nova Santa Rita, região metropolitana de Porto Alegre. “Trabalhamos com os elementos do cotidiano delas na alfabetização e nas primeiras noções de matemática. Método reconhecido pelo MEC [Ministério da Educação]”, destaca.

    Realização pessoal: Julia educa 50 crianças da Escola Itinerante (Foto: Helen Lopes/JÁ)

    Na mobilização do dia 15, Julia acompanhava os pequenos que vinham nas carroças no final da marcha – parte das crianças eram levadas no colo ou caminhavam com os pais. Sob calor intenso, ela revezava as garrafas d’água entre elas. Volta e meia, dois homens passavam com um galão de água do poço, trazida do acampamento de Arroio dos Ratos. Era o único refresco ao calor.

    Paulo Índio deixou o campo e entrou no Movimento

    Em frente às carroças das crianças, um homem aparentando 40 anos leva um menino nos ombros. Ele observa um riacho que cruza a estrada e não resiste ao comentário: “Deve ter uns baita peixe aí”, fala para o amigo. Como a marcha já se aproxima do entroncamento de Charqueadas, os homens deixam a pescaria prá lá.

    Um deles era Paulo Roberto, ou Paulo Índio, como é conhecido. A história dele coincide com a de grande parte dos integrantes do MST. Filho de pequenos agricultores que trabalhavam em uma fazenda na região de São Borja, ele e os irmãos ficaram sem nada quando os pais morreram. Decidiram sair do campo.

    Em três horas e meia de caminhada, MST chega ao trevo de Charqueadas (Foto: Daniel Cassol /Divulgação)

    Na cidade, com pouco estudo e nenhuma qualificação para atividades urbanas, acabaram desempregados e foram morar na favela. “Aquilo não era vida”, recorda. Nessa época, Paulo Índio resolveu se juntar ao MST para reivindicar um pedaço de terra que considera de direito, já que os pais trabalharam a vida inteira no campo.

    Há quatro anos e sete meses nos acampamentos do MST, ele diz que recuperou a dignidade e a esperança. “Sonhar é tudo. Dá motivação, um objetivo… Estou preparado para lidar na minha terra, já tenho um cavalo, uma carroça e ferramentas”, conta entusiasmado. Paulo também sente orgulho dos animais que cria com as outras famílias sem-terra, num dos núcleos do acampamento de Arroio dos Ratos, ponto de partida da marcha na segunda-feira, 13 de novembro. “Lá tem galinha e porco”.

    Isolde: Da fábrica para de volta para  lavoura

    Assim como Paulo Ìndio, Isolde teve que sair do interior para buscar colocação na cidade. Ela não tentou a Capital, ficou por Sapiranga mesmo, município onde nasceu. “Trabalhava na indústria, repetia todo dia a mesma coisa. Não era o que gostava, nem o que sabia fazer”, conta.

    Isolde: entre um chimarrão e outro, dê olho na construção das barracas (Foto: Helen Lopes/JÁ)

    Com o marido e três filhos, Isolde está há três anos e 10 meses no MST. Ela é uma das responsáveis pelo setor de infra-estrutura. Nessa função, não tem cotidiano. Ao chegar no destino da marcha, organizada, Isolde indica quantas são e onde devem ser montadas as barracas. Depois, acompanha a “construção” das moradias provisórias. “Vamos montar 10 barracas aqui na beira da estrada. Esse local é bom, tem sombra e um poço”, explica.

    Poço antigo fornecerá água para o acampamento provisório (Foto: Helen Lopes/JÁ)

    Estudantes da UFRGS apóiam Reforma Agrária

    Cerca de 30 estudantes de vários cursos da UFRGS montaram um grupo de apoio à Reforma Agrária, o Garra. A iniciativa surgiu a partir da crítica ao projeto de extensão da Universidade. “Era superficial, conhecíamos a realidade, mas não interagíamos com ela”, conta Eduardo Ruppental, de 25 anos, filho de pequenos agricultores de Lajeado e estudante de Biologia.

    Os acadêmicos montaram um seminário com representantes do MST e professores, para começar a conhecer o Movimento, depois, fizeram um estágio de vivência de 15 dias no assentamento de Nova Santa Rita e hoje acompanham os sem-terra nas atividades. Ajudam na construção das casas dos assentamentos, ensinam a fazer viveiros, a instalar as fossas e a fazer os poços.

    Eduardo: “aprendemos com a experiência de vida deles” (Foto: Helen Lopes/JÁ)

    “Na verdade, aprendemos muito mais do que ensinamos, é uma troca de conhecimento. Nos assentamentos, pedimos para que cada um desenhe como imagina seu lote e depois, vamos indicando onde é melhor colocar a fossa, por exemplo”, conta.

    Além da orientação, os alunos estão tentando montar uma feira ecológica no Campus do Vale, só com produtos dos assentamentos. Algumas edições já foram realizadas, mas o bar do Campus reclama da concorrência. “Os colegas gostam, sai tudo que levamos”, comemora Ruppental.

    Quando conseguem, as feiras acontecem nas quartas-feiras, das 10h às 16h. Também participam do Garra acadêmicos de Veterinária, Ciências Sociais, Jornalismo, entre outros cursos.

    Húngaro pesquisa MST

    O antropólogo húngaro Gábor Halmai, de Budapeste, está no Estado há um mês para conhecer as práticas dos movimentos sociais brasileiros contra o neoliberalismo. O pesquisador explica que sua tese de doutorado busca identificar semelhanças e diferenças entre as manifestações latino-americanas e as da Europa ocidental.

  • Crise financeira do Estado afeta setor livreiro

    Governo não compra livros há anos – bibliotecas públicas estão defasadas (Foto: Divulgação)

    Guilherme Kolling *

    O declínio nas vendas do mercado livreiro é um fenômeno nacional, mas no Rio Grande do Sul o quadro é agravado pela crise financeira que afeta o Estado há três décadas.

    O principal efeito deste déficit crônico nas contas do poder público estadual é o sucateamento e defasagem das bibliotecas públicas.

    “São 15 anos sem um programa de compra de livro. A Biblioteca Pública não adquire exemplares novos há mais de 20 anos. Imagine como estão os acervos das nossas escolas”, alerta o presidente da Câmara do Livro, Waldir da Silveira.

    A queixa ecoa entre diversos editores. “O Estado está falido e não investe. Nossa editora tem 15 anos. Já vendemos para diversos governos, mas de outros estados, como São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso, Paraná”, conta Luís Fernando Araújo, diretor da Artes e Ofícios.

    “O Governo não tem fomentado a leitura e o mercado se ressente disso”, avalia João Carneiro, da Tomo Editorial. Os editores observam que a compra governamental é um fator importante nas vendas e no preço do livro, que depende do tamanho da edição.

    Ou seja, se a comercialização de parte da tiragem está garantida, é possível imprimir mais exemplares a um custo unitário mais barato para o leitor. “Aqui não há esse agente”, resume Carneiro.

    O exemplo vem de outros países. “O Brasil nunca teve uma política de compra de livros. Mas na França, só para dar um exemplo, a venda de boa parte das edições dos livros está garantida por universidades e bibliotecas”, compara Luis Gomes, editor da Sulina.

    O diretor da AGE Editora, Paulo Ledur, cita o caso dos Estados Unidos. “Lá, as bibliotecas representam 60% do mercado editorial. Temos 3 mil escolas públicas no Rio Grande do Sul. Só esse número já supera a tiragem tradicional dos livros aqui editados. E no Brasil, as bibliotecas representam 10% do mercado. A lógica seria o contrário, já que se trata de um país carente, em que o livro deveria estar disponível em acervos públicos”.

    Última compra foi feita por Britto

    O diretor da L&PM, Paulo Lima, lembra que a última aquisição feita pelo Palácio Piratini foi na gestão de Antônio Britto, numa ação isolada que ocorreu por conta de um embaraço que o governador passou.

    Ao visitar em Cruz Alta a biblioteca de uma escola chamada Erico Verissimo, ele pediu, em meio aos alunos, que a diretora lhe entregasse um determinado livro do escritor. Não havia nem um exemplar. Britto solicitou então que lhe alcançassem qualquer obra de Erico. Mas não tinha uma sequer, informou, encabulada, a executiva do colégio.

    O fato irritou o ex-governador, que imediatamente criou na Secretaria da Educação o Projeto “Estante do Autor Gaúcho”, em que escolas públicas estaduais recebiam de 30 a 60 exemplares de livros da literatura sul-riograndense. Desde então, não houve novas aquisições.

    Questionada se vai acabar com esse jejum, a governadora eleita Yeda Crusius respondeu que a distribuição de livros é sempre feita por financiamento do Governo Federal. Ela pretende exigir de Brasília a continuidade do projeto “Uma biblioteca em cada escola”. Sobre a aquisição de livros pelo Estado, Yeda informa que, “enquanto o Governo não tiver recursos próprios, terá que se valer de parcerias”.

    RS perde terreno

    A Câmara Riograndense do Livro divulgou durante a Feira uma pesquisa sobre os hábitos de leitura da população gaúcha. A pesquisa feita pelo Ibope e preparada pelo Centro Regional para o Fomento do Livro na América Latina e no Caribe apontou que o Rio Grande do Sul lê três vezes mais que o resto do país.

    Enquanto a taxa nacional é de 1,8 livro por ano, no Estado, esse número cresce para 5,5. Estudos semelhantes na América Latina indicam que o índice de leitura no continente é de 2,4 livros ao ano.

    Foram aplicados 1.008 questionários em 60 dos 496 municípios gaúchos. A amostragem foi definida através de cotas sociais estipuladas pelo IBGE, como a repartição entre homens e mulheres, grau de instrução, idade e renda familiar. O intervalo de confiança estimado é de 95% e a margem de erro máxima é de 3 pontos percentuais, para mais ou para menos.

    Outra pesquisa apresentada ao longo do evento foi a de alfabetismo funcional. Apenas 30% da população do Estado consegue ler um texto e identificar o conteúdo. No Brasil, esse índice é de 25%. Apesar dos resultados positivos em nível de país, editores contam que o Rio Grande do Sul está perdendo posições por conta da falta de aquisição de livros do Governo e do sucateamento das bibliotecas.

    “Sempre fomos o terceiro pólo livreiro no Brasil. Mas hoje devemos ser o sexto. Minas Gerais, Paraná, Distrito Federal e sabe-se lá quem mais já nos passaram”, avalia o diretor da Artes e Ofícios, Luís Fernando Araújo.

    O diretor da L&PM, Paulo Lima, concorda. “O gaúcho se vangloria de seu nível de leitura, mas esse índice começou a cair de forma vertiginosa. É um reflexo do desabastecimento de livros em escolas e bibliotecas”. Seu sócio na editora, Ivan Pinheiro Machado, completa o depoimento. “Quando distribuo um livro aqui no Rio Grande do Sul, sei que metade vai voltar, não vende. Mas se encaminho para São Paulo, logo estão me pedindo um novo repasse”.

    “Bibliotecas públicas estão num atoleiro”

    Em 2003, quando Germano Rigotto assumiu no Palácio Piratini, houve uma tentativa do Clube dos Editores do Rio Grande do Sul, Câmara Riograndense do Livro e Associação dos Representantes de Editoras do RS de convencer o Governo do Estado a comprar livros para escolas públicas.

    A idéia era que a aquisição acontecesse através de financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento. A proposta esbarrou no endividamento do Estado, sem condições de obter novos financiamentos. O Governo adiou por mais algumas temporadas o aparelhamento das bibliotecas.

    Para 2007, a Câmara Riograndense do Livro terá um novo instrumento para pressionar o Governo. Trata-se de uma pesquisa que vai mapear e diagnosticar a situação das bibliotecas públicas e comunitárias em todo Rio Grande.

    Esse “Raio-X” deve ficar pronto até o final do ano. “A idéia é ir nas autoridades e mostrar essa situação. Temos que tirar as bibliotecas gaúchas do atoleiro”, propõe o presidente da Câmara Riograndense do Livro, Waldir da Silveira.

    O editor da Tomo, João Carneiro, que faz parte da diretoria da CRL, entende que a saída é mobilizar a sociedade para que as bibliotecas públicas e comunitárias sejam encaradas como um lugar de formação de leitores.

    “São locais de difusão do conhecimento. Cada município precisa de um espaço bem equipado, com profissionais capacitados e verbas para custeio, isto é, para compra de livros. É um processo que vamos desencadear no início do ano que vem”, projeta Carneiro.

    Um dos argumentos que será exposto ao novo Governo é a constatação, obtida na pesquisa feita pelo Ibope, de que a maior parte da população lê livros emprestados. Um terço dos entrevistados busca livros em bibliotecas e outro terço pede emprestado a amigos ou conhecidos. Apenas 32% do universo pesquisado vai às compras.

    Outra informação importante é que as bibliotecas são uma referência importante, principalmente para jovens leitores: 35% dos gaúchos costumam freqüentar bibliotecas. O número mais que duplica quando o universo é reduzido à população com menos idade: entre 11 e 15 anos, 86% utilizam o serviço de empréstimo de livros.

    A Câmara do Livro defende a popularização da biblioteca a partir da criação de pequenas salas de leitura e empréstimo de livros, seja em sindicatos, igrejas, condomínios. “Não adianta esperarmos por grandes prédios que têm alto custo, qualquer espaço pode receber uma biblioteca comunitária”, sustenta o presidente da entidade, Waldir da Silveira.

    * Colaborou Naira Hofmeister

    Leia mais sobre o assunto

    Mais títulos, menos vendas

    Na contramão, L&PM registra crescimento

  • Efluentes dos estabelecimentos de saúde de Porto Alegre são despejados sem tratamento

    Ana Luiza Leal, especial para o JÁ

    João mora há 25 anos na orla do Guaíba, em uma casa construída dentro do terreno do clube Veleiros do Sul, onde trabalha como porteiro. O local é limite entre os bairros Cristal e Vila Assunção, em Porto Alegre. Exatamente embaixo da casa, ele encontrou uma tubulação que despeja efluentes fétidos diariamente, das 22h à meia-noite. Para o consultor ambiental do clube náutico, Israel Barcellos de Abreu, o despejo é feito por condomínios da região e pelo Hospital da Brigada Militar (HBM), que lança efluentes in natura no Guaíba.

    O HBM não é exceção. Nenhum estabelecimento de saúde da cidade trata seu esgoto, embora a legislação seja clara: “Os efluentes de hospitais e outros estabelecimentos, nos quais haja despejos infectados por microorganismos patogênicos, deverão sofrer tratamentos especiais independente de seu número de coliformes” (artigo 5º do Decreto Municipal 12.961/2000).

    E ainda: Os resíduos líquidos provenientes de esgoto e de águas servidas de estabelecimento de saúde devem ser tratados antes do lançamento no corpo receptor ou na rede coletora de esgoto, sempre que não houver sistema de tratamento de esgoto coletivo atendendo a área onde está localizado o serviço (Resolução RDC Anvisa nº 306/2004).

    O AmbienteJÁ perguntou para Secretaria de Meio Ambiente de Porto Alegre (Smam), órgão fiscalizador dos efluentes hospitalares, e para o Departamento Municipal de Águas e Esgotos (DMAE) quais hospitais estariam obrigados a realizar o tratamento, já que somente 27% do esgoto em Porto Alegre são tratados. O primeiro disse não ter a informação e pediu para que a reportagem entrasse em contato com o segundo, que seria o responsável pelo “mapeamento”. O DMAE afirmou que nunca existiu mapeamento e que a questão cabe somente à Smam – “responsável por emitir as licenças ambientais dos hospitais”. Fica a impressão de que se a Smam quisesse começar a multar amanhã, não saberia quem precisa e quem não precisa tratar seus efluentes.

    Segundo o porteiro João, a poluição na área piorou com os anos. “Quando cheguei, pescava peixes enormes. Você nem acreditava na beleza que era isso aqui. Hoje, o cheiro é horrível. Às vezes a coloração da água que vem do cano é vermelha. O pessoal do clube já denunciou várias vezes, mas nunca tomam uma providência”, comenta.

    Peso na consciência

    O diretor administrativo do HBM, Major Freitas, confirma que a casa de saúde não possui estação de tratamento de esgoto (ETE). Disse desconhecer o destino final dos efluentes do hospital. “Sabemos sobre o dano provocado. Contudo, as verbas para as obras serão discutidas apenas em fevereiro”, afirma.

    O mesmo sentimento de peso da consciência foi manifestado pela chefe do setor de higienização do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Ana Helena Ramalho. Quando perguntada sobre o cumprimento da legislação, suspirou e disse: “Não tratamos, infelizmente. E não há previsão para tratarmos, os custos são elevados”.

    O clima de pesar chegou até a Smam. O secretário-adjunto da pasta, Walter Koch, também reconhece a importância do tratamento. Em sua opinião, a legislação sobre o tema é boa – o problema estaria justamente na cobrança e conseqüente penalização dos estabelecimentos de saúde: “É inviável fechar um hospital por ele não estar cumprindo com esse tipo de norma ambiental. E ainda há a carência de espaço físico e de recursos na saúde. Os hospitais do município deveriam ser exemplo, mas não se faz investimento nesse tipo de questão. Só se apaga incêndio”.

    A discussão acerca dos efluentes tomou corpo a partir de 2004, com a publicação da última normatização da Anvisa sobre resíduos hospitalares. O AmbienteJÁ perguntou para Smam e para Departamento Municipal de Águas e Esgotos (DMAE) quais hospitais estariam obrigados a realizar o tratamento, já que somente 27% do esgoto em Porto Alegre são tratados. O foco dos trabalhos se concentrou em resolver primeiro a questão dos resíduos sólidos, que hoje estaria bem encaminhada, na opinião dos entrevistados.

    Ana Helena conta que a destinação correta dos dejetos sólidos deve ser encarada como uma vitória, embora acredite que alguns pontos da legislação dêem margem à má interpretação por parte da comunidade médica: “A aplicação prática da lei, no que se refere a sólidos, é prejudicada pela correria diária de um hospital – ainda há muito a evoluir. As capitais brasileiras estão bem, mas o interior está defasado. Quanto aos efluentes, já há discussão, mas pouco foi feito”.

    Koch se defende alegando estar cansado de “perder tempo licenciando pastelaria de oito metros quadrados” – atividades de baixíssimo impacto. Para o secretário-adjunto, o foco da pasta deveria ser o licenciamento de atividades de maior potencial poluidor, como a Saúde, e disse que a questão está sendo revista em conjunto com os demais órgãos de meio ambiente.

    Em outubro, representantes da Smam e do Sindicato dos Hospitais e Clínicas de Porto Alegre se reuniram para discutir a implementação de um projeto de lavanderia industrial que atenderia a todos os estabelecimentos de saúde do município. A iniciativa ajudaria a reduzir gastos e facilitaria o monitoramento de parte dos efluentes produzidos diariamente. Koch não quis adiantar detalhes porque a notícia ainda não é oficial. Fora esta, nenhuma novidade.

    Faltam estudos sobre o tema

    Outro agravante é o fato de a academia brasileira pouco estudar o assunto. A opinião é do professor Luiz Olinto Monteggia, do Programa de Pós-Graduação em Recursos Hídricos e Saneamento do Instituto de Pesquisa Hidráulicas (IPH) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Em 2002, ele orientou a dissertação de mestrado da aluna Isabel Teles Silveira, que hoje é chefe da divisão do Serviço de Licenciamento e Monitoramento das Indústrias da Fepam e professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

    A pesquisa consistiu em construir, através de projeto-piloto, uma Estação de Tratamento de Efluentes (ETE) no Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), com R$ 80 mil doados pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa). A equipe do IPH fez o monitoramento do efluente e testou a sua desinfecção. São gastos diariamente cerca de 1 milhão de litros de água no HCPA.

    O estudo comparou o esgoto do hospital com o doméstico em três enfoques: águas residuais (matéria orgânica), nutrientes (como a presença de hidrogênio e fósforo) e microorganismos. O IPH constatou que os efluentes são similares nos dois primeiros pontos e diferentes no último. “O hospitalar é muito mais contaminado do que o doméstico. Ele apresentou toxicidade elevada em todas as análises, especialmente de bactérias resistentes, como os streptococcus”, afirma Isabel.

    Contudo, a equipe não conseguiu provar a toxicidade por números. “Os resultados variam. O trabalho precisa ter valor estatístico para ter relevância científica”, admite Monteggia. Eles atribuem a culpa ao pouco tempo de acompanhamento (dois anos), à bibliografia escassa e ao tipo de análise feita, que não detectava a presença de vírus e quimioterápicos nos efluentes, por exemplo.

    Esse foi o único projeto de ETE em hospital apoiado pela Funasa. Tampouco o IPH tem realizado outras pesquisas sobre o assunto. Isabel Teles Silveira disse estar tentando introduzir o assunto no curso de Engenharia Química, da PUCRS.

    Para Monteggia, os esgotos domésticos, hospitalares e industriais são igualmente perigosos. “Não se leva saneamento básico a sério no Brasil. Puxam a descarga e esquecem, falta conscientização. O que dá mais voto: iluminação pública ou saneamento?”, polemiza. Exemplificou sua posição com a polêmica que envolveu a Corsan e os municípios de Cachoeirinha e Gravataí, no ano passado. A companhia fez as obras de saneamento, mas os deputados barraram a cobrança da taxa de esgoto dos moradores.

    Química verde seria solução

    O professor do IPH Luiz Olinto Monteggia e o ambientalista e engenheiro agrônomo Jacques Saldanha, responsável pelo site Nosso Futuro Roubado levantam a mesma questão: existem mais doentes fora do que dentro dos hospitais. Os dejetos de quem ingere remédios em casa também vão para a tubulação sem tratamento.

    Monteggia e Isabel questionam a legislação vigente no que se refere à dispensa de tratamento dentro dos hospitais caso haja ETE em toda extensão do município. A funcionária da Fepam faz um alerta: os microoganismos presentes no efluente hospitalar têm a característica de contaminar o esgoto domiliciar quando misturados.

    “Quem garante que a tecnologia fará a desinfecção de orgânicos, nutrientes e microorganismos de forma adequada? O mais seguro seria a combinação dos dois tratamentos”, afirma o professor.

    Jacques Saldanha também discorda da legislação. Em sua opinião, o problema está nos produtos químicos sintéticos usados como remédios, e não na falta de ETEs nos estabelecimentos de saúde: “O que se medica aos pacientes vai para o meio ambiente? Há tratamento eficaz para esse líquido contaminado? Estão aparecendo resíduos de fármacos, como o Prozac, na água”, destaca.

    Na opinião do ambientalista, o contrasenso está no fato de os “verdadeiros culpados” pelo problema – empresas que fabricam os medicamentos – não serem culpabilizados. “Como um hospital vai resolver a questão, se a molécula é comprada como medicamento? Vai se analisar quando já está feito, no ambiente. É preciso ir na fonte. Quando já é um problema, não há mais solução”, opina.

    Poucos laboratórios no mundo são capacitados para detectar a presença de substâncias tóxicas no corpo humano. Ele diz conhecer apenas um, na cidade de Vancouver, no Canadá, que faz o exame de sangue ao preço de U$ 15 mil. Saldanha acredita que a única saída é a adoção da química verde, que usa compostos biodegradáveis, além do incentivo às terapias medicinais alternativas, como a acupuntura.Efluentes dos estabelecimentos de saúde de Porto Alegre são despejados sem tratamento

  • Menos tempo e menos livros

    Evento se encerrou no último domingo, 12 de novembro, com mais de 400 mil livros vendidos (Fotoss: Tânia Meinerz)

    Naira Hofmeister

    Ao fim de 17 dias, a 52ª Feira do Livro ficou mais curta de tempo e de dinheiro. Em 2005 o evento se estendeu até o feriado da Proclamação da Republica, em 15 de novembro, mas esse ano, como a data caiu no meio da semana – uma quarta-feira – a organização não achou conveniente estender a duração do evento.

    Os três dias de diferença reverteram numa venda menos expressiva que em anos anteriores: em 2005, foram comercializados 58.596 exemplares a mais que na edição que se encerrou domingo.

    O movimento na Praça da Alfândega de fato, começou devagar: nos primeiros 5 dias – entre 27 de outubro e 1º de novembro – caminhava-se tranqüilamente entre as barracas. A multidão chegou mesmo no feriado de Finados, no segundo dia de novembro. O Presidente da Câmara Riograndense do Livro, Waldir da Silveira corrobora a tese: “Nos dois últimos dias de Feira, em 2005, vendemos 77 mil livros”. Em 2004, as vendas dos derradeiros dias ultrapassaram os 100 mil exemplares.

    Em 2006, no último final de semana, mesmo com a coleta de dados da CRL indicando a comercialização de 98,5 mil volumes, os livreiros reclamavam das vendas e alguns narravam uma diminuição de 40% nos lucros.

    Geografia da Feira em 2007 vai depender do andamento do Monumenta

    O ponto alto da 52ª edição foi, na opinião dos freqüentadores – e que se refletiu nos números – a Área Infantil. Em seu segundo ano no Cais do Porto, a feira destinada aos pequenos vendeu 20 mil livros a mais do que em 2005. Outra modificação que veio para ficar foi a Praça de Autógrafos ao ar livre – diferente dos pavilhões instalados em anos anteriores – que, a partir de 2007 leva o nome de Maurício Rosenblatt.

    Apesar da consolidação do espaço infanto-juvenil e do modelo da praça de autógrafos, a arquitetura da própria Feira é uma incógnita em 2007. O Projeto Monumenta pretende alterar o traçado da Praça da Alfândega e da Avenida Sepúlveda, aproximando o projeto arquitetônico atual do centro de Porto Alegre em meados do século XX.

    No início de dezembro os sócios da CRL se reúnem para debater as possibilidades de melhoria da Feira do Livro para 2007 e pensar como essa interferência deve ser feita.

    Yeda recebe resultados de pesquisas

    Três levantamentos de dados referentes a educação e cultura dos gaúchos foram encomendadas pela Câmara Riograndense do Livro para pressionar o novo governo a direcionar mais verbas para a área. A governadora eleita Yeda Crusius deve receber os representantes da CRL no início da próxima semana – entre segunda e terça-feira – para ouvir as propostas para atualização dos acervo bibliotecário do Estado e implantação de pequenas bibliotecas comunitárias.

    “O resultado parcial da pesquisa sobre bibliotecas, indica que há 40 municípios gaúchos onde não há locais de empréstimo de livros”, revela Silveira. As outras duas pesquisas, já finalizadas, mostraram os hábitos de leitura dos gaúchos e o nível de alfabetização da população sulina.

    Lula promete visita em 2007

    Em Brasília, ao entregar a Ordem do Mérito Cultural aos organizadores da Feira do Livro, no dia 8 de outubro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva garantiu que estará presente na abertura do evento em 2007. Se a promessa se concretizar, será a primeira vez em 53 anos que o soberano da República visita a Feira. A medalha foi concedida pela contribuição que o evento trouxe à cultura gaúcha. Silveira destacou que “todo mundo conhece a Feira no Brasil”.

    Livro do JÁ Editores entre os mais vendidos

    INTER, Orgulho do Brasil confirmou o sucesso e terminou a 52ª edição da Feira do Livro como um dos mais vendidos. Desde as primeiras listas de divulgação, a obra de Kenny Braga publicada pelo JÁ Editores já figurava na preferência dos leitores. INTER, Orgulho do Brasil está em sua terceira edição, que acrescenta um capítulo especial sobre a conquista da Copa Libertadores da América à trajetória do colorado gaúcho.

    O livro terminou a contagem em terceiro lugar entre as obras de não-ficção, que teve como grande vencedor Fatos e Mitos sobre sua saúde, de Fernando Luchesse, da L&PM. Entre os livros ficcionais, o músico e agora escritor, Thedy Corrêa, emplacou o primeiro lugar com Bruto, também da editora gaúcha.

  • Superexploração condena aqüífero que abastece 130 mil pessoas em Florianópolis

    Francis França, de Florianópolis, especial para o JÁ

    O Aqüífero de Ingleses, no Norte da Ilha de Santa Catarina, sofre um processo de degradação que pode se tornar irremediável a qualquer momento. A superexploração do manancial, a falta de saneamento básico e a ocupação desordenada podem acabar com a única fonte de água potável de 130 mil pessoas. Para os otimistas, ainda haverá água por muitos anos, mas a realidade é que os órgãos públicos não têm a mínima idéia da quantidade de água retirada do aqüífero diariamente, nem quanto tempo ele pode resistir.

    O Aqüífero de Ingleses é protegido por uma camada de areia permeável e é abastecido exclusivamente pela água da chuva – diferente dos aqüíferos fissurais, como o Guarani, que recebem água do subsolo. Seu potencial de recarga é de 10 milhões de metros cúbicos por ano. De acordo com a geóloga Eliane Westarb, autora de um dos poucos estudos disponíveis sobre o Aqüífero de Ingleses, para garantir a qualidade da água, a exploração deve ser de, no máximo, 70% da capacidade de recarga do manancial.

    Fazendo as contas, o resultado é preocupante. A Companhia Catarinense de Águas e Saneamento (Casan) retira aproximadamente de 50% da água disponível no aqüífero em 22 poços de captação. Vinte por cento são disputados sem qualquer controle por cerca de 6 mil poços clandestinos nos bairros de Ingleses e Rio Vermelho, perfurados tanto em barracos na favela do Siri quanto em hotéis de luxo e condomínios fechados.

    A licença para perfurar poços no Aqüífero de Ingleses só começou a ser exigida pela Fundação Estadual do Meio Ambiente (Fatma) em 2002, para empreendimentos que captassem mais de mil litros de água por hora. Mas a regra durou apenas quatro anos. Por falta de conhecimento sobre a capacidade do aqüífero, a Fatma suspendeu totalmente a emissão de licenças no início deste ano.

    “Não se sabe qual é a situação do aqüífero, só vamos saber que ele está esgotado quando já tiver acontecido”, diz Cícero Almeida, técnico da Gerência de Licenciamento Urbano da Fatma. Segundo ele, é impossível saber exatamente quantos poços existem e quanto de água é retirado. “Pela lei, a Fatma não pode invadir a casa das pessoas pra fiscalizar cada ponteira. Os órgãos não têm como estimar a vazão”, diz.

    Se a vazão superar 70% da recarga, o aqüífero será irremediavelmente contaminado com a água do mar. O Aqüífero de Ingleses estende-se por uma área de 30 quilômetros quadrados de extensão e está a 70 metros de profundidade. O lençol freático sustenta um delicado equilíbrio entre água potável e água salgada, que flui para o aqüífero em uma zona chamada de “cunha salina”. Eliane Westarb explica que a água salgada é mais pesada e fica na parte de baixo do lençol freático. Quando o manancial está cheio, as duas camadas de água ficam totalmente isoladas uma da outra, mas, se o nível for muito baixo, o equilíbrio é perturbado, misturando definitivamente as duas camadas de água.

    De acordo com Cícero Almeida, o desastre já aconteceu na Praia Brava, um dos mais elegantes balneários de Florianópolis. Em menos da década, dezenas de condomínios foram construídos e exauriram a capacidade de abastecimento da população. “Há três anos, a superexploração provocou contaminação com a cunha salina, e a água não pôde mais ser bebida”, conta Almeida.

    Além dos problemas provocados pela ação humana, a estiagem dos últimos meses aumentou o risco de problemas no abastecimento em toda a Ilha de Santa Catarina. A falta de chuvas praticamente secou pequenos mananciais no Monte Verde, Morro do Quilombo, Morro da Lagoa e da Costeira do Pirajubaé, onde o abastecimento depende de caminhões-pipa.

    Mas o clima também já afeta os grandes mananciais. De acordo com Cláudio Floriani, superintendente de Meio Ambiente da Companhia Catarinense de Águas e Saneamento (Casan), a Lagoa do Peri, que abastece todo o Sul e parte do Leste da ilha, atingiu o menor nível dos últimos 20 anos. No Norte da ilha, a preocupação é a mesma. “Com a estiagem, o risco para o Aqüífero de Ingleses é muito grande”, diz.

    Para piorar, o esgoto

    Como se não bastasse a superexploração do manancial e a ocupação desordenada, o esgoto de todo o Norte da ilha flui para o subsolo. A região não tem sistema de coleta e tratamento dos resíduos, e, por ser uma região arenosa, as fossas sanitárias não servem para conter a poluição. “As fossas sanitárias não funcionam em Ingleses por causa da variação no nível do aqüífero. Quando o nível da água sobe, mistura-se com o resíduo das fossas. Naquela região, a única solução seria rede de coleta e tratamento de esgoto”, explica Eliane Westarb.

    A população não sabe, mas já pode estar bebendo água contaminada. Muitas vezes a fossa sanitária está ao lado da ponteira e quase no mesmo nível de profundidade. “Se a pessoa fizer um poço de baixa profundidade, corre o risco de beber água contaminada pelo próprio esgoto”, diz a geógrafa.

    Perfurar poços na região do Aqüífero de Ingleses é atividade rotineira. Tem até cadeia de produção: lojas que vendem os motores, oficinas para consertar os equipamentos e profissionais especializados. Seu Odilon é um deles, perfura em média quatro poços por semana. Cobra R$ 400,00 pelo serviço, fora o motor, que pode variar de R$ 350,00 – para os de segunda mão – até R$ 600,00. O aqüífero está a 70 metros de profundidade, mas Seu Odilon perfura a cerca de 20 metros, diz que “a água é muito boa” e garante: “Não tem problema nenhum com a Casan”.

    Para muitos, os poços clandestinos são a única solução. Muitas pessoas vivem em terrenos de loteamentos irregulares e não conseguem legalizar o imóvel junto à prefeitura. Sem o aval da prefeitura, os moradores não têm permissão para ligar água nem luz. Com a burocracia, a saída são as ponteiras e as ligações clandestinas na rede elétrica.

    Luci do Carmo Alves, moradora do bairro do Rio Vermelho, comprou um terreno em 2004 e até agora não conseguiu autorização para ligar água e luz. “Em setembro consegui regularizar minha casa na prefeitura, fiz o cadastramento, paguei os impostos e mesmo assim não consegui ligar a água e a luz. A prefeitura quer que eu leve fotos da minha casa para eles entrarem com um processo e só então pedir a ligação”, reclama.

    Os órgãos públicos até tentaram regularizar os poços clandestinos na região, mas a iniciativa fracassou. No início deste ano, o Ministério Público Estadual, a Casan e a Fatma fizeram uma campanha distribuindo questionários para que os moradores informassem a condição de seus poços, mas nenhum deles foi respondido.

    Para Eliane Westarb, o problema da campanha foi o foco. “Eles começaram pelos pequenos, quando o maior problema está nos grandes empreendimentos, nos hotéis, resorts e condomínios. As pessoas têm medo de que a Casan vá fechar os seus poços, abrir processos contra eles, além de perderem a água que têm de graça. É lógico que ninguém iria se denunciar. As pessoas pensam: Por que eu tenho que me acusar e o hotel não?”, critica.

    Para ela, o maior problema são os condomínios e hotéis. O adensamento urbano para garantir a infra-estrutura turística prejudica o sistema de recarga do aqüífero. As pavimentações diminuem a área de infiltração da chuva e também prejudicam a captação feita pela Casan. “A Casan teria que desativar os poços existentes, porque estão muito próximos da população. O perímetro de proteção dos poços, pela lei, é de 400 metros de qualquer atividade urbana. Atualmente as casas estão quase em cima dos poços”, diz Westarb.

    Os grandes empreendimentos também reduzem a área de expansão dos poços de captação. Segundo Westarb, a região do Residencial Costão Golf – que está embargado na Justiça por causar risco de contaminação da água com fertilizantes e agroquímicos – poderia servir como área de expansão para os poços da Casan. “O problema do Costão Golf não é apenas o risco de poluição do aqüífero, mas principalmente o fato de, além de aumentar o consumo de água, ocupar justamente uma área que deveria ser utilizada para ampliar o abastecimento”, denuncia. “As pessoas precisam se dar conta de que o Norte da ilha só tem uma fonte de água potável, e que ela não resiste a tanta ocupação”, diz.

    Durante a temporada de verão, o problema se agrava. A população nas praias triplica e, junto com ela, o consumo de água. Cláudio Floriani diz que os problemas de abastecimento no verão são “isolados”. “As pessoas alugam casas para 20 pessoas, aí não tem condições de garantir o abastecimento. O turismo ainda é muito exploratório. A Casan prevê o armazenamento para o acréscimo da população, mas as pessoas precisam desenvolver um consumo mais consciente”, diz.

    Casan já tem projeto para substituir o Aqüífero de Ingleses

    Contando com a morte do aqüífero, a Casan já tem um “plano B”. A Companhia tem um projeto para viabilizar recursos do banco japonês JBIC e do Prodetur (Programa de Fomento ao Turismo do Governo Federal) para construir um duto submarino que trará água do continente, no município de Canelinhas. A fonte é o Rio Tijucas, que nasce na Serra catarinense. Segundo Cláudio Floriani, o abastecimento do Rio Tijucas atualmente é “insignificante”. “Pode sustentar o Norte da ilha com folga”, diz.

    Mas, segundo ele, esse é um projeto para o futuro. “Para a demanda de curto prazo fizemos um reforço no Norte da ilha via adutora de Pilões [no município de Santo Amaro da Imperatriz]”, diz.

    Para Eliane Westarb, o projeto Canelinhas é uma medida irresponsável e serve apenas para legitimar a especulação imobiliária. “Não é por falta de água que o aqüífero está em risco, é porque a região está crescendo demais. A população está se instalando sobre áreas que deveriam ser reservadas para captação”, acusa.

    Segundo ela, o Rio Tijucas não pode ser explorado para resolver o problema. “Canelinhas já está sobrecarregado também, a água não está sobrando, temos é que garantir a perenidade do aqüífero que já temos”, diz.

    Eliane Westarb também critica a visão de “futuro” da Casan. Para ela, o projeto não chegará a tempo de garantir o abastecimento. “Só vai ser construído [o duto submarino] quando houver um desastre, e daí levará pelo menos cinco anos até que a obra fique pronta. Que água vamos beber até lá?”, questiona.

    Projeto busca conscientizar para o futuro

    Eliane coordena o projeto “Água nossa de cada dia”, realizado em parceria com a Secretaria Estadual de Educação e o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. O projeto foi inaugurado em março deste ano e envolve 30 crianças do ensino fundamental de sete escolas municipais e uma estadual, com o objetivo de conscientizar as crianças para a importância dos recursos hídricos da Ilha de Santa Catarina.

    O programa inclui visitas à estação de tratamento de esgoto da Casan, aulas na Universidade Federal de Santa Catarina sobre a estrutura geológica da ilha e saídas de campo até o manguezal da Estação Ecológica Carijós, no Norte da Ilha.

    Os alunos fizeram um jornal sobre a importância da água, além de confeccionar um livro de poesias e, no próximo dia 22, apresentarão peças teatrais sobre o Aqüífero de Ingleses, no teatro da UFSC.

    Segundo Eliane Westarb, o projeto, que se encerra em dezembro, conseguiu desenvolver nos alunos o sentimento de responsabilidade pelo aqüífero. “O que mais me comove é ver uma criança da primeira série me encontrar no corredor da escola e gritar a-qüí-fe-ro!”, diz.

  • Stédile exclusivo: “Governo Lula é ambíguo com relação às questões ambientais”

    Líder do MST, João Pedro Stédile afirmou que todo ano haverá ações em 8 de março (Foto: Ana Luiza Leal/JÁ)

    Cláudia Viegas, especial para o Jornal JÁ

    O 8 de março deste ano foi apenas o começo. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) promete continuar sua luta pela conscientização da população contra o “modelo concentrador do agronegócio” e o “deserto verde”. É o que garante o líder do MST, João Pedro Stédile, que esteve em Porto Alegre, nesta quinta-feira, 9 de novembro, para o Seminário Deserto Verde, Imprensa Marrom. Depois da palestra, Stédile concedeu entrevista exclusiva ao Jornal JÁ.

    Veja quais são os planos do movimento diante da iminente mudança no cenário político do Rio Grande do Sul e as articulações que prepara com entidades em nível internacional.

    – Quais são os planos do MST perante o novo governo do Estado que assume o poder no ano que vem? O que o movimento pretende realizar no próximo dia 8 de março?

    Stédile – A nossa obrigação, como eu disse na palestra, é fazer um trabalho permanente de conscientizar a nossa base para elevar o nível de conhecimento, de consciência da realidade. É isso que nós estamos fazendo permanentemente. Agora, as ações não são planejadas como e fosse alguma coisa assim, matematicamente. Isso depende muito de cada movimento, dos problemas que enfrentam na base. O que é certo é que, seguramente, as nossas companheiras da Via Campesina seguirão aproveitando o 8 de março para fazer novas ações de mobilização que tragam mais consciência para a nossa sociedade e que denunciem esse modelo perverso do agronegócio que afeta não só a monocultura de eucalipto como outras monoculturas, como os alimentos que vêm já cada vez mais contaminados com o uso do agrotóxico que o agronegócio vem trazendo.

    – Existe alguma articulação do MST com o Uruguai para manifestações contra as fábricas de papel que estão se instalando naquele país?

    Stédile – Nós temos duas articulações que envolvem os uruguaios e os argentinos. Tem uma que é uma rede ambientalista que se chama Amigos da Terra, cuja sede é justamente em Montevidéu. Com freqüência são feitas reuniões aqui no Cone Sul para debater como o meio ambiente está sendo agredido e quais são as ações comuns que cada um de nós pode fazer nos seus países. E a outra rede é a da própria Via Campesina, dos movimentos camponeses. Aí no caso do Uruguai é mais fraco. Praticamente, nas últimas décadas eles acabaram com os camponeses. Mas com os argentinos já há diversas organizações camponesas. Eu acho que o lado bom dessa intervenção de empresas transnacionais é que como são as mesmas empresas que estão lá no Uruguai, que estão na Argentina, que estão aqui no Brasil, isso facilita, também, nos obriga a ter cada vez mais uma consciência internacional e nós começarmos a nos articular para fazer também ações internacionais ao mesmo tempo.

    – Com relação à aprovação do cultivo de transgênicos, o MST chegou a entrar com ação de inconstitucionalidade a uma medida provisória do governo Lula, de 2003, que liberou esse plantio para uma safra. Depois, com a aprovação da Lei de Biossegurança, em março de 2005, essa ação perdeu o objeto, mas existe uma outra que requer que a lei seja considerada inconstitucional por ter vários dispositivos que contrariam o texto da Constituição de 1988, como possibilitar o plantio de transgênicos sem a necessidade de estudo prévio de impacto ambiental. Só que esta última ação está há mais de um ano no Supremo Tribunal Federal (STF) e não foi julgada. O MST vai se mobilizar para obter a declaração de inconstitucionalidade da lei?

    Stédile – A nossa pressão é mais no geral em relação à opinião pública, não tanto em direção ao STF, porque a gente sabe que lá há mais do que um poder judicial, aquilo lá é uma extensão do poder político, só reflete o que as classes dominantes dominam no Congresso, no Poder Executivo, e assim por diante. Então o nosso esforço é conscientizar a população de que a Lei de Biossegurança vai, como ela está, ser usada cada vez mais pelas empresas apenas para o seu lucro. E o que é pior: mesmo quando a gente consegue alguns avanços na lei, como é o caso da determinação de rotulagem de todos os produtos transgênicos nas prateleiras dos supermercados, eles não obedecem. Essa determinação já existe desde abril de 2003, e até hoje nós não vimos nenhum produto em prateleira de supermercado que tenha lá a caracterização “Esse produto contém transgênicos”. Então, isso também é uma denúncia que nós fazemos com maior freqüência junto com o Greenpeace e com outros meios ambientalistas: conscientizar o consumidor que exija a aplicação dessa lei. Outros companheiros, o próprio Idec [Instituto de Defesa do Consumidor], têm atuado mais nessa questão jurídica. Mas eu acho que nós, dos movimentos camponeses, o nosso papel maior é ir mais além do acompanhamento dessas disputas jurídicas. É conscientizarmos a população e fazermos atos que sirvam de pedagogia, de exemplo, como as mulheres fizeram aqui na Aracruz. E é isso que nós vamos continuar fazendo.

    – Isto significa que o MST vai realizar ações em supermercados, por exemplo?

    Stédile – Claro, eu acredito que as companheiras estão discutindo pelo menos para nós exigirmos a rotulagem dos transgênicos, para chamar a atenção de como está piorando a qualidade dos alimentos em função dos agrotóxicos, o que é tão grave quanto os transgênicos.

    – Qual é a sua avaliação do primeiro mandato do governo do presidente Lula em relação ao meio ambiente?

    Stédile – O governo Lula é um governo de composição. Tem uma área de direita, uma de centro e uma de esquerda. Tem todas as forças políticas. Não é um governo de esquerda. Por isto, se transforma num governo ambíguo. Em todas a áreas em que ele atua, seja no meio ambiente, seja na reforma agrária, ele vem tomando medidas ambíguas. Tem medidas que favorecem a conservação do meio ambiente, e às vezes vem a pressão da direita, e o governo toma medidas que prejudicam o meio ambiente.

    – É o caso dos embates entre o Ministério do Meio Ambiente e o Ministério da Agricultura na questão dos transgênicos e entre o Ministério do Meio Ambiente e o das Minas e Energia por causa do licenciamento de grandes hidrelétricas?

    Stédile – Exatamente. É este o governo que nós temos, um governo ambíguo.

    Seminário Deserto Verde, Imprensa Marrom: mais do mesmo

    Marco Aurélio Weissheimer, jornalista da Agência Carta Maior (esq), Vanderléia Daron, do Movimento de Mulheres Camponesas e João Pedro Stédile integraram a mesa.

    Ana Luiza Leal, especial para o JÁ

    “A luta contra a Aracruz é apenas o modelo. Ela é o diabo; queremos destruir todo o inferno”. A frase é de João Pedro Stédile, líder da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que deu a tônica ao Seminário Deserto Verde, Imprensa Marrom.

    Também integraram a mesa Marco Aurélio Weissheimer, jornalista da Agência Carta Maior, e Vanderléia Daron, do Movimento de Mulheres Camponesas. A pauta do encontro foi a reação da grande imprensa à ação das mulheres da Via Campesina na Aracruz Celulose, no dia 8 de março de 2006, em Barra do Ribeiro/RS.

    As duas horas e meia de debate foram marcadas por muitos “abaixo ao capital estrangeiro das transnacionais” e pouca reflexão acerca da cobertura da mídia sobre as questões socioambientais. Mais do mesmo. Os destinatários dos ataques – grande imprensa gaúcha e nacional, governo, papeleiras – não compareceram.

    Enquanto o discurso de Vanderléia, que abriu os trabalhos da noite, girou em torno da defesa das mulheres camponesas, vítimas da “sociedade neoliberalista patriarcal”, Stédile optou por uma fala que não tinha por objetivo “falar mal das RBS, Globo”. O líder do MST preferiu recontar aos presentes a história econômica do Brasil, do pau-brasil aos transgênicos, de forma crítica, e dar um panorama do que é polêmica nos dias atuais, como a pretensa “sustentabilidade” do biodiesel. Colocou o eucalipto em pé de igualdade com as demais monoculturas que ameaçam a biodiversidade brasileira, a exemplo da soja, do arroz, da cana-de-açúcar etc.

    “Chegamos a uma situação em que dez ou 12 empresas, como a Monsanto, são as todas-poderosas da agricultura no Brasil. Essas transnacionais controlam todo o ciclo de produção: do laboratório que produz a semente transgênica, à definição do preço do grão, e impõem isso aos pequenos produtores”, declara.

    Para Stédile, o governo mente quando diz que os agricultores bateram recordes de exportação de soja. “Quem bate recorde no país é a Bunge e as outras três que dominam o mercado da oleogianosa. São essas as empresas que vendem o grão e atingem as cifras”, polemiza.

    O líder do MST também levantou a questão da padronização global dos alimentos, que seria uma marca da ação econômica das transnacionais. Segundo dados que trouxe para o seminário, até o ano de 1500, a humanidade se alimentava de cerca de 300 vegetais. Nos 1900, caiu para 33: “E hoje, a maioria da alimentação é baseada em cinco produtos: soja, trigo, arroz, feijão e milho. Você come isso aqui e em qualquer lugar no mundo”.

    Denuncismo não é a solução para a luta dos movimentos sociais

    Segundo o jornalista da Agência Carta Maior Marco Aurélio Weissheimer, o fenômeno da cobertura da grande imprensa ao 8 de março de 2006 deve ser enxergado dentro do contexto global dos conglomerados de mídia, que já é realidade no Rio Grande do Sul. “Parece óbvio repetir isso, mas a Aracruz investe muito dinheiro em publicidade e em relacionamento com a imprensa. E tudo é apresentado de forma bem natural pela mídia, como se não influísse no conteúdo do que está sendo veiculado”, relata.

    Na opinião do jornalista, o movimentos sociais devem estar preparados para a cobertura mais negativa possível por parte da mídia. “É inocência nossa achar que, algum dia, será feita uma matéria favorável. Não se pode continuar batendo na mesma tecla do denuncismo”, defende.

    Weissheimer acredita que esse estágio poderá ser superado com a identificação dos braços econômicos que sustentam os grupos midiáticos. “A situação só mudará quando realizarmos estudos analíticos sérios sobre essas empresas, além de continuarmos investindo na construção instrumentos de comunicação do lado de cá”, acredita.

    Questionado pelo JÁ sobre a forma como seria feita a “comunicação do lado de cá”, respondeu, evasivo: “A mídia alternativa ainda é muito precária, mas está melhor do que há dois, três anos. A saída é a internet, aliada à criatividade do pessoal que vai para a Comunicação”.

  • Uma viagem pelo mundo do eucalipto

    Árvore imigrante, originária da Austrália, o eucalipto tem ocupado as manchetes por conta da polêmica que se acirra no Rio Grande do Sul, onde três empresas planejam plantá-lo em grande escala para produzir celulose.

    O livro Eucalito – Histórias de um Imigrante Vegetal (JÁ Editores, 128p.), escrito pelo jornalista Geraldo Hasse, aborda os ciclos da madeira na economia nacional desde o descobrimento. O eucalipto está presente no Brasil há mais de um século e seu valor econômico é comprovado em inúmeras atividades – desde a indústria de papel, passando pela fabricação de móveis e a produção de farmacêuticos, até o simples fornecimento de moirões para cerca. Através da extesa pesquisa que hasse desenvolveu, aliada a entrevistas diversas, o jornalista procura colocar numa perspectiva mais ampla o embate que hoje contrapõe ecologistas, silvicultores, indústrias e governos.

    A narrativa sobre a presença ‘alienígena’, como Hasse define a planta, tem como pano de fundo a própria história da industrialização brasileira. O autor lista suas primeiras aparições em território nacional, ligadas à queima de madeira para produção de calor, passando pela construção de ferrovias, sua utilização nas usinas siderúrgicas e, finalmente, nos processos de fabricação de papel.

    A economia em torno do eucalipto o eleva de uma posição de coadjuvante à protagonista da indústria de celulose e do debate sobre a monocultura, inclusive no Pampa gaúcho. A consolidação da planta, como insumo produtor de papel, leva Geraldo Hasse a passear por entre as diversas espécies utilizadas nesses processos, até a consolidação do Eucaliptus urograndis, ou o eucalipto brasileiro, produzido por manipulação genética.

    Em Eucalipto – Histórias de um Imigrante Vegetal, o leitor ainda vai encontrar curiosidades sobre as possíveis utilizações da planta, como a coleção de estampas que o sabonete Eucalol lançou na década de 1930 e que movimentam colecionadores até os dias de hoje.

    Geraldo Hasse, que  escreve e pesquisa sobre o tema há duas décadas, autografa Eucalipto – Histórias de um Imigrante Vegetal na quinta-feira, 9 de novembro, às 18h30, na Praça de Autógrafos da 52ª Feira do Livro de Porto Alegre. Uma hora antes, a professora Elisabeth Horn apresenta o inédito livro-agenda Inglês no seu dia-a-dia, com dicas gramaticais, lista de verbos irregulares e prhasal verbs e provérbios em inglês com correspondente em inglês.

    Serviço
    Eucalipto – Histórias de um Imigrante Vegetal

    Autor: Geraldo Hasse
    JÁ Editores, 2006, 128 p.
    Preço de capa: R$ 25,00
    Preço na Feira: R$ 20,00