
Cartunista sofreu verdadeiras sessões de tortura para reunir as piadas (Foto: Tania Meinerz)
Naira Hofmeister
Conhece o Mário? A piada é velha, mas ainda tem muita gente que cai. Tanto que a capa do livro (L&PM, 2006, R$ 8) traz o alerta: “Pequeno e utilíssimo dicionário de empulhas e pegadinhas”. Menos fruto de pesquisa do que de vivência, a antologia de sacanagens leva Santiago de volta às rodas de chimarrão que freqüentou na cidade natal, onde, “quando chovia e nada se tinha para fazer, os homens se reuniam para testar suas frases engenhosas e provocar os companheiros”.
O volume, com pouco mais de 108 páginas reúne cerca de 200 empulhas que o cartunista coletou: algumas ele jamais esqueceu, outras vieram de colaborações de “seríssimos e austeros pais de família”, como os colegas Kayser, Guaraci Fraga e Edgar Vasques. A atualização também demandou freqüentes idas aos butecos que, segundo Santiago, substituem muito bem as reuniões no rancho.
Munido de lápis, papel e um copo de cerveja, Santiago registrou todo o tipo de brincadeira entre os amigos. Homens, todos. “O livro deveria ter uma tarja: ‘proibido para mulheres’”. Respeito com as damas? Não. “É que elas não entendem nunca e se torna ainda mais engraçado quando a brincadeira é velada”, caso que também ocorre quando a empulha é aplicada ao patrão. “Acaba tendo um sentido de vingança”.

Brincadeiras à parte, Santiago reconhece que a prática da empulha é machista. “É uma afirmação entre homens, um território a ser preservado”. Paradoxalmente, a brincadeira maliciosa deve ter, obrigatoriamente, cunho sexual. “É engraçado porque remete ao universo da homossexualidade, porque sempre um que tenta comer o outro”.
Para organizar a coletânea, o autor se submeteu a consecutivas sessões de tortura perante os amigos. “Fiz muito papel de idiota para aprender”. Ele garante que essa é a regra principal do empulhador, tem que cair na pegadinha para poder passar adiante. “Se não, o cara não vai te explicar”.
É o que acontece com uma piada da série ‘conheces o fulano’. Numa nota, Santiago explica que a pergunta “Conhece o Nivrinhas?” era usada pelo sogro do Kayser, que morreu sem revelar a resposta. “Virou uma espécie de Rosebud das pegadinhas”, referindo-se ao filme Cidadão Kane, de Orson Welles, cuja narrativa envolve a busca de um repórter pelo significado da palavra dita pelo protagonista antes de morrer.
As piadas são divididas por temática. Desde a categoria do nome próprio, como a que dá titulo ao livro, as de tempo (“Quente fez hoje, mas quente fará amanhã”), de bichos (“O cão que late na água, late em terra?”), de comidas e bebidas (“Se eu cozinho, é só prá mim”), e as ‘do verbo dar’ (Se tu pegares essa rua, onde é que tu vais dar?), entre outras 12 espécies diferentes.

O último capítulo é dedicado às empulhas modernas, criadas por mentes maliciosas dos grandes centros urbanos, que dão seqüência à tradicional brincadeira dos pampas: “Se tu tens internet, eu posso botar no teu e-mail?”.
Santiago também ilustra grande parte das engenhosas frases. “Nesse tipo de desenho não posso jamais contar o final, porque o grande momento da empulha é a surpresa”, alerta. O cartunista ainda dá uma de bonzinho e explica algumas brincadeiras no livro, “para aqueles que não estão familiarizados com a empulha” e fornece os contra-venenos para o sujeito não ficar com cara de tacho diante de uma pegadinha.

A piada que ilustra o título do livro, por exemplo, pode ser rebatida com “O Mário trocou de nome e agora tá comendo os otários”, ou ainda “O Mário trocou de profissão e tá comendo adivinhão”.
O livro é um sucesso tremendo: vendeu os 4 mil exemplares da primeira edição em 15 dias e está sendo reimpresso para o lançamento na 52ª Feira do Livro. Para a ocasião, Santiago não teve tempo de atualizar as brincadeiras.
“Achei que tinha esgotado as listas, mas já recebi contribuições desde a publicação”. O cartunista revela uma delas, com exclusividade: “Se tu tem um caminhão e tem que levar uma carga de ferro, tu prefere levar ferro até em Tupi ou levar ferro até em Joar?”.
Santiago autografa Conhece o Mário? na quarta-feira, 1° de novembro, às 18h30. Pode ir pra fila tranqüilo, leitor, mas abre o olho com quem vem atrás.






