Categoria: X.Categorias velhas

  • Porto Alegre Vive cobra informações sobre revisão do Plano Diretor


    Lideranças comunitárias querem participar da elaboração dos projetos de modificações do Plano (Foto: Guilherme Kolling)

    Guilherme Kolling

    Quarenta lideranças comunitárias dos bairros da região central e da Zona Sul de Porto Alegre se reuniram no Salão Paroquial da Igreja São Manoel, na rua Dona Laura, na noite da terça-feira, 26 de setembro, para debater a revisão do Plano Diretor.

    Experientes no assunto, os integrantes do Porto Alegre Vive já constataram que as mudanças solicitadas pela comunidade não acontecerão este ano. “Estão segurando ao máximo as alterações para aprovar mais empreendimentos imobiliários antes dos ajustes”, alerta a presidente da Associação dos Moradores da Bela Vista (Amobela), Maria Lúcia Cardon.

    Os projetos de lei que tratam das alturas, recuos dos edifícios e criação das áreas especiais de interesse cultural estão sendo discutidos há meses na Prefeitura. Mas as lideranças dos movimentos de bairro reclamam que não foram chamadas. No Conselho do Plano Diretor também já surgiram queixas pela demora na apresentação do que está sendo feito pelos técnicos.

    Por isso, o Porto Alegre Vive está se organizando para participar do trabalho e tomar conhecimento do processo que está em andamento. Na reunião de 26 de setembro, o coordenador do Porto Alegre Vive, Nestor Nadruz sugeriu recorrer ao Ministério Público, para exigir que a Prefeitura torne públicas as informações.

    As lideranças comunitárias entendem que a administração municipal está conduzindo as modificações no Plano Diretor nos bastidores, com a participação do segmento da construção civil e excluindo os movimentos de bairro.

    “Estamos sendo alvos de um massacre silencioso de parte do Sinduscon [Sindicato da Indústria da Construção Civil], Secovi [Sindicato das Empresas de Compra, Venda e Locação de Imóveis] e SPM [Secretaria Municipal do Planejamento], obviamente com o expresso consentimento da Prefeitura Municipal”, denuncia um manifesto (leia íntegra), lido no início da reunião do dia 26 pela presidente da Amobela.

    Além da representação ao MP expondo o que vem acontecendo, o Porto Alegre Vive também pretende enviar ofício ao prefeito José Fogaça, demonstrando a indigação de moradores que querem o direito de participar da elaboração dos projetos de modificação do Plano Diretor. As lideranças dos movimentos de bairro planejam uma nova reunião para 10 de outubro.

  • Monumenta tem um ano para reformar centro de Porto Alegre

    Naira Hofmeister

    Dentro de 15 meses Porto Alegre terá um centro histórico totalmente recuperado. Essa é a expectativa dos técnicos do Programa Monumenta, iniciativa do Ministério da Cultura (MinC), em parceria com a Unesco e o Banco Internacional de Desenvolvimento. O projeto contempla 26 cidades brasileiras.

    No Rio Grande do Sul, foi abraçado pelas prefeituras de Porto Alegre e Pelotas, e pelo Governo do Estado. O resultado mais expressivo deve ser o que envolve uma área de 13 hectares no centro da Capital, no eixo que vai do Cais do Porto ao Palácio Piratini, recentemente tombado como patrimônio histórico.

    O projeto inclui a recuperação de 11 prédios públicos e serviços como iluminação pública e pavimentação. A tentativa é de recuperar a ambientação da Porto Alegre dos séculos XVIII e XIX. “Temos um centro cultural magnífico, todos que o visitam se impressionam com a beleza”, observa a arquiteta e coordenadora do Projeto Monumenta Porto Alegre, Briane Bricca.

    Igreja das Dores é um dos prédios contemplados pelo Monumenta (Foto: Ivo Gonçalves/PMPA)

    Segundo a pesquisadora, a área se assemelha, inclusive geograficamente, a locais consagrados, como Salvador. “Temos uma parte baixa, aqui na beira do rio Guaíba, e uma alta, lá no Piratini. A General Câmara seria o nosso Elevador Lacerda”, compara.

    Iniciado em 2002, o Programa Monumenta, do MinC, tem dezembro de 2007 como data limite para a conclusão das obras. “Ainda teremos uns três ou quatro meses de 2008 para usar o orçamento do ano anterior”, completa a arquiteta.

    O prazo preocupa porque dos 11 prédios com previsão de restauro apenas 3 já estão concluídos ou em fase final: o Pórtico Central do Cais do Porto, o Palácio Piratini e o Museu de Artes do Rio Grande do Sul – Margs. A Biblioteca Pública do Estado e o prédio que abriga o Memorial do Rio Grande do Sul já estão em fase de contratação das empreiteiras.

    Outro entrave pode ser encontrado na viabilidade financeira. O programa possui orçamento de R$ 16 milhões e 850 mil. Desse valor, cerca de R$ 8 milhões já foram gastos e R$ 5,6 milhões estão destinados à recuperação de prédios privados.

    Ou seja, R$ 13 milhões já estão comprometidos, restando pouco menos de R$ 4 milhões para as obras nos outros seis locais contemplados: armazéns A e B do Cais do Porto, Igreja Nossa Senhora das Dores, Pinacoteca do Rio Grande do Sul, Museu de Comunicação Hipólito José da Costa e as praças da Alfândega e da Matriz.

    O Monumenta financia 70% de cada iniciativa, com recursos do BID (50%) e do Governo Federal (20%). Os demais recursos (30%) devem ser empregados pelo proprietário ou pelo Estado. Ainda assim, é difícil acreditar que o dinheiro cubra tantas obras, mesmo porque, algumas possuem valores elevados, caso dos armazéns do Cais, que somam R$ 1.759.932 ao todo.

    As duas praças – Alfândega e da Matriz – estão orçadas respectivamente em R$ 785.000 e R$ 532.000. Juntas, as três obras devem custar R$ 3.076.932, quase o total do valor disponível. Há ainda a Pinacoteca do Rio Grande do Sul, cuja reforma foi fixada em R$ 478.536, o Museu de Comunicação, com orçamento de R$ 452.791,00 e a Igreja Nossa Senhora das Dores, que vai custar em torno de R$ 1.518.500.

  • EXCLUSIVO: Coolméia lança SOS

    Helen Lopes

    A Coolméia lança neste sábado, 31 de setembro, às 9h, na Secretaria Estadual da Agricultura, uma campanha para que a sociedade ajude na recuperação financeira da cooperativa ecológica. O SOS Colméia visa a adesão de voluntários e parceiros para reestruturação administrativa da cooperativa e reabertura do restaurante e da loja.

    Considerada referência mundial em produção e distribuição de alimentos orgânicos, a Coolméia, tenta se reerguer de uma longa crise econômica, quando, no final de maio deste ano, sofreu dois assaltos consecutivos. O episódio foi o estopim para o fechamento do restaurante e da loja.

    Em assembléia, com mais de 500 associados presentes (a Coolméia tem mais de 2 mil associados), decidiu-se pela formação de uma comissão para analisar a situação financeira. Na época, o grupo anunciou o prazo de seis meses para reabrir o estabelecimento.

    Mas após quatro meses de levantamento de dados, falta o auxílio de técnicos para apontar saídas para a Cooperativa, que congrega mais de 500 produtores agrícolas, responsáveis pelas feiras ecológicas do Bom Fim e do Menino Deus.

    De acordo com Danilo Paiva, integrante da comissão, a campanha pretende aproximar os simpatizantes da causa ecológica e os consumidores dos produtos orgânicos. “A Coolméia pertence à comunidade, foi idealizada para oferecer alimentos livres de agrotóxicos e, agora, está necessitando da ajuda da sociedade”, ressalta Paiva.

    A Cooperativa precisa de contadores, administradores e advogados para orientar na análise do material recolhido. Também podem se agregar quaisquer voluntários interessados em ajudar a Coolméia.

    Como a Cooperativa está temporariamente sem sede, os interessados podem entrar em contato através do Jornal JÁ (r. Augusto Pestana, 133), que se associa a esta campanha. Informações pelo fone: 3330.7272

  • Municipários se mobilizam por aumento

    Municipários protestaram entre 10h e 13h da quarta-feira, 27 de setembro (Fotos: Kiko Coelho/JÁ)

    Naira Hofmeister

    Desde as 10h da manhã dessa quarta-feira, 27 de setembro, mais de 100 municipários se reuniram em frente à sede da prefeitura de Porto Alegre, reivindicando a incorporação do reajuste de 4,63% a uma parte da categoria.

    O ato público chamava atenção para os municipários do chamado Nível 2b, parcela que engloba os mais baixos salários como o de operários e de auxiliares de cozinha, que até abril recebiam um salário menor que o mínimo regional, de R$ 326.

    Como a situação era inconstitucional, o Governo foi obrigado a conceder um reajuste de 7,1% para equiparar os vencimentos, em abril de 2006. A Prefeitura entende que os 4,63% de anuidade que concedeu ao resto da categoria já estariam contemplados no aumento de abril.

    “Se concedêssemos os dois índices estaríamos privilegiando uma parte com uma reposição de 11%”, argumenta a secretária municipal de Administração, Sônia Vaz Pinto. Os municipários discordam. “Os 4,63% incidiam sobre o salário de maio, que já era de R$ 350”, diz Mario Fernando Silveira, 1º Secretario do Sindicato dos Municipários de Porto Alegre (Simpa).

    Por volta das 11h30, representantes do Simpa foram recebidos pela equipe de negociação da Prefeitura. Depois de mais de uma hora de conversa, o grupo saiu insatisfeito com a posição do poder público.

    Mais de 90 minutos de reunião sem acordo

    “O máximo que conseguimos foi o comprometimento em buscar uma audiência com o próprio prefeito, que não recebeu nossa comissão nem uma vez, desde a posse”, reclamou Carmem Padilha, presidente do Sindicato.

    A secretária municipal de Administração, Sônia Vaz Pinto, acredita que a Prefeitura foi generosa com a categoria porque concedeu 7,1% de aumento. “Até porque, contando com as horas-extras ou tempo de serviço, não há operários que recebam abaixo do salário mínimo”.

    Ela explica que a Prefeitura interpretou a lei como se referisse a faixa salarial, e não o indivíduo, o que proporcionou a reposição. “A lei é clara e se aplica ao servidor e não à classe. Ainda assim, a reposição foi sobre o salário base”.

    Os sindicalistas insistem que a Prefeitura deveria conceder o aumento a esses servidores, que somam pouco mais de mil. Outro argumento é que o impacto na folha de pagamento seria mínimo. “Acrescentaria algo em torno de R$ 24 mil”, calcula Carmem Padilha, que ainda critica o pagamento de Funções Gratificadas à outros servidores, como os lotados na Fazenda. “Nesse caso, os R$ 24 mil são atingidos com o pagamento de FG a quatro pessoas”.

    Para a secretária de administração do município, essa comparação é simplista e deve ser evitada. “A gente sabe que não é assim que deve ser analisado”. Ainda assim, garante que o prefeito “está sempre aberto às negociações e que o dialogo será mantido”.

    Carro de som executa paródia de “Porto Alegre é Demais”

    A manifestação, acompanhada por cerca de 100 dos mil municipários sindicalizados foi animada pelo carro de som, que executou uma versão composta por duas integrantes do movimento, para a canção “Porto Alegre é Demais”, de José Fogaça.

    Carro de som conferiu bom humor ao protesto

    A voz doce da intérprete do Sindicato era muito parecida com a de Isabela Fogaça, que canta o original, e confundiu alguns integrantes: “Ela passou para o nosso lado”, brincavam.

    Com nova letra, “Porto Alegre é que tem/ um jeito legal/ é lá que as gurias/ etcetera e tal”, virou “Porto Alegre não tem/ um prefeito legal;/ ele só nos enrola/etcetera e tal”. Outra parte dizia: “Porto Alegre me dói/ não tenho um vintém/ eu vou ter ganhar/ reajuste já/ e o vale-refeição/ vai ter aumentar também”.

    Co-autora da adaptação sindicalista para o clássico de Fogaça, Solange Corrêa prometeu investir seu talento em outra canção famosa do prefeito: “Já estamos trabalhando Vento Negro”, anunciou.

    Além da música composta pelos integrantes do Sindicato, a trilha sonora do protesto incluía Gabriel, O Pensador (Até quando vai ficar levando/ Porrada, porrada/ Ate quando vai ficar sem fazer nada/ Até quando vai ser saco de pancada?) e Gilberto Gil (Andar com fé eu vou/ que a fé não costuma falhar).

    Moradores do Parque dos Maias se juntaram aos municipários

    Por volta das 11h, o grupo de 100 municipários reunidos no Paço Municipal, recebeu um reforço extra. Cerca de 20 moradores do Parque dos Maias protestavam contra a desapropriação promovida pela Habitasul para a construção de um empreendimento residencial. A reclamação é que a maior parte dos desapropriados ganharam benefícios da Caixa Econômica Federal para adquirir os novos imóveis.

    A parte do contrato gerida pela Habitasul não inclui nenhum tipo de subsídio para os atuais moradores financiarem os imóveis. “Não queremos nada de graça, queremos pagar um preço justo pelos apartamentos”, disseram os representantes do movimento. Uma comitiva do grupo também seria recebida na Prefeitura.

  • Mega-empreendimento causa polêmica no Costão do Santinho

    Costão Ville quer lançar novo condomínio em 2007 (Reprodução)

    Francis França, especial para o JÁ

    Em meio a uma batalha judicial para construir o Residencial Costão Golf – que continua embargado por ameaçar o Aqüífero de Ingleses, que abastece 130 mil pessoas do Norte da Ilha de Santa Catarina – a Costão Ville Empreendimentos Imobiliários pretende lançar no primeiro semestre de 2007 seu mais novo projeto, o Residencial Vilas do Santinho I.

    O condomínio, de uso residencial e comercial, prevê 124 apartamentos em frente à praia do Santinho, a poucos metros do Costão do Santinho Resort, que também enfrentou a Justiça e só foi liberado depois de um acordo com o Ministério Público Federal, em que o empreendedor retirou do projeto a Área de Preservação Permanente (APP) no Morro das Aranhas.

    O projeto arquitetônico do Vilas do Santinho I foi aprovado pela Secretaria de Urbanismo e Serviços Públicos de Florianópolis (SUSP) em 6 de julho, mas ainda não tem alvará de construção. De acordo com o engenheiro responsável pelo projeto, Carlos Santiago de Carvalho, as obras, que ocuparão uma área de 21.922 metros quadrados, devem começar no segundo semestre do ano que vem, depois da concessão das licenças ambientais e alvarás municipais.

    Segundo a Fundação Estadual do Meio Ambiente (Fatma), o pedido de licenciamento ainda não foi encaminhado. A procuradoria jurídica da fundação estuda um pedido de supressão de vegetação feito pelo empreendedor em agosto deste ano.

    De acordo com a procuradora Maristela Aparecida Silva, o pedido refere-se à abertura de um acesso à praia. O terreno onde será construído o Vilas do Santinho I é separado da praia por um corredor de restinga fixadora de dunas, considerado APP. “Ainda estou redigindo a minuta, mas, se a vegetação a ser suprimida for mesmo a do corredor de restinga, o pedido será negado”, disse a procuradora.

    De acordo com Carvalho, o acesso à praia será feito através do terreno que integra o empreendimento, com passarelas de madeira suspensas. “Se pegar [a mata de restinga], será só uma pontinha”, diz. O engenheiro garantiu que o acesso público dos moradores por uma trilha já aberta no local não será interrompido.

    Ao que parece, Fernando Marcondes de Mattos, dono da Costão Ville Empreendimentos Imobiliários, terá menos dor de cabeça desta vez. O Vilas do Santinho I não precisará apresentar Estudo de Impacto Ambiental/Relatório de Impacto Ambiental (EIA/RIMA).

    A Resolução 01/2006 do Conselho Estadual do Meio Ambiente de Santa Catarina, aprovada na reunião de 21/09 define que condomínios residenciais com mais de 100 unidades habitacionais – que não ultrapassem 100 hectares de área – deverão apresentar apenas Estudo Ambiental Simplificado. As audiências públicas também deixam de ser obrigatórias, mas podem ser convocadas desde que solicitadas pelo Ministério Público ou por pelo menos 50 cidadãos.

    Moradores do local denunciaram a perfuração, há cerca de um mês, de 10 poços artesianos no local. Segundo Carvalho, os poços não são artesianos, mas piezométricos, que servem para medir o nível e a qualidade do lençol freático. “É uma exigência da Fatma para o licenciamento ambiental. A água para abastecimento será fornecida pela Casan (Companhia Catarinense de Águas e Saneamento)”, explicou.

  • ARP lança campanha do 32º Salão da Propaganda

    Carmen Carlet, especial para o JÁ

    A Associação Riograndense de Propaganda (ARP) lançou na manhã desta quarta-feira, 27 de setembro, a 32a edição do Salão da Propaganda. Considerado pelo setor como um dos mais respeitados concursos do Brasil, o Salão – que marca o cinquentenário da entidade – vem, neste ano, com algumas novidades.

    Uma delas é a inclusão do mundo digital com o 1º Salão de Internet. Outra é a valorização das pequenas e médias agências, que sempre ficam à margem dos concursos, com o “Prêmio Revelação”.

    João Paulo Dias, presidente da ARP, afirma que o objetivo é prestigiar as agências que estão fazendo um trabalho notável, proporcionando suas participações de forma integrada no Salão.

    O reforço da efemeridade é o tema da campanha publicitária de inscrições e busca alcançar toda cadeia produtiva – agências, fornecedores e veículos. Assim, “Você é tão bom quanto seu último trabalho” é o conceito, convidando os profissionais à reflexão, a fim de buscarem sempre o novo, de acordo com a velocidade e o ritmo cíclico do mercado.

    Para impactar, a linguagem visual mostra cemitérios e seus mausoléus com os prêmios gravados nas lápides, simbolizando o enterro do passado.

    Paralelamente ao 32º Salão da Propaganda e 1º Salão de Internet, acontecem o 8º Salão Gráfico, Promocional e de Design na Comunicação e o 9º Salão Regional (voltado para o trabalho do interior do Estado).

    As inscrições vão até 20 de outubro na ARP (www.arpenet.com.br) e os vencedores serão apresentados ao mercado durante a Semana da Propaganda, de 4 a 8 de dezembro.

  • Prefeitura só vai colocar contas em dia em 2007

    Guilherme Kolling

    Apesar de projetar novo superávit, a administração municipal ainda atrasa pagamentos a fornecedores entre 60 e 90 dias, em média. Há casos de dívidas empenhadas há quase seis meses. A Prefeitura vai tentar aumentar a arrecadação dos impostos com o controle informatizado da negociação de imóveis, prestação de serviços e com mapeamento aéreo dos imóveis.


    Breda: Equilíbrio financeiro só em 2007 (Foto: Carla Ruas/JÁ)

    O contador Zulmir Breda, 48 anos, secretário adjunto da Fazenda, fez uma avaliação das contas do Município nos últimos anos, em entrevista exclusiva ao JÁ. Ele explica porque houve três déficits consecutivos nos anos 2000 depois de mais de uma década de superávits, e detalha as medidas para reverter o quadro de forma definitiva.

    JÁ – A Prefeitura teve superávit por mais de uma década. Por que houve três déficits consecutivos em 2002, 2003, 2004?

    Breda – Nos últimos 20 anos o Município teve uma situação financeira muito boa, principalmente a partir da Constituição de 1988, quando as novas disposições trouxeram uma receita maior para os municípios. Porto Alegre foi bastante beneficiada com a redistribuição do bolo tributário e viveu ali um período de franca expansão e de situação financeira tranqüila. Isso perdurou até o final da década de 90, início do século novo. A partir do ano 2000, a Prefeitura começou a ter um forte crescimento na sua despesa com pessoal, em patamares acima do crescimento da própria receita.

    JÁ -Em função da bimestralidade?

    Breda – Da bimestralidade, da contratação de pessoal, vários fatores que puxaram o gasto com pessoal para patamares acima do crescimento de arrecadação. Isso começou a provocar um estrangulamento das finanças do município até o exercício de 2002, quando ela realmente entrou em crise, começou a produzir resultados negativos. Em 2003, a administração anterior teve que suspender o pagamento da bimestralidade, em função de a despesa com pessoal ter batido no limite que a Lei de Responsabilidade Fiscal exige, que é 51,3% da receita corrente líquida. A bimestralidade não foi extinta, mas suspensa. Isso não foi suficiente para reverter essa tendência de déficit, tanto que a Prefeitura fechou novamente o exercício de 2003 em déficit orçamentário e depois, em 2004, novamente com déficit.

    – Sem uma intervenção, a situação poderia chegar a ficar parecida com a do Estado, que tem uma crise estrutural?

    Breda – O Estado, evidentemente, está numa situação bem mais adiantada, mas o caminho era o mesmo. A situação já era tão grave que nem esse corte da aplicação dos reajustes bimestrais resolveu o problema. Tanto que em 2004 isso repercutiu. A Prefeitura ficou dois anos sem reajustar o salário dos servidores e isso não foi suficiente para reverter o quadro de déficit.

    JÁ – Em 2005, a Prefeitura anunciou uma série de cortes. Ainda assim está gastando demais?

    Breda – Em 2005, quando o prefeito Fogaça assumiu, a primeira necessidade que ele viu foi fazer esse ajuste. Ninguém consegue governar com déficits consecutivos. Então, a primeira determinação foi equilibrar as contas do Município. Para isso, já no ano passado se começou a fazer um trabalho intensivo de racionalizar o gasto público. O corte do gasto, em algumas situações, é possível, mas em outras não. Existem despesas compulsórias em que se tem pouca flexibilidade para cortar. A despesa de pessoal é uma delas. Não se consegue retroagir no gasto de pessoal. O que se consegue, no máximo, é estancar o crescimento. Mas fazer cortes na área de pessoal é muito complicado. Então, se fez uma racionalização de gastos e a tentativa de fazer com que a receita crescesse mais ainda. Atuou-se em dois pólos: aumentar a receita e reduzir a despesa. Não tínhamos a expectativa de já em 2005 fechar o ano com superávit. Mas conseguimos, a duras penas. Um superávit pequeno, é verdade, mas já saiu do vermelho.

    JÁ – Foi de R$ 87 milhões o superávit em 2005?

    Breda – É, R$ 87 milhões de superávit primário. O superávit orçamentário foi de R$ 35 milhões. Mas foi muito bom, sinalizou que a Prefeitura está entrando num novo ciclo, de tentar reverter essa situação anterior. Em função desses três anos de déficit, perdemos todo crédito na praça. A Prefeitura não tinha quase como obter financiamentos. Tivemos até negadas algumas operações, como o [Programa] Socioambiental, o Programa de Mobilidade Sustentável, que não conseguimos viabilizar em função desses déficits sucessivos. Essa indicação de superávit de R$ 35 milhões, embora pequena num orçamento de R$ 2,1 bilhões, sinalizou uma nova tendência. Para esse segundo ano, nosso objetivo é fechar novamente com superávit, mesmo que seja pequeno.

    -O prefeito José Fogaça admite que tem uma pilha de contas para pagar. Chegou a comentar que a cada dia ele administra o que não vai pagar naquele dia…

    Breda – É verdade. Embora se tenha um superávit orçamentário no exercício, quando assumimos, em 1º de janeiro de 2005, havia um débito de fornecedores e prestadores de serviço de R$ 175 milhões. Isso é despesa já executada que não tinha sido paga. E os reflexos disso acontecem até hoje. Havia uma dívida de R$ 175 milhões e conseguimos produzir um superávit de R$ 35 milhões. A grosso modo seria lícito dizer que ainda devemos R$ 140 milhões. Na prática não chega a esse valor porque alguma coisa dessa dívida se conseguiu renegociar. Por exemplo, a dívida com a CEEE, que estava dentro desses R$ 175 milhões. Uma parte dela tivemos que pagar a vista no final do ano passado, algo perto de R$ 20 milhões. O restante está sendo negociado com a CEEE para tentar esticar para longo prazo. Essa dívida é decorrente da taxa de iluminação pública, que a Prefeitura não vinha pagando desde o começo de 2003. Estamos com esse passivo ainda para negociar. O que está nos enforcando ainda hoje em termos financeiros é o saldo remanescente daquela dívida.

    JÁ – Isso está gerando um atraso nos pagamentos de quanto tempo em média?

    Breda – Estamos trabalhando com uma média de 60 dias de atraso, em alguns casos 90 dias. A Prefeitura vive dois momentos em cada ano. No primeiro semestre, a gente consegue reduzir o volume de atrasos, em função da receita de IPTU. No segundo semestre aumentamos o período de atraso. Agora estamos na fase crítica, já estamos chegando em 90 dias de atraso, e eventualmente podemos até passar desses 90 dias. Em função do segundo semestre. Que vai durar até dezembro, quando, de novo, a gente vai ter que fazer a antecipação do IPTU. Com a entrada desses recursos, a gente consegue reduzir esse tempo de atraso.

    JÁ – Qual a estimativa para colocar as contas em dia?

    Breda – Temos ainda um saldo de dívida a pagar – claro que não são os mesmos credores da dívida de R$ 175 milhões, daquela época. Agora são credores das operações desse governo, mas o reflexo é daquela dívida. Tudo vai depender do montante do superávit que conseguimos produzir nesse exercício, que vai determinar o quanto vamos ter amortizado esse ano dessa dívida pregressa. Isso vai sinalizar o que vamos conseguir já em 2007.

    JÁ – Qual o balanço desse primeiro semestre?

    Breda – Fechamos junho com um superávit orçamentário de R$ 124 milhões, maior do que no primeiro ano. Mas um pouco ilusório porque ainda é primeiro semestre.

    JÁ – Como foi nesse mesmo período do ano passado?

    Breda – No primeiro semestre do ano passado foi mais de R$ 90 milhões, menos de R$ 100 milhões. Mas é ilusório porque se tem mais receita e menos despesa. Tem a concentração do IPTU arrecadado e a despesa maior está no segundo semestre por causa do 13º salário. Certamente o superávit [do ano] não vai ficar nem perto desse valor.

    JÁ – Mas vai ter superávit.

    Breda – Vai ter superávit. Estimamos que deva ficar no mesmo patamar do ano passado, algo como R$ 35 milhões. Dependendo do tamanho desse superávit, isso vai refletir no exercício de 2007. E vai ser o quanto vamos ter mais de disponibilidade em 2007 para recuperar esse atraso. Em 2007, a projeção é que tenhamos uma condição melhor de cumprir nosso fluxo de caixa sem esses atrasos que estamos tendo esse ano. Claro, isso depende também de outros fatores. Por exemplo, qual é o volume de investimentos que vamos ter no ano que vem. Se vamos conseguir cumprir esses investimentos buscando recursos externos ou que parcela de recursos próprios vamos ter que alocar para esses investimentos. Esse fator também vai determinar maior ou menor aperto no nosso fluxo de caixa. Em tese, estamos projetando para o ano que vem boa parte dos investimentos com recursos externos. Mas para isso ér necessário fechar esse ano com superávit e, em função disso, conseguir que a Secretaria do Tesouro Nacional limpe o nosso cadastro a partir do ano que vem.

    JÁ – E o funcionalismo? Houve um pequeno reajuste para os municipários e em dezembro já tem 13º para pagar.

    Breda – Se for contar de 1º de janeiro de 2005 até o mês de julho agora, o percentual de reajuste concedido está acima da inflação do período. Houve uma discussão se isso seria aumento real ou se era recuperação de perdas. O Sindicato diz que isso é recuperação de perdas, o Governo coloca como aumento real, tudo depende do horizonte que se olha. Se for olhar de 1º de janeiro de 2005 para cá, é aumento real, se for olhar desde o fim da bimestralidade, aí é recuperação de perdas. Mas isso não importa, o que importa é que isso hoje já está incorporado na remuneração dos servidores esse reajuste que foi dado, o último percentual foi de 2,09%, inclusive pagamos [em 11 de setembro] esse percentual retroativo ao mês de maio desse ano. Pagamos maio, junho, julho e agosto. Deu quase R$ 5 milhões só desse reajuste retroativo.

    JÁ – E o Dmae vai ter que dar uma ajuda no final do ano para o 13º salário?

    Breda – Estamos pensando em fazer a mesma operação que foi feita no ano passado, de antecipar a receita com o Dmae. Tem que esclarecer que a receita não é do Dmae, é da Prefeitura. Só que ela é cobrada pelo Dmae. Na verdade a tarifa de esgoto, que é da Prefeitura, é cobrada junto com a tarifa de água por uma questão de operacionalidade.

    JÁ -Então não é um empréstimo do Dmae?

    Breda – Não é um empréstimo do Dmae. O Dmae apenas antecipa para a Prefeitura uma receita que é dela, mas que só seria cobrada no ano que vem. Para o ano que vem, nossa expectativa é ter uma situação bem melhor em termos financeiros, e até não precisar mais recorrer a essas alternativas mais ortodoxas. Só que a gente sabe que para recuperar uma situação de três anos de déficit, provavelmente vai se exigir pelo menos três anos de superávits sucessivos para voltar a equilibrar de novo. O ano que vem seria o terceiro ano desses três que pretendemos fechar consecutivamente com superávit. Se atingirmos essa meta, temos certeza que ao final de 2007 já teremos equilibrada a situação financeira do município.

    – E a receita do município, como aumentar?

    Breda – Temos projetos para aumentar a receita própria do município, do ISSQN [Imposto Sobre Serviço de Qualquer Natureza], do IPTU [Imposto Predial Territorial Urbano], a própria receita de ITBI [Imposto sobre Transmissão de Bens Imóveis].

    – Sem aumento de alíquota?

    Breda – Sem aumento de alíquota…

    JÁ – Maior fiscalização?

    Breda – Na área de ISSQN, queremos aumentar a declaração eletrônica do imposto, que é uma sistemática que já vem sendo usada em outros municípios. Consiste num sistema informatizado que faz o cruzamento do prestador do serviço e do tomador do serviço, através de informações eletrônicas. Estamos trabalhando para implantar isso ainda no decorrer desse ano, para que no máximo até o final do ano comece a funcionar esses sitema. Na área do IPTU, pretendemos fazer um novo levantamento aerofotogramétrico da cidade, trabalho que não é feito há duas décadas não.

    JÁ – A Secretaria do Planejamento fará esse trabalho?

    Breda – Na verdade é através de uma licitação para contratar uma empresa que fará essa fotografia aérea e toda a restituição da cidade. A licitação está sendo feita aqui na Fazenda, mas conta com a participação da Smam (Meio Ambiente), do Planejamento, da Secretaria de Gestão, da Secretaria de Obras. Esse cadastro depois vai servir a todas essas secretarias, cada uma no seu enfoque. A Fazenda olha sob o enfoque do IPTU. A Smam olha sob o enfoque do mapeamento ambiental da cidade, cada um na sua área.

    JÁ – Até o final do ano sai esse edital?

    Breda – Até o final do ano sai esse edital, com certeza. E aí, a partir desse levantamento a gente sabe que tem números significativos de imóveis que vão ser regularizados. Ou porque estão omissos, ou porque alteraram a sua área construída e também não aumentaram na Prefeitura, então esse levantamento vai nos permitir aumentar a arrecadação, sem aumentar a alíquota.

    JÁ – E o ITBI?

    Breda – No ITBI estamos implantando uma sistemática de fazer uma declaração eletrônica de operações imobiliárias com tabelionatos e cartórios, que vão ter que passar a prestar informações à Prefeitura a partir de agora. Com isso, teríamos condições de reduzir a zero qualquer eventual sonegação de pagamento de ITBI. Porque os próprios tabelionatos e cartórios que elaboram as escrituras e registram as transações dos imóveis seriam obrigados a informar para a Prefeitura essas alterações. Isso já está bem adiantado, nós deveremos estar publicando o decreto nos próximos dias e colocar em funcionamento a partir do próximo ano. Vamos dar um tempo para os cartórios e tabelionatos se prepararem, instalarem sistemas e provavelmente a partir de dezembro a gente começa a ter que informar esses dados para Prefeitura.

    – Ou seja, a saída é investir em informação para ter mais arrecadação.

    Breda – É, basicamente é tecnologia de informação. Nos três tributos, o uso da tecnologia de informação para melhorar a eficácia da arrecadação do imposto. Com isso a gente espera ter uma alavancagem bem significativa de arrecadação para o ano que vem. Estamos com um projeto de lei na Câmara Municipal também, estabelecendo uma gratificação variável para o servidores da secretaria da Fazenda, que está atrelada ao crescimento da arrecadação. Estamos dando os mecanismos necessários para fazer uma fiscalização eficaz, e vamos dar um incentivo remuneratório aos servidores de acordo com o que eles conseguirem fazer a arrecadação crescer. Então se tem os instrumentos para trabalhar e o incentivo financeiro para esse crescimento de receita. Com esses mecanismos, temos uma boa expectativa de crescimento da receita para o ano que vem. O que vai certamente contribuir para a gente conseguir esse almejado equilíbrio fiscal. São ferramentas com as quais estamos trabalhando para colocar a casa em ordem em termos de finanças públicas.

  • Dono de banca decide parar de vender as revistas Veja e Época


    Ele quer que outros jornaleiros também percebam a importância de seu trabalho
    (Fotos: Thais Fernandes/JÁ)

    Marcelo Salles, especial para o JÁ *

    Trinta e três anos, jornaleiro há nove. Proprietário da banca que fica num movimentado ponto de Porto Alegre, Fábio Marinho tomou uma decisão: não vai mais vender a revista Veja. “Não é mais possível ficarmos esperando que os outros venham fazer algo por nós (…). Todos somos, de alguma forma, responsáveis pelo mundo em que vivemos”.

    Fábio está se formando em História e comunicou sua decisão em carta enviada ao jornalista Hamilton Octávio de Souza e publicada na revista Caros Amigos de julho (leia a íntegra aqui).

    Sua esperança é, como conta nessa entrevista, contribuir para que outros jornaleiros “também tenham uma tomada de consciência e percebam a importância de seu trabalho na sociedade e tomem iniciativas, por pequenas que sejam, que contribuam para pormos um fim a este avanço dos liberais, ou neoliberais, se preferir, que só tem trazido sacrifícios para a grande maioria da população”.

    Seu e-mail é: marinho147@hotmail.com. E o endereço da banca é Rua Dom Diogo de Souza, n° 100, bairro Cristo Redentor.

    Há quanto tempo você trabalha como jornaleiro?
    Tenho 33 anos, sou jornaleiro há nove anos, sempre como proprietário e no mesmo ponto de venda.

    Qual o perfil dos seus clientes?
    O perfil de meus clientes é variado devido ao fato de minha banca ficar próxima a um terminal de ônibus que atravessa a cidade de norte a sul e na frente de uma instituição de ensino particular. Então, atendo desde o desempregado sem perspectiva até o empresário de sucesso; atendo pessoas de todas as classes econômicas.

    Por que a decisão de parar de comercializar a revista Veja?
    A gota d’água que me fez parar com a Veja foi uma “reportagem” sobre o presidente venezuelano Hugo Chávez, em que ele era retratado como um tiranete, um ser exótico, só que tudo era escrito num tom muito ofensivo, sem o menor respeito por um presidente de Estado, de uma nação soberana, eleito pelo voto popular. Aí eu pensei: a Veja foi longe demais. E tomei a decisão de não vendê-la novamente. Mas era uma decisão que vinha sendo amadurecida desde a época do “escândalo” do jornalista [Larry Rother], aquele que chamou o Lula de bêbado, quando a Veja fez uma série de reportagens tentando afirmar a mesma coisa. Olha, não sou lulista, mas a Veja foi desrespeitosa naquele momento, e comecei a pensar em não vendê-la. Essa decisão foi levada a termo a partir da tomada de consciência de que não é mais possível ficarmos esperando que os “outros” – ou o Lula, ou o “salvador” – venham fazer algo por nós, e de que todos nós, de alguma forma, somos responsáveis pelo mundo em que vivemos. Então, na minha opinião, é chegada a hora de fazermos algo para modificar a realidade que nos cerca; o que eu posso fazer é isto, então fiz.

    Sua decisão se estende a alguma outra publicação ou é restrita à revista Veja?
    A revista Época recebe um tratamento semelhante, embora há menos tempo, a partir da crise do “mensalão” (um ano, não é?). Também não sou petista, mas é fato que a revista forçou a barra, se calou durante os anos FHC e agora resolve praticar jornalismo investigativo? Dá licença! A revista Primeira Leitura que fechou as portas em junho também recebia tratamento semelhante, nem preciso dizer por quê, né?

    Isso não pode prejudicar o seu trabalho, visto que a Veja é uma das publicações mais vendidas e que, portanto, gera grande retorno à banca?
    Sobre perder vendas, bem, entre ganhar dinheiro com a Veja ou perder algumas vendas e contribuir para que os meus clientes descubram a Caros Amigos, a CartaCapital, a Reportagem, fico com esta segunda opção, sem falar no componente ético que em mim é muito forte.

    Você não corre risco de sofrer algum tipo de boicote pelo mercado editorial como um todo, ou pela editora Abril em especial?
    Realmente não dá mais para agüentar a Veja. Olha, não temo boicote, mas estou surpreso com a repercussão. Recebi vários e-mails de pessoas me cumprimentando e elogiando minha atitude. Vamos ver como a [editora] Abril vai reagir. Se me boicotarem, espero contar com sua ajuda para denunciarmos mais uma da Abril.

    O que você gosta de ler, entre livros, jornais, revistas e sítios na internet?
    Estou me formando em História e, portanto, gosto de tudo que esteja relacionado à política, teoria e educação. Afora isto, gosto dos grandes escritores nacionais como Machado de Assis, Guimarães Rosa, João Cabral de Mello Neto, Erico Verissimo, Mario Quintana. Enfim, ler é meu vício. Revistas eu não leio muito por ter pego o vício de ler um livro inteiro de um autor e tentar entender suas teses. As poucas revistas que leio são Caros Amigos, CartaCapital e Reportagem e só. Jornal aqui no sul não tem um que preste, pelo menos que eu conheça. Infelizmente não consegui leitores para o Brasil de Fato e a distribuidora cortou meu reparte, de modo que evito ler jornais. De internet eu não gosto muito não, só utilizo para correspondência e downloads.

    Pelo que você observa entre seus clientes, há uma insatisfação com as publicações da grande imprensa? Você acredita haver espaço entre os leitores para publicações com linhas editoriais que destoam da mídia hegemônica?
    Pois é, já está tão difícil vender as revistas alternativas… não sei se há espaço para novas publicações. Se você já esteve em alguma edição do Fórum Social Mundial, deve ter percebido que a indignação é maior do que a gente pensa, mas daí a sustentar uma nova revista eu já não sei, minha percepção de jornaleiro é que não, mas estou vendo a situação de um ponto de observação muito restrito que é minha banca.

    Por favor, esteja à vontade para acrescentar qualquer outra informação que julgue relevante.
    Olha, escrevi aquela carta para o Hamilton Octávio de Souza na esperança de vê-la publicada e que outros jornaleiros como eu fizessem algo parecido. A minha categoria é muito desunida e o sindicato (pelo menos aqui em Porto Alegre) trabalha para mantê-la desunida. Assim, espero que outros também tenham uma tomada de consciência e percebam a importância de seu trabalho na sociedade e tomem iniciativas, por pequenas que sejam, que contribuam para pormos um fim a este avanço dos liberais, ou neoliberais, se preferir, que só tem trazido sacrifícios para a grande maioria da população.

    * Matéria originalmente publicada no site Fazendo Média (www.fazendomedia.com)
    Marcelo Salles – salles@fazendomedia.com

    “Tinha que tomar uma atitude ao invés de só criticar”

    Thais Fernandes, especial para o JÁ *

    Há um ano e meio, o estudante de História e dono de banca Fábio Marinho resolveu parar de vender as revistas Veja, Época e Primeira Leitura. “Em certa medida também sou responsável pela difusão da informação”, explica.

    O jornaleiro não se diz panfletário. Conta que pensou em fazer apenas a sua parte, alertando a categoria dos donos de bancas para a importância da consciência no trabalho que exercem. “Faço parte de uma indústria, e tinha que tomar uma atitude ao invés de só criticar”, afirma.

    Para ele, a revista Veja é muito agressiva e tendenciosa em suas coberturas – uma reportagem sobre o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, foi a gota d’água para que tomasse a decisão de não vender mais a publicação.

    “Primeiro foi o Lula. Em uma matéria que falava sobre o jornalista americano, que chamou o presidente de bêbado, Lula aparecia nas fotos de olho vermelho ou de outra forma que lembrasse o alcoolismo. O Chávez a mesma coisa, tentaram destruir a imagem dele de líder. Os dois são presidentes eleitos democraticamente, e precisam ser respeitados”, conta.

    A revista Época acabou indo pelo mesmo caminho, e também parou de aparecer nas prateleiras de Fábio. A Primeira Leitura, que fechou suas portas no último mês de junho, antes ficava “só nos cantinhos, onde as pessoas não enxergam”, e também parou de ser comercializada.

    Perguntado sobre sua orientação política, Marinho se diz de esquerda, um “socialista democrata, mas não sou Lulista e nem petista”, ressalta.

    Uma possível resposta das editoras proprietárias das publicações não é preocupação para Fábio, e segundo José Claudino de Oliveira, assessor jurídico do sindicato dos vendedores de jornais e revistas do RS, nem deveria ser.

    Na opinião de Oliveira, a empresa não teria motivos para se preocupar com uma ação isolada como a do jornaleiro, que não traz prejuízos. Esclarece que o sindicato une autônomos em busca de melhores condições de trabalho e nada mais, e a decisão de Fábio é particular, não tendo nenhuma participação da entidade. “Se não vender quem não ganha é ele”, explica.

    O assessor diz ainda que, se o jornaleiro precisar de ajuda caso haja a ofensiva, seu caso terá de ser estudado, pois é atípico. “Se tu tens uma padaria, e vende pão, não vai ficar questionando o tempo todo de onde vem a farinha”, exemplifica Oliveira.

    Fábio não concorda, e diz que “se a farinha é transgênica ou radioativa” precisa sim, ser questionada. Mesmo sabendo que a maioria dos seus clientes quase nunca quer estabelecer um diálogo para confrontar pensamentos, e sim um “monólogo” para a pura e simples exposição dos mesmos, ele segue firme na sua decisão usando a sua “pequena, mas útil margem de manobra”.

    * Matéria originalmente publicada na versão impressa do Fazendo Média

  • Cidadão Kane no cinema

    Naira Hofmeister

    Um filme, muitos mitos: Cidadão Kane (Drama, EUA, 119 min, preto-e-branco, 1941), de Orson Welles é um marco na história do cinema. Se transformou em cult, amplamente debatido ao longo dos 60 anos de história que possui por ter inaugurado uma nova forma de narrativa. Romper a linearidade do tempo no cinema, utilizando flashback – hoje, um absoluto clichê – foi “invenção” de Welles.

    Os recursos técnicos empregados também foram inovadores, como a obsessão do diretor em rodar as cenas com todos os planos em foco e utilizando jogos de luz e sombra pensados em conjunto com o diretor de fotografia Gregg Toland.

    O outro mito é a própria estória que conta. Baseada na bibliografia do magnata William Randolph Hearst, considerado o fundador do jornalismo marrom, termo que define a imprensa sensacionalista, Cidadão Kane enfrentou uma cruzada da mídia americana na época, controlada por Hearst, que resultou num enorme fracasso de sua estréia.

    A história, porém, se encarregaria de colocar o filme em seu lugar – no topo da lista das mais importantes películas produzidas – de onde nunca mais saiu. A trama inicia na mansão do protagonista, vivido pelo próprio Welles, onde Charles Foster Kane, em seu escritório, medita durante seus últimos minutos de vida.

    Antes de morrer, o personagem fala a palavra que se transformaria em um fetiche para os cinéfilos: Rosebud. É em busca de seu significado que um repórter conduz a narrativa, encontrando-se com figuras importantes na vida de Kane.

    O personagem percorre a trajetória de  Kane, que viveu uma infância pobre transformou-se no dono de um poderoso impérios das comunicações nos Estados Unidos. Além da misteriosa palavra pronunciada antes de morrer, a história do longa-metragem encerra outras reflexões em si, sobre os desvios que o poder pode exercer na dignidade de um homem.

    Quando foi rodado, Orson Welles manteve em sigilo sua intenção de narrar a vida de William Randolph Hearst. Quando o executivo de mídia descobriu que sua vida particular seria levada ao grande público, ameaçou o estúdio RKO, produtor do longa.

    Tentou suborno – queria pagar o custo do filme, em troca da destruição dos negativos – chantagem (denunciar grandes maracutaias hollywoodianas à imprensa) e, finalmente, iniciou uma guerra difamadora contra o filme em seus jornais, revistas e rádios.

    Por fim, a solução: Welles retirou de Cidadão Kane todas as referências que poderiam levar à identificação de Hearst no filme. Como se sabe, porém, o artifício não adiantou e o mundo inteiro assistiu Cidadão Kane sabendo de quem se trata na vida real.

    No entanto, a pressão exercida pela imprensa acabou por tirar 8 dos 9 Oscars a que concorria, restando apenas o troféu de melhor roteiro, para Welles e Herman J. Mankiewicz.

    A Sala Redenção exibe gratuitamente, na noite dessas segunda e terça-feira, 25 e 26 de setembro, o longa-metragem, seguido de debate com as professoras Mirriam Rossini e Fatimarlei Lunardeli, do Núcleo de Cinema e Comunicação da FABICO – Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS.

    Serviço:

    Cidadão Kane será exibido nesta segunda e terça-feira, 25 e 26 de setembro, às 19h, na Sala Redenção, no Campus Central da UFRGS (Av. Paulo Gama, 110). Entrada franca.

  • Prefeitura apresenta proposta de reajuste aos médicos do Saúde da Família

    Prefeitura propôs reajuste de 33% para médicos iniciantes, com jornada de 40 horas (Foto: Diego  Castro/Divulgação)

    Helen Lopes

    A paralisação dos médicos que atuam no Programa Saúde da Família (PSF) em Porto Alegre, marcada para esta segunda-feira, 25 de setembro, foi cancelada porque a Prefeitura apresentou proposta de aumento salarial para os profissionais.

    De acordo com a representante dos 82 médicos do PSF na Capital, Adriana Rojas, a mobilização havia sido aprovada numa reação à ausência de iniciativa da administração municipal às reivindicações dos médicos. “Mas como houve o início da negociação, resolvemos não parar”, justificou Adriana.

    Em reunião, na tarde desta segunda-feira, na sede do Sindicato Médico do RS (Simers), o coordenador da Rede de Atenção Básica da Secretaria Municipal da Saúde (SMS), Inélio Figleski, propôs reajuste de 33% para os profissionais iniciantes no PSF, com jornada de 40 horas semanais.

    O salário básico dos médicos passaria de R$ 3.800 para R$ 4.500, com um incentivo de R$ 600 para quem possui especialização em Medicina de Família e Comunidade. “O objetivo da Secretaria é diminuir a diferença entre os contratos novos e antigos”, destacou Figleski.

    Para Adriana, os valores ainda estão abaixo do esperado, mas há a expectativa de compor um reajuste mais próximo aos salários do interior, que são em média de R$ 7 mil. “A Secretaria reconhece que a valorização dos profissionais evita o sucateamento dos PSFs, pois muitos médicos acabam desistindo do programa”, disse Adriana.

    Adriana: “Enfoque do Saúde da Família é avaliação e acompanhamento da comunidade” (Foto: Helen Lopes/JÁ)

    Conforme a vice-presidente do Simers, Maria Rita de Assis Brasil, a rotatividade dos profissionais, em Porto Alegre, é uma dos maiores do País.

    A proposta será debatida pelos médicos nesta quarta-feira, 27 de setembro, e uma contra-proposta deve ser apresentada num novo encontro, na sexta-feira 29, na sede da Fundação de Apoio a UFRGS (FAUFRGS), responsável pelo pagamento dos salários.