
Santander Cultural foi um dos exemplos de gestão cultural bem sucedida apresentado durante o Fórum Cultura, Comunicação e Cidadania (Foto: Divulgação/JÁ)
Naira Hofmeister
Santander Cultural, Porto Alegre Em Cena, Bienal do Mercosul, Centro de Cultura Telemar, no Rio de Janeiro e SESC foram os exemplos de bem sucedidas iniciativas de gestão cultural, apresentadas no Fórum Comunicação, Cultura e Cidadania, ocorrido na noite de terça-feira, 22, no Santander Cultural. O público, que na porta de entrada da instituição, lotava a lista de espera para ouvir o seminário, acabou o evento com um brinde de champagne e a sensação de que não foi exatamente o que esperavam.
A expectativa era pelo debate do atual modelo de gestão cultural, de possibilidades de junção do interesse público com o marketing das empresas voltado para a cultura e dos problemas das Leis de Incentivo à Cultura, que não dão conta da diversidade artística do país nem viabilizam projetos menos comerciais.
Os convidados – Liliana Magalhães, do Santander Cultural, Maria Arlete Gonçalves, do Centro Cultural Telemar, Justo Werlang, da Bienal do Mercosul, Danilo Miranda, do SESC e Luciano Alabarse, do Porto Alegre Em Cena – em sua maioria acabaram atendo-se a narrativas das experiências de seus institutos, celebrando as atividades que cada um promove, sempre destacando o interesse de viabilizar a transformação social através da arte.
Nádia Rebouças: a teórica da cultura
O seminário iniciou com uma apresentação de Nádia Rebouças, salientando que suas atividades não estavam ligadas à produção cultural, mas sim, à pesquisa sobre o assunto. Em sua abordagem teórica, Nádia materializou a mudança do paradigma sócio-cultural da contemporaneidade. Ela entende que tudo o que antes recebia interpretações mecanicistas, práticas, “newtonianas”, tem hoje uma concepção atual mais holística, sistêmica e integrada.
Segundo a pesquisadora, essa visão abriga novos olhares, pede mudanças na percepção, nos valores e credos das pessoas. “Compreender é holístico, mas explicar é mecanicista”, exemplificou, sublinhando que nesse mundo holístico, as mensagens são sentidas e não faladas.
Dentro dessa lógica, a cultura exerceria o papel fundamental de formação de identidade. A comunicação, proporciona alcance a iniciativas de resgate e reflexão sobre o que somos. Juntos, os dois processos culminam na cidadania, que se reflete no cuidado e respeito com o que nos pertence. Quanto ao enfoque cultural, Nádia afirma que a excelência artística está em saber unir a preservação do passado e a criatividade do futuro.
Diálogo: a palavra da boa gestão cultural
Na prática, o que os palestrantes do Fórum de Gestão Cultural – Cultura, Comunicação e Cidadania apresentaram, foi o modelo do sucesso de suas instituições. As diferenças entre os estabelecimentos – o SESC, entidade de classe, o Em Cena e a Bienal, que têm apoio nas LICs e as casas que representam o braço cultural de grandes empresas – não se refletiram na maneira como seus gestores comandam as políticas culturais, que se aproximam bastante umas das outras.
A regra geral é manter um diálogo, identificando as necessidades da sociedade e trabalhando em parceria com outras instituições: “Quando fizemos o balanço de nossas atividades, fiquei muito surpresa ao saber que 60% de tudo o que o Santander Cultural realizou foi com recursos externos”, revela Liliana Magalhães, superintendente da instituição. Foi ela também que sistematizou a regra: ter sintonia com o tempo e o espaço que convive a instituição, capacidade de adaptação e respeito ao mercado.

LIliana Magalhães, que, há cinco anos comanda o Santander Cultural, surpreendeu-se com a quantidade de projetos viabilizados através de parcerias (Foto: Naira Hofmeister/Arquivo JÁ)
Seguindo esse parâmetro se deu a criação do Centro Cultural Telemar, na cidade do Rio de Janeiro. A privatização do setor de telecomunicações, ocorrida em 1998, deu à Telemar o antigo prédio do Museu do Telephone, que, após muito estudo e discussão, transformou-se, no início de 2005, em um espaço de reflexão social, a partir de trocas culturais. “Nos demos conta que não havia como a empresa sobreviver sem incentivar o crescimento do país, que não deve ser reduzido à economia. Por isso, determinamos que cultura, educação e cidadania, seriam os três eixos principais de nosso trabalho”, resumiu Maria Arlete Gonçalves, curadora do instituto.
A opinião de que o desenvolvimento não se dá apenas na área financeira é dividida com Danilo Miranda, representante do SESC, instituição voltada ao bem estar social dos trabalhadores do comércio. “Todos aqui temos uma característica em comum, que é ser da religião que acredita que a cultura é muito importante”, disse.
Para o gestor, formado em filosofia, um dos principais problemas a ser enfrentado pelas entidades culturais no Brasil é a falta de sintonia entre educação e cultura. Ele citou como exemplo o MEC, que, na sigla carrega o antigo conceito de cultura e educação trabalhando em conjunto, mas que dividiu-se: “Hoje, o MinC conta com apenas 0,5% do orçamento federal”, lamentou.
Miranda também deu uma dica para quem se interessa pelo assunto: para uma gestão cultural dar certo, deve ter claro o seu “DNA”, que seria o público alvo, a intenção e o financiador das ações sócio-culturais. Outro conselho do pensador é investir na facilitação de acesso, seja levando as atrações para quem precisa, seja disponibilizando transporte gratuito.
Luciano Alabarse, do Porto Alegre Em Cena e Justo Werlang, da Bienal do Mercosul, trouxeram o exemplo de projetos que não funcionam em tempo intergral, alternando momentos de intensa atividade com outros de “dormência”, como referiu Werlang.
Para Alabarse, a principal característica do meio cultural é que sabe lidar bem com seus próprios erros, “que podem dar origem à verdadeiras maravilhas”. Esse sintoma, na visão de Werlang, é o que culmina no que ele chamou de caos criativo, “uma verdadeira tsumani” de idéias.
O papel do patrocinador também foi elucidado e, a conclusão geral é que os interesses comerciais jamais podem se sobressair aos artísticos: “Jamais podemos ter dúvida de que o determinante é o interesse cultural, ainda mais se lidamos com recursos públicos”, pontuou Miranda, complementando que a prioridade do corpo social deve ser a da manutenção da condição humana para as gerações vindouras.











