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  • Ministério Público ocupa “torres gêmeas” até agosto

    Edificação tem 14 pavimentos e vista para o Guaíba. (Foto: Helen Lopes/JÁ)

    Helen Lopes

    O Ministério Público do Estado (MP) apresentou na manhã desta quarta-feira, 19 de julho,  a sua nova sede em Porto Alegre. Erguido na Aurelino de Figueiredo Pinto, 80, próximo ao Tribunal de Justiça (TJ), o prédio custou R$ 32 milhões (1,52 CUB por metro quadrado) e vai abrigar 270 promotores e procuradores de Justiça, a partir de agosto. São duas torres, com 14 pavimentos, interligadas por duas passarelas visíveis e duas internas, totalizando uma área de 25.186m².

    Apelidado de “torres gêmeas”, o prédio foi construído em 36 meses e será a sede administrativa do MP. Funcionará no novo endereço o gabinete do procurador-geral, corregedoria-geral, subprocuradorias-gerais, procuradorias de Justiça Cível e Criminal, promotorias de Justiça da Capital, exceto as Especializadas (Pavimentação / Consumidor / Direitos Humanos / Crime Organizado), que continuarão ocupando a sede da Santana e as Promotorias Regionais.

    A instituição pretende economizar R$ 1,3 milhões por ano, que eram gastos com aluguéis. O MP estava espalhado em 14 espaços. Serão entregues as salas ocupadas no IPE (um andar inteiro), num edifício na Andrade de Neves, na Galeria Edith, no antigo Tribunal de Alçada (Praça Marechal Deodoro), dois ambientes na Borges de Medeiros esquina Coronel Genuíno e os gabinetes no Fórum (permanecerá os plantões  e o Tribunal do Júri).

    O procurador-geral de Justiça, Roberto Bandeira Pereira, ressaltou que a edificação irá beneficiar o andamento do trabalho por sediar promotorias, procuradorias e administração num único espaço. “É para melhor atender à população, já que a nossa demanda cresceu bastante”, afirmou. Cerca de 1200 servidores irão trabalhar no local e a previsão é de uma circulação diária de aproximadamente 500 pessoas à procura dos serviços. O prédio conta com auditório para 600 pessoas e garagem para 350 vagas.

    Com a discussão dos gastos do Estado na pauta, o procurador enfatizou que a obra “se pagará” em cerca de 20 anos, tendo em vista a economia em alugueis. “Utilizamos apenas vidro e concreto na construção. O que possibilita uma  manutenção e  limpeza de maneira prática e econômica”. A iluminação, o sistema de elevadores, a segurança e a brigada de incêndio são automatizados. “Pode-se programar até que horas utilizaremos uma sala, para que as luzes se apaguem automaticamente. Isso vai gerar uma grande economia”, projeta.

    Essa automatização tornou o custo do metro quadrado da edificação mais caro que outras obras realizadas no Interior. Segundo o procurador, valor será recuperado pela economia que a tecnologia irá gerar.

    Procurador Bandeira Pereira apresentou prédio à imprensa. (Foto: Daniel Dorneles/MP/JÁ)

    Retomando a questão dos custos mais de uma vez, Bandeira buscou mostrar que a obra é simples e funcional. “Não tem banheiro em gabinetes, apenas no do procurador-geral, nem há corredores, toda a área foi aproveitada”. Conforme o procurador “o MP sempre teve preocupação com o dinheiro público”.

    Pacto pelo Rio Grande
    Questionado se o MP irá entrar na Justiça contra o Pacto pelo Rio Grande, o procurador disse que a assessoria jurídica da instituição está analisando o que foi aprovado pela Assembléia. E adiantou: “Entraremos se ferir a Constituição”.

    Cadeiras novas

    O MP fez uma licitação para adquirir 28 cadeiras ergonômicas, que de acordo com o presidente da Comissão de Licitações da instituição, Luiz Pedro Leite, auxiliariam na prevenção de doenças relacionadas ao trabalho. O preço orçado foi de R$ 2.400 por cadeira. “Estão abaixo dos preços de mercado, mas renegociamos e vamos comprar 21 cadeiras por R$ 1.784”, declarou. Essas cadeiras irão ficar no auditório. Pedro Leite também informou que serão adquiridas mais mil cadeiras para uso geral.

  • Um passo para o ensino da cultura negra nas escolas

    Grupo trabalha desde 2004 (Foto: Naira Hofmeister/JÁ)

    Naira Hofmeister

    Um dos primeiros atos do Governo Lula foi aprovar a lei federal 10.639, que obriga a inclusão da história e cultura afro-brasileira no currículo do ensino fundamental e ensino médio. A iniciativa ainda não se tornou realidade.

    A Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) está trabalhando para mudar este quadro. Desde 2004, através de convênio com o Ministério da Educação, a UFRGS auxilia escolas de Porto Alegre, Canoas, Viamão, Cachoeirinha e Alvorada a colocar em prática a lei federal.

    Trata-se do projeto “Educação anti-racista no cotidiano escolar”. Segundo os coordenadores, o universo da “cultura negra” está presente em toda história da civilização, mas acaba sendo  transportado para os livros didáticos apenas durante os anos em que vigorou a escravidão. “Posso falar da minha experiência, que foi de me ver sempre como um ator negativo da história, sempre como um escravo”, relata José Antônio dos Santos, que integra o Departamento de Educação e Desenvolvimento Social (DEDS) da Universidade.

    É o DEDS, ao lado do Coletivo Estadual de Educadores Negros – representante do movimento negro – que está tratando com as secretarias municipais. O Grupo de Trabalho, que se reúne uma vez por semana na Reitoria da Universidade, conta com a participação de professores de diversas áreas. “É uma construção coletiva e acredito que vai se estender por muito tempo, pois a educação continuada vai ser necessária até que o currículo das universidades incorpore a temática”, diagnostica Santos, que é professor de História.

    Em menos de dois anos, a estimativa é que mais de 3 mil professores já tenham passado pelos cursos de formação. Também foram desenvolvidos eventos para os gestores escolares e seminários abertos a comunidade. O grupo ainda elabora materiais didáticos para o apoio pedagógico.

    Lei é para toda sociedade

    “Essa lei não é para os negros, ela envolve toda sociedade, que tem que conhecer as contribuições do negro na sua formação”. Esta é a avaliação de Vera Neusa Lopes, representante do Coletivo Estadual de Educadores Negros sobre a importância da lei federal.

    José Antônio dos Santos assina em baixo, lembrando que a cultura negra cerca as práticas da nossa sociedade. “Quem nunca escutou um samba?”, pergunta. Outra questão inserida no debate é a importância da contribuição do pensamento africano para sociedade ocidental. “Temos uma educação eurocêntrica, mas a África produziu tanto conhecimento científico quanto a Europa”, acredita.

    O primeiro e mais significativo avanço do projeto vem sendo percebido pelas suas lideranças. “Noto que a composição da platéia dos nossos seminários está se alterando. No início era muito preta, agora, parece mais heterogênea”, relata Vera. “É um reflexo de que a atitude está deixando de ser exclusiva de quem tem vontade de fazer, para ser entendida como uma obrigação educacional”.

    Nas escolas de Viamão e Canoas, por exemplo, é perceptível o aumento do número de estudos sobre a cultura negra durante o ano letivo. “Antes eram muito ligadas à Semana da Conscientização e ao Carnaval, agora estão são mais presentes”, revela Luis Gustavo Basso, da prefeitura de Canoas.

    Governo Federal destina verbas à projetos

    A lei nº 10.636 obriga todos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, de escolas públicas e privadas, a incluírem em seus currículos a temática “História e Cultura Afro-Brasileira”. A lei foi sancionada pelo presidente Lula em 9 de janeiro de 2003, logo depois de sua posse. As entidades negras tomaram a medida como uma vitória, mas criticam o governo por não disponibilizar verbas para formação dos professores.

    “Não é bem assim, há muitos instrumentos para lançarmos mão”, argumenta Vera Neusa Lopes, do Coletivo Estadual de Educadores Negros. Ela indica que o dinheiro pode ser aprovado através de projetos, como essa apresentado pelo DEDS, que já teve dois diferentes patrocínios, ambos federais. O projeto está aberto à participação de estabelecimentos de ensino, que podem entrar em contato com a organização através da página eletrônica http://www.prorext.ufrgs.br/Deds e do e-mail deds@prorext.ufrgs.br.

  • Teatro Hebraica volta à cena cultural portoalegrense

    Produtora cultural Daniela Lima comemora procura (Fotos: Naira Hofmeister/Já)

    Naira Hofmeister

    Um dos mais importantes ícones culturais do Bom Fim está de volta: a sala de teatro Ben Gurion, popularmente conhecida como Teatro Hebraica. Tradicional espaço de cultura na década de 80, o espaço voltou à ativa em abril de 2006.

    Três meses depois das estréias adulta e infantil, a agenda da sala já está com lotação esgotada nos finais de semana até dezembro. “Durante a semana, ainda temos só algumas datas, e em outubro”, comemora a produtora cultural da instituição, Daniela Lima.

    O retorno à atividade aconteceu graças a parcerias entre empresas privadas, como a Tintas Suvinil e a TL Iluminação, que patrocinaram a reforma do local. “É impressionante, mas não tínhamos nem fiação para passagem de energia elétrica”, lembra.

    Abandonado, sem estrutura técnica de luz e som, o teatro era utilizado vez ou outra para alguma atividade do clube ou da comunidade, como as reuniões do Conselho de Segurança do Bom Fim.

    A prova de que existe demanda no bairro para o espaço cultural é a presença do público nos espetáculos: dos 280 lugares disponíveis no Teatro Hebraica, mais da metade são preenchidos em todas as sessões.

    “Ainda temos dificuldade com o teatro infantil, mas esse setor é um desastre em toda a cidade”, lamenta Daniela, que esteve em cartaz na sala com a peça “A Fada Azul”, em abril de 2006.

    Clube quer ser centro cultural do Bom Fim

    A abertura do Teatro Hebraica marca um novo passo em direção ao objetivo da atual presidência do clube. Quando tomou posse, em janeiro de 2006, Joel Friedmann garantiu que sua principal ação frente à instituição seria retomar a participação sócio-cultural do Clube Israelita, abrindo as portas a toda a comunidade e promovendo a integração com a colônia judaica.

    A retomada da programação de espetáculos no Teatro Hebraica de um projeto cultural para atender o Bom Fim. A proposta inclui uma oficina de formação de atores, que inicia no final de julho. Rodrigo Marquez será o responsável pela primeira turma de 20 alunos, que vai abordar, além das técnicas de atuação, matérias como produção, cenário, figurino, iluminação e sonorização de espetáculos.

    “Serão dois módulos, um dedicado à preparação dos atores e um segundo, onde vamos montar um espetáculo com esquetes, onde os alunos desenvolverão todo o processo de construção de uma peça”, explica Marquez.

    A oficina vai servir como embrião de um projeto ainda maior, conta Daniela: “Meu sonho é criar aqui um escola de teatro, com cursos de atuação, direção e produção de espetáculos”, revela. Daniela Lima inclui no projeto o espaço externo da sala de teatro, que também deve ter um destino cultural em breve. “Penso em transformar num local para exposições de artes plásticas”, explica.

    Ela admite no entanto, que ainda não teve tempo para organizar essa etapa: “Mas se as pessoas quiserem em contatar, seria ótimo”. Nas quartas-feiras de julho e agosto, também acontecem no espaço os Encontros Literários, com o grupo Colheita Poética.

    A trupe, dirigida por Paulo Fontes, realiza espetáculos partindo de textos famosos da literatura em geral. “Tem muita escola que vem assistir, pois os alunos assimilam facilmente as narrativas a partir das encenações”, comenta Daniela.

    Confira a agenda cultural do Teatro Hebraica para julho e agosto
    Espetáculos Adultos:

    Hoje acordei Gorda
    Direção de Adalberto Tessler Canterji
    Até 30 de julho, sextas e sábados, às 21h e domingos, às 20h.
    Ingressos: R$ 10,00 (30% de desconto para sócios do clube e meia entrada para estudantes e aposentados)
    Freud Explica (musical)
    Direção de Jotta Agá
    A partir de 4 de agosto, sextas e sábados, às 21h e domingos, às 20h.
    Ingressos: R$ 10,00 (30% de desconto para sócios do clube e meia entrada para estudantes e aposentados)
    Rainhas
    Direção André Farias
    A partir de 4 de agosto, segundas e terças-feiras, às 20h.
    Ingressos: R$ 10,00 (30% de desconto para sócios do clube e meia entrada para estudantes e aposentados)
    Espetáculos Infantis:
    O Grande Hablich (show de mágicas)
    Direção de Rogério Hoch
    Até o dia 13 de agosto, sábados e domingos, às 16h
    Ingressos: R$ 10,00 (30% de desconto para sócios do clube e meia entrada para estudantes e aposentados). Adultos acompanhantes estão isentos da entrada.
    A Fada Azul em A Cidade dos Bonecos
    Direção de Daniela Lima
    A partir de 19 de agosto, sábados e domingos, às 19h.
    Ingressos: R$ 10,00 (30% de desconto para sócios do clube e meia entrada para estudantes e aposentados). Adultos acompanhantes estão isentos da entrada.
    Oficina de Teatro
    Com Rodrigo Marquez
    Início: 24 de julho (aulas as segundas e quartas-feiras, das 19h às 21h30)
    Valor: R$ 900,00 à vista ou R$ 100,00 de entrada + 5x de R$ 160,00.

  • Proposta de unificar órgãos ambientais é contestada

    Guilherme Kolling

    Nos últimos meses, diretores e técnicos da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) passaram a se reunir uma vez por semana para discutir uma possível unificação dos órgãos ambientais do Estado. A proposta prevê a fusão da Sema, Fepam, Fundação ZoôBotânica (FZB), Departamento de Recursos Hídricos (DRH) e Departamento de Florestas e Áreas Protegidas (Defap) em uma única estrutura.

    O diretor-presidente da Fundação, Antenor Ferrari diz que a idéia é criar uma instituição auto-sustentável, com arrecadação própria. “O objetivo também é integrar as atividades, dar mais harmonia ao trabalho, reduzir custos, prazos e atingir uma eficiência maior”, explica.

    O primeiro passo para que a proposta seja transformada num projeto de lei do Governo é a aprovação interna, na instituição. O debate está acontecendo desde abril de 2006, depois da última reformulação no secretariado do Governo Rigotto, que levou Antenor Ferrari para a presidência da Fepam e Cláudio Dilda para o posto de secretário estadual do Meio Ambiente.

    Apesar de as discussões ainda estarem na fase inicial, a Associação de Funcionários da Fepam (Asfepam) e o Sindicato dos Empregados de Fundações Estaduais (Semapi) já se manifestaram contra o projeto. “É importante discutir o modelo de órgão ambiental que queremos, mas isso não pode ser feito de maneira atropelada, em final do Governo”, reclama a engenheira agrônoma Sirlei Haubert, que integra a atual gestão do Semapi.

    Ela concorda que o tema deve ser debatido com corpo funcional da Sema, para melhorar a eficiência, integrar as atividades e facilitar o trabalho. “Mas para isso não é necessário unificar os órgãos ambientais, o que mudaria a estrutura política que está estabelecida. É possível criar procedimentos administrativos para que haja essa integração entre os setores”, entende.

    O presidente da Asfepam, Antenor Pacheco Netto, há 25 anos trabalhando na Fundação, acredita que o debate sobre o futuro do órgão ambiental ainda não ocorreu plenamente com a participação dos servidores. De qualquer forma, ele também aposta em ajustes internos na Sema como melhor saída para dinamizar o trabalho do órgão ambiental.


    Sirlei e Pacheco: resistência à unificação (Foto: Tânia Meinerz/JÁ)

    Asfepam denuncia desmonte dos órgãos ambientais

    Para o presidente da Asssociação dos Servidores da Fepam, Antenor Pacheco Netto, 50, mais importante do que debater a unificação dos órgãos ambientais do Rio Grande do Sul é discutir a falta de estrutura dessas instituições. “Está ocorrendo de forma acelerada em todo país um verdadeiro desmonte do setor”, denuncia.

    Ele cita como exemplo os casos da Fepam, do Defap e do DRH, que sofrem com a carência de funcionários. “A criação da Secretaria Estadual do Meio Ambiente em 1999 foi um passo importante, mas não é o suficiente. Faltou estruturá-la, criar regionais, capacitar as instituições, contratar pessoal e ter uma preocupação com a arrecadação”, aponta.

    Nesse quesito das verbas, Pacheco cita a mudança no processo de renovação de licença ambiental de operação, que antes ocorria todo ano e depois passou a ser feita em até cinco anos, o que diminuiu a arrecadação, pois a cada novo pedido, o empreendedor paga uma taxa. A mudança nos prazos ocorreu para agilizar o trâmite dos processos de licenciamento, que hoje somam 13 mil, entre os que estão à espera de uma resposta da Fepam.

    “Não entro na questão da medida em si, mas na falta de uma iniciativa para manter a arrecadação que havia antes”, observa. Ele defende que a taxa para o licenciamento ambiental deve levar em consideração o poder econômico do empreendedor e o impacto do projeto. “Há distorções em relação à capacidade econômica. Os pequenos produtores poderiam pagar um valor menor e os grandes empreendimentos industriais uma taxa maior”, defende.

    Empregos melhores

    A carência de funcionários não é o único problema dos órgãos ambientais. A contratação de novos servidores também é difícil em virtude do nível dos salários, menor do que outros do setor público. No último concurso da Fepam, por exemplo, uma boa parte dos 38 técnicos contratados não ficaram no cargo – buscaram concursos e empregos mais rentáveis.

    Com o projeto de unificação dos órgãos ambientais e a mudança do caráter jurídico das instituições, os funcionários temem perdas em termos de plano de carreira e direitos trabalhistas. “Não se trata de corporativismo. A questão é que a defasagem salarial provoca um verdadeiro desmanche, como o que já está acontecendo. Conheço pelo menos seis colegas que saíram por esse motivo”, conta a dirigente do Semapi, Sirlei Haubert, que está na Fepam há quatro anos.

    Para o presidente da Associação dos Funcionários da Fepam, Antenor Pacheco Netto, o resultado é que as melhores “cabeças pensantes” saem e ficam profissionais que não tiveram alternativa melhor. “Deveria ocorrer o contrário, precisamos da nata da sabedoria. Os técnicos devem ter condições financeiras e capacidade técnica para conseguir enfrentar as pressões do poder político e econômico e defender a sociedade. Sem convicção, o sujeito se dobra”, observa.

    Ele conta que o técnico já tem uma sobrecarga de trabalho, dezenas de processos de licenciamento para analisar. De outro lado, há empresas que contratam dezenas de especialistas só para tratar do licenciamento de um empreendimento, as vezes chamam até consultoria do exterior. “Se o profissional não tiver conhecimento e convicção, carimba e aprova. Vira um despachante ambiental e o órgão uma fabriqueta de licenças”, compara.

    Terceirização é atacada

    Para agilizar o licenciamento, além da municipalização dos empreendimentos de impacto local, a Fepam discute terceirizar os estudos, transformando-se num órgão que vai fazer a supervisão, monitorando a qualidade ambiental. “Não compactuamos com a terceirização do serviço da Fepam”, afirma a dirigente do Semapi, Sirlei Haubert. “O órgão ambiental não pode seguir o trabalho de terceiros. O que o processo diz é uma coisa, a realidade é outra. Checar tudo é fazer trabalho dobrado”, entende.

    “O Estado tem que estar na mão do Estado, para que a gestão possa ser feita de acordo com os interesses da sociedade”, defende Pacheco. “O sistema já tem problemas. Com isso eles serão agravados. Transferir essas atividades para o mercado é estimular o mau empresário, o mau prestador de serviço, com o fim de liberar empreendimentos. Vão começar a vender EIA-Rima, como no caso de Barra Grande”, projeta o presidente da Associação de Funcionários da Fepam.

  • Realidade domina Festival de Cinema de Gramado

    Naira Hofmeister
    Com novas regras de exibição dos competidores, o 34º Festival Internacional de Cinema de Gramado divulgou na semana passada os filmes que participam da edição 2006. As mostras de longas-metragens não dividem-se mais em ficção e documentário, mas sim, entre cinema brasileiro e latino, que antes concorriam na mesma categoria. Outra novidade será a sessão exclusiva para curtas-metragens, que não serão mais projetados entre os dois longas de cada noite, para adiantar o final da sessão, que, em alguns casos, passava da meia-noite.
    Entre os longas brasileiros, destaca-se a temática comum: com exceção da ficção de Marcelo Santiago, Sonhos e Desejos, que narra diálogos de três jovens sobre a política nacional, os outros quatro concorrente versam sobre situações factuais brasileiras. Dois documentários – Atos dos Homens, de Kiko Goifman e Pro Dia Nascer Feliz, de João Jardim – narram aspectos problemáticos da realidade brasileira. Atos dos Homens, é explicado em sua sinopse como “um raio X da violência na Baixada Fluminense”. Desigualdade social, banalização da morte e o cotidiano agressivo do local são o foco da película, que também dialoga com os moradores do local. Já Pro Dia Nascer Feliz, do aclamado diretor João Jardim, de Janela da Alma, tem como tema a educação brasileira e suas disparidades: “Meninos e meninos, ricos e pobres em situações que revelam precariedade, preconceito, violência e esperança. Em três estados brasileiros, em classes sociais distintas, adolescentes falam da vida na escola, seus projetos e inquietações numa fase crucial de sua formação”.
    Serras da Desordem, do ítalo-brasileiro Andrea Tonacci registra a fuga de um índio durante um ataque de fazendeiros à sua aldeia, que passa 10 anos vagando pelas serras do Brasil Central. Após esse tempo, é descoberto e vira notícia em Brasília, onde especialistas debatem sua origem e identidade. Ele termina por reencontrar um filho com quem retorna ao Maranhão mas a situação que encontra não está mais de acordo com a vivência de sua liberdade nômade. A curiosidade desse longa-metragem é que os papéis principais do filme são vividos pelos próprios personagens que passaram pela situação real. Carapirú, Tiramukõn, Camairú e Myhatxiá do filme, são os da vida real, assim como os brancos  Sydney Ferreira Possuelo e Estelita Rosalita dos Santos, que interpretam a si mesmos.
    Por fim, a ficção Anjos do Sol, dirigida por Rudi Lagemann – conhecida figura do cinema gaúcho, onde produziu os clássicos Deu Pra Ti Anos 70 e Verdes Anos – traz para a tela o problema da prostituição. Em sua estréia em longas, o diretor conta a saga da menina Maria, de 12 anos, que, no verão de 2002, é vendida pela família, no interior do nordeste brasileiro, e termina num prostíbulo localizado numa pequena cidade, vizinha a um garimpo, na floresta amazônica. Após meses sofrendo abusos com outras meninas, Maria consegue fugir e atravessa o Brasil na carona de caminhões, chegando ao Rio de Janeiro onde vai novamente se deparar com a possibilidade de vender seu corpo.

    Anjos do Sol narra drama de uma menina obrigada a se prostituir (Divulgação)

    O 34º Festival Internacional de Cinema de Gramado acontece de 14 a 19 de agosto de 2006, na cidade serrrana. Alem dos longas-brasileiros em competição, outros cinco filmes concorrem na categoria Latinos (Di buen dia a papa, El Método, 4 Mujeres Descalzas, Mezcal e El Caracazo).
    Nenhum gaúcho na mostra de curtas
    À exceção da mostra exclusiva para a produção cinematográfica local, o Rio Grande do Sul será representado apenas por dois curta-metragens, que concorrem na catergoria 16mm (Terra Prometida, de Guilherme Castro e a animação Super Mano, dirigida por Luiz Rangel e Xande Soares). Na mais nobre das bitolas, 35mm, não há nenhum filme produzido no sul entre os concorrentes ao Kikito. Em edições anteriores, os curtas do estado sempre foram alvo de elogios: em 2004, Messalina, de Cristiane Oliveira e Cinco Naipes de Fabiano de Souza foram os destaques. Já na edição passada, o brilho gaúcho ficou por conta de Os Olhos do Pianista de Frederico Pinto.
    Em 2006, dos 13 concorrentes na categoria 35mm, as produções se concentram no centro do país, com quatro representates dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Ainda há dois concorrentes da Bahia, um do Ceará, um do Espírito Santo e outro de Santa Satarina. Entre os curtas em 16mm, além dos gaúchos, disputam os troféus três filmes paulistas, três cariocas e outro do Distrito Federal. Entre os gaúchos, Luiz Rangel domina a cena de curtas-metragens, dirigindo nada menos que 7, das 24 produções que disputam os troféus.
    Acompanhe a lista completa:
    CURTAS 35mm
    Alguma Coisa Assim (SP)
    Diretor: Esmir Filho
    Beijo De Sal (RJ)
    Diretor: Felipe Gamarano Barbosa
    De Glauber Para Jirges (SP)
    Diretor: André Ristum
    Dos Restos e das Solidões (CE)
    Diretor: Petrus Cariry
    Distúrbio (SP)
    Diretor: Mauro D´Addio
    Fúria (RJ)
    Diretor: Marcelo Laffitte
    Manual Para Atropelar Cachorro (RJ)
    Diretor: Rafael Primo
    O Anjo Daltônico (BA)
    Diretor: Fábio Rocha
    O Quintal Dos Guerrilheiros (SP)
    Diretor: João Massarolo
    O Sr. e a Sra. Martins (SC)
    Diretor: Laine Milan
    No Princípio era o Verbo (ES)
    Diretor: Virgínia Jorge
    Vermelho Rubro Do Céu Da Boca (BA)
    Diretor: Sofia Federico
    Quando O Tempo Cair (RJ)
    Diretor: Selton Mello
    CURTAS 16mm
    A Goiabeira (RJ)
    Diretor: Ed Lopez
    Alguns Recados (SP)
    Diretor: Thiago Faelli
    Arraiada (SP)
    Diretor: Henrique Rossi
    Berenice (RJ)
    Diretores: Bruno Duarte, Luciana Penna
    Meus Amigos Chineses (RJ)
    Diretor: Sérgio Sbragia
    O Poeta e O Capitão (DF)
    Diretor: Jorge Oliveira
    Recortes (SP)
    Diretor: José Eduardo Milani
    Terra Prometida (RS)
    Diretor: Guilherme Castro
    Super Mano (RS)
    Diretor: Luiz Rangel E Xande Soares
    MOSTRA GAÚCHA
    A Domicílio
    Diretor: Nelson Diniz
    A Noiva E O Violonista
    Diretor: Vicente Moreno, Moisés Westphalen E Denny Chang
    A Porta
    Diretor: Marcelo Restori
    A Re-Volta Da Banana
    Diretor: Luiz Rangel, Gustavo Rosseb, Vânia Martins
    Cavalo De Tróia
    Diretor: Luiz Rangel
    Como Se Atravessa
    Diretor: Luiz Rangel,Vania Martins, Bruno Carboni
    Da Pomerânia A Ibirubá – A Saga De Um Povo
    Diretor: José Carlos Heinemann
    Efeito Dominó
    Diretor: Emílio Caio Ferasso
    Estrondo
    Diretor: Luiz Rangel
    Júlia
    Diretor: Carlos Eduardo De Oliveira Nazário
    Leonel Pé-De-Vento
    Diretor: Jair Giacomini
    Lótus
    Diretor: Cristiano Trein
    Mal Comum
    Diretor: Luiz Rangel, Bruno Carboni, Jone Shustes, Vânia Martins
    Noite Quente
    Diretor: Rodrigo Goulart Godinho
    O Tempo De Clarissa
    Diretor: Jessica Luz E Tatiana Nequete
    Rolex De Ouro
    Diretor: Beto Rodrigues
    Sketches
    Diretor: Fabiano De Souza
    Super Flufi
    Diretor: Tula Anagnostopoulos
    Super Tinga
    Diretor: Luciano Moucks
    Vera Lúcia
    Diretor: Diego De Godoy
    Pai
    Diretor: Luiz Rangel, Vania Martins, Bruno Carboni
    Super Mano
    Diretor: Luiz Rangel e Xande Soares
    Terra Prometida
    Diretor: Guilherme Castro
    Um Aceno Na Garoa
    Diretor: Mário Nascimento
    Homenagens para aqueles que construíram a história do cinema nacional*
    O cineasta Nelson Pereira dos Santos, o dcumentarista Vladimir Carvalho e o ator Antônio Fagundes serão as personalidades a receber troféus na 34º edição do festival.
    O aclamado diretor Nelson Pereira Dos Santos, primeiro cineasta brasileiro a integrar a Academia Nacional de Letras, receberá uma comenda na noite de premiação no sábado, dia 19. Responsável pela adaptação de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, para o cinema, entre outras obras-primas, é um dos brasileiros mais prestigiados e premiados internacionalmente. Em reconhecimento ao seu trabalho, já foram organizadas mostras e retrospectivas de suas produções em países como França, Itália, Canadá, EUA e Japão, entre outros. Além disso, recebeu o troféu Eduardo Abelin no Festival de Gramado de 1998, bem como homenagens nos festivais de Cannes, Havana e Polônia.
    Vladimir Carvalho, pela dedicação de toda a sua vida ao cinema, e mais particularmente aos documentários, receberá a 6ª edição do troféu Eduardo Abelin. Professor titular da Universidade de Brasília nas disciplinas de cinema, foi o roteirista do documentário Aruanda, no final dos anos 50 – uma resposta ao surgimento do cinema novo no sul do país – dando início ao documentário moderno no Brasil. É autor de O País de São Saruê, que permaneceu cerca de nove anos interditado pela censura e só foi liberado com a Anistia, em 79. Ainda em sua filmografia estão O Homem de Areia (sobre a revolução de 30), O Evangelho Segundo Teutônio, A Paisagem Natural e Conterrâneos Velhos de Guerra.
    Por sua contribuição de mais de três décadas ao cinema brasileiro, Antônio Fagundes receberá o troféu Oscarito, em sua 17ª edição. O ator, carioca de nascimento, mas que aos oito anos mudou-se para São Paulo com os pais, desde muito cedo demonstrava apreço pelas artes cênicas. Aos 14 anos fez sua estréia nos palcos, ainda no colégio. Já em 1969 ele roda A Compadecida, adaptação da obra de Ariano Suassuna dirigida por George Jonas – uma das produções mais caras do cinema brasileiro até aquele momento. A partir de então, Fagundes transita intensamente entre o cinema, os palcos e a TV, construindo uma sólida reputação baseada no trabalho e no talento e transformando-se em um dos ícones da dramaturgia nacional.
    A entrega dos troféus Oscarito e Eduardo Abelin ocorrerá nos dias 15 e 16 de agosto, respectivamente, e a comenda especial a Nelson Pereira dos Santos será oferecida na noite de sábado, 19 – a principal noite de premiações.
    * Com informações da Assessoria de Imprensa do Festival

  • Balança mas não cai

    Tapume auxiliava no reparo de fachada (Fotos: Helen Lopes/JÁ)

    Por volta das 10h da manhã deste sábado, 15 de julho, um caminhão do supermercado Nacional, ao manobrar para estacionar, esbarrou num tapume instalado na avenida Venâncio Aires, entre a Augusto Pestana e a Osvaldo Aranha, na calçada oposta ao Hospital de Pronto Socorro, um dos trechos de maior movimento de Porto Alegre.

    A estrutura ficou apoiada no veículo. Se o caminhão arrancasse, parte do tapume desmoronaria. Bento Ramos, técnico em edificações da empresa Projebras Engenharia, responsável pela obra, atesta que não há perigo de desabamento. No início da tarde, o caminhão ainda servia de apoio ao tapume. Horas depois, o problema foi resolvido.

    No detalhe: caminhão apóia tapume

    O Nacional informou que irá ressarcir os gastos com o reparo. O caminhão encostava para descarregar mercadorias na loja da esquina Venâncio com a Osvaldo Aranha. A calçada está parcialmente interrompida desde maio quando um bloco de lajotas desprendeu-se e caiu de uma altura de 20 metros na cabeça de um pedestre.

  • Aproxima-se do fim a novela do zoneamento

    Detalhe da região do Estado que registra maior número de plantios florestais, como ilustram as manchas verdes do mapa

    Geraldo Hasse

    Vinte anos depois das primeiras resoluções do Conselho Nacional do Meio Ambiente sobre o licenciamento ambiental para plantios florestais, os órgãos ambientais ainda tentam ajustar sua conduta. No Rio Grande do Sul,  pressionada pelos fatos, a Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) trabalha há dois anos para criar normas que regulem o crescimento acelerado da área ocupada por plantios florestais. “O zoneamento ambiental é um instrumento técnico mais firme do que um plano diretor”, diz o assessor da presidência da Fepam, Mauro Moura.

    Ele acompanha o trabalho do grupo que elabora as regras do zoneamento ambiental para a silvicultura. Se não houver nenhum problema, o regulamento deverá entrar em uso no início de 2007. A partir daí, além de licenciamento, será exigido monitoramento da área plantada. A silvicultura será a segunda atividade agrícola controlada pela Fepam. A primeira, enquadrada em 2004, é a lavoura de arroz irrigado, que ocupa pouco mais de 1 milhão de hectares no Estado.

    A primeira fase do zoneamento ambiental foi concluída em novembro de 2005. O trabalho procurou identificar as diferentes “unidades paisagísticas” existentes no Rio Grande do Sul. A partir de janeiro de 2006 o grupo de trabalho passou a detalhar as características socio-ambientais de cada um desses biomas. Nas páginas a seguir, veja o detalhamento deste trabalho e a discussão sobre os plantios florestais no Rio Grande do Sul.

    Estudo divide o Estado em 37 unidades paisagísticas

    O grupo de trabalho do zoneamento ambiental é formado por 12 técnicos – quatro da Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luiz Roessler (Fepam), quatro da Fundação Zoobotânica e quatro do Departamento de Florestas e Áreas Protegidas (Defap) da Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Sema).

    No primeiro momento, no final de 2004, eles se dedicaram a definir a metodologia do trabalho, conta Silvia Pagel, engenheira florestal da Fepam. Em seguida levantaram as cartas temáticas contendo dados sobre os rios, solos, vegetação, topografia e clima do território gaúcho. Encerrado em novembro de 2005, esse trabalho resultou na divisão do Estado em 37 diferentes unidades paisagísticas.

    A partir de janeiro de 2006 o grupo passou a detalhar as características socio-ambientais de cada um desses biomas. Os dados mais relevantes no caso são a existência ou não de espécies animais ou vegetais endêmicas, as alterações do meio ambiente, os usos do solo e o balanço hídrico, entre outros. Alguns levantamentos dependem de terceiros. Uma empresa de consultoria tem até o fim de junho para levantar a disponibilidade e o consumo de água em todas as regiões gaúchas.

    Diversos órgãos públicos estão colaborando no esforço para organizar um zoneamento florestal eficiente. A Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) vai ceder dados do mapeamento do bioma pampa, encomendado pelo ProBio, do Ministério do Meio Ambiente.

    A Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) recebeu verba da CaixaRS para atualizar seu estudo sobre a área ocupada por pinus, eucalipto e acácia, as três espécies madeireiras mais cultivadas no Estado. Sabe-se que o total situa-se entre 300 mil e 400 mil hectares e no mínimo deve dobrar com os plantios prometidos pela Aracruz, Votorantim e Stora Enso, que têm projetos de implantar três novas fábricas de celulose na Metade Sul.

    Mais do que um levantamento, a equipe do professor Doadi Brena em Santa Maria está fazendo a identificação do potencial de mercado, das demandas e das necessidades do setor florestal no Rio Grande do Sul. Com recursos oferecidos pelo Corede da Zona Sul, técnicos da Embrapa de Pelotas estão mapeando as áreas mais adequadas para o incremento da silvicultura.

    A Emater forneceu dados sobre áreas ocupadas por remanescentes de quilombos gaúchos – são mais de 100. As reservas indígenas somam duas dezenas. Com base nessas informações é que se vai licenciar o plantio de árvores visando a produção de matéria-prima para diversos ramos industriais, principalmente a indústria de celulose.

    Na Fepam não existe má vontade com a silvicultura nem preconceito contra qualquer espécie vegetal. Há sim prevenção contra o risco do avanço de monoculturas. Mas é preciso relativizar as coisas, diz Mauro Moura, assessor da presidência da Fepam. “Em alguns aspectos a soja pode ser mais perigosa do que o eucalipto”, afirma ele.

    A leguminosa chinesa se adaptou extraordinariamente ao Brasil mas na sua arrancada provocou muita erosão no norte gaúcho. E seu cultivo exige o uso de herbicidas danosos para o meio ambiente. A engenheira florestal Silvia Pagel vê com horror a monocultura da cana-de-açúcar no interior de São Paulo. “Quando falam em deserto verde, eu me lembro dos canaviais. O cultivo de cana também exige muita água”, diz ela.

    O balanço hídrico é o condicionamento fundamental para o avanço ou não da silvicultura comercial no Rio Grande do Sul. Onde houver déficit de água as florestas artificiais não serão licenciadas. Do ponto de vista superficial, a maior preocupação é com a perda de habitats. Nesse sentido, “a silvicultura tem que ser integradora”, diz Silvia Pagel. Em outras palavras, a engenheira florestal da Fepam quer dizer que o plantio de árvores pode ser uma alternativa de uso de solo e de renda para o agricultor que sofre com o baixo rendimento da pecuária e apanha do mercado de grãos.

    Num plano mais geral, o regramento da atividade florestal pode servir como alavanca para a recuperação de áreas degradadas ou nunca olhadas pela política econômica. “O bioma pampa está abandonado”, diz Mauro Moura, sugerindo que a silvicultura pode ser uma alavanca capaz de direcionar investimentos para a Metade Sul.

    Leia a íntegra da matéria no Jornal JÁ que está nas bancas

  • Saem de cena as últimas empreiteiras da usina eólica

    Subestação elétrica-central de controle do Parque Eólico de Osório (Foto Geraldo Hasse/JÁ)

    Geraldo Hasse, exclusivo para o JÁ

    Com a iminente conclusão do Parque Eólico de Osório, a antepenúltima prestadora de serviços a deixar o canteiro de obras é a J. C. Construções Elétricas Ltda, uma das poucas firmas de Osório a participar da implantação da usina que marca o início da revolução eólica em andamento no Rio Grande do Sul.

    Fundada há 20 anos pelo engenheiro eletricista José Carlos Araújo, ex-funcionário da CEEE e um dos pioneiros na busca por energias alternativas no Rio Grande do Sul, a J. C. sai de cena satisfeita: “Valeu pelo desafio, pela experiência e pela abertura para participar de novos empreendimentos na produção de energia eólica”, diz o técnico eletricista e administrador Elsom Witt Venturini, um dos sócios-diretores da empresa.

    Vencedora de uma licitação que atraiu outras seis empresas de fora, a J. C. foi contratada para implantar toda a rede elétrica subterrânea que liga os cata-ventos à subestação-central de controle – um trabalho complexo que exigiu dedicação exclusiva de um grupo de 16 funcionários liderados pelo engenheiro Ronaldo Machado Horn. Para cumprir seu contrato, a J.C. dependeu basicamente de três fornecedores que, além de material, lhe ofereceram treinamento: Phelps Dodge Brasil (cabos), Erico do Brasil (soldas isotérmicas) e Ormazabal (quadros de comando).

    A missão começou pelo aterramento das bases das torres. Para isso a J. C. teve de acompanhar passo a passo o trabalho dos operários da Archel Engenharia, responsável pela armação de ferro e a concretagem das bases. À medida que se realizava a armação, os técnicos da J. C. instalavam os cabos de cobre indispensáveis para isolar as bases do perigo de descargas elétricas naturais (raios). A proteção dos aerogeradores contra os raios ficou por conta da Wobben Windpower, dona da tecnologia de geração eólica, que não libera para ninguém as chaves das portas das torres.

    A parte mais pesada da tarefa da J. C. era fazer a ligação elétrica entre os transformadores – situados na base das torres – e a central de controle. São três cabos elétricos enterrados a um metro de profundidade. Um pouco acima, no mesmo valo, foi estendido o cabo de fibra óptica que serve para a transmissão de dados.

    Apenas num trecho do Parque Eólico foi construída uma rede aérea – no Parque dos Índios, onde estão os cata-ventos mais distantes da central de controle. Mais barata do que a subterrânea, a rede aérea foi a solução encontrada pela Ventos do Sul para transpor o duto da Petrobras que transporta petróleo de Tramandaí para a Refinaria Alberto Pasqualini em Canoas. Implantado na década de 1960, o oleoduto está sendo reformado para atender à ampliação da capacidade da refinaria.

  • MP tenta desativar ERBs irregulares há mais de um ano

    Helen Lopes

    Em 30 de abril de 2005, quando entrou em vigor a lei municipal que regulamenta a instalação de antenas de celular em Porto Alegre, 91 Estações de Rádio-Base (ERBs) estavam irregulares. Apenas sete foram desativadas desde então.

    Depois de se reunir com as empresas, solicitando a adequação, o Ministério Público, através da Promotoria de Meio Ambiente, entrou com três ações requerendo a retirada das antenas irregulares da Brasil Telecom, Vivo (CRT) e Claro (Telet).

    A medida foi tomada em junho de 2005 e o processo ainda está tramitando no Foro Central da Capital. De acordo com a promotora Ana Maria Marchesan, o trâmite é demorado “porque existem muitos interesses financeiros e jurídicos em jogo”.

    Enquanto aguarda a decisão definitiva, a Promotoria solicitou, através de liminar, que as antenas localizadas a 50 metros de escolas, creches, hospitais, centros de saúde, clínicas cirúrgicas e geriátricas fossem desativadas. São 32 ERBs nesta situação. Para desativá-las, o MP entrou com três liminares, uma contra cada empresa – Claro, Vivo e Brasil Telecom.

    A solicitação relativa as sete antenas da Vivo foi acolhida, em 2º Grau, pela 3ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado (TJ). Conforme o relator, desembargador Paulo de Tarso Vieira Sanseverino, a empresa teve “prazo bastante razoável” – três anos – para se adequar às exigências da Lei Municipal.

    O magistrado afirmou também ser “plenamente incidente o princípio da precaução”, por não haver certeza científica acerca dos efeitos nocivos que as radiações não-ionizantes poderiam causar à saúde da população. A Vivo acatou a decisão e desativou as sete antenas em maio deste ano (são as únicas, aliás, das que estavam irregulares e foram desligadas).

    O pedido que se refere as 10 antenas da Claro foi recusado pelo juiz Giovanni Conti, da 15º Vara Cível, do Foro Central, e confirmado, em 2º Grau, pela 4ª Câmara Cível do TJ, por entender que tal fiscalização cabe à administração municipal, conforme consta no processo.

    A outra liminar, contra a Brasil Telecom, foi aceita em 21 de junho de 2005, pelo juiz Roberto Gomes da Silva, também da 15º Vara Cível, e referendada pela 21º Câmara Cível do TJ. Determinava o desligamento de 15 ERBs, mas a empresa se recusa a seguir a orientação. Argumenta que, como a liminar da Claro não foi aceita, a sua também não poderia ser, pois seis antenas estão situadas no mesmo local da outra companhia. A empresa contesta a desativação das antenas situadas na rua Butuí, 21, Carlos Von Koseritz,1543, Demétrio Ribeiro, 601, Dr. Freire Alemão,207, Dr. Dias de Carvalho, 247 e Itararé,195.

    O MP concordou que a antena localizada na rua Carlos Von Koseritz, 1543 não descumpre a diretriz dos 50 metros e aceitou a sua exclusão da lista. Mas entende que as outras 14 antenas da empresa devem ser desligadas.

    De acordo com a promotora Ana Maria Marchesan, a situação das antenas da Brasil Telecom é diferente porque a empresa entrou no mercado de telefonia móvel após a vigência da lei, não se enquadrando na norma que determinava o período de adequação. “Ao compartilhar torres ilegais de outras empresas, as antenas estão irregulares da mesma forma. As licenças estão vencidas”, sustenta Ana Maria, que incluiu no processo, na sexta-feira, 7 de julho, esclarecimentos sobre as irregulares. A Promotoria aguarda novo posicionamento do juiz.

    A Brasil Telecom preferiu não se manifestar enquanto tramita o processo.

    Endereço das 10 antenas da Claro que constam na liminar negada
    Demétrio Ribeiro, 601 – Centro
    São Manoel, 556 –Santa Cecília
    Leopoldo Bier, 70 – Azenha
    Butuí, 21 – Cristal
    Dr. Freire Alemão, 207 – Mont’Serrat
    Dr. Dias de Carvalho, 247 – Tristeza
    Dom Pedro II, 891 – Higienópolis
    Itararé, 195 – Jardim São Pedro
    Eng. Ary de Abreu Lima, 301 – Vila Ipiranga
    Prof. Oscar Pereira, 8500 – Belém Velho
    Endereço das 15 antenas da Brasil Telecom que constam na liminar aceita*
    Baltazar de Oliveira Garcia, 1245 – Itu Sabará
    Butuí, 21 – Cristal
    Carlos Von Koseritz, 1543 – Auxiliadora **
    Av. Cavalhada, 2356 – Cavalhada
    Cel. Feijó, 197 – São João
    Demétrio Ribeiro, 601 – Centro
    Dom Pedro II, 891 – Higienópolis
    Dr. Freire Alemão, 207 – Mont’Serrat
    Dr. Dias de Carvalho, 247 – Tristeza
    Duque de Caxias, 979 – Centro
    Eng. Afonso Cavalcanti, 100 – Bela Vista
    Félix da Cunha, 879 – Moinhos de Vento
    Itararé, 195 Jardim São Pedro
    São Manoel, 556 – Santa Cecília
    Heitor Vieira, 159
    * A empresa ainda não cumpriu a determinação
    ** Excluída do processo

    Endereço das 7 antenas da Vivo desativadas
    Lageado, 215 – Petrópolis
    Umbu, 107 – Passo da Arreia
    Carlos Von Koseritz, 1543 – Auxiliadora
    Teresópolis, 2727 – Teresópolis
    Praça Comendador Souza Gomes, 227 – Tristeza
    Eugênio Du Pasquier,123 – Cristo Redentor
    Cavalhada, 4913 – Cavalhada
    Smam aceita retomar negociações com empresas

    A Lei Municipal 8.896, de abril de 2002, estabeleceu normas para telefonia móvel e concedeu 36 meses para a adequação das antenas que já estavam funcionando. Desde abril do ano passado, as ERBs deveriam manter uma distância mínima de 500 metros uma das outras, cinco metros de distância do terreno vizinho e afastamento de 50 metros de escolas, creches, hospitais, clínicas cirúrgicas e centros de saúde.

    As operadoras de telefonia celular não aceitam a lei e, mesmo com uma flexibilização proposta pela Prefeitura, preferiram discutir na Justiça. Após um ano e três meses em situação irregular, as antenas continuam funcionando.

    A Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Smam) autuou as empresas, mas o pagamento das multas foi suspenso por determinação judicial até o final do processo. “São dois processos em andamento, o administrativo e o judicial”, explica o secretário Beto Moesch.

    Ele conta que as empresas cogitam retomar as negociações. “Estamos dispostos a conversar sobre a situação das antenas já instaladas”, afirmou Moesch, ao enfatizar que “a lei ajudou a melhorar a paisagem urbana, ao evitar que a cidade se tornasse um paliteiro”.

    Segundo o secretário, desde maio de 2002, o número de antenas de celular mais que dobrou na Capital. O fenômeno não é visível porque a nova regra induz ao compartilhamento de torres, desde que não ultrapasse o limite de radiação, imposto pela lei.

  • A desigualdade como motor da violência

    Carolina Freitas, especial para o JÁ
    O economista e pesquisador da Universidade de Campinas, Ricardo Amorim, mapeou o Brasil no Atlas da Exclusão Social. O estudo mostra a desigualdade das grandes – e mais ricas – cidades brasileiras. Os indicadores utilizados para a medição do índice de exclusão são pobreza, violência, escolaridade, alfabetização, desigualdade social, emprego formal e concentração de jovens. São Paulo é um dos locais que apresenta o maior abismo social entre ricos e pobres. “Nas periferias das grandes cidades, a violência é proporcional à pobreza”, observa Amorim.
    O processo de desigualdade social como motor da violência se repete no Rio de Janeiro, confirma a antropóloga Alba Zaluar, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e uma das mais experientes estudiosas da violência urbana no país. Ela entende que a concentração populacional e a falta de infra-estrutura urbana são fatores que aumentam a tensão na Região Sudeste.
    “As duas maiores metrópoles brasileiras partilharam, nas últimas décadas, os efeitos acumulados de uma urbanização desordenada, fruto de ondas desenvolvimentistas intermitentes, aliadas a uma política urbana inexistente ou insuficiente”, observa Alba, em seu artigo ‘Violência: pobreza ou fraqueza institucional?’.
    O economista Ricardo Amorim acrescenta que o choque entre as classes sociais gera indignação, cobiça e, em última instância, a violência, traduzida em roubos, assaltos, homicídios e no crime organizado. “A sociedade nasce de direitos econômicos, então, quem tem dinheiro, tem cidadania”, explica.
    O estudante universitário Robson Melo, 23, morador da Rocinha, na Zona Sul do Rio de Janeiro, sente na pele essa lógica. “Sinto-me excluído diariamente. Mesmo fazendo uma faculdade e circulando em outras camadas sociais, sei que só circulo”, desabafa Robson. “Não consigo comprar os livros pedidos pelos professores, não tive a educação dos meus colegas, não sei outro idioma além do meu fraco português. Tudo faz parte de um mesmo jogo. Para que possa existir o rico, tem que existir o pobre. Sem um deles, não é mais possível tal distinção”, conclui.
    Robson participa do conselho gestor da Associação Cultura, Arte e Comunicação Comunitária. A instituição oferece cursos ligados à mídia e cultura e abriga um cyber café. A equipe acredita na auto-gestão e na auto-sustentação como formas de promover o desenvolvimento local na maior favela da América Latina.
    Ouvir a voz da comunidade é um bom começo para começar a diminuir a exclusão social. Mas, com o abismo social e cultural, não é tão simples reverter o quadro. O pesquisador Ricardo Amorim participou de projetos comunitários da prefeitura de São Paulo em locais violentos, como o Jardim Ângela, na Zona Sul da cidade. O programa esbarrou na desconfiança dos moradores. “Precisamos terminar com essa falsa integração social, impondo às comunidades a nossa visão de como os problemas devem ser enfrentados. Eles têm outros valores, que precisamos respeitar”, adverte Amorim.