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  • Obra do Instituto de Educação recebe R$ 50 mil para restauro

    Presidente da Associação de ex-alunos do Instituto de Educação, Amélia Bulhões, diretora institucional da Habitasul, Andréia de Oliveira,  e secretário da Cultura, Victor Hugo (Fotos: Helen Lopes)

    O Projeto SOS Arte, criado para promover a restauração de três telas históricas expostas no Instituto de Educação General Flores da Cunha, recebeu R$ 50 mil da Copesul, através da Lei Estadual de Incentivo à Cultura.

    O secretário estadual da Cultura, Victor Hugo, assinou, nesta quarta-feira, 29 de junho, o repasse do dinheiro. De acordo com o titular, a empresa já havia investido outros R$ 99 mil, na primeira parte do projeto orçado em aproximadamente R$ 260 mil.

    A verba vai auxiliar a finalização do restauro da obra “Tomada da Ponte da Azenha”, pintada em 1922, de 3,95m x 6,20m. “Com esse recurso financeiro, a recuperação da primeira tela está garantida”, comemora a presidente da Associação de ex-alunos do Instituto de Educação, Amélia Bulhões. A artista plástica Leila Sudbrack, responsável pela restauração, acredita que em quatro meses o quadro estará pronto.

    Restauração total das três obras custará cerca de R$ 500 mil

    O Projeto SOS Arte é uma iniciativa da Associação e conta com o apoio do Grupo Habitasul, na divulgação, e da construtora Goldstein, que doou os andaimes.

    As três telas de grandes dimensões preservam a memória histórica e o patrimônio artístico gaúcho. As pinturas retratam Garibaldi, a Ponte da Azenha e os imigrantes açorianos na chegada a Porto Alegre, em 1752. Pintadas por Augusto Luiz de Freitas e Lucílio de Albuquerque, as imagens praticamente desapareceram depois de anos abandonadas.

    Desde 1935, as obras estão expostas no saguão do IE por determinação do então Presidente de Província, Antônio Borges de Medeiros. Em 1969, ano em que foram feitas reformas no prédio, as telas não foram removidas. Ao permanecerem no local, em parte destelhado, sofreram danos pela ação do vento, água, luz solar e caliça.

    Em 1971, a direção da escola solicitou a então Secretaria de Educação e Cultura a restauração das pinturas, mas não foi atendida. Em 2004, mais de 30 anos depois, a Associação dos ex-alunos apresentou um projeto ao Conselho Estadual de Cultura para recuperação das telas. Aprovado, o projeto foi habilitado a receber os benefícios da LIC.

  • Ministério Público propõe pacto pela segurança

    Fórum Permanente de Segurança Pública chegou ao terceiro encontro (Foto: Divulgação/Sindilojas)

    Naira Hofmeister

    Ouviu-se um discurso diferente no terceiro encontro do Fórum Permanente de Segurança Publica, movimento ativado pelo Sindilojas de Porto Alegre após uma série de assaltos a shopping centers. Ao invés das queixas aos órgãos de segurança do poder público, que por sua vez reclamaram da falta de investimentos na área, propostas práticas para enfrentar a situação.

    Coube ao promotor Rui Eduardo Azevedo, que conduziu os trabalhos na manhã desta segunda-feira, 26 de junho, dar uma guinada na discussão. “Os órgãos como o Sindilojas, sindicatos e outros representantes da indústria, devem formar uma comissão para gerir financiamentos a campanhas políticas”, sugeriu.

    Para o promotor, os repasses aos candidatos devem ser feitos com base no comprometimento com as prioridades do setor, no caso, a segurança. A fala de Azevedo agradou aos representantes do sindicato dos lojistas, que propuseram inclusive uma candidatura representativa da categoria. A idéia agragou o presidente do Sindilojas, José Marconatto, que incentivou a participação nas eleições.

    Para o representante da Brigada Militar, o tenente-coronel Roberto Melo, a solução está condicionada à vontade política. “Estamos apagando todos os incêndios”, ironizou ele, referindo-se à utilização em casos como o do Batalhão Fazendário e o da contenção penitenciária.

    Reforma é uma das exigências

    A reforma do sistema penitenciário e do legislativo foi abordada por todos os representantes dos órgãos presentes – além do MP e da Brigada, a Secretaria de Direitos Humanos e Segurança Urbana da Capital (SDHSU). O cumprimento de no mínimo 1/3 da pena antes de passar ao regime semi-aberto – aquele em que o presidiário pode trabalhar de dia e ficar na cadeia apenas à noite – foi uma das mais fortes exigências. “Entre 70% e 80% desses assaltos à shoppings são feitos por presos que estão em regime semelhante”, garantiu o promotor Ryi Eduardo Azevedo.

    O coronel Trindade da SDHSU defendeu o repasse de verbas da União aos Estados, para complementar o orçamento da segurança. Trindade atacou o Governo Federal “pelo descaso com o assunto”, já que, segundo ele, a previsão orçamentária era de R$ 412 milhões e, em função de cortes contingenciais, tornou-se inferior a R$ 90 milhões. “É menos de cinqüenta centavos por cidadão, para investimentos em segurança”, condenou.

  • Stora Enso mantém projeto para o Estado


    “Não abandonaremos o Rio Grande do Sul”, garante o executivo da da Stora Enso (Foto: Carlos Carvalho/Arquivo JÁ Editores)

    Carlos Matsubara

    A multinacional sueco-finlandesa Stora Enso desmente que estaria pensando em abandonar suas operações no Rio Grande do Sul. Os rumores sobre uma possível transferência para o Uruguai, onde a empresa também mantém investimentos, ganharam corpo com as dificuldades que estaria tendo em regularizar suas terras na Região Oeste do Estado.

    O diretor florestal da empresa para a América Latina, João Borges, explica que, ao contrário do divulgado pela imprensa gaúcha, a Constituição de 1988 não proíbe empresas de capital estrangeiro de adquirir terras em faixa de fronteira e sim, “restringe algumas atividades que poderiam causar ameaça à segurança nacional, como fabricação de armas ou artefatos nucleares, por exemplo”.

    A espera da gigante, no entanto, promete ser longa. A previsão (otimista) é de pelo menos 90 dias até o Conselho de Defesa Nacional, em Brasília se pronunciar. Antes disso deve passar pelo Ibama e Funai. Hoje, os executivos aguardam liberação do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) para dar início aos plantios florestais.

    Isso sem contar com a novela do zoneamento ambiental do Estado, que regulamentará a silvicultura no Rio Grande, especialmente na região do pampa. A primeira fase do zoneamento foi concluída pela Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) em novembro do ano passado e mapeou as unidades paisagísticas do Rio Grande. Em janeiro deste ano, passou a detalhar as características sócio-ambientais de cada um deles.

    Borges explica que a regularização das terras será feita passo-a-passo. “Primeiro encaminhamos o pedido [de liberação] do primeiro lote. Só depois de liberado, encaminharemos o segundo e possivelmente, um terceiro lote”, explica.

    O primeiro lote, ao qual se refere, ocupa 34 propriedades nos municípios de Cacequi, Rosário do Sul e Alegrete, entre outras localidades próximas, totalizando cerca de 20 mil hectares. “Portanto, a notícia que estaríamos pensando em abandonar as operações no Rio Grande do Sul não procede, de maneira alguma”, afirma Borges.

  • Fepam recebe 36 solicitações de plantios florestais

    Patrícia Benvenuti

    A Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) apresentou na manhã de sexta-feira, 23 de junho, um balanço das autorizações para plantios florestais, concedidas após o Termo de Ajustamento de Conduta acertado com o Minstério Público em 12 de maio.

    O acordo com a Fepam e a Secretaria do Meio Ambiente estabeleceu regras para a silvicultura enquanto o zoneamento ambiental do Estado não está pronto. A expectativa é que o trabalho fique pronto até o final de agosto e seja colocado em prática a partir de janeiro de 2007. Enquanto isso, os plantios precisam de uma autorização da Fepam.

    Trinta e seis solicitações foram protocoladas até 20 de junho desse ano, e 16 receberam autorização, totalizando 6 mil hectares de área. Dois pedidos foram indeferidos. Os 20 projetos restantes, cerca de 2,5 mil hectares, aguardam liberação, com vistoria técnica marcada para a próxima semana.

    Junto com os quase 63 mil hectares da Votorantim Celulose e Papel, que tinha uma licença especial de operação e que foram regularizados, já são 69 mil hectares liberados para a silvicultura no Rio Grande do Sul. A meta da Fepam é liberar 700 mil hectares nos próximos dez anos.

    Para o presidente da Fepam, Antenor Ferrari, os números mostram que o órgão não está dificultando os plantios, mas trabalhando para que sejam cumpridas exigências legais e ambientais. Aliás, a coletiva de imprensa também serviu para o órgão ambiental rebater as críticas sobre a demora na liberação dos plantios, o que estaria ameaçando investimentos do setor de celulose no Estado.

    Ferrari destaca que os trabalhos são feitos com cautela, priorizando as relações “harmoniosas” e o diálogo entre os envolvidos. “Queremos deixar isso bem claro, porque a sensação que se tem aí fora é de que não liberamos plantio nenhum”, reclamou. A colocação rebate as críticas dos produtores rurais e matérias que saíram na imprensa, afirmando que a demora no licenciamento estaria pondo em risco os investimentos na Metade Sul.

    O presidente da Fepam também aproveitou para esclarecer o caso da Stora Enso, reiterando que seus plantios estão proibidos por problemas legais, e não ambientais. A empresa sueco-finlandesa precisa, primeiro, regularizar sua situação fundiária junto ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e ao Conselho Nacional de Segurança (CSN), pois a Constituição de 1988 proíbe empresas de capital estrangeiro de adquirir terras em faixa de fronteira – a menos de 150  quilômetros de distância outros países.”Logo que a Stora Enso obter permissão para plantar, vai protocolar seu pedido aqui”, projeta Ferrari.

    Helicóptero agiliza as vistorias

    O chefe do Serviço de Planejamento e Diagnóstico da Fepam, Jackson Muller acredita que o uso de um helicóptero, resultado do convênio com a Associação Gaúcha de Empresas Florestais (Ageflor), possibilitará que as vistorias sejam realizadas com mais agilidade. “Pelos meios tradicionais é muito complicado, é difícil deslocar os técnicos. O helicóptero permite que as vistorias sejam mais rápidas e ainda há a vantagem da vista aérea”, enfatiza.

    Jackson Muller: mais rapidez e vista aérea (Foto Carlos Carvalho/Arquivo JÁ Editores)

    O técnico ressaltou a preocupação com os córregos e os campos nativos e revelou que o cuidado é maior com o pinus. A característica da espécie exótica é invadir outros territórios, o que preocupa a Fepam. “Estamos liberando também o pinus, junto com o eucalipto e a acácia, mas sabemos que essa espécie precisa de mais atenção. Se não se adotar um controle objetivo, o pinus coloniza outros espaços”.

    O presidente da Fepam, Antenor Ferrari, assegura que, com a iniciativa privada, a sociedade têm ganhos não somente econômicos, como o desenvolvimento da Metade Sul, mas também ambientais. “Jamais o Estado teria condições de fazer tantos avanços na área ambiental sem as empresas. Vamos aproveitar para recuperar nossas áreas degradadas”, afirma. A idéia é “fazer do limão uma limonada”, como ilustra o executivo.

    A expectativa agora fica por conta dos pequenos produtores que, junto com a Caixa-RS, vão protolocar seus pedidos. Até o final, espera-se 100 a 150 projetos, em propriedades, cujo tamanho varia de 40 até 100 hectares.

  • Lei que obriga ensino da história afro-brasileira não é cumprida


    Representantes do Movimento Negro debateram questão na Assembléia (Foto: Naira Hofmeister/JÁ)

    Naira Hofmeister

    Publicada no Diário Oficial em 9 de janeiro de 2003, a Lei 10.639 obriga instituições de ensino públicas e privadas a incluírem em seus currículos disciplinas que contemplem a História e Cultura Afro-Brasileira.

    A iniciativa do Governo Lula, ainda em seus primeiros dias de mandato, empolgou a comunidade negra na época, mas nunca saiu do papel: “Assim como a Lei do ventre Livre, do Sexagenário e a própria Lei Áurea, essa não passa de uma carta de intenções, o que não serve à comunidade negra”, compara Onir Araújo, do Movimento Negro Unificado (MNU).

    A decepção com o não-cumprimento da lei mobilizou a Comissão de Educação, Cultura, Desporto, Ciência e Tecnologia e o deputado Edson Portilho (PT), que promoveram gerou um seminário na Assembléia Legislativa, nesta sexta-feira, 23 de junho. Oito entidades representativas da etnia participaram do evento.

    A principal queixa feita apresentada foi a falta de comprometimento dos governos com a legislação: “Quando se promulga uma lei, deve existir uma previsão orçamentária para que ela possa ser aplicada”, critica Onir. Ele denuncia que, de 2003 até agora, o Governo Federal fez muito pouco. A única ação que ele tem conhecimento foi a abertura de uma turma de capacitação de 2.000 professores, ministrada por uma ONG. “Isso só serve ao gestor da organização, pois o Governo repassa uma verba e a responsabilidade que só cabe ao poder público para o terceiro setor”, ataca.

    As reivindicações discutidas no debate envolvem, principalmente, a preparação dos profissionais da Educação para uma abordagem menos estigmatizada da história negra e também para a produção de materiais didáticos que contemplem a questão. “Nossos professores precisam se dar conta de que, por viverem nessa sociedade excludente, machista e racista, eles estão também cheios de preconceitos”, denunciou Waldemar de Moura Lima, o Pernambuco, líder do Movimento Quilombista e coordenador do grupo artístico-pedagógico Ponto Z.

    A hipótese de Pernambuco foi confirmada pela representante do CPERS, Denise Rodrigues Goulart, que garantiu que os professores não têm condições de abordar com segurança o assunto em sala de aula sem preparação prévia. “Após três anos e seis meses da promulgação, já era para estarmos num alto grau de prática da lei 10.639, mas o que vemos são professores se perguntando como vão ensinar isso aos alunos”, admite.

    As universidades também foram conclamadas a incluír no currículo dos cursos de licenciatura disciplinas que embasem aulas de história, sociologia, cultura e política relacionadas ao povo negro. Representantes da UniRitter garantiram que um grupo de trabalho estuda a aplicação de textos angolanos e moçambicanos em trabalhos de diversas disciplinas da universidade. Na UFRGS, outro grupo estuda aplicação da lei e faz pressão para que seja implementado o sistema de cotas.

    O deputado Edison Portilho pediu mais pressão suficiente da sociedade para que a lei seja cumprida. “Nosso país é o segundo maior em população negra no mundo, ficando atrás apenas da Nigéria”. O parlamentar também criticou os colegas que não dão atenção ao assunto, a Secretaria de Educação do Município, que não compareceu ao debate, e a imprensa, que não dá espaço ao assunto. “Temos que romper outra barreira, a dos interesses da grande mídia, que dá pouca importância ao assunto”.

  • Consema poderá escolher ONGs por sorteio

    Helen Lopes

    O Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema) debateu na reunião desta sexta-feira, 23 de junho, proposta de lei para reformular a indicação de representantes das cinco Organizações Não-Governamentais (ONGs) ambientalistas com assento no Conselho.

    A intenção é dar fim ao impasse ocasionado pelo não reconhecimento de uma indicação da Assembléia Permanente das Entidades em Defesa do Meio Ambiente (Apedema) pelo Governo do Estado. Com isso, as ONGs ecológicas se afastaram da Consema, desde abril. Na reunião desta sexta, elas estiveram ausentes mais uma vez.

    A Assessoria Jurídica do Conselho sugere que a nomeação seja feita a partir de um sorteio. “Haverá um prazo para a inscrição e a partir desse cadastro, faremos o sorteio em plenário”, propõe a assessora da Câmara Técnica Jurídica do Consema, Margeri Oliveira. “Nosso objetivo é criar um critério simples para evitar problemas, como essa situação que estamos vivenciando”.

    A proposta foi bem recebida pelos participantes, mas a decisão final ficou para o próxima encontro, marcado para o dia 20 de julho. A idéia é submeter o tema aos representantes das ONGs. Outro proposição debatida é a autorização do Governo do Estado a ressarcir os gastos dos participantes.

    O presidente do Consema, Valtemir Goldmeier, representante da Federação das Associações de Municípios do RS (Famurs), observa que apenas uma vaga não está na atual gestão do Conselho. “As outras ONGs não estão participando por decisão própria. Precisamos da posição deles para a aprovação ou não dessa proposta”.

    ONGs se afastaram em abril


    Kátia: ação na justiça (Foto: Carlos Carvalho/Arquivo JÁ Editores)

    As cinco ONGs ambientalistas que ocupam assento no Consema – Agapan, Núcleo Amigos da Terra (NAT), UPAN, Mira-Serra e Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais – decidiram se afastar do principal fórum de debates ambientais do Estado em abril.

    O motivo foi a não-homologação, pelo Governo do Estado, do Núcleo Amigos da Terra, escolhido pela Apedema. A instituição foi substituída pela ONG Os Amigos da Floresta, de Santa Maria.

    Ambientalistas reclamam o desrespeito da Resolução do Consema nº 107, de setembro de 2005, que determina que apenas a Apedema indique as entidades que devem ocupar os cinco assentos que o movimento ecológico detém no Conselho.

    Com isso, o NAT vai recorrer ao Ministério Público Estadual. Deve ingressar com uma representação contra o Consema. A ativista do Núcleo Amigos da Terra, Káthia Vasconcellos, conta que a documentação está sendo reunida, mas não há prazo definido, já que a ação depende do trabalho de voluntários.

    A medida é consenso entre as ONGs, tanto que elas se retiraram do Consema em solidariedade ao NAT. O movimento ecológico considera Os Amigos da Floresta uma entidade ligada aos interesses das empresas de celulose. “Eles representam o setor florestal”, resume Káthia.

    Para a ambientalista, o fato demonstra que o Governo não cumpre normas éticas, legais e morais, tampouco os empresários. “É uma rasteira nas entidades. Só posso dizer que é um retrocesso, algo do tempo da ditadura”, desabafa.

    Ao mesmo tempo, a ausência do contraponto das ONGs no Consema é um fato que preocupa o movimento ecológico. Para Káthia Vasconcellos, o Conselho e suas decisões deixam de ter legitimidade. Inclusive o zoneamento ambiental proposto pela Fepam, que deve chegar ao Consema no final do ano. “Qual a validade de um Conselho quando seus membros não estão participando?”, questiona a ambientalista.

    Opinião semelhante tem a presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), Edi Xavier Fonseca. “Com certeza isso vai nos prejudicar, mas não há como participar quando há um parecer dizendo que não temos legitimidade. No fundo, quem perde não são as entidades, é todo mundo”, conclui.
    (Com reportagem de Patrícia Benvenuti e Cláudia Viegas)

    Os Amigos da Floresta seguem linha diferente

    A polêmica sobre a vaga no Consema começou em abril de 2005. O assunto parecia ter sido resolvido em setembro com a resolução que estabeleceu a Apedema, como a responsável por indicar as entidades ecológicas ao Conselho.

    Mas a polêmica voltou com a entrada da ONG Os Amigos da Floresta. O representante da entidade e professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Doádi Antônio Brena, acredita que a Associação está sendo rechaçada porque tem propostas e um estatuto “diferenciados” em relação às ONGs tradicionais.

    “Nossa motivação para criar a entidade, em 2002, foi mostrar que estamos sendo bombardeados por uma série de informações, levadas à sociedade, em que nem tudo o que é dito é verdadeiro. Nossa entidade é pautada por informações científicas”, observa.

    Ele explica, ainda, que o interesse da ONG é defender florestas nativas e plantadas, numa visão de sustentação ambiental e socioeconômica. “Além de preservação e conservação, queremos o desenvolvimento e colocamos o homem no centro disto”.
    O pedido para ingressar no Consema foi feito no final de 2004, antes da resolução que prevê a indicação das ONGs ambientalistas pela Apedema. “Para surpresa nossa, fomos nomeados. Nem sabíamos como funciona o Conselho”, lembra. “Queremos participar e deixamos claro que nossa preocupação é com o desenvolvimento sustentável, sem excluir a dimensão econômica, de forma adequada”.

    Brena observa que as associações gaúchas da área ambiental não vêm apenas do lado conservacionista e preservacionista. “Não estamos alinhados integralmente com o que defende a Apedema. Se essa Assembléia for a única entidade a indicar os participantes, instituições como Os Amigos da Floresta nunca vão ter assento no Consema”.

    Os Amigos da Floresta tem 150 sócios. São pessoas físicas, que contribuem mensalmente para a associação. Conforme Brena, a ONG está aberta a indivíduos com atuação na área florestal. Entre seus integrantes, estão diretores de empresas ligadas a este setor.

    Em 2005, a entidade fez convênio com o Governo do Estado e obteve recursos de R$ 56 mil do Fundeflor, um fundo de desenvolvimento partilhado entre as secretarias da Agricultura e do Meio Ambiente. O convênio possibilitou a realização de seminários regionais em locais onde há maior densidade de plantio florestal no Estado. “Tivemos a parceria de empresas do setor de base florestal, que financiaram a edição de cadernos didáticos”. (Cláudia Viegas)

    O que é o Consema

    O Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema) foi criado em 1994. É o órgão superior do Sistema Estadual de Proteção Ambiental, responsável pela aprovação e acompanhamento da implementação da Política Estadual do Meio Ambiente. Seus 29 membros são representantes da sociedade civil, governo, ONGs, federação de trabalhadores, do setor produtivo e universidades. O atual presidente é Valtemir Goldmeir, da Federação das Associações de Municípios do Rio Grande do Sul (Famurs).

  • Pedras nas veias

    Aos 25 anos, tribo de atuadores segue trabalhando sob o signo da contestação

    Naira Hofmeister

    O silêncio que reinou no teatro gaúcho nos anos difíceis de ditadura militar foi rompido em 31 de março de 1978, quando nasceu o Ói Nóis Aqui Traveiz, com a apresentação dos espetáculos “A Divina Proporção” e “A Felicidade Não Esperneia, Patati, Patatá”, textos de Júlio Zanotta, dirigidos por Paulo Flores, num teatro alugado em Porto Alegre.

    Essa voz seria a marca de um novo pensar e fazer teatro, como diziam os textos enviados aos jornais da Capital: “Pedra nas veias para não fazer concessões ao esteticismo burguês nem aos pregões do teatro palavra. Pedras nas veias para ir um pouco mais adiante na cultura de resistência. Para ousar opor-se”.

    O grupo já nasceu sob o signo da contestação, não só política, mas também estética, e principalmente da função do teatro. “Sempre nos norteamos por uma pergunta que consideramos essencial para qualquer artista: a de saber para que serve a arte que se está produzindo”, explica Tânia Farias, atuadora da Tribo há dez anos, uma das integrantes mais antigas.

    Apesar da assinatura de um diretor, as duas peças já eram o embrião do que seria a principal marca do Ói Nóis: a criação coletiva. Todos os espetáculos que se seguiram tiveram como princípio maior a interação entre todos os integrantes do grupo, desde a criação dos textos até a direção dos atores, passando pela produção do espetáculo, construção do cenário, trilha sonora e figurino.

    A idéia era inventar “uma nova forma de teatro, diferente do modelo burguês que se fazia na época, muito atrelado ao governo autoritário”, lembra Tânia. Esse engajamento ideológico aliado à postura contestatória serviu de base para que o grupo chegasse ao que chama de “Teatro de Vivência”, isto é, a interação dos atores com o público, que sente o espetáculo através do contato com os atuadores.

    Para isso, os artistas tocam na platéia, trocam olhares com o público, que quase sempre é obrigado a se deslocar no espaço cênico. A ambientação das montagens do Ói Nóis também envolve trilha sonora ao vivo e aromas que mudam de acordo com a necessidade da cena. Nas palavras de Tânia, “além de falar o que estava engasgado com toda aquela repressão, havia uma grande preocupação com a maneira como iríamos falar”. Isso foi traduzido na forma de apresentação, que necessariamente rompia com o modelo vigente na época, o do tradicional palco italiano, onde se cria “a quarta parede, invisível entre o palco e o espectador”.

    Mas a definição do tipo de teatro pretendido pelo grupo ainda gera discussão, não tem uma única resposta. Segundo os 20 componentes da Tribo, nunca foi alcançada uma fórmula definitiva. “Trabalhamos com a idéia de permanecer descontentes com aquilo que estamos fazendo. É preciso arriscar, não interessa se a crítica não vai achar bom, nem se o público não vai gostar. O importante é que temos vontade de experimentar aquilo naquele momento”, justifica Tânia.

    “Nossa utopia é realizada a cada dia”

    Localizado no bairro Navegantes, o grande QG da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz expõe ao vivo e a cores os ideais da turma. Num enorme salão negro, pode se observar uma intensa movimentação dos atuadores. Em um canto, alguém modela um boneco gigante, noutro, um grupo costura o figurino a partir de peças já utilizadas em espetáculos anteriores.

    Tem também os “amigos da Terreira”, que saem a colar cartazes das apresentações do grupo pelos muros da cidade. A coletividade é vivida tão intensamente que chega a gerar mitos: “Algumas pessoas acham que a gente mora junto, que namoramos uns aos outros, mas isso faz parte do folclore”, brinca Tânia Farias, atuadora do grupo há uma década.

    O fato é que, mesmo não morando no espaço da Terreira, o dinheiro para sustentar as apresentações gratuitas, as oficinas, os seminários anuais e outras atividades desenvolvidas pelo grupo é resultado do suor individual. “Aqui tem garçom, professor, funcionário público”, revela a integrante da trupe, Carla Moura.

    Em 2005, a companhia foi reconhecida pelo governo, sendo escolhida pelo Projeto Petrobrás Cultural. Desde então, recebe patrocínio da estatal. A verba permitiu a ampliação dos projetos existentes e o surgimento de novos, como a primeira revista de teatro do Estado, a “Cavalo Louco”, lançada em abril.

    “Há muito tempo tínhamos a vontade de publicar as discussões dos seminários para levar essa informação a todos os cantos do Brasil”, conta Tânia Farias. O lançamento do projeto “Ói Nóis Aqui na Memória” é outro fruto do prêmio. O trabalho resgata a história do grupo através de um livro e um DVD, intitulados “Aos Que Virão Depois de Nós – Kassandra In Process”, que exibe o legado dos atuadores.

    “Utopia para o Ói Nóis é diferente do que é para as outras pessoas. De maneira geral, significa algo nunca realizável. Para nós, é o desejo mais profundo, que colocamos em prática todos os dias. Por isso que ela vem se concretizando. Nossa utopia é a de um mundo melhor, com pessoas mais humanas, solidárias, companheiras, e não de concorrentes. Abrimos a Terreira da Tribo há vinte e tantos anos, e isso é a concretização maior dessa utopia”, conta uma entusiasmada Tânia Farias.

    Ói Nóis Aqui, ali e acolá

    Tribo faz questão de popularizar o teatro com espetáculos de rua

    Mesmo depois da implantação de um diálogo inovador na forma de apresentação do espetáculo, a Tribo não se deu por satisfeita. “Sentimos a necessidade de tomar as ruas, pois a maior parte do público não vai à sala de teatro, está excluído do ritual”, observa a atuadora Tânia Farias. A iniciativa foi fundamental para que o Ói Nóis atingisse seu principal objetivo: popularizar a arte.

    Um terço das mais de trinta peças apresentadas ao longo dos 25 anos do grupo teve como cenário a rua. No início, as intervenções refletiam mobilizações políticas do momento, como a censura, a greve geral, as diretas e, mais recentemente, o descontentamento com a classe de políticos. Nas eleições municipais de 2004, por exemplo, os artistas fizeram um manifesto pelo voto nulo.

    Integrar o teatro às ruas não foi tarefa fácil. Primeiro porque não há uma dramaturgia específica para o gênero, que, segundo Tânia, acabou também se constituindo através da atuação de grupos similares espalhados pelos Brasil.

    “Se analisarmos a trajetória do teatro de rua do Ói Nóis, vamos encontrar alguns espetáculos sem texto algum, outros que utilizavam a linguagem do clown – que eram basicamente de música –, os que trabalhavam com bonecos, e até os que eram puro texto do Brecht”, enumera Tânia Farias. A repressão foi outro empecilho. Em determinadas ocasiões, houve até a prisão de alguns atuadores. “A polícia destruía os bonecos, o que impedia uma segunda exibição”.

    Com o tempo, a necessidade de sistematizar o trabalho nas ruas levou à criação de espetáculos itinerantes, que iniciaram em 1988, através do projeto “Caminho para Teatro Popular”. O trabalho segue até hoje. Paralelamente, a partir dos anos 2000, a Terreira se transformou em Escola de Teatro Popular, desenvolvendo oficinas de teatro na periferia da cidade. “É uma verdadeira faculdade de formação, pois oferecemos disciplinas como história do pensamento político, trajetória do teatro brasileiro, além de aulas de interpretação corporal e vocal”, descreve Pedro De Camillis, que integra o grupo há três anos.

  • De olho no Plano Diretor


    Associação surgiu  em função da descaracterização do bairro (Foto: Tânia Meinerz/JÁ)

    Um dos movimentos comunitários mais fortes que surgiram em Porto Alegre nos últimos anos nasceu no Moinhos de Vento. A descaracterização do tradicional bairro, composto por casarões que foram dando lugar a espigões motivou a mobilização do grupo.

    O que começou em conversas boca-a-boca de um pequeno núcleo de moradores, logo deu lugar a abaixo-assinados, reuniões até que, no final de 2002, se formou o Moinhos Vive, que serviu de modelo para outras comunidades que sofreram os efeitos do novo Plano Diretor.

    Os encontros periódicos registrados em ata e a formação um conselho foram o embrião da associação, que foi formalizada em setembro de 2003. Na época, o movimento já tinha obtido algumas vitórias como uma ação na Justiça que impediu a demolição de seis casarões, na rua Luciana de Abreu.

    Com o tempo, o Moinhos Vive incorporou outros assuntos na sua pauta – em geral, as demandas do bairro, o que inclui segurança e esclarecimento sobre obras e intervenções do serviço público, caso da instalação da rede de gás natural e da construção do conduto forçado Álvaro Chaves.

    Indicado ao cargo de presidente, o advogado Raul Agostini foi reeleito em abril para o próximo biênio. Nesta entrevista, ele lembra a trajetória do movimento, suas principais conquistas e projeta atividades para esta nova gestão.

    JÁ – Qual seu balanço do Moinhos Vive?
    Raul Agostini
    – A Associação começou em 2002 tentando barrar a descaracterização do bairro. Especificamente, a partir de um projeto de construção que iria causar a derrubada de várias casas na rua Luciana de Abreu. As pessoas despertaram para a necessidade de preservar o aspecto histórico-cultural. Um grupo começou a colher assinaturas, que chegaram a 10 mil, solicitando que fosse sustada a obra. Entramos com ações judiciais junto ao Ministério Público, que embargou a construção. A empresa construtora recorreu e perdeu em primeiro e segunda instâncias. As casas permanecem lá, mas a definição final está no Superior Tribunal Federal. Pareceres de historiadores e arquitetos apontam essa descaracterização do bairro. A reação pode estar começando um pouco atrasada, mas ainda há tempo para salvar alguma coisa, apesar de que muito já foi destruído. Isso se deve à ganância imobiliária. À ignorância aliada à sede de lucro.

    JÁ – Que outras conquistas se destacam?
    Raul AgostiniDepois que já estávamos mais organizados, agimos em outro episódio: queriam ampliar as calçadas da Padre Chagas deixando apenas um corredor para os carros passarem. Era um estreitamento da pista para possibilitar que os bares e restaurantes avançassem numa área pública. Esse foi outro grande movimento que obtivemos sucesso. Pressionamos a Prefeitura e a idéia não se consolidou.

    JÁ – Como está a Associação hoje?
    Raul Agostini
    Temos um número expressivo de participantes, tanto quantitativo quanto qualitativo. São cerca de 300 moradores integrados, numa estrutura razoável. Agora, inclusive, tivemos a eleição de diretoria. A primeira gestão foi tampão, depois nos elegemos e, agora, nos reelegemos por mais dois anos. Nosso estatuto prevê apenas uma reeleição. Todas pessoas envolvidas acreditam na causa, que exige muito de cada um. Os integrantes também contribuem com uma anuidade de R$ 30.

    JÁ – O Moinhos Vive ainda é referência para outras associações?
    Raul Agostini Algumas entidades estavam embrionárias ou estagnadas e, após o nosso êxito nessas lutas, acabamos sendo exemplo para a formação de outras associações. O Moinhos Vive conseguiu motivar muito e hoje participa do movimento Porto Alegre Vive, que articula associações de bairro. Auxiliamos em várias campanhas como a do armamento da Guarda Municipal e a da preservação das árvores do túnel verde da Marquês do Pombal, que seriam cortadas para a passagem do conduto Álvaro Chaves-Goethe.

    JÁ – E a questão da segurança?
    Raul Agostini
    Nossa idéia é que a Guarda Municipal se integre com a Brigada Militar para policiar toda a cidade. E também que estruturas bem montadas como a EPTC se unam a Guarda Municipal, exercendo uma função de fiscalização efetiva. São mais de 500 homens agregados à Guarda Municipal. Também estamos integrados com outras organizações, como o movimento Chega de Violência e, através de uma parceria com a Prefeitura, estamos engajados no aspecto social, porque a insegurança não é só pela falta de efetivo policial. A origem está nessa disparidade social chocante que vivemos. Então, a idéia é adotar uma comunidade carente, provavelmente, a Vila dos Papeleiros. Essa insegurança talvez desperte a participação social das pessoas.

    JÁ – E nessa gestão, quais são os objetivos?
    Raul Agostini
    Temos o embate do Plano Diretor que será debatido este ano. Somos absolutamente contrários a essas edificações que não levam em conta o meio ambiente e o ser humano que está inserido nele. A questão solar, a ventilação, mobilidade, tudo isso são fatores importantes. A Prefeitura imaginava que teria grande retorno com essa densificação o que foi um grande engano. Só o conduto Álvaro Chaves-Goethe, que vai resolver transitoriamente o problema, custará dezenas de milhões de reais. No fim, quem paga essa obra é toda a população, já esmagada de tanto imposto. Temos que partir de exemplos mais civilizados onde existe o respeito ao meio ambiente, como no Canadá, onde as regras são rígidas. As edificações são erguidas dentro de certos limites.

    JÁ – Que perspectivas tem o movimento?
    Raul Agostini
    Nosso prognóstico é otimista. O despertar da cidadania está ocorrendo em vários aspectos. Estamos cada vez mais conscientes de que os governos devem servir à comunidade e não o contrário. Vamos continuar a luta pelo respeito ao horário das mesas nas calçadas, fiscalizar o acordo de preservação das árvores da rua Marquês do Pombal, acompanhar os debates sobre o Plano Diretor, em especial os limites para construção.

  • A vedete do inverno

    Naira Hofmeister

    Finos, coloniais, tintos e brancos. Não importa o tipo. Basta chegar o frio para os gaúchos procurarem as prateleiras de vinho. Assim como a produção, a oferta tem aumentado nos últimos anos. Entre os comerciantes de bairro, há a convicção de que a melhor forma de vender vinho é criando o hábito do consumo freqüente. O que já está acontecendo.

    Adegas e distribuidoras da capital gaúcha não dependem mais do comércio sazonal. “No inverno o consumo dobra, mas no verão não ficamos mais parados”, garante Dirceu de Castro, da Ametista Bebidas.

    Para quem não tem o hábito de consumir a bebida, o frio vem a calhar. O vinho esquenta e dá um toque especial naquela gélida noite de sábado em que a rua não é a opção mais convidativa.

    Gabriela Martinez, proprietária da Antares Vinhos, aconselha começar pelos mais baratos e de uma única vinífera. “Assim a pessoa começa a conhecer o sabor de cada uva e pode determinar qual o que mais lhe agrada”. Simone Lubus, da Casa dos Vinhos, acrescenta que o paladar pessoal é muito importante nessa hora. “O melhor vinho para mim, pode ser o pior para outra pessoa”.

    Pensando na descoberta desse mundo, as lojas locais oferecem algumas variedades da bebida para degustação. Na Casa dos Vinhos e na Antares, a oportunidade é nos sábados, do início da manhã até a tarde. Na Ametista, Casa de Baco e na Vinhos do Mundo, as provas estão disponíveis todos os dias. Os lojistas garantem: se o cliente quiser, pode abrir uma garrafa para experimentar.

    Contrabando

    Mesmo com o aumento gradativo do consumo, os comerciantes enfrentam uma pesada concorrência. “Sofremos com o contrabando de mercadorias da Argentina e Uruguai”, denuncia Dirceu de Castro. Ele acredita que seu lucro seja prejudicado em torno de 30%. Uma garrafa vendida por R$ 30, por exemplo, pode custar menos de R$ 10 no mercado negro. Segundo os comerciantes, o contrabando acontece por falta de fiscalização nos free-shops – as cotas de compra não são respeitadas e a alfândega faz vista grossa.

    “Isso é muito pior do que a concorrência dos supermercados”, compara Simone Lubus, da Casa dos Vinhos. Os grandes varejistas são encarados como concorrência indireta para o comércio local. Primeiro, porque os lojistas atendem a rede de bares e restaurantes. E também porque primam pelo atendimento individual, personalizado, criando uma identificação com cada cliente. Assim, é possível oferecer sempre uma promoção adequada ou uma novidade “perfeita” para cada consumidor. Outro diferencial é a oferta de produtos de vinícolas que não estão nas gôndolas de supermercados.

    Os lojistas de Porto Alegre também reclamam das altas taxas de impostos. “O Governo do Estado não briga por um produto em que o Rio Grande do Sul é o maior destaque”, queixa-se Olinto Albuquerque, da Cantina do Baco. Ele também critica os altos preços praticados em restaurantes. “A margem de lucro é exagerada: enquanto na cerveja eles aumentam o valor em 20% ou 30%, nos vinhos essa porcentagem chega a 200%”.

    Por outro lado, o preço de importação de vinhos da América do Sul teve queda, em função do câmbio no Brasil. “O preço do dólar está caindo há tempo, mas só esse ano conseguimos repassar para o consumidor”, explica Gabriela Martinez, da Antares Vinhos. Para a chilena, a grande dica nos importados é apostar nas uvas características de cada região: Malbec, na Argentina; Carmenére e Cabernet Sauvignon no Chile, Tannat no Uruguai são bons exemplos.

    Crescimento

    Se dez anos atrás as vinícolas gaúchas produziam quase exclusivamente os chamados vinhos coloniais, ou de mesa, com uvas comuns como Isabel, Bourdeaux ou Niágara, hoje conseguem qualidade surpreendente, mesmo para paladares mais exigentes como o de Leocir Vanazzi, diretor comercial da Vinhos do Mundo. A evolução veio com um investimento pesado em tecnologia.

    “Hoje, a produção de espumantes no Rio Grande do Sul é excelente”, elogia Vanazzi. Simone Nubus, da Casa dos Vinhos também chama atenção para a bebida, que, segundo ela, “vêm se destacando nos mais diversos concursos internacionais”. A partir da pesquisa de solo ideal, tecnologia de irrigação por gotejamento e cursos de formação de enólogos, a produção vinífera gaúcha se destacou no mercado nacional e já compete com os importados.

    Algumas adegas nos bairros centrais da cidade

    * Ametista Bebidas e Alimentos – F: 3342.8064

    Cristóvão Colombo, 2552 – Floresta

    * Antares Vinhos – F: 3388.4280/3024.5366

    Venâncio Aires, 853/loja B – Santana

    * Armazém da Cidade – F: 3388.5559

    Mercado Bom Fim, loja 10

    * Cantina do Baco

    Coronel Feijó, 901 – Higienópolis

    * Casa dos Vinhos – F: 3332.3921/3388.7058

    Alcides Cruz, 398 – Santa Cecília

    * Giuliano Vinhos – F: 3395.4597/3395.1343

    Dinarte Ribeiro, 36 – Moinhos de Vento

    * Porto Vinhos – F: 3268.3468

    Barros Cassal, 689/13 – Bom Fim

    * Sabra Delicatessen – F: 3311.9038/3311.3666

    Fernandes Vieira, 366 – Bom Fim

    * Vinhos do Mundo – F: 3346.6592/ 3226.1911

    Cristovão Colombo, 1493 – Floresta

    João Alfredo, 557 – Cidade Baixa

  • Menores buscam sustento nas ruas

    Carla Ruas

    Crianças, jovens e adultos pedem dinheiro, roupas e comida nas calçadas do Bom Fim todos os dias. Entre os freqüentadores da rua, alguns são sem-teto, outros vêm de regiões distantes para passar o dia. Todos dependem da caridade alheia.

    O bairro, cada vez mais uma extensão do Centro, é um local visado em função do constante movimento de pedestres e carros. Ponto emblemático é o trecho da rua Fernandes Vieira, entre Hernique Dias e Vasco da Gama.

    Por ali, dezenas de pessoas se acomodam na tarde-noite, buscando a sobrevivência. Abordam donos de automóveis estacionados ou retidos no semáforo e transeuntes, especialmente os que vão fazer compras no supermercado Zaffari.

    A maioria é menor de idade. Caso dos garotos E. e L., que moram na Vila Pedreira, no Morro Santana. Ambos com 15 anos tentam a vida como guardadores de carros. “Fico cuidando e ganho 1 real ou 50 centavos de cada motorista”, diz E. O amigo L., sempre sorrindo, apesar de não ter os dentes na frente, conta que está na 5ª série, mas que não sabe ler. Está desiludido com a escola.

    A jovem G., de 16 anos, vem diariamente de ônibus da Vila Laranjeira, no Morro Santana. Ela mora com a mãe, está matriculada na 5a série do Ensino Fundamental, mas troca a sala de aula pela rua Fernandes Vieira. “Não gosto muito do colégio”, explica. Na calçada, ganha um pouco de dinheiro e mercadorias que leva para casa, e convive com jovens que passam pela mesma realidade.

    Entre os adultos conhecidos na área, está Dona Maria, 32 anos. “É aqui que tiro o dinheiro para comer e alimentar minha família”, diz ela, que se desloca do Morro Santa Tereza, muitas vezes com as crianças a tiracolo. “São quatro filhos e não tenho com quem deixar a de dois e a de sete anos”. A mais nova fica brincando dentro de uma caixa de papelão.

    Maria explica que ganha mais alimento do que dinheiro no local, como arroz, feijão e leite. “Se eu não vier para cá não tenho como sobreviver”. Ela recebe o benefício do bolsa-família, mas usa o dinheiro (R$100) numa casa que está comprando em uma área invadida. “Quero garantir a minha casinha, depois paro de pedir e procuro um emprego”, sonha.

    Resistência de vizinhos e comerciantes

    O núcleo de menores e adultos que buscam doações na Fernandes Vieira, no Bom Fim, incomoda comerciantes e vizinhos. O proprietário da fruteira Mãe Preta, Ademir José Siqueira, diz que a situação é constrangedora para quem é abordado. “As pessoas saem das lojas com sacolas e eles vêm para cima”.

    A gerente da Padaria Pão Nosso, na Vasco da Gama, acredita que já perdeu clientes que não gostam desta aproximação. Ela reclama de um jovem que fica em frente ao estabelecimento, pedindo dinheiro aos motoristas que estacionam em frente ao seu negócio. O proprietário da Sabra Delicatessen, Marcos Brobacz, reclama da sujeira que fica na calçada. “De manhã sempre tenho que varrer os restos de comida”, diz ele, atribuindo o lixo aos pedintes que consomem alimentos no local.

    Paulo Alves, zelador de um prédio da Fernandes Vieira, alega que o grupo senta em frente ao portão, atrapalhando a entrada dos moradores. “O pessoal reclama”, diz. O taxista Udolfo Coste, supervisor do ponto localizado na esquina da Fernandes Vieira com a Henrique Dias ensina que a solução é não fazer doações. “Eles vem para cá porque os moradores sempre dão mercadorias do súper”. A moradora Evanice Pauletti sugere uma mobilização e conscientização de comerciantes e moradores, apostando num mutirão de doações a ser entregue nas vilas de onde vêm os pedintes.

    O órgão da Prefeitura responsável por menores nas ruas de Porto Alegre é o Serviço de Educação Social de Rua (Sesrua), ligado à Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc). Equipes realizam abordagens em locais pré-definidos e nos solicitados por telefone. Na abordagem, o jovem de até 14 anos é aconselhado a ir para o Lar Dom Bosco, que tem oficinas, jogos e educadores.

    De 15 a 18 anos, a opção é a Escola de Porto Alegre, que oferece atividades com professores. O órgão mantém fichas com nome, idade, local de moradia e escolaridade dos menores. O banco de dados confirma que boa parte dos menores e adultos que buscam a sobrevivência na rua moram em locais afastados, como Lomba do Pinheiro, Agronomia, e até de Viamão.

    “Não podemos tirá-los da rua à força”, diz a gerente do serviço, Isabel Simões da Silva. Ela observa que o trecho do Bom Fim é apenas um espelho do que acontece no resto da cidade. O telefone para solicitação de abordagens do Sesrua é 3221.2024, de segunda a sexta, das 7h às 24h, e sábados, domingos e feriados, das 7h às 19h.