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  • Lutzenberger ganha homenagem em Manaus


    Lara preside a Fundação Gaia e divulga a obra do pai (Foto: Tânia Meinerz/JÁ)

    Patrícia Benvenuti

    O ambientalista gaúcho José Lutzenberger será homenageado em Manaus (AM) nesta sexta-feira 26 de maio com o lançamento dos livros Sinfonia Inacabada, da jornalista Lilian Dreyer, e Lutzenberger e a Paisagem, do fotógrafo, agrônomo e paisagista Paulo Backes. A filha do ecologista, Lara Lutzenberger, que é presidente da Fundação Gaia, estará na cerimônia, no Hotel Tropical Manaus.

    Um painel vai apresentar a trajetória do agrônomo, mostrando como ele se tornou respeitado no mundo inteiro. A proposta é divulgar os conhecimentos de Lutz em todo país. “Queremos levar à população esses livros e a história do meu pai”, explica Lara.

    De acordo com ela, o maior legado do ecologista está na relação única com o meio ambiente. “O mais importante foi o trabalho de conscientização e educação que ele fez com os homens e o contato com a natureza”, acredita.

    Sinfonia Inacabada é resultado de uma idéia da jornalista e escritora Lilian Dreyer e de quatro anos de trabalho. “Eu conhecia o Lutzenberger há muito tempo, tive o prazer de trabalhar com ele. Sugeri um livro de memórias e ele aceitou”, conta a autora. Um ano depois de iniciado o trabalho, Lutz morreu, e o livro de memórias acabou se tornando uma biografia.

    Lilian revela que narrar uma vida como a do ilustre cientista porto-alegrense foi seu maior desafio, quando escreveu a biografia. “É difícil resumir e mostrar a vida interessante dele. O Lutzenberger era uma pessoa ímpar, é impressionante a coerência entre sua personalidade e o que ele pregava. Ele realmente vivia o que pregava”, assegura.

    A publicação, da Vidicom Edições, foi possível graças à lei federal de incentivo à cultura. Apesar das 518 páginas, a escritora garante que, “se todas as histórias interessantes que ele viveu fossem contadas, o livro teria três volumes”. Mais do que imortalizar no papel a vivência do ecologista, Lilian destaca a experiência proporcionada pelas muitas horas de dedicação ao projeto. “Mergulhar assim foi uma transformação pessoal”.

    Lutzenberger e a Paisagem (editora Paisagem do Sul) mostra o trabalho paisagístico do ambientalista. Suas realizações na área não tiveram a mesma repercussão das lutas ambientais, mas foram importantes o suficiente para o fotógrafo Paulo Backes reunir todas em um livro que mescla texto com belas imagens.

    “Minha principal motivação foi difundir o pensamento paisagístico de Lutzenberger”, afirma o autor. “É importante que as pessoas saibam que ele tinha ideais diferenciados sobre o assunto, a crença em uma interação entre os fatores naturais, como o solo e as rochas, e os biológicos, como o homem e a fauna. E ele sabia respeitar tudo isso”, completa.

    A convivência com quem ele chama de “mestre do conhecimento” foi uma lição, especialmente quando observava Lutz lidando com elementos do meio ambiente. A obra, de 208 páginas, dá enfoque a paisagens admiradas pelo ambientalista – como o Pampa.

    Também há espaço para trabalhos do ecologista, como o Rincão Gaia, feito sobre uma antiga jazida de basalto. A seleção privilegiou o retrato do trabalho do ambientalista em lugares “machucados” pelo homem. “É o caso do parque da Riocell [hoje da Aracruz]. Ele queria sempre ‘consertar’ a natureza”, observa Backes.

  • Debate sobre salário mínimo reúne presidenciáveis em Porto Alegre


    Encontro da comissão de senadores que debate o mínimo trouxe ao estado três pré-candidatos à Presidência da República (Foto Marcos Eifler/AL/JÁ)

    Helen Lopes*

    O debate sobre a revalorização do salário mínimo reuniu na tarde desta segunda-feira (22/5), três possíveis candidatos à Presidência da República. A pré-candidata do P-Sol, senadora Heloísa Helena, e o indicado do PDT, senador Cristovam Buarque, juntamente com o senador gaúcho Pedro Simon, cogitado como pré-candidato peemedebista, estiveram na Assembléia Legislativa durante a quarta audiência pública da Comissão Especial do Salário Mínimo do Congresso.
    Sindicalistas, parlamentares e entidades de classe defenderam mesmo reajuste para ativos, aposentados e pensionistas. Defensora radical dos direitos dos aposentados, a senadora Heloisa Helena chegou ao som do coro “Terra, trabalho, saúde, educação, Heloísa presidente da nação”. Falou sobre a equiparação dos reajustes do salário mínimo de trabalhadores ativos e beneficiários da Previdência Social. De acordo com a senadora é possível aumentar o salário mínimo para R$ 570 a curto prazo pois “todo mundo sabe que a seguridade social é superavitária”.

    Para o pré-candidato à Presidência da República do PDT, senador Cristovam Buarque, o salário mínimo não pode ser olhado apenas do ponto de vista monetário. “Acrescento que a cesta básica do trabalhador é composta pelo que ele compra no mercado e pelo que deve receber do governo – educação, saúde, moradia, esgoto, saneamento básico e coleta de lixo”, defendeu. Sobre uma possível coligação com o PMDB, o senador disse que não ter nenhum constrangimento em apoiar Simon, mas salientou que essa será uma decisão do partido. O pernambucano confessou que preferia que a aliança acontecesse há alguns meses. “Agora será mais difícil, pois os PMDBs de cada estado já se organizaram. Uma pena”, lamentou o senador.


    Entre os três presidenciáveis, troca de elogios (Foto Helen Lopes/JÁ)

    Lançado pelo PMDB gaúcho, o senador Pedro Simon não admite oficialmente a candidatura, mas garante que “não será por falta de nome que o PMDB não terá candidatura própria”. Ressabiado com a posição dos governistas do partido, Simon disse que não crê na sua candidatura. “O comando – Renan Calheiros (AL) e José Sarney (AP) – não gosta de mim, mas meu nome está à disposição”, atiçou.  O senador falou também sobre a necessidade de uma aliança com os partidos de centro-esquerda para mudar a polarização entre PT e PSDB. “Senão vai ficar o PT falando do PSDB e vice-versa”.
    Simon, que não integra a comissão, participou como convidado e afirmou que não há mais clima para a desculpa de que a Previdência está quebrada. “Roubos, empresas que não pagam, funcionários milionários, escândalos se acumulam na Previdência e nada acontece”, reclamou o senador.

    Piso nacional em pauta
    Formada por 11 senadores e 11 deputados, a Comissão Especial esteve no Estado recolhendo sugestões de entidades de classe e representantes da sociedade civil, para compor o projeto de política de reajuste e recomposição do salário mínimo.

    As propostas devem compor o relatório final que será discutido pelos parlamentares em conjunto com o Governo Federal, e, posteriormente, subsidiará a concepção de um projeto. O relator da Comissão, senador Paulo Paim (PT/RS), adiantou que já existe consenso sobre o reajuste conforme a inflação mais o dobro do Produto Interno Bruto (PIB) e igualdade no reajuste do salário dos pensionistas. Outro ponto de convergência é o fim do fator previdenciário e a volta do cálculo para concessão de benefícios pela média dos últimos 36 meses de contribuições. O fator previdenciário considera o tempo de contribuição, a alíquota e a expectativa de sobrevida.
    Para a família da aposentada Teresinha Maria Shmidt, de 79 anos, o novo método de cálculo gerou perdas. “Meu marido se aposentou com cinco salários  mínimos e agora está ganhando três”, reclama. Como Teresinha, a maioria da platéia, composta por idosos aposentados ou pensionistas, defendia a desvinculação do fator previdenciário e a recuperação do poder aquisitivo dos benefícios.


    Maioria da platéia era composta por aposentados e pensionistas (Foto Helen Lopes/JÁ)

    A dinâmica da audiência intercalava a apresentação de propostas das entidades e o discurso dos parlamentares presentes. O primeiro a falar foi o presidente da CUT/RS, Celso Woyciechowski, que apresentou um plano com oito metas. Entre elas, a fixação de um prazo de 20 anos para recuperar o valor real do mínimo, com objetivos intermediários revistos de cinco em cinco anos, e a realização de uma pesquisa de orçamento familiar para definir o conceito de salário mínimo. Outra sugestão consiste em que  “a política de recuperação do piso nacional leve em conta, anualmente, a inflação e um percentual a mais do que a simples produtividade média da economia, o Produto Interno Bruto per capita”, defende o sindicalista.

    Na opinião do representante da Força Sindical/RS, Luiz Carlos Barbosa, a luta deve ser pela justa distribuição de renda, vinda de uma política que atenda o conjunto da sociedade, resgatando o histórico sentido do salário mínimo. Barbosa pediu atenção especial aos aposentados e aos pensionistas.

    * Colaborou Carla Ruas

  • Desafios do jornalismo ambiental em debate


    O evento reuniu 100 pessoas neste final de semana na Faculdade de Comunicação da UFRGS (Foto: Tatiana Feldens/JÁ)

    Patrícia Benvenuti e Tatiana Feldens

    Há dois ingredientes básicos para o bom jornalismo: capacitação e ética. Essa foi a principal conclusão do I Congresso de Jornalismo Ambiental do Rio Grande do Sul (Conjars), que reuniu 100 pessoas neste final de semana em Porto Alegre para debater a cobertura ecológica no Estado. O evento, na Faculdade de Comunicação da UFRGS, também antecipou algumas discussões do 2º Congresso Nacional de Jornalismo Ambiental, que acontece em outubro na capital gaúcha.

    A jornalista Elisângela Paim, do Núcleo Amigos da Terra Brasil (NAT/Brasil) faou que um dos papéis a imprensa é advertir a sociedade sobre os impactos do consumo desenfreado e o modelo de desenvolvimento econômico. “A mídia sempre apresenta as coisas em momentos episódicos, nunca em uma visão abrangente”, denuncia.

    A questão do consumo também foi tratada pelo filósofo Vicente Medaglia, do Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais (Inga) como causa da crise socioambiental. “Os valores da sociedade estão errados, as sociedades estão se auto-destruindo”, acredita. Segundo o ecologista, as pessoas confundem felicidade com consumo. Para ele, a imprensa deve desenvolver um modelo de felicidade que seja sustentável. Mas alertou que o sistema midiático é mantido por um sistema insustentável.

    Entrando no campo da ética, o jornalista Roberto Villar Belmonte, da revista Campo Aberto, ressaltou a importância de pessoas conscientes nas redações. “Apesar dos nossos condicionamentos, como a ideologia, somos livres para escolher notícias e fontes”, disse. Villar acredita que a defesa da vida é o maior objetivo do jornalismo ambiental e que por isso não devem ser estabelecidas parcerias com as chamadas “empresas da morte”. Como exemplo, cita as entidades ligadas ao ramo dos agrotóxicos e do fumo.

    Como alternativa à mídia tradicional, o ambientalista Tiago Eduardo Genehr, do Movimento Roessler para Defesa Ambiental, defende o fortalecimento de mídias alternativas, como veículos das próprias instituições ecológicas. “São pequenas vozes que questionam nosso modo de vida e de consumo. É algo bem mais reflexivo e engajado”, comenta. O ambientalista critica a postura da mídia tradicional, que querendo ser neutra, acaba sendo passiva, e por sua vez deixa de relacionar os fatos, sem chegar na “raiz” das questões. “A grande mídia não questiona e torna verdade informações do governo e de assessorias de imprensa”, condena.

    A jornalista da ONG Estação Vida, Gisele Neuls, que trabalha há um ano no norte do Mato Grosso, diz que o Estado vive abalado por questões ambientais. A área do Portal da Amazônia é composta por 16 municípios e 110 mil Km², dos quais 31% já foram depredados. A região é caracterizada por uma forte concentração de terra e de renda, pela pecuária (“onde o trabalho escravo é altamente lucrativo”), extração madeireira (“a ilegalidade é altamente lucrativa”) e assentamentos do Movimento Sem-Terra (MST). “É difícil trabalhar com esse público, que só vê a possibilidade de riqueza na exploração de recursos naturais”, conta Gisele. De acordo com ela, o pequeno agricultor reconhece o impacto da ocupação, mas fica dividido entre um sentimento de culpa e de revolta. “Eles sabem do mal, mas dizem que não tem culpa de terem sido levados para lá. É preciso ter muito cuidado para não afugentar ninguém”, completa. O trabalho da ONG no local é dificultado por interesses coronelistas e políticos. A equipe da instituição já sofreu ameaças “indiretas”.

    “A importância do substantivo”

    Wilson da Costa Bueno, doutor em Ciências da Comunicação e membro da Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental, discursou sobre a necessidade do jornalismo ambiental, o marketing verde e a eco-propaganda freqüentarem “galáxias distintas”. “Não é a mesma coisa, mas há uma tendência no mercado de aproximação, e isso é preocupante”.

    O professor da Escola de Comunicação e Arte da Universidade de São Paulo (ECA/SP) também critica o que chama de “Síndrome de Lattes”, em que o jornalismo tende a ficar refém do saber técnico de pesquisadores que se sentem os donos da verdade. “Restringir o debate de opiniões porque elas não vêm de especialistas é um erro”, avalia. “Todos devem opinar e não apenas um círculo restrito de fontes que já se venderam para as grandes corporações”, ataca. Polêmico, Bueno desafia os que consideram que o jornalismo deve ser neutro. “Um jornalista que se diz neutro é no mínimo babaca”, provoca.

    Semelhante avaliação tem o jornalista uruguaio Victor Bacchetta, que palestrou na sexta-feira 19 de maio, na abertura do Congresso,. Segundo o membro-fundador da Rede de Comunicação Ambiental da América Latina e Caribe – Rede Calc, no momento em que o veículo define sua pauta de trabalho já deixa de ser neutro, por que dentre os milhares de assuntos, define apenas alguns.

    “O jornalista deve tratar o tema escolhido como um especialista ou profissional, sendo objetivo e responsável no tratamento de todas informações e das fontes relacionadas. O jornalismo que pretende ser gerador de cidadania deve deixar as opiniões pessoais e partidárias de lado. Sua tarefa principal consiste em apresentar a maior quantidade de elementos e da melhor qualidade possível, para que o leitor possa compreender o tema, sua origem e evolução, formando sua própria opinião,” finaliza.

  • Dia de Solidariedade na Redenção


    Para Fogaça, o dia cinzento ficou bonito pelas iniciativas de solidariedade. (Fotos: Carla Ruas/JÁ)

    Carla Ruas

    Apesar da chuva do sábado 20 de maio, o Dia da Solidariedade foi comemorado com diversas atividades no Parque da Redenção, junto aos espelhos d’água. Pela manhã, o prefeito José Fogaça deu início ao evento, observado por um pequeno público. Ao longo do dia, a comunidade pôde acompanhar uma série de shows culturais e desfrutar de serviços oferecidos gratuitamente nas barracas.

    “Eu olho esta chuva e penso, que bela manhã” brincou Fogaça, durante a cerimônia de abertura. Para ele, o dia cinzento e triste ficou bonito pelas iniciativas de ajuda e solidariedade que aconteciam no parque. “Sai dos corações destas pessoas uma nova maneira de encarar o mundo de hoje. Queremos viver numa cidade solidária”, disse.

    Para o Secretário de Coordenação Política e Governança Local, César Busatto, a data incentiva o hábito de ajudar ao próximo. “A união entre as empresas, comunidade e instituições pode fazer a diferença”. Enquanto deputado estadual, ele foi o autor da lei nº 11.693, de 26 de novembro de 2001, que institui o terceiro sábado do mês de maio para comemorar o dia da solidariedade no Rio Grande do Sul.

    A idéia surgiu a partir das Indústrias Tevah, que há nove anos destinam esta data para realizar trabalho voluntário. Todas as roupas produzidas neste dia são distribuídas para entidades assistenciais, como asilos. “Esta atitude tem que se espalhar pelo Estado, entre empresas, profissionais liberais e comunidade”, diz Busatto. Ele afirma que outros municípios já estão promovendo datas semelhantes.

    A coordenadora do escritório da Unesco no Rio Grande do Sul, Alessandra Schneider, acredita que Porto Alegre está servindo como exemplo para o Brasil. “Vivemos uma crise de valores no mundo contemporâneo, temos que reanimar o sentimento de cooperação e coletividade”. Para ela, esta é uma chance de mudar a realidade. “Ninguém vive sozinho”, lembra.

    Serviços Solidários


    Cléo Chaves parou nas barracas para medir a pressão e examinar os olhos

    Entre os serviços disponíveis para a comunidade estavam medição de pressão, doação de sangue, distribuição de bulas informativas do IMAMA/RS sobre o câncer de mama, encaminhamento de carteiras do artesão e de trabalho, avaliação nutricional pelo Hospital Moinhos de Vento e informações sobre doação de órgãos.

    As barracas mais procuradas eram as que prestavam serviços de saúde gratuitamente, como medição de pressão, teste de glicose e orientação nutricional a partir do peso. Cléo Chaves estava passando pelo parque e resolveu parar nas barracas. “Medi a pressão e agora vou testar os olhos”, comentou.  Além disso, um fila se formou para a doação de sangue, que podia ser realizada num trailer localizado dentro do parque.

    Durante o evento, o prefeito ainda lançou o Disque Solidariedade, um canal de doações através do telefone 156. “O Disque Solidariedade foi criado para fazer a intermediação entre os que querem ajudar e os que precisam de ajuda”, disse. As entidades poderão ligar para doar e receber. O serviço começou a funcionar no sábado, das 10h às 16h, e seu atendimento será de segunda a sexta-feira, das 9h às 19h, e aos sábados, das 8h às 16h.

  • Câmara proíbe cartazes em postes da Capital


    Haroldo e Margarete: Proposta é evitar sujeira eleitoral na cidade (Fotos: Tonico Alvares/CMPA/JÁ)

    Helen Lopes

    Com a intenção de diminuir a poluição visual em Porto Alegre, principalmente em época eleitoral, a Câmara Municipal aprovou na quarta-feira, 17 de maio, projeto que proíbe a colocação de propaganda ou publicidade em postes da cidade. A medida pode valer ainda este ano, evitando que esses equipamentos públicos fiquem cobertos de bandeirolas e cartazes de candidatos nos próximos meses de campanha política. O texto também veta qualquer tipo de anúncio particular ou comercial em passarelas de pedestres, pontes, viadutos, monumentos públicos, parques, jardins, árvores, praças, tapumes, muros e paredes.

    A proposta dos vereadores Margarete Moraes (PT) e Haroldo de Souza (PMDB) permite apenas propaganda destinada a divulgação de eventos ou campanhas de assistência social, de saúde e de programas governamentais. Margarete observa que os partidos abusam da utilização desses espaços. “No começo, era criativo, mas na última campanha estava exagerado”, admite a petista. Para o vereador peemedebista, além de auxiliar na higiene da cidade, a lei pode gerar economia aos cofres do município. “O candidato suja e quem limpa é a prefeitura”, afirma Haroldo.

    O projeto é substitutivo à Lei Complementar n° 2, de janeiro de 1975, e deve ser submetido à sanção do prefeito José Fogaça. A Prefeitura ainda não se manifestou publicamente sobre assunto, pois ainda aguarda o texto final. Se for sancionada, a nova lei deve ser fiscalizada pela Secretaria de Municipal de Meio Ambiente (Smam), que tem uma Equipe de Combate e Controle da Poluição Visual e retira o material irregular das ruas. “Diariamente, removemos um caminhão de cartazes e faixas”, revela o supervisor de Meio Ambiente da Smam, Walter Koch.

    O projeto prevê multa diária de 100 a 150 Unidades Financeiras Municipais (UFMs) para quem descumprir a determinação.

  • Moradores e vereadores pedem estudo sobre ERBs


    Eleuza Moraes: “Antenas formam triângulo do medo” (Fotos: Elson Sempé/CMPA)

    Helen Lopes

    O debate sobre a relação entre a incidência de câncer e antenas de telefonia celular atraiu 40 pessoas ao auditório Ana Terra da Câmara Municipal de Porto Alegre na tarde de terça-feira, 16 de maio.

    A reunião conjunta das Comissões de Saúde e Meio Ambiente (Cosmam) e de Defesa do Consumidor, Direitos Humanos e Segurança Urbana (Cedecondh) começou com o relato do Movimento dos Moradores de Petrópolis contra as ERBs (Estações de Rádio Base).

    O grupo suspeita que três equipamentos das empresas Claro, Tim e Vivo, instalados num raio de 50 metros nas ruas Felipe de Oliveira, Gen. Souza Doca e Álvares Machado estejam provocando tumores em função da radiação emitida pelas ERBs.

    Representando o movimento, a dentista Eleuza de Moraes chamou as três antenas de “triângulo do medo” que preocupa a vizinhança há cinco anos. Além de recentes casos de câncer na vizinhança, ela relatou outras queixas de moradores, que sofrem com dores nas articulações, zumbido nos ouvidos, cansaço e depressão.

    “Não podemos comprovar a relação com as antenas, por isso queremos que seja feito um estudo através de alguma universidade”, reivindica Eleuza. A comunidade também exige a retirada imediata das ERBs, que estão irregulares.

    De acordo com a lei municipal que regulamenta o assunto, aprovada em abril de 2002 e que está em vigor desde 30 de abril de 2005, a distância mínima entre as ERBs é de 500 metros, o que não é respeitado no local.

    O momento mais tenso do depoimento de Eleuza foi quando ela relatou três casos de mulheres que tiveram câncer de útero, bem em frente a uma das antenas. ”Será coincidência?”, questiona a ativista. Em 2005, o movimento promoveu um abaixo-assinado, entregue ao Ministério Público, em que cada um relatou os sintomas sentidos.

    Vereadores decidiram enviar ofício ao Executivo, solicitando esclarecimentos. “Queremos que a Prefeitura faça uma avaliação técnico-científica para saber se há relação entre as ERBs e os casos de câncer”, destacou o vereador Carlos Todeschini (PT).

    Anatel fez medição no Petrópolis

    A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) apresentou a medição de radiação feita no bairro Petrópolis entre 12 e 15 de maio. O estudo, providenciado após o convite para participar da audiência, aponta que os índices registrados em três pontos do quarteirão citado pelos moradores são inferiores ao da lei porto-alegrense, a mais rígida do Brasil.

    Em dois pontos na rua Souza Doca – um a 46 metros do pé da torre e a 60 metros da antena e o outro a 25 metros da torre e a 45 metros da antena – o nível médio foi de 0,42 Voltz/metro e 0,45 Voltz/metro, respectivamente. Na rua Álvares Machado, a medição foi feita no terraço de um prédio e apontou um valor médio de 3,01 Voltz/metro.

    A lei municipal estipula que o nível máximo de radiação é de 4 Voltz/metros e o da Anatel é de 39 voltz por metro. Ou seja nesse aspecto, as antenas estariam legais. Segundo a Prefeitura, a cidade tem 522 ERBs, entre regulares e irregulares. De acordo com dados da Associação Nacional das Operadoras de Celulares (Acel), o Brasil é o quinto país em número de usuários de celular. De cada grupo 100 pessoas, 44 têm celular.

    Empresas foram autuadas

    O engenheiro Antônio Preto da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (SMAM) diz que as empresas de telefonia já foram autuadas pelo descumprimento da lei municipal, que estabelece a distância mínima de 500 metros entre as antenas de celular, 50 metros de escolas, hospitais e clínicas, e 5 metros do terreno vizinho.

    Os equipamentos só não foram retirados ainda porque o processo administrativo está em andamento. “As operadoras entraram com recursos e, enquanto não se esgotarem os trâmites legais, não podemos retirar as ERBs”, justifica.

    Ao invés de uma resposta direta sobre o caso, as empresas apresentaram um vídeo com depoimento de um representante da Organização Mundial da Saúde (OMS). O material da Associação Nacional das Operadoras de Celulares (Acel) tenta desmistificar eventuais efeitos das ERBs na saúde do ser humano.

    De acordo com o material, a OMS está trabalhando no projeto “Campos Eletromagnéticos”, que terá resultados em 2008. O estudo constatou até o momento que a exposição à radiação aumenta a temperatura e altera as enzimas do corpo.

    Opiniões distintas entre especialistas

    Conforme o engenheiro Gláucio Siqueira, que estuda telecomunicações há 22 anos, a radiação específica das antenas não prejudica o homem. Mas o especialista, que também é professor da PUCRJ, fez uma ressalva, que repetiu diversas vezes. “Como tudo na vida, em excesso faz mal”, salientou o pesquisador, que presta serviços à Acel. Ele também admitiu que há estudos que apontam grandes malefícios e outros que garantem que são mínimos.

    O professor do Departamento de Engenharia Elétrica da UFRGS, Álvaro Salles, diz que a comunidade científica ainda não sabe exatamente o ponto em que a exposição prolongada a radiações não ionizantes (oriundas de equipamentos das telecomunicações, como telefone celular e Estação de Rádio-Base) deixa de ser segura e passa a ser danosa ao organismo.

    O engenheiro explica que existem dois tipos de exposição ao campo eletromagnético: as de alto nível (intensidade) e curta duração, que ocorrem quando se fala ao celular; e as de baixo nível e longa duração, propagadas pelas ERBs. De acordo com Salles, os dois casos são maléficos à saúde, pois podem causar a quebra simples ou dupla da hélice do DNA e alteração da barreira hemato-encefálica, o que pode afetar o sistema nervoso. “O efeito de alta intensidade e curta duração todo mundo reconhece porque sente”, observa o pesquisador.

    A médica Geila Radünz Vieira, da Vigilância Sanitária da Secretaria de Saúde Municipal (SMS), estuda o tema há 10 anos. Ela questionou o vídeo apresentando pela Acel, pois além de ter partes editadas, não considera os estudos da Organização Internacional do Trabalho (OIT). “Pesquisas nesta área levam cerca de 60 anos para obter resultados seguros e esses dados estão com a OIT”, garante a assessora técnica da SMS, que participou da elaboração da lei municipal e é integrante da Câmara Técnica de ERBs e do Conselho Municipal de Meio Ambiente. Para Geila, a discussão sobre possíveis efeitos das ERBs à saúde já está superada. “As operadores devem é cumprir a lei”, resume.

    Leia matéria publicada no jornal JÁ Porto Alegre em julho de 2005.

  • Olhos que acompanham o Bom Fim há 84 anos

    Helen Lopes

    É um apaixonado pelo Parque Farroupilha – na inauguração, em 20 de setembro de 1935, ele estava lá. Trata-se de Jayme Lewgoy Lubianca, filho de duas famílias judias pioneiras do Bom Fim.

    Convidado a falar de sua vida e a identificação com o bairro, este engenheiro agrônomo e compositor prefere lembrar do pai, o médico José Lubianca, famoso na região – deu atendimento a mais de uma geração de moradores do Bom Fim.

    Nesta entrevista, nosso personagem conta esta e outras histórias.

    Quando sua família veio a Porto Alegre?

    Meu pai ainda era pequeno. Minha avó era austríaca e o meu avô russo. Chegaram no Brasil por São Paulo, onde meu pai nasceu. Quando meu avô registrou meu pai, ele não sabia falar bem português. Com isso, o nome ficou José Faibes Lubianca, mas ele queria dizer José Fábio Lubianka, com k. Em Porto Alegre, meus avôs alugaram uma casa onde hoje é a esquina da Riachuelo com a Borges de Medeiros.

    A prefeitura estava abrindo a Borges e ofereceu, em troca da casa que iam derrubar, dois terrenos na Felipe Camarão. Eles foram um dos primeiros moradores do bairro. Os terrenos eram enormes, 25 por 50 metros. Tinha um jardim, pomar e uma horta. Meu pai viveu a infância toda aqui, depois, estudou Medicina.

    Enquanto cursava a faculdade, trabalhava no setor de segurança da prefeitura, o que corresponde à polícia. Durante a Revolução de 1922, ingressou na Brigada Militar como soldado, os chamados provisórios. Como estudava Medicina, foi promovido a capitão. Neste ano, eu nasci. Meu pai estava em Passo Fundo e mandou buscar a família. Minha mãe contava que eu chorei todo o trajeto até Passo Fundo, que era feito de trem em dois dias.

    Quando a revolução terminou, voltamos a Porto Alegre, ele terminou a faculdade e continuou servindo na polícia. Foi designado para o Instituto de Identificação onde se aposentou. Lá ele era especialista em datiloscopia. Ele tem um trabalho reconhecido no Brasil inteiro nessa área. Ministrava cursos, fazia pesquisa, desenvolveu técnicas de tomada de identificação digital e, além disso, foi fundador da policia técnica do Rio Grande do Sul.

    Ele e meu avô, juntamente com o meu outro avô Lewgoy, foram fundadores do Israelita, do qual meu pai também foi presidente. Ele teve nove filhos, oito homens e uma mulher. Lembro que ele tinha um consultório particular na nossa casa e outro na Alberto Bins para atender tanto os que podiam quanto os que não podiam pagar. Até hoje, algumas pessoas me atacam na rua para me abraçar e me beijar em função dele, dos benefícios que ele fez. Ele atuou em todas esferas de participação social. Mas esse lado dele na polícia poucas pessoas conhecem bem.

    E a sua atuação profissional?

    Entrei no Instituto de Identificação como aspirante, ao invés de salário, recebia passagens de bonde. Fui promovido e fiquei lá 12 anos, trabalhando com impressões digitais lá e depois no Instituto de Perícias Técnicas. Paralelamente, fazia a faculdade de Agronomia. Quando me formei, pensei em ficar lá, mas meu irmão já trabalhava nisso, meu pai também. Iam pensar que era só para os familiares!

    Passei meio ano ainda no Instituto e fui convidado por um professor para trabalhar na Secretaria da Agricultura. Fiz concurso e trabalhei primeiro no setor de Defesa Sanitária Vegetal. Depois, um colega, que fez concurso comigo, me convidou para desenvolver um estudo de olivicultura no Estado. Fizemos um simpósio de olivicultura, viajamos para o Chile e até nos aproximamos de uma variedade que poderia ser plantada no Rio Grande do Sul.

    Aí, toquei a minha vida como engenheiro agrônomo. Eu já estava há 10 anos aposentado, quando me convidaram para trabalhar no departamento de piscicultura da Secretaria. Meus colegas me convenceram. Aí eu voltei. Fiquei lá mais uns cinco anos. Depois entreguei as chuteiras. Fiquei em função da família, dos netos, primos…

    E sua relação com a Redenção?

    Fui guri de parque, assistindo às coisas que aconteciam. Usei muito o parque, principalmente com os meus filhos, era praticamente nosso quintal. Eu, minha mulher e os meus filhos sempre saíamos para lá. Na minha vida, o Parque da Redenção representou o pátio e o jardim. É claro que mudou muito, principalmente, na área de habitação. Isso aqui era um campo.

    Eu vi arrumarem o solo para instalar o parque. Lá por 1935, eles aterraram tudo com lixo. Foram um ou dois anos com um cheiro horrível. Depois, em cima, colocaram saibro. E, ainda, mais uma camada de uns três metros de areião e molhavam constantemente. A fermentação foi diminuindo, o cheiro passou e eles passaram os tratores para compactar. Foi assim que fizeram o parque. Acho que era o monumento mais lindo do país naquela época. Feito para a inauguração da exposição do centenário da Revolução Farroupilha.

    O senhor nunca saiu do bairro?

    Saí muito pouco tempo, 90% da minha vida eu morei no Bom Fim. Cheguei a morar no final da Jacinto Gomes, perto da polícia, um meio ano. Voltei e morei na Ramiro Barcelos, depois na Fernandes Vieira. Os filhos chegavam e o apartamento ficava pequeno. Quando estava na Fernandes Vieira, visitei esse apartamento, de novo na Jacinto.

    Em que momento a música entrou na sua vida?

    Sempre gostei de música. Meus pais tocavam piano. Meu pai também tocava violino. Isso foi impregnando. Quando guri, ouvia muito a rádio Nacional, ficava até às 3h da madrugada. Fui crescendo e comecei a sair com amigos nos lugares onde tinha música ou gente tocando violão. O pessoal fala que eu fundei o Conjunto Baldauf porque onde tinha amigo meu tocando eu estava junto.

    Eu gostava era de cantar, não era muito dos instrumentos. Às vezes, acompanhava o ritmo com um chocalho ou tambor. Vai daqui, vai dali, conheci um grande compositor, num verão em Belém Novo – a minha família tinha uma casa de veraneio lá – que tinha feito a música da Rua da Praia. E convidei ele para fazer uma música, que eu faria a letra. Passaram vários anos e nada. Desisti e comecei a compor. Lembrei das coisas bonitas de Porto Alegre, principalmente, do pôr-do-sol e dos lampiões da Rua da Praia.

    Como a música “Porto dos Casais” tornou-se conhecida?

    Quem lançou essa música foi Sílvio Caldas. Ele esteve em Porto Alegre para um aniversário da rádio Gaúcha e alguém cantou para ele a minha música. Ele gostou, mas queria que eu cantasse. Daí, 6h da manhã, telefona meu primo dizendo que o Silvio Caldas queria me conhecer. “Ele pediu para tu ir lá no City Hotel ao meio-dia”. Não acreditei: “Mas tu tá louco rapaz, bêbado já essa hora?”.

    Meu primo insistiu tanto que acreditei. Fui lá e falei com o Silvio Caldas. Ele gostou da música e pediu para eu ir às 18h30 na Gaúcha, que ele estaria ensaiando e queria lançar a música. Quando estava cantando, me lembro que ele pegou um chapéu, que estava pendurado num cabide, enterrou na cabeça e disse: “Ta louco! Que música maravilhosa é essa! Na mesma noite, ele lançou a música.

    Depois, ele escreveu uma carta pedindo autorização para gravar. Porto dos Casais foi interpretada ainda por Elis Regina e Simonal. Também compus “Quatro Estações” e “Nasce uma Canção”.

    E sua relação com o rio?

    Fui sócio do Grêmio Esportivo Masson, fundado pelo Leopoldo Geyir, que adorava barco à vela. Tinha um barquinho e eu navegava por tudo. A beleza do rio era empolgante. No verão, saía de barco bem cedo e voltava no pôr-do-sol. Uma coisa linda. Você vai chegando na cidade e vê o sol batendo nas construções, nas igrejas, no Porto. Era fantástico! Uma das vistas mais lindas de Porto Alegre é no rio.

    Em um desses passeios, eu me empolguei e decidi o motivo da música: Porto Alegre. Como gostava muito de história, lembrei que o nome da cidade era Porto dos Casais. Já tinha o nome da minha música. Daí, primeiro fiz a letra. Depois de uma noite na praia da Alegria (em Guaíba), acordei de uma bebedeira daquelas com a música em cima da letra. Despertei com a música na cabeça. A minha grande mágoa é não ter estudado música. Estudei muito pouco no IPA, deveria ter sido mais, já que eu gosto tanto.

  • Porto Alegrona


    Diretores utilizaram o olhar de diversos porto-alegrenses para compor a narrativa da obra (Foto: Naira Hofmeister)

    Naira Hofmeister

    Contar e fazer história ao mesmo tempo, uma premissa do jornalismo que foi aproveitada por Cícero Aragon e Jaime Lerner na montagem do longa-metragem Porto Alegre, meu canto do mundo, que teve pré-estréia esse ano mas só deve ser lançado comercialmente em 2007. “É um tema muito vasto e não queríamos fazer um filme institucional nem um almanaque da cidade. Mas tinha que ser numa linha, que acabou sendo um olhar especial sobre a cidade, que é construído pelos depoentes”, define Lerner.

    A produção cativou o público mostrando criatividade na hora de falar sobre um tema que tem tudo para cair no clichê. Já nas primeiras cenas, o espectador é surpreendido por uma narrativa emocionante de Saint Hilaire, que, lá pelos idos de 1835, anotava a tomada da cidade pelo exército Farroupilha. As imagens porém, focam o gramado do Beira-Rio, o estádio lotado e as torcidas gremista e colorada disputando a batalha contemporânea do futebol. Passado e presente se unem na polaridade gaúcha.

    “Temos uma história de confrontos dramáticos em que a cidade foi o palco. Fomos ligando esses conflitos, que, hoje, graças a Deus, se decidem muito mais no campo de futebol”, brinca Lerner.
    As belíssimas imagens aéreas captadas por uma lente olho-de-peixe são um dos destaques da obra – a fotografia do filme é com certeza um ponto alto. “É uma perspectiva muito diferente, a qual as pessoas não estão acostumadas”, compara Lerner, que, além de dividir a direção com Cícero Aragon, assina também a fotografia.

    A narrativa ganhou ares experimentais, intercalando poesias, músicas e a voz de personalidades locais – com textos relacionados às imagens. A panorâmica sobre a avenida Osvaldo Aranha, por exemplo, dispensa explicações, já que a trilha sonora escolhida é “Berlim, Bom Fim”, de Nei Lisboa. “Os velhos nos cafés/O Bar João em plena Kriegstrasse/A saga violenta desse parque/O cinza da cidade partido verde ao meio (…) E depois da meia-noite/A fauna ensandecida do Ocidente/Digitando em frente ao Metropol/Berlim, Bom Fim”.

    Entre cenas documentais e de ficção, imagens de arquivo se misturam com o perfil atual da cidade e comparam mais de dois séculos de história, costurados por depoimentos de moradores sobre os lugares que construíram a cultura e a sociedade porto-alegrense. Entre os entrevistados estão Luiz Antonio de Assis Brasil, Moacyr Scliar, Luis Fernando Verissimo, Sérgio da Costa Franco, Arthur de Faria e Sandra Pesavento.

    Tem ainda Eva Sopher e seu Theatro São Pedro e Giba-Giba no Areal da Baronesa, com uma paradinha estratégica no Beco do Mijo. Os 234 de Porto Alegre são permeados pela tradição de uma cidade sempre provinciana mas hoje (será?) também cosmopolita. “O filme é honesto por não mostrar uma imagem marginal ou oficial. Simplesmente dá informações que permitem várias percepções da mesma historia”, opina Cícero Aragon, que também produziu o documentário.

    A primeira montagem teve quatro horas de duração, mas o corte final resultou num filme com pouco mais de 60 minutos. “Esse período do trabalho foi cruel. Depoimentos preciosíssimos ficaram fora”, lamenta Lerner. O famoso Lambe-Lambe do Brique, por exemplo não figura no material final.
    O resultado é um filme que, sem ser generalista nem extremamente pessoal, mostra a construção da cidade e sua população, retomando momentos históricos, como o movimento da Legalidade. Porto Alegre, meu canto do mundo recria a identidade da Capital. “As pessoas que conversaram com a gente acharam realmente uma radiografia da cidade, com seus pontos altos e baixos, ricos e pobres”, orgulha-se Aragon.

    A cópia exibida nos cinemas ainda não é definitiva, e o atual formato digital deve ser passado para película com a adesão de uma nova leva de apoiadores. Além do cinema, o filme deve ser exibido na TV por assinatura e terá cópias distribuídas em escolas e embaixadas.

  • Segurança entra na pauta dos shoppings


    Para o Major Ney a pessoa deve observar as mãos e os olhos do suspeito Fotos: Naira Hofmeister/Jornal JÁ

    Naira Hofmeister

    Adaptar estratégias de defesa para a população nas ruas para o ambiente dos shoppings centers. Esse foi o desafio do Major Antônio Ney da Silva Júnior, comandante da 4ª Companhia do 9º Batalhão da Brigada Militar. Ele palestrou na manhã dessa terça-feira, 16 de maio, em reunião com lojistas e moradores no Shopping Total.

    Depois de Iguatemi e Lindóia, no último sábado, dia 13, foi a vez do Bourbon Ipiranga sofrer ataque à mão armada de uma quadrilha interessada nas vitrines e caixas registradoras de joalherias e óticas. O fenômeno tem assustado comerciantes e clientes, que já não acreditam na segurança plena desses empreendimentos. “Nenhum lugar é 100% seguro”, sublinha o Major Ney.

    O público ouviu com atenção as dicas de segurança, que podem ser resumidas em comportamento preventivo. O primeiro destaque foi desmistificar a crença de ladrão é um homem maltrapilho. “Grande parte dos assaltos são cometidos por pessoas de terno e gravata. O número de mulheres em ação também aumentou”, observa. Segundo o Major Ney, assim que detectar um suspeito – tanto na rua como num shopping – a pessoa deve observar as mãos, que em geral ficam dentro dos bolsos, e os olhos, pois “são o reflexo da alma” e denotam as reais intenções do indivíduo.

    Ao se confirmarem características para um crime, o maior cuidado deve ser em relação ao espaço de uma possível ação do bandido. O representante da Brigada orienta para que se mantenha uma distância mínima de 20 metros do suspeito, mudando de direção continuamente e buscando ajuda de um profissional. “O ladrão precisa se aproximar para agir”.

    Gritar também pode ser uma saída. Se lembrar, a vítima deve optar por chamar algum nome ou dar um aviso, ao invés de pedir socorro, o que afasta as pessoas, ao invés de aproximá-las. Se a perseguição acontecer dentro do shopping, a ajuda pode vir de um lojista ou mesmo da segurança do empreendimento.

    O major também orientou para o comportamento nos estacionamentos. Ao perceber uma movimentação estranha, o proprietário deve passar reto pelo seu veículo para evitar ser reconhecido pelo assaltante. No trânsito, o princípio é o mesmo: jamais se deve parar o carro numa situação de risco, “nem mesmo se furar um pneu”, ressalta o comandante.

    Se nenhuma ação evitar a abordagem, a dica é não reagir, entregar o que o ladrão pede e, principalmente, manter-se calmo. Se após o roubo os assaltantes quiserem levar a vítima para outro lugar, deve-se desconfiar, verificar a arma que o bandido porta – se for uma faca, não há problema em gritar e pedir ajuda. No caso de um revólver, cabe reavaliar a situação. “A melhor reação nesse caso é enfatizar para o bandido que não vai sair do lugar onde está, de jeito nenhum. Em geral, eles desistem pois não querem se expor”, diz o major.

    Comunidade vigilante é estratégia preferencial

    O comandante da 4a Cia do 9º BPM, Major Antônio Ney da Silva Júnior, diz que a saída para a insegurança está na cooperação entre sociedade e poder público: “Comunidade unida é violência diminuída”, ensina. O oficial cita o exemplo do programa Vizinhança Solidária, que consiste na vigilância da própria comunidade em seu entorno. “Este shopping é ideal para praticar essa técnica, pois as lojas são todas de vidro, o que facilita a observação constante do vizinho”, sugere.

    O Major Ney destaca que não é preciso se preocupar com uma falsa suspeita, o que importa é manter o contato com a polícia. “Estaremos mais tranqüilos por responder um delito que não se confirma do que fazendo uma ocorrência onde a vítima disse que tinha suspeitado de alguém”. Além do aumento da vigilância, esse tipo de organização cria, segundo o oficial, uma resistência nos bandidos em atacarem determinados locais.

    Para Beatriz França, proprietária de um café e membro do comitê de lojistas do Shopping Total, a dica é válida e de fácil aplicação. “O shopping está se antecipando à essa situação e assim, espanta o temor dos lojistas”, acredita.

    Para o coordenador de segurança do empreendimento, Ilmar da Silva Carpes, essa atitude ajuda não só na vigilância, mas na preparação dos lojistas em caso de roubo: “Manter a calma é essencial para que acabe rápido e ninguém seja levado refém”, lembra. Carpes ainda salienta a ação dos seguranças particulares na área externa aos prédios, onde devem estar atentos a carros muito potentes, com vidros escuros e motorista aguardando.

    A parceria entre a comunidade e o poder público, no entanto, não precisa acabar aí. No Shopping Total existe um projeto de aproximação que inclui almoço liberado para a Brigada, contribuições da administração na manutenção de viaturas e a doação de outros instrumentos, como o telefone celular que fica à disposição da comunidade para atendimento de emergência (número abaixo). “É essencial essa participação direta da comunidade com a Brigada, pois eles permanecem mais tempo próximos ao empreendimento”, defende Carpes.

    Para o Major Ney, a ajuda é bem vinda, porém, ele destaca que “quem tem que suprir as necessidades logísticas é o Estado”, o que garante que o restante da comunidade não será prejudicada por ações pontuais. No entanto, frente ao aumento da marginalidade e queda nos quadros da brigada – no 9º BPM o déficit chega a 50% – o contato estreito com a sociedade pode incrementar o sucesso das ações.

    Telefones do 9º Batalhão de Polícia Militar
    Quartel General – 32883200
    Patrulha Comunitária – 84364172

  • Limite: antológico filme brasileiro tem exibição única em Porto Alegre

    Cena do filme Limite, que sera exibido em sessão única na quarta-feira, 17 (Divulgação)

    Naira Hofmeister
    O Santander Cultural exibe nesta quarta-feira a única sessão de Limite, filme de Mário Peixoto que é considerado um marco do cinema brasileiro, reconhecido internacionalmente como o representante da avant-garde tupiniquim. O evento homenageia os 75 anos da obra – lançada em 1931, no Cinema Capitólio, no Rio de Janeiro, onde foi aclamada por críticos como “a mais bem sucedida experimentação de cinema-poesia na história nacional”.
    O longa não foi um sucesso de público – teve poucas exibições na época. Depois, acabou relegado a circuitos alternativos. A sessão que acontece em Porto Alegre, na próxima quarta-feira, 17, é uma rara oportunidade de ver o filme.
    Tanto que há uma programação especial para este grande momento. Como preliminar, de segunda a quarta desta semana o Santander apresenta o documentário Onde a Terra Acaba, de Sérgio Machado, que tem como objeto a vida e a obra de Mário Peixoto. O legado desse autor, aliás, é pouco conhecido, tanto pelos mistérios de sua biografia como pela pouca divulgação que seu único filme finalizado teve.
    Limite dialoga com o desespero e a angústia diante da tragédia. É também um texto sobre a resistência, a capacidade de luta, a garra pela vida, mesmo quando a morte é iminente e inevitável. Entre os personagens, o traço mais marcante dessa resistência é a memória dos que vivem do passado, mesmo que este se constitua de fracassos e infelicidade.
    A trama foi escrita em uma única noite, após Peixoto ter sido seduzido pela imagem de um rosto feminino, que à sua frente tinha as mãos de um homem atadas por algemas. A figura foi capa da revista francesa VU em 1929, que Peixoto conheceu durante sua estadia em Paris.
    Obra única
    Mesmo com as reverências prestadas à Limite, Mário Peixoto nunca mais conseguiu concluir outra obra. Em 1959, os negativos da última cópia do filme encontravam-se completamente deteriorados e coube à Plinio Süssekind e Saulo Pereira de Mello, iniciarem sua recuperação, que só foi finalizada em 1971.
    Toda essa mística em torno de Limite é revelada parcialmente no documentário Onde a Terra Acaba, de Sérgio Machado, que recebeu o prêmio de Melhor Filme do Júri no Festival de Gramado em 2002. O filme, produzido por Walter Salles, tem o mesmo título da produção que Peixoto abandonou em 1932, no meio das filmagens, após brigas com a atriz e produtora Carmen Santos.
    O filme traz imagens raras e cenas de bastidores de Limite, alguns fragmentos de Onde a Terra Acaba e depoimentos de Peixoto, colhidos por Ruy Solberg para outro trabalho, O Homem do Morcego.
    Os dois filmes terão sessões comentadas. Onde a Terra Acaba terá debate conduzido por Aparecida do Carmo Frigeri Berchior, professora de literatura brasileira e diretora acadêmica da FAFIBE (São Paulo), que teve o autor como temática de seu doutorado, além de ser autora de vários artigos sobre o cineasta.
    Limite será comentado por Michael Korfmann, professor do Instituto de Letras da UFRGS, responsável pela criação e manutenção do site www.mariopeixoto.com e de grupos de estudos sobre a obra prima de Peixoto e sua colaboração literária. É também editor do livro em inglês Ten contemporary views on Mario Peixoto’s Limite, lançado na Alemanha em janeiro de 2006. A mostra é iniciativa do Instituto de Letras – UFRGS, com apoio do Goethe-Institut e Arquivo Mario Peixoto (RJ) e do Santander Cultural.
    Programação mostra especial Limite 75
    15 de maio – segunda-feira

    15h, 17h e 19h – Onde a terra acaba, de Sérgio Machado
    16 de maio – terça-feira
    15h, 17h e 19h – Onde a terra acaba, de Sérgio Machado
    Sessão Comentada com Aparecida do Carmo Frigeri Berchior
    17 maio – quarta-feira
    15h e 17h – Onde a terra acaba, de Sérgio Machado
    19h – Limite, de Mario Peixoto
    Sessão Comentada com Michael Korfmann