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  • Bancários denunciam irregularidades no Santander


    Bacelo denunciou o que trabalhadores consideram arbitrariedades cometidas pelo banco Santander Banespa (Fotos: Elson Sempé/CMPA)

    Helen Lopes

    O presidente do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre, Juberlei Bacelo, denunciou na Tribuna Popular da Câmara Municipal, nesta segunda-feira (10/4), o que os trabalhadores consideram arbitrariedades cometidas pelo banco Santander Banespa. Segundo Bacelo, contratação de estagiários e de empresas terceirizadas para executar tarefas exclusivas de profissionais do setor e demissões em massa estão se tornando uma constante nas agências do Estado e do resto do País. “Com essas ações, o Santander está promovendo uma política de desvalorização do trabalho dos bancários. Na véspera do último Natal, foram demitidos 600 funcionários do Banespa”, denuncia.

    Bacelo revelou aos vereadores que durante o feriado de Páscoa o  Santander planeja implantar o novo sistema de informática e convocou os cerca de cinco mil funcionários para trabalhar sem o pagamento de horas extras. Após a intervenção da Igreja Católica, através da Cúria Metropolitana, o Santander recuou e permitiu feriado na Sexta-Feira Santa e no Domingo de Páscoa. No entanto, conforme ele, o banco não abre mão de que os empregados trabalhem no Sábado de Aleluia. Os dirigentes sindicais reclamam que o recuo do banco não resolve o impasse, já que impede os funcionários de viajar e passar a Páscoa com suas famílias no interior e em outros estados.

    Os bancários não concordam com a imposição de trabalho na Semana Santa e querem garantir o pagamento das horas extras para todos os funcionários, inclusive nos dois domingos que ocorreram simulações no novo sistema (19 de fevereiro e 26 de março).

    Na semana passada, o Santander Banespa demitiu cerca de 100 funcionários, a maioria das agências do Banespa, em São Paulo.  De acordo com Bacelo, o banco se comprometeu em analisar as dispensas. Os bancários reclamam que as demissões realizadas foram arbitrárias, dirigidas e discriminatórias, atingindo funcionários próximos à estabilidade pré-aposentadoria e também com jornada de seis horas. Eles também cobraram o compromisso assumido pelo banco em dezembro do ano passado, após as 600 demissões às vésperas do Natal, de que não haveria demissões em massa.

    A assessoria de imprensa do Santander em Porto Alegre informou que o banco não vai se manifestar sobre o assunto.

    Moção de solidariedade

    A maioria dos vereadores presentes no plenário criticou a postura do banco e apoiou a reivindicação dos bancários. Para o vereador Raul Carrion (PCdoB), essas imposições do Santander “desrespeitam a nossa cultura e a nossa nação”. Carrion propôs uma moção de solidariedade aos trabalhadores, para que os parlamentares possam ajudar nas negociações. O documento conta com 30 assinaturas e deve ser votado na próxima quarta-feira (12/4).

    Os vereadores Sofia Cavedon (PT), Bernardino Vendrúscolo (PMDB), José Ismael Heinen (PFL) e o presidente da Casa, Dr. Goulart (PDT), também  manifestaram solidariedade ao sindicato.

    *Com informações do site da Câmara de Vereadores

  • Desconhecimento tributário

    Vilson Antonio Romero, diretor da Associação Riograndense de Imprensa; e-mail: Romero@sulmail.com.br

    O ano de 2005 registrou a maior arrecadação de impostos e contribuições federais da história brasileira, atingindo o montante de R$ 364,13 bilhões. Se acrescermos às siglas administradas pela União o conjunto de taxas, contribuições e impostos estaduais e municipais, a carga tributária alcançou, segundo especialistas, o percentual de 38% do Produto Interno Bruto (PIB). Estimativas mais completas dão conta que o custo das obrigações acessórias para o perfeito cumprimento das mais de 220 mil normas tributárias, editadas entre 1988 e 2004, consome cerca de 5,82% do PIB.

    Portanto, o “elefante” dos impostos já chega a quase 44% das riquezas produzidas no País. É muito, principalmente no cotejo com o conjunto e a qualidade dos serviços públicos ofertados em contraprestação aos indivíduos. Inclusive há estudos demonstrando que dos 17,1% que o PIB nacional cresceu entre os anos de 1998 e 2005, 7,2% foram absorvidos pelo setor público através da arrecadação de impostos.

    O peso da carga tributária em diversos segmentos econômicos agrava o quadro. No preço final das flores, por exemplo, o percentual de impostos é de 18,91%, nos insumos agrícolas, 14,31% e chegamos ao absurdo de 35,07% incidentes sobre os medicamentos, em média, segundo o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT).

    O “paquiderme” tributário nacional massacra o cidadão que, espantosamente, ignora maiores detalhes desta violência sofrida diuturnamente. Há um imobilismo popular e uma pouca capacidade de indignação contra estaestrutura perversa, resultado em grande parte da ignorância, do desconhecimento acerca do assalto perpetrado pela sanha tributária.

    Apesar de o legislador ter estabelecido no parágrafo 5º. do artigo 150 da Constituição Federal que “a lei determinará medidas para que os consumidores sejam esclarecidos acerca dos impostos que incidam sobre mercadorias e serviços” esta providência tem sido descumprida, tanto pelo parlamento que não aprovou medida legal quanto pelos diversos setores da economia.

    O pouco esclarecimento da população, em todas as classes sociais, a respeito dos impostos, sua destinação e seu impacto na renda é atestado por pesquisa realizada pela Associação da Classe Média (Aclame) nas principais capitais brasileiras, onde surgiram respostas preocupantes, como 36% dos entrevistados não terem idéia para onde vai o dinheiro do Imposto de Renda, enquanto que 78% ignorarem que o ICMS é estadual.

    Portanto, como afirma a Aclame, há a necessidade de ações de conscientização e educação da população e mobilização para que se alcance a justiça tributária, sem a qual, conclui a entidade,”são reduzidas as condições de crescimento e desenvolvimento sustentável do país.”

  • Força e Luz: um time na marca do pênalti

    Área nobre: é permitido construir até 44 mil m2 no terreno de 1,6 hectares(Fotos: Tânia Meinerz/JÁ)

     

    Guilherme Kolling

    Fracassou a primeira tentativa para vender o estádio do Força e Luz. A única proposta apresentada em leilão no dia 5 de abril não atingiu a cifra exigida, que é de R$ 11 milhões. A sede do clube, de 85 anos, tem 1,6 hectares (16.816 metros quadrados), onde se pode construir até 44 mil metros quadrados.

    A Sala Figueira do Hotel Plaza São Rafael ficou lotada de sócios e conselheiros para ver quem arremataria o campo. Depois de iniciar os trabalhos, o leiloeiro Norton Fernandes aguardou uma proposta por alguns minutos, segurando o martelo. Tudo em vão. O silêncio foi total na platéia de cerca de 40 pessoas.

    O mestre de cerimônias insistiu, repetindo “11 milhões, 11 milhões, tenho 11 milhões?”. Até que recuou, perguntando se haveria qualquer oferta menor, que seria submetida ao clube. Mais uma vez, não se ouviu um pio na sala. Mas Fernandes ainda viu um lance de R$ 10 milhões, de um empresário de Santa Catarina, que não quis se identificar, e encerrou a sessão, sem bater o martelo.

    Agora, o conselho deliberativo e a assembléia geral de sócios do Força e Luz farão reuniões para decidir se fecham o negócio. O presidente, Rubem Franco, diz que a tendência é rejeitar a proposta. Um novo leilão deve ser realizado até o final de maio. Nesse meio tempo, o clube segue com suas atividades.

    Enquanto isso, muitas especulações. Norton Fernandes falou de sondagens de grupos de São Paulo, redes de supermercado e incorporadoras, que devem aparecer no próximo evento. Outro leiloeiro, Luís Agostinho Farias, garantiu à direção do Força e Luz que o Carrefour está interessado, e só não veio porque foi avisado muito em cima da hora.

    “O Wal-Mart foi contatado e está analisando. O Zaffari também fez sondagens, mas não uma proposta oficial. E as grandes construtoras também se interessaram, mas não chegaram ao valor estipulado”, disse Farias ao JÁ.

    Negociações começaram no início da década de 90


    Estádio da Timbaúva já foi considerado o melhor gramado da cidade

    Nas atas do Força e Luz, é possível ver que a discussão sobre a venda da sede do clube começou na década de 1990. Uma série de mudanças no estatuto foram feitas, para permitir que o conselho deliberativo tivesse poder para definir o negócio. Em princípio, a idéia era troca de imóveis – o estádio por outro local com melhor infra-estrutura.

    Em 2 de janeiro de 1991, a necessidade da construção de um pavilhão social foi lembrada. No mesmo encontro, o conselheiro Argil da Silva Barros revelou o interesse manifestado por grupos financeiros na permuta da área do Força e Luz por outra já construída. O então presidente do Conselho Deliberativo, Alfredo Costa Maliar, comunicou a formação de uma comissão para tratar com possíveis interessados, a partir de março de 1991.

    Nos anos seguintes, o assunto ficou para segundo plano. Em 1992, a direção decidiu investir em obras como a construção da cancha de bocha. Em 1994, foi constituída uma comissão para dar seguimento às intervenções no clube. A questão da venda do estádio só voltou a baila em 1997. O presidente na época, Antonio Carlos Barcellos Lunes, conta que manteve uma série de reuniões com o presidente da construtora Goldsztein, Sérgio Goldsztein. “A negociação foi até 1999. Já estava tudo certo, o projeto tinha maquete, nome – Condomínio Timbaúva –, seriam três edifícios, dois de frente para a Alcides Cruz e um na rua Dona Eugênia, que seria prolongada até a Silva Só” (hoje ela termina no Força e Luz).

    O negócio só não passou por medo de desentendimento entre os associados. Estava previsto que parte do terreno continuaria sendo a sede do clube. Só que o pagamento viria através de apartamentos. “O pessoal ficou com receio de não conseguir alugar, vender, então optou por não fechar negócio”, lembra Lunes. O tema continuou nas conversas dos conselheiros. Mas só em 2005 a venda foi aprovada. Com a divulgação do boato de que o Força e Luz ia mal das pernas, as propostas foram baixas e não agradaram. Por isso, a comissão de venda decidiu fazer um leilão. O primeiro não foi bem sucedido.

    Estatuto prevê destino de troféus e até pavilhão

    O estatuto do Força e Luz foi alterado diversas vezes desde que o primeiro texto foi feito, em 15 de abril de 1932. Nos últimos anos, as alterações têm relação com uma possível venda. Em 1997, um artigo estabeleceu que troféus, medalhas, arquivos e até o pavilhão deverão ser recolhidos ao Museu do Estado, após a extinção do clube.

    Depois, o conselho deliberativo passou a ter poderes para decidir sobre a venda dos bens imóveis do Força e Luz. Houve mudanças no estatuto em pelo menos seis oportunidades nos últimos 20 anos: 1986, 89 1997, 2001, 2003 e 2005. Outras medidas foram o estabelecimento de um número máximo de sócios (o teto passou a ser 470), e um valor alto para ingressar no clube – a partir de 1997, a jóia passou para R$ 12 mil.

    Mas o estatuto ainda mantém um artigo que existe desde 1932 e que segue praticamente igual: o Força e Luz é uma sociedade “sem fins econômicos”, com o objetivo de promover atividades de caráter desportivo, social, cultural entre seus associados e familiares.Estatuto prevê destino de troféus e até pavilhão.

    Finanças do clube estão equilibradas

    Ao contrário do que a situação deixa a entender, a venda do Força e Luz não se deve a uma crise financeira. Balanços dos últimos anos mostram saldo positivo ou pelo menos zerado, caso de 2005, quando foram gastos e arrecadados cerca de R$ 140 mil. A entidade mantém ainda uma poupança no banco. Por  que se desfazer do estádio da Timbaúva? Diretores e conselheiros justificam que apenas 20 ou 30 associados participam da vida do clube. A maioria não usufrui da infra-estrutura, apesar de sustentar a instituição – as mensalidades ainda são a principal fonte de renda.

    Direção no que restou do pavilhão de Airton: venda é a única alternativa que resta, acreditam

    Muitos sócios já estão em idade avançada, vários morreram nos últimos anos, passando o título para viúvas ou filhos, que não demonstram o mesmo entusiasmo pelo “Forcinha”. Com o desinteresse da nova geração e o esvaziamento de um dos palcos mais importantes da história do futebol gaúcho, decidiu-se pela venda do estádio. A medida foi definida em assembléia realizada em 29 de abril de 2005, com apoio da maioria: 133 integrantes aprovaram a venda de 100% do patrimônio, outros 10 votaram pela venda parcial. “O clube está bem, não deve para ninguém, mas os associados querem vender. O fato é que está todo mundo ficando velho, cansado, alguns nem aparecem mais no clube. Eles também têm direito a usufruir”, conclui o presidente Rubem Franco.

    “E se não fizermos isso (vender o estádio), logo alguém toma conta, entram novos sócios e aí eles vão querer vender o Força e Luz e ganhar dinheiro para eles”. A explicação do presidente deixa claro o destino dos recursos: devem ser rateados entre os 384 associados, resultando em pouco mais de R$ 28 mil para cada um. A decisão ainda tem que ser sacramentada em assembléia geral.

    Um capítulo da história do futebol gaúcho

    Time da década de 1950: Força e Luz foi celeiro de craques e sede de grandes jogos (Reprodução)

    O Grêmio Esportivo Força e Luz é um capítulo da história do futebol gaúcho. Teve o melhor estádio da cidade por anos, o que levou jogos importantes para sua sede. É o caso da primeira partida de campeonato brasileiro disputada no Rio Grande do Sul, em 7 de junho de 1936, entre as seleções carioca e gaúcha.

    Outra passagem marcante se refere ao hino do Grêmio Futebol Porto-Alegrense. Conta o presidente do Força e Luz, Rubem Franco, que a composição de Lupicínio Rodrigues foi criada num dia em que houve greve dos bondes e o tricolor tinha compromisso no estádio da Timbaúva. Consta que a torcida foi a pé – daí o verso “Até a pé nós iremos”.

    O clube também revelou grandes talentos. O ponta-direita Dorval começou no “Forcinha” e foi direto para o Santos Futebol Clube, onde integrou um ataque mágico: Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Abigail, integrante da linha média do lendário Rolo Compressor do Internacional também começou no campo da Timbaúva. Sem falar em Aírton Pavilhão, que marcou época no Grêmio.

    Apesar dessa biografia, o clube não obteve grandes títulos. Suas maiores glórias foram o tricampeonato de aspirantes em 1935, 36 e 37, e o vice-campeonato da cidade em 1941, 47 e 48. A equipe endurecia em alguns confrontos contra Grêmio e Internacional, mas nunca chegou a ser um time de ponta.

    Fundada em 8 de setembro de 1921, a agremiação era mantida pela companhia de Força e Luz, sob o comando da empresa Light, dos Estados Unidos. Foi extinta ao ser estatizada por Leonel Brizola mas o nome do clube ficou o mesmo. Funcionários da Companhia Carris Porto-alegrense e Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE), criadas a partir da Força e Luz, continuaram sendo os sócios do clube.

    Hoje quase todos associados são eletricitários. Isso porque a CEEE descontava o valor da mensalidade no contracheque e a Carris não. Mas quem comprou o campo na rua Alcides Cruz, 125, hoje bairro Santa Cecília, foi a empresa de transportes, em 1934. A inauguração, em 14 de abril, contou com a presença do bispo e do então governador do Rio Grande do Sul, General José Antônio Flores da Cunha.

    O Força e Luz teve futebol profissional até a década de 70. Depois, ainda manteve categorias inferiores – o juvenil encerrou suas atividades em 2002. Restou apenas o time veterano, que se apresenta todos os domingos, às 10h.

    Aírton: “O pessoal não tem memória”

     


    Aírton com a camisa do “Forcinha”(Reprodução acervo Força e Luz)

    Quem não está nada satisfeito com a venda do Força e Luz é seu atleta mais famoso, Aírton Ferreira da Silva, o “Pavilhão”. Aos 71 anos, funcionário público aposentado, ele lamenta que “o pessoal aqui do Sul não tenha memória”, o que seria mais uma vez comprovado com a demolição do estádio.

    “Quando vem gente do centro do país para cá fazer documentários, filmagens, sempre falam da história do pavilhão, lembram minha trajetória. Seria bom que tombassem, mas acho difícil isso acontecer. É uma pena”, comenta o emblema vivo do “Forcinha”.

    O pavilhão branco com distintivo em vermelho – cores oficiais do clube – é mencionado até no estatuto do Força e Luz. Ainda está lá, em frente ao campo. “É como se estivesse morrendo um pedacinho da gente”, diz Aírton, ao comentar a venda. Aos 13 anos ele já era atleta do clube. Aos 15 virou titular do time principal, igualando feito de ninguém menos que Pelé, que subiu para os profissionais com a mesma idade.

    Além de seu futebol, o que o tornou famoso foi a inusitada negociação que resultou em sua venda para o Grêmio, em 1955: aos 20 anos, Aírton Ferreira da Silva seguiu para o clube da Azenha em troca de 50 cruzeiros (Cr$ 50) mais o pavilhão do estádio da Baixada, sede do Grêmio até 1954, que depois foi transformada no Parque Moinhos de Vento.

    Aírton marcou época no tricolor gaúcho. Jogou lá até 1967, quando passou a defender o Cruzeiro, de Porto Alegre. Encerrou a carreira no ano seguinte, aos 34 anos. Marcou seu último gol no antigo estádio do Cruzeiro, que depois virou cemitério. “Pelo menos o Cruzeiro fez outro estádio”, compara.

    Ligado ao futebol até hoje, Aírton mora em frente ao Olímpico, na avenida José de Alencar. “Estava pensando outro dia: vão vender o campo e o Força e Luz vai acabar”, prevê. O pavilhão ao menos, poderia ser mantido. O Grêmio chegou a manifestar interesse na década de 90, mas o intento não vingou. O que resta é uma pequena arquibancada que ficará no campo da Timabaúva até que o destino do clube seja definido.

    Presidente: “Eu amo esse clube!”

     

    O presidente Rubem Franco afirma que o clube terá um novo local de encontro

     

    “Confesso que me deu uma vontade danada de chorar na hora do leilão”. A declaração do presidente do Força e Luz, Rubem Borba Franco, 65 anos, não deve ser mal interpretada. Ele não estava lamentando o insucesso do evento, mas expressando seu sentimento com o fim da instituição. “O coração velho aqui sofreu muito vendo aquela cena. Eu amo esse clube!”, declara.

    Ex-atleta, ele jogou de goleiro nos juvenis. Não chegou a ser profissional, mas continuou em contato porque, como eletrotécnico, se tornou sócio aos 22 anos. Antes dos 30, em 1969, ele fundou os veteranos, categoria que segue até hoje. Também foi o único time que conseguiu bater a dupla GreNal, no campeonato de 1975, promovido pela Associação dos Veteranos do Rio Grande do Sul. “Fui o artilheiro naquela temporada”, comemora o atacante, que até hoje bate uma bolinha.

    O presidente foi um dos que votou a favor da venda do Força e Luz. Mas promete agitar caso o negócio não se concretize. “Já estamos em contato com o ex-jogador Mauro Galvão, que mostrou interesse em alugar o campo durante a semana para sua escolinha de futebol”. Também promete realizar eventos com instituições beneficentes para excepcionais, idosos, e com fundações como a Thiago Gonzaga. Outra idéia é fazer um torneio início à moda antiga, reunindo os principais times da Capital. “Dá para repetir esse tipo de evento, todo mundo gosta. Vamos conversar com a Secretaria Municipal de Esportes”, planeja.

    Guardião do estádio torce contra a venda

    Seu Múcio: “o guardião do campo”

    Não é só Aírton Pavilhão que está sofrendo com a venda do estádio. Mais do que os peladeiros de plantão e freqüentadores tradicionais, quem vai sentir falta do Força e Luz é o vice-presidente de patrimônio do clube, Múcio Torres, 71. Membro da diretoria há 12 anos, esse eletricitário aposentado é dos poucos que torce para que o leilão não se consume.

    A explicação: Seu Múcio é o guardião do campo da Timbaúva. Ele chega lá todo dia de manhã cedo e só sai a noitinha. “Até os lagartos daqui me conhecem”, brinca. Responsável pelo estádio, também faz compras para o clube, resolve problemas, cuida da infra-estrutura, dá bronca nos colegas exigindo mais cuidados com o local. O homem não pára, está sempre preocupado com algum detalhe.

    “Ainda não sei o que eu vou fazer se venderem”, lamenta. De fato, sua rotina será totalmente alterada. Ele não é de jogar bola, mas cuida do gramado como se fosse sua horta. “O estádio é uma das amantes dele”, comenta um conselheiro, em tom jocoso. Também é Seu Múcio quem abre o portão e recebe quem chega na sede do clube. Ele ainda comanda os quatro funcionários – uma secretária, dois empregados em serviços gerais e o zelador. Quem está a favor do negócio é a família desse eletricitário aposentado. A esposa e o filho reclamam que ele passa mais tempo no estádio do que em casa.

    Lustosa em campanha para salvar o estádio

    Ambientalista Caio Lustosa sugere que Prefeitura adquira o campo do Força e Luz

    O ambientalista Caio Lustosa, 72, mora há 50 anos numa casa na rua Alcides Cruz, bem em frente ao estádio do Força e Luz, um dos mais tradicionais clubes esportivos de Porto Alegre que está cerrando as portas. Advogado, ex-vereador e ex-secretário do Meio Ambiente, ele está iniciando aquela que pode ser sua última luta na causa ecológica. “Achei que já tivesse concluído minha participação como ativista. Mas não teria como me omitir com isso acontecendo aqui na minha porta”, diz ele.

    Lustosa iniciou um movimento contra a venda da área do Força e Luz  para um empreendimento imobiliário ou comercial. Colocou o caso na internet, passou mensagens para vizinhos, movimentos de bairro, autoridades e meios de comunicação. Conseguiu levar o tema para a crônica esportiva.
    Às vésperas do leilão em que a área seria vendida, Lustosa publicou um artigo sobre o tema no Jornal do Comércio e no site do Jornal JÁ. Agora, com o auxílio de arquitetos, ele busca amparo no Plano Diretor e leis que regulam o solo urbano. Já tem uma sugestão: “Segundo o Estatuto das Cidades, o Município tem preferência na aquisição. Por que não exercê-la, ressarcindo o clube com índices construtivos ou outros mecanismos?”, questiona.

    Em sua argumentação, Lustosa diz que o local não pode ser tratado como um mero bem imóvel, por ter indiscutível interesse público, sendo importante para a qualidade de vida dos moradores da região e do público que o utiliza. Ele observa: “Com seus 1,6 hectares, é a maior área verde do bairro Santa Cecília” – formado pelo quadrilátero Ramiro Barcelos-Ipiranga-Vicente da Fontoura-Protásio Alves.

    “O estádio existe desde a década de 1930 e tem imenso valor histórico, paisagístico e ambiental para as comunidades circundantes (Rio Branco, Bom Fim, Petrópolis, Santana)”. Até hoje acolhe o futebol amador e é local de lazer. Foi sede do Bambas da Orgia por anos. A concretizar-se a transação, Lustosa prevê um impacto grande na vizinhança – envolvendo aspectos como insolação, aeração, fluxo de veículos, volume da população.

    “Nem entro na questão dos bandos de quero-quero que ficam no campo e entorno porque vão dizer que é bobagem, frescura. Fico no tema da verticalização dessa área, cada vez mais densificada. Os bairros estão sofrendo inúmeras agressões, para não dizer crimes, contra sua malha urbana nos últimos anos. A mais recente foi um empreendimento implantado nessa mesma região, na antiga Instituição Chaves Barcelos, à rua Dona Leonor”.

    O ambientalista cita ainda Bela Vista, Higienópolis, Petrópolis e o morro do IPA, como locais que estão em rápida transformação. “Estão virando paliteiros. O mercado fala mais alto, a coisa está livre, essa zona toda está entregue!”, denuncia. Lustosa pretende acompanhar o caso de perto para evitar que o projeto só seja descoberto quando o fato estiver consumado. “As diversas secretarias que têm relação com o caso nada disseram até agora. Espera-se que, diante de tanta omissão, o Ministério Público venha em socorro da cidadania. Que, aliás, deve deixar o conformismo e se mobilizar”, propõe Lustosa.

    A campanha do ecologista assemelha-se à do jornalista Alberto André, há 35 anos, contra a venda do antigo estádio do Grêmio para a construção de espigões. A campanha de André, que era também vereador, resultou no atual Parque Moinhos de Vento.

     

    Comunidade prejudicada


    Comunidade que usa o clube vai ser prejudicada com transformação da sede em empreendimento comercial

    Se os associados não terão suas atividades prejudicadas com o fim do estádio – poderão continuar com os tradicionais almoços da terça e da quarta-feira, e até com o futebol de veteranos aos domingos, em campos alugados -, a comunidade será prejudicada.

    Quem mais vai sentir a transformação da sede do Força e Luz em um conjunto de espigões ou num supermercado é a vizinhança que aluga o local, ou mesmo gente que vem de longe para jogar bola no tapete, que já foi considerado o melhor da cidade.

    Durante a semana, o campo era utilizado por escolinhas – o ex-jogador de Grêmio e Internacional, Mauro Galvão, estava negociando com o clube para iniciar aulas no local. O movimento forte acontece nos finais de semana. No sábado, o campo é ocupado do início da manhã até de noite. O aluguel custa R$ 350 por partida.

    No domingo pela manhã, a área é dos veterandos do Força e Luz – são poucos ex-jogadores, hoje o grupo mescla com uma gurizada, que paga mensalidade para participar do time. Na parte da tarde, o gramado volta a ser alugado. O clube também é bastante utilizado para churrasquinhos, festas de aniversário e rodas de pagode, já que dispõe de quiosque e salão de festas.

    Chance de sobrevida

    A diretoria do clube continua com a disposição de vender o estádio, para distribuir parte do dinheiro aos sócios e outra parte investir na aquisição de uma nova sede – menor, apenas para manter as atividades sociais, como almoços e encontros em datas festivas.

    A proposta  tem apoio de quase todos os diretores. Resta saber se será aprovada pela assembléia geral, já que a aquisição de um imóvel reduziria o valor obtido por cada sócio no rateio do dinheiro obtido no leilão.

    Para o ex-presidente Antonio Carlos Barcellos Lunes, a solução é simples. Comprar a nova sede e depois fazer a divisão entre os associados. “Será uma área pequena, com churrasqueira, quadra de bocha. Vamos gastar no máximo R$ 1 milhão, R$ 1,5 milhão. Com isso teremos um local de encontro”.

    O futebol de veteranos – única categoria ativa do departamento – pode seguir com atividades, alugando campos de terceiros, para as partidas. Ao sócio Ladislau Honório Santos agrada a idéia de um outro espaço. “Pode ser uma coisa pequena, só para reunir o pessoal”, concorda o conselheiro Iesmar Faria, mais de 30 anos de clube.

    Mas o presidente Rubem Franco alerta: “A assembléia é quem decide o que vai ser feito com dinheiro. Tudo depende da vontade dos sócios. Mas acredito que o clube não vai terminar, teremos um novo ponto de encontro”, prevê.

    Inter pretende negociar estádio dos Eucaliptos

    Cruzeiro, Nacional, Força e Luz… O Spor Club Internacional deve ser o próximo da lista a negociar seu campo de futebol. Trata-se do histórico estádio dos Eucaliptos, desativado há décadas. Depois de obter a regularização de toda área do Complexo Beira-Rio, em 2004, a direção do clube está negociando com a Prefeitura a permuta do local, que foi sede da Copa de 1950, por um terreno anexo, na avenida Padre Cacique.

    Área no Menino Deus seria permutada com a Prefeitura (Arquivo JÁ Editores)

    “Já iniciamos as conversas com o Município”, revela Pedro Affatato, vice-presidente de Patrimônio do Inter. Ele explica que, apesar de ocupar uma área nobre no bairro Menino Deus, o Eucaliptos, com seus 2,3 hectares, não está sendo utilizado. “É um patrimônio histórico, mas não temos o que fazer com aquela área. A Prefeitura poderá dar um destino melhor”, acredita. Hoje, parte do local está ocupado por quadras de grama sintética, alugadas ao público.

  • Fundação Iberê Camargo leva artistas a Buenos Aires e Chicago

    Veronica Cordeiro foi escolhida bolsista do projeto em 2005 (Fotos Naira Hofmeister/JÁ)

    Naira Hofmeister

    A sexta edição da Bolsa Iberê Camargo traz uma novidade: ao invés de um, em 2006, serão dois os destinos, a escolher. Buenos Aires (El Basilisco) e Chicago (The School of the Art Institute of Chicago) são os centros escolhidos para receber brasileiros que proponham experimentações artísticas.

    Durante dois (Buenos Aires) ou três (Chicago) meses, a instituição proporciona residência nos institutos, oferecendo aos selecionados toda a infra-estrutura para o desenvolvimento de um trabalho, que deve ser proposto no momento da inscrição. Um dos únicos critérios exigidos pela Fundação é a inovação de linguagem. Aproximando-se cada vez mais da arte contemporânea, a Bolsa Iberê Camargo vai privilegiar projetos de suporte tecnológico e digital ou ainda aqueles que primem pela experimentação. “A Fundação tem uma história de incentivos ao desenvolvimento da arte contemporânea e busca ampliar esse diálogo a cada ano”, justifica Fernando Schüller, que organiza o projeto.

    Durante o lançamento da sexta edição da Bolsa, Verônica Cordeiro exibiu o resultado dos meses que passou no School of the Art Institute, em Chicago. Vestindo a roupa que criou durante seu estágio, ela fez uma intervenção artística que indagava o papel da livraria na sociedade capitalista que gera desigualdades. Através de gravações da popular Rádio Capital AM, de São Paulo, ela problematizou os conceitos de informação e cultura nas classes alta e baixa: “Informação, entretenimento, cultura e auto-ajuda: os pobres buscam nas rádios as mesmas coisas que nós obtemos através da leitura”.

    Para a artista, rádios estão para os populares, assim como os livros para os intelectuais

    A questão abordada na performance da última quarta-feira, no entanto, foi apenas uma demonstração do esforço que artista faz para exterminar com a clássica dicotomia entre alta e baixa cultura. No período em que esteve em Chicago, patrocinada pela Fundação gaúcha, Verônica produziu o vestido-abrigo de sua Composição Não-Determinda – Peregrinação a Lugar Algum. Durante três dias, a artista vagou pelas ruas da cidade americana, usando sua roupa, feita de tecido de cobertor barato, comumente utilizado pelos moradores de rua. A roupa serve também como saco de dormir e conta com grandes bolsos impermeáveis onde ela guardou sua comida e outras utilidades.

    Verônica relatou um intenso contato com a população das ruas: “Eu quis mostrar para eles que podem desenvolver sua criatividade para buscar soluções alternativas à mendigagem”. Ela pontuou também que há diferenças entre os moradores das ruas de Chicago e os brasileiros: “Aqui já existe uma cultura de reciclagem mais difundida, ao passo que lá a segregação é muito maior”, explica. A artista investe fundo na idéia de democratização da arte. No momento está produzindo um livro sobre cartas de um presidiário. “Quero que se rompam os muros entre essa população menos intelectualizada e a arte”.

    Veronica durante sua estadia em Chicago (Foto Young Lee/divulgação/JÁ)

    Para participar  da seleção da Bolsa Iberê Camargo, basta preencher a ficha através do site www.iberecamargo.org.br até dia 10 de julho e enviar a documentação para o instituto. No preenchimento dos dados, os interessados devem optar por uma das escolas e desenvolver um projeto específico de acordo com os critérios definidos no regulamento.

    A bolsa para o The School of Art Institute s Chicago tem a duração de três meses e conta com um auxilio de R$ 8 mil para todo o período, que vai de 18 de setembro a 14 de dezembro. A residência na El Basilisco é de dois meses, de 15 de outubro a 15 de dezembro e recebe ajuda de custo total de R$ 6 mil. A Fundação Iberê Camargo cobre ainda os custos com hospedagem, taxas de inscrição na escola e passagens aéreas. Durante os estágios no exterior, os bolsistas ministrarão aulas sobre a sua produção artísticas e a arte brasileira contemporânea.

  • Termina greve do magistério

    Helen Lopes

    Reunidos em assembléia geral na tarde desta sexta-feira (7/4), mais de três mil professores da rede pública do Estado decidiram retomar as aulas paralisadas desde o dia 2 de março. Dos 42 núcleos do Cpers/Sindicato, 34 eram favoráveis ao término da greve. Apenas o núcleo de Santa Maria era contrário. Os demais não se manifestaram.

    A larga vantagem ficou clara na votação, quando os professores ergueram os braços concordando com a proposta do Conselho Diretor do Cpers de suspensão da greve e continuidade das reivindicações.

    Antes da consulta, os principais líderes fizeram um balanço da mobilização. “Vitoriosa” foi a expressão mais ouvida nos discursos e nas arquibancadas. “A greve foi vitoriosa porque uniu a categoria”, defendeu Meibe Ribeiro, de Passo Fundo. “Durante 36 dias, a educação e os servidores públicos foram pauta nesse Estado”, completou a educadora.

    Para a presidente do Sindicato, Simone Goldschmidt, a principal conquista da categoria foi o resgate da adesão da sociedade na luta dos professores. Simone também destacou a importância da união do magistério e lembrou que, no início da greve, o governo estadual disse que não iria negociar, mas cedeu a pressão da classe.

    O governo do Estado, no começo da paralisação, indicou que faria uma proposta apenas em maio. Depois, ofereceu 8,03% de aumento e, por fim, os 8,57% , divididos em cinco parcelas até 2007. Índice que foi aprovado pela Assembléia Legislativa no dia 4 de abril.

    Os professores não receberam os 28% de reajuste que reivindicavam, mas evoluíram nas negociações. Na segunda-feira, 5 de abril, em reunião com a secretária da Educação,  Nelsi Müller, e com o ex-secretário da Fazenda e atual chefe da Casa Civil, Paulo Michelucci, ficou estabelecido que, até o final deste mês, o governo vai solucionar a questão das promoções concedidas a 11 mil professores em 2001 e analisar as questões legais para encaminhar as promoções dos servidores referentes ao ano de 1999.

    As exonerações decorrentes da greve de professores contratados temporariamente serão anuladas e os dias paralisados abonados. Os professores garantiram que as aulas não-ministradas serão recuperadas.

    De acordo com a presidentedo Cpers, os professores vão continuar mobilizados lutando por  melhores salários. No dia 26 de abril, quarta-feira, ocorre uma paralisação nacional para lembrar o Dia da Educação Pública. Outras manifestações estão previstas para o dia 21 de abril, aniversário do Cpers, e 1º de maio, Dia do Trabalhador.

    No final da assembléia, o clima de comemoração contagiou a todos. Os professores tomaram a área central do Gigantinho e trocaram comprimentos, sorrisos e abraços.  O encontro terminou com o hino do Rio Grande do Sul e a esperança de salários mais justos.

  • Produções indianas de graça na capital

    Devdas será uma das grandes atrações da mostra (Divulgação)

    Naira Hofmeister
    O sucesso da mostra Bollywood fica na Índia, realizada em 2005, levou o Santander Cultural a renovar a parceria com o Consulado indiano em São Paulo e com a prefeitura de Porto Alegre. Intitulada Bollywood Super Hits, o circuito traz dessa vez os filmes de maior bilheteria na história recente daquele país.
    Com uma produção de 800 filmes por ano, que não é superada nem pela indústria americana de cinema, Mumbai é a referência internacional dessa cinematografia, que mistura na película linguagens bastante peculiares. As cores vibrantes comandam o espetáculo, com tramas de personagens marcantes. O gênero tragicomédia também e uma marca do cinema indiano.
    Por ser extravagante, a produção Bollywoodiana – como vem sendo chamada, em referência ao antigo nome da capital, Bombaim – nunca foi de fato aceita pela crítica internacional. Mas os filmes com caráter bastante popular, as tramas clichês e as atuações superficiais dos anos 80 deram lugar à produções como Devdas (2002), dirigido por Sanjay Leela Bhansali, que será a primeira exibição do projeto.
    Estrelado pela atriz Aishwarya Rai, a ex-Miss Universo que tornou-se a “Rainha de Bollywood”, Devdas tornou-se um filme de culto em cidades como Paris e Londres, depois de causar furor no Festival de Cannes em 2003.
    A produção mais cara do cinema indiano narra uma história comum no cinema: o drama do amor proibido. Porém, se tratando da Índia, onde os casamentos são realizados mediante acordos entre as famílias, a trama ganha ares mais densos. Desiludido com a família, que o impede de casar-se com o grande amor, o personagem-titulo se rende ao alcoolismo e aos carinhos de uma cortesã. A obra também foi indicada ao BAFTA – prêmio máximo da Academia Inglesa – de Melhor Filme de Língua Estrangeira em 2002.
    Devdas será exibido na noite desta segunda-feira (3/4), após coquetel para convidados, que acontece no Salão Átrio do Santander Cultural. Para o grande público, a primeira sessão acontece na quinta-feira (5), às 15h30, no Cine Santander.
    A mostra Bollywood Super Hits fica em cartaz até dia 16 de abril, com quatro sessões diárias: duas no Cine Santander e duas na Sala P. F. Gastal, que fará intervalo devido a longa duração dos filmes. Os onze títulos, escolhidos de acordo com seu sucesso no país de origem, terão entrada franca em ambas as salas.
    Confira a programação do Ciclo Bollywood Super Hits *
    Cine Santander
    Terça-feira, 04
    16h – Company, de Ram Gopal Varma
    19h –  Shool, de E. Nivas
    Quarta-feira, 05
    15h30 – Devdas, de Sanjay Leela Bhansali
    19h – Refugee, de J. P. Dutta
    Quinta-feira, 06
    16h – Shool, de E. Nivas
    19h – Lagaan, de Ashutosh Gowariker, Donald Shebib
    Sexta-feira, 07
    16h – Mr. and Mrs. Iyer, de Aparna Sen
    19h – Company, de Ram Gopal Varma
    Sábado, 08
    14h30 – Lagaan, de Ashutosh Gowariker, Donald Shebib
    19h – Mr. and Mrs. Iyer, de Aparna Sen
    Domingo, 09
    16h – Company, de Ram Gopal Varma
    19h – Devdas, de Sanjay Leela Bhansali
    Segunda-feira, 10
    15h – Refugee, de J. P. Dutta
    19h – Devdas, de Sanjay Leela Bhansali
    Terça-feira, 11
    15h30 – Border, de J. P. Dutta
    19h – Sholay, de Ramesh Sippy
    Quarta-feira, 12
    15h30 – Ram Teri Ganga Maili, de Raj Kapoor
    19h – Satyam Shivam Sundaram – Love sublime, de Raj Kapoor
    Quinta-feira, 13
    15h30 – Border, de J. P. Dutta.
    19h – Ram Teri Ganga Maili, de Raj Kapoor
    Sexta-feira, 14
    15h – Sholay, de Ramesh Sippy
    19h – Satyam Shivam Sundaram – Love sublime, de Raj Kapoor
    Sábado, 15
    15h30 – Ram Teri Ganga Maili, de Raj Kapoor
    19h – Border, de J. P. Dutta
    Domingo, 16
    16h – Tamas, de Govind Nihalani
    Sala P. F. Gastal
    Terça-feira, 4
    15h – Sholay, de Ramesh Sippy
    19h – Border, de J. P. Dutta
    Quarta-feira, 5
    15h – Satyam Shivam Sundaram – Love sublime, de Raj Kapoor
    19h – Ram Teri Ganga Maili, de Raj Kapoor
    Quinta-feira, 6
    15h – Sholay, de Ramesh Sippy
    19h – Satyam Shivam Sundaram – Love sublime, de Raj Kapoor
    Sexta-feira, 7
    16h – Tamas, de Govind Nihalani
    Sábado, 8
    15h – Sholay, de Ramesh Sippy
    19h – Border, de J. P. Dutta
    Domingo, 9
    15h – Satyam Shivam Sundaram – Love sublime, de Raj Kapoor
    19h – Ram Teri Ganga Maili, de Raj Kapoor
    * a Sala P. F. Gastal não divulgou a programação para a segunda semana da mostra

  • Ói Nóis Aqui Traveiz é destaque no final de semana

    ‘A Saga de Canudos’ resgata momento histórico (Fotos: divulgação)

    Naira Hofmeister

    Na semana de aniversário, a Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz resgata uma parte do legado de discussão e atuação em eventos diários e gratuitos. As atividades começaram na quinta-feira (30/3) e vão até a próxima terça-feira (4/4).

    Depois de intervenções na Esquina Democrática, quinta e sexta-feira, ao meio dia, a trupe lança, também na sexta-feira, a Revista de Teatro Cavalo Louco. Uma das grandes conquistas do grupo nos últimos anos. A publicação é resultado de outra iniciativa corajosa da trupe, a realização de seminários permanentes de discussão do teatro de rua e popular. “Prestamos um serviço que não é disponibilizado à comunidade através do Estado”, defende Tânia Farias, há dez anos no Ói Nóis.

    No sábado à noite, na sede da Terreira da Tribo (Dr. João Inácio, 981), acontece o show de música com a presença do Zé da Terreira, Udi e a Geral, Johan Alex de Souza e Leonor Melo e o Grupo de Samba Regional Popular Brasileiro Serrote Preto. No domingo será a vez do Brique da Redenção receber os artistas, na Parada de Rua, onde, além dos músicos e dos atores do grupo, estarão presentes os atuais alunos da Escola de Teatro Popular da Terreira. A festa terá início às 11h da manhã.

    Serrote Preto é uma das atrações do sábado, dia 1º de abril, na sede da trupe

    Durante a próxima semana, as intervenções teatrais resgatam dois grandes sucessos do grupo. Na segunda-feira (3/4), reestréia a derradeira temporada de ‘Kassandra In Process’, no teatro Elis Regina da Usina do Gasômetro. E espetáculo se mantém em temporada gratuita, nas segundas-feiras, às 20 horas, com senhas disponíveis uma hora antes. Kassandra In Process retoma o mito da queda de Tróia, invertendo a importância do gênero na guerra, sendo contado sob a ótica de Kassandra. A peça é uma adaptação do romance de Crista Wolf que ganhou colagens de textos de revolucionários como George Orwell, Samuel Beckett e Albert Camus.

    Na terça-feira, a apresentação será na Praça da Alfândega, e traz para a rua o espetáculo de maior duração do Ói Nóis: ‘A Saga de Canudos’, adaptação da peça ‘O Evangelho Segundo Zebedeu’ de César Vieira que narra um dos principais eventos populares do Brasil. A intervenção começa às 16 horas e tem como principal atrativo a mistura de teatro, música e bonecos gigantes.

    As duas peças, assim como todo o resto da trajetória do Ói Nóis Aqui Traveis se debruçam sobre o tripé de conceitos básicos da turma: a criação coletiva, o teatro como instrumento de debate político e com bases populares. O grupo enfrentou, desde sua criação um estranhamento por parte do público e perseguição dos governos. Há 28 anos militando pelo esclarecimento da população, era mantido pelos próprios integrantes que eram obrigados a trabalhar em outros locais para conseguir verbas. Em 2005, o projeto foi finalmente reconhecido pelo poder público e recebeu patrocínio da Petrobrás, renovado para 2006. “Sempre reservamos nosso melhor para o momento de abrir as portas para o público, mas agora, realizamos o sonho de podermos nos dedicar por inteiro à Tribo”, salienta Tânia.

    Confira a programação do final de semana

  • Shopping Belvedere começa a sair do papel


    O projeto é construir 202 mil m2 com arquitetura singular
    (Reproduções/JÁ)

    Carla Ruas

    A empresa irmã da Máquinas Condor, a Condor Empreendimentos Imobiliários comprou uma área de 15 hectares em 1981 da Schilling Kuss & Cia Ltda. Hoje o terreno está localizado na 3º Perimetral entre a Protásio Alves e o Jardim Botânico e será finalmente ocupado, após anos de espera e especulação. Até 2007 começa a ser erguido o maior centro de compras, lazer e serviços de Porto Alegre. O projeto inclui lojas, academia, teatro, exposição de barcos e um mirante para a visão da cidade.

    A construção do shopping Belvedere, como é chamado, deveria ter começado no inicio de 2005, mas o projeto atrasou. “O primeiro pedido para a aprovação da prefeitura foi emitido em 1999, mas só agora estamos próximos de conseguir a licença”, afirma o diretor imobiliário da Condor, Mathias Kisslinger Rodrigues.

    Entre as exigências da Prefeitura de Porto Alegre está a comprovação de que o terreno de 150 mil m2 utilizado não terá grande impacto ambiental. Para isso a Secretaria Municipal do Meio Ambiente exigiu da empreendedora diversos estudos.

    Segundo supervisor do Meio Ambiente da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Smam) Walter Koch, para liberar o projeto falta apenas a aprovação do Departamento Nacional de Produção Mineral, do Ministério de Minas e Energia, que pediu um estudo complementar sobre o impacto hidrogeológico da área. Este atestado comprova que o shopping não trará danos para os lençóis freáticos.

    A empresa Condor entregou o documento e aguarda a resposta da Smam. “O resultado deve sair no primeiro semestre deste ano, seguido da permissão para começar as obras”, acredita Rodrigues. O próximo passo será a mobilização dos lojistas já envolvidos com o projeto para a conclusão da primeira etapa. “O shopping foi planejado para ser construído em partes. Se o mercado aceitar bem a idéia, partiremos para a segunda etapa”.

    Complexo Esportivo e Danceteria


    O Belvedere terá ruas cobertas para pedestres e veículos

    O Projeto Belvedere apresentado pela Condor Empreendimentos Imobiliários tem um orçamento de aproximadamente R$150 milhões. Um shopping center composto por lojas, cinemas, teatro, restaurantes, danceteria e academia. Além disso, espaços exclusivos para lojas de móveis e decoração, venda e exposição de carros, motos e barcos.

    A idéia audaciosa é construir 202 mil m2 numa área de declive acentuado, com arquitetura singular. Com acesso às principais vias de Porto Alegre, o projeto apresenta estacionamento com 5.110 vagas para veículos.

    O Belvedere terá, ainda, o conceito de ruas cobertas, em que pedestres e veículos circulam dentro da área do shopping. “Nestas ruas, bares e restaurantes terão suas mesas nas calçadas, reproduzindo a convivência urbana tradicional”, acrescenta Rodrigues.

    O projeto do complexo de compras Belvedere é dividido por áreas:
    Hiper Mercado
    Poa Shopping Center
    Poa Show
    Espaços para exposições, congressos, feiras e eventos
    Poa Point
    Cinema, teatro, restaurantes e praça de alimentação
    Poa Casa
    Shopping de móveis e decoração
    Poa Globo
    Restaurantes e danceteria
    Poa Motor Center
    Comércio e exposição de automóveis, motos, barcos, posto de combustíveis e lojas de conveniências
    Poa Cult e Poa Corpo
    Escola integrada a complexo esportivo e academia
    Belvedere
    Mirante para visão da cidade e região

  • Copesul será primeira a receber o Selo Gaúcho de Responsabilidade Cultural

    Os Bacharéis, opereta de Simões Lopes Neto, conta a história de um casal de noivos (Foto: Laureano Bittencourt)

    Naira Hofmeister

    O secretário de Estado da Cultura, Roque Jacoby garantiu que o projeto já está na mesa do governador do Estado Germano Rigotto e, em breve ganhará a assinatura do Executivo: “É uma homenagem fraterna e uma manifestação de apreço e respeito a essa empresa”. A Copesul será a primeira no Estado a  receber o Selo Gaúcho de Responsabilidade Cultural, que avaliza uma série de atividades na área que a companhia desenvolve no Rio Grande do Sul desde sua criação.

    O discurso do superintendente da Copesul, Luiz Fernando Cirne Lima, revelou a intenção da empresa em se aproximar da comunidade principalmente através de duas vertentes do marketing: a preservação do meio ambiente e a promoção cultural: “Somos uma empresa produtora de derivados de petróleo que não são percebidos pela população; potencialmente muito poluidora e que possui um grande risco empresarial. Apesar disso, e graças ao capital humano que possuímos, conseguimos uma grande inserção social, através da manutenção dos ideais nos quais acreditamos”. O executivo lembrou as três bases que sustentam a filosofia da empresa e a prosperidade na terra gaúcha: “O apreço ao estado de direito, o respeito à pessoa humana e a valorização do patrimônio”.

    Em sintonia com a fala de Cirne Lima, o vice-governador, Antônio Hohlfeldt congratulou-o pela conquista, reforçando que é a defesa da cultura que têm aproximado a Copesul da sociedade gaúcha: “Foi bem lembrado pelo Cirne Lima que a produção da Copesul é ainda desconhecida da população, e é esse projeto cultural que promoveu o milagre de aproximá-la da sociedade”, enfatizou.

    Na concepção do projeto Copesul Cultural estão incluídas essencialmente as premissas de continuidade de estímulo ao pensamento crítico da cultura. Resultado do projeto 4 X Brasil, realizado no segundo semestre de 2005, o Seminário Brasil Contemporâneo: um país incógnito vai debater a identidade cultural da terra brasilis, no segundo semestre desse ano.

    Outro seminário dará continuidade às discussões realizadas em 2005 e será semelhante ao Metamorfoses, que reuniu grandes pensadores internacionais como Gianni Vattimo, Michel Maffesoli e os brasileiros Sérgio Rouanet, Arnaldo Jabor, Donaldo Schüler, Carlos Roberto Cirne Lima, Renato Janine Ribeiro e Muniz Sodré. O time problematizou a cultura contemporânea, perpassando por conceitos de modernidade, pós-modernidade e identidade cultural. Os nomes de 2006 ainda não foram anunciados, mas a promessa é de que sejam da mesma importância do ano anterior.

    As atividades culturais iniciam em abril com as obras no Centro Histórico de Vila Santa Thereza, em Bagé. Uma das mais representativas charqueadas (locais onde se produzia o charque, pedaços de carne bovina salgados e secos) do Estado, que pertencia ao Visconde Ribeiro Magalhães. Nos dias 12 e 13 do mesmo mês, às 21 horas, a opereta “Os Bacharéis” será apresentada no Theatro São Pedro, na Capital. O espetáculo faz um resgate da obra de João Simões Lopes Neto e foi recebida com sucesso em 2005 na sua cidade natal, Pelotas.

    Em maio, será inaugurada a exposição Homem-Natureza: Cultura, Biodiversidade e Sustentabilidade, no Museu da Ufrgs, como parte da iniciativa de agregar temas voltados ao meio ambiente ao projeto Copesul Cultural. No dia 31, Mario Quintana será o foco das atrações. Diversos eventos na Casa de Cultura que levam o seu nome estão programados, entre eles uma exposição e o lançamento de um livro sobre o poeta. A segunda parte da homenagem virá durante a Feira do Livro de Porto Alegre, em outubro, com a doação de kits com obras de Quintana para escolas da rede pública de ensino do Rio Grande do Sul.

    Ainda figuram entre as ações planejadas pela Copesul, a edição de uma coletânea de artigos do escritor e jornalista gaúcho Carlos Reverbel – que, à exemplo da coletânea de Simões Lopes Neto, será editada por Elmar Bones no JÁ Editores – e o lançamento do livro História da Literatura Brasileira, com texto de Carlos Nejar.

  • Os dedos nas feridas

    Geraldo Hasse, jornalista  ghasse@th.com.br

    A mosca azul de Frei Betto incomoda gregos e troianos, petistas e tucanos. Até agora a mídia brasileira quase não falou do novo livro de Frei Betto, no qual ele rememora sua passagem pelo governo Lula, nos anos 2003 e 2004. Lançado na primeira quinzena de março, já aparece na lista dos mais vendidos, mas permanece cercado por um estranho silêncio. Por que não analisam/ criticam/ resenham uma obra tão atual e engajada, que esmiuça a realidade contemporânea como nenhum outro autor brasileiro fez nos últimos anos? Pode ser birra ou má vontade, mas desde já não se pode negar: taí o livro mais contundente de um ano que mal começa e muito promete.

    Em A Mosca Azul (Rocco, 310 páginas), Betto expõe seu desencanto com o rumo da nau petista. Logo no primeiro parágrafo ele põe o dedo na ferida, ao lamentar “a desdita de promessas esvoaçadas em mera retórica”. No final do capítulo 30, depois de tocar em várias feridas — à esquerda e à direita –, confessa: “De repente dei-me conta de que navegávamos para oeste, quando todos os planos orientavam-nos para leste”. Resultado: caiu fora “em busca de si mesmo”. Pouco mais de um ano depois de pedir demissão e deixar o poder para “nunca mais”, ele apresenta o que poderíamos denominar “o reencontro consigo”. Temos na mão uma contribuição relevante para a organização do pensamento brasileiro.

    Frei Betto escreve com tal clareza e sinceridade que é impossível não ler até o fim. Apesar de “ligado na missão”, ele não pede licença para ser criativo. Brincalhão às vezes, solta alguns trocadilhos de tirar o chapéu. Com “tudo que é sólido desmancha no bar”, ele atualiza para nossos tempos consumistas a célebre frase de Karl Marx sobre os períodos críticos em que ‘tudo que é sólido parece se desmanchar no ar’…

    Há também confissões memoráveis. Ele diz que escrever é sua forma de driblar a própria loucura. Admite que algumas vezes tem vontade de chutar o balde e cair na contemplação dos mistérios da vida e da morte. Mas não desiste. Uma das coisas que o incentiva a se manter na luta é a memória do que passou na prisão, resistindo à tortura.

    Ao contrário do que se poderia esperar, ele não picha o amigo Lula nem cospe no prato em que comeu (foi coordenador de mobilização social do programa Fome Zero). Fiel aos ideais que o levaram a optar pela vida religiosa e a militância política, surpreende tanto pela  análise dos equívocos da esquerda quanto pela crítica das enganações da direita.

    Diz o informe da Editora Rocco que A Mosca Azul é “uma revisão honesta da ascensão do PT ao poder vinculada à recente história da esquerda no Brasil e no mundo”. Na realidade, com uma narrativa na primeira pessoa, Frei Betto faz uma reavaliação de sua vida, toda ela consagrada a um projeto de redenção dos pobres e oprimidos. A Mosca Azul é talvez o mais autobiográfico dos livros de Frei Betto, uma das figuras mais fascinantes da história brasileira contemporânea, com mais de 50 livros publicados.

    Mineiro de Belo Horizonte, nascido em 24 de agosto de 1944, ele fala bastante do pai, que morreu quatro meses antes da eleição de Lula, em 2002. Recorda o conservadorismo e o anticlericalismo paterno, expresso numa ameaça explícita, segundo a qual não toleraria ver “um filho de saias”, ou seja, que fosse maricas ou padre. Betto respeitou o pai à sua moda: sem ser sacerdote, assumiu a vida religiosa, como frade dominicano, desses que andam à paisana; sem deixar de ser homem, jamais se casou. No livro, sem maiores detalhes, confessa que na juventude frequentou a “zona” da prostituição de BH; insatisfeito, escolheu o claustro e fez do trabalho religioso uma missão.

    Da militância cristã evoluiu para a participação política até ser preso e condenado a quatro anos de prisão por ajudar na luta armada contra a ditadura militar. Quando deixou a cadeia, foi aconselhado a ir embora para o exterior, mas exilou-se na região metropolitana de Vitória, onde morou por cinco anos. Aí conheceu, entre outros, o médico Vitor Buaiz, um dos fundadores do PT, ao lado de Lula. Eles estiveram juntos em João Monlevade, em janeiro de 1980, no encontro sindical em que pela primeira vez Lula falou em fundar um partido dos trabalhadores.

    Eram todos “duros” e idealistas. Depois desse evento, alguns sindicalistas como Lula e Olívio Dutra foram descansar no apartamento dos pais de Betto em Belo Horizonte. Com vôo marcado para o amanhecer e sem dinheiro para o hotel, eles dormiram amontoados no chão da sala, pois não havia cama para todos.

    Outro episódio dessa época foi o encontro (em 1979) em São Paulo com os socialistas Almino Affonso, Fernando Henrique Cardoso e Plínio de Arruda Sampaio. Convidado para entrar no partido que os três estavam dispostos a fundar, Betto ficou de pensar. Muito tempo depois, soube que a reunião – realizada no apartamento duplex de um jornalista — fora gravada pelos órgãos de segurança da ditadura agonizante.

    Nessa viagem ao passado, Betto fala do ideal construído pela esquerda brasileira após o golpe militar de 1964, mergulha nas circunstâncias que geraram o efeito Lula e culminaram na eleição do líder sindical a Presidente da República em 2002. Comentando o carisma do atual presidente, não deixa barato: compara-o a Vargas e Prestes.

    Adepto da teologia da libertação nascida em redutos pobres da América Latina, Betto faz uma reflexão profunda sobre o sonho petista de uma sociedade socialista, os novos paradigmas da esquerda após o fim da União Soviética e o ressurgimento do neoliberalismo, que desmantela um século de conquistas sociais dos trabalhadores.

    O livro tem grandes sacadas. Por exemplo: “O PT é filho bastardo da desconfiguração da geopolítica internacional”, diz ele no capítulo 29, em que faz uma análise da crise do mundo moderno. Outra constatação dolorida: “O PT vestiu a camisa do governo e despiu a camiseta dos movimentos populares”.

    Embora tenha escrito seu livro para explicar/justificar sua passagem pelo governo Lula no período 2003/2004, Betto foi muito além da promessa: acabou dando um verdadeiro cursinho (de história, filosofia, sociologia, política) em que apresenta uma série de raciocínios extremamente lúcidos sobre os rumos da esquerda, o papel do PT e o futuro do socialismo, seja isso lá o que for depois do colapso da maior parte dos governos comunistas fundados no século 20.

    Mesmo decepcionado com a maior parte do governo Lula, reconhece que tem pela causa social a mesma preocupação de um pai pelo filho deficiente ou drogado: um amor incondicional, eivado de sofrimento. É o amor inspirado na lição de Cristo. Suas outras referências são Gandhi e Guevara, que se dedicaram à libertação dos oprimidos, cada um a seu modo.

    Os oprimidos, os pobres são o alvo central de sua militância. Betto os coloca numa nova categoria – o pobretariado, abaixo do proletariado. Para entender essa nova classificação, é preciso viajar com o autor pelos meandros da sociedade de consumo, da publicidade, do neoliberalismo e da globalização.

    São extremamente instrutivos os capítulos em que ele analisa, comenta e critica o comportamento dos ricos, da burguesia, dos intelectuais, da classe média e também dos pobres. Leitor dos clássicos gregos e estudioso de Maquiavel, Betto faz páginas brilhantes sobre o exercício do poder em geral e do poder no governo petista. Apesar de tudo, confia na possibilidade de que, num segundo mandato, Lula penda mais para a esquerda do que para a direita, resgatando mais um pouco das carências da maior parte da população.

    No final, numa metáfora carregada de poesia, Betto afirma que “a viagem não foi em vão, pois são sinuosas as veredas da história e a turba jamais olvida a fonte do alvorecer”. Resta no ar um certo messianismo, mas esperar o quê de um pregador católico? Sem esperança ninguém vive.

    Por essas e outras, A Mosca Azul é um livro de leitura obrigatória para quem pretende não apenas compreender a sinuca dos petistas, mas situar-se depois que o barco de Lula sumiu no nevoeiro neoliberal e tomar um rumo nesse mundo coberto de miséria, corrupção, violência e insegurança. Sem respostas prontas, Betto dá uma dica humanista-cristã para construir um mundo melhor: “O pólo de referência das esquerdas, em torno do qual precisam se unir, é somente um: o direito dos pobres”.