
Esboço foi apresentado no ano passado
Helen Lopes
O primeiro Centro Popular de Compras deve ser construído este ano na área acima dos corredores de ônibus da Praça Ruy Barbosa, entre a Mauá e a Voluntários da Pátria. Depois de aprovado pela Câmara Municipal e amplamente divulgado pela Prefeitura, o projeto ainda não está definido. Entidades representativas reclamam que não houve discussão e apontam outras saídas.
O secretário municipal de Indústria e Comércio, Idenir Cecchim, garante que o Camelódromo aéreo da Praça Rui Barbosa será construído através de concessão. Entretanto, as dúvidas são muitas. O projeto, apresentado pela SMIC, gera questionamentos entre os especialistas da área. Os técnicos reclamam que a mudança urbanística não foi discutida e vêem falhas na viabilidade financeira e estrutural.
Para o presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil no Estado (IAB-RS), Iran Rosa, o camelódromo aéreo não representa uma solução eficaz e não foi debatido nos fóruns da cidade. Rosa, que acompanhou a participação do IAB no Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano Ambiental (CMDUA), comissão consultiva sobre o Plano Diretor da Capital, disse que esse tema sequer chegou ao Conselho. “Uma edificação desse porte deve ser amplamente discutida”.

Prefeitura promete remodelar circulação de ônibus no terminal Rui Barbosa (Foto: Helen Lopes)
O arquiteto lembra também que “os órgãos técnicos não foram consultados”. “Antes de realizar esse grande empreendimento creio que a Prefeitura deveria fazer um zoneamento na cidade, estabelecendo as áreas permitidas para o comercio informal”, analisa.
Neste ano, o IAB não fará parte do Conselho do Plano Diretor. Rosa lamenta que a entidade tenha sido excluída porque, segundo ele, “incomodava”. Entende que o Conselho do Plano Diretor fica prejudicado, sem a representação de arquitetos. “A cidade acaba se tornado mercadoria. Temos que pensar em propostas que tenham sustentabilidade adequada ao longo dos anos”.
O secretário rebate as críticas dizendo que o esboço apresentado é apenas um “retrato-falado” do camelódromo e foi feito a partir de três reivindicações dos ambulantes: estar localizado na zona central, grande fluxo de pessoas e que todos ficassem no mesmo andar. “A Prefeitura vai exigir que tecnicamente seja viável e o empreendedor terá obrigação de atender às exigências do governo.” E completa: “Não vejo motivo para a preocupação. Aquela área – Praça Rui Barbosa – é estéril tanto do ponto de vista urbanístico como do ponto de vista ambiental”. Além disso, ele informou que a gestão municipal tem projetos para diminuir o número de ônibus que chegam ao centro e o tempo de parada.
O titular da pasta promete que, neste ano, serão feitas audiências ambientais, estudo sobre o impacto socioeconômico e “todas as audiências necessárias”. Entretanto, esse debate vai ocorrer durante o processo licitatório, pois o edital deve estar pronto no inicio de fevereiro, segundo Cecchim. “Não tínhamos como apresentar o projeto antes, porque não sabíamos se ia ser aprovado pela Câmara”.
O coordenador da Câmara Especializada de Arquitetura do CREA-RS, Décio Bevilacqua, concorda com as iniciativas da Prefeitura para realocar os vendedores ambulantes. Ele alerta, porém, que “na ótica urbana, a forma como está sendo concebida a proposta do camelódromo não é aconselhável, porque provoca a concentração, num mesmo espaço, de um número expressivo de comércio e demais atividades”. Bevilacqua fala do conflito que pode ser gerado entre o fluxo de pedestres que buscam o comércio e os que utilizam o transporte coletivo.
Ele lembra ainda que a paisagem urbana e as questões climáticas como ventilação, isolação e luminosidade devem ser consideradas. Bevilacqua propõe a realização de um concurso público para a escolha do projeto, assim, conforme ele, o leque de opções e idéias aumentaria. Para o arquiteto, uma solução urbana mais viável seria a distribuição deste comércio em vários prédios da área central.
Esta também é a sugestão do vereador Adeli Sell, ex-secretário da SMIC, na gestão petista. Ele aponta como alternativa ao CPC aéreo, a criação de diversos camelódromos nos andares térreo de alguns edifícios na zona central. “Existem lojas vagas ao lado da Praça Parobé, no – prédio conhecido como esqueleto – edificação inacabada próxima à Praça 15 e em muitos outros locais. Concentrar não é a solução.”

Hoje, a fiscalização é incisiva contra os caixinhas, ambulantes que vendem nas calçadas Cd’s, Dvd’s e tênis piratas, mas, mesmo assim, o comércio acontece.
Autor da emenda que proíbe a comercialização de produtos piratas ou oriundos de roubo nos CPC’s, Adeli diz que a “Prefeitura deve ter cuidado para não institucionalizar a pirataria”. Tendo em vista que a maior parte dos produtos comercializados pelos ambulantes não tem nota fiscal. “No início, podem ocorrer alguns conflitos, mas a fiscalização deve ser intensa”, pondera sobre o retorno dos camelôs às ruas.
Já o vereador Raul Carrion (PcdoB), que acompanhou o tema na presidência da Comissão de Urbanização, Transportes e Habitação (CUTHA) da Câmara, entende que é uma questão social, mas que deve haver organização. “São cidadãs e cidadãos que buscam ganhar o pão de cada dia”. Ele também aposta na descentralização do comércio informal. “Devemos criar alternativas em parceria com as feiras livres”.
O vereador do PC do B receia que as pessoas tenham dificuldades para pagar o aluguel e percam os espaços. Ele questiona ainda os critérios para a renovação do ponto – o projeto estabelece que o uso dos espaços pelos comerciantes será válido por um ano, sendo renovável por igual e sucessivos períodos.
“Se o projeto der certo, tudo bem, mas se não der certo, pode recrudescer a marginalidade”, enfatizou Carrion, lembrando que irá acompanhar todas próximas etapas para que o edital seja adequado e o CPC cumpra com a sua função social.
No meio desse processo, os comerciantes autônomos temem o abuso da iniciativa privada na cobrança dos alugueis. Mesmo com a maioria apoiando a proposta dos CPC’s, eles se sentem prejudicados por não participar da gestão do projeto. Quanto o projeto foi votado na Câmara, a emenda que instituía a administração tripartite (representação igualitária do Município, da iniciativa privada e dos ambulantes em todas as negociações) – foi rejeitada. O autor da proposta vereador Carrion afirma que “como ficou os ambulantes terão uma participação pífia”. Os camelôs irão participar apenas das negociações sobre o aluguel. A Prefeitura afirma que não haverá excessos e que participará, como poder concedente, de todas as negociações.
Os ambulantes declaram que não houve diálogo, que a transferência para um local fechado irá descaracterizar a atividade e, além disso, acham que os irregulares continuarão nas ruas. “Parece ingenuidade acreditar que os camelôs vão sair das ruas. Os espaços serão ocupados por novos”, ironiza uma cliente das barracas da Praça da 15.
O presidente da Associação dos Feirantes da Rua da Praia, Juliano Flip diz que depois da aprovação dos CPC’s na Câmara não houve mais nenhuma tratativa com a Prefeitura. “Se for feito como está no papel e como nos prometeram, será uma boa alternativa”.
Lamentando a não aprovação da gestão tripartite, Flipp observa que a associação vai se empenhar na discussão dos valores do aluguel. “Entendemos que o aluguel não pode ser igual para todos os comerciantes, pois existem bancas maiores, com diversos produtos, e outras que só vendem uma variedade. Vamos apresentar uma proposta para não prejudicar os pequenos.” Ele avalia que a maioria dos 254 comerciantes da feira da Rua da Praia vende produtos de fabricação própria ou de pequenos artesãos.
O representante da Associação lembrou ainda que, através do Orçamento Participativo, foram destinados R$ 300 mil para o Camelódromo. A quantia, segundo ele, deveria ser usada como contrapartida na implantação de uma Parceria Público-Privada. No entanto, como já está praticamente certo que o projeto será viabilizado através de uma concessão, o prefeito José Fogaça disse que esse dinheiro será usado para a elaboração do projeto e na fase inicial. “Esse recurso é para a montagem operacional, o projeto em si tem um custo muito mais levado.”
A construção do camelódromo aéreo na Praça Rui Barbosa é a “menina dos olhos” da Prefeitura em 2006. O CPC será um espaço privado, edificado por empresas ou investidores. O valor estimado da obra é de R$ 12 milhões e deve abrigar entre 800 e 900 ambulantes. Depois da implantação do camelódromo, a prática de comércio ambulante, em vias e logradouros públicos, acarretará a apreensão de equipamentos e objetos que constituírem a infração, combinada com multa de 600 Unidades Financeiras Municipais (UFMs), que dobrará a cada reincidência.








O advogado Felisberto Luisi (foto), 52, filiado ao PT, participa do Orçamento Participativo há 11 anos – hoje, é suplente na temática Desenvolvimento Econômico e Tributação. Ele afirma que há um crescente esvaziamento das assembléias, problema que ele relaciona com a falta de divulgação e propaganda sobre o OP.





