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  • Camelódromo aéreo: solução ou frustração?

    Esboço foi apresentado no ano passado

    Helen Lopes

    O primeiro Centro Popular de Compras deve ser construído este ano na área acima dos corredores de ônibus da Praça Ruy Barbosa, entre a Mauá e a Voluntários da Pátria. Depois de aprovado pela Câmara Municipal e amplamente divulgado pela Prefeitura, o projeto ainda não está definido. Entidades representativas reclamam que não houve discussão e apontam outras saídas.

    O secretário municipal de Indústria e Comércio, Idenir Cecchim, garante que o Camelódromo aéreo da Praça Rui Barbosa será construído através de concessão. Entretanto, as dúvidas são muitas. O projeto, apresentado pela SMIC, gera questionamentos entre os especialistas da área. Os técnicos reclamam que a mudança urbanística não foi discutida e vêem falhas na viabilidade financeira e estrutural.

    Para o presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil no Estado (IAB-RS), Iran Rosa, o camelódromo aéreo não representa uma solução eficaz e não foi debatido nos fóruns da cidade. Rosa, que acompanhou a participação do IAB no Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano Ambiental (CMDUA), comissão consultiva sobre o Plano Diretor da Capital, disse que esse tema sequer chegou ao Conselho. “Uma edificação desse porte deve ser amplamente discutida”.

    Prefeitura promete remodelar circulação de ônibus no terminal Rui Barbosa (Foto: Helen Lopes)

    O arquiteto lembra também que “os órgãos técnicos não foram consultados”. “Antes de realizar esse grande empreendimento creio que a Prefeitura deveria fazer um zoneamento na cidade, estabelecendo as áreas permitidas para o comercio informal”, analisa.

    Neste ano, o IAB não fará parte do Conselho do Plano Diretor. Rosa lamenta que a entidade tenha sido excluída porque, segundo ele, “incomodava”. Entende que o Conselho do Plano Diretor fica prejudicado, sem a representação de arquitetos. “A cidade acaba se tornado mercadoria. Temos que pensar em propostas que tenham sustentabilidade adequada ao longo dos anos”.

    O secretário rebate as críticas dizendo que o esboço apresentado é apenas um “retrato-falado” do camelódromo e foi feito a partir de três reivindicações dos ambulantes: estar localizado na zona central, grande fluxo de pessoas e que todos ficassem no mesmo andar. “A Prefeitura vai exigir que tecnicamente seja viável e o empreendedor terá obrigação de atender às exigências do governo.” E completa: “Não vejo motivo para a preocupação. Aquela área – Praça Rui Barbosa – é estéril tanto do ponto de vista urbanístico como do ponto de vista ambiental”. Além disso, ele informou que a gestão municipal tem projetos para diminuir o número de ônibus que chegam ao centro e o tempo de parada.

    O titular da pasta promete que, neste ano, serão feitas audiências ambientais, estudo sobre o impacto socioeconômico e “todas as audiências necessárias”. Entretanto, esse debate vai ocorrer durante o processo licitatório, pois o edital deve estar pronto no inicio de fevereiro, segundo Cecchim. “Não tínhamos como apresentar o projeto antes, porque não sabíamos se ia ser aprovado pela Câmara”.

    O coordenador da Câmara Especializada de Arquitetura do CREA-RS, Décio Bevilacqua, concorda com as iniciativas da Prefeitura para realocar os vendedores ambulantes. Ele alerta, porém, que “na ótica urbana, a forma como está sendo concebida a proposta do camelódromo não é aconselhável, porque provoca a concentração, num mesmo espaço, de um número expressivo de comércio e demais atividades”. Bevilacqua fala do conflito que pode ser gerado entre o fluxo de pedestres que buscam o comércio e os que utilizam o transporte coletivo.

    Ele lembra ainda que a paisagem urbana e as questões climáticas como ventilação, isolação e luminosidade devem ser consideradas. Bevilacqua propõe a realização de um concurso público para a escolha do projeto, assim, conforme ele, o leque de opções e idéias aumentaria. Para o arquiteto, uma solução urbana mais viável seria a distribuição deste comércio em vários prédios da área central.

    Esta também é a sugestão do vereador Adeli Sell, ex-secretário da SMIC, na gestão petista. Ele aponta como alternativa ao CPC aéreo, a criação de diversos camelódromos nos andares térreo de alguns edifícios na zona central. “Existem lojas vagas ao lado da Praça Parobé, no – prédio conhecido como esqueleto – edificação inacabada próxima à Praça 15 e em muitos outros locais. Concentrar não é a solução.”

    Hoje, a fiscalização é incisiva contra os caixinhas, ambulantes que vendem nas calçadas Cd’s, Dvd’s e tênis piratas, mas, mesmo assim, o comércio acontece.

    Autor da emenda que proíbe a comercialização de produtos piratas ou oriundos de roubo nos CPC’s, Adeli diz que a “Prefeitura deve ter cuidado para não institucionalizar a pirataria”. Tendo em vista que a maior parte dos produtos comercializados pelos ambulantes não tem nota fiscal. “No início, podem ocorrer alguns conflitos, mas a fiscalização deve ser intensa”, pondera sobre o retorno dos camelôs às ruas.

    Já o vereador Raul Carrion (PcdoB), que acompanhou o tema na presidência da Comissão  de Urbanização, Transportes e Habitação (CUTHA) da Câmara, entende que é uma questão social, mas que deve haver organização. “São cidadãs e cidadãos que buscam ganhar o pão de cada dia”. Ele também aposta na descentralização do comércio informal. “Devemos criar alternativas em parceria com as feiras livres”.

    O vereador do PC do B receia que as pessoas tenham dificuldades para pagar o aluguel e percam os espaços. Ele questiona ainda os critérios para a renovação do ponto – o projeto estabelece que o uso dos espaços pelos comerciantes será válido por um ano, sendo renovável por igual e sucessivos períodos.

    “Se o projeto der certo, tudo bem, mas se não der certo, pode recrudescer a marginalidade”, enfatizou Carrion, lembrando que irá acompanhar todas próximas etapas para que o edital seja adequado e o CPC cumpra com a sua função social.

    No meio desse processo, os comerciantes autônomos temem o abuso da iniciativa privada na cobrança dos alugueis. Mesmo com a maioria apoiando a proposta dos CPC’s, eles se sentem prejudicados por não participar da gestão do projeto. Quanto o projeto foi votado na Câmara, a emenda que instituía a administração tripartite (representação igualitária do Município, da iniciativa privada e dos ambulantes em todas as negociações) – foi rejeitada. O autor da proposta vereador Carrion afirma que “como ficou os ambulantes terão uma participação pífia”. Os camelôs irão participar apenas das negociações sobre o aluguel. A Prefeitura afirma que não haverá excessos e que participará, como poder concedente, de todas as negociações.

    Os ambulantes declaram que não houve diálogo, que a transferência para um local fechado irá descaracterizar a atividade e, além disso, acham que os irregulares continuarão nas ruas. “Parece ingenuidade acreditar que os camelôs vão sair das ruas. Os espaços serão ocupados por novos”, ironiza uma cliente das barracas da Praça da 15.

    O presidente da Associação dos Feirantes da Rua da Praia, Juliano Flip diz que depois da aprovação dos CPC’s na Câmara não houve mais nenhuma tratativa com a Prefeitura. “Se for feito como está no papel e como nos prometeram, será uma boa alternativa”.

    Lamentando a não aprovação da gestão tripartite, Flipp observa que a associação vai se empenhar na discussão dos valores do aluguel. “Entendemos que o aluguel não pode ser igual para todos os comerciantes, pois existem bancas maiores, com diversos produtos, e outras que só vendem uma variedade. Vamos apresentar uma proposta para não prejudicar os pequenos.” Ele avalia que a maioria dos 254 comerciantes da feira da Rua da Praia vende produtos de fabricação própria ou de pequenos artesãos.

    O representante da Associação lembrou ainda que, através do Orçamento Participativo, foram destinados R$ 300 mil para o Camelódromo. A quantia, segundo ele, deveria ser usada como contrapartida na implantação de uma Parceria Público-Privada. No entanto, como já está praticamente certo que o projeto será viabilizado através de uma concessão, o prefeito José Fogaça disse que esse dinheiro será usado para a elaboração do projeto e na fase inicial. “Esse recurso é para a montagem operacional, o projeto em si tem um custo muito mais levado.”

    A construção do camelódromo aéreo na Praça Rui Barbosa é a “menina dos olhos” da Prefeitura em 2006. O CPC será um espaço privado, edificado por empresas ou investidores. O valor estimado da obra é de R$ 12 milhões e deve abrigar entre 800 e 900 ambulantes. Depois da implantação do camelódromo, a prática de comércio ambulante, em vias e logradouros públicos, acarretará a apreensão de equipamentos e objetos que constituírem a infração, combinada com multa de 600 Unidades Financeiras Municipais (UFMs), que dobrará a cada reincidência.

  • Leopoldina Juvenil amplia sede


    O clube terá mais duas piscinas e um estacionamento
    (Foto: Divulgação/JÁ)

    Helen Lopes

    A Associação Leopoldina Juvenil pretende chegar em 2007 de cara nova. Anunciou a construção de um estacionamento subterrâneo, com cerca de 250 vagas, duas piscinas, uma recreativa e a outra térmica, e a elevação de três quadras de tênis, deslocamento que irá viabilizar as outras reformas.

    A reivindicação é antiga. Os associados do Leopoldina Juvenil têm dificuldade de achar uma vaga nos horários de “pico” no atual estacionamento do Clube. A dúvida era como aumentar a capacidade do estacionamento sem interferir nas características arquitetônicas e urbanísticas do Clube e do bairro Moinhos de Vento.

    A atual sede da ALJ, que foi construída em 1954, faz parte da história do bairro. O prédio possui influências neoclássicas. Havia a preocupação de preservar esse patrimônio e, além disso, não criar sombra para as quadras de tênis e piscina, com um edifício.

    Uniu-se a essa demanda a necessidade de uma piscina coberta para abrigar a equipe de natação do Clube e outra piscina para ampliar a área de lazer. No verão, a procura pelas piscinas triplica, segundo a administração da ALJ.


    Para o presidente, a proposta projeta a ALJ para o futuro
    (Foto: Helen Lopes/JÁ)

    O presidente do Clube, João Paulo Leal, explica que aconteceram muitos debates para conciliar as demandas ao espaço restrito. O projeto atual, desenvolvido pelas empresas Valle Arquitetos e Ronaldo Rezende Arquitetos, cria novas áreas de forma horizontal. “Essa proposta projeta o Clube para o futuro”, comemora Leal. E completa: “também pensamos no bairro porque a reforma não trará mudança urbanística significativa”. Em janeiro Leal foi reeleito para o segundo mandato à frente da ALJ.

    O empreendimento, orçado em R$ 5,3 milhões, não terá financiamento, será pago pelos próprios associados. Leal garante que não haverá problemas de captação de recursos, pois os sócios entendem a urgência das reformas. As obras devem começar em agosto deste ano e, segundo o presidente, não vão comprometer mais de 12 meses.

    Associados concordam

    Quem chega pelo atual estacionamento é bombardeado com informações sobre as obras. Nos murais do túnel que dá acesso ao Clube, cartazes apresentam o projeto em vários ângulos. O assunto era o mais comentado nas mesas ao redor da piscina, na tarde da sexta-feira (6/01). As obras são imprescindíveis, para André Papaleo, sócio desde criança da ALJ. Na opinião dele, o empreendimento trará mais segurança, conforto e comodidade, além de criar outras opções de lazer.

    Mesmo com o clima favorável às reformas, os associados pedem mais cuidado com o prédio histórico. Freqüentadora do Clube há 40 anos, Maira Brener alerta para problemas de infiltração e manutenção deficiente nessa parte da sede. “O estacionamento é uma necessidade, mas antes de construir piscinas, penso que Clube deveria cuidar melhor do que já existe”.

    O presidente afirmou que umas de suas metas é iniciar a revitalização do prédio principal, que abriga o Salão Leopoldina, o mais nobre do Clube. Ele admite que a área necessita de reparos e ajustes, para incentivar a utilização dos espaços.

  • Pobre Fundeb…

    Silo Meireles, diretor da Editora Primeira Impressão; engenheiro industrial com extensão na Universidade de Paris

    O presidente se aliou de forma definitiva ao MEC e passou a reclamar do Congresso uma rápida aprovação do projeto que cria o Fundeb, Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica, na esperança que assim resolva os problemas da nossa educação.

    Mas o fracasso do ensino público não parece ser fruto da escassez de recursos. Investindo 5,4% do Produto Interno Bruto (PIB) em educação, gastamos mais que países como Canadá (5,2%), Estados Unidos (4,8%), Austrália (4,6%) e Coréia (4,3%), para citar alguns.
    Não é preciso meditar muito sobre os indicadores que são periodicamente publicados, nem usar de uma dose exagerada de perspicácia, para concluir que o repetido fracasso escolar das nossas crianças precisa ser explicado a partir de alguns fatores sistematicamente ignorados.

    A forma de ensinar a ler oficialmente patrocinada pelo MEC está na origem de tudo. O Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica), o Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), a Unesco e o Instituto Paulo Montenegro, não se cansam de mostrar isto.
    Se 97% das nossas crianças estão na escola e 33% delas são reprovadas ou desistem na 1ª série, 52% da 5ª não sabem interpretar um texto e 74% dos brasileiros entre 15 a 64 anos não entendem o que lêem, é óbvio que há algo errado com o ensino da leitura no Brasil.
    Essa multidão de crianças sem domínio da leitura e da escrita, avançando através das séries à custa de promoções continuadas, ciclos pedagógicos e classes de aceleração, implica certamente num absurdo desperdício de recursos, que está muito longe de poder ser calculado.

    Está claro para todos que é preciso garantir um fluxo de recursos capaz de financiar o ensino público básico, mas é preciso ficar claro também que é indispensável fixar padrões mínimos de qualidade que devem ser perseguidos por todas as escolas públicas de todo o país.
    Só um sistema de avaliação universalizada, desde a primeira série do ensino fundamental, como é feito nos países que levam a sua educação básica a sério, permite identificar os misteriosos e indesejáveis bolsões de ineficácia. Enquanto isso, não haverá Fundeb que resolva.

  • Obras do colégio Rosário provocam reclamações


    Obra na Rua
    José Otão irrita comerciantes
    (Foto: Divulgação)

    Naira Hofmeister

    Comerciantes da rua Barros Cassal fazem coro para reclamar da supressão das vagas de estacionamento devido ao início das obras para o rebaixamento da Rua Irmão José Otão, junto ao Colégio Rosário. Eles reclamam do afastamento da clientela.

    Também os comerciantes de parte da Avenida Osvaldo Aranha próxima ao túnel, reclamam pelo fim do estacionamento temporariamente. A encarregada da Loja Lapele, Rosa Maria Silva Nascimento, que vende móveis de Gramado, questiona: “Como o cliente vai comprar um banco e carregar nas costas até um lugar onde possa estacionar?”. E completa: “As coisas já andavam ruins, mas agora está cada vez mais difícil”, lamenta.

    Alguns moradores da Rua Barros Cassal alegam que terão prejuízos durante as obras, contestam as decisões tomadas pelos síndicos, que aprovaram o projeto da direção do Colégio Rosário, após modificações sugeridas em debates com os moradores.

    Maria Regina Marques Saraiva, que tem seu apartamento de fundos no Edifício Glória, reclama que a varanda vai fica encoberta pela obra. “Não vou ter mais sol e luz”, lamenta. Outra moradora fez uma ressalva, lembrando que todos receberam a convocação, porém, a maioria dos proprietários de apartamentos de fundos não compareceu: “Isso me deixou bastante surpresa”, disse.

    O arquiteto da obra, Ricardo Sommer, explica que foram feitas modificações no projeto original, para atender aos moradores: “Recuamos cinco metros do muro que divide o terreno com os prédios, o que não era necessário segundo o Plano Diretor”, garante.

    O irmão Firmino do Colégio Rosário faz um apelo: “Espero que as pessoas pensem na obra pelas vantagens que ainda virão, e não apenas como transtorno momentâneo”.

    O rebaixamento é a etapa inicial da construção de um prédio no lugar onde hoje, é a quadra de areia do colégio Rosário. Nesta nova construção, que ainda está em análise na SMOV, três pavimentos serão destinados para estacionamento de espera para os pais dos alunos. “A grande vantagem é que os alunos saem do carro e já estão dentro da escola”, acredita Irmão Firmino.

    Além das vagas para embarque e desembarque, o estacionamento vai estar aberto à comunidade. Cerca de 350 vagas serão criadas, num local carente de espaços para deixar o carro. O térreo vai servir apenas para a circulação dos automóveis, e nos andares superiores, além do estacionamento, salas de aula abrigarão atividades da escola e também estarão à disposição da cidade.
    Para a obra de rebaixamento, mais as alterações necessárias no trânsito, a mantenedora do Colégio Rosário liberou uma verba de um milhão de reais. O diretor de trânsito e circulação da EPTC, Vilmar Govinatski, informa que a prefeitura não vai participar do investimento. “Como o fluxo é gerado pela iniciativa privada, seria injustiça com o contribuinte, se o dinheiro público fosse aplicado ali”.

    Passarela Provisória

    Juntamente com a conclusão do rebaixamento da rua, que irá liberar o tráfego de automóveis pela via, será construída uma passarela provisória enquanto o prédio que abrigará o estacionamento e a passagem definitiva não estejam concluídos. A passarela provisória servirá para que os alunos acessem o complexo esportivo.  O novo prédio e a passarela definitiva serão concluídos num prazo de dois anos.

    Quanto ao trânsito poucos problemas foram apresentados. Porém, motoristas que trafegam pela avenida Osvaldo Aranha em direção ao túnel da Conceição devem ficar atentos e ocuparem a pista da direita que possui acesso livre.

    Já as pistas central e da esquerda devem obedecer ao semáforo para seguir em frente. Motoristas desatentos que desejam seguir em frente e que ocupam a pista de acesso livre em alguns momentos dificultam o trânsito, o que tem causado alguma retenção do tráfego.

    Uma placa será colocada na rua Irmão José Otão, esquina com a rua Barros Cassal, mostrando como ficará a via após a conclusão das obras.

  • Fazendeiros vão ganhar com os cata-ventos de Osório

    Nas terras onde antes havia gado, agora apenas os ventos soprarão (Foto: Geraldo Hasse)

    Geraldo Hasse, de Osório

    Quando ficou sabendo que os espanhóis queriam falar com ela sobre a industrialização do vento que passa em sua fazenda no Capão da Areia, no interior de Osório, Dona Iracema Dariva ficou insegura e pediu ajuda ao seu advogado, Francisco Moro, um dos mais conceituados do município. Afinal, pensou ela, “em negócio novo e com gente desconhecida, é preciso se precaver”.

    Dr. Moro conversou com os forasteiros e tranqüilizou-a. Além de assessorá-la na elaboração do contrato, ele se tornou uma espécie de fio-terra das negociações entre os empreiteiros do vento e diversos proprietários das terras onde estão sendo construídos os cata-ventos gigantes da Elecnor, a empresa líder do empreendimento, pela qual acabou sendo também contratado.

    “Depois da D. Iracema, eu fui o primeiro a tratar com os espanhóis”, diz o Dr. Moro, consciente do seu papel de conciliador dos interesses das partes do maior empreendimento jamais realizado em Osório. Como outros protagonistas secundários do negócio, ele acha que conseguiu um lugar na história do município, onde todo mundo parece acreditar que a usina eólica será um divisor de águas. “Osório nunca mais será a mesma depois dessa usina”, afirma D. Iracema, convencida de que, apesar de ter ficado inicialmente meio cabreira com a proposta espanhola, “não podia trancar o progresso de Osório”.

    Dona da mais antiga loja de tecidos e decoração da cidade, D. Iracema admite que até agora não tem queixas. Está confiante: os espanhóis parecem gente séria. É verdade que no meio do caminho a Elecnor apareceu com uma segunda identidade (Enerfin) e no frigir dos ovos a usina está sendo tocada por uma nova firma, Ventos do Sul, mas as pessoas foram sempre as mesmas, desde o início. A primeira conversa foi com o brasileiro Telmo Magadan, que logo depois trouxe Guillermo Planas Roca, o chefão espanhol, diretor geral da Enerfin.

    O entendimento foi tão perfeito que a fazenda se tornou o centro das atividades da Elecnor/Enerfin/Ventos do Sul e diversas empreiteiras da obra iniciada em meados de 2005. Cinco anos antes, os espanhóis haviam mandado instalar ali uns aparelhos de medição da velocidade dos ventos, mas para todos os efeitos quem fez a pesquisa foi a Intercâmbio Eletro Mecânico, empresa de consultoria de Hans Dieter Rahn, que desde 1942 trabalha com energia alternativas em Porto Alegre. Rahn é de uma seriedade a toda prova, mas na época ninguém acreditava nesse lero de captar a energia dos ventos.

    Hoje estão ocupadas pelo projeto eólico cerca de 40 dos 270 hectares da fazenda, comprada há mais de 30 anos como reserva de valor em momento de inflação alta. Dentro dela existe uma casa construída em 1881, época em que o município era conhecido por seu primeiro nome, Conceição do Arroio. Para explorar a propriedade com agricultura e pecuária, Iracema e seu primeiro marido Crineu Dariva (já falecido) convidaram a amiga Nadir Brum da Costa, que até hoje permanece como sócia do negócio.

    Ainda bem que surgiu a novidade do vento, pois a exploração tradicional da propriedade não vinha dando grandes resultados, ainda que as terras sejam consideradas excelentes para engorda bovina. No segundo semestre de 2005, com a instalação das empreiteiras na fazenda, não deu nem para plantar os talhões de arroz necessários para a pesquisa da Embrapa Terras Baixas, de Pelotas, sobre a integração orizicultura-pecuária. A pesquisa foi iniciada há três anos.

    Naturalmente, é grande a esperança na virada. A expectativa é que a partir de 2007 o vento dê muito mais dinheiro do que o plantio de cereal e a criação de gado. A agricultura, diz D. Iracema, é um risco duplo: primeiro é preciso contar com a Natureza; segundo, torcer para que o governo não resolva fazer política em cima do trabalho do agricultor. Em Osório, como em outras regiões agrícolas do Brasil, os arrozeiros se queixam da liberação da importação de arroz do Mercosul e das imposições dos fabricantes de insumos e equipamentos. Já os pecuaristas operam com margens cada vez mais estreitas, pois a oferta cresce mais do que a capacidade de compra da população.

    Já o vento sopra a maior parte do ano a custo zero. O contrato com a Elecnor é por 35 anos. D. Iracema vai ter uma participação na venda da energia produzida pelos 12 cata-ventos instalados em suas terras. Ela não diz o percentual, mas na cidade se comenta que equivale a R$ 1 mil mensais limpos por gerador. Sem dúvida, é uma boa renda numa região sem indústrias e sujeita aos altos e baixos da agricultura, da construção civil e do turismo de verão.

  • Acordo sobre pedágios favorece as empresas

    Elmar Bones e Helen Lopes

    Anunciado como uma garantia de que “não haverá reajuste das tarifas em 2006”, o acordo firmado entre o governo e as concessionárias dos pólos de pedágio no Estado é, na verdade, uma prova da habilidade política do governador Germano Rigotto. Num ano de eleição, ele tirou de cena um enorme impasse, que não há como solucionar sem desgaste político.

    Há dois anos o governo vem empurrando o problema com a barriga. De um lado estão as empresas, que alegam prejuízos e querem mudar os contratos. De outro, está um movimento de usuários que alcança todas as regiões e é especialmente forte na região serrana, reduto eleitoral do governador.

    Eles apontam irregularidades nos contratos e discordam do “desequilíbrio financeiro” alegado pelas concessionárias. O protesto em Viamão, na sexta-feira, 13, onde houve confronto entre manifestantes e a Brigada Militar, com vários feridos, não é um fato isolado, como o noticiário dá a entender.

    Em dezembro, o PMDB, partido do governador, já conseguiu impedir  uma CPI dos Pedágios, que já tinha até as assinaturas suficientes para sua instalação. Ameaçando com uma outra CPI, para investigar o caixa 2 do PT no Estado, a bancada governista conseguiu com que os deputados petistas, que já haviam assinado o requerimento, voltassem atrás.

    Ao anunciar o acordo, na terça-feira passada, governo informou que vai pedir intervenção da Agência Nacional de Transportes Terrestres, para analisar o caso. Mas a ANTT já fez a análise que podia fazer. Para ir adiante, só se assumisse o controle dos pólos de pedágio do Rio Grande do Sul, possibilidade que o acordo jogou para 2007.
    Com isso, o governo atendeu mais uma reivindicação das concessionárias, que não querem a federalização, prevista nos contratos e, preliminarmente, já negociada entre o governo do Estado e o governo federal.

    Uma análise preliminar dos contratos já foi feita por técnicos da ANTT e o diagnóstico contraria as pretensões das empresas. “Não há o desequilíbrio que elas alegam e não há possibilidade de ampliação do prazo de vigência dos contratos”, disse ao JÁ uma fonte da agência reguladora federal.

    Antes do acordo, as concessionárias asseguraram o reajuste contratual de 7,5%, efetivado em 1º de janeiro e apenas se comprometem a não aumentar as tarifas até 31 de dezembro, (o que pelos contratos vigentes não estava previsto). A cobrança bidirecional e do eixo suspenso dos caminhões continua. No documento, consta ainda que as empresas não irão construir novas praças, manterão os serviços de ambulância e guincho e voltarão a trabalhar na conservação de trechos urbanos.

    O acordo foi assinado com as concessionárias de sete pólos rodoviários – Carazinho, Caxias do Sul, Gramado, Lajeado, Região Metropolitana, Santa Cruz do Sul e Vacaria – e abrange 27 praças de pedágio.

    Assurcon diz que foi “acordo de compadres”

    “Acordo de compadres”, assim definiu o secretário-geral da Associação Estadual dos Usuários de Rodovias do Rio Grande do Sul (Assurcon), Agenor Basso. “Se fosse um termo aditivo teria que passar pela Assembléia, mas isso é apenas uma manobra estratégica porque é ano eleitoral. Assim, o governo joga tudo para 31 de dezembro”.
    A Casa Civil diz que foi “uma decisão de governo, que não altera os contratos, portanto não precisa passar pela Assembléia Legislativa”.

    Mas a deputada estadual Miriam Marroni (PT) garante que o documento não tem base legal. O acordo teria que passar pelo legislativo para então ser anunciada pelo Governo. Na opinião da deputada, esse acordo é uma forma que o governador Rigotto escolheu para não resolver o problema, transferindo o ônus para o seu sucessor.

    “O governador vem prorrogando, desde o final de 2004, a apresentação de um estudo de reequilíbrio econômico-financeiro nos contratos. Sua falta de firmeza está prejudicando os usuários e acumulando problemas que no futuro serão arcados por todos os gaúchos”.

    Ainda surpreso com o anúncio, o representante da Assurcon disse que esse acerto só beneficiou as empresas. “O equilíbrio financeiro dos usuários não está sendo considerado. As concessionárias acabaram de aumentar os pedágios quase 100% acima da inflação e estão cobrando o eixo suspenso dos caminhões”. O dirigente teme que as definições estabelecidas no “apagar das luzes” de 2005 possam ocasionar  perdas à população. “Não entendo que desequilíbrio econômico é esse. Desde o início do processo eles (as empresas)  levam vantagem: não pagaram a concessão, instalaram 14 praças que não estavam na lei e, de 2000 a 2004, aumentaram em até 8% as tarifas”.

    Segundo ele, o pedido do governo para  que a ANTT analise os contratos é um desrespeito com a Agergs. “A Agergs já fez esse estudo e entregou ao governador. Por quê não foi usado? O relatório da agência fiscalização não é confiável?”, indaga.

    “Não fomos consultados”, diz presidente da Agergs

    O presidente da Agência Estadual de Regulação dos Serviços Públicos Delegados do RS (Agergs), Guilherme Socias Vilela, confirmou que o órgão não foi consultado, nem avisado sobre o termo. “A Agergs não tem interferência nos acordos, mas esperávamos que o governo anunciasse previamente a existência de negociações”, declarou. “Apesar da Agência ter feito um diagnóstico específico, que apontava caminhos para resolver o impasse, não fomos consultados”.

    Sobre o pedido de análise para a ANTT, Vilela disse apenas que “dificilmente farão um diagnóstico distante do nosso”. “Se a ANTT aceitar, certamente, pedirá o da Agergs”, comentou.
    Ressaltando que não recebeu o documento, Vilela acredita que esse acordo ratifica o termo aditivo 1, quanto à questão da bidirecionalidade, o que, segundo ele, é um ganho para as concessionárias. “Consagra a Praça de Rolante – uma nova praça que deve ser inaugurada em janeiro de 2007 –, a cobrança do eixo suspenso dos caminhões e livra as concessionárias das ações judiciais”.

    Mesmo com dúvidas sobre o encaminhamento do termo aditivo, Vilela garante que, assim que publicado, a Agergs passa a fiscalizar.

  • Do calor infernal para chuva e frio


    Do calor para o frio: No dia 9 as pessoas estavam sem camisa, e na terça (17) se agasalham para as temperaturas baixas (Fotos: Carla Ruas e Arfio Mazzei/JÁ)

    Carla Ruas

    Os porto-alegrenses acordaram nesta terça-feira, (17), para um dia típico de outono: chuvoso e frio. O guarda-chuva foi item obrigatório para quem saiu de casa, assim como um casaquinho, o que até ontem era impensável. Encerrou-se nesta terça-feira (17) um período de 15 dias de calor intenso, que provocou a sensação térmica infernal de até 40°C no Rio Grande do Sul.

    O impressionante é que esta mudança drástica no clima ocorreu em menos de 24 horas. A Rede de Estações de Climatologia Urbana de São Leopoldo explica que este fenômeno foi causado pela chegada de uma massa de ar frio do Uruguai, que está estacionada sobre o centro e o norte do Estado.

    Entre a segunda e terça-feira, a temperatura caiu 18°C em Porto Alegre e 21°C no interior do Estado. Esta mudança surpreendeu até mesmo os especialistas. “Radicais mudanças no tempo são freqüentes no Rio Grande do Sul, especialmente no inverno, mas esta variação de agora foi mais expressiva do que é comum”, diz o meteorologista Eugenio Hackbart.

    O frio fora de época acompanha uma seqüência de condições extremas no clima do estado neste mês de janeiro. Após a onda de calor, o choque da umidade com o ar quente provocou temporais fortes nesta segunda-feira. No domingo, a Defesa Civil do Estado colocou no seu site, http://www.defesacivil.rs.gov.br/, um alerta especial para vendavais severos. Uma pessoa morreu e várias cidades registraram danos materiais.


    Frente fria trouxe chuva e frio para a capital gaúcha

    Para quarta-feira, a previsão é que a massa de ar frio permaneça  entre a metade norte do Rio Grande do Sul e o Paraná, provocando muita nebulosidade e chuva. Na Metade Sul, existe a possibilidade de um amanhecer com temperaturas muito baixas, que podem chegar a 12 graus na fronteira com o Uruguai.

    Pelas províncias do oeste argentino o ar quente começa a retornar para o Sul. No resto da semana, deve haver um gradual aquecimento na temperatura, a ponto dos termômetros na Grande Porto Alegre voltarem à casa dos 30 graus. “Entretanto, não se espera, no curto prazo, uma nova onda de calor intenso”, afirma Hackbart.

    A seqüência de chuvas deve permanecer. “O que os gaúchos vão ter mesmo é chuva até o dia 25. Este clima antecipa um mês de fevereiro que promete ser mais seco”, ressalta.

  • Para ONG, gestão Fogaça trouxe retrocesso ao Orçamento Participativo

    Adriana da ONG Cidade: “Os secretários não têm ido às reuniões e os representantes enviados não sabem responder às dúvidas da população”.(Fotos: Helen Lopes)

    Guilherme Kolling

    A ONG Cidade – Centro de Assessoria e Estudos Urbanos acompanha o Orçamento Participativo desde o início da década de 1990, quando o modelo de gestão foi implantado pelo PT em Porto Alegre. A instituição, fundada em 1988, se tornou referência internacional – recebe visitas de estrangeiros, que buscam apreender sobre o OP.

    Hoje, é mantida com recursos internacionais, através de projetos patrocinados pela Misereor, da Alemanha, e pela Fundação Ford. Com isso, mantém um corpo técnico remunerado, cursos de formação e publicações – jornais, livros, boletins, informativos, tudo sobre a questão da participação popular.

    O objetivo da ONG é auxiliar na capacitação das lideranças comunitárias, movimentos sociais e organizações populares, para que possam participar de forma mais qualificada na gestão da cidade. Também fornece informação para órgãos de pesquisa, universidades e prefeituras.

    “Explicamos o que é o OP, como se desenvolve o ciclo ao longo do ano, como são as regras, os direitos e deveres de conselheiros e delegados, enfim, como funciona”, conta a assessora técnica do Cidade, Adriana Machado Lima, 29 anos, há sete acompanhando o Orçamento Participativo.

    Ela avalia que a gestão de José Fogaça não está mantendo o OP como deveria, já que a Prefeitura não dá informações necessárias para a escolha das demandas. “Os secretários não têm ido às reuniões e os representantes enviados não sabem responder às dúvidas da população. O papel do governo não está sendo cumprido e fica por isso”.

    A assessora técnica do Cidade também cobra mais transparência. “Quais são estas 199 obras concluídas em 2005? Quantas são de outros anos. Em que estágio a prefeitura pegou. O que vemos é que tem muita obra parada”, aponta.

    O pior, segundo ela, é que algumas empreitadas ocorreram sem passar pelo Plano de Investimentos. “É a volta da troca de favores, do bilhetinho para o vereador, toda essa história que já estava superada. Está havendo um retrocesso”.

    As críticas incluem ainda a questão da infra-estrutura. “Isso também cabe ao governo, viabilizar uma sala com recursos para gravação, sonorização adequada, água, o registro de tudo em atas e o encaminhamento das questões que os conselheiros trazem das regiões. Isso não está acontecendo desde o início. Todas as regiões já tiveram problemas”, revela.

    “Há um esvaziamento crescente nas assembléias”

    O advogado Felisberto Luisi (foto), 52, filiado ao PT, participa do Orçamento Participativo há 11 anos – hoje, é suplente na temática Desenvolvimento Econômico e Tributação. Ele afirma que há um crescente esvaziamento das assembléias, problema que ele relaciona com a falta de divulgação e propaganda sobre o OP.

    “Os fóruns regionais participam, mas estão cada vez menos atuantes. Depois que os conselheiros são eleitos e as demandas são escolhidas, esvazia”, observa. Ele também reclama da ausência de secretários municipais, queixa repetida por Léa Beatriz, delegada da Região Sul que está no OP há 10 anos.

    “Eles não comparecem nem atendem às reivindicações. Isso desmobiliza. Só vêm quando o tema é mais polêmico. Mas se o governo quer uma co-gestão, precisa fazer sua parte”, sugere. Ela aponta ainda problemas estruturais, como a falta de taquígrafos, atas, gravação das reuniões e má qualificação dos coordenadores dos Centros Administrativos Regionais (CAR).

    Outro fator que enfraquece o OP, segundo Luisi, é que o Conselho do Orçamento Participativo (COP) perdeu força na gestão Fogaça. “Antes, o Plano Plurianual passava pelo COP, mas esse ano já estava definido pelo governo, houve apenas duas reuniões sobre o tema. A Lei de Diretrizes Orçamentárias também não teve uma discussão profunda. A Câmara Municipal teve seu poder restituído”, avalia.

    Para a confeiteira Heloísa Vinollo, delegada da região Glória, há seis anos no OP, houve desrespeito ao regimento interno. “Ao invés de ser distribuído para todos os temas, como era antes, o dinheiro foi só para os quatro temas hierarquizados pela cidade”.

    Delegados e conselheiros ainda aguardam números finais de 2005, mas acreditam que houve menos investimentos ao longo do ano. “Valores eu não tenho, mas baixou bastante”, diz Heloísa. “Tenho curiosidade em saber quais foram essas 199 obras”, questiona Léa Beatriz. Felisberto Luisi aponta que foram gastos R$ 35 milhões até 15 de novembro. “Vai dar pouco mais de um terço do que a Frente Popular investia, que era uns R$ 100 milhões ao ano.

    “Dou nota 8 para o Fogaça”
    O auxiliar químico Euclides Xavier, 53 anos, é filiado ao PT e conselheiro suplente da Região Nordeste. Ele é bem menos crítico que seus colegas de partido e de Orçamento Participativo. ”Dou nota 8 para o Fogaça, por tudo que ele está fazendo. Acho que o governo dele está bom”, avalia.

    Xavier observa que alguns delegados criticam e contestam, mas aponta que agora “o prefeito é ele” e os conselheiros devem trabalhar junto.
    “Está tudo correndo direitinho, as reuniões, o governo está trabalhando naquilo que se propôs. Não está cumprindo tudo porque a prefeitura está sem recursos financeiros, a gente sabe que estava mais ou menos ruim de finanças. Mas o governo está fazendo seu serviço. E o prefeito Fogaça foi lá na região e prometeu que vai cumprir as obras do OP”.

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  • Resgate da musicalidade do bairro Santana


    O clipe musical BOB foi gravado na Cidade Baixa (Fotos: Carla Ruas/JÁ)

    Carla Ruas

    A Cidade Baixa serviu como locação para a gravação do vídeo musical BOB, da banda Tribuwudu, neste sábado (14/01). O clipe fará parte de um DVD com seis vídeos de bandas do bairro Santana, e um documentário sobre a vida cultural desta região. O DVD e mais um CD de músicas são conseqüência do projeto Sons da Santana, que planeja registrar a musicalidade do bairro.

    O organizador do projeto, Eugênio Luzardi, afirma que o bairro Santana foi escolhido porque é um dos mais tradicionais da cidade no âmbito cultural. “Foi lá que surgiu o carnaval de rua, e destas manifestações culturais criaram-se muitas bandas importantes para a história de Porto Alegre”.

    Entre os conjuntos participantes estão Tribuwudu, Chandele, Pagode do Dorinho, Senzala, e Arenguera. A produção é da Tribuwudu em conjunto com a Underground e a Praça de Filmes. O trabalho tem o apoio do Fumproarte, fundo da Secretaria Municipal da Cultura que financia projetos artístico-culturais aprovados em concurso. O lançamento do CD e do DVD deve ocorrer em maio, com um show das bandas no Teatro Renascença.


    Os músicos foram filmados tocando em frente à um mural de grafite

    As filmagens do vídeo clipe da Tribuwudu mostram a banda tocando e interagindo em frente à painéis de grafite, localizados na Rua Délcio Costa, atrás do Pão dos Pobres. Beto Mattos dirigiu o clipe em conjunto com Maurício Borges de Medeiros. Ele afirma que a instalação foi escolhida para mostrar um gueto cultural em meio ao urbananismo. “Tem tudo a ver com a história do bairro Santana e com a letra da música, que fala de resistência”.

    O clipe mostra os integrantes tocando com alegria em meio a imagens de santos e outros símbolos culturais. “Queremos expressar um caldeirão de nacionalidade e sincretismo que representa a cultura brasileira e a afro descendente”. A outra locação escolhida foi o bar Cidade Bossa. “Esta parte é em preto e branco, e lembra os filmes da década de 50, no estilo cinema no ar”, explica o diretor.


    A Tribuwudu é uma das bandas que participam do DVD e do CD do projeto

    A Tribuwudu tem 10 anos de estrada, com turnês nacionais e internacionais. Durante este tempo, lançou dois cds, participou de duas coletâneas, gravou dois vídeo clipes e fez muitos shows. Os integrantes do grupo definem a sua música como uma mistura de ritmos no liquidificador. “A gente toca MPB com Rock, mas sem deixar de lado o swing brasileiro”, esclarece Robson Serafini, guitarrista.

  • Feitiços centenários de Quintana

    Sérgio Napp, diretor da Casa de Cultura Mário Quintana, apresenta o Acervo do poeta restaurado (Fotos Naira Hofmeister)

    Naira Hofmeister

    Aprendiz de feiticeiro: 100 anos de Mário Quintana e sua maratona de comemorações iniciam na noite dessa quarta-feira (11), com a reabertura da Acervo do poeta e a ambientação de um bar, versado por Carlos Drummond de Andrade, em homenagem ao gaúcho:

    No Quintana’s Bar,
    sou assíduo cliente.
    É um bar que não é bar,
    é um bar diferente.

    E é mesmo, a começar pela função: o Quintana’s Bar não vai servir café ou cerveja, mas sim, sopa de letrinhas. O espaço vai abrigar parte da programação da Casa. “Inspirados por Drummond, pensamos como seria gostoso para as pessoas ouvir palestras num ambiente de bar”, explica o diretor da Casa de Cultura, Sergio Napp. Nas mesas, inscrições com poesias do anfitrião; nas paredes, caricaturas feitas pelos membros do Grafar – Grafistas Associados do Rio Grande do Sul, nas bocas, os versos de Quintana em saraus, shows e debates.

    O acervo foi recuperado, e conta com objetos pessoais como as certidões de nascimento, óbito e documentos de identidade do poeta. O próprio Quintana, aliás, escreveu num texto: “Eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão. Ah! mas o que querem são detalhes, cruezas, fofocas…”. Mas há também os textos, a verdadeira personalidade do poeta, ao lado de fotografias e livros de cabeceira.

    Entre coloquiais e artísticos, é pouco provável que algum aspecto de Mário Quintana seja esquecido em seu centenário. Mesmo porque já são mais de 20 atividades programadas, a maioria ainda no primeiro semestre: “Esse número ainda vai aumentar consideravelmente, pois recebemos quase que diariamente propostas”, conta Napp. Além da obra ‘clássica’, também serão expostas traduções feitas por Quintana, canções por ele compostas, agenda e dicionário do autor.

    A programação vai permear todas as áreas culturais: “Ele era o papa da literatura, portanto, essa área é obvia”, supõe Napp. A criançada também vai ganhar programação especial, com mostra itinerante em escolas do interior e capital. Mas não fica aí: desde a música, o audiovisual, exposições de artes plásticas e até a moda vão ganhar ares quintanescos. Nesse último caso, a proposta é que estilistas consagrados da capital criem tecidos e roupas inspirados nos versos do poeta. Sergio Napp explica: “Queremos mostrar que com textos se pode fazer de tudo”.

    O lançamento da obra em braile também merece destaque. Todos os volumes de Quintana serão transformados em livros para cegos. Alem dos tradicionais pontinhos para aqueles que não enxergam nada, vão haver também volumes com fontes grandes, para os que têm dificuldade na leitura e também narrações gravadas. “É a mais completa tradução de uma obra para esse público”, acredita Napp.

    E de que forma o poeta, com fama de introvertido e, por ventura, até mal humorado, reagiria como diante de tantas homenagens? “Ele acharia muito bom, desde que não tivesse que participar”, brinca Napp.

    O auto-retrato
    No retrato que me faço
    – traço a traço –
    às vezes me pinto nuvem,
    às vezes me pinto árvore…

    às vezes me pinto coisas
    de que nem há mais lembrança…
    ou coisas que não existem
    mas que um dia existirão…

    e, desta lida, em que busco
    – pouco a pouco –
    minha eterna semelhança,

    no final, que restará?
    Um desenho de criança…
    Corrigido por um louco!

    (Apontamentos de História Sobrenatural, de Mário Quintana)