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  • A Feira do Livro está bombando


    Para Waldir da Silveira, um dos motivos do sucesso é o novo espaço no Cais do Porto (Fotos: Carla Ruas)

    Carla Ruas

    A feira “bombou” nestes seis dias de vendas. A expressão é do presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro, Waldir da Silveira, em entrevista à imprensa. Os números confirmaram o que já era esperado. “O público visitante e o número de vendas de livros ultrapassam significantemente aos do ano passado”, comemorou. Até o dia 15, a expectativa positiva se mantém. “Nós distribuímos as atrações ao longo da feira para que as pessoas venham mais de uma vez visitar o espaço.”

    Neste mesmo período de 2004 foram vendidas aproximadamente 126 mil obras, contra 195.700 deste ano, o que representa um aumento de 30 %. Parte deste acréscimo se deve à área infantil, que quadruplicou o número de vendas, de 15 mil para 58 mil exemplares. Segundo o presidente, esta diferença foi causada pela ampliação da área infanto-juvenil no armazém central do Cais do Porto. “No momento em que se recebe melhor o público e novas atrações são oferecidas, as pessoas se motivam para comprar mais”, avalia.

    Uma característica peculiar deste ano é o preço médio dos livros vendidos, que não ultrapassa 19 reais na área geral e 11 reais na área infantil. Waldir da Silveira acredita que o consumidor está comprando livros mais baratos devido às suas dificuldades financeiras. “O consumidor está com vontade de comprar, mas esta com dificuldade. Grande parte das vendas até agora foi de livros pockets e de balaios”, completa.

    Os livros mais vendidos
    Ficção
    1)Fortaleza Digital (Dan Brown)
    2)O Código da Vinci (Dan Brown)
    3) O Cão de Bakervilles (Arthur Conan Doyle)
    Não Ficção
    1) Egito dos Faraós (Airton Ortiz)
    2)  Voltaremos – Anonymus Gourmet (J.A. Pinheiro Machado)
    3)  Desembarcando o Colesterol (Fernando e Fernanda Luchese)

    Esta pesquisa é uma realização da Câmara do Livro em conjunto com a Secretaria Municipal da Cultura, e consiste em olhar as sacolas de consumidores selecionados ao acaso.

  • Camelódromo aéreo é apresentado oficialmente

    Naira Hofmeister
    O prefeito José Fogaça lançou na manhã dessa segunda-feira (31/10) o projeto que pretende retirar os ambulantes das ruas centrais de Porto Alegre. O Centro Popular de Compras – chamado de Camelódromo aéreo – vai ocupar toda a área acima dos corredores de ônibus da Praça Ruy Barbosa, entre a Mauá e a Voluntários da Pátria.
    O valor estimado do investimento será de R$ 12 milhões, poderão ser captados por meio das Parcerias Público-Privadas, mas o projeto depende de aprovação na Câmara de Vereadores. “Há também a possibilidade de usarmos o sistema de concessões, então não dependeríamos da votação das PPPs”, explicou o Secretário de Indústria e Comércio, Idenir Cecchim. Nesse caso, apenas uma licitação seria necessária para que as obras iniciassem.
    A burocracia parece ser o principal entrave para o andamento do projeto. Além do projeto das PPPs, precisa ser criada uma lei garantindo a exclusividade do comércio ambulante apenas dentro do camelódromo, estabelecimento de  regras de transição, licitações e o licenciamento urbano e ambiental para a obra. Só então será possível iniciar sua construção.
    Fogaça  alerta: “Não estamos às vésperas do dia em que os camelôs serão realocados”. Cecchim explica: “Não trabalhamos com prazos, mas sabemos que todos estão com pressa e nós também. O Prefeito pediu calma na elaboração para que tudo dê certo”. A previsão é que, a partir da aprovação das licitações, – com ou sem PPPs – em 30 dias o prédio comece a ser construído. Em seis meses, prevêem as autoridades, a obra estará concluída.
    O Centro Popular de Compras vai abrigar cerca de 750 ambulantes e também vai oferecer serviços bancários, farmácia, praça de alimentação e banheiros públicos. Vai contar com um local para treinamento dos expositores, ensinando gestão e qualificando os camelôs. “Queremos que não só o dono da banca, mas sua mulher e filhos, se desejarem, possam também crescer na vida”, disse Fogaça.
    Preocupação é que os ambulantes irregulares tomem conta das ruas
    Dona Laurita afirma que sai de ponto, que freqüenta há 28 anos na Praça 15, sem causar problemas. “Desde que eles ‘limpem’ toda a rua, né?”. A sua opinião é também da maioria dos ambulantes regulares que usam o sistema de bancas. Ou seja, irem para  o Camelódromo e os ambulantes ilegais tomarem seus pontos na rua.
    Para evitar essa possibilidade, Fogaça já assinou um convênio com a Brigada Militar que vai ampliar de três para 35 policias na fiscalização. O próprio Sindicato dos Ambulantes está confiante: “Acreditamos que a promessa será cumprida, do contrário, não apoiaríamos a iniciativa”, argumentou Moacir Gutierres, presidente do Sombulante.
    Ainda assim não vai ser fácil. Álisson há três anos vende CDs e DVDs na praça, por um preço médio de R$ 10,00. Fatura bruto cerca de R$ 200,00 por dia e pretende manter a atividade irregular, mesmo depois da implantação do Centro Popular de Compras: “A gente vai ter que correr dos hôme”, ele ri.
    Já Sidney prefere confiar no conhecimento que adquiriu ao longo dos 15 anos vendendo mercadoria ilegal no centro de Porto Alegre: “A gente vai ter que diminuir a quantidade, vender na mão”, explica. A idéia é abolir a banquinha e carregar os óculos no bolso: “Se eles apertam aqui, a gente vai para outra rua, quando apertarem lá, voltamos”, completa. Ele ainda resume, em tom de brincadeira: “É isso ou começar a roubar. Tenho uma família que depende desse dinheiro.”

  • Negro gaúcho ganha história

    O movimento negro gaúcho intensificou no início do século 21 o esforço para ter direito à história. Nos últimos anos, lideranças trabalham pelo reconhecimento de uma das páginas mais sangrentas da Revolução Farroupilha, o episódio da batalha em Cerro dos Porongos.

    Um dos lançamentos da Feira do Livro que aprofunda a discussão é Lanceiros Negros (JÁ Editores, 144 páginas), dos jornalistas Geraldo Hasse e Guilherme Kolling. Trata-se de mais um livro-reportagem da editora, com pesquisa do também jornalista Euclides Torres e do historiador Gilberto Jordan.

    A obra, patrocinada pela Copesul, recupera toda a recente mobilização do movimento negro, abordando a mobilização em Porongos e a tese da refundação da história do negro, defendida por uma corrente de antropólogos e historiadores.

    O trabalho não é repositório de acusações e mitificações, mas uma criteriosa pesquisa, que inclui a reportagem dos negros reivindicando direito à história, e o levantamento de documentos e bibliografia que tratam do caso, e da formação dos lanceiros negros.

    O ponto de partida não poderia ser outro. A batalha em Cerro dos Porongos. Ali está a visão de historiadores, o que aconteceu de concreto – um massacre – e os documentos que apontam para as diferentes versões. O livro também remonta o final da guerra, abordando as divergências entre os comandantes.

    A obra Lanceiros Negros mostra ainda uma cronologia dos eventos guerreiros no Cone Sul, e conta a tradição do uso de lanças no pampa, desde o século 18, chegando até a Revolução Farroupilha, quando se descreve como foi feita a organização e o recrutamento dos lanceiros, e sua importância estratégica para os farrapos. Tudo ilustrado com documentos em que chefes dos dois lados dão seu depoimento sobre esses guerreiros. O livro traz ainda um panorama da escravidão na época dos Farrapos.

    Reconhecimento

    O Movimento Negro defende que o evento da Revolução Farroupilha em que tombaram os soldados negros passe a ser chamado de “traição de Porongos” e está organizando a construção de dois monumentos para homenagear os lanceiros, um em Pinheiro Machado, no local do massacre, e outro em Porto Alegre, no Parque da Redenção.

    O fato não é isolado. Paralelamente, os governos municipal (Pinheiro Machado), estadual (Secretaria da Cultura) e federal (Fundação Palmares) dão sua contribuição à causa, seja na organização de programações alusivas ao fato, como na Semana da Consciência Negra, em 2003 e 2004, seja contribuindo em dinheiro para tirar do papel a homenagem aos lanceiros – a prefeitura de Pinheiro Machado comprou uma área de três hectares em Porongos, e a Fundação Palmares destinou uma verba para o concurso público de arquitetura que vai escolher a obra.

    Também nas instituições governamentais da área da Cultura, há uma preocupação em resgatar a história dos afro-brasileiros. Além de um possível tombamento da área do massacre, o IPHAN, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, está fazendo uma pesquisa para rastrear a herança do episódio de Porongos, e identificar os bens culturais que restaram.

    Eventos recentes, como o que marcou os 170 anos da Revolução Farroupilha, em setembro na Assembléia Legistiva, também abordaram o assunto. Na oportunidade, o brazilianista Spencer Leitman reafirmou sua convicção de que houve traição aos negros. Outro historiador que defende a tese, o professor da PUCRS Moacyr Flores, publicou em 2004 mais um livro sobre o assunto: O Negro na Revolução Farroupilha (EST Edições).

  • Brigada e comunidade unidas pela segurança no Bom Fim

    Naira Hofmeister
    A unanimidade está instaurada: segurança deixou de ser assunto apenas da policia para ser tratada pela sociedade em geral. No Bom Fim, partiu da própria Brigada Militar, representada pelo 9º Batalhão, a proposta de criar um Conselho de Segurança para o bairro. A comunidade aderiu de imediato. Tanto que num sábado ensolarado, cerca de 50 pessoas se reuniram na Sociedade Hebraica para discutir alternativas de proteção e ouvir as dicas do Major Jairo para não se expor aos perigos criados pela sociedade excludente em que vivemos.

    Auditório da Hebraica estava movimentado para um sábado ensolarado (Fotos: Naira Hofmeister)

    Segundo o comandante, a principal questão é a união entre habitantes e a policia: “Vivemos uma situação de guerrilha, ou seja, uma guerra irregular, que exige táticas diferentes das usuais”, defendeu. Um dos pontos fortes de ação comum entre ambas é a troca de informações. Para isso, estão disponíveis canais de interatividade, como e-mail e telefones – inclusive celulares –, que agilizam as ações da Brigada (veja lista abaixo), além, é claro, do 190.
    A Brigada Militar tem um déficit de cerca de 60 homens para o patrulhamento da área em que se inclui o Bom Fim. Pela lei, deveriam ser 152 policiais atendendo a 3ª Companhia, que cuida dos bairros Moinhos de Vento, Bom Fim, Rio Branco, santa Cecília, Farroupilha, Santana e Independência, porém, na prática, apenas 95 homens atuam na região. Eles são auxiliados por 5 motos e entre 2 e 5 automóveis – dependendo de quantos estiverem em condições de uso.
    A falta de policiamento, no entanto, pode ser relativa. Segundo o major Jairo, “muitos dos problemas com segurança não dependem de solução da Brigada”. Ele explica: antes da atuação da corporação, o cidadão deve estar atento à possíveis assaltos. Primeiro, o larápio escolhe sua vítima, em geral, as mais frágeis e distraídas e identifica suas características. O segundo passo é a vigilância, onde a situação de ataque e estudada e avaliada. O planejamento se dá logo após, onde será escolhido o plano de ação mais adequado e, por último, ocorre o ataque.
    Major Jairo garantiu que esses passos acontecem sempre, tanto numa batida de carteira, quanto em situações mais complexas, como os seqüestros, por exemplo. “A ação da Brigada vai se dar a partir do terceiro passo, onde podemos perceber que uma vítima está sendo avaliada”, explicou. Ainda segundo o comandante, no caso de ataque, menos de 5% das intervenções da Brigada têm êxito. Ainda assim, ele alerta: “Reagir é uma atitude de altíssimo risco”.

    Major Jairo falou por mais de uma hora sobre segurança

    O perigo acontece porque o criminoso está sempre nervoso ou com medo durante um assalto. Também pode estar sob efeito de tóxicos: “Ninguém comete um crime de ‘cara limpa’. Ou está drogado, ou desesperado para comprar”, garantiu o Major.
    Para uma pessoa se defender, e necessário atentar para dicas de segurança bastante simples. Utilizar os sentidos, principalmente o olhar, pode ser a solução. “Estar atento é diferente de estar apavorado”, disse. O Jornal JÁ reproduz logo abaixo uma lista de dicas para quem quer se proteger melhor.
    Em caso de assalto, a melhor solução é entregar o que o ladrão pede, por bem. Não se deixar levar para locais menos movimentados também é importante: “As mulheres podem simular um desmaio e os homens, um ataque cardíaco, por exemplo”, instrui o Major. Outro ponto importante é avisar todos os movimentos que você fará, para que o assaltante não pense que irá reagir. Por fim, observe todas as características da pessoa, se tem cicatrizes, usa brincos ou tem tatuagens, suas características físicas, a maneira de falar e até a roupa que está usando.
    Para os condomínios que pretendem contratar um empresa de segurança privada, Major Jairo alerta para a qualidade dos serviços prestados: “Desconfie de alguém que cobra R$ 300,00 para manter funcionários em todos os turnos”, diz. Verificar a idoneidade da prestadora de serviços e essencial e pode ser feito com relativa facilidade. Verificar se o pagamento dos salários está sendo feito corretamente, se há a possibilidade de substituição quando o contratado vai faltar ao serviço e, principalmente, se os empregados utilizam um uniforme. A rotatividade de seguranças não deve ser exagerada, para que o funcionário e os moradores possam se conhecer bem e se a empresa realiza uma ronda de automóvel, que dá suporte ao funcionário especializado.
    O Major também aconselha que se verifique a legalidade da empresa contratada atarves do número do Grupamento de Supervisão de Vigilância e Guarda (GSVG), que cobra taxas e realiza fiscalização nesse tipo de serviço.
    Com as dicas, Neiva de Matos e Carlos da Silva Goulart vão poder realizar melhor se trabalho. Os dois são zeladores de prédios na João Telles e prometem mudar algumas atitudes que facilitam a atuação de criminosos: “Mas não adianta a gente se antenar e os moradores continuarem deixando as portas abertas”, lembra Neiva.

    Neiva e Carlos vão seguir as dicas do Major Jairo

    O Conselho de Segurança anunciou ainda que esta preparando uma serie de ações para incrementar o combate à insegurança. Um dos projetos é o Vizinho Solidário, onde os moradores de um mesmo prédio ou rua se ajudam mutuamente na vigilância do local. Outro passo importante será a caminhada de conscientização “Polícia e comunidade unidas contra a violência”, que  começará a ser divulgada em breve. Por fim, há um plano de atuar junto com a ACM e a FASE que propõem um trabalho social junto aos moradores de rua, uma das fontes de insegurança. A idéia é evitar o ajuda na forma de doação direta à essas pessoas, organizando locais de coleta e uma logística capaz de realizar a distribuição mais adequada das doações.
    Dicas de segurança do Major Jairo de Oliveira Martins, comandante do 9º BPM
    1. Para o condomínio
    · Instalar sistemas de interfone, vídeo fone e portas enclausuradas
    · Ter uma iluminação eficiente e, preferencialmente com sensor de presença e fotocélula
    · O sistema de circuito interno de TV será mais seguro se houver gravação das imagens e não apenas monitoramento
    · Sistemas de garagens automatizadas e portas com fechamento automático
    · Colocar quadro de avisos com nome dos funcionários na ativa e daqueles que já não trabalham no prédio para que todos estejam atentos aos frequentadores diários do local
    2. Para o porteiro, zelador ou segurança
    · Só abrir a porta após a identificação do visitante e autorização do morador
    · Tele-entregas devem ser recebidas na portaria – a técnica de se fantasiar têm sido usada largamente para cometer assaltos à condomínios
    · A identificação de veículos e anotação das placas deve ser feita rigorosamente
    · Jamais deixar seu posto para conversar com terceiros nem distrair-se com atividades que não sejam sua obrigação
    · Possuir uma agenda com descrição das vistas e prestadores de serviços autorizados à entrar no prédio
    · Ter um cadastro com telefones para consulta e confirmação de prestadores de serviço e também com telefones de emergência, como a Brigada e o Corpo de Bombeiros
    3. Para o morador
    · Avisar a portaria sobre visitas e prestação de serviços, para a montagem da agenda
    · Utilizar o olho mágico
    · Fechar todas as portas ao passar
    · Evitar passar muito tempo exposto à horários e locais impróprios
    · Avisar o sindico quando houver o extravio de chaves
    · Não deixar a porta aberta durante a carga e descarga – por exemplo, quando retorna do supermercado
    · Ter uma listagem com informações completas sobre ex-funcionários e buscar sempre referências antes de novas contratações
    As dicas do Major estão disponíveis para utilização publica, num arquivo de Power Point que pode ser obtido junto ao Conselho de Segurança, através do telefone 33327825.
    Telefones importantes
    Emergência – 190
    9º Batalhão da brigada Militar – 3288.3200 / 3210.5550
    Posto BM Bom Fim – 3321.3233
    Celulares das viaturas da 9ª cia – 9113.8979 / 9658.6604
    GSVG – 3231.4355 / 3231.1312

  • Filme de Tabajara Ruas mostra Negrinho do Pastoreio como ginete do general Netto

    O escritor-cineasta Tabajara Ruas começa dia 1º de novembro no Taim as filmagens de O General e o Negrinho, ficção que junta pela primeira vez no cinema o mito do general farroupilha Antonio de Souza Netto e a lenda do Negrinho do Pastoreio, uma das mais antigas crendices populares do Rio Grande do Sul. Se o tempo ajudar, tudo será feito em 40 dias. A equipe vai se hospedar na Praia do Cassino, a 45 minutos do Taim.

    O cenário principal é uma cancha reta de corridas de cavalo, paixão do general, que se criou em Povo Novo, perto do Taim. Na mesma propriedade rural pertencente à família Mota da Silveira, a produção do filme construiu também uma fortaleza militar onde serão rodadas as cenas de batalha. As cenas interiores serão rodadas por último no pátio interno do Hospital São Pedro, em Porto Alegre.

    Autor do argumento, Ruas conta uma estória que se passa em 1835, antes da eclosão da Guerra dos Farrapos (1835-1845). Netto chega à tal fortaleza procurando seu amigo índio Torres e descobre que por algum motivo misterioso ele está preso. Dizem que matou um cara, mas na verdade tem rabo de saia na estória. Netto entra então em contato com um grupo de negros da região e começa uma trama para libertar o amigo. Enquanto espera o momento certo para agir, amarra umas corridas de cavalo, sua diversão predileta. E aparece o negrinho ginete.

    Orçado em R$ 2,87 milhões (o mesmo valor gasto na produção de Netto Perde Sua Alma, lançado em 2001), O General e o Negrinho conseguiu captar até agora a metade desse valor, ou seja, tem o suficiente para pagar as filmagens. Tabajara Ruas espera que o restante seja captado a tempo de financiar as etapas posteriores, que englobam trabalhos de estúdio, da revelação à montagem final, inclusive a tiragem de cópias, a divulgação e a distribuição no final do primeiro semestre de 2006.

    O filme mobiliza 36 atores. Netto será representado pelo veterano Werner Schunemann, que fez o mesmo general no primeiro filme de Ruas e virou galã da Globo depois de representar o general Bento Gonçalves no seriado A Casa das Sete Mulheres. Para o papel do Negrinho, foi escolhido o estreante Evandro Elias, ator de 19 anos descoberto em Porto Alegre. Está no elenco ainda Tarcísio Filho, que fez Netto n’A Casa das Sete Mulheres; agora ele será o Indio Torres.

    Desde que o General e o Negrinho cruze o disco final no tempo certo, o projeto seguinte de Ruas é filmar Netto nos Braços da Moura, ficção que contempla o lado romântico da figura do general; por ser bonitão, galante e solteiro, durante a Guerra dos Farrapos  Netto foi festejado como “o mimoso dos pampas”, fama difundida em versos do cancioneiro da revolução farroupilha.

    “A Mitologia é mais firme do que a História”

    Nascido nos anos 40 em Uruguaiana, o arquiteto Tabajara Ruas conquistou espaço como um dos mais importantes ficcionistas do Rio Grande do Sul. Destacou-se a partir dos anos 1980 por romancear episódios da Guerra dos Farrapos. Além da novela Netto Perde Sua Alma, escreveu o romance Os Varões Assinalados. Nos dois, explora agudamente a luta de escravos que se engajaram na vã esperança de ganhar a liberdade no final. Agora, volta ao tema ao resgatar a figura do Negrinho do Pastoreio.

    JÁ – A lenda do Negrinho do Pastoreio está presente na literatura, no teatro e na música, mas já tinha sido explorada antes no cinema?

    Ruas – Sei que o folclorista Nico Fagundes fez um filme sobre o Negrinho do Pastoreio — com Grande Othelo no papel principal. É um filme relativamente antigo, creio que dos anos 70, mas não o vi. Mais recentemente foi feito um curta-metragem por um cineasta de Porto Alegre.

    JÁ – Mas teu filme é fiel à lenda ou…

    Ruas – No filme, como na lenda, o Negrinho perde uma corrida muito importante, mas ele não é escravo do General…

    JÁ – Pela leitura dos teus dois livros, Netto Perde Sua Alma e Os Varões Assinalados, fica claro que foi preciso fazer uma profunda pesquisa histórica para dar base verídica à ficção. Foste um dos primeiros a explorar ficcionalmente a contradição que envolve os Lanceiros Negros.

    Ruas – A controvérsia é grande e continua até hoje. Ainda há quem duvide da própria existência dos lanceiros negros. Uma coisa é certa: nenhum povo se libertou da escravidão sem lutar. Não vejo porque os negros aqui no Rio Grande do Sul deixariam de fazer isso. Na Bahia e em outros lugares do Brasil os negros fizeram revoluções sangrentas. Sem esquecer Zumbi, que criou um império dentro do Império do Brasil.

    JÁ – Por que então se discute tanto sobre os Lanceiros Negros?

    Ruas – Pra mim toda essa discussão é uma bobagem. Eu não estava lá pra afirmar, mas tem muita documentação mostrando que eles foram traídos. Tanto que continuaram escravos.

    JÁ – Qual a fonte fundamental para chegar a essa conclusão?

    Ruas – A minha fonte principal é Alfredo Varela, autor da História da Grande Revolução. São seis volumes, cada um com 800 páginas ou mais. É um amontoado de documentos. Ali está registrada a formação do corpo de lanceiros, a lista dos oficiais que chefiaram esses guerreiros. É claro que, com o passar do tempo, o aproveitamento dos lanceiros pelo exército farroupilha foi romantizado, mas o Corpo de Lanceiros de fato existiu. Aliás, no seu último livro, o historiador Moacyr Flores fala que também os imperiais tinham um corpo de lanceiros negros.

    JÁ – Em Pelotas, em 1835, mais da metade da população era negra; a maioria, escravos.

    Ruas – Não havia como não participar da guerra. À força ou por opção, eles entraram na luta.

    JÁ – Mas tinhas um interesse específico pelos lanceiros?

    Ruas – Não, meu interesse era pela revolução, mas ao estudar vi que tinha esse corpo de lanceiros negros. Na leitura desses livros cresceu meu interesse pelo General Netto. Nunca tinha caído a ficha para ninguém: foi Netto quem proclamou a república. Isso não é pouca coisa, né, tchê! Procura na História do Brasil quem proclamou uma república: é uma coisa rara.

    JÁ – Que eu me lembre, só o Deodoro em 1889.

    Ruas – Pois então, achei interessante a figura do Netto. Já quanto ao nosso herói oficial, Bento Gonçalves, à medida que lê, a gente se dá conta das contradições dele. Estava metido naquela empreitada, mas não era republicano. Eu não tomo partido sobre isso, mas a própria figura do Garibaldi é polêmica: até hoje existem dezenas e dezenas de associações garibaldinas que se digladiam, discutindo se Garibaldi era desse ou daquele jeito. Por isso eu prefiro a mitologia à história.

    JÁ – Por que?

    Ruas – A Mitologia é a síntese da verdade histórica. A História são vários caras afirmando que foi assim ou assado: o que sobra é mito. Na realidade, o mito acaba sendo um resumo do que os caras disseram. Acho até um pouco ridículo os caras debatendo se foi assim ou assado quando nossa própria história contemporânea é tão nebulosa e pontilhada de verdades que daqui a dez anos não serão mais. Como a virgindade do PT, né?

    JÁ – Pela leitura do Os Varões Assinalados e Netto Perde Sua Alma, fica claro que a luta dos soldados negros era para se livrar da escravidão. Nos livros de história, isso freqüentemente é colocado de forma ambígua, como se eles lutassem pela liberdade como direito político no sentido contemporâneo.

    Ruas – A história dos historiadores não é confiável. Basta ver as polêmicas, um querendo ser mais inteligente e autoritário do que o outro. A mitologia pega a essência das coisas. Mostra talvez o que os caras não conseguiram ser. Veja a mitologia do PT: a honestidade; não era um partido de corruptos… Os farrapos não podiam ser tudo aquilo — republicanos, abolicionistas etc. – porque eram uma frente, mas o que sobrou foram algumas atitudes, como a proclamação da república, e algumas idéias que acabaram não vingando.

    JÁ – Como a idéia da abolição da escravatura?

    Ruas – A abolição nunca foi discutida pelos farroupilhas, mas a liberdade dos escravos estava implícita na idéia da república. Tudo isso é muito confuso: os farroupilhas eram liberais e como tais defendiam a propriedade, mas encaravam os escravos como intocáveis porque eles faziam parte do patrimônio privado; cada fazendeiro tinha um grupo de escravos.

    JÁ – E como te sentes explorando os lanceiros negros na ficção?

    Ruas – Isso é uma coincidência, não é proposital. Meu projeto é uma trilogia sobre o Netto. O primeiro mostrou o Netto guerreiro, o segundo mostra o Netto carreirista de cavalos e o terceiro vai mostrar o Netto romântico.

    JÁ – O que há de concreto sobre a lenda do Negrinho do Pastoreio?

    Ruas – É uma lenda um pouco estranha. Um garoto de 14 ou 15 anos é morto a chicotadas por perder uma corrida que envolve muito dinheiro; depois vem Nossa Senhora, limpa as feridas do guri, bota ele num cavalo e…basta acender uma velinha que se consegue uma graça!

    JÁ – Foi beatificado.

    Ruas – Virou santo e…piá de recado!

  • Utilização de amianto no RS provoca polêmica

    Patrícia Benvenuti
    O debate em torno da proibição da utilização e comercialização do amianto pelas indústrias de telhas, caixas d’água, pisos, pastilhas, etc., volta à tona no Rio Grande do Sul e em todo o Brasil. O julgamento de três Ações Direta de Inconstitucionalidade (ADI) contra leis estaduais que não permitiam o uso do mineral e mais a autorização obtida há cerca de cinco meses pela empresa gaúcha Isdralit Ind. e Com. Ltda, fabricante de telhas e outros produtos, aumentaram a polêmica.
    No Rio Grande do Sul, a utilização do produto estava proibida desde 2001 por meio do projeto de lei do deputado estadual Giovani Cherini (PDT), aprovado pela Assembléia Legislativa no ano seguinte.
    Embora a lei exista, ela hoje se encontra suspensa em virtude de uma ADI do Supremo Tribunal Federal (STF) atendendo uma ação de 2004. A Isdralit conseguiu obter a suspensão no Rio Grande do Sul.
    De acordo com o departamento jurídico da Isdralit, a lei que proíbe a utilização e comercialização do amianto está em vigor, mas, antes de disso, a empresa recorreu ao Judiciário com uma medida que, em primeira instância, foi revogada. O Tribunal, porém, aceitou, e deu à Isdralit uma tutela antecipada, que continua vigorando. Essa tutela, inclusive, estendeu-se aos distribuidores. A Isdralit hoje se sente amparada pela lei federal, que aceita a utilização da substância. Tornam-se insconstitucionais, assim, as leis estaduais.
    Os advogados da empresa afirmam, ainda, que a matéria-prima continua sendo utilizado porque, entre todos os tipos de amianto, eles utilizam o mais “fraco”. “Além disso, há todo um tratamento em cima desses produtos, o que garante que não haverá danos aos trabalhadores. Até hoje, asseguram, nenhum funcionário da empresa apresentou qualquer doença ou problema de saúde”, argumentam.
    A Isdralit já foi denunciada ao Ministério Público e, atualmente, uma lei de inconstitucionalidade aguarda para ser votada em Brasília, ainda com data a ser definida.
    De acordo com deputado estadual Giovani Cherini (PDT), a própria Defesa Civil estadual compra telhas fabricadas com amianto para a reconstrução de casas destruídas por vendavais e catástrofes na região. “O governo já foi avisado, mas continua comprando telhas com amianto”, afirma o parlamentar.
    “Lamentamos profundamente que representantes do poder público gaúcho se sintam pressionados por estas absurdas decisões judiciais e aceitem adquirir este produto proibido, mesmo que liberado casuisticamente por medidas de exceção como esta obtida pela empresa Isdralit”, declara a auditora fiscal do Ministério do Trabalho, Fernanda Gianassi (foto), uma das principais responsáveis pela criação da Abrea (Associação Brasileira dos Expostos ao Amianto),
    A insistência na fabricação e compra desse material deve-se, em muito, a fatores econômicos. Desde que a lei vigora, houve um aumento de 12 % nos preços de telhas sem amianto. O fato é resultado da tecnologia avançada com que os fabricantes das telhas livres da substância têm de lidar, o que encarece o produto final.
    O deputado Cherini assegura que as reclamações e denúncias contra a Isdralit vem ocorrendo desde que a lei vigora. No Fórum Social Mundial desse ano, em Porto Alegre, integrantes de diversas ONGs manifestaram-se contra a empresa e contra o uso do amianto.
    Para o jornalista Washington Novaes, defensor da ecolologia e causas indígenas, essa área é uma verdadeira “batata quente” para a ciência – como adequar as regras da pesquisa na sua relação com interesses comerciais. Cita um exemplo, fora do Brasil: estudo das Universidades de Tufts e da Califórnia – Ética em Ciência e Engenharia – chegou à conclusão de que em 97,05% dos 61.134 artigos publicados em revistas acadêmicas os autores tinham interesse financeiro e pessoal na pesquisa.
    “No caso brasileiro, as contestações ao estudo sobre o amianto continuam à espera de esclarecimentos.” Ele calcula que no mercado interno, o movimento de negócios estaria em torno de R$ 1 bilhão por ano.
    Segundo ele, esta é uma longa história, que começou em 1986, quando as seguidas notícias de graves problemas (câncer pulmonar, mesoteliomas etc) em trabalhadores na extração e transformação levaram o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) a criar uma comissão especial para estudar os “problemas ambientais” do amianto.
    No ano seguinte, pela Resolução n.º 7, o Conama criou a obrigatoriedade de imprimir em todos os produtos que contivessem amianto advertências específicas aos consumidores quanto aos riscos. Como a resolução “não pegou”, as empresas não a cumpriram, em 1996 foi renovada pela Resolução n.º 19. A essa altura, entretanto, Estados e municípios começaram a votar leis banindo o amianto, acompanhando a tendência fora do Brasil (36 países o baniram).
    Decisão sobre proibição do uso de amianto em Pernambuco é adiada
    Pedido de vista do ministro Joaquim Barbosa suspendeu o julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 3356. A ação contesta lei de Pernambuco que proibiu em todo o Estado a industrialização e venda de produtos elaborados a partir da extração do amianto ou asbesto. A ação foi ajuizada pela Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria (CNTI).
    Na ação, a entidade pediu a concessão de liminar para suspender integralmente a Lei 12.589/04, elaborada pelo governo de Pernambuco e aprovada pela Assembléia Legislativa estadual. O relator da matéria, ministro Eros Graus afirmou que gostaria muito de discutir a questão da lesividade do amianto, no entanto, ressaltou o ministro, o fato trata apenas de se assegurar as competências constitucionais. Neste sentido, o ministro Eros Grau votou pela procedência da ação para suspender a lei estadual.
    A CNTI alega na ação que a lei estadual invade a competência privativa da União para legislar sobre a extração do amianto ou asbesto, bem como a industrialização e comercialização de produtos feitos à base do minério. Sustenta ainda que a lei pernambucana fere o princípio constitucional da livre iniciativa, previsto no artigo 170, parágrafo único da Constituição Federal.
    A Lei Federal 9.055/95 regulamenta o uso do amianto em todo o país, ao disciplinar a extração, industrialização, utilização, comercialização e transporte do minério ou de produtos que o contenham. A mesma norma vale para as fibras naturais e artificiais das diferentes variedades do amianto.
    No Supremo tramitam outras duas Ações Diretas de Inconstitucionalidade contra leis estaduais que proíbem o uso do amianto. A ADI 3355 está sendo analisada pelo ministro Joaquim Barbosa e foi ajuizada pela CNTI contra uma lei estadual do Rio de Janeiro. Já a ADI 3357 está com o ministro Carlos Ayres Britto e contesta uma lei estadual do Rio Grande do Sul, no mesmo sentido.
    Sobre o amianto
    O amianto, também conhecido como asbesto, é uma fibra mineral natural sedosa que, por suas propriedades físico-químicas (alta resistência mecânica e às altas temperaturas, incombustibilidade, boa qualidade isolante, durabilidade, flexibilidade, indestrutibilidade, resistência ao ataque de ácidos, álcalis e bactérias, abundância na natureza e baixo custo), é amplamente utilizada na indústria.
    Telhas, caixas d´água, guarnições de freios (lonas e pastilhas) e revestimentos de discos de embreagem, vestimentas especiais, materiais plásticos reforçados, termoplásticos, massas, tintas, pisos vinílicos, tecidos e outros produtos são fabricados a partir da matéria-prima.
    A lei federal considera as fibras do amianto comprovadamente nocivas à saúde humana, quando inaladas tanto no processo de mineração, quanto na etapa de industrialização. Pesquisas realizadas na Europa comprovam que o produto é altamente tóxico.
    Entre outras doenças, reduz a capacidade respiratória, provoca cancro pulmonar e tem apresenta grau cancerígeno não apenas para quem lida diretamente com o material, mas também atinge trabalhadores de forma indireta, como transportadores. O risco à saúde é tanto que a França, primeiro país a proibir definitivamente seu uso, adotou a medida depois de comprovar a morte de duas a três mil pessoas.
    O uso do minério pela indústria já foi proibido também nos Estados Unidos e na Itália. Segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA), a exposição freqüente à poeira do amianto pode causar fibrose nos pulmões, asma, bronquite crônica e até alguns tipos de câncer. A Organização Mundial de Saúde (OMS) não constatou danos à saúde, decorrentes do consumo de água armazenada em caixas de amianto.

  • Mito da queda de Tróia é representado no Gasômetro

    Adriana Lampert

    A temporada gratuita de Aos que virão depois de nós – Kassandra in Process foi prorrogada. O espetáculo está em cartaz no teatro Elis Regina (Usina do Gasômetro – somente às sextas-feiras, às 21 horas), dentro do Projeto Gestação Cultural. Este seria o último final de semana da peça, mas devido ao sucesso, a Tribo de Atuadores Oi Nóis Aqui Traveis resolveu aumentar o número de apresentações e mantém a montagem até o início de dezembro no mesmo horário e local.

    Os interessados devem chegar antes das 20h, porque a fila para distribuição de senhas tem sido concorrida e há somente 25 lugares por apresentação. “Já chegamos a mandar umas 100 pessoas para casa”, explica  Pedro De Camillis, que inicia a entrevista ressaltando que tudo que for dito é “em nome de todos os 20 integrantes da Tribo de Atuadores Oi Nóis Aqui Traveis”.

    Aos que virão depois de nós … recebeu patrocínio da Petrobras, através da Lei Rouanet e ganhou quatro troféus do Prêmio Açorianos em 2003: melhor espetáculo, produção, trilha sonora e atriz coadjuvante. O espetáculo se tornou livro: Aos que virão depois de nós Kassandra in Process – O Desassombro da Utopia, organizado pelo jornalista paulista Valmir Santos (à venda na bilheteria do teatro por R$ 30,00) e ganhou versão em DVD: Aos que virão depois de nós Kassandra in Process – A Criação do Horror, que deverá ser lançado antes do final do ano.  O livro e DVD fazem parte do Projeto Ói Nóis na Memória que tem por objetivo registrar os 27 anos de história do Ói Nóis Aqui Traveiz.
    “No DVD é possível perceber – através das intenções dos atores e das relações com o público – que em cada apresentação o sentido da cena modifica. Atuadores e público ditam o sentido da cena”, explica Camillis.  O DVD duplo é uma co-produção do grupo com a Catarse Coletivo de Comunicação. Em um CD está o espetáculo na íntegra e, no segundo, fotos, músicas, depoimentos, entrevistas com os atuadores e projetos da turma da Terreira da Tribo.

    O livro publicado no final de 2004 está na sua segunda edição, lançada em setembro. Quem distribui em todo o Brasil é a Tomo Editorial.  A nova edição foi toda revisada, e foram acrescentadas fotos, além da nova capa.  O conteúdo é basicamente todo sobre o espetáculo, seu roteiro,  e textos de Valmir Santos e outros críticos e diretores de teatro de outros estados brasileiros comentando a montagem. Além disso, traz fotos e conta um pouco do início do grupo. Complementa a cronologia dos 18 aos 26 anos do Oi Nóis… sendo uma continuação do livro Atuadores da Paixão.

    O espetáculo Aos que virão depois de nós – Kassandra in Process estreou pela primeira vez em setembro de 2002.  A montagem é uma livre inspiração da novela Cassandra de Christa Wolf e reescreve o mito da queda de Tróia dentro de uma visão feminina, invertendo a lógica sexista antiga. A novela de Christa Wolf foi recortada e comprimida através de um processo de colagem com autores como Eurípedes, Albert Camus, George Orwell e Beckett. “Fala de uma guerra que foi paradigmática para a construção do imaginário do Ocidente, para todas as outras guerras, e serviu de modelo para um ideal heróico masculino baseado no desejo de poder e destruição da alteridade”, resume Carla Moura, que integra o elenco, ao lado de Tânia Farias (intérprete de  Kassandra). “Fizemos este espetáculo porque queríamos falar sobre a barbárie da guerra e sobre a importância da vida acima de tudo”, completa Camillis.
    Ele conta que a montagem do cenário no Teatro Elis Regina precisou de adaptação, em função do espaço. “O que seria uma visão de fábricas nos fundos da Terreira, é agora uma vista para o Rio Guaíba.  Isto por si só já muda a leitura que o público faz de uma das cenas do espetáculo”, diz o atuador. Segundo ele, para o grupo reproduzir a estrutura do cenário criado para dentro da sede da Terreira da Tribo, precisou forjar caminhos dentro do Teatro Elis Regina, através de um pesado trabalho de dois meses de carpintaria, feito passo a passo.  “Mas o principal em Kassandra…e de outras montagens do Oi Nóis é a idéia do teatro de vivência, da relação que o ator precisa travar com o público. Durante as três horas do espetáculo o ator vai estar procurando o público para se tornar  próximo do espectador”, resume.

  • Zona Norte também terá gás natural

    Representantes da Sulgás, do Grupo Hospitalar Conceição e do Governo do Estado participaram do encontro. (Foto: Divulgação Sulgás)

    Guilherme Kolling

    Depois de instalar o primeiro ramal para gás residencial no bairro Moinhos de Vento – os moradores devem receber o combustível até o final do ano – a Companhia de Gás do Estado do Rio Grande do Sul (Sulgás) anunciou nesta quarta-feira mais uma novidade. É o abastecimento para residências também da Zona Norte, na região dos hospitais Cristo Redentor e Conceição. “O anel da nossa rede passa por lá. E agora temos os clientes âncora. Isso viabiliza a oferta do serviço também para residenciais”, explicou o diretor-presidente da Sulgás, Artur Lorentz.

    O Grupo Hospitalar Conceição (GHC) e a Sulgás, assinaram, hoje (26/10) um contrato para fornecimento de gás natural que trará redução de custos de R$ 700 mil ao ano para as instituições, que hoje utilizam óleo combustível.

    No Fêmina (R$ 100 mil/ano de economia), o uso de gás natural deve começar no primeiro semestre de 2006. No Conceição (R$ 500 mil/ano de economia), no segundo semestre de 2006. E no Cristo Redentor (R$ 100 mil/ano de economia), em 2007.

    O engenheiro Alexandre Tocchetto, responsável pelo serviço de Utilidades do GHC, aponta vantagens operacionais e ambientais, já que o novo combustível não emite monóxido de carbono (CO). “O gás natural é limpo, dá para trabalhar de jaleco. O atual sistema, além de poluir a atmosfera, gera sujeira, fuligem, que volta e meia incomoda os vizinhos”, explica. O superintendente do GHC, João Motta destacou o avanço tecnológico que a parceria trará para a instituição.

    O presidente da Sulgás mostrou satisfação com a ampliação de clientes, lembrando a atuação da empresa com indústrias, automóveis (GNV) e, em breve residências. “Agora estamos falando de saúde. É uma alegria poder ajudar a trazer melhorias também para hospitais”.

    O secretário substituto de Minas e Energia do Estado, Francisco Brandão, lembra que o investimento em gás natural faz parte da política do Governo do Estado de diversificar as formas de geração de energia. “Hoje, importamos 40% da energia consumida, mas até 2008 seremos auto-suficientes”, projeta.

    Outra novidade revelada pelo executivo da Companhia é o possível uso do gás natural no Loteamento Germânia,  que a Goldsztein está construindo numa área atrás dos shoppings Iguatemi e Bourbon Country. “Temos um ramal que passa na avenida João Wallig, o que facilita o negócio. Já estamos em tratativas com a empresa para que todos os prédios sejam feitos já adaptados ao gás natural”, conta Lorentz.

    No Moinhos de Vento, a Sulgás tem 10 condomínios como clientes. Para dar início ao abastecimento, falta a contratação de uma empresa para fazer a ligação da rede com os edifícios e a Licença de Operação da Secretaria do Meio Ambiente.

  • Assembléia Popular debate alternativas para o Brasil

    Helen Lopes

    Começou hoje (25/10) em Brasília, a  Assembléia Popular: mutirão por um novo Brasil. Organizado por 60 movimentos sociais e entidades religiosas, o encontro pretende construir alternativas viáveis para o País.

    Diante da crise política encabeçada pelo maior partido de esquerda da América, o Partido dos Trabalhadores, da falência da democracia representativa, do recrudescimento da desigualdade social, as formas de participação e interação na sociedade devem ser repensadas. Com esse objetivo, ativistas de todo o Brasil estarão reunidos até sexta-feira (28/10), no Ginásio Nilson Nelson.

    A idéia da Assembléia Popular surgiu com o encontro de dois movimentos: a Rede Jubileu Sul e 4ª Semana Social Brasileira. Já na primeira nacional Assembléia, são esperadas 8 mil pessoas. O sociólogo e membro da Secretaria Intercontinental do Grito dos Excluídos, Luiz Basségio, em entrevista coletiva nesta segunda-feira (25), definiu o encontro: “Estamos dizendo que só as eleições não irão resolver os problemas do povo brasileiro. É preciso que a população participe diretamente das questões que irão definir os rumos da sua própria vida”.

    Os debates serão feitos em dez espaços, chamados “Biomas” –  conjunto de vida humana, animal e vegetal que cobre determinada região. Nesse sentido, o objetivo é discutir as questões brasileiras sob o paradigma do respeito à diversidade biológica e humana. Na pauta, interligados ao tema político, estão saúde, educação, trabalho e campo.

    Fazem parte da comissão organizadora, entre outros, D. Odílio Pedro Scherer,  secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), D. Demétrio Valentini,  presidente da Cáritas brasileira, Sandra Quintela, economista Instituto de Políticas Alternativas para o Cone Sil (PACS) e Gilberto Cervinski, da direção nacional do Movimento dos Atingidos por Barragem (MAB). Além de representantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e do Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

  • Depois das catástrofes, a possibilidade da paz

    Ano de 2004 foi o quarto mais quente desde 1861, depois de 1998, 2002 e 2003 (Foto: arquivo/JÁ)

    Roberto Villar Belmonte, da Itália, especial para o JÁ

    Os desastres – como furacões, secas e estiagens – estão deixando de ser fenômenos naturais. Uma combinação de ações humanas está intensificando a freqüência destes episódios, antes considerados normais, e gerando conseqüências cada vez mais devastadoras. O equilíbrio ecológico do planeta está sendo significativamente alterado pela destruição dos ecossistemas, mudanças climáticas, crescimento da população e aumento da ocupação de áreas de risco impróprias para a presença massiva de habitações.

    “O número de desastres ambientais tem aumentado nos últimos 25 anos”, informa Michael Renner, diretor do Projeto de Segurança Global do Worldwatch Institute de Washington. As mudanças climáticas são cada vez mais influentes. O ano de 2004 foi o quarto ano mais quente desde 1861, depois de 1998, 2002 e 2003. Na última década, estão os nove anos mais quentes desde o início dos registros de temperatura que começaram a ser feitos na segunda metade do século 19, em plena revolução industrial.

    Entre 1980 e 2004, o número de pessoas afetadas pelos desastres naturais cresceu a passos largos, revelam as estatísticas do Banco de Dados Internacional sobre Desastres (www.em-dat.net). O aumento foi de 550 milhões entre 1980 a 1984 para 1,4 bilhão de pessoas sem moradias e que precisaram de algum tipo de assistência entre 2000 e 2004. O levantamento, utilizado nas pesquisas do Worldwatch Institute, inclui a ocorrência de terremotos, ondas gigantes, enchentes, tempestades e secas.

    Michael Renner constata que as ações de ajuda externa e as decisões de reconstrução adotadas após os desastres naturais têm uma forte influência, que pode ser positiva ou negativa, na política dos países afetados. O pesquisador do Worldwatch Institute foi um dos participantes do 3º Fórum Internacional de Mídia Meio ambiente, um caminho de paz, promovido pela Sociedade Cultural Greenaccord de 12 a 15 de outubro em Monte Porzio Catone, a 40 quilômetros de Roma, com a presença de jornalistas de 32 países.

    Os desastres naturais podem catalisar uma série de conflitos sociais. No caso das secas, por exemplo, aumenta a disputa por água e comida. — Mas eles também são uma oportunidade de solucionar pacificamente conflitos que já existiam antes do país ser afetado gravemente por algum fenômeno devastador-, defende Michael Renner. O sofrimento causado pelos desastres gera interesses e necessidades comuns, e a destruição pode ser tão grande que a reconstrução somente seja possível depois de um acordo de paz.

    Efeito tsunami

    O Worlwatch Institute realizou um estudo sobre o impacto político da onda gigante tsunami, que em dezembro 2004 destruiu parte da costa do Oceano Índico, na longa guerra civil em curso tanto em Aceh, na Indonésia, quanto no Sri Lanka. Os pesquisadores esperavam que o sofrimento causado pudesse desarmar os espíritos. Os resultados, no entanto, foram distintos. Em Aceh, um acordo de paz foi recentemente celebrado. No Sri Lanka, logo depois que a euforia inicial passou, recomeçaram as hostilidades.

    A guerra civil entre os separatistas de Aceh e o governo da Indonésia durou 30 anos. A última tentativa de paz havia fracassado em maio de 2003, quando foi imposta lei marcial. O conflito pode ser atribuído, segundo Michael Renner, à excessiva centralização política e à exploração injusta dos recursos naturais. A repressão política, a corrupção e a violação dos direitos humanos pioraram os ânimos na região. Depois da tsunami, um acordo de paz foi assinado no dia 15 de agosto, após sete meses de negociações.

    Aceh tem cerca de 4 milhões de habitantes. A guerra civil entre o Movimento Aceh Livre (Gerakan Aceh Merdeka) e o governo de Jacarta matou 15 mil e desalojou mais 1,5 milhão de pessoas. Já a onda gigante matou 131 mil pessoas, deixou 37 mil desaparecidos, mais de 500 mil pessoas sem casa (até agosto de 2005), 800 mil pessoas dependendo de ajuda para comer e 116.880 moradias destruídas. A região tem muitos reservas de petróleo e foi a mais afetada pelo maremoto.

    Conflitos a resolver

    Apesar do Sri Lanka também ter sido muito afetado pela onda gigante, que varreu a região em dezembro de 2004, os acontecimentos pós-desastre foram bem diferentes. A guerra civil teve inicio em 1983 em função do nacionalismo do grupo Sinhala e de políticas educacionais impostas pela minoria Tamils. Desde fevereiro de 2002 há um cessar-fogo na região, mas as negociações de paz paralisaram e ainda não avançaram mesmo após a destruição causada pelo desastre ocorrido no final do ano passado.

    O Sri Lanka tem 19,6 milhões de habitantes. A guerra civil já matou 65 mil pessoas e deixou mais um milhão de desabrigados. A tsunami levou embora a vida de quase 34 mil vítimas e deixou mais 5 mil pessoas desaparecidas. As estimativas apontam que mais de 450 mil pessoas permanecem sem casa e 915 mil ainda são dependentes de algum tipo de auxílio para comer. A onda gigante danificou e destruiu 90 mil moradias no país que segue em conflito, apesar da dor causada pelos danos.

    Se a hipótese sobre o potencial pacificador dos desastres ambientais de Michael Renner estiver correta, o Brasil também tem uma boa oportunidade para resolver os conflitos causados por produtores e madeireiros inescrupulosos na região Amazônica. Um novo fenômeno, o aquecimento das águas do Oceano Atlântico, foi a causa da recente seca que assola o norte da floresta. Resta saber se a dor causada por mais esta calamidade será suficiente para uma paz sustentável na região ou novos desastres serão necessários.

    Os estudos do Worldwatch Institute mostram que a diferença está no tipo de auxílio ou ajuda humanitária que é dada após o desastre ambiental. Somente ações de boa vontade não são suficientes para incentivar a resolução de conflitos históricos. A ajuda humanitária precisa ser transformada em mudança política para solucionar as causas dos conflitos. Na Amazônia, o conflito é resultado da ganância e da exploração sem limites. Precisará uma intervenção da ONU para estancar a destruição da floresta?

    * Roberto Villar Belmonte participou do 3º Fórum Internacional de Mídia Meio Ambiente, caminho de paz à convite da Associação Cultural Greenaccord.