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  • Repórter Brasil sofre ataque digital e tem reportagens apagadas

    O portal foi invadido, reportagens foram apagadas e o site derrubado. Origem do ataque está sendo analisada e autoridades competentes já foram informadas
    A Repórter Brasil, organização de jornalistas, educadores e cientistas sociais que é referência no combate ao trabalho escravo e na promoção dos direitos humanos, teve seu portal invadido. Uma série de reportagens investigativas com denúncias contra importantes setores econômicos foram alteradas ou tiveram partes apagadas. E o site (www.reporterbrasil.org.br) foi retirado do ar mais de uma vez. A origem do ataque e seus objetivos estão sendo analisados e autoridades competentes já foram informadas.
    O especial “Moendo Gente”, por exemplo, que mostra como produtos de frigoríficos flagrados com violações aos direitos trabalhistas chegaram a supermercados de todo o mundo, foi um dos alvos de ataque, tanto em sua versão em português quanto em inglês. De acordo com o Ministério Público do Trabalho, essa reportagem contribuiu para a mudança em normas, aumentando a proteção ao trabalhador. Além de conteúdos apagados, redirecionamentos foram instalados para que, ao invés das investigações contra setores econômicos, o leitor entrasse em outras páginas.
    O ataque digital é mais uma etapa de uma campanha contra o trabalho da Repórter Brasil e de seus jornalistas. A campanha já incluiu processos judiciais por veicular ações de resgates de trabalhadores submetidos à condição análoga à de escravos, cumprindo sua missão de informar.
    A campanha também envolve difamações sobre o trabalho da instituição, que há 14 anos tem sido responsável por pautar problemas trabalhistas e socioambientais entre a imprensa e a sociedade como um todo, e a denunciar o poder público dentro e fora do país. São calúnias produzidas no intuito de diminuir o impacto das denúncias trazidas pelas investigações e documentários da Repórter Brasil.
    Isso sem contar as ameaças a um dos coordenadores da organização, Leonardo Sakamoto. Elas já foram comunicadas ao relator especial das Nações Unidas para defensores dos direitos humanos, ao governo brasileiro e ao Ministério Público Federal.
    Infelizmente, o último ataque ao site não é algo que ocorra apenas contra a Repórter Brasil, mas ilustra bem a situação sofrida pelo jornalismo que investiga e torna público as graves violações aos direitos humanos.
    Ataques assim estão se tornando cada mais frequentes, tanto nos veículos grandes e tradicionais, quanto nos pequenos e independentes. Tão importante quanto descobrir seus autores e puni-los de acordo com a lei é atuar na formação de leitores que sejam capazes de separar informação falsa e verdadeira, e defender uma imprensa livre como pilar fundamental da democracia.
    Resta a nós, jornalistas, tornar essa discussão pública, continuar atuando na produção e circulação de informação de qualidade e denunciar quem tenta calar o jornalismo às autoridades.

  • Humor na imprensa: "Só há liberdade se for contra a Dilma"

    Um encontro para discutir o espaço do desenho de humor, a charge, na imprensa, reuniu profissionais, novos e veteranos, na Associação Riograndense de Imprensa, no lançamento do Prêmio ARI de Jornalismo 2015, ano em que a entidade completa 80 anos.
    O presidente, Batista Filho, lembrou que o Prêmio ARI é o único certame de imprensa no Brasil que inclui a charge como uma categoria do jornalismo, há 40 anos. (O prêmio Esso de Jornalismo incluiu a charge entre suas categorias por poucos anos, depois retrocedeu).
    Inclusive os campeões do Prêmio ARI são dois chargistas, o pioneiro Sampaulo ( ) e o já veterano Neltair Abreu, o Santiago. Ambos tem 27 troféus pela “Charge do Ano”, conforme o levantamento de Antonio Goularte.
    Santiago, que apareceu em 1975, com a charge “Anatomia do Generalíssimo”, sobre a morte do ditador espanhol, foi um dos debatedores. “Quino é o nosso Deus”, disse ele referindo-se ao cartunista argentino criador da Mafalda. Quino faz cartuns, pequenas historietas em tiras de conteúdo universal. Charge é mais a crítica do dia, numa cena. São, ambos, “desenho de imprensa”, na definição dos jornais franceses.
    Santiago acha que a profissão terminou. “Restou publicar na internet pra te exibir. Ninguém paga pelo desenho. Não sei como vai resolver, o cara trabalha o dia inteiro e ganha umas curtidas”. O facebook  devia pagar pelos acessos atraídos pelas charges. “Eles ganham com isso, natural que quem produziu ganhe alguma coisa também”.
    Santiago relembrou sua demissão do último emprego na imprensa, por causa de uma charge sobre o lucro dos bancos publicada no Jornal do Comércio de Porto Alegre. Relatou casos de censura política e concluiu: “Só há liberdade se for contra o Lula, o PT, a Dilma”.
    Outro debatedor, o Tacho, chargista do Correio do Povo, acha que é impossível controlar a internet. As pessoas não só reproduzem livremente o desenho como interferem nele, cortando ou acrescentando palavras, mudando o sentido da piada.
    Tacho começou no interior, em 1976, como diagramador. Tem 20 prêmios de Charge no ARI. Defendeu que o premio não se limite aos meios impressos e se estenda aos meios digitais.
    Moacir, o Moa, concorda mas acha que “alguma forma de remuneração na internet ajudaria. Ele começou em 1986, no Zero Hora, Diário do Sul, depois Jornal do Comércio, de onde saiu em 2008. Desde então fora da imprensa. Dedica-se a ilustrar livros didáticos e revistas empresariais.
    Outro depoimento interessante foi de Alexandre Vieira. Ele começou em Passo Fundo, fazendo a charge do Diário da Manhã, está há 15 anos no Diário Gaúcho. Ele contou o episódio mais chocante do encontro: o caso de um editor que, tomado de fúria, rasgou a charge na frente dele.

  • Bancada do PDT será decisiva na votação do aumento do ICMS na Assembleia

    Com oito deputados em sua bancada, o PDT será decisivo durante a votação dos projetos do Executivo, nesta terça-feira, na Assembleia Legislativa.
    A bancada trabalhista esteve reunida com o governador Sartori no Palácio Piratini. O item mais importante na pauta da reunião era o para tarifaço que o governo quer aprovar.
    Durante o encontro, os pedetistas reiteraram que só votarão a favor da matéria se for definido um prazo determinado de no máximo 3 anos. Em sua página oficial o deputado Eduardo Loureiro declarou que a medida se justifica “até que todas as medidas sejam adotadas e surtam os seus efeitos. Isso para garantir a governabilidade e o pagamento em dia dos salários dos servidores.”
    Outras duas propostas que devem entrar em pauta tratam da extinção de duas fundações: a Fepps e Fundergs. A bancada segue a mesma posição da semana passada e disse que votará contra caso os projetos venham a plenário.
    Também participaram da reunião o vice-governador, José Paulo Cairoli, o líder do Governo na Assembleia Legislativa, deputado estadual Alexandre Postal (PMDB), o secretário Geral de Governo, Carlos Búrigo, o chefe da Casa Civil, Márcio Biolchi, o secretário estadual de Educação, Vieira da Cunha, e o secretário de Obras, Saneamento e Habitação, Gerson Burmann.
     

  • Ciclistas e Prefeitura promovem atividades na terça, Dia Mundial sem Carro

    Nesta terça-feira, 22,  as entidades de ciclistas de Porto Alegre, Prefeitura Municipal, Detran e EPTC promovem atividades para comemorar o Dia Mundial sem Carro.
    O Detran realiza o Bike na Rua, curso voltado para ciclistas iniciantes, contemplando a história das bicicletas, legislação de trânsito e cuidados que devem ser tomados no trânsito. A atividade acontece das 9h às 17h, na sede da Famurs (Rua Marcílio Dias, 574).
    A Prefeitura de Porto Alegre lança, às 10h, no Salão Nobre do Paço Municipal, o Boletim Epidemiológico do Projeto Vida no Trânsito. O documento traz dados estatísticos e análise dos fatores, das condutas de risco dos acidentes de trânsito ocorridos na Capital entre 2012 e 2014. A EPTC promove uma pedalada que deve sair após o lançamento em frente à Prefeitura e vai até a Usina do Gasômetro.
    Diversas entidades de ciclistas promovem uma pedalada noturna. A concentração acontece a partir das 20h na rótula das cuias e a partida é às 20h30min. O trajeto não está definido.
    O Dia Mundial sem Carro foi criado na França, em 1997, para promover ações que discutam o uso excessivo dos automóveis nas grandes cidades e propor que as pessoas experimentem, ao menos por um dia, sair de casa sem carro.
    Encontro discutiu uso da bicicleta e cobertura da imprensa
    Representantes do Detran, entidades de ciclistas e jornalistas se reuniram nesta segunda de tarde para uma roda de conversa sobre o compartilhamento do espaço público e a importância do uso da bicicleta para as cidades. O objetivo era esclarecer aos repórteres sobre a legislação específica e propor uma reflexão sobre a cobertura midiática em relação à bicicleta e aos ciclistas. Estiveram presentes a Associação dos Ciclistas de Porto Alegre (ACPA), o Laboratório de Políticas Públicas e Sociais (Lappus) e a Associação pela Mobilidade urbana em Bicicleta (Mobicidade). As entidades compõem, em conjunto com o Detran, um grupo de trabalho sobre a segurança de ciclistas.
    José Antônio Martinez, do coletivo Mobicidade, criticou a despersonalização do trânsito na cobertura, que gera falta de imputabilidade. “Se uma pessoa mata outra com um tiro, ninguém vai noticiar que um revolver matou. Por que quando um ciclista é atropelado se diz que um caminhão atropelou. O caminhão não atropela ninguém.” Martinez ressaltou a importância de campanhas midiáticas na mudança de comportamento das pessoas e citou a como exemplo a Balada Segura, que aborda a relação entre bebida e direção.
    Representando a Associação dos Ciclistas de Porto Alegre (ACPA), o advogado Pablo Weiss, afirmou que o Código Brasileiro de trânsito é benéfico ao ciclista, mas que a falta de informação dos condutores gera um desrespeito. “A legislação é feita do mais fraco para o mais forte, mas o respeito tem que partir dos mais fortes.”
    Ele criticou também a situação atual das ciclovias na cidade. “Nós temos o plano diretor cicloviário e a verba destinada, a faca e o queijo na mão. Nenhuma cidade no Brasil tem o respaldo legal de Porto Alegre para implementar ciclovias. O que falta é vontade política.” Pablo ponderou ainda que, se houvesse obediência a leis de trânsito, como a distância regulamentar de 1,5 m para a ultrapassagem de ciclistas, não seria necessária a construção de ciclovias.
    Beto Flach, integrante do Laboratório de Políticas Públicas e Sociais (Lappus), disse que o trabalho da imprensa é importante, pois pode ajudar a desmontar a ideia do ciclista como uma categoria social. “O ciclista é um pedestre que decidiu não sair de casa a pé nem pegar um ônibus”, afirmou. Ele criticou a predominância do uso do automóvel. Para ele, soluções individuais não dão conta de resolver o problema do transporte de massas. Além disso, o modelo de transporte baseado no carro promove um encolhimento dos espaços de convívio, com a construção de avenidas em locais de parques, por exemplo.
     

  • Prorrogado contrato do aluguel de bicicletas devido ao desinteresse de empresas

    Nenhuma empresa apresentou proposta na concorrência pública para assumir o serviço de aluguel de bicicletas compartilhadas na Capital. O edital foi lançado em 31 de agosto e o pregão eletrônico estava marcado para esta manhã. A prefeitura adiou o prazo de recebimento de propostas para o dia 6 de outubro e prorrogou o contrato atual por mais 6 meses. Desde sua criação, em 2012, o Bike Poa é explorado pela empresa Serttel, com patrocínio do banco Itaú.
    O novo edital prevê aumento no número de estações de 40 para 50. A quantidade de bicicletas também cresce, serão 406 bicicletas em funcionamento. Hoje são cerca de 400 bicicletas mas o número inclui as que estão paradas em manutenção. Os valores para o passe diário e mensal seguem os mesmos, R$ 5,00 e R$ 10,00, respectivamente. O edital cria ainda as modalidades de passe semestral por R$ 50,00 e anual por R$ 90,00. As viagens com mais de uma hora de duração serão taxadas à parte, R$ 3,00 para os primeiros 30 minutos excedentes e, a partir daí, R$ 5,00 a cada meia hora

  • Movimento Cais Mauá de Todos responde a críticas de colunista do ZH

    Dizem que ninguém lê texto longo na internet, que se não tiver foto de gatinho não tem a menor chance. Mas, de qualquer maneira, fica aqui registrada a carta aberta que enviamos à jornalista Rosane de Oliveira, em resposta ao comentário que ela publicou no sábado em ZH, nos taxando de atrasados, românticos, responsáveis por uma verdadeira “muralha de conservadorismo”
    É longo, mas ninguém é obrigado a ler.
    Gostaríamos de fazer algumas observações em relação ao teu texto de sábado na ZH, te passar um pouco da visão de quem está se opondo a este projeto para o cais, ou seja, o famoso “contraditório”, ok?
    Vamos lá:
    1. com todo respeito, uma “muralha de conservadorismo” se constrói por quem acredita que o combo-revitalização “shopping + torres + estacionamento ” é sinônimo de melhoria de uma cidade.
    Encarar um shopping como agente revitalizador urbano poderia ser aceitável nos anos 60 do século passado, quando o consumo de massa e a política rodoviarista estavam no topo da lista das novidades em termos de estratégias de desenvolvimento econômico e urbano de uma cidade. Hoje esse tipo de instrumento de desenvolvimento urbano torna-se a cada dia mais obsoleto, em parte pelo crescimento do sistema de vendas online (veja artigo do Estadão abaixo), em parte pela consciência de que esses bunkers no meio da cidade nada têm de urbanos, já que, entre outros efeitos colaterais, provocam o esvaziamento das ruas ao transferirem não só o comércio como também as pessoas para dentro de um ambiente fechado e controlado. As pessoas que defendem shopping e estacionamento no centro de Porto não percebem que o espaço público de uma cidade é realmente onde a cidade acontece, onde ela existe, e que portanto promover condições para que as pessoas permaneçam nas ruas, usufruam e se apropriem do espaço público de uma cidade é dever de sua gestão. Aliás, nesse sentido a Prefeitura parece ter esquecido de que ela mesma já esteve alinhada a esse pensamento, afinal o Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e Ambiental de Porto Alegre estabelece que um dos vetores de desenvolvimento econômico do centro da cidade é justamente o comércio de porta de rua.
    O melhor exemplo dessa crise do modelo do shopping se vê nos Estados Unidos, país criador desse modelo de equipamento urbano, e que há algum tempo já começa a sentir seus efeitos colaterais. Além dos prejuízos decorrentes da retração desse tipo de economia, o país não sabe ainda o que fazer com o crescente número de edifícios desse tipo que estão em estado de abandono. Seguem aqui dois links com breves artigos sobre o tema, caso queiras buscar mais informação a respeito:
    http://www.bbc.com/…/n…/2014/12/141219_vert_cul_fim_shopping
    http://economia.estadao.com.br/…/geral,o-desinteresse-ameri…
    2. Uma “muralha de conservadorismo” também se constrói por quem acredita que nenhum negócio prospera sem estacionamento.
    Repensar o lugar do carro nas cidades é talvez o maior desafio deste século 21.
    O que vemos hoje no mundo todo – de países desenvolvidos aos em desenvolvimento – é um movimento no sentido de diminuir o fluxo de carros em áreas centrais, qualificar transporte público e priorizar modais não motorizados, ou seja, pedestres e ciclistas. A cultura do automóvel individual, embora ainda seja propagandeada por aqueles que acreditam na ideia do “desenvolvimento a qualquer custo”, é reconhecidamente uma cadeia produtiva extremamente nociva não só ao meio ambiente mas também ao ambiente urbano e à saúde mental e social do ser humano. Falando especificamente do ciclo final dessa cadeia, o excesso de automóveis individuais nas cidades, além de congestionarem as vias e com isso dificultarem o deslocamento entre pontos, gera impactos negativos também no ambiente por onde circulam. A poluição do ar, da visão e do som faz com que ruas muito movimentadas tenham seus imóveis residenciais desvalorizados – ninguém quer morar em rua barulhenta – bem como diminuem significativamente a presença de pedestres circulando – ninguém quer caminhar por rua barulhenta – o que por consequência acarreta a desvalorização de imóveis comerciais voltados para a rua. E assim o círculo vicioso de esvaziamento e desvalorização de uma rua se completa, e é exatamente o que vemos no horizonte da nossa avenida Mauá, hoje, já vazia e desagradável, o que só tende a piorar com o aumento exponencial do tráfego de automóveis estimulados pelas 4 mil vagas de estacionamento junto ao Cais.
    3. Uma “ muralha de conservadorismo” se constrói por quem acredita que os românticos são contra a iniciativa privada.
    Pelo contrário, achamos que o instrumento PPP é bastante apropriado, desde que devidamente regulado pelo Estado em prol da cidade. A questão é que isso não está acontecendo: a regulação não existe, a iniciativa privada comanda a operação, define o que quer à revelia da lei e modifica incessantemente o projeto buscando enxugar recursos. Que fique bem claro, queremos sim a revitalização dos armazéns e seu uso para comércio, restaurantes, serviço e cultura. O que não aceitamos é o argumento de que a desfiguração da área com um projeto mutilado é a única possibilidade. Esse discurso de “ou é isso ou é nada” não cola.
    4. Uma “ muralha de conservadorismo” se constrói por quem acredita que os “românticos” veem como exemplos a serem seguidos o caso de Puerto Madero e do Porto de Barcelona.
    Não é verdade. Sem nem entrarmos no mérito de erros e acertos desses dois projetos de “referência”, a tentativa de comparação esbarra em dois fatores básicos: 1. O nosso porto é significativamente menor do que os outros dois e praticamente não há possibilidade de expansão – a área disponível nas dependências do cais é relativamente pequena, e ele está totalmente envolvido pela cidade, portanto não há para onde crescer. Essa dificuldade de expansão – e obtenção de retorno financeiro com as transações imobiliárias que daí derivam – está demonstrada claramente no atual projeto, em que se tenta desesperadamente equacionar índices construtivos de ocupação do solo na área das torres e do shopping, na tentativa de tornar o empreendimento viável – coisa que aliás parece não ter ocorrido ainda, dada a quantidade de alterações que o projeto tem sofrido nos últimos anos. 2. Porto Alegre não é uma cidade com o perfil turístico de Barcelona ou Buenos Aires. Para fins de comparação, em 2014 Porto Alegre arrecadou cerca de 19 milhões de reais com tributação relacionada ao turismo; no mesmo período, Barcelona, que é a quarta cidade mais visitada da Europa movimentou mais de 14 bilhões de euros e em Buenos Aires os turistas gastaram mais de 3 bilhões de dólares. Esses dados demonstram ainda que, além da comparação impossível em termos de modelo de gestão, tipo de equipamento urbano a ser implantado etc, a ideia divulgada pela prefeitura e empresa consorciada de propor uma ocupação da área com vistas a um retorno de arrecadação para a cidade através do turismo é uma visão, no mínimo, ingênua.
    O que sim os “românticos” veem é que um modelo de reocupação bem sucedida da área deve se basear na ideia de reintegrar esse pequeno trecho de tecido urbano ao restante do centro da cidade, não só em termos de espaço, mas também de cultura e economia. O futuro do Cais como empreendimento autossustentável – e de Porto Alegre como uma cidade referência em planejamento urbano – está na ideia de pensar aquela área como parte de um conjunto maior – a região central e a cidade – e que tipo de benefícios ela pode trazer para o todo, não só em termos de retorno financeiro imediato – geração de empregos na construção civil ou nas lojas do shopping, por exemplo – mas também em que tipo de benefícios socioeconômicos ela pode trazer em um horizonte de médio, longo prazo. Destinar parte dos armazéns para usos voltados à educação e bem-estar físico e social pode, por exemplo, ajudar a enxugar as contas da saúde e da educação das crianças no futuro, hoje tão precárias e tão carentes de investimento.
    5. Uma “muralha de conservadorismo” se constrói por quem acredita que os românticos estão atrasados em seu discurso, tentando reverter o irreversível.
    Em primeiro lugar, importante deixar claro que, ao contrário do que tem sido divulgado por correntes defensoras do atual projeto, o processo de apresentação e discussão de possíveis projetos para o cais com a população passou ao largo da ideia de um “amplo debate”. Desde o estabelecimento das diretrizes urbanísticas que delinearam o modelo de negócios até o estágio atual em que se encontra o projeto, a postura predominante foi a da tomada de decisões a “portas fechadas”, com divulgação de informações e apresentações apenas pro forma. Se houve audiências públicas anteriores a essa, a prova cabal de que não houve interesse, por parte da prefeitura ou da empresa consorciada, em estabelecer um diálogo efetivo com a população está no fato de que nem nos mecanismos de busca do site da prefeitura, nem na página da consorciada é possível encontrar qualquer referência a eventos de discussão pública anteriores a esse.
    Tu mesma pode fazer essa busca se quiseres verificar:
    http://www2.portoalegre.rs.gov.br/portal_pmpa_…/default.php…
    http://vivacaismaua.com.br/?s=audiencia
    Além disso, a legislação é clara: enquanto se analisa o EIA/RIMA para conceder a Licença Prévia, o projeto pode sim sofrer alterações ou mesmo ser negado. Portanto a Audiência Pública não serve apenas para esclarecer o projeto, mas para o órgão ambiental receber novas informações e sugestões visando a licença. Ou seja, embora seja consultiva, dependendo dos argumentos e importância do que se apresentar o órgão ambiental tem a obrigação de considerá-los na Licença Prévia. Portanto questionamentos nessa etapa estão absolutamente dentro da normalidade protocolar. Por outro lado, o empreendedor afirmar que “descarta alterar o projeto” nessa fase é no mínimo desconhecimento da legislação, para não dizer arrogância. E essa distorção tem a ver obviamente com a conduta de subserviência do nosso poder público, que fez crer que o simples recebimento do documento era uma vitória e que não caberia questioná-lo. É triste quando essa postura deseducadora da cidadania encontra eco em alguns formadores de opinião.
    O fato de estarmos questionando pontos do projeto que ultrapassam os temas ambientais e de tráfego – que em si já são suficientes para a ruína desse projeto – se embasa na constatação de que a cada nova leva de documentação divulgada há uma crescente queda da qualidade do projeto original em prol de uma melhora na “taxa de retorno do investimento” (que ainda não parece ter sido atingida). Isso demonstra não só a desqualificação do projeto atual mas também invalida qualquer consulta/aprovação pública realizada previamente, uma vez que o projeto já não é mais o mesmo e, mais profundamente, demonstra a inviabilidade do modelo formulado pelo poder público através do CAUGE (Comissão de Análise Urbanística e Gerenciamento da Secretaria do Planejamento de Porto Alegre) e portanto a necessidade de uma revisão estrutural do processo.
    6. Por fim, uma “muralha de conservadorismo” se constrói por quem acredita que os românticos não têm o poder de realizar mudanças no curso da história da cidade.
    Que fique bem claro que os românticos de Porto Alegre já conseguiram, entre outros, criar o Parcão, que antes de se tornar parque nos anos 50 quase foi loteado para a construção de cerca 40 edifícios, assim como conservar o Mercado Público e a Usina do Gasômetro, que na década de 70 quase foram demolidos para “melhorar o trânsito” da região. E é nesse mesmo espírito que seguiremos insistindo que se realize um projeto para o Cais Mauá que efetivamente seja positivo para a cidade.
    Vou te colar alguns links com referências, ok? Tudo coisa rápida. Nem vou indicar livros, porque sei que o tempo é curto.
    * Amanda Burden, urbanista de NY fala sobre a High Line, linha férrea elevada de carga dos anos 30, desativada nos anos 80, que cruza Manhattan. A linha ia ser demolida, mas um grupo de românticos impediu. E hoje ela é o espaço público mais visitado da cidade.
    http://www.ted.com/…/amanda_burden_how_public_spaces_make_… – t-46933
    * Como a cidade de São Francisco aproximou as pessoas da orla, retirando uma highway que funcionava como barreira. (aqui, ao contrário, construíram 6 pistas na orla do Guaíba. O ex-presidente Sarkozy tentou correr na orla, mas achou muito barulhento e poluído.
    * A comissária de transportes de NY (que virá ao Fronteiras este ano) Janete Sadik-Khan fala sobre a experiência de fechar para carros a Broadway, criando uma área para pedestres e ciclistas de 50 mil m2. Os comerciantes foram contra num primeiro momento, porque acreditavam que sem carros os negócios cairiam e o que aconteceu foi justamente o contrário.
    http://www.ted.com/…/janette_sadik_khan_new_york_s_streets…
    * Em Milão, capital da moda e do design no mundo, está sendo construído um estádio para 48 mil pessoas, sem estacionamento. Qual é a lógica? Convidar as pessoas a usarem outros meios de locomoção para acessá-lo.
    http://esportes.terra.com.br/…/milan-divulga-detalhes-de-pr…
    Obrigada pela atenção
    Beijo
    CAIS MAUÁ DE TODOS

  • "Me incluam fora desta", diz Santiago sobre indicação a patrono da Feira do Livro

    O chargista Neltair Rebes Abreu, o Santiago, publicou ontem um texto em seu perfil no facebook em que pede para não ser votado na eleição a patrono da 61ª Feira do Livro de Porto Alegre.  Até às 10h45min desta segunda-feira, o texto havia recebido 64 comentários, a maioria pedindo para Santiago manter seu nome como patronável.
    Confira o texto e as justificativas de Santiago:
    “Amigos fêice-buquianos, semana passada meu amigo e colega artista gráfico, Marcos Cena, presidente da Câmara do Livro me telefonou e me informou que o meu nome estaria na lista dos patronáveis da Feira do Livro. Eu pedi ao querido Marco, “me inclua fora dessa!” Depois a amigaSônia Zanchetta também ligou pedindo e eu disse que não me apetecia essa coisa de concorrer ( eu só gosto de concorrer em concursos de desenho e mesmo nesses ando voando baixo!!). Em seguida foi a vez de outra amigona, Jussara Rodrigues, também ativa integrante da Câmara, pedir com boa argumentação, a permanência. Vocês sabem que a pedidos de damas é difícil dizer não!!
    Finalmente fiquei na lista, mas torço ardorosamente para perder!
    Eu acho que atividade de humor pelos seus componentes de irreverência , iconoclastia e crítica a todos e a tudo, é contrastante com cargos honoríficos.
    Mas acho também que a comunicação literária e visual do humor gráfico, é sim literatura. E não sou eu que digo, era o falecido Barbosa Lessa que afirmou isso numa entrevista. A narrativa que se apoia em texto e desenhos causa algum estranhamento nos puristas da literatura, mas é inegável o conteúdo rico de alguns cartunistas e autores de histórias em quadrinhos.
    Portanto foi uma lástima que outro representante do nosso fazer, não tenha sido escolhido para patrono – falo do cartunista Sampaulo, já falecido, e que durante quase 50 anos povoou os nossos jornais com o acompanhamento irônico e agudo dos acontecimentos. Ele é autor de vários livros de humor, e aliás, a sua obra “Humor do Primeiro ao Quinto”, de 1963, é histórica por ter sido o primeiro livro de cartuns do sul do Brasil. Também o nosso grande Canini deveria ter sido patrono e não esqueçamos que o cartunista Sampaio tá ainda por aí e tem uma obra maravilhosa dos tempos da revista do Globo e o seu divertido homenzinho mijão.
    Repito porém que dessa vez, acho muito melhor que o cargo fique na mão dessas pessoas talentosas da literatura pura, mas também não deixo de agradecer a homenagem de ser incluído nessa lista de belos autores. Afinal num ano em que cinco cartunistas foram desomenageados com balas assassinas do asqueroso fanatismo religioso terrorista, essa é uma ótima injeção de ânimo para essa classe um pouco esquecida nos panteons literários e artísticos.
    Mas se quiserem mesmo me deixar feliz, não votem em mim!!!

  • Dia decisivo em Brasília: "Ninguém sabe aonde vai parar"

    Segunda feira, 21 de setembro, dia de grandes expectativas em Brasília.
    Aguarda-se a Reunião de Coordenação, aquele grupo de conselheiros políticos da presidente Dilma, onde se anunciará o corte nos ministérios. Espera-se uma confusão generalizada.
    A voz corrente  é que não há qualquer estudo. A reforma sai da cabeça dela, concebida na semana passada.
    Nenhum analista político arrisca um prognóstico. Não se fale de jornalistas ou cientistas sociais das universidades, que são observadores externos ao cenário. A perplexidade atinge o pessoal de dentro, as raposas, aqueles velhos e membros de todos os governos.
    A sensação é de que se inicia um movimento descontrolado, que ninguém sabe onde vai parar.
    Quatro cenários se apresentam como possibilidades, traçados por uns e outros.
    O mais plausível é a continuidade do governo, a trancos e barrancos. Como disse Delfim Neto na entrevista publicada hoje no “O Estado de S. Paulo”: os que a elegeram que se redimam e pensem melhor para votarem certo em 2018.
    É um caminho cheio de sobressaltos.  Algumas outras possibilidades: Eduardo Cunha admite o pedido de impeachment e o governo (leia-se Lula e o PT) terá de derrubar o processo político no plenário, ou embargar na Justiça; E aí vem outro impeachment e mais outro, pelo menos um por ano. Um inferno, Dilma sangra.
    Outro cenário possível é o da judicialização.
    Com a aceitação do pedido de investigação sobre as contas da campanha de Dilma, o processo no TSE entraria em tramitação, reabrindo a análise dessas contas.
    De dezembro para cá mudou tudo, ou seja, aquelas prestações de contas convencionais do passado, verdadeiras contas de chegar, cairiam por terra, pois até as pedras das estradas sabem que as documentações não resistiriam a uma análise minuciosa.
    Cassada a chapa Dilma/Temer, assume o segundo colocado. Entretanto, também a campanha de Aécio não passaria no crivo. Também cairia. Com isto, anula-se a eleição por falta de vencedor habilitado, pois é elementar que a coligação PT/PMDB, imediatamente impugne a chapa adversária. Diante da evidência do resultado desse outro julgamento e, ainda, sufocado pelo tumulto de uma vitória no tapetão, o mais provável é que Aécio Neves desista de se defender, renunciando à posse até que o TSE julgue suas contas.
    Anulada a eleição, assume o presidente da Câmara de Deputados com prazo de 60 dias para realização de novo pleito. Neste caso, os partidos terão de apresentar novas chapas, com as seguintes restrições: Dilma e Aécio serão inelegíveis, pois com a condenação de suas campanhas caem no capítulo de fecha limpa. Como a nova lupa da Justiça Eleitoral vai ler as letras miúdas, também qualquer outro candidato estará vulnerável. Por exemplo: Marina não resiste à análise aprofundada das contas de Eduardo Campos. E assim por diante. Talvez só a Luciana Genro passe nesse exame, pois bispos e verdes também teriam de explicar muitas coisas.
    No passo seguinte os partidos se verão com o problema de encontrar candidatos, pois também os governadores são inelegíveis porque não haverá espaço no tempo para cumprirem as exigências de desincompatibilização. Desse jeito, no cenário atual, sobrariam Lula e Serra. Ou, ainda, Joaquim Barbosa? Com isto já tem gente dizendo que o mais provável será que o presidente do Congresso (Renan Calheiros) tome à dianteira e convoque uma constituinte (exclusiva, sem poderes legislativos) para reavivar o parlamentarismo e, ainda, limpar a Carta Magna dos entraves da Constituição de 1988 à governabilidade.
    Um terceiro cenário contempla o emparedamento da presidente, algo parecido com a tutela do PMDB (Ulisses Guimarães) a José Sarney. Até já tem nome: a sarneização de Dilma.
    Neste caso o PT passaria para segundo plano e o PMDB assumiria o comando do governo.
    Tal colmo nos tempos de Sarney: um ministério forte, um líder inconteste e o presidente conformando-se a um papel secundário, com funções cerimoniais.
    Neste caso Dilma ficaria com a incumbência de representar o País, comparecer a inaugurações, visitar escolas. O ministério e o partido governariam de fato.
    Entretanto, como diz a lei, ela sempre terá de assinar. A caneta dela ainda terá seu papel.
    O quarto cenário contempla a renúncia. As pessoas próximas garantem que ela não tomará essa decisão. Dizem que é a sério quando fala, na sua linguagem muito própria, “não faço a renúncia”, o que, na concepção dramática dos nossos tempos de republiqueta era enunciado como “só morto deixo o Catete”.
    Ninguém concebe um cenário com golpe de estado. Pelo contrário, as forças armadas são a garantia das instituições. Nada poderá ser feito ao arrepio da lei.

  • Cais Mauá: projeto de revitalização impede retomada do transporte aquaviário

    Tania Faillace*
    Estive na audiência, porque essa é uma luta que vem de longe, inclusive junto com os portuários.
    Revitalização de um cais significa corretamente: modernização e reestruturação da função portuária, fundamental para o desenvolvimento econômico do RS.
    O objetivo real dessa proposta ridícula de inutilizar em definitivo o porto para nele instalar comércio varejista – Porto Alegre é a cidade brasileira com maior número de shoppings por habitante – é impedir a retomada plena do transporte aquaviário, assim como já se travou a expansão da rede ferroviária.
    São essas as modalidades seguras, eficientes e econômicas para o translado de pessoas e mercadorias, cuja falta vem provocando encarecimento da operação produtiva, sobrepreço nos produtos, além do absurdo de transportar safras inteiras através de centenas ou milhares de carretas, que seriam vantajosamente substituídas por alguns navios e alguns comboios.
    Trata-se do lobby rodoviarista – iniciado com JK – favorecendo as empreiteiras com a manutenção permanente das estradas, destroçadas por excesso de peso (sem falar do número de mortes e acidentes ocasionados por esse tráfego irracional e perdulário).
    Esse lobby também tem suas broncas com o transporte aeroviário – como ficou patente em uma das visitas do ministro Padilha, que parecia interessado em acabar também com o aeroporto Salgado Filho. Nesse caso, é interessante lembrar, havia quem quisesse vender um terrenão para um aeroporto PRIVADO.
    Trata-se, pois, do vampirismo contra o Estado, o interesse público e dos cidadãos e produtores de nosso País.
    Temos que revitalizar, sim, o cais Mauá. Temos que revitalizá-lo como porto, capaz de cumprir suas responsabilidades na triangulação do transporte de carga de todo o Estado através de nossa rede fluvial, até Porto Alegre, e daí a Rio Grande, e de Rio Grande ao mundo.
    É mentira que a extensão do cais Navegantes possa substituir o Mauá, porque não tem subsolo consistente para suas responsabilidades. E se observarmos a extensão de todo o cais, a partir de alguma das ilhas do Delta, não deparamos com um só navio seja de que porte for.
    A ânsia para o apoderamento privado de área pública (neste caso federal) passa por cima de todas essas considerações do interesse maior do estado do Rio Grande do Sul.
    Shoppings se fazem em qualquer lugar. Portos são estruturas especialíssimas e de valor estratégico geral, que não se constróem à-toa, em qualquer lugar, por preços de ocasião.
    São maus gaúchos e maus brasileiros, aqueles que propõem mais shoppings para destroçar de vez o minguado comércio portoalegrense, que vem decaindo justamente em função do excesso de shoppings, que são empreendimentos imobiliários construídos de costas para o interesse do comércio de varejo.
    Sequer o governador gaúcho que tanto se queixa de miséria e falta de arrecadação, parece ter percebido que, sem incrementar a economia estadual através de investimentos/incentivos para sua maior produtividade e melhor transporte e distribuição, não haverá de pagar suas contas – ainda que os CCs gaúchos não se tenham queixado até agora.
    Queremos navios em nosso porto. Navios de carga. Navios de passageiros. Navios e barcos de turismo. Navios-escola. Navios científicos (Jacques Cousteau já esteve aqui). Navios de guerra de nossa Marinha. Tudo isso é cultura.
    Por outro lado, o cais Mauá não é local para play ground infantil, porque sua fundura ultrapassa os sete metros, e parece contar com repuxo. É área para trabalho, em condições de oferecer ocupação para muita e muita gente, e impulsionar a economia gaúcha.
    * Jornalista e escritora de Porto Alegre.

  • Conspiração anti-CLT em marcha

    Geraldo Hasse
    Os amigos do capitalismo selvagem seguem tramando o desmanche dos direitos trabalhistas.
    A juíza do trabalho Valdete Souto Severo, que trabalha em Porto Alegre, lançou na Internet uma denúncia sobre mais uma jogada armada no Congresso Nacional para minar os pilares do direito do trabalho.
    Trata-se do projeto de lei 8294, de 2014, que propõe alterar o artigo 444 da Consolidação das Leis do Trabalho, o qual protege os trabalhadores contra imposições injustas por parte dos empregadores.
    Segundo a juíza, o 444 já não é respeitado em boa parte das relações de trabalho, mas serve como salvaguarda jurídica “contra a instituição da barbárie” nos contratos trabalhistas.
    “A norma do artigo 444 da CLT representa o que poderíamos chamar de parte integrante do patamar mínimo civilizatório”, argumenta a juíza, lembrando que o PL 8294 “vem tramitando apressadamente no Congresso Nacional”. No momento, está na Comissão de Trabalho,de Administração e Serviço Público, que já deu sinal verde ao avanço da terceirização dos contratos trabalhistas.
    O projeto 8294 pretende a inclusão de um parágrafo único no artigo 444 da CLT, com a seguinte disposição: “Os  limites  para  livre  estipulação do contrato  de  trabalho,  estabelecidos  no  caput, não  se aplicam  quando:
    I –  o  empregado  for  portador  de  diploma  de  nível superior  e  perceber  salário  mensal  igual  ou  superior  a  duas vezes  o  limite  máximo  do  salário-de-contribuição  da previdência  social;
    II –  o  empregado,  independentemente  do  nível  de escolaridade,  perceber  salário  mensal  igual  ou  superior  a três  vezes  o  limite  máximo  do  salário-de-contribuição  da previdência  social.
    Volta a juíza Valdete Severo: “A liberdade contratual que se pretende outorgar a esses trabalhadores mais graduados revela o verdadeiro intuito do projeto: a flexibilização ou até mesmo a supressão de direitos fundamentais”.
    Os trabalhadores já têm a possibilidade de cuidar de si mesmos, o que eles perderiam é a garantia contra a perda súbita de sua fonte de subsistência ou mesmo contra a pressão de quem oferece trabalho.
    Segundo a leitura da juíza, o projeto de lei pretende favorecer a imposição de cláusulas lesivas, como o fracionamento ou supressão do direito às férias ou do repouso para descanso e alimentação. No fundo, propõe a divisão dos trabalhadores em duas classes de seres humanos — alguns capazes de exercer autonomia, outros não.
    Essa distorção do discurso da proteção gera de imediato dois efeitos terríveis, segundo a juíza: de um lado, autoriza que os direitos fundamentais comecem a ser questionados, também em relação aos demais empregados, permitindo o retorno da discussão entre negociado e legislado; de outro, sub-repticiamente, sugere a nulidade da justiça do trabalho e a inutilidade dos sindicatos para a conquista de condições adequadas de trabalho.
    Em nosso mundo marcado pela desigualdade e o desequilíbrio entre capital e trabalho, o PL 8294 é uma afronta aos direitos constitucionais básicos dos trabalhadores.
    LEMBRETE DE OCASIÃO
    O artigo 7 da Constituição do Brasil, que trata dos direitos dos trabalhadores, contém uma lista de 34 direitos, começando pela proteção contra demissão arbitrária ou sem justa causa.