DO REPÓRTER BRASIL
Por meio da Lei de Acesso à Informação,a ONG Repórter Brasil e InPACTO divulgam a “Lista da Transparência sobre Trabalho Escravo”, com 420 nomes flagrados com essa mão de obra. Seis empresários estavam atuando no Rio Grande do Sul.
Uma liminar concedida pelo Supremo Tribunal Federal impedindo o governo federal de divulgar a “lista suja” do trabalho escravo, no final do ano passado, continua em vigor. Por conta disso, a ONG Repórter Brasil e o Instituto do Pacto Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (InPACTO) solicitaram com base na Lei de Acesso à Informação (12.527/2012), que o Ministério do Trabalho e Emprego (responsável pela lista desde 2003) fornecesse os dados dos empregadores autuados em decorrência de caracterização de trabalho análogo ao de escravo e que tiveram decisão administrativa final, entre maio de 2013 e maio de 2015.
O extrato com a lista completa foi recebido na quinta (3). Confira em versão pdf: SECRETARIA DE INSPEÇÃO DO TRABALHO / DEPARTAMENTO DE FISCALIZAÇÃO DO TRABALHO / DIVISÃO DE FISCALIZAÇÃO PARA ERRADICAÇÃO DO TRABALHO ESCRAVO
No Rio Grande do Sul, a Pomar G2 Germano, de Germano Neukamp, foi autuada por manter 41 trabalhadores em situação de trabalho escravo na Estrada do Rio Santana, Itaimbezinho, zona rural de Bom Jesus. Andre Zulian, da Mineração Zulian, na Comunidade Caravagio, Ipê, foi notificado pelas condições precárias de três trabalhadores. A Construwitta Construtora e Incorporadora Ltda (Habitte Incorporadora Ltda) mantinha seis operários em situação irregular no canteiro de obras, em Caxias do Sul. Também em Caxias, Marcos Suelio Dantas foi autuado por manter irregular seis trabalhadores. A MGM Meyer Giometti Engenharia Mecânica Ltda foi notificada pela situação irregular de 12 operários em um canteiro de obras no bairro Industrial, em Vacaria. E, Marcelo Ferreira Horn foi autuado por manter um trabalhador em condição de trabalho escravo na Fazenda Formosa, em Rio Pardo.
O objetivo das organizações ao veicular essa “Lista de Transparência sobre Trabalho Escravo Contemporâneo no Brasil” é garantir o direito da sociedade e do setor empresarial à transparência sobre o tema, fornecendo informações sobre os flagrantes confirmados por trabalho análogo ao de escravo realizados pelo governo.
A primeira listagem solicitada, divulgada em março deste ano, trouxe os casos entre dezembro de 2012 e dezembro de 2014. Esta nova solicitação engloba os casos entre maio de 2013 e maio de 2015 e contém 421 nomes de pessoas físicas e jurídicas. O Pará é o Estado mais presente, com 180 empregadores, seguido por Minas Gerais, com 45, e Tocantins, com 28.
Suspensão pelo STF
Em meio ao plantão do recesso de final de ano, o ministro Ricardo Lewandowski garantiu uma liminar à Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) suspendendo a “lista suja” do trabalho escravo (cadastro de empregadores flagrados com esse tipo de mão de obra). A entidade questionou a constitucionalidade do cadastro, afirmando, entre outros argumentos, que ele deveria ser organizado por uma lei específica e não uma portaria interministerial, como é hoje.
Os nomes permaneciam na “lista suja” por, pelo menos, dois anos, período durante o qual o empregador deveria fazer as correções necessárias para que o problema não voltasse a acontecer e quitasse as pendências com o poder público. Com a suspensão, uma atualização da relação que estava para ser divulgada no dia 30 de dezembro foi bloqueada. O cadastro, criado em 2003, é um dos principais instrumentos no combate a esse crime e tido como referência pelas Nações Unidas.
Em março deste ano, o governo federal lançou uma nova portaria interministerial (MTE/SEDH número 2/2015), garantindo mais transparência ao processo de entrada e saída da “lista suja”. Contudo, a Advocacia Geral da União (AGU), até agora, não convenceu o Supremo Tribunal Federal a arquivar a Ação Direta de Inconstitucionalidade, nem a suspender a liminar por perda de objeto diante da nova portaria.
Direito à Informação
Considerando que a “lista suja” nada mais é do que uma relação dos casos em que o poder público caracterizou trabalho análogo ao de escravo e nos quais os empregadores tiveram direito à defesa administrativa em primeira e segunda instâncias; e que a sociedade tem o direito de conhecer os atos do poder público, a Repórter Brasil e o InPACTO solicitaram, com base nos artigos 10, 11 e 12 da Lei de Acesso à Informação (12.527/2012) – que obriga quaisquer órgãos do governo a fornecer informações públicas – e no artigo 5º da Constituição Federal de 1988 o seguinte:
“A relação com os empregadores que foram autuados em decorrência de caracterização de trabalho análogo ao de escravo e que tiveram decisão administrativa transitada em julgado, entre maio de 2013 e maio de 2015, confirmando a autuação, constando: nome do empregador (pessoa física ou jurídica), nome do estabelecimento onde foi realizada a autuação, endereço do estabelecimento onde foi caracterizada a situação, CPF ou CNPJ do empregador envolvido, número de trabalhadores envolvidos e data da fiscalização em que ocorreu a autuação.”
A sociedade brasileira depende de informações oficiais e seguras sobre as atividades do Ministério do Trabalho e do Emprego na fiscalização e combate ao trabalho escravo contemporâneo no Brasil.
Informação livre é fundamental para que as empresas e outras instituições desenvolvam suas políticas de gerenciamento de riscos e de responsabilidade social corporativa. A portaria que regulamentava a suspensa “lista suja” não obrigava o setor empresarial a tomar qualquer ação, apenas garantia transparência. Muito menos a relação aqui anexa. São apenas fontes de informação a respeito de fiscalizações do poder público.
Transparência é fundamental para que o mercado funcione a contento. Se uma empresa não informa seus passivos trabalhistas, sociais e ambientais, sonega informação relevante que pode ser ponderada por um investidor, um financiador ou um parceiro comercial na hora de fazer negócios.
Após a suspensão do cadastro, bancos públicos que usavam o cadastro antes de fechar novos negócios deixaram de checar casos de trabalho escravo. Contudo, parte desses bancos passaram a usar esta “Lista de Transparência sobre Trabalho Escravo Contemporâneo no Brasil” como referência na ausência de outro mecanismo público de divulgação dessa informação de extrema importância.
As informações que constam na “Lista de Transparência sobre Trabalho Escravo Contemporâneo no Brasil” são oficiais uma vez que fornecidas pelo Ministério do Trabalho e Emprego através de solicitação formal e transparente, que obedece a todos os trâmites legais previstos na Lei de Acesso à Informação. Solicitação que pode ser repetida por qualquer cidadão, organização social ou empresa. A lista será o principal instrumento das empresas associadas do InPACTO para o controle e monitoramento de sua cadeia produtiva com relação ao trabalho escravo.
As organizações Repórter Brasil e InPACTO estão em parceria constante no combate ao trabalho escravo no Brasil, contando com apoio de diversas organizações sociais e ambientais, organizações internacionais e bilaterais, empresas nacionais e multinacionais, lideranças políticas, religiosas, magistrados e procuradores. Serão utilizados todos os meios para mobilizar a sociedade pela erradicação do trabalho escravo e pela transparência de informações.
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Seis empresas no Estado estão na "lista suja" sobre trabalho escravo
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Tsunami de refugiados põe em cheque projeto europeu de civilização
Mariano Senna
De Berlim
O dilema dos refugiados na Europa é manchete em todos os grandes meios de comunicação do continente há mais de um ano. As fotos de crianças refugiadas mortas em praias do litoral da Turquia se apresentam agora como último e desesperado apelo para sensibilizar a opinião pública sobre o assunto. Ou será uma cartada final para desumanizar a crise e abrir o caminho de uma solução drástica?
A dúvida vem da forma seletiva e descontextualizada como alguns veículos apresentam o problema. A revista Der Spiegel, por exemplo, foca a questão dos refugiados barrados na estação de Budapeste em sua viagem rumo a Munique na Alemanha. Estima-se que sejam 3.000 pessoas esperando pelo trem na capital da Hungria. Até a última semana de Agosto, autoridades alemãs contavam mais de duas mil pessoas chegando ao país por essa via diariamente.
Blindada contra crises econômicas e incensadas por uma imagem humanista pós-segunda guerra, a Alemanha é hoje o destino preferido daqueles fugindo dos horrores da guerra, ou da falta de perspectiva econômica. O governo federal de Berlin já deixou claro que só receberá quem de fato for refugiado de guerra. Mas se já não é fácil diferenciar quem é quem num mar de gente, que dirá encontrar recursos para dar abrigo para todo esse povo.
E eles veem de todos os lados e por todas as vias. Dados oficiais indicam a entrada de mais de 100 mil pessoas nessa condição no país no último mês. Segundo estimativas, só na capital alemã chegarão 70 mil novos refugiados este ano em busca de abrigo. Os programas de rádio citam cálculos de ONGs prevendo 800 mil pessoas chegando de fato à Alemanha até o início de Setembro. Um “tsunami” de gente segundo os principais veículos de informação do país.
Surpreendida pela onda de pessoas buscando refúgio ou simplesmente uma vida melhor, a Europa se defronta com sua verdadeira face. Editoriais já falam no “naufrágio” europeu. Com grandes dificuldades para manterem coeso seu projeto político de união política e econômica, os países do bloco fazem um jogo de empurra-empurra com o problema humanitário. Todos se dizem sobrecarregados com desabrigados, para muito além das suas “cotas”. Bruxelas propõe emergencialmente aumentar tal “contingente” em 120 mil pessoas. Um paliativo, que nem de longe enfrenta toda complexidade da questão.
Bem longe da política, a situação dos refugiados em capitais como Berlin toma contornos Kafkianos. Pelo processo convencional, qualquer pedido de asilo deve ser encaminhado no país de origem. Algo impossível nas regioes assoladas pela guerra. Os que chegam à Europa em sua grande maioria nem passaporte têm. Outros nem mesmo documentos de identificação carregam. Soma-se a isso a barreira da língua. A comunicação, como tantas outras coisas, depende de intérpretes voluntários.
Exemplos abundam. “K.D.” é um refugiado do Mali. Trabalhava desde os 14 anos com o pai no transporte de carga para países vizinhos, especialmente a Líbia. Com a queda de Muammar Kaddafi, perdeu não só o trabalho, mas a perspectiva de vida, pois radicais islâmicos que assumiram o vácuo do poder passaram a ameaçar todos que não se convertessem ou aceitassem os mandamentos da religião. O jovem chegou à Espanha há dois anos depois de atravessar o mar Mediterrâneo em um barco de pesca junto com outras centenas de pessoas.
Hostilizado pelos espanhóis, decidiu migrar para o Norte. Foi levado de carro para a Alemanha, sob a promessa de um tratamento mais amigável. Ficou um ano e meio concentrado em um abrigo improvisado no interior do Estado da Saxônia, no centro-sul do país. Como não tinha seguido os trâmites da burocracia oficial, caiu num limbo, como a maioria dos refugiados. Nao possui passaporte, autorização de trabalho, seguro saúde, e nenhum outro direito, só o de continuar vivo.
Incitado por amigos refugiados, resolveu tentar ajuda na capital Berlin. Conhecida por sua multiculturalidade, a cidade é o destino predileto dos que buscam alguma saída para o problema da burocracia. Acabou abrigado ilegalmente em uma república estudantes. Ali, além de abrigo, recebe comida, roupas, aulas de alemão, esporte, lazer e até assessoria jurídica. Hoje aos 20 anos, anda mais confiante de que vai encontrar uma saída. “As pessoas me dizem que eu terei que casar para ficar aqui, mas não foi para isso que vim para cá”, conta ele.
Por conta da paralisia das autoridades, as soluções para dramas como esse têm aparecido de iniciativas individuais. Em sua maioria oferecida por estudantes e suas agremiações. Boris Jacob é um desses exemplos. Estudante de PhD na Universidade Humboldt de Berlim, ele tem dedicado suas manhas para voluntariamente ajudar centenas de refugiados abrigados em alojamentos espalhados pela periferia da cidade. Entre as atividades, uma das mais importantes é o recolhimento de alimentos doados por supermercados e restaurantes. “É o mínimo que posso fazer, apesar de toda a dificuldade, uma forma de manter a esperança”, explica ele, dizendo que não lê mais nenhum jornal, nem acompanha nenhum noticiário para evitar ser contaminado pela propaganda “desumanizante” que circula pelos veículos de informação.
Outro exemplo é o Festival Contra Racismo que acontece pelo quarto ano em Kreuzberg, bairro boêmio da capital alemã. Patrocinado e organizado basicamente pelos grêmios estudantis das três maiores universidades da cidade, o festival oferece atrações culturais e artísticas de cunho conscientizador. O público apesar de pequeno se mostra bastante engajado. “Discriminação racial está na base das nossas políticas de migração. É fundamental promover a consciência sobre isso se quisermos enfrentar o problema dos refugiados adequadamente”, ensina Thomas Eckermann, que foi ao evento este fim de semana junto com seu filho de 8 anos.
*Foto: a imagem colhida pelo fotógrafo italiano Massimo Sestini enquanto acompanhava o trabalho da Guarda Costeira Italiana está entre as exibidas na Exposição World Press Photo que acontece até 11 de Setembro na Estação Central de Berlin (Hauptbahnhof). -
Uma trama contra a democracia
Henrique Fontana
A tentativa de retirar uma presidenta legitimamente eleita, com mandato conquistado nas urnas, antes de 2018, atenta contra a democracia. E não bastará aos organizadores dessa trama e aos defensores da quebra das normas constitucionais envolverem suas manobras para um golpe institucional num “verniz” legalista.
As conspirações para o impeachment da presidenta Dilma, tramadas, especialmente, pelo presidente Eduardo Cunha e tucanos no Congresso, são frágeis e contraditórias. Desde a reeleição da presidenta, estes têm promovido diferentes ações, com pedidos de recontagem de votos, rejeição das contas de campanha, rejeição das contas do governo e diversos requerimentos de impeachment.
Assim como a tese das supostas “pedaladas fiscais” nas contas do governo em 2014, procedimento contábil até hoje considerado legal pelo TCU, utilizado inclusive pelos governos de Fernando henrique e Lula, e aprovado pela Câmara, outra tese tenta dizer que as doações eleitorais das mesmas empreiteiras, em alguns casos em valores até maiores, para Aécio Neves seriam legais, e as feitas para a campanha de Dilma seriam ilegais e fruto de propinas, sendo que todas estão registradas dentro das regras eleitorais. Nenhuma justifica um impeachment.
A política e a estabilidade das instituições democráticas não devem ser pautadas pelo revanchismo eleitoral ou humores do mercado. Buscar saídas para a crise econômica mundial, que também nos atinge, é tarefa do governo eleito, e mesmo diante de críticas de alguns setores, estas não são motivo para interromper um mandato.
Respeitadas democraticamente todas as manifestações, é preciso dizer que o clima de “terceiro” turno eleitoral, que tem o objetivo de desestabilizar o governo, na verdade tem prejudicado nossa economia e atrasado a retomada do crescimento.
É tarefa de toda sociedade, respeitada a pluralidade de opiniões, defender as instituições e a legalidade democrática duramente conquistada após mais de 20 anos de ditadura. A política não deve ser um jogo de vale-tudo, a maioria do povo não torce pelo “quanto pior, melhor”. Vamos sim reconhecer e corrigir erros, protegendo o que já conquistamos, enfrentando a corrupção e defendendo a democracia.
*Deputado federal (PT/RS) -
O jornalismo que não vê e se omite
Luiz Cláudio Cunha
O Brasil ficou chocado com os 84 segundos de imagens em preto e branco que assistiu nos principais telejornais do país na sexta-feira, 28 de agosto. Mostravam as cenas violentas de um assalto à luz do dia numa avenida movimentada de São Bernardo do Campo, SP, quando o ladrão esmurra o vidro de um carro, arranca a motorista que o dirigia, joga a mulher no chão e arranca com o veículo.
(Reprodução de fotos ABCD Maior)

O ataque: aos 15 seg, o homem começa a esmurrar a porta da motorista.

O recuo: aos 21 seg, o carro branco atrás dá marcha a ré para se afastar do ataque.

A fuga: aos 25 seg, o carro de trás manobra pela direita e foge dali.

A omissão: aos 59 seg surge alguém para ajudar, enquanto os carros passam sem parar.
Foram cenas captadas às 8h da manhã do sábado anterior, 22, pelo sistema de segurança da prefeitura, num trecho da avenida José Fornari, no bairro Ferrazópolis, e divulgadas pelo jornalABCD Maior. Repetida exaustivamente, a sequência impressiona pela brutalidade, que todo mundo vê. Os telejornais viram e reprisaram. Mas, o jornalismo fracassou em sua missão básica ao não ver, ali, o que devia ter visto, registrado e denunciado.
Vamos rever a cena captada com neutralidade pela câmera da avenida e ecoada com insensibilidade pela imprensa brasileira – acessível o YouTube.
Um homem de menos de 30 anos aproveita o trânsito parado, circunda por trás de um Honda Fit, como se fosse cruzar a avenida, e aos 10 segundos da gravação se volta de repente em direção à porta da motorista. Com inesperada violência, começa a esmurrar o vidro. O carro tenta arrancar. O primeiro murro acontece aos 15 seg. Aos 16 seg, um segundo murro. Aos 17, o terceiro. Ele força a abertura da porta aos 18, que se abre no segundo seguinte.
Com violência, puxa para fora a motorista, uma senhora de 64 anos, e a joga sobre o canteiro central da avenida, aos 25 segundos. Ele toma o lugar da motorista e arranca com o carro. Outra mulher, que estava no banco de passageiro, consegue sair pela porta direita, pega uma bolsa caída na avenida e vai ao encontro da amiga, caída sobre o canteiro central. Aos 59 seg, enfim, um homem cruza a avenida ao encontro das duas mulheres, para prestar algum socorro.
Na câmera e na consciência
A motorista de 64 anos, a psicopedagoga Rosa Maria Costa, deslocou o tornozelo e sofreu quatro fraturas na perna direita. O ladrão acabou capotando o carro na Via Anchieta e, no acidente, ainda atropelou um homem de 65 anos. Um carro parou para socorrer, o motorista desceu e o ladrão roubou o outro carro, desaparecendo. Um fato nada estranho na Grande São Paulo, onde acontece um roubo ou furto de carro a cada quatro minutos. Entre janeiro e julho, na maior região metropolitana do país, 74.129 veículos foram surrupiados por bandidos.
O que mais espantou na cena de violência em São Bernardo, que todo mundo viu, foi a cena que a imprensa não viu, não comentou ou desprezou. Ninguém da TV, rádio ou jornal, nenhum colunista, nenhum blogueiro, nenhum militante das ubíquas redes sociais destacou o vergonhoso espetáculo coletivo de acovardamento, omissão, negligência e falta de solidariedade que marcou o entorno da agressão na avenida.
Está tudo lá, gravado para sempre na câmera da TV e na consciência envergonhada de quem tudo viu e nada fez. Ou fez errado. Como o motorista do carro branco, provavelmente um Corolla, parado imediatamente atrás do carro atacado pelo assaltante.
Quando o agressor desferiu seu terceiro murro na porta, aos 17 seg, o motorista do Corolla começa a dar ré no carro. Se tivesse feito o contrário, acelerando em direção ao atacante, que não estava armada, ele teria frustrado a agressão e afugentado o agressor. Em vez disso, o carro branco recua uns dois ou três metros, lentamente. No momento em que Rosa Maria é jogada na avenida, o Corolla vira à sua direita e desaparece de cena atrás de uma van parada ao lado, com um motorista, também inerte, à direção. O carro roubado, o Corolla e a van arrancam quase ao mesmo tempo, enquanto a vítima rolava na avenida.
No canto inferior direito da tela, três homens passam pela calçada, indiferentes ao drama das duas mulheres no canteiro central. Só aos 59 seg aparece um homem de jaqueta preta, que atravessa a avenida para socorrer as duas mulheres. Durante os 84 segundos que dura a cena gravada, o que se vê e ninguém comenta é um desfile pusilânime de indiferença, de gente que não se importa, que não vê, não olha, não para e não comete nenhum gesto de solidariedade. Além da van e do Corolla que fugiram da cena do crime, outros quatro carros, dois ônibus e um caminhão passaram pelo local, no sentido do carro assaltado. Do outro lado da avenida, no sentido inverso, passaram 21 carros neste curto espaço de tempo — e ninguém parou, nem por curiosidade.
Nesta sociedade cada vez mais integrada por redes sociais, cada mais conectada por ferramentas como Facebook, Twitter e WhatsApp, cada vez mais interligada por geringonças eletrônicas que deixam todo mundo plugado em todos a todo momento, a cena brutal de São Bernardo escancara o chocante estágio de uma civilização cada vez mais desintegrada, mais desconectada, mais desintegrada. É uma humanidade apenas virtual, falsa, narcisista, cibernética, egoísta, que se decompõe em pixels e se desfaz na tela fria da vida cada vez mais distante e desimportante.
Ninho da omissão
A polícia, sempre fria e técnica, recomenda não reagir em casos de assalto, para evitar danos maiores. No episódio deprimente de Rosa Maria, tratava-se não de reagir, mas de defender uma vida, de proteger um ser humano, de cessar uma agressão, de impedir um abuso, obrigação que cabe a todos e a cada um de nós. A reação de um, um apenas, motivaria o auxílio de outro, e mais outro, numa sucessão de atos reflexivos de autodefesa em grupo que explicam a evolução do homem da caverna para o abrigo solidário da civilização.
Ninguém fez isso — na hora certa, com a firmeza necessária, com a generosidade devida, com a presteza impreterível. Esse espetáculo coletivo de insensibilidade e de crua indiferença atropelou toda a imprensa, em suas várias plataformas. Naufragaram até mesmo os programas e apresentadores que vivem da violência explícita e cotidiana de nossas cidades, grandes ou pequenas, com seu festival interminável de ‘mundo cão’.
Os programas das grandes redes de TV, que cruzam as manhãs e tardes do País com a tediosa banalidade de sangue, morte e violência do cotidiano, se refestelaram com a caso de São Bernardo, reprisando várias vezes a cena da avenida. Como sempre, no estilo furioso e mesmerizado de todos, despontou a tropa de elite da truculência na TV, sob o comando de José Luiz Datena (Band), Marcelo Rezende (Record) e Ratinho (SBT). Aos gritos, aos berros, no jeito gritado de um e de todos, ecoaram como de hábito a visão policial e teratológica da realidade, deixando de lado a preocupação social de uma segurança pública falida e desarvorada pelas balas perdidas da incompetência dos governantes.
Só esqueceram do entorno, da cena explícita de covardia e indiferença das pessoas que testemunham, assistem, presenciam, mas não interferem, não intervêm, não reagem. Ninguém lembrou do exemplo de São Bernardo para denunciar esta falsa sociedade compartilhada, mais preocupada em seus interesses compartimentados, que nenhuma rede social humaniza ou aproxima, a não ser virtualmente.
Um jornalismo que não vê o que é necessário, que não percebe o contexto além do texto, descumpre a sua missão. Esconde a realidade, ao invés de revelá-la. O repórter fiel ao seu ofício deve estar atento ao murro do assaltante no vidro do carro. Mas deve prestar atenção maior ao Corolla branco e aos carros que passam por ali, indiferentes ao que se vê e ao que acontece.
O bom jornalismo sabe que é nesse ninho da omissão que cresce a violência e prospera o fascismo. -
O que Osório teria a aprender na Galícia
Geraldo Hasse
O Brasil precisa dos ventos da renovação na gestão da coisa pública
Sendo o trabalho a chave-mestra da luta pela sobrevivência e o dinheiro a pedra-de-toque da economia, temos que os dois — o trampo e a grana — precisam andar juntos para construir resultados positivos para a sociedade em geral. Em caso de descompasso, sobrevém a crise econômica, que gera a crise política, como estamos vendo no Brasil neste momento.
Muitas pessoas resmungam dizendo que a culpa é do governo e, particularmente, da presidenta; empresários, economistas e jornalistas tentam convencer a opinião pública de que é preciso colocar a gestão das coisas nas mãos da iniciativa privada, mas não há nenhuma garantia de que a saída seja pela via do capital, pois quem toca as coisas são os trabalhadores.
Ainda que o aparelho estatal seja ineficiente por decorrência da acomodação do funcionalismo, a iniciativa privada não tem o monopólio da eficiência. Por isso é preciso equacionar o problema da dispensabilidade dos operadores econômicos. Mesmo que a empresa privada tenha o poder de dispensar seus empregados e o Estado não possa demitir seus funcionários, as coisas não se resumem ao dilema – demitir ou não.
O que fazer, agora que a revolução social petista entrou em colapso após 13 anos de idílio entre o trabalho e o capital?
Por enquanto, as medidas tomadas e as propostas apresentadas apontam para perdas na base da pirâmide social, enquanto o topo mantém privilégios preservados pelo patrimonialismo, o empreguismo, o nepotismo e outros ismos inerentes à história organizacional do país.
Talvez seja o momento de lembrar Chantada, a cidade galega visitada em julho de 2006 por um grupo de administradores públicos e privados de Osório convidados a conhecer as usinas eólicas locais montadas 20 anos antes nessa região a 400 quilômetros de Madrid.
Vivendo da agricultura e explorando intensamente o vento como fonte de energia elétrica, as duas cidades apresentavam um contraste brutal quanto ao sistema de administração pública: conservador no Brasil e liberal na Espanha, o funcionalismo municipal era formado por 700 pessoas em Osório (30 mil habitantes) e apenas sete em Chantada (9 mil habitantes), cujos serviços essenciais eram tocados, todos, por contratos e empreitadas renovados periodicamente.
Moral da história: se o objetivo da gestão pública é beneficiar a maioria da população, por que insistir num sistema operacional pernicioso?
LEMBRETE DE OCASIÃO
“Essa proposta de aumento (salarial) do Judiciário é um descalabro total na atual conjuntura”. (Luiz Gonzaga Beluzzo, economista da Unicamp em entrevista ao Estadão) -
Zelotes chega a nomes com foro privilegiado, mas Justiça impede prisões e escutas telefônicas
Parte da Operação Zelotes terá que ser enviada ao Supremo Tribunal Federal, isso porque as investigações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal chegaram a nomes que detêm foro privilegiado, segundo o deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS).
Pelo esquema de corrupção, grandes empresas, escritórios de advocacia e membros do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf) são suspeitos de desviar cerca de R$ 20 bilhões dos cofres públicos, com a compra e venda de sentenças e pagamento de propina.
Relator dos trabalhos que acompanha os desdobramentos da Zelotes na Câmara Federal, Pimenta alerta para uma possível “operação abafa”. Segundo o parlamentar, quando grandes empresas e pessoas com alto poder de influência aparecem em esquemas de corrupção, o poder econômico se movimenta e a mídia silencia.
“O fato de existirem suspeitas de nomes com foro privilegiado só aumenta nossa determinação e a nossa responsabilidade para cobrar que os culpados sejam identificados e punidos”, garantiu o parlamentar.
Em comparação com a Lava-Jato, a Operação Zelotes tem recebido críticas por receber tratamento diferenciado por parte do Poder Judiciário. O processo corre em segredo de justiça, as prisões preventivas solicitadas pelo Ministério Público Federal e Polícia Federal foram todas negadas, assim como não foram autorizadas as solicitações de monitoramento por escutas telefônicas.
Diante das dificuldades relatadas pelas autoridades federais que investigam a Operação Zelotes, em junho, o deputado Pimenta representou contra o juiz Ricardo Augusto Soares Leite no Conselho Nacional de Justiça, que acabou sendo afastado do caso. A atuação do magistrado também foi objeto de representação pelo MPF na Corregedoria do Tribunal Regional Federal da 1ª região. No lugar dele, assumiu a juíza Marianne Borré, que autorizou pedidos de busca e apreensão em escritórios das empresas envolvidas, em uma nova fase das investigações.
Provocada também por uma representação do deputado Pimenta, a Controladoria-Geral da União realiza uma auditoria no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf). No requerimento, o deputado pediu análise sobre as “escolhas dos conselheiros”, a “distribuição dos processos”, os “procedimentos relacionados ao trâmite e regras de julgamento, incluídos os pedidos de preferência” e até os motivos para os “eventuais impedimentos de conselheiros” no julgamento dos processos. -
Francês lança obra sobre modelos de orçamento participativo de 20 cidades
Foi lançado ontem em Porto Alegre a versão em português da publicação Contribuições dos Orçamentos Participativos para a Provisão e Gestão de Serviços Básicos. A publicação é do professor da University College de Londres, o francês Yves Cabannes referência mundial em governança urbana.A pesquisa é uma análise da contribuição do Orçamento Participativo (OP) – processo criado na Capital gaúcha há 26 anos – em 20 cidades do mundo, entre as quais cinco do Brasil – além de Porto Alegre, Canoas, Belo Horizonte (MG), Guarulhos (SP) e Várzea Paulista (SP).A pesquisa, lançada em inglês em setembro de 2014, apontou a melhora significativa na prestação de serviços à população por meio do Orçamento Participativo. Entre as prioridades mais escolhidas nas 20 cidades estão questões como abastecimento de água, saneamento, drenagem, coleta e tratamento de resíduos, transporte público e mobilidade, entre outras.Os resultados da pesquisa foram apresentadas no plenário da Câmara de Vereadores durante o Seminário Internacional sobre as Contribuições dos Orçamentos Participativos para o Provisionamento e Gestão de Serviços Básicos.“A mais importante conclusão no contexto desta pesquisa é de que o Orçamento Participativo sempre priorizou e votou em projetos de serviços básicos. O OP é um poderoso mecanismo de prestação desses serviços em nível local”, comenta Cabannes.
A versão em português da publicação é fruto de uma parceria entre as prefeituras de Porto Alegre e Canoas.
Reconhecimento – A palestra do professor francês foi precedida de uma cerimônia que contou com a presença do representante do Orçamento Participativo, Giovane Byl, do vereador de Porto Alegre, Cássio Trogildo, do prefeito de Canoas, Jairo Jorge, do secretário adjunto de Relações Institucionais de Canoas, Celio Piovesan, do secretário municipal adjunto de Governança Local, Carlos Siegle, e do secretário municipal de Governança Local, Cezar Busatto.
Representando o prefeito José Fortunati no evento, Busatto destacou a escolha das cidades para a pesquisa, grande parte delas situadas em países em desenvolvimento. O uso do processo de participação para a construção de cidades mais igualitárias e humanas foi ressaltado no discurso do secretário, assim como a maneira que o OP aprimora a gestão pública dos municípios. “O Orçamento Participativo torna as cidades mais inclusivas e faz com que os olhos do poder público se voltem para as pessoas, especialmente aquelas que mais precisam”, afirmou.
Yves Cabannes – Um dos maiores especialistas em Orçamento Participativo do mundo, Cabannes é professor da disciplina de Planejamento do Desenvolvimento da University College de Londres, e foi consultor do Orçamento Participativo em Porto Alegre e Belo Horizonte e da rede Cidades e Governos Locais Unidos da África. Foi ainda membro do Conselho do Projeto de Orçamento Participativo (EUA), do Centro de Participação HuiZhi (Chengdu/China) e do Fundo Mundial para o Desenvolvimento das Cidades.Entre 1997 e 2003 foi Coordenador Regional do Programa de Gestão Urbana da Organização das Nações Unidas (ONU)/Habitat para a América Latina e o Caribe.Orçamento Participativo – Implantado em Porto Alegre em 1989, o OP é referência mundial em democracia participativa. A experiência criada em Porto Alegre foi considerada pela ONU uma das 40 melhores práticas de gestão pública urbana no mundo. O Banco Mundial reconhece o processo de participação popular de Porto Alegre como exemplo bem-sucedido de ação comum entre governo e sociedade civil.Em 2015, a rodada de assembleias regionais e temáticas do OP, um dos três grandes momentos do ciclo anual do processo, bateu recorde histórico de participação. Um total de 20.657 pessoas se credenciaram para participar, alta de 17,52% em relação ao ano passado. -
Paulo Henrique Amorim lança 'O Quarto Poder' e já está entre os mais vendidos
O jornalista Paulo Henrique Amorim inicia uma série de lançamentos do livro “O Quarto Poder – Uma Outra História”.
A primeira cidade a receber o evento foi São Paulo. Porto Alegre não está no roteiro, neste primeiro momento. Para saber outras datas, clique aqui.
Ainda no pré-lançamento, a obra entrou na lista dos mais vendidos no país, segundo o PublishNews, maior informativo do mercado editorial brasileiro.
PHA, como é conhecido em seu blog Conversa Afiada, é apresentador de telejornal da Record e já trabalhou em outras emissoras de comunicação, entre elas Globo e SBT.
No livro, o ansioso blogueiro relata os 50 anos de carreira e o que presenciou nos bastidores do poder. Alguns capítulos são dedicados à Rede Globo, emissora que o jornalista trabalhou.
“A Rede Globo nasceu de uma ilegalidade, financiada por um grupo americano, o Time-Life, o que era proibido pela Constituição. O Roberto Marinho deu uma garantia das posses pessoais dele, sabendo que a Globo receberia uma publicidade a preço de tabela. A Globo vendeu esses espaços para as estatais e pôde comprar a parte do Time-Life e saiu no lucro”, conta.
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Zelotes: Depoente na CPI do CARF relata saques milionários
Agencia Senado
A advogada e ex-ministra da Casa Civil Erenice Guerra e o ex-ministro de Minas e Energia Silas Rondeau frequentaram por pelo menos seis meses, entre 2011 e 2012, o escritório das empresas J. R. Silva e SGR Consultoria Empresarial, apontadas como peças principais do esquema de manipulação de julgamentos realizados pelo Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf). Eles teriam se reunido semanalmente com José Ricardo Silva, ex-conselheiro e dono das empresas, e Alexandre Paes dos Santos, sócio da empresa Davos, ambos investigados pela Operação Zelotes, da Polícia Federal.
A revelação foi feita nesta quinta-feira (3) por Hugo Rodrigues Borges, espécie de “faz-tudo” nas empresas de José Ricardo, em depoimento na Comissão Parlamentar de Inquérito que investiga irregularidades no Carf. Borges trabalhou por quase 10 anos para a SGR, J. R. e Agropecuária Terra Fértil, entre outras empresas administradas por José Ricardo e sua família.
Além de Erenice e Rondeau, que já haviam deixado seus cargos no governo à época dos encontros, José Ricardo e Alexandre também teriam se reunido na mesmo período com o ex-governador do Ceará Cid Gomes, de acordo com Borges.
“Começaram [Erenice e Rondeau] a se afastar porque andou repórter lá na frente”, contou Hugo Rodrigo Borges, que negou saber os temas das reuniões.
A Operação Zelotes investiga se, por meio dessas empresas, conselheiros cobravam propina para anular autuações fiscais ou reduzir substancialmente os tributos devidos por empresas à União. Ford, Mitsubishi, Santander e RBS, afiliada da Globo, são algumas das empresas que teriam se beneficiado do esquema.Saques
Borges contou que buscava e levava processos do Carf para José Ricardo e fazia saques a pedido dele em diferentes contas. O dinheiro, que era colocado em envelopes, era levado para o escritório da SGR Consultoria, que funcionava em uma casa no Lago Sul, área nobre de Brasília, onde também ficava a sede de outras empresas.
O ex-funcionário contou que recebia R$ 1.200 por mês, mas chegou a sacar R$ 1,2 milhão em uma semana para José Ricardo. Eram comuns, contou, retirar mais de R$ 400 mil em cada operação. O dinheiro era levado para o escritório da SGR Consultoria, relatou.
” Entregava a Glegliane, que recebia ordem do José Ricardo. E era assim: às vezes vinham duas pessoas em um dia, aí no outro vinham mais. Esse dinheiro sumia rápido”, disse.
“Tão rápido”, afirmou Borges, que a empresa chegava a ficar sem dinheiro para pagar conta de energia elétrica e mesmo os funcionários. O ex-funcionário disse que estranhava a movimentação, mas seguia ordens.Família
Além de Hugo Borges, também compareceram à CPI Flávio Rogério da Silva, irmão de José Ricardo e Edson Pereira Rodrigues, ex-presidente do Carf.
Flávio é sócio de José Ricardo na Terra Fértil. Mesmo amparado por um habeas corpus, o engenheiro agrônomo resolveu falar e sustentou que não conhece nada sobre o funcionamento do Carf. Ele admitiu, contudo, que movimentava elevadas somas de dinheiro em sua conta e revelou que tomava e dava empréstimos para o seu irmão. De acordo com a relatora da CPI, senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), foram mais de 90 transações entre os dois, totalizando aproximadamente R$ 6 milhões. Nenhuma delas foi declarada à Receita Federal.
“Se não há uma declaração, é porque o montante que foi, foi o montante que veio. Um empréstimo para uma lavoura de café é em torno de R$ 1 milhão para a nossa lavoura. É R$ 1 milhão a parte do meu irmão e R$ 1 milhão a minha parte. São 80 hectares do meu irmão e 80 hectares meus. […] Então, quando ele empresta, depois eu devolvo. Quando eu empresto, ele devolve”, Flávio Rogério da Silva.
Vanessa Grazziotin e Ataídes Oliveira (PSDB-TO) cobraram a apresentação dos balanços da agropecuária Terra Fértil. Segundo Ataídes, as movimentações financeiras da empresa são típicas de lavagem de dinheiro.Surpresa
Já Edson Rodrigues disse que recebeu com surpresa as suspeitas de manipulação de julgamentos realizados pelo Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. Ele presidiu o órgão entre 1995 e 2004. Rodrigues se recusou a responder perguntas sobre e-mails e gravações que apontariam seu envolvimento no caso. Disse que, desde 2007, não é mais sócio da empresa SGR Consultoria, considerada central no esquema.
“Os honorários eu continuei recebendo dos processos de que eu fazia jus. Até 2011 andei recebendo alguma coisa”, assinalou.Busca e apreensão
A filha de Edson Rodrigues, Meigan Sack Rodrigues, também seria ouvida nesta quinta-feira, mas apresentou atestado médico e não compareceu. Ex-conselheira do Carf, ela é sócia do pai em um escritório de advocacia.
A reunião da CPI ocorreu no mesmo dia em a Operação Zelotes realizou buscas e apreensões em nove escritórios de contabilidade nos estados do Rio Grande do Sul e São Paulo e no Distrito Federal. As buscas foram realizadas pela Polícia Federal, Receita Federal e Corregedoria do Ministério da Fazenda, para recolher documentos contábeis de algumas empresas investigadas.
Para o presidente da CPI, Ataídes Oliveira, os depoimentos desta quinta-feira ajudam nas investigações. Prevista para acabar neste mês, a comissão teve seus trabalhos prorrogados até dezembro.
” Vamos ter que quebrar sigilos bancários. Saber de onde saiu o dinheiro nós já sabemos. Agora precisamos saber aonde é que esse dinheiro chegou”, disse. -
Agapan debate poluição de fábrica de celulose
Texto e fotos: Heverton Lacerda / Agapan
A Agapan promoveu um debate em 31 de agosto, no salão da Paróquia Nossa Senhora da Paz, em Guaíba, ao lado da empresa Celulose Riograndense (CMPC), sobre os impactos das atividades da empresa na comunidade do bairro Alegria, que fica bem próxima da fábrica.
Francisco Milanez, um dos palestrantes do evento, falou sobre os riscos que o processo de branqueamento de fibras de celulose com a utilização de Cloro representa para os moradores e para o município. Milanez também alertou para os impactos causados pela grande quantidade de eucaliptos plantados no bioma Pampa.
O tema também foi abordado pelo presidente da Agapan, engenheiro agrônomo Dr. Leonardo Melgarejo, que, durante a abertura do Agapan Debate, alertou para o grande consumo de água por parte dos eucaliptos. Melgarejo falou ainda sobre os perigos para a economia local e para os produtores gaúchos, que ficam reféns da indústria de celulose, que monopoliza o mercado comprador de eucaliptos no RS.
Uma das moradoras a se manifestar foi Cristiane Montemezzo, que criticou os ruídos e o característico odor de ovo podre. Ela disse que a comunidade fez inúmeras reclamações para a diretoria da fábrica e para a Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), mas que os problemas permanecessem.

Moradora relata impactos da fábrica
