Enio Squeff*
Talvez seja possível entender a imensa indignação das pessoas com a reeleição de Dilma Rousseff.
Da multidão de personalidades chiques, charmosos famosos e muitos de seus apoiadores fora dos estádios, que xingaram de forma desabrida a presidenta, em plena Copa do Mundo, de uma maneira, no mínimo, indecente e estúpida, só se podia esperar mesmo a atual violência, por enquanto verbal.
A revolta dos médicos talvez seja a mais sintomática e assustadora: que juramento de Hipócrates, qual nada! O que vale são os estritos e inaceitáveis juramentos de lealdade a uma corporação argentária que surpreende pelo elitismo e pela total ausência de vergonha à exposição pública de seus preconceitos e mesquinhez.
Mas a violência deve ser analisada.
Pode ser uma mera demonstração explícita de paranóia dizer que estamos a um passo da nazificação do Brasil.
Mas a crer nos testemunhos da guerra civil que ensangüentou os Balcãs, há que se pôr a barba de molho.
Li em alguns depoimentos dos Balcãs, que o sujeito acordava pela manhã com seu vizinho a empunhar uma metralhadora, a atirar nele e na sua família. No entanto, até o dia anterior, as comunidades muçulmanas, sérvias – católicas ou não – cumprimentavam-se cerimoniosamente, com decidido afeto.
Respeitavam-se. Eis, porém, que em nome da xenofobia devidamente incentivada pelas mídias étnicas, assumir-se como assassino fez-se, de repente, uma espécie de obrigação.
Por que? A imprensa brasileira, quem sabe, possa dar algumas explicações.
Começa por um dado humano. Nada pior para um jornalista do que ver suas
previsões irem por água abaixo.
O mantra de que o país está à deriva, parece ser uma motivo condutor, assim que o sujeito senta no computador para seu trabalho diário.
O dito do Catão de que “Cartago delenda est”- ou seja, de que “Cartago, ou melhor, Brasília, “deve ser destruída” explica-se na medida das frustrações não cumpridas com as pajelanças diárias que a maior parte dos jornalistas promove.
Uma moça da Globo News, para os efeitos do que seu patrão exige – referiu-se, há dias, ao Brasil como uma espécie de país longínquo: não temos o nosso governo – mas “esse governo”.
Difícil, na verdade, é então, conter o ódio, quando a inflação, ao contrário da afirmação do mês anterior, não se mostra “fora de controle”.
Em nenhuma democracia do mundo, a denúncia de um meliante assume foros de verdade como no Brasil.
Aqui, se um criminoso é preso, e se há suspeitas de seu envolvimento com políticos – os que primeiro aparecem, mesmo sem provas, são os governistas. É a denúncia seletiva.
Mas a idéia de que a delação premiada absolve o criminoso, in limine, de qualquer suspeita de que ele mente, quando afirma que uma senadora do PT recebeu alguns milhões para a sua campanha, será sempre o corrente, para a verdade insuspeita de que ela é corrupta.
Dá-se então que na campanha diária, a que se dedica a imprensa oposicionista – ou seja, quase toda a imprensa – , cada palavra do criminoso passe a ser tida como uma verdade insofismável.
Entre os jesuítas, era corriqueira aceitação de que quando Roma falava não havia mais dúvida. Mude-se a idéia para o Brasil, e o Roma locuta, causa finita, dos jesuítas, será sempre tão impositivamente aceito.
A velha questão de que o tempo poderá dizer se tal coisa é verdade, já não passa mais pelo imaginário coletivo. A imprensa diz, logo, não há dúvida.
Assim, se o governo afirma que “não há risco de racionamento de energia”, o fundamental, o correto é precisar no título que “não é bem assim”. E um especialista caçado, algures, não só dirá o contrário. É o bastante para a manchete compulsória do dia seguinte.
A Copa do Mundo foi exemplar. Não bastou que numerosos especialistas que pregavam a impossibilidade de o Brasil construir estádios, como o fez, terem sido desmentidos pelos fatos.
Diante da evidência de que a imprensa errou, claro que ninguém ou muito poucos de seus crédulos leitores se convenceram de que eles também tinham errado.
Diante da evidência da falha de profecia, como não compreender uma compensação enraivecida bradada aos sete vento e para o mundo: “Dilma vai tomar no cu!” ?
Por que? Justamente por causa da frustração – não é preciso ser psiquiatra para explicar o fracasso do Brasil em campo: a garotada que vestiu a camisa verde amarela já estava fadada ao fracasso. Eram traidores para a quase totalidade da imprensa.
O Brasil fazia estádios padrão Fifa, mas não construía escolas nem hospitais: logo, entregaram-se à faina fadada ao fracasso de antemão, de jogarem numa Copa em tudo odiada pelos torcedores conformados pela mídia.
Perder de forma humilhante, essa talvez a compensação inconsciente consentida à massa que xingou o governo por ter feito estádios que até ontem a imprensa dizia não poderem ser construídos. Como foram concluídos a tempo e se tornaram um exemplo para o mundo, o “vai tomar no cu” foi a fórmula salvadora encontrada.
Como na Alemanha nazista, a cada revés havia que pegar um judeu.
Vem sendo assim desde que se decretou o costume da morte dos bodes expiatórios.
O pior, no entanto, o mais grave não são os chiques, o beautifull people et catervaa vomitarem seus preconceitos, ou os basbaques a lhes repetirem para, quem sabe, se fazerem à imagem e semelhança de seus ídolos (os chicosos) – mas os intelectuais ou pseudo intelectuais, a aceitarem perfeitamente que uma Marina Silva lhes pudesse honrar; ou de ser o que ela dizia que era.
Como explicar que não lessem a biografia da senhora, onde o maior especulador do mundo, George Soros, aparece como seu principal incentivador- logo ele que é um dos maiores investidores na indústria da morte, a armamentista – que aparece a todo o momento sempre como seu guru – e que transformassem tal informação não em decepção com a candidata, mas em “mais uma perfídia” do governo?
“Eu odeio o PT” – a frase é dita e repetida com tranqüilidade por muitos.
Se isso quer dizer alguma coisa, não é propriamente que os ditos intelectuais tenham qualquer razão para seu ódio – mas de que têm a desrazão dos autênticos seguidores da máxima fascista de que a raiva é mais importante do que qualquer exercício reflexivo. É o anti-intelectualismo. “Viva la muerte, abajo la inteligencia”. Claro, não se fale dos cronistas das rádios e das televisões, ou dos respectivos bloqueiros da grande mídia. São mentirosos, pagos para mentirem, injuriarem e se possível, matarem ( ainda que indiretamente). São sicários intelectuais. Não matam com suas próprias mãos, mas incentivam o assassínio moral.
Não dizem que a Justiça Italiana absolveu Pizzolato por terem sido encontrados erros gritantes na ação 470.
Inventam que vivemos na Venezuela (quando nem a própria existe, como eles a pintam). Vendem suas mentiras a peso de ouro – o que, afinal, os explica.
No momento seguinte, porém, como são sinceramente invejados por terem seus nomes estampados nas colunas dos grandes jornais e das estações de rádio e TV, logo têm intelectuais até respeitáveis, a se fazerem seus porta-vozes.
Desisti sinceramente de romper com pessoas, amigos ou chegados, por suas falhas de caráter, covardia ou simples insensatez. Os vertebrados intelectuais sempre existiram. E alguns revelaram-se grandes intelectuais, apesar de sua pusilanimidade.
Elia Kazan colaborou com o macartismo e não deixou de ser um grande cineasta. Nelson Rodrigues foi um entusiasta do golpe militar brasileiro – e não se tornou um mau dramaturgo apesar disso.
Ou seja, isso acontece, mas nunca entendi, nem entendo, como certos sujeitos medianamente informados puderam acreditar nos candidatos da mídia na eleição que passou.
Ou bem não sabiam quem eram – o que é grave, pois bastaria que lessem um pouco além dos jornalões. Ou sabiam e sabem – mas gostaram do que leram e ouviram.
Aceitaram, em suma, se encontrarem na estupidez e no ódio. E no fascismo.
Deverão engrossar logo, logo, a fileira dos saudosistas dos golpes.
*Jornalista e artista plástico
Categoria: X.Categorias velhas
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Quando o xingamento justifica o fascismo
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Um grande painel da resistência à ditadura
GERALDO HASSE
O jornalista gaúcho Ayrton Centeno vai autografar na Livraria Saraiva do Moinhos Shopping, em Porto Alegre, às 19 horas do dia 18 de novembro, o livro Os Vencedores, um catatau de 856 páginas produzido pela Geração Editorial.
Seus personagens são os derrotados de 1964 e 1968 que chegaram ao poder a partir do final do século XX.
Nas livrarias Saraiva, o livro, que custa R$ 69,90, está por R$ 55,90. O e-book sai por R$ 24,90.

Ayrton Centeno
Os Vencedores não é o primeiro livro de Centeno, autor da competente biografia do ecologista Henrique Luís Roessler (JÁ), mas é seguramente o maior e o que lhe exigiu mais fôlego para captar as dimensões humana e política de personagens presentes na história brasileira dos últimos 50 anos.
A maioria dos 25 vencedores focalizados por Centeno – entre eles Dilma Rousseff, Lula, Carlos Araújo, Frei Betto, Tarso Genro e Raul Ellwanger – passou pela cadeia ou pelo exílio e sangrou na mão de policiais civis e militares a serviço da ditadura.
Suas histórias são mais ou menos conhecidas graças a dezenas de livros e filmes, mas de cada um Centeno captou a essência nem sempre presente em outros depoimentos.
Tudo somado, tem-se um rico painel do movimento de resistência à ditadura realizado por advogados, políticos, militares, artistas, estudantes, professores, jornalistas, operários, sindicalistas e outros profissionais.
O projeto levou três anos para ser concluído, além da sua expeiência de quase quarenta anos como jornalista.
É um livro jornalístico editado com o cuidado de uma obra de história. A cada um dos 26 capítulos corresponde um bloco de fotos. O índice onomástico ocupa 35 páginas. As notas de referência exigiram 74 páginas.
Para quem tem tempo e disposição, é livro para ser devorado em poucos dias. Para quem só lê à noite para chamar o sono, Os Vencedores pode ser excelente companhia do Natal ao Carnaval.

O ator José de Abreu já leu Os Vencedores,já à venda -
Militarismo, prelúdio das guerras mundiais
Mariano Senna*
Um mundo dividido entre dois blocos de poder. Cada um com sua ideologia, seu plano, seus objetivos.
Um mundo em crise, combalido por uma depressão econômica arrastada por décadas.
Pessoas desempregadas, cansadas, sem perspectivas, perdidas numa transição global sem fim. Divididas enfim, dentro do mesmo espaço geográfico e social.
Ao fundo, um nacionalismo crescente, ufanista, apresentado como receita da salvação.
O resultado inescapável são conflitos regionais, guerras civis, golpes de Estado por todos os lados. A instabilidade como palavra-chave.
Esse é o prelúdio da segunda guerra mundial, resumido pela revista The Atlantic, em um documento literário e fotográfico (http://www.theatlantic.com/infocus/2011/06/world-war-ii-before-the-war/100089/).
Guardadas as devidas proporções, é possível ver as semelhanças com o momento atual.
O principal sinal é justamente o fortalecimento do belicismo como máquina política e econômica. Um velho artifício de nações que se julgam desenvolvidas.
O paralelo pode ser estendido à primeira guerra também.
Em outubro o Plymouth Institute for Peace Research da Grã-Bretanha (http://www.pipr.co.uk/all/dark-clouds-loom-in-the-shadow-of-the-first-world-war-noam-chomsky-discusses-isis-ukraine-and-gaza/) entrevistou Noam Chomsky, professor emérito do MIT (http://web.mit.edu/linguistics/people/faculty/chomsky/), considerado um dos maiores intelectuais vivos da atualidade.
A ideia era fazer uma comparacão com a situacão atual, e a que precedeu o início da primeira grande guerra há cem anos. A diferença principal, segundo Chomsky, são as armas nucleares.
“Temos escapado à auto-aniquilacão quase que por milagre, ignorando o alerta feito por Bertrand Russell e Albert Einstein em 1955, de que se não quisermos por um fim à raça humana, a humanidade deve renunciar à guerra como meio político”, lembrou ele, chamando a atenção para o fato de que a maioria dos intelectuais em todos os países está dedicada a fortalecer os interesses de seus Estados.
Ou seja, trabalham para justificar os meios bélicos e violentos como único caminho possível para a paz. “Os que fogem à regra são punidos por sua sanidade e integridade”, diz Chomsky.
Denunciando com fatos históricos e geopolíticos a política criminosa de Israel frente aos palestinos, o intelectual norte-americano afirma que há uma “construção forjada” da realidade no oriente médio, com o objetivo de justificar e promover o conflito na região.
O recente surgimento do “Estado Islâmico” (IS, ISIS ou ISIL em inglês) é um bom exemplo.
“Trata-se de uma consequência das atrocidades cometidas pelo exército norte-americano no Iraque, o que incitou conflitos sectários, destruindo de fato o país como unidade nacional”.
A coisa fica ainda mais complicada, considerando que até o momento a única força capaz de deter o avanco dos milicianos do Estado Islâmico foram os curdos, habitantes da quadrúplice fronteira entre Turquia, Síria, Irã e Iraque. Quer dizer, norte-americanos e europeus estão armando os curdos do PKK (Partido do Curdistão), inimigos do governo turco, que é crítico ferrenho do governo israelense, este por sua vez aliado estratégico de Washington na região.
E mais, Noam Chomsky acusa explicitamente o governo dos Estados Unidos e aliados, como a Arábia Saudita, de apoiar por décadas grupos islâmicos fundamentalistas para fazerem oposicão ao nacionalismo secular. Este último, um problema político desde que vastas reservas de petróleo foram descobertas ali.
Chomsky ainda cita o jornalista e expert naquela região, Patrick Cockburn, para descrever a estratégia Norte-Americana como uma “construção de Alice no País das Maravilhas”. Propondo combater ambos, o Estado Islâmico e os inimigos deste ao mesmo tempo. Diplomacia internacional? “Isto é praticamente impensável na cultura política dos Estados Unidos”, lamenta o professor do MIT.
Na Ucrânia a abordagem é semelhante. “Washington violou a promessa verbal feita a Gorbachev, e tem promovido sistematicamente a expansão da OTAN para o Leste, até as fronteiras da Rússia, e ameaçando incorporar a Ucrânia”, aponta ele. Tal política vai contra as ligações históricas e culturais entre russos e ucranianos, fora a enorme implicação estratégica para ambos. Para Chomsky, a atual crise na Ucrânia é culpa do ocidente, mas sem isentar a autocracia russa.
Ao final da entrevista, Noam Chomsky comenta como que esperançoso: “Nós estamos marchando resolutamente em direção a uma crise ambiental que irá se sobrepor a outras preocupações em um futuro não muito distante”. Mas a ideia de que a catástrofe irá nos salvar contraria o pensamento de um dos maiores expoentes do ambientalismo brasileiro de todos os tempos. José Lutzenberger, apesar do seu notório catastrofismo, dizia que apesar de todas as mazelas ecológicas do mundo moderno, a maior de todas as tragédias humanas sempre foi a guerra. Até porque uma coisa não exclui a outra. Muito pelo contrário.
*Mariano Senna é jornalista brasileiro e vive em Berlin. -
Caça às baleias: história de uma guerra sangrenta
Está chegando às livrarias um livro escrito por dois britânicos que contam uma das histórias mais sangrentas do Brasil. A caça às baleias começou no início do Brasil Colônia e passou por diversos ciclos de exploração — principalmente por noruegueses e depois por japoneses — até chegar a 1985, quando foi proibida, após debates intensos na maré montante do movimento ambientalista.
Quem viu as baleias se transformarem recentemente em um dos xodós do ambientalismo internacional, ao lado dos ursos polares, das focas, dos leões marinhos e dos coalas, não imagina a extensão da batalha travada para banir a caça do litoral brasileiro.
Nos séculos antes da luz elétrica, o óleo de baleia era usado na iluminação de casas e ruas. Também foi empregado para cimentar muros e paredes de pedra. No século XX, quando a carne de baleia se tornou uma iguaria da culinária japonesa, o Japão foi o último país a resistir na caça feita com arpões disparados por canhões montados em barcos frigoríficos. Foi um massacre que levou a espécie à beira da extinção.
Os japoneses perderam a guerra depois que ambientalistas filmaram a agonia das baleias feridas e cercadas por filhotes aflitos em meio a lagoas de sangue. Livres, as baleias se tornaram atração turística em pontos do litoral, como Imbituba, SC. Apenas no Brasil, estatísticas do final da década passada registram mais de 200 mil avistamentos de baleias.
O livro editado pela Disal custa R$ 49. A editora tem loja em Porto Alegre (Mostardeiro, 333), mas este ano não participa da Feira do Livro. Suas obras devem ser expostas na banca da Cervo.
Os dois autores, William Edmundson e Ian Hurt, são veteranos que já publicaram outros livros de História. “A História da Caça às Baleias” foi escrita em inglês e traduzido para o português por Edmundson, que vive em João Pessoa, a última fortaleza dos açougueiros do mar, que operavam com licença do governo brasileiro.
Geraldo Hasse com informações de Raissa Souto, da EccoPress -
Nova lei afastou conselho das decisões sobre antenas
TANIA JAMARDO FAILLACE*
Na reunião do Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano e Ambiental, de Porto Alegre, nesta terça-feira, 4, constatou-se que foi descartada a participação da comunidade como avaliadora da Viabilidade Urbana e Ambiental para instalação das antenas da telefonia móvel – as torres da Claro, Vivo e OI, que aumentam o índice geral de radiações cancerígenas em nosso ambiente.
Até a mudança da lei, pela nossa Egrégia Câmara Municipal de Porto Alegre, as ERBs estavam sujeitas à avaliação dos Conselheiros, que pediam diligências técnicas e inclusive se dirigiam aos locais para saber de eventuais infrações à legislação, como a proximidade de certos ambientes de concentração populacional ou vulneráveis, como escolas, hospitais, hospitais, centros de radiodiagnósticos, clínicas e outros.
Pois os vereadores de Porto Alegre, comprovando para quem realmente trabalham na Câmara, aceitaram o pedido da prefeitura para que as ERBs não fossem obrigadas a apresentar o EVU-Estudo de Viabilidade Urbanística (e Ambiental) ao CMDUA.
O CMDUA já havia apresentado muitas reclamações sobre a verdadeira “zona” nesse setor, e proliferação de ERBS sem licenciamento por toda a cidade, e em locais inadequados, ou colaborando para agravar a situação de baixa salubridade do ambiente urbano em Porto Alegre.
A solução encontrada pelas empresas, a prefeitura e os vereadores, foi tirar essa atribuição do CMDUA, para facilitar a vida das empresas de telefonia (que não são de telefonia, mas de rádio-comunicação, como a maioria das pessoas não atenta – a telefonia verdadeira segue em cabos blindados sob a terra, ou em alguns casos, aéreos em instalações antigas, e não emitem radiações)
Alegou-se que já existia um conselho técnico a respeito e a opinião popular não era importante. Nem a democracia, pelo visto.
Talvez fosse oportuno que ambientalistas e cidadãos de Porto Alegre se pronunciassem a respeito e se estão de acordo em permitir que esses licenciamentos sejam assunto de “amigos” e não de interesse público.
Ao que parece, mais dia menos dia, seremos convidados (se formos) a votar num referendo pela instituição da Monarquia em Porto Alegre, em que caberá à população apenas prostrar-se diante dos poderosos.
*Jornalista e ativista social de Porto Alegre, RS -
Porto Alegre, 38 graus
As fontes de água decorativas, alinhadas no Largo Glênio Peres, entre o Mercado Público e o Quiosque da Praça XV, ao lado do Paço Municipal, mostraram que terão um “desvio de função”.
Estão servindo para refrescar pessoas que passam o dia no centro e não suportaram o calor de 38 graus centígrados, no início da tarde.
O desconforto de todos com o calor era tanto, que ninguém, ousou reprimir.
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Geólogos da USP querem água do Aquífero Guarani para São Paulo
Geólogos da Universidade de São Paulo (USP) elaboram um estudo para saber se é possível retirar água do Aquífero Guarani para abastecer a região de Piracicaba, aliviando o Sistema Cantareira. A proposta é analisar a viabilidade da construção de 24 poços artesianos no município de Itirapina, região oeste do estado, onde o aquífero pode ser acessado de forma rasa. A análise será apresentada, em aproximadamente um mês, ao comitê criado pelo governo estadual para administrar a crise hídrica no Cantareira. O sistema chegou a 13% da capacidade de armazenamento, após o início da utilização da segunda cota do volume morto.
O professor Reginaldo Bertolo, do Instituto de Geologia, explica que o estudo inclui a simulação, por meio de um modelo matemático, da extração de 150 mil litros de água por hora. “Queremos avaliar se o aquífero suporta essas vazões em longo prazo”, apontou. A análise baseia-se em um artigo publicado em 2004 por um grupo da Universidade Estadual Paulista (Unesp). De acordo com o trabalho, a região de Piracicaba fica distante cerca de 60 quilômetros (km) em linha reta, o que diminui os custos de um transporte da água direta para a capital. Outra vantagem é que o desnível geográfico entre as regiões de captação e consumo favorece o deslocamento.
Mesmo em fase de pré-viabilidade técnica, Bertolo acredita que essa pode ser uma alternativa interessante para o abastecimento de parte da região que deveria receber água do Cantareira. Ele destaca, no entanto, que é preciso fazer o uso sustentável dessa água para evitar novas crises. “A gente precisa ter a recarga no aquífero para que ele continue dando água. Se a gente tiver em longo prazo a certeza de que a chuva vai continuar caindo e o aquífero recarregado, uma vazão de 1 metro cúbico por segundo é uma vazão segura”, apontou. O Aquífero Guarani é a maior reserva estratégica de água doce da América Latina.
Atualmente, o aquífero abastece a maior parte das cidades do oeste paulista. “Observe que a crise de abastecimento de água está mais crítica nos municípios do centro-leste do estado”, avaliou. Isso ocorre, segundo Bertolo, porque eles têm maior segurança hídrica com a água oriunda dos aquíferos Bauru e Guarani. Entre os municípios abastecidos dessa forma, o professor destaca Ribeirão Preto, São José do Rio Preto, Araçatuba, Presidente Prudente, Marília, Bauru, entre outros. Ele explica que a profundidade das águas subterrâneas exige tecnologia complexa de engenharia, similar à utilizada para encontrar petróleo, para cavar os poços profundos.
(Da Agência Brasil) -
Na fala da vitória, Dilma falou em “solidariedade”
GERALDO HASSE
Dizem os comentaristas, e muitas pessoas repetem, que a presidenta Dilma Rousseff foi reeleita pelo Brasil “preto e pobre”, “comprado” pelo dinheiro do Bolsa Família e os subsídios do Minha Casa Minha Vida e algumas bolsas de estudos do Prouni etc.
É uma visão estreita do resultado eleitoral. Estreita, elitista e repleta de mágoa. Querem nos provar que o pobrerio “roubou” de Aécio Neves uma vitória estrondosa que traria de volta o modo neoliberal de governar, privilegiando as finanças e recolocando os trabalhadores no lugar subalterno que lhe cabe na história do capitalismo.
Dizem que temos um país dividido. Quem o diz são os perdedores. Desde quando somos um país unido?
O que emergiu das urnas foi o país que sobrou da abolição da escravatura, que jogou na miséria quase a metade da população brasileira da segunda metade do século XIX.
O resgate sociocultural e econômico mal começou. Temos pela frente 300 anos de medidas compensatórias para equalizar o Brasil rico e o Brasil pobre. Esses dois brasis já deviam estar mesclados e unido, mas seguem separados pela insensibilidade das elites.
O resultado das eleições de 2014 nos traz de volta o humorista Henfil. Há 40 anos ele foi morar em Natal para ver melhor as diferenças com o Sul maravilha, expressão inventada por ele para enfatizar a distância econômica do Nordeste pobre. Henfil, como seu irmão Betinho, era um atormentado pela justiça social, tarefa elementar que mal começou.
Os cidadãos bem plantados na vida podem ignorar as vissicitudes dos esquecidos e deserdados, mas os governos não podem fechar os olhos para a realidade. Dar oportunidade aos desvalidos é um preceito constitucional, além de ser um ato humanitário elementar.
A equalização se impõe não apenas no acesso à comida, mas aos direitos elementares da cidadania. Enquanto o Brasil rico não entender isso, continuaremos a ser um país dividido, mas não pelas urnas.
O Bolsa Família é o degrau mínimo para tocar pra frente o milagre da distribuição de benesses e oportunidades do progresso. Junto com o pão, o Estado tem de oferecer escola, posto de saude, remédios, emprego, casa própria, lazer. É o trivial variado dos discursos eleitorais. Os candidatos prometem e depois esquecem.
Não foi por acaso que no discurso da vitória Dilma falou em “solidariedade”. É a palavra certo no momento exato. Como dizia Aécio Neves, ela vai “aprimorar” os programas sociais. Se esquecer os pobres, queima seu filme.
É hora de estender a mão aos caídos pelo caminho. Aos derrotados de ontem, por que não?, mas também e principalmente aos de 1964, 1888, 1789 e todos os 500 anos de nossa História. -
O que há por trás da capa de Veja
Luis Nassif*
A aventura irresponsável de Veja – recorrendo a uma matéria provavelmente falsa para pedir o impeachment de um presidente da República – não se deve a receios de bolivarianos armados invadindo a Esplanada.
Ela está sendo derrotada pelo mercado, pelo fato de que, pela primeira vez na história, a Internet trouxe o mercado para o setor fechado, derrubando as barreiras de entrada que permitiram a sobrevida de um jornalismo anacrônico, subdesenvolvido, a parte do país que mais se assemelha a uma republiqueta latino-americana.
É um caso único, de uma publicação que se aliou a uma organização criminosa – de Carlinhos Cachoeira – e continuou impune, fora do alcance do Ministério Público Federal e da Polícia Federal.
A capa de Veja não surpreende. Há muito a revista abandonou qualquer veleidade de jornalismo.
Acusa a presidente da República Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula de conhecerem os esquemas Petrobras com base no seguinte trecho, de uma suposta confissão do doleiro Alberto Yousseff:
– O Planalto sabia de tudo – disse Youssef.
– Mas quem no Planalto? – perguntou o delegado.
– Lula e Dilma – respondeu o doleiro.
Era blefe.
Na sequência, a reportagem diz:
“O doleiro não apresentou – e nem lhe foram pedidas – provas do que disse. Por enquanto, nesta fase do processo, o que mais interessa aos delegados é ter certeza de que o depoente atuou diretamente ou pelo menos presenciou ilegalidades”.
Na primeira fase da delação premiada tem-se o criminoso falando o que quer. Enquanto não apresentar provas, a declaração não terá o menor valor. E Veja tem a fama de colocar o que quer nas declarações de fontes.
Ligado ao PSDB do Paraná, o advogado de Yousseff desmentiu as informações. Mas não se sabe ainda qual é o seu jogo.
As apostas erradas da Abril
Golbery do Couto e Silva dizia que a mentira tem mais valor que a verdade. A verdade é monótona, tem uma só leitura. Já a mentira traz um enorme conjunto de informações a serem pesquisadas, as intenções do mentiroso, a maneira como a mentira foi montada.
Daí a importância da capa de Veja: permitir desvendar o que está por trás da mentira.
A primeira peça do jogo é entender a posição atual do Grupo Abril.
Apostas de altíssimo risco só são bancadas em momentos de altíssimo desespero.
A tacada da Veja torna quase irresistível a proposta de regulação da mídia e de repor as defesas do cidadão que foram suprimidas pelo ex-Ministrio Ayres Britto, ao revogar a Lei de Imprensa.
Qual a razão de tanto desespero nessa aposta furada?
A explicação começa alguns anos atrás.
No mercado de mídia, o futuro acenava para o advento da Internet e da TV a cabo e para o fim das revistas e do papel. As apostas da Abril foram sempre na direção errada.
Ela montou um dos primeiros portais brasileiros, o BOL, que posteriormente fundiu-se com a UOL. Graças à sua influência política, conseguiu frequências de UHF e canais de TV a cabo.
A editora endividou-se e, para tapar buracos, Civita foi se desfazendo de todas as joias da coroa. Passou os 50% que detinha na UOL para a Folha – por um valor insignificante; vendeu a TV A para a Telefonica.
Associou-se ao grupo sul-africano Naspers, em uma operação confusa, visando burlar o limite de 30% para capital estrangeiro em grupos de mídia, previstos na lei.
Não parou por aí.
Adquiriu duas editoras – a Atica e a Scipionne –, que dependem fundamentalmente de compras públicas, confiando no poder de persuasão dos seus vendedores junto à rede escolar. A decisão do MEC (Ministério da Educação) de colocar todos os livros em uma publicação única, para escolha dos professores, eliminou sua vantagem comparativa.
Aí decidiu investir em cursos apostilados para prefeituras, um território pantanoso. Finalmente, “descobriu” o caminho das pedras, passando a direcionar todas suas energias para a área de educação.
Para tanto, criou uma nova empresa, a Abril Educação, colocou debaixo dela as editoras e os cursos e contratou um executivo ambicioso, Manoel Amorim, que aumentou exponencialmente o endividamento do grupo, para adquirir cursos e escolas.
Foi uma sucessão de compras extremamente onerosas, que deixaram o grupo em má situação financeira. A solução foi vender parte do capital para um grupo estrangeiro. Nem isso resolveu sua situação.
No ano passado, em conversa com especialistas do setor de mídia, Gianca Civita, o primogênito, já antecipava que a editora iria ser reduzida a meia dúzia de revistas e à Veja. Colocara à venda suas concessões de UHF e esperava que algum pastor eletrônico se habilitasse.
O cartel da jabuticaba
A editora viu-se depauperada em duas frentes. Uma, a própria decadência do mercado de revistas; outra, a descapitalização ainda maior para financiar a aventura educacional da Abril.
Além disso, foi vítima do maior tiro no pé da história da mídia brasileira: o “cartel da jabuticaba”.
Um cartel tradicional consiste em um pacto comercial entre competidores visando aumentar os preços e os ganhos de todos. O “cartel da jabuticaba” brasileiro foi uma peça genial (da Globo) em que todos se uniram contra a distribuição de parte ínfima da publicidade pública para a imprensa regional e para a Internet.
Alcançaram seu intento, mas não levaram o butim. A Internet não cresceu mas o resultado foi uma enorme concentração de verbas na TV aberta — e, dentro dela, na TV Globo.
Poucos meses atrás, o próprio João Roberto Marinho – um dos herdeiros da Globo – manifestava a interlocutores sua preocupação com a concentração da mídia. A Globo jogou em seu favor, óbvio; mas não contava com o despreparo das demais empresas sequer para entender onde estavam seus interesses.
Quando o faturamento do papel minguou, todos pularam para a Internet. Mas a piscina estava vazia graças às pressões que eles próprios fizeram sobre a Secom e as agências.
Hoje em dia, o mercado de TV a cabo passou a disputar acirradamente as verbas publicitárias. Se indagar de um executivo do setor se a disputa é com as revistas e jornais, ele dará de ombros: a imprensa escrita não tem mais a menor relevância; a disputa é com a TV aberta.
A bala de Fábio Barbosa
É esse quadro de crise nas duas frentes que explica a bala de prata de Fábio Barbosa.
Nos últimos meses, Fábio Barbosa contratou o INDG, de Vicente Falconi, para um trabalho de redução de custos da Abril, paralelamente à própria redução da Abril..
Falconi constatou o que o Blog já levantara alguns anos atrás: a estrutura de Veja era superdimensionada para o conteúdo semanal.
Na época, montei um quadro com todas as reportagens de uma edição, estimei o tempo-hora de cada repórter e editor e, no final, mostrava que seria possível entregar o mesmo conteúdo com um terço da redação.
Com metodologia muito mais gerencial, Falconi chegou às mesmas conclusões, resultando daí a demissão de várias pessoas em cargos-chave – inclusive Otávio Cabral, repórter das missões sensíveis da revista, que acabou indo trabalhar na campanha de Aécio.
Apenas amenizou um pouco a queda. Com as duas frentes comprometidas, a Abril entrou em uma sinuca de bico.
Com a morte de Roberto Civita, começou a enfrentar dificuldades crescentes para renovar os financiamentos. Desde o início do ano, os herdeiros de Roberto Civita estão buscando compradores para a outra metade da Abril Educação.
Antes disso, desde o ano passado, decidiram sair definitivamente da área editorial. Mas a legislação não permite à Naspers ampliar sua participação na editora. E, se não teve nenhum corte de verba oficial para suas publicações, por outro lado a Abril jamais encontrou espaço no governo Dilma para acertos e grandes negócios, como uma mudança na legislação sobre capital estrangeiro na mídia..
É nesse quadro dramático, que o presidente do grupo, Fábio Barbosa, tenta a última tacada, apostando todas as fichas em Aécio.
A última chance
A carreira anterior de Barbosa foi no mercado bancário. Foi sucessivamente presidente do ABN Amro, depois do ABN-Real, quando o banco holandês adquiriu o Real; depois do Santander, quando o banco espanhol adquiriu os dois.
No ABN e no Santander foi responsável por uma das maiores operações imobiliárias do mercado. No ABN participou do empréstimo de R$ 380 milhões para a WTorres adquirir o esqueleto da Eletropaulo, na marginal Pinheiros. Seis meses depois, a companhia não tinha mais recursos para quitar o financiamento. Entregou parte do capital aos credores.
Em 2008, ainda na condição de presidente indicado para o Santander, Fábio anunciou a aquisição da torre pelo banco por R$ 1 bilhão. “A aquisição desse imóvel é um marco e demonstra a determinação do Santander em investir para que tenhamos um Banco cada vez mais forte e competitivo”, afirma ele. (http://migre.me/ms7aW).
Atuou no início e no final da operação, assessorado por seu homem de confiança, José Berenguer Neto.
Em pouco tempo começaram a pipocar os problemas da WTorre. Atrasou a entrega da sede do Santander, que ingressou em juízo com pedido de indenização de R$ 135 milhões. A dívida fez com que a WTorre desistisse de lançar ações na Bolsa de São Paulo.
Em outubro de 2010 a obra continuava causando transtorno, sem ser entregue (http://migre.me/ms7Pc)
Em agosto de 2011, Fabio saiu do Santander. O clima azedou quando a direção se deu conta dos problemas criados. O presidente mundial Emilio Botin colocou um homem de confiança como espécie de interventor, levando Fabio a se demitir. Junto com ele saiu José Berenguer Neto, que assumiu um cargo na Gávea Investimentos, para atuar na área imobiliária.
Na época, executivos do banco ouvidos pela imprensa disseram que no ABN Fabio tinha plena liberdade; no Santander, não mais. Fabio deixou o banco sendo elogiado pelo sucessor.
O episódio não causou tanto estardalhaço quanto a tentativa de Barbosa, no comando da Veja, de tentar um golpe de Estado armado com um 3 de paus.
Revista enfrenta sete processos por calúnia
O PT e os partidos que fizeram parte da Coligação Com a Força do Povo, que reelegeu Dilma Rousseff presidente no domingo (26), encaminham sete ações na Justiça contra a revista Veja. A publicação cravou, sem provas e a dois dias do segundo turno, que tanto Dilma quanto Lula “sabiam de tudo” no caso da Petrobras, investigado na Operação Lava Jato.
Um dos pedidos foi encaminhado ao Tribunal Superior Eleitoral. A Corte chegou a condenar Veja a publicar direito de resposta à Dilma e considerou a “reportagem” um peça eleitoral em favor do adversário Aécio Neves (PSDB), determinando a suspensão de sua publicidade.
Foi necessário que o TSE emitisse um novo despacho após a condenação, ameaçando multa de R$ 500 mil por hora, para que o portal da revista cumprisse a decisão judicial nos termos apresentados pelo ministro Admar Gonzaga.
“Ao TSE, será encaminhado pedido de direito de resposta, inclusive na revista Veja Online, por se tratar de reportagem mentirosa, caluniosa e difamatória. Encaminha-se, ainda, uma representação para impedir qualquer publicidade desta edição da revista em rádio, TV e outdoor por configurar propaganda eleitoral negativa”, informou o PT.
Ao Ministério Público Federal, um pedido de instauração de procedimento de investigação para apurar os abusos cometidos pela revista com a intenção de prejudicar a candidatura de Dilma e influenciar o resultado das eleições presidenciais de 2014 também foi encaminhado.
*Fonte: Jornal GGN, com o título “A última tacada de Fábio Barbosa e da Editora Abril” -
Regulação da mídia foi destaque em seminário da Ajuris
A Associação dos Juizes do Rio Grande do Sul marcou seus 70 anos com um seminário sobre “A Liberdade de Expressão na América Latina”. As leis existentes e as propostas para regulação da mídia foram o tema de duas palestras no dia 23/10.
Na primeira palestra o conselheiro de Comunicação e Informação para o Mercosul e Chile da Unesco, Guilherme Canela Godoi, destacou “os muitos avanços registrados nos últimos trinta anos quanto à liberdade de imprensa mídia na América Latina”.
Citou, como exemplo. o fato de todos os países da região, exceto Cuba, terem a liberdade de expressão consagrada em suas constituições.
Listou três “desafios centrais”: a criação órgãos reguladores independentes, a regulação adequada da concentração de propriedade e a violência contra jornalistas.
“São três questões que continuam em aberto e que precisam ser aprimoradas para a garantia de mais liberdade de expressão e não menos”, frisou.
O palestrante ressaltou como fundamental o entendimento de que o tema não é responsabilidade de um determinado poder ou de parte da sociedade, mas de todos.
“A liberdade de expressão é a pedra angular da consolidação dos regimes democráticos, sem ela não haverá avanços’’, salientou.
Assim, ressaltou a importância de que os atores públicos, privados e a sociedade civil organizada compreendam a necessidade de um esforço coletivo visando a constante evolução do cenário.
“As medidas são de diferentes ordens. Há medidas legislativas, de capacitação desses atores, há medidas de monitoramento da sociedade civil, de autoregulação do setor empresarial. Enfim, é um tema complexo e seria ingênuo pensar que uma única medida vá avançar”, explicou.
O presidente da AJURIS, Eugênio Couto Terra, disse que, no Brasil e na América Latina, a regulação da mídia está marcada ideologicamente, com a equivocada associação do tema à censura. “Isso não é verdadeiro.Um marco regulatório eficiente, democrático, construído em conjunto com a sociedade, garante mais democracia, mais acesso a mídia”, afirmou.
O debate é inevitável e a Associação quer contribuir para o esclarecimento do assunto. O presidente lembrou que em 70 anos de história a entidade sempre assumiu um caráter propositivo, fortalecendo a discussão sobre questões sociais relevantes.
Na segunda parte do seminário, à tarde, ao tema foi “O controle social dos meios de comunicação” e palestrantes os jornalistas argentinos Martín Becerra, pesquisador dos Sistemas dos Meios de Comunicação na América Latina, e Fabio Ariel Ladetto, presidente do Foro de Periodismo Argentino (Fopea).
O painel teve como mediador o jornalista e professor da UFRGS, Flávio Porcello traçaram um amplo cenário do que a Ley de Servicios de Comunicación Audiovisual y Reglamentación mudou no país vizinho desde sua implantação em 2009.
Ambos acompanham a lei de regulação da mídia argentina desde seu início e, apesar de algumas distinções no modo de percebê-la, fazem coro sob um aspecto: os benefícios não são maiores por conta do próprio governo argentino.
Para Becerra, colaborador da criação da lei, ela tem sido mal aplicada pelo governo e tornou-se impulsionadora de disputas políticas e judiciais. Mas nem por isso pode ser desconsiderada ou propagada erroneamente como “lei da mordaça”, como segmentos políticos opositores e de imprensa do próprio país e de vizinhos da América Latina, inclusive no Brasil, têm informado.
A contrariedade em relação à norma recai principalmente ao item que limita a 30% de alcance da população o serviço dos canais licenciados – muito abaixo do que a maior parte dos conglomerados de mídia possui.
A lei permitiu, pela primeira vez na Argentina, que as decisões sobre liberações de concessões não ficassem exclusivamente com o governo.
Becerra lembrou que opositores políticos e membros da sociedade civil participam do órgão regulador, a Autoridade Federal de Serviços de Comunicação Audiovisual (AFSCA).
No entanto, Becerra avalia que o governo identificou no grupo Clarín, seu opositor, um inimigo formal. Na tentativa de desmembrá-lo e enquadrá-lo na limitação de alcance imposto pela lei, o governo faz vistas grossas para as demais empresas que atuam em igual condição.
“Há um abismo entre o que a lei planta e o governo realiza”, declarou o jornalista
A tentativa do Clarín é de arrastar as questões judiciais em curso, revela Becerra.
Como o mandato da presidente Cristina Kirchner se encerra no final de 2015, há a expectativa por um novo presidente mais alinhado com o grupo de comunicação – o deputado Sergio Massa e o ex-prefeito de Buenos Aires Mauricio Magri aparecem como os nomes mais fortes entre os pré-candidatos –, o que poderia amenizar a crise.
Já Ladetto, embora com uma linha mais crítica em relação à aplicação da lei, reforça a importância de sua elaboração para a democracia.
Segundo ele, a normativa rompeu com velhas práticas dos governos ditatoriais na Argentina, que concedia benefícios e concessões a seus parceiros políticos a partir de critérios pouco claros. “Essas medidas nunca privilegiaram o cidadão”.
Para ele, a lei não deve ser vista como uma censura às empresas de comunicação, mas sim como um elemento para defender os interesses da população.
“As normativas sancionadas em vários países latino-americanos para atualizar as regras sobre a comunicação social e as pendentes, como neste querido Brasil, são marcos que devem nos guiar a aprofundar os processos democráticos e a dar poder os cidadãos”, declarou.
Ambos palestrantes alertaram para o fato de que boa parte das novas concessões na Argentina atendem os interesses do atual governo.
O órgão responsável pelas licenças é AFSCA, que concedeu nestes cinco anos de legislação 1.200 licenças. Poucas delas ainda estão no ar.
Becerra acrescentou que, até o momento, o aumento nas produções regionais em meios audiovisuais foi pequeno.
A concentração permanece com Buenos Aires. “Faltam políticas que permitam o fomento das produções locais, o que dificulta a busca por maior audiência”.
Ladetto ainda questiona as outorgas concedidas. “Enquanto isso, houve decisões desconcertantes, como licenças para grupos que já têm meios, que potencia os setores concentrados, o que abertamente contradizem o postulado legal”, aponta Ladetto.
O mediador do painel, professor Flávio Porcello, elogiou a iniciativa da AJURIS que, ao celebrar 70 anos de história, escolhe fomentar o debate sobre um assunto de interesse da sociedade, mas pouco discutido. “A regulação da mídia não é um problema que afete a Argentina, o Brasil, esse ou aquele país, mas a todos nós”, refletiu.
O jornalista afirmou, ainda, ser fundamental encontrar meios de regularizar a atividade da comunicação social visando a beneficiar as pessoas. E frisou: isso não significa censura, repressão ou controle de ideias. “Ninguém é a favor da censura. Censura é uma coisa; regular, regularizar a situação da comunicação no país é outra”, lembrou. Para Porcello, debate é o instrumento mais adequado para atingir esse objetivo.
Particiram da abertura do evento, o chefe de gabinete do Governador, representando o Governo do Estado, Ricardo Zamora; o presidente do Conselho de Comunicação Social do TJ/RS, representando a Corte, desembargador Túlio de Oliveira Martins; o presidente da Assembleia Legislativa do Estado, deputado Gilmar Sossela; o subprocurador-geral para Assuntos Jurídicos, representando a Procuradoria Geral da Justiça, Ivory Coelho Neto; o Defensor público geral do Estado, Nilton Leonel Arnecke Maria; o Procurador geral do Estado, Carlos Henrique Kaiper; o diretor do Foro da Comarca de Porto Alegre, Nilton Tavares da Silva; o vice-presidente e corregedor do TRE/RS, representando o Tribunal, Luiz Felipe Brasil Santos; o integrante da Comissão de Comunicação Social e Relações Institucionais do TRT da 4ª Região, representando àquela instituição, desembargador Marcelo Gonçalves de Oliveira; o procurador-chefe da Procuradoria-Regional da República da 4ª Região, Marco André Seifert; o presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros, João Ricardo dos Santos Costa; e representando a OAB/RS, Ana Paula Oliveira Ávila.
O evento contou com patrocínio do Banrisul e apoio da Escola Superior da Magistratura e da Clínica de Direitos Humanos da Uniritter.
Áudios
O Seminário AJURIS 70 Anos teve transmissão, ao vivo, da Radioweb AJURIS. Os áudios já estão disponíveis no site da Associação.
(Com informações da Ajuris)
