Enéas de Souza*
Todo mundo está querendo mudanças. Inclusive a Dilma.
E por que ela não mudou?
Antes de tudo, é preciso dizer: ela e o Lula já mudaram muito o país. Mudaram a economia e a sociedade que FHC e os tucanos deixaram.
Mas, por que, mesmo querendo mudanças, a Dilma não mudou a economia nesse ano?
Não mudou porque não se muda uma política econômica num ano eleitoral, sobretudo uma política econômica de longo prazo.
A mudança de uma política econômica precisa e leva tempo.
Isso é o que diferencia a Dilma do Aécio, o que diferencia o governo do Lula e da Dilma do governo neoliberal é exatamente isso: uma política econômica de horizonte amplo. Ou seja, uma política que parta de um projeto, de um projeto de Brasil.
A Dilma pensa um Brasil com desenvolvimento econômico e com desenvolvimento social.
E para que tenhamos estes dois desenvolvimentos é indispensável que tenhamos uma trajetória de longo termo, baseado numa concepção de um futuro de nação.
As etapas para chegar ao longo prazo
Qual é o projeto de longo prazo para o Brasil? Vale dizer que neste momento o referido projeto deve partir da colocação do país num mundo hegemonizado pelas finanças internacionais e pela eletrônica em processo de expansão.
Diante da primeira, o Estado deve armar uma forte defesa econômica, com a finalidade de deter a devastação que elas provocam.
Não fazer da dívida pública um instrumento das finanças; não fazer do orçamento um avanço do comportamento financeiro; não fazer do superávit primário e dos cortes fiscais um meio para pagar juros, etc.
Isto significa que só o longo prazo, a busca do investimento produtivo, vai reorganizar o país, depois de um período exitoso, na pós–crise mundial, de definição e transição pelo consumo.
Este, para a classe média e para a classe baixa, foi usado com o fim de sustentar a atividade econômica e o emprego num período de ruptura cíclica.
Ou seja, o consumo deu forte alento ao Brasil desde 2008 até agora. Trouxe, é claro, um tempo para preparar a reformulação e a metamorfose brasileira.
Estamos assim, hoje, aptos para fazer parte da arquitetura de uma nova economia mundial hegemonizada pela eletrônica.
Com o propósito de diminuir, ou até mesmo neutralizar, as mortíferas políticas das finanças, chegou sim, a hora de construir a mudança.
Com isso, depois de nos protegermos do impacto inicial da crise financeira de 2007/8, conseguimos nos assegurar, neste momento, das condições de provocar o investimento. Cabe frisar enfaticamente: investimento produtivo.
Ou seja, nada a ver com o investimento financeiro. E a demora de resolver o norte produtivo tem que ver com a necessidade de instalar e começar uma nova dinâmica econômica.
O que importa é, sem dúvida nenhuma, um conjunto de investimentos que faça a economia deslanchar.
E o ponto fundamental desta fase já está localizado; e até já principiou o seu movimento.
Estamos falando do investimento em infraestrutura.
Para tal, foi e tem sido indispensável, uma pausa para prepará-lo, para programá-lo. E ainda há muito que fazer. Contudo há que ser explícito. Esta liderança só o Estado pode ter.
Trata-se de executar inúmeros projetos estatais através de investimentos oriundos, principalmente, da parceria setor privado-setor público, com a participação de capitais estrangeiros e/ou capitais nacionais.
Podemos, desta forma, definir este momento como a oportunidade de inaugurarmos uma ampla onda de investimentos em infraestrutura. Um dinamismo que cobre um espaço enorme: estradas, ferrovias, hidrovias, portos, aeroportos, armazéns, transportes urbanos, energia, etc.
E, também, produzirmos a base para a tecnologia vitoriosa, a infraestrutura eletrônica. Vem com toda a força um mar volumoso de recursos e de realizações na direção das condições futuras de produção.
Estes investimentos caminham para dar origem a uma segunda fase desta etapa do desenvolvimento. Virá com ela uma segunda plataforma de crescimento, originada de investimentos internacionais e nacionais no nível produtivo das cadeias globais de valor.
O campo a ser preenchido é o das novas tecnologias de comunicação e informação, é o da internet, é o da nanotecnologia, é o da biotecnologia. Investimentos no bojo de um projeto de nação.
Um projeto de desenvolvimento que pode assegurar não só o crescimento do PIB, o crescimento da renda, o crescimento do emprego, mas também uma liderança na América Latina, uma integração avançada no BRICs, um dialogo em posição média de força na composição da nova geoeconomia e geopolítica mundial. (E isto já começou com a proposição do Banco de Desenvolvimento e um Fundo de Assistência Mútua em caso de crise financeira, na última reunião dos BRICS em Fortaleza.)
Como linkar o curto e o longo prazo?
A grande questão aqui é organizar os problemas de curto prazo a partir do longo prazo. É preciso ter clareza total: é o longo prazo que comanda o caixa, que comanda o orçamento, que comanda os gastos, que comanda o superávit fiscal, que comanda a inflação, que comanda a moeda, que comanda o nível de taxa de juros, etc.
Trata-se de uma implantação de uma política de longo curso numa negociação com as dificuldades do imediato.
Portanto, não é o curto que comanda o seu oposto. E este movimento na direção do futuro, ao criar o investimento produtivo gerando mais empregos, vai reposicionar, vai hierarquizar as questões de hoje, as questões do curto e do curtíssimo prazo.
E é assim que a Dilma enxerga esta estratégia econômica. Por essa razão ela tem tanto interesse em mudar. E em mudar para introduzir as mais notórias alterações sociais que podem vir na educação, na saúde, na previdência, na segurança.
Uma sociedade brasileira que entre na sociedade eletrônica do século XXI. O que está em jogo, no limite, na posição da Dilma é um manejo adequado das exacerbações das finanças, produzindo o contraveneno básico, o desenvolvimento produtivo e social do Brasil.
Pois bem, existe um Projeto Aécio?
Em função do que dizem Aécio e Armínio Fraga, não. Eles dizem só palavras vagas. Nenhuma ideia. Shakespeare diria; “Words, words, words”. Não se fala em investimento produtivo.
Na verdade, falam ambiguamente em inversores, investidores. Na linguagem dissimulada das finanças, esses investidores, de fato, são investidores financeiros que vão atuar na bolsa, no mercado de títulos, sobretudo no mercado de títulos públicos.
E é por esse canal que a dívida do Estado vai se tornando uma fonte de lucratividade das finanças. E com isso se corrói insidiosamente o projeto de longo prazo. E por quê?
Porque os recursos públicos vão se dirigindo, vão se tornando, vão se encolhendo para soluções e decisões de curto e de curtíssimo período. Importa a especulação de hoje e não a economia produtiva de agora e de amanhã.
Está aí a significação daquilo que Armínio Fraga fala quando diz que o Brasil precisa mobilizar capital. Entenda-se: mobilizar capital para o jogo dos papéis públicos e privados. Entra-se por todos os poros nas veredas desses mercados e desaba-se no furacão do cassino financeiro.
Desta forma, não há projeto de Brasil, não há projeto de investimento produtivo.
Não há preocupação com uma multiplicidade simultânea de investimentos de infraestrutura para preparar a continuidade de expansão dos investimentos na produção.
Não há nem política, nem estratégia, nem projeto de país e nem de nação. Porque impera um objetivo único e obsessivo: a expansão dos investimentos financeiros.
Repito para enfatizar: expansão dos investimentos financeiros. Que são dinheiro que procura mais dinheiro. Capital que não passa pela construção de uma nova estrutura produtiva, que mergulha direto na vertigem do jogo da bolsa e dos inumeráveis ativos fictícios criados para o rodopio das finanças.
Não foi o que ocorreu freneticamente no período neoliberal de 1994 a 2002 no Brasil?
O que existe, na visão de Aécio, na visão do PSDB, é um projeto de Brasil como uma praça, como um local, como um vasto mercado da expansão financeira mundial, que é uma expansão instantânea. É a economia do hotmoney.
E o problema é que é uma economia para quem tem muito dinheiro, porque só muito dinheiro traz especulativamente muito mais dinheiro. E se você é classe média, o máximo que você deve ter é uma migalha, que pode desaparecer como aconteceu com muita gente na catástrofe americana de 2008.
Ou como na crise dos bancos na época de FHC, quando o Estado pagou para a reordenação do sistema financeiro brasileiro. É sempre o mesmo esquema. Eles ganham e o Estado, paga. E nós – você, eu e o país – somos quem perdemos.
Pergunte aos gregos, aos portugueses, aos espanhóis, aos italianos, se não é assim? Pesquise para ver. Não será, portanto, o recomeço da ciranda financeira que pretende Armínio Fraga quando propõe o banco central independente, sem a interferência do presidente do país? Não é uma autoimolação de Aécio Neves e do Brasil? Não será um projeto de abandono da produção e do emprego?
Para variar um pouco, veja o que aconteceu, em termos de trabalho, no período governamental de 1994-2002, aquele do PSDB e do FHC. As taxas de desemprego foram muito altas: Salvador chegou a 25 por centro.
Os salários caíram pelas ladeiras do Brasil. A informalidade e a precarização atingiram níveis inquietantes. Inúmeros direitos trabalhistas foram retirados por portaria, decreto, medida provisória e até mesmo por lei. E pasmem queridos leitores: em cada dois desempregados um era jovem.
O governo começou com 4,5 milhões de trabalhadores desempregados e terminou com 7 milhões. Pode? Se você gosta de perigo e de sofrimento e do desespero: vote no sorridente Aécio – a sedução do precipício, como disse um amigo.
O Brasil quer mudanças
Eis o momento hamletiano; ser ou não ser. Você tem um menu com dois pratos, você pode escolher. Que tipo de mudança você quer? Você vai mudar com Aécio para um país dos papéis financeiros e sem desenvolvimento produtivo e com desemprego? Ou você vai mudar com a Dilma para uma economia com infraestrutura e produção avançada, uma economia moderna, contemporânea e se inserindo, com direitos sociais e emprego, na 3ª Revolução Industrial?
*Economista (no Sul21)
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Dilma, Aécio e as mudanças que o Brasil precisa
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Democratização da mídia: eventos e mobilizações em vários Estados
Atividades marcam a Semana Nacional de Luta pela Democratização da Mídia, de 13 a 18 de outubro, e serão realizadas em vários estados
Militantes, ativistas, entidades e movimentos sociais e sindicais ligados à democratização da comunicação preparam uma série de mobilizações para a Semana de Luta pela Democratização da Mídia, de 13 a 18 de outubro. Como no ano passado, o principal objetivo das ações é dar visibilidade ao Projeto de Lei de Iniciativa (PLIP) Popular da Mídia Democrática.
O dia 17 (sexta-feira) concentrará as atividades da semana, por ser o Dia Nacional de Luta pela Democratização da Comunicação.
Além da coleta de assinaturas para dar suporte ao PLIP, haverá panfletagens, debates, atos públicos, seminários, passeatas e protestos pelo fim do coronelismo eletrônico, entre outras ações.
A programação já está confirmada no Rio de Janeiro, São Paulo, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte e no Distrito Federal (confira abaixo).
Outros estados devem confirmar ações no início da semana. A organização da semana é do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) e seus comitês.
Contexto
O 17 de outubro como Dia Nacional de Luta pela Democratização da Comunicação é comemorado desde 2003 e está relacionado ao Media Democracy Day, ou Dia da Democracia na Mídia (numa tradução livre), que em vários países ocorre no dia 18 de outubro.
Se há motivos para lutar por uma comunicação mais democrática em outros países, no Brasil não ficamos atrás. Para começar, apenas seis grupos controlam 70% da mídia nacional. Além da concentração, esses grupos operam oligopólios formados, inclusive, com a propriedade cruzada de emissoras de rádio e TV, revistas, jornais e portais noticiosos.
Essa concentração impede a pluralidade de opiniões e quase sempre empobrece a representação da diversidade política e cultural da sociedade. “Trabalhadores e movimentos sociais são hoje vozes silenciadas; mulheres, negros e a população LGBT são sub-representados e vítimas de estereótipo”, observa Rosane Bertotti, coordenadora-geral do FNDC.
Rosane lembra que quatro dos cinco artigos da Constituição Federal sobre comunicação ainda não foram devidamente regulamentados. “Com isso, os avanços que obtivemos em 1988 ainda não vigoram.
A lei de 1962 que trata de televisão e rádio, além de estar desatualizada, não estabelece garantias mínimas para pluralidade e diversidade no setor”.
O que o movimento pela democratização da mídia no Brasil reivindica não é mais novidade em muitos países, inclusive aqueles que são exemplo de nações democráticas, como Reino Unido, França e Estados Unidos.
Nesses três, a regulação democrática não é impedimento à liberdade de expressão. “Ao contrário, é sua garantia. O mercado, por seus próprios meios, não garante diversidade e pluralidade.
Por isso nosso PLIP da Mídia Democrática é mais do que atual, ele é necessário para que prossigamos aprofundando nossa democracia”, destaca Rosane.
Programação
Atividades nacionais
15/10 (quarta-feira) – Ato pela Democratização da Mídia, em Brasília (DF), durante V Plenária Nacional do Plebiscito Constituinte do Sistema Político.
16/10 (quinta-feira) – tuitaço e facebucaço sobre Lei da Mídia e Coronelismo Eletrônico (políticos que controlam concessões de rádio e TV)
Atividades nos estados
Alagoas
17/10 (sexta-feira), 14h – Aula pública sobre coronelismo eletrônico
Local: em frente à TV Gazeta (Maceió)
Ceará
15/10 (quarta-feira), 18h – Debate sobre espetacularização da morte e da violência em programas de televisão, organizado pela Liga Experimental de Comunicação
Local: Centro de Humanidades II da UFC.
17/10 (sexta-feira) – Aula pública sobre coronelismo eletrônico
Local: em frente à sede da TV Jangadeiro (Fortaleza).
Distrito Federal
13/10 (segunda-feira), 19h – Prêmio Luiz Gushiken de Jornalismo Sindical e Popular
Local: Teatro dos Bancários (314/325 Sul)
17/10 (sexta-feira), 10h – Debate “Coronelismo eletrônico, eleições de democracia”
Local: Faculdade de Comunicação da UnB
Mato Grosso do Sul
15 a 17/10 – Encontro Regional Centro-Oeste de Adolescentes e Jovens Comunicadoras e Comunicadores – EREJOC/CO; “Construindo pontes, aproximando ações” – Campo Grande
Pernambuco
11/10 (sábado) – Roda de Diálogo “Trabalho Protegido e o direito humano à comunicação”
Local: Centro de Organização Comunitária Chão de Estrelas (rua João Prachedes de Oliveira Filho, nº 25, próximo ao Terminal Chão de Estrelas, ao lado da creche comunitária), Recife
14/10 (terça-feira), 14h – Debate “Diversidade de Mídia e Direito à Comunicação”
Local: Unicap (sala 510, bloco A), Recife
14/10 (terça-feira), 19h30 – Programa Opinião Pernambuco – especial na TV Universitária (canal 11)
15/10 (quarta-feira), 17h – Projeção e coleta de assinaturas para a Lei da Mídia Democrática
Local: Centro de Artes e Comunicação (CAC) da UFPE
15/10 (quarta-feira), 19h – Debate na ALEPE sobre Comunicação
Local: Auditório da Assembléia Legislativa PE, 6º andar, anexo I), Recife
16/10 (quinta-feira), 9h às 19h – Encontro Cultural Periférico Noix por Poix
Local: Comunidade do Detran (perto da caixa d’água), Recife
17/10 (sexta-feira), 15h às 17h30 – Oficina “Cineclubismo e empreendedorismo”
Local: Sala da Tecnologia do Colégio João Barbalho (rua do Hospício, 737, Boa Vista, m frente ao Parque 13 de maio), Recife
17/10 (sexta-feira), 19h – Ato cultural “Som na rural” especial
Local: Praça da República, Recife
17/10 (sexta-feira), 19h – Debate sobre comunicação altenrativa
Local: Favip, Caruaru
Rio de Janeiro
15/10 (quarta-feira) – Debate “Homofobia e jornalismo”
Local: Sindicato dos Jornalistas do RJ
16/10 (quinta-feira) – Cinebar sobre democratização na América Latina
Local: Sindicato dos Jornalistas do RJ
18/10 – 13h – Lançamento do Guia Mídia e Direitos Humanos
Local: Museu da Maré
Rio Grande do Norte
17/10 (sexta-feira) – Aula pública sobre coronelismo eletrônico
Local: Em frente à sede da Rede Globo (Natal).
21 a 24/10 – Stand de debate e coleta de assinaturas Lei da Mídia Democrática, durante a Feira de Ciências da UFRN (aberta ao público)
Local: UFRN
Sergipe
14/10 (terça-feira)
14h – Debate “Liberdade de Expressão no Brasil: desafios atuais”
Local: Auditório da CUT (Rua Porto da Folha 1039, bairro Cirurgia)
15/10 (quarta-feira)
19h – Seminário Economia Política da Música
Local: Intera Criativa (Rua Riachuelo 970, bairro São José)
16/10 (quinta-feira)
8h30 – Debate “Comunicação Pública em Sergipe e no Brasil”
Local: Fundação Aperipê (Rua Laranjeiras 1837, bairro Getúlio Vargas
17/10 (sexta-feira)
9h – Audiência Pública “Políticas de Comunicação em Sergipe: possibilidades e desafios”
Local: Assembleia Legislativa
do FNDC -
Habitação: projetos para regularizar ocupações em Porto Alegre
As ocupações da Cooperativa Habitacional Morada dos Ventos (Coohamove) levaram o assunto à Tribuna Popular da Câmara, hoje. Diversas famílias no plenário, o advogado do Fórum das Ocupações Urbanas Metropolitanas, Paulo René, e o representante dos moradores, Juliano Fripp, defenderam a regulamentação legal de terrenos ocupados na cidade.
A proposta foi da bancada do PSOL, que pretende conseguir apoio para que o projeto tramite em regime de urgência, ou seja, encaminhando-se imediatamente para a Comissão de Constituição e Justiça. Enquanto estiver tramitando, cessam as desocupações.
“Temos, em Porto Alegre, um déficit habitacional terrível”, afirmou René. Para ele, o apoio da Câmara na realização do projeto de lei que torna 15 ocupações de Porto Alegre áreas especiais de interesse social (AEIS) é essencial.
“A inércia da administração pública contribuiu para os vazios urbanos”, ressaltou René. O projeto deve se basear nos artigos do Plano Diretor e do Estatuto das Cidades. “Os artigos são claros e devemos usar este instrumento emergencialmente”. Assim, as áreas serviriam para produzir moradias e reforçar o direito à habitação.
O morador Juliano Fripp vê pouco interesse do governo municipal em resolver o problema. “Estão mandando a BM para tirar as pessoas de suas casas. Morar é um direito constitucional. Não é justo que se usem essas áreas para exploração e tirem o direito da moradia. Não é justo que as pessoas sejam expulsas de suas casas”, destacou.
Além das AEIS, o Fórum trabalha em duas outras frentes. A primeira é o projeto que tramita no Tribunal de Justiça, para criar uma vara especializada em regularização fundiária. A segunda é apresentar na Assembleia Legislativa, em novembro, um projeto que inclua parcerias público-privadas para construir habitações.
O projeto tem como base o plano diretor de Porto Alegre, que não é utilizado como base dos governos municipais, segundo Paulo René. “A ideia é obrigar município a fazer essas decretações de AEIS e desapropriações para fins de interesse social tendo em vista que são vazios urbanos e fiscalização do município foi totalmente omissa há muitos anos”.
O projeto de lei proposto refere-se às ocupações Marcos Klassmann, São Luiz, Maria Leoni, Dois Irmãos, Morada dos Ventos, Morro Santana (Cruzeiro), Porto Seco, Tenda, Progresso, Continental, Nossa Senhora Aparecida, Império, Oscar Pereira e Vila Aparecida. -
Opinião: Depois do ciclone vem a tempestade
Está difícil entender o que disseram as urnas de 5/10, pois elas emitiram mensagens contraditórias, mas vem aí o segundo turno para dirimir (ou intensificar) eventuais dúvidas.
O que parece claro é que, diante de sinais de que o PT ficou velho, o povo está a fim de algo novo, ainda que este venha com cara de meninão mimado nascido em berço de ouro. Por isso precisamos tentar fazer uma releitura das coisas.
Fora os episódios Luiza Fontenelle em Fortaleza em 1982 e Erundina em Sampa em 1988, faz apenas 20 anos que a maré petista subiu em dois pequenos redutos eleitorais com Christovam Buarque no DF e Vitor Buaiz no ES.
Só depois a estrela vermelha brilhou em outros lugares. Lula só ascendeu em 2002 e, após três mandatos segurando o violino com a mão esquerda e tocando com a direita, o partido dá sinais de fadiga. É isso mesmo? Quem tem certeza de alguma coisa enquanto grassa um ciclone extratropical?
Fazendo o possível para distribuir renda por meio do aumento do salário mínimo, da criação de empregos, da expansão do serviço público em educação e saúde e de programas de inclusão social, o PT praticou o desenvolvimentismo à moda brasileira, fazendo concessões fiscais a setores estratégicos, financiando campeões do capitalismo e mantendo os privilégios das elites financeiras. Foi bom enquanto durou, a economia está batendo pino, precisando de novos aditivos. Quem terá a receita para recolocar o carro nos trilhos?
É duvidoso que a classe média e a base da pirâmide social tenham uma percepção exata do que aconteceu, justo elas que foram beneficiadas pela gestão dos últimos anos, mas um dos sintomas do desgaste do petismo é que as duas prefeitas precursoras e os dois ex-governadores pioneiros foram parar em outros partidos.
Fora espasmos e explosões, o Brasil é um país essencialmente conservador cujos impulsos de mudança ocorrem menos através do voto em figuras revolucionárias e mais pela votação em figuras como Tiririca, personificação de um protesto anárquico e sem futuro. Mas o que fazer se uma parte dos eleitores não reconhece no voto um instrumento de aperfeiçoamento da democracia? Só a educação nos salvará, o que demanda longuíssimo prazo.
No máximo, o que se pode concluir, por ora, é que as urnas sinalizaram um desejo de mudança, mesmo em lugares supostamente politizados como o Rio Grande do Sul, onde Tarso Genro, um dos melhores quadros do PT, com um bom governo e aptidão para concorrer à Presidência da República, levou 4X3 de um PMDB dividido. Tão dividido que o senador Pedro Simon apoiou Marina.
Agora quem lidera o bloco peemedebista em apoio a Dilma no segundo turno é o peemedebista Eliseu Padilha, que foi ministro dos Transportes do tucano FHC, padrinho da candidatura de Aécio Neves. Não é para entender.
Nocaute em Suplicy
Outros sinais da queda da estrela petista foram o nocaute sofrido pelo senador Suplicy diante do tucano José Serra em São Paulo, o afundamento das candidaturas bancadas por Lula em Sampa e no Rio e as derrotas de Dilma em cidades dirigidas pelo PT.
A eleição do petista Fernando Pimentel pelos mineiros talvez seja a exceção que confirma o declínio da estrela, mas só não vê sinais de desagregação no PT quem estiver com a vista turva ou a cabeça inchada. Na gangorra PT-PSDB, condenada por Marina Silva, o polo tucano subiu e o petista caiu. O desgaste é natural, pois já se passaram vários anos de presença no poder, mas falta avaliar o quanto pesou a contribuição de petistas imbuídos de uma arrogância capaz de esfolar a ética, um dos valores originais do partido.
“O PT tem uns problemas a resolver”, disse o ex-governador gaúcho Olívio Dutra, após reconhecer a própria derrota por apenas dois pontos percentuais para o jornalista de rádio e TV Lasier Martins, estreante que conquistou a vaga ao Senado. Olívio não disse, mas todo mundo sabe que se referia à necessidade de lavar a roupa suja e promover uma depuração no partido. Não é o que desejam os dirigentes mergulhados no corporativismo e/ou no fisiologismo.
Ambos septuagenários, Olívio e Lasier pregaram reformas, mas nenhum deles representava mudança. O eleitorado deu um passo atrás e escolheu o mais novo representante do conservadorismo. Eleito pelo PDT, que recebeu apenas 4% dos votos para governador, Lasier nunca teve vínculos partidários enquanto atuou como apresentador de rádio e TV.
Fora a lembrança do pai como eleitor de Getúlio Vargas, seu único liame com o trabalhismo é seu suplente Christopher Goulart, neto do ex-presidente Jango, que nasceu no exílio em 1976, em plena ditadura militar. Já Juliana Brizola, neta do velho Briza, não conseguiu se reeleger deputada estadual. Não é para entender.
Esses lances do jogo eleitoral confirmam que o Brasil é um país complexo que prima pela contradição. As eleições deviam servir para acomodar as diferenças e levar o país para a frente, mas as urnas do primeiro turno parecem indicar uma volta ao passado recente. Estarão os brasileiros com saudade do neoliberalismo, das privatizações e de uma governança financeira mais fortemente calcada na taxa de juros da dívida federal?
Resposta no final do mês, quando das urnas sairá a colcha de retalhos com que vamos ter de nos cobrir nos próximos anos, faça seca ou temporal.
LEMBRETE DE OCASIÃO
“O principal problema ético-político do país é que a oposição é incapaz de reconhecer a honestidade dos governantes e estes são incapazes de demonstrá-la”.
(Millôr Fernandes) -
Energia: Imposto zero para fabricantes nacionais de aerogeradores
A redução a zero do Programa de Integração Social (PIS) e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) para peças e componentes de aerogeradores (que produzem energia a partir do vento) só valerá para fabricação dos equipamentos no país, esclareceu o secretário executivo adjunto do Ministério da Fazenda, Dyogo Oliveira. O incentivo consta da Medida Provisória 656, publicada nesta quarta-feira, 8, no Diário Oficial da União.
Componentes comprados no exterior estão dispensados de recolher tributos, mas a importação de aerogeradores inteiros continuará a pagar 9,25% de PIS e de Cofins. “Queremos estimular a geração de energia eólica no país. Por isso, incluímos o setor no regime que exclui o PIS e a Cofins das obras de infraestrutura”, explicou Dyogo.
Com o incentivo para os aerogeradores, o governo espera aumentar o número de empresas que participam dos leilões de energia eólica previsto para o fim do ano, ampliando a oferta e reduzindo o preço final da energia. De acordo com o Ministério da Fazenda, fornecedores de equipamentos eólicos tiveram de assumir novos contratos sem preços competitivos, porque não estavam habilitados no regime especial.
A medida provisória também incluiu propostas anunciadas anteriormente pela equipe econômica, como a prorrogação, por quatro anos, do Programa de Inclusão Digital. No fim de agosto, o governo havia anunciado a extensão, até o fim de 2018, da alíquota zero de PIS e de Cofins sobre a venda no varejo de computadores, monitores, teclados, tablets, smartphones e roteadores.
Segundo o secretário executivo do ministério, Paulo Caffarelli, a desoneração terá impacto mínimo sobre a arrecadação. A renúncia fiscal atingirá R$ 15,7 milhões, em 2015, R$ 17,17 milhões em 2016 e R$ 18,74 milhões em 2017.
O incentivo para os bens de informática acabaria no fim deste ano. Com a prorrogação, o governo deixará de arrecadar R$ 7,96 bilhões em 2015, R$ 8,67 bilhões em 2016 e R$ 9,42 bilhões em 2017.
Outro benefício fiscal prorrogado por quatro anos foi o regime especial de tributação para as unidades do Minha Casa, Minha Vida, de até R$ 100 mil. Há 20 dias, o governo anunciou que estenderia até o fim de 2018 a alíquota reduzida sobre o faturamento dos empreendimentos habitacionais de interesse social.
Os imóveis de até R$ 100 mil continuarão a pagar 1% das receitas decorrentes dos projetos de incorporação para quitar quatro títulos: PIS, Confins, Imposto de Renda e contribuições sociais. Sem o regime especial a alíquota corresponderia a 4%. A extensão do benefício terá impacto fiscal de R$ 631 milhões em 2015, R$ 687 milhões em 2016 e R$ 747 milhões em 2017. -
Opinião: A maldição do padre Cordeiro ainda assombra a Fronteira
A lenda da praga do padre Cordeiro, de que Santana do Livramento não conseguiria se desenvolver, “daria um passo para frente e dois para trás”, vez por outra assombra a cidade da Fronteira Oeste gaúcha.
Digo isto porque, em tempos de eleições, se vê um bombardeio de informações que é preciso reciclar, jogar no lixo essa bobagem de anti-PT, anti-PSDB, que os partidos políticos tentam implantar na cabeça das pessoas e que não leva a lugar nenhum. Esse discurso serve para defender empregos aqui e ali, ou futuros empregos. E o interesse coletivo?
É preciso focar no que realmente importa, tratar de fatos concretos, reais, que estão mudando a vida das pessoas da família, na rua, no bairro, na cidade. e aí, sim, decidir por um ou outro candidato.
Até 2003, antes do governo Lula assumir, Livramento era uma cidade fantasma. Sua população amargou 30, 40 anos de pobreza e dificuldades de toda a ordem, perdeu todas indústrias, todas, e 90% da população universitária foi embora e muito mais em mão de obra qualificada. O que resta para uma cidade nessas condições? Não foram feitos investimentos em nada versus nada. Ou estou enganado?
Nos últimos anos, alguns investimentos retornaram à terra de Paixão Côrtes. A saúde, claro, ainda é muito precária na cidade, muito mesmo, como em todo Estado, por falta de leitos e profissionais.
Mas, pra quem não sabe, a Eletrosul, que o governo de Fernando Henrique Cardoso proibiu de receber investimentos para justificar sua privatização, acabou sendo salva a tempo por Lula e Dilma, então presidente da República e ministra de Energia. Hoje, a estatal com sede em Florianópolis, investe pesado nos parques eólicos em Livramento e Extremo-Sul gaúcho, gera capacitação profissional, empregos e renda, inclusive a produtores rurais. Isso é um fato concreto.
No campo do ensino, vejo parentes e amigos profissionalizando-se, cursando de graça os cursos técnicos do IFSul e as faculdades da Unipampa, investimentos federais recentes na minha cidade natal. Isso é real. Graças a quatro alunas iluminadas da Unipampa, em novembro próximo Livramento realiza junto com a uruguaia Rivera a fantástica Feira Binacional do Livro, que já está em sua 5ª edição. A UFPEL também se instalou na cidade.
A Uergs, criada no governo Olivio Dutra, foi sucateada pelos governos posteriores, até quase seu fechamento na Fronteira, mas ainda está resistindo no antigo prédio do Banrisul.
A Urcamp, entidade privada, onde cursei em 1992 o primeiro ano do recém instalado curso de Direito, esteve à beira do colapso, e foi salva pelo governo Lula.
Outro fato, quase inacreditável, é que a luz elétrica, sim, a luz do nosso dia a dia, só chegou em várias regiões da Campanha gaúcha a partir de 2003, através do programa Luz para Todos, do governo Lula. Podem acreditar nisso? Eu acredito porque entrevistei os próprios pecuaristas.
Mas e a corrupção escancarada nos governos do PT? Ora, investiga, julga e prende. Mas alguns foram soltos. Bom, aí é com a Justiça que segue leis feitas por nossos representantes. Corrupção há em todos os governos, desde sempre. Ou acredita sinceramente que não?
O senador Aécio Neves continua réu na Justiça de Minas Gerais acusado de desviar R$ 4,3 bilhões da área da saúde. Bilhões. Eu posso enumerar uma lista desses escândalos aqui no Rio Grande do Sul dos últimos 20 anos, só pra aperitivar. Um deles é recente, o Caso Detran, no governo Yeda. Lembram? Outro é o fabuloso Caso CEEE, do governo Simon, que ainda deve estar em andamento, mas em segredo de Justiça até hoje, se já não caducou. O valor do prejuízo do rombo na CEEE aos cofres do Estado representa hoje 10 vezes o mensalão.
Bem, mas independente de quem vencer essas eleições, torço para que a maldição do padre Cordeiro, que reza a lenda levou uma surra de santanenses descontentes com o sermão e foi embora da cidade, deixando a praga, não volte a assombrar a minha querida Santana do Livramento, nunca mais. -
Bolsa Familia não é só Nordeste. São Paulo tem 1,2 milhão de beneficiários
Um dos temas centrais da campanha eleitoral, o “Bolsa Familia”, principal programa social do Brasil, é alvo de críticas, a começar pelo ex-presidente FHC, que o considera uma fonte de votos do PT.
Paulo Henrique Amorim, do blog “Conversa Afiada” entrevistou a ministra Tereza Campello, do Desenvolvimento Social e do Combate à Fome, sobre o tema.
O programa Bolsa Família atende 14 milhões de famílias que tem, na média, 3,6 membros. É o maior programa do mundo, no gênero.
PHA – Ministra, a senhora concorda com essa vinculação que está sendo feita – e eu vi isso na Folha de SP e no jornal O Globo também – entre beneficiários do Bolsa Família e comportamento eleitoral. Faz sentido esse tipo de raciocínio? Ou seja, quem se beneficia do Bolsa Família tem um comportamento eleitoral padrão, previsível ?
MINISTRA TEREZA CAMPELLO – Eu acho engraçado que os argumentos mudam ao sabor dos interesses. Eu lembro que, se você for olhar a imprensa uns 4 ou 5 meses atrás, todo mundo dizia exatamente o oposto. Todo mundo dizia que o Bolsa Família tinha influenciado muito as eleições de 2006 e de 2010, mas que já estava consolidado e, portanto, as pessoas não iam votar por causa disso. Aí, abriram as urnas e acham que votaram por causa disso. Então, primeiro que os argumentos mudaram de uma forma completamente radical.
A outra coisa que diziam era que todos os candidatos eram a favor do Bolsa Família. Aliás, pouca gente tem coragem de falar mal do Bolsa Família, não é, Paulo Henrique ? Você acompanhou o processo eleitoral e sabe que todos os candidatos se posicionaram a favor do Bolsa Família. Eu acho que essa é uma vitória do Bolsa Família, de um programa de transferência de renda com condicionalidades, que é um sistema brasileiro e que hoje serve de exemplo para o mundo todo.
E que o conjunto dos políticos teve que se render às evidências científicas que mostram as qualidades do Bolsa Família, não só para aliviar a pobreza, mas para garantir as crianças na escola, saúde, vacinação, e para garantir o próprio funcionamento da economia. Então, eu diria ao contrário. Ninguém tem coragem de falar mal do Bolsa Família, porque se falar bem do Bolsa Família dá voto, se falar mal tira voto. Isso é líquido e certo.
Eu acho que as pessoas, antes de fazerem afirmações diretas como essas, deveriam olhar o conjunto do mapa e o conjunto dos outros indicadores econômicos.
PHA – Por exemplo…
MINISTRA – Por exemplo, falam muito que o Nordeste votou majoritariamente na Presidenta Dilma por causa do Bolsa Família, mas os indicadores no Nordeste são bons em todas as áreas. Não é só o Bolsa Família, que é excelente no Nordeste.
Por que? Porque o Nordeste tem um nível de efetividade do Bolsa Família, os melhores cadastros do Brasil são do Bolsa Família, tem um nível de cobertura alta. (Além disso), o crescimento do PIB no Nordeste foi um crescimento chinês, o emprego no Nordeste aumentou muito. Nós temos obras estratégicas que foram feitas no Nordeste, exatamente porque o Nordeste era abandonado.
Antes, quando você ia fazer qualquer grande atividade econômica, você fazia no Sul e no Sudeste. Essa visão política – essas grandes obras e grandes empreendimentos – seja no Ceará, Pecém, seja o Porto de Suape, em Pernambuco, sejam as obras do São Francisco. São obras importantes, que impactaram muito o Nordeste, e vão continuar impactando.
Então, eu acho que nós temos que olhar que o Nordeste se destacou num conjunto de indicadores, mesmo estando num período de seca. Então, quando a gente olha os indicadores, a gente vê: o PIB do Nordeste cresceu muito mais que no restante do Brasil, mesmo a gente estando vivendo um período de seca muito importante. A população não abandonou (o interior), não teve êxodo rural, mesmo com a seca. Quer dizer, a vida das pessoas melhorou, não obstante a seca, e isso logicamente que tem resultados.
Agora, o que eu temo, Paulo Henrique, e eu gostaria de aproveitar – porque a imprensa nesse momento tem um papel importante – porque eu acho que a gente não pode deixar que o preconceito contra os pobres e nordestinos aumente no Brasil.
Então eu temo que esse argumento de ficar jogando o Nordeste contra o Sudeste e o Sul, ficar dizendo que o eleitor do Bolsa Família é eleitor de cabresto, acaba estigmatizando ainda mais e dividindo o Brasil. E eu acho que isso não é bom para o país, independente da questão eleitoral. A gente tem que ter muito cuidado com esse tipo de argumento.
PHA – Eu posso entender do seu raciocínio que, como todos os candidatos defenderam o Bolsa Família todos os candidatos se beneficiaram do Bolsa Família?
MINISTRA – Por que o Bolsa Família é tão valorizado ? O que estão querendo dizer é que esse voto é desqualificado. E é isso o que eu quero ir contra, que … era aquele antigo voto de cabresto, que foi substituído pelo Bolsa Família. A gente tem que ser radicalmente contra, porque essa foi uma vitória do Brasil.
Eu acho que as pessoas votaram porque a vida delas melhorou, com o Bolsa Família, com o Pronatec, com o Mais Médicos, com o ProUni, com o FIES, com um conjunto de ações que beneficia a população pobre, beneficia a população negra, que majoritariamente está no Nordeste. Eu acho que essa é uma questão.
Agora, a outra questão é o oposto disso, que é aqueles que dizem que o voto do Bolsa Família é um voto de cabresto. O Brasil já teve um voto de cabresto, e o Bolsa Família é um voto bastante valorizado exatamente porque ele é um voto anônimo. Antes, as pessoas votavam em torno de uma quantidade de tijolos, em torno de um caminhão pipa… com o Bolsa Família, a pessoa tem um cartão e, se ela é pobre, ela recebe o cartão e esse dinheiro está desvinculado do que ela vai fazer.
Ela precisa ser pobre e quem faz o cadastro do Bolsa Família é a prefeitura. São 5.570 prefeituras no Brasil, de todos os partidos, em todos os lugares. Hoje, quando os prefeitos cadastram, as pessoas estão se posicionando. Então, não dá para a gente fazer uma vinculação direta de um programa com o seu resultado, chamando de voto de cabresto, quando a pessoa recebe um benefício condicionado ao resultado das urnas. O Bolsa Família rompeu com isso. O cartão é impessoal, quem faz é o prefeito, independente do partido. A vitória do Bolsa Família é a vitória do fim do voto de cabresto.
PHA – Agora, ministra, tem Bolsa Família em São Paulo?
MINISTRA – Tem. São Paulo é o segundo Estado com maior número de pessoas recebendo o Bolsa Família. O primeiro é Bahia, e o segundo é São Paulo. Proporcionalmente, menor. Mas, no ponto de vista absoluto, é uma população bem grande.
Esses são os Top Cinco do Bolsa Familia:
– Bahia, 1,8 milhão;
– São Paulo, 1,2 milhão;
– Pernambuco, 1,1;
– Minas, 1,1;
– Ceará, 1,1)
PHA – E o que a senhora acha de associar – como fez o ex-Presidente Fernando Henrique – o voto na Presidenta Dilma a um eleitor mal informado? A senhora diria que o beneficiário do Bolsa Família é mal informado?
MINISTRA – Eu acho triste a gente começar a chamar pobre de mal informado, nordestino de mal informado. Eu acho que isso é uma ofensa à população brasileira. E eu acho que a nós já temos tempo suficiente de Democracia no Brasil, programas e campanhas eleitorais livres, para que a gente precise ficar usando esse argumento.
Uma outra coisa que tem sido dita, e que eu também acho que é importante o uso da imprensa para esclarecer, é que, neste caso, o mal informado é aquele que não recebe o Bolsa Família, que acha que quem recebe o Bolsa Família não trabalha.
PHA – É o Bolsa Esmola…
MINISTRA – Metade do pessoal do Bolsa Família de fato não trabalha. Tem menos de 18 anos de idade. 42% tem menos de 16 anos de idade. Inclusive é crime trabalhar com menos de 16 anos de idade. E o Bolsa Família felizmente contribuiu muito para (evitar) o trabalho infantil.
PHA – Deixa eu entender os números, Ministra. Quantos têm menos de 18 anos?
MINISTRA – 49%
PHA – E desses 49%, quantos têm menos 16?
MINISTRA – 42%.
PHA – Então não pode trabalhar…
MINISTRA – Com menos de 16 anos, inclusive, é crime. Entre 16 e 18 anos pode trabalhar, em algumas condições. Mas, a gente quer que esses jovens e as crianças estejam na escola. A gente fala muito que o Brasil precisa aumentar a produtividade. Aumentar a produtividade generalizadamente.
Como a gente pode melhorar a produtividade do Brasil? Melhorando a escolaridade da nossa população. Ou seja, quanto mais anos as crianças estiverem na escola, melhor. Então, estar na escola é um valor, e é um valor para o Brasil.
Agora, para os adultos que podem trabalhar, no caso do Bolsa Família, 75% dos adultos trabalham. Então, não é verdade que as pessoas recebem o Bolsa Família e estão encostados. Se a gente olhar nas redes sociais, na internet, isso cresceu muito, que a pessoa é encostada. Isso é desinformação de quem está bem de vida e tem preconceito contra a população pobre.
As pessoas são pobres porque elas não tiveram acesso à oportunidade. E eu acho que essa é a grande agenda do Brasil. O Bolsa Família é uma oportunidade. Não só porque leva as crianças para a escola, leva as gestantes para o posto de saúde, mas é uma oportunidade, ao melhorar um pouco e aliviar um pouco a pobreza, também é uma oportunidade para essas pessoas.
Saiu recentemente um estudo em Harvard, que até o Dráuzio Varela reproduziu nesse final de semana, mostrando que a pobreza, a fome e o desalento prejudicam a tomada de decisão das pessoas. Falam assim “Ah, o pobre é burro”. Então, prejudica. Melhorar a condição de vida e aliviar a pobreza é bom para que essas pessoas tenham mais capacidade de tomar decisão. Agora, essas pessoas trabalham. 75% dos adultos do Bolsa Família trabalham. Isso está em linha, é o mesmo percentual dos que não são do Bolsa Família.
Então trabalham tanto quanto os demais, do ponto de vista de percentual. Imaginando que eles trabalham mais arduamente, trabalham na construção civil, de sol a sol, com vendas. Muita gente trabalha vendendo coisa o dia inteiro embaixo de sol, trabalham carregando peso. É um trabalho, nesse sentido, da dureza do trabalho, trabalham muito mais do que nós. Então por que não ganham mais?
PHA – Ou seja, da população adulta que não está no Bolsa Família, 75% também trabalham ?
MINISTRA – É. Da população economicamente ativa. Eles trabalham tanto quanto. 75% nos dois casos. Na PEA, que é a População Economicamente Ativa, é 75% para o Bolsa Família, e da população vai variar entre 74% e 76%. Então, não dá para acusar o Bolsa Família de que (levar) as pessoas parar de trabalhar.
Até porque o valor médio do Bolsa Família, e também é uma informação importante – porque muita gente é desinformada sobre o Bolsa Família – está em média R$ 168. Então, imaginar que um pai de família deixa de trabalhar para ganhar R$ 168 por mês é também muita desinformação.
PHA – Ou seja, Bolsa Família é o alvo principal do preconceito do brasileiro?
MINISTRA – Infelizmente tem se tornado. Tinha diminuído, e essa eleição tem, infelizmente, se expressado para aumentar. A outra coisa que precisa (esclarecer), sabe o que é, Paulo Henrique? “Não pode ser só Bolsa Família”, que o Governo só dá o Bolsa Família. Isso também não é verdade. Isso também é muita desinformação. O Bolsa Família, na verdade, se tornou uma grande porta de entrada para um conjunto dos programas sociais do Governo, inclusive para os programas de qualificação deste público adulto.
Por exemplo, estar no Bolsa Família é, também, uma garantia de receber informações sobre o Pronatec. Nós conseguimos levar para os bancos escolares 1 milhão e 400 mil pessoas pobres, que passaram a fazer cursos de qualificação profissional. Em áreas simples, modestas, mas que aumenta produtividade do Brasil.
Você vê… muita gente de classe média vive reclamando dos nordestinos, porque vai para as praias do Nordeste e falta garçom qualificado, falta camareira. É isso que nós estamos fazendo, qualificando auxiliar de cozinha, cozinheira, camareiro, costureira, eletricista, garçom, cuidador de idoso, cuidador de criança… e isso é bom para o Brasil todo. É bom que as pessoas saibam disso. Não é bom só para o pobre. É bom para ele e é bom para o Brasil ter gente qualificada e de produtividade.
Aumentou o número de microempreendedores individuais formalizados do Bolsa Família. Aumentou o número de pessoas do Bolsa Família que tiveram acesso a crédito para produção. Portanto, melhoraram sua produção. O Brasil tem melhorado bastante, felizmente, e o Nordeste se destaca. Não só graças ao Bolsa Família, mas graças a esse conjunto de ações do setor público. E pela força do povo nordestino, que é um povo trabalhador e guerreiro, e que tem ajudado o Brasil a crescer -
Saúde: Falta de enfermeiros fecha 52 leitos no Hospital Presidente Vargas
O Hospital Materno-Infantil Presidente Vargas (HMIPV), em Porto Alegre, está com 52 leitos fechados. Vereadores da comissão de Saúde e Meio Ambiente (Cosmam) foram conhecer as condições do hospital.
A principal reivindicação é a reabertura da Emergência Pediátrica, fechada para atendimento externo após o final da Operação Inverno, mesmo com 15 leitos disponíveis.
A causa principal, de acordo com a responsável técnica pela Enfermagem do Hospital, Maria Inês Marques Voigt, é a Prefeitura ainda não ter chamado técnicos de enfermagem aprovados em concurso público. “Para regularizar a situação é preciso tempo e a liberação financeira para o ingresso de novos servidores municipais já aprovados em concurso público municipal para atuar em diversos hospitais e postos de saúde da Capital. Várias alas do Hospital Materno-Infantil Presidente Vargas estão sem atendimento porque precisamos de mais 63 técnicos de enfermagem e 14 enfermeiros para a demanda existente”, expôs.
Segundo ela, há tempos falta pessoal de enfermagem há muito tempo, devido ao grande número de exonerações e aposentadorias de funcionários. “Tem um grupo grande que se aposentou no último ano e já existia uma necessidade anterior. Este quadro vem sendo reposto, mas nunca numa quantidade suficiente para que se consiga suprir as necessidades.”
Atendimento de emergência
Com o fechamento do atendimento externo, a emergência pediátrica só está atendendo, neste momento, demandas do Pronto Atendimento, que englobam pacientes com doença da raiva; os que precisam tomar vacinas antirrábica após mordedura de animais; e casos de crianças vítimas de violência sexual. Maria Inês reafirma ainda que a reabertura da emergência para atender a todas as crianças da região é fundamental para suprir a demanda, que gira em torno de 60 a 70 atendimentos ao dia. “Existem leitos disponíveis, mas não existe equipe técnica para atender os pacientes”, concluiu.
Conforme o diretor do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers), Jorge Luiz Eltz de Souza, além da incompetência administrativa, o Hospital mostra um descaso com a população que está desassistida com a falta de leitos. “A Prefeitura de Porto Alegre não está preocupada com o sofrimento das pessoas que não têm leito para se internar e não conseguem acesso a uma emergência pediátrica, nem UTI”, ratificou, comentando que, em setembro, o Sindicato pediu providências junto ao Ministério Público, e o órgão prometeu abrir um processo contra o Executivo Municipal.
Encaminhamentos
O presidente da Cosmam, vereador Dr. Thiago Duarte (PDT), contou que o hospital tem um andar de 38 leitos fechados, uma UTI neonatal com seis vagas fechadas e uma Emergência trabalhando só em casos de referência do Hospital. Além disso, metade do sétimo e do oitavo andares estão fechados, e o quarto andar inteiro está sem atendimento devido à falta de técnicos de enfermagem.
A emergência pediátrica e o quarto andar da pediatria estavam abertos até um mês atrás. “A nossa próxima pauta junto com as outras entidades que têm nos prestigiado e têm participado destas reuniões é ir ao Ministério Público Estadual e à Procuradoria da República para provocar estes dois órgãos que são também fiscalizatórios”, anunciou.
A diretora técnica do Hospital, Ângela Smaniotto, disse que o HMIPV “aguarda autorização do Comitê Gestor para o chamamento dos técnicos de enfermagem aprovados em concurso. Somente para a ala pediátrica, é preciso mais 35 técnicos, além da liberação de horas extras”, afirmou.
Entidades representativas de saúde também estiveram presentes durante a visita, como o Conselho Regional de Enfermagem (Coren) e o Sindicato dos Municipários de Porto Alegre (Simpa).
(Com informações da Assessoria de Imprensa da CMPA) -
Plano para derrotar Estado Islâmico exige tempo e paciência
José Antonio Severo
O ocidente está ainda digerindo a morte do voluntário britânico Alan Henning, degolado na sexta feira passada pela faca de um jihadista inglês (sotaque londrino) nalgum ponto do deserto iraquiano pelo Estado Islâmico (EI), que já apresentou a imagem do próximo na fila da “gravata colorada”, o norte-americano Peter Kassing.
Na falta de jornalistas, que provocam reações iradas da mídia internacional, os degoladores do califado estão sangrando voluntários de grupos humanitários que se arriscaram trabalhar as áreas conflagradas.
O objetivo é atrair uma ação mais efetiva das potências ocidentais para, com isto, criar uma onda de pressão de opinião pública que force os governos cristãos a aprofundar a intervenção e com isso produzir elementos para sedimentar unidade entre as forças islâmicas que operam nesse conflito.
A participação de forças ocidentais alimenta a propaganda para recrutamento de jihadistas nos países desenvolvidos e, no mundo sunita, reforça a unidade (arrecadação de contribuições) para a luta contra o inimigo externo.
Embora o combate às forças das demais confissões islâmicas produza ódio suficiente para manter acesa a chama da luta armada, o confronto contra os “cruzados” tem muito mais vigor para inflamar a guerra santa.
Se a luta contra os “cruzados” robustece a adesão de indiferentes, o extermínio de xiitas é o argumento para captar vultosas somas de milionários e príncipes do Golfo Pérsico, que identificam no Irã a grande ameaça à hegemonia waabita (linha radical seguida na Península Arábica) no mundo islâmico.
Ou seja, lutar contra ocidentais aglutina o povão e bater-se contra xiitas e abre o bolso dos potentados do petróleo que temem os aiatolás de Teerã.
Alguns cálculos, entretanto, não deram certos. No espaço islâmico, o governo de Bagdá não lançou uma contraofensiva empregando tropas xiitas, limitando-se a conter o avanço do EI sobre a capital, evitando o confronto sectário entre as seitas rivais.
Pressionadas pelas potências ocidentais, as monarquias sunitas não tiveram como fazer vistas grossas ao fluxo financeiro e de combatentes voluntários, e enviaram seus aviões para bombardear os jihadistas no solo iraquiano (apenas ocidentais atacam em solo sírio).
As monarquias ainda não estancaram a ajuda financeira, mas isto pode ocorrer a qualquer momento, fechando a torneira de dinheiro para o Estado Islâmico.
Por fim, os governos acidentais não se deixaram arrastar para o confronto terrestre, o que frustra enormemente a mobilização da opinião pública maometana.
Se o plano norte-americano e iraquiano der certo, se as lideranças dos governos envolvidos tiverem paciência e determinação política para seguir o projeto que costuraram e se não perderem a cabeça afrontando a tradição muçulmana, poderão encurralar o EI e desgastá-lo, juntando forças para poderem derrotar o califado no campo de batalha. Entretanto, isto levará tempo.
O confronto militar no terreno, atualmente desempenhado pelos curdos sunitas, é outra história. Para derrotar o Estado Islâmico serão necessários 100 mil homens bem treinados e armados, todos de tradição sunita.
Leva tempo, meses ou anos, para montar esse exército. O emprego contido da ajuda estratégica das potências ocidentais e a preparação dessa legião é o que se trama nos bastidores da crise médio oriental.
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Ivo Sartori e o mito do "gringo da colonia"
José Ivo Sartori, o fenômeno dessa eleição para o governo do Rio Grande do Sul, é o tipo acabado do “gringo da colônia”.
Origem humilde, meteu os pés no barro, trabalhou, estudou se formou, foi professor, fez política, sem perder a relação com as origens, de simplicidade, de franqueza, de serenidade para enfrentar os problemas.
Ildo Meneghetti, embora fosse um engenheiro, dono de indústria em Porto Alegre, foi provavelmente o primeiro a explorar,com resultados excepcionais, o potencial eleitoral dessa figura, o “gringo da colônia/’.
Basta dizer que infligiu derrotas surpreendentes e acachapantes a Leonel Brizola, o grande fenômeno do trabalhismo da época. (Estamos falando de 1958/1962).
Nas eleições de Meneghetti, a par de suas qualidades de politico populista, um fator determinante sempre foi o apoio ostensivo da igreja católica e a militância dos padres na região colonial, movidos por um ferrenho anti-comunismo
Nesse primeiro turno não foi visível o apoio da igreja a Sartori.
Qual será agora o papel da igreja no apoio a Sartori neste segundo turno?
