Categoria: X.Categorias velhas

  • Veja lança "homem bomba" contra Dilma

    O “homem bomba de Pasadena” é a nova arma da revista Veja, em sua campanha contra a reeleição de Dilma Rousseff.
    O homem é Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobrás que fraudou os pareceres na compra da Usina de Pasadena, no Texas, quando Dilma era presidente do Conselho de Administraçao da Petrobrás.
    A bomba foi lançada pela coluna Radar On Line, no final da tarde de sexta-feira.
    Foi logo replicada pela Folha de São Paulo on line e se propagou na rede, embora a história já estivesse desmentida na mesma sexta à noite pelo insuspeitíssimo portal G1, da Globo. Com o fim de semana o assunto ficou submerso. Deve voltar nesta segunda feira às manchetes.
    Veja a sequência:
    Às 18:03, Lauro Jardim postou no Radar On Line, da revista Veja: “O Homem Bomba vai falar”
    “Diante das informações que recebeu de que o homem-bomba Paulo Roberto Costa aderiu à delação premiada, seu advogado, Nélio Machado, está deixando a causa.
    Diz Nélio Machado:
    – Não trabalho com o instituto da delação premiada.
    Pelas informações recebidas por Machado, Costa, incentivado pela mulher, Marici, que há tempos vinha se desentendendo com o advogado justamente por causa da delação premiada, topou abrir a boca. E a partir de agora tem como advogada a criminalista paulista Beatriz Catta Pretta.
    Paulo Roberto está neste momento na Polícia Federal de Curitiba.
    Sai de baixo. Recentemente, Paulo Roberto, ameaçou, em conversa com um interlocutor:
    – Se eu falar, não vai ter eleição.
    .Até ontem, apesar da insistência da mulher, Paulo Roberto se negava a fazer a delação. A nova etapa da Operação Lava Jato, realizada hoje no Rio de Janeiro, o fez mudar de ideia.
    Por Lauro Jardim
    Às 18:09 a Folha on line entrou no assunto: “O diretor Paulo Roberto da Costa aceitou na tarde desta sexta-feira um acordo de delação premiada…” Praticamente repete a nota do Radar, inclusive a informação de que ele “teria dito a um interlocutor se falasse o que sabia não haveria eleição”.
    As 21h28, o G1, portal da Globo, informava:
    Advogada nega ter feito acordo de delação para ex-diretor da Petrobras
    Beatriz Catta Preta diz que assumiu o caso nesta sexta-feira (22).
    Ao G1, ela afirmou que ainda vai analisar os autos do processo.
    Samuel Nunes Do G1 PR
    Advogada afirma que conheceu Costa nesta sexta-feira e que ainda não traçou uma estratégia de defesa.
    A advogada Beatriz Catta Preta, que assumiu nesta sexta-feira (22) a defesa do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, negou em entrevista ao G1 que tenha feito qualquer acordo de delação premiada com o Ministério Público Federal ou com a Polícia Federal.
    O cliente dela está preso desde março, na sede da Polícia Federal de Curitiba.
    Paulo Roberto Costa é acusado de participar de um esquema de desvio de verbas da Petrobras e de chefiar, ao lado do doleiro Alberto Youssef, uma quadrilha que pode ter movimentado mais de R$ 10 bilhões ilegalmente.
    “As pessoas estão interpretando de forma bem antecipada. Acredito que como eu já fiz algumas delações, concluiu-se que ele partiria para isso. Ainda vou tomar pé dos autos”, contou a advogada. Segundo ela, ainda não há qualquer estratégia de defesa traçada. A advogada substitui o antigo defensor de Costa, Nélio Machado.
    A Polícia Federal em Brasília e o Ministério Público Federal também haviam negado que houvesse qualquer acordo de delação com o ex-diretor da Petrobras.
    “Nada disso [delação premiada] foi conversado com ele. Nós nos conhecemos hoje, eu assumi a defesa dele hoje”, detalhou Catta Preta. Na entrevista, ela disse que tomou um susto ao saber das notícias em torno da suposta delação.
    Paulo Roberto Costa foi preso durante a Operação Lava Jato, deflagrada em março deste ano pela Polícia Federal. As investigações policiais apontaram que Costa teria intermediou contratos de empresas de fachada, comandadas por Youssef, junto à estatal.
    A reportagem também conversou com o advogado Nélio Machado. Ele informou que o desejo da delação premiada já vinha sendo cogitado pela família de Costa, mas que a defesa não considerava a hipótese. “Eu estive com ele {Costa} ontem, numa audiência, e ele garantiu que não partiria para esse caminho”, conta o advogado.
    Machado afirmou que nos autos ainda consta o nome dele como o representante do ex-diretor da Petrobras, mas diante dos fatos, vai abandonar a causa. “Eu acho que houve uma ruptura. Isso para mim vicia e contamina a relação profissional”, contou o advogado, que chegou a entrar com um pedido de habeas corpus para Costa, no Tribunal Regional Federal da 4ª Região, pois considera a prisão do ex-diretor da Petrobras desnecessária”.

  • Campanha tenta estancar crise dos jornais

    A Associação Nacional de Jornais (ANJ) lançou uma campanha de valorização do jornal como veículo de informações e anúncios.
    A ideia em si, de uma campanha de marketing, para fazer frente à grave crise que atinge os jornais com a perda compulsiva de leitores e anunciantes, já revela o equívoco.
    As primeiras peças que começaram a ser veiculadas nos jornais na quinta feira, 21, não deixam dúvida.
    A ANJ acredita que o jornal ainda é o centro do universo informativo e que se souber valorizar isso pode ser beneficiado com as novas mídias. Como? Com uma campanha mostrando para as pessoas como o jornal é importante na vida delas.
    Ou seja, a ANJ faz questão de continuar ignorando que jornal vem se tornando irrelevante para as pessoas desde muito antes da internet.
    A crise, na base de tudo, é de um modelo de jornal sustentado pelos anunciantes que chegou ao seu esgotamento, com a crescente submissão do noticiário aos interesses do anunciante, em detrimento do leitor.
    A necessidade de controles estritos levou a uma hierarquia rígida e a uma homogenização das redações. Jornalistas confiáveis, que não ficam furungando assuntos inconvenientes, têm ascensão garantida.
    E o resultado é que os jornais cheiram mal nas bancas, de tão velhos. A profundidade de suas matérias e opiniões é tal que, como diria Nelson Rodrigues, “uma formiguinha atravessa com a água pela canela”.
    A “imprensa nanica” já escancarou esse quadro na década de 1970, mas os jornalões contaram com a obsequiosa colaboração do regime militar para esmagar aquela semente de jornalismo independente, que se esgueirava pelas frinchas da ditadura e entre os dedos de uma imprensa acomodada.
    A docilidade foi bem recompensada e seguiu-se um longo e generoso ciclo de crescimento para os grupos escolhidos. Esse é o ciclo que chega ao fim.
    Se há chance para os jornais, ela exige uma revolução de método, na maneira de apurar e transmitir a informação, na organização das redações, para chegar a um novo conteúdo.
    Sem isso, que só seria possível dentro de outro “modelo de negócio”, as campanhas de marketing têm o efeito de um esparadrapo num talho infeccionado. (E.B)

  • Quanto custa exibir um animal na Expointer

    Por Geraldo Hasse
    Nesta segunda-feira (25/8) serão abertos os portões do parque Assis Brasil em Esteio para a entrada dos quase 5 mil animais inscritos este ano para a 37ª Expointer, o mais tradicional encontro da agropecuária gaúcha. A redução de 10% em relação ao número de animais inscritos em 2013(ver a tabela abaixo) indica que uma parcela dos produtores decidiu fazer economia. O custo de expositor não é baixo porque exige ficar fora de casa por pelo menos 15 dias.
    Entre transporte, ração, hospedagem e diárias dos proprietários e cuidadores dos animais, uma fazenda não gasta menos de R$ 1 mil por cada animal de grande porte exposto durante os nove dias do evento, que este ano vai de 30 de agosto a 7 de setembro. E nunca se leva somente um animal, é sempre uma tropilha. Todos disputam medalhas e títulos, o que valorizará os seus descendentes, mas alguns bichos são tratados como estrelas.
    Os animais de argola de raças bovinas europeias, por exemplo, são preparados com meses de antecedência, o que inclui alimentação exclusiva, banho diário, escovação e cuidados especiais, dos cascos aos cílios. Ganhando um prêmio, o animal pode se pagar nos leilões que se realizam durante e depois da Expointer.
    O custo corrente da participação começa a ser definido no mês de maio, quando cada associação de criadores estabelece uma taxa de inscrição que este ano vai de R$ 10 por cada pássaro até R$ 300 reais para algumas raças bovinas e equinas. Cavalo vai de R$ 90ª R$ 300. “Vaca holandesa, por exemplo, paga 100 pilas para se inscrever”, informa o veterinário Honório Franco, do setor de feiras e exposições da Secretaria da Agricultura, mas a associação dos criadores dessa raça só fica com o valor se o animal inscrito não for apresentado; aos produtores que confirmam a inscrição, o valor é devolvido.
    Em alguns casos, não faltam apoiadores ou patrocinadores. A Cooperativa Santa Clara, de Bom Princípio, que possui 3 mil leiteiros associados, banca a ração das vacas expostas em Esteio e recolhe diariamente sua produção de leite, atenuando as despesas dos expositores. No caso do leite, qualquer ajuda é importante porque 80% da produção leiteira do Rio Grande do Sul – mais de 10 milhões de litros por dia – sai de pequenas propriedades familiares tocadas pelo agricultor, a mulher e os filhos. Por aí se vê porque, para muitos produtores, participar da Expointer é um misto de honra e glória.
    Mesmo passando por estresse pela mudança de ambiente, os produtores acreditam que a Expointer não é despesa, mas investimento, uma oportunidade para mostrar seus animais, trocar ideias com os amigos e conhecer as inovações apresentadas por técnicos do serviço público e de empresas particulares em todos os setores de atividades rurais. O mesmo vale para os criadores de outros animais e raças.
    Estrelas da 37ª Expointer
    Espécie animal           Inscritos
    (Ano)                      2013        2014
    Bovinos de corte    730          661
    Bovinos de leite      573          488
    Bovinos mistos      220          172
    Equinos                 1 200       1 139
    Zebuínos                157           142
    Ovinos                   890           762
    Caprinos                  57             62
    Aves                      926            783
    Pássaros               391           467
    Chinchila                  31            25
    Coelhos                  414          214
    TOTAL                 5 625        4 932
    *Os suínos estão há três anos fora da Expointer
    por causa da gripe suína
    Fonte: Seapa/RS

  • Freio de Ouro, a Fórmula 1 dos cavalos crioulos

    Para muita gente, o evento mais marcante da Expointer é o Freio de Ouro, competição que reúne no primeiro fim de semana da exposição (este ano, os dias 30 e 31 de agosto, sábado e domingo) os melhores cavalos e éguas da raça crioula, a favorita dos gaúchos, presente na grande maioria das fazendas pobres ou ricas do Rio Grande do Sul.
    Fruto de uma “peneira” anual pela qual passam mais de 1 500 animais (dos quais saem os 96 finalistas que se encontram em Esteio), o Freio de Ouro premia o animal que conseguir a maior pontuação em oito exames: morfologia, figura e andadura; volta sobre patas, freadas; aparte de gado; pechada; paleteada – esta, a mais espetacular, na qual dois cavaleiros prensam um novilho em disparada, fazendo-o retroceder.
    É nessa prova acompanhada ao vivo por milhares de pessoas, inclusive pela TV, que os fotógrafos se esbaldam.
    Algumas provas são monótonas, quase burocráticas. A andadura mais valiosa é o trote (peso 8), que vale o dobro do galope (peso 4), o qual pontua mais do que o tranco (passo), que pesa apenas 3 pontos. Essa contagem de pontos faz sentido numa raça equina mais procurada para o serviço cotidiano junto ao gado do que para passeios ou corridas.
    O que pouca gente sabe é que o regulamento do Freio de Ouro, com 144 artigos e centenas de parágrafos, manda eliminar da prova de andadura o cavalo marchador, “por não ser a marcha uma andadura própria da raça crioula” (parágrafo único do artigo 49). Os jurados não costumam perdoar: crioulo marchador não só é retirado da competição como tem cassado o registro definitivo na Associação Brasileira dos Criadores de Cavalos Crioulos (ABCCC). Para os técnicos no assunto, o cavalo marchador é defeituoso por trotar de patas trocadas, de tal forma que sua andadura rende menos no serviço campeiro. Além disso, o animal marchador se atrapalha ao saltar um obstáculo, daí ser tradicionalmente descartado pelo Exército, um dos principais interessados na criação de um cavalo de qualidade. Evidentemente, os criadores de mangalarga marchador discordam desses critérios.
    GINETES
    O Freio do Ouro, ensaiado em provas rústicas no interior gaúcho no final dos anos 1970 e introduzido oficialmente em 1982 no parque da Expointer, criou um sólido mercado de trabalho para profissionais da equinocultura – veterinários, zootecnistas, transportadores, guasqueiros, ferrageadores, treinadores e cavalariços. Os mais cotados são os treinadores-ginetes, que preparam e montam os candidatos ao FO. Para eles, chegar às finais já é uma conquista. Uma vitória na grande prova pode triplicar o valor dos animais, enquanto os seus condutores ganham projeção como treinadores. Alguns têm torcida fiel nas arquibancadas.
    Nos bastidores do crioulismo, fala-se que um treinador “top” ganha pelo menos R$ 20 mil por mês para treinar a cavalhada mais promissora das cabanhas mais ricas. Além de receber honorários mensais para preparar os animais, os treinadores-ginetes têm direito a bônus por troféus conquistados. Mas, como os jogadores de futebol, eles não competem por muito tempo. No fundo, no fundo, a profissão de ginete-treinador é doída e arriscada.
    Dentre a dezena de ginetes mais em evidência no Freio de Ouro, um dos mais cotados é Zeca Macedo, de 34 anos. Ganhador de vários troféus do FO, ele mantém um concorrido centro de treinamento em Rio Grande, com 30 cocheiras ocupadas a maior parte do ano. Para treiná-los, Macedo emprega uma dezena de ajudantes, mas somente ele monta os animais confiados a seu treinamento. A técnica de preparo dos animais é muito pessoal, sem manual e cercada por certa mística.
    Já enquanto estão competindo alguns ginetes se tornam criadores de cavalos e de gado, mas é o adestramento de crioulos que lhes dá mais renda. Para Guto Freire, 31 anos, com dez animais classificados para as finais deste ano, não tem sobrado tempo para exercer seu oficio de médico-veterinário. Ele passa o dia seu tempo no centro de treinamento que mantém em Santo Antonio da Patrulha, a 80 quilômetros de Porto Alegre, de onde só sai para competir ou fazer uma visita técnica.
    O SERVIÇAL DO CAMPO
    O preparo de crioulos não dispensa os tradicionais domadores e envolve todo o pessoal que trabalha por salário ou diária nos centros de treinamento, nos locais de prova e nas fazendas, onde o cavalo ainda é o mais eficiente veículo de serviço com o gado.
    Um passeio pelo recinto do Parque de Esteio confirma o quanto o trabalho campeiro gira em torno do cavalo. A ABCCC tem o maior número de cocheiras, o maior número de animais inscritos e as instalações mais bem preparadas para suas provas.
    Durante a Expointer, com ou sem crise na pecuária, o restaurante da raça crioula mantém um permanente clima de festa. E nas ruas do parque há inúmeros quiosques vendendo apetrechos de montaria fabricados por guasqueiros (artesãos de laços, rédeas e afins) que trabalham boa parte do ano apenas para suprir a demanda associada à Expointer e à Semana Farroupilha.
    Para gerir um rebanho de mil cabeças de boi, é preciso revezar pelo menos 25 equinos. No Rio Grande do Sul, há 14 milhões de bovinos. E 4 milhões de ovinos. É no campo, em serviço, que se encontra o maior número de cavalos crioulos. Eles somam pelo menos um milhão de animais no Brasil ou cerca de 20% do rebanho equino nacional, estimado em 4,6 milhões de cabeças.
    A poderosa ABCCC, fundada em 1932 em Pelotas, possui apenas 2 500 sócios efetivos, mas tem registrados cerca de 250 mil cavalos (vivos) pertencentes a 20 mil proprietários.
    No Brasil o registro do crioulo só perde para o mangalarga e o mangalarga marchador, que somariam, cada um, cerca de 400 mil animais registrados, segundo estimativas mais ou menos confiáveis.
    Em seguida vêm o quarto-de-milha, o árabe e o campolina.
    Um cavalo/égua enobrecido(a) pelo registro na ABCCC e pelas medalhas em competições pode valer até R$ 500 mil. Desde a criação do Freio de Ouro, o crioulo se tornou um negócio, mais até do que um hobby de ricos proprietários de terras.
    Foi um salto espetacular que, paradoxalmente, não atinge o interior remoto, onde um bom crioulo de serviço, castrado e domado, pode ser comprado por R$ 1 000.
    Considerando que uma doma não sai por menos de R$ 500, pode-se concluir que um cavalo comum vale pouco mais que nada. Como nas canções, quem mais o valoriza é seu próprio dono.
    RAÍZES ARGENTINAS
    A história do crioulo, como raça definida, é pouco anterior à ABCCC. Descendente dos cavalos trazidos da Europa pelos colonizadores espanhóis e portugueses, esse cavalo típico das fazendas do Sul da América teve seu padrão estabelecido nos anos 1920 pelo veterinário argentino Emilio Solanet (1887-1979), que foi buscar os biótipos iniciais nas manadas dos índios da província de Chubut, junto aos Andes do sul da Argentina.
    Para Solanet, que escrevia artigos em La Nación, o maior jornal de Buenos Aires, as principais qualidades do cavalo crioulo eram a rusticidade, a funcionalidade, a longevidade, a habilidade no trato com o gado, a docilidade e a inteligência.
    Para prová-lo, ele teve uma ideia aparentemente maluca: mandou um cavaleiro chamado Aimé Tschiffely (nativo da Suíça) viajar de Buenos Aires a Nova York com dois crioulos, Gato e Mancha.
    Se fueran. Por aqueles dias de abril de 1925, o ás do tango Carlos Gardel fazia sua primeira tounée pela Europa. A viagem de 20 mil quilômetros por desertos e geleiras consumiu três anos e cinco meses. Como nas migrações indígenas, era preciso parar para descansos que se prolongavam por causa do clima. De tempos em tempos a viagem era noticiada por La Nación.
    A entrada triunfal do gaúcho em NY, montado no pingo Gato, a 20 de setembro de 1928, foi consagrada pelo Congresso argentino, que fixou a data como El Dia Nacional del Caballo – criollo, por supuesto.
    Pioneira lição de “marketing equino”, a proeza argentina entrou para a história como um atestado de resistência desses animais que durante décadas foram selecionados no Cone Sul por criadores anônimos para manejar o gado, transportar cargas e deslocar exércitos em lutas por territórios ou poder. Nos tempos de paz, quando o contrabando era livre, o vaivém de tropas facilitava o intercâmbio de cavalhadas. Assim se criou no Pampa o mito do centauro, metade homem, metade cavalo. Em cima, o gaúcho; em baixo, o crioulo. Não por acaso o melhor pintor da simbiose homem-cavalo no Pampa foi o argentino Molina Campos (1891-1959), cuja obra foi largamente difundida em calendários rurais no Cone Sul.
    No início dos anos 1950, a mística do crioulo argentino pairava sobre a fronteira, tanto que o recém-formado veterinário Flávio Bastos Tellechea foi passar um tempo no interior da Argentina, para estudar in loco. Seu objetivo primordial era aprimorar o gado da Fazenda Paineiras, herança do pai, João Francisco Tellechea, um dos fundadores da Ipiranga, a primeira refinaria nacional de petróleo, criada em 1937. Somente no início da década de 1960 ele e o irmão Roberto Bastos Tellechea (diretor da Ipiranga) enveredaram para a criação de crioulos. Já encontraram então na própria Paineiras boas matrizes que seriam do tempo do primeiro Tellechea, um basco chamado Domingos, que se estabeleceu em Uruguaiana em 1865, no começo da guerra do Brasil com o Paraguai.
    No início, os irmãos BT cruzaram crioulos gaúchos, argentinos e uruguaios. Como criador, cavaleiro e juiz de exposições equinas, Flávio concluiu que os melhores cavalos para os serviços campeiros eram aqueles de bons aprumos dianteiros, pescoço mais leve e quartos profundos — combinação nem sempre encontrada em crioulos importados da Argentina e do Uruguai, onde os criadores davam mais atenção à morfologia do que à funcionalidade.
    UMA LENDA CHAMADA HORNERO
    Em meados dos anos 1970, em busca de sangue novo, os cabeças do crioulismo gaúcho começaram a comprar garanhões de La Invernada, estância chilena que viera expor em Esteio, num raro movimento de integração em plena efervescência das ditaduras militares do Cone Sul. Foi quando os Tellechea compraram o chileno Hornero, marco de uma revolução genética que chegou a despertar o interesse do general de cavalaria João Figueiredo, presidente da República (1979-1985), durante uma visita dele a Jaguarão, berço das provas que formatariam o Freio de Ouro.
    Não há como negar que, em pouco mais de 30 anos, o FO transformou a criação do crioulo num dos ramos mais florescentes da pecuária gaúcha. Antigamente, na economia das fazendas, o cavalo ocupava o último lugar, perdendo para os ovinos, que garantiam o custeio, e os bovinos, que traziam os lucros. “Hoje em dia, em muitas fazendas, o cavalo é o maior negócio, o gado segue em segundo e os ovinos estão sumindo na poeira”, diz o veterinário Wilson Aguiar, com mais de 30 anos trabalhando na ABCCC.

    Tordilho Hornero / Foto Divulgação
    Tordilho Hornero / Foto Divulgação

    No início, quando o único patrocinador do FO era a Ipiranga, os próprios irmãos Flavio e Roberto Tellechea participavam das provas pioneiras; hoje, sobram patrocínios e até as 12 provas seletivas regionais são transmitidas pelo Canal Rural, a partir de fevereiro. Os comentaristas de TV conhecem o esporte, que reproduz em raias demarcadas os trabalhos elementares – e brutais – com o gado.
    Espetáculo rural levado ao público predominantemente urbano (e indisfarçavelmente saudoso da vida campeira) de Esteio, o FO não é a única competição dos cavalos crioulos. A ABCCC mantém hoje uma média de 400 eventos por ano pelo interior. As provas de tiro de laço mobilizam cerca de 10 mil laçadores por ano. O Crioulaço, cuja final se realiza em janeiro, lota o parque de exposições de Esteio. Desde 1971 disputa-se a marcha de resistência, na qual os animais precisam percorrer 750 quilômetros em 15 dias – uma réplica das tropeadas de outrora. Os cavalos crioulos também estão sendo levados a disputar provas de enduro e de rédeas, que envolvem outras raças, principalmente o quarto-de-milha. Além disso, nas comunidades rurais do interior, onde pouco se liga para a genealogia dos animais, persistem ainda as corridas de cancha reta, costume campeiro que ignora a decadência dos jóqueis clubes, dominados pelo puro-sangue inglês e sustentados por apostas.
    Por trás de tantas disputas, agita-se um grande mercado de compra e venda de potros, potrancas, matrizes e reprodutores. Ao longo do ano, as cabanhas mais ricas competem na organização de eventos. São festas para quem tem dinheiro – ou, pelo menos, dispõe de crédito para pagar suas compras em até 50 parcelas. Atualmente, as transações em hastas públicas envolvendo crioulos giram pelo menos R$ 100 milhões por ano, dez vezes mais do que há dez anos. Nos leilões da Expointer, o crioulo gira 70% do dinheiro aplicado na compra de animais em geral. Uma potranca de boa filiação não sai por menos de R$ 30 mil nas noitadas das cabanhas mais prestigiosas. A cobertura de um ganhador do Freio de Ouro custa tanto quanto uma moto. Como um garanhão pode cobrir 100 éguas por ano, a conquista do FO dá ao proprietário e ao criador do campeão um largo horizonte para trotear tranquilo na senda da fortuna.
    O crioulismo está recheado de criadores emergentes, que entram no negócio para aplicar dinheiro amealhado em atividades urbanas – como, aliás, aconteceu com os Tellechea,.que aplicaram na pecuária parte do que ganhavam com o refino de petróleo e a venda de gasolina nos postos Ipiranga. Uma das cabanhas mais em evidência é a La Passión, sociedade entre Chico Bastos Tellechea e Jayme Monjardim, diretor de cinema e TV.
    Em meio à espiral festiva do crioulismo, a Cabanha Paineiras continua viva em Uruguaiana. Desde a morte de Flavio Bastos Tellechea, em 1990, a empresa é gerida por mulheres. No começo, ficou sob controle de Lila, a viúva. Hoje está nas mãos da primogênita Maria da Glória Tellechea Cairoli, que cuida da “porteira afora”, e da caçula Mariana Franco Tellechea, veterinária responsável pela “porteira adentro”.
    Para se manter na liderança do mercado, a Paineiras promove três leilões por ano para colocar a maior parte de sua produção, também vendida avulsamente, para criadores mais chegados à família. Há sete anos, numa noitada cujas vendas ultrapassaram R$ 3 milhões, a Paineiras vendeu por R$ 675 mil a campeã BT Doriana, 16 anos, uma das últimas filhas de Hornero, imprimiu seu DNA em 70% dos ganhadores do Freio de Ouro.
    Uma das histórias mais incríveis do Freio de Ouro é que Hornero, um lindo tordilho, foi desclassificado na prova de morfologia por apresentar um sobreosso na canela — na época, considerado defeito fisiológico. Não para os Bastos Tellechea, que colocaram no animal sua marca BT. Morto em 1997, Hornero deixou mais de 1,3 mil filhos no Brasil, tornando-se a lenda recontada por todos os que viram nascer o Freio de Ouro. Não é de estranhar, portanto, que os cavalos crioulos sejam cantados em prosa e verso pelos chamados cantores nativistas, que dominam os shows das agrofestas sulinas.
    Joca Martins tem dois CDs cujo tema central é o cavalo crioulo. Com letras de Rodrigo Bauer, ele canta rancheiras, milongas, chacareras e chamamés enaltecendo cabanhas, cavalos, estâncias e ginetes. Os versos têm rimas bizarras e suas metáforas lembram os sambas-enredo do carnaval carioca. Em Rodopio de São Pedro, canção em homenagem ao tordilho ganhador do Freio de Ouro 2008, a dupla Bauer-Martins descreve as principais aptidões exigidas dos animais:
    “É o Rodopio de São Pedro, tordilho alma de touro;
    Pingo que sabe o segredo pra ganhar o freio de ouro;
    Função e morfologia, raça, coragem e ‘brio’;
    A noite parece o dia quando chega o rodopio…
    Aparta, pecha e esbarra, galopa, trota e tranqueia;
    Quem busca o freio com garra, não teme a volta feia;
    Corre o bovino sobrando, retoma e não vira o fio;
    Levanta terra girando, que afinal é um rodopio…”

  • Olívio Dutra: monopólio na Comunicação faz mal à democracia

    Por Sérgio Lagranha
    O ex-governador Olívio Dutra, candidato ao Senado pela “Unidade Popular” (PT – PTB – PCdoB – PPL – PR – PTC – PROS) entende que é preciso discutir no Congresso o papel da mídia no Brasil e regularizar o artigo 220 da Constituição Federal de 1988 que trata da Comunicação, principalmente seu parágrafo quinto, onde consta que os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio. “O monopólio na Comunicação faz mal à democracia”, disse nesta quarta-feira, 20, durante entrevista à imprensa antes do tradicional Tá na Mesa promovido pela Federasul.
    Como o seu principal oponente na campanha ao Senado é o jornalista Lasier Martins – candidato pela coligação O Rio Grande Merece Mais (PDT/DEM/PSC/PV /PEN) que trabalhou durante décadas na Rede Brasil Sul de Comunicação, só saindo para ser candidato – logo veio a pergunta se ele representava o trabalhismo de Getúlio Vargas ou o Grupo RBS. Sua resposta: “a postura ideológica do meu oponente nunca foi trabalhista, pois sempre defendeu os interesses dos anunciantes de seus programas na RBS. Além disso, durante seu período como comunicador desprezou a política e os políticos.” Olívio defende que o ser humano é essencialmente político, caso contrário fica incompleto.”
    Ele propõe uma redução dos valores pagos aos grandes veículos de comunicação pela publicidade oficial. “Quando fui governador do Rio Grande do Sul reduzi a verba das grandes redes e aumentei para os pequenos veículos.
    Mesmo o Senado sendo desacreditado pela população brasileira, visto como omisso e corrupto, Olívio acredita que ainda é um bom espaço para o debate sobre as reformas Política, Tributária, Urbana e Agrária. Sua prioridade é a reforma Política, mas reconhece que ela não sairá de cima para baixo.  Por isso, propõe uma grande mobilização para que aconteça um plebiscito e uma constituinte exclusiva que vai decidir as mudanças necessárias para o País. “Existe uma enorme distorção no sistema representativo”, acrescentou.
    Para ele, é necessário avançar também na criação de conselhos populares e acabar a predominância dos grandes grupos econômicos nas decisões no Congresso. “As receitas são decididas baseadas pelos interesses privados, como as renúncias fiscais enquanto as despesas ficam com o povo. Deve predominar o interesse público, sem esquecer o espaço para o privado executar determinadas obras públicas. Só não pode privatizar os lucros e socializar as despesas. É necessário conciliar o interesse público e o privado.”
    Olívio acha no mínimo estranho o ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, ainda no primeiro semestre deste ano eleitoral pedir vistas a Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) 4.650 proposta pelo Conselho Federal da OAB, que se baseia no entendimento de que é inconstitucional a doação eleitoral por empresas porque cria uma desproporcionalidade no sistema político e dá às empresas um poder de atuação que não deveriam ter, pois não são agentes legalmente reconhecidos da vida política nacional.
    No momento do pedido de vistas, a votação já contava oficialmente com quatro votos e mais duas declarações prévias favoráveis, ou seja, seis dos 11 ministros, maioria necessária para a aprovação, já apoiam o fim das doações de empresas às campanhas eleitorais. A Adin 4.650 está no Supremo há três anos. O Tá na Mesa, da Federasul, terá ainda como palestrantes os candidatos ao Senado Lasier Martins (PDT), 27 de agosto; Simone Leite (PP), 3 de setembro, e o substituto de Beto Albuquerque, 10 de setembro.

  • Mostra “Medos” de Jackson Brum estreia na Urban Arts POA

    A Urban Arts Porto Alegre apresenta, a partir do dia 21 de agosto, a exposição “Medos” do artista Jackson Brum. Com trabalhos em aquarela que não seguem a mesma linha e padrão, o artista busca a diversidade e a liberdade.
    “Medos” é uma exposição reflexiva. É a vontade que existe dentro do artista de mostrar para o mundo os próprios desejos e vontades – características que fazem do homem um ser pulsante. Jackson, inquieto e afetivo, expressa o amor de forma ampla e a beleza do sofrimento.
    Medos - Jackson Brum (1)
    Através da mistura de cores e traços inusitados, o Brum encoraja o espectador a desejar algo novo e inexistente, transpondo barreiras de medos e acomodações – jogando para o público a missão de entender cada obra. Em todas as obras é possível encontrar muita cor, figuras humanas, sentimentos e mensagens.
    Jackson é designer gráfico de formação e pós-graduado em educação popular e movimentos sociais. Grafiteiro, arte educador e bailarino, já transcendeu fronteiras e encantou com arte outros países como Alemanha, França, Polônia, Espanha, Portugal e Itália.
    Medos - Jackson Brum (6)
    SOBRE A UA POA
    Desde março de 2013 em operação na capital gaúcha, a Urban Arts Porto Alegre se tornou uma referência no mundo da arte digital e ilustração na cidade. Além de comercializar trabalhos de artistas, designers e ilustradores de talento nacionais e internacionais, a UA POA promove mensalmente exposições de artistas locais. Já passaram pela galeria artistas como Pirecco, Beto 70, Gus Bozzetti, Raul Krebs, Carol W, Clarissa Motta Nunes, Theo Felizzola, Duda Lanna, Henry Lichtmann, Gustavo Corrêa, Roberto Pujol, Pablo Etchepare e também os coletivos Barraco Estúdio/Galeria Mascate, Musgo Design, Acervo Independente, Vó Zuzu Atelier, Estúdio Hybrido, Azul Anil Espaço de Arte, Paxart e Núcleo Urbanóide.
    SERVIÇO
    “Medos” de Jackson Brum
    De 21 de agosto a 13 de setembro, de segunda à sexta das 10h às 19h, e sábados das 11h às 18h, na Urban Arts Porto Alegre (Rua Quintino Bocaiúva, 715 – Moinhos de Vento)

  • Imprensa: "Uma história que não foi contada"

    Em seu Almanaque o jornalista Hélio Gama, ao mesmo tempo que faz semanalmente um apanhado qualitativo dos temas dominantes, está destilando parte de suas memórias, que guardam pelo menos 40 anos de vivências pelos principais projetos da imprensa brasileira.
    O trecho que segue é parte de um capítulo inédito da história da imprensa do Rio Grande do Sul. Uma introdução à “História do Diário do Sul”, digamos.
    MEMORIA DE JORNALISTA
    Uma história que não foi contada (parte final)
    Hélio Gama
    (…) Nessa época, comecei a fazer o projeto do novo jornal, que ainda não tinha nem nome. Mas o plano era de lançar o jornal em uma nova empresa da GZM, sem qualquer mudança ,na sua estrutura inclusive com a continuidadfe do caderno regional, a Gazeta Mercantil Sul, que vinha obtendo crescente resultado com publicações legais. Como o jornal, no conjunto, tinha um resultado muito positivo no Rio Grande do Sul, pensava, também, que isso poderia representar boa parte do investimento.
    Elaborei, então, o projeto editorial do jornal que seria da “família” da Gazeta Mercantil, mas diferente dela. Agregaria, é claro, os princípios básicos tais como independência, separação da opinião do jornal do material noticioso, a obrigatoriedade de ouvir as partes nas reportagens controversas, postura muito definida a respeito de temas centrais, sendo um jornal liberal progressista, vamos dizer assim. Isso significava ter um editorial que fosse considerado importante para os leitores do jornal. Isso exigiu fazer o seguinte: o jornal nasceria como se já existisse por muitos anos tendo opiniões consolidadas (isso foi fácil, com base no histórico das posições do jornal-mãe).
    Também planejei algumas características básicas, tais como o jornal ter seis edições por semana, circulando no sábado com a edição de fim de semana. Sempre achei ridículo o hábito de circular pela manhã com a edição de sábado e as 14/15 horas do mesmo dia colocar nas bancas a edição de domingo (sem notícia de sábado!). Além disso, existiam bons motivos de ordem econômica, já que a sétima edição aumentaria os custos de todos os setores.
    O nome Diário do Sul nasceu com naturalidade, de tanto que conversei com Luiz Fernando Levy falando no jornal diário do sul. As restrições da direção editorial da GZM ao novo projeto eram evidentes mas educadamente disfarçadas, da mesma forma como ocorrera quando apresentei a ideia de fazer o caderno regional. Raríssimas vezes apareceram oportunidades de conversar com os editores, em São Paulo, sobre o novo projeto. E quando foi decidido que ele seria feito, o raio de Zeus que me atingiu, e aos leitores da GZM, foi que, simultaneamente seria extinto o caderno regional.
    Enfim, no início de 1986, tínhamos um projeto de jornal e inclusive, com base na ideia de que, segundo a experiência internacional, os jornais passam a dar resultado positivo no quinto exercício, coordenei a elaboração de um detalhado orçamento de cinco anos, apontando, então, o valor total que a GZM teria de injetar em sua subsidiária até que o retorno fosse possível. Diante das dificuldades da GZM para investir, agravada pela surda oposição de setores da empresa em dividir recursos que já não eram substanciais, a ideia era a de conseguir também sócios locais.
    Tudo estava praticamente pronto para o lançamento, quando, no começo de maio, o desembargador Hermann Homem de Carvalho Roenick, síndico da massa falida me chamou e largou uma bomba: o empresário Renato Ribeiro, um milionário brocker do setor de commodities tinha adquirido tudo, inclusive as dívidas! Ou seja, o homem agora era Ribeiro que, semanas antes, tinha ficado furioso com algumas matérias da Zero Hora que sugeriam que ele acrescentava elementos estranhos nos sacos de soja que eram exportados. Consta que um grande amigo dele teria dito que ele evitaria tais ataques se tivesse o seu próprio sistema de comunicação.
    O projeto do Diário do Sul tremeu nas bases. O Plano “A” foi por terra. Então, o Plano “B” foi o de tentar fazer uma associação com Renato Ribeiro. O encontro, organizado por Luiz Fernando Cirne Lima, amigo comum dos dois, foi na mansão estilo E o Vento Levou, do empresário, na Avenida Carlos Gomes, em Porto Alegre. Participei, então, da reunião de Luiz Fernando Levy com Ribeiro, mediada por Cirne Lima. Foi um dos piores encontros da minha vida. Com praticamente dez anos de Gazeta Mercantil nunca tinha visto Luiz Fernando ter má participação em reuniões. Ele esteve irreconhecível diante da postura naturalmente agressiva e autoritária de Ribeiro.
    Ele rechaçou a possibilidade de qualquer acordo, mas abriu a porta para assimilar o grupo de jornalistas que estava já formado para, então, fazer o Correio do Povo. Quando saímos da reunião, desanimado, Luiz Fernando comentou: “foi a pior pessoa que conheci na minha vida”. Nasceu então o Plano “C”. Luiz Fernando falou com Cirne Lima, este falou com Renato e Renato me chamou para uma reunião em seu escritório.
    Sua sala era simples, e o visitante ficava sentado ao lado de um visor onde apareciam as cotações das commodities. Renato conversava com o visitante de olho nos preços e, de vez em quando dava uma ordem para comprar ou vender para um de seus assessores. Conversamos um pouco, ele perguntou se estaria disposto a reiniciar o Correio do Povo e então quis conhecer minha equipe de direção do projeto Diário. E fomos jantar com ele no Rock’s um pequeno restaurante prestigiado pela suposta qualidade de seus filés.
    Apresentei as pessoas e cada um expôs o tipo de trabalho que realizava. Ficou interessado no trabalho na parte industrial da Caldas Junior, inclusive com o estreitamento da rotativa para um standard moderno. Ele era rápido. No dia seguinte ele fez o convite para ser Diretor de Redação do Correio do Povo, extensivo à equipe que planejava o Diário, falei pelo telefone com Luiz Fernando, chorei um pouco, não sei se ele chorou também, liguei para o Renato e fui lá ter uma conversa de orientação. Ao contrário do que imaginava, ele disse que queria o jornal standard, que as letras tinham que ser grandes para facilitar a leitura das pessoas mais idosas, falou sobre a importância da cobertura sobre agropecuária e mais algumas coisas. E disse para que já fosse para lá e fizesse o planejamento do novo Correio, inclusive uma proposta de projeto gráfico.
    Antiga redação do Correio do Povo, na época em que era líder
    Então, no dia seguinte, já como diretor, entramos todos no templo sagrado do jornalismo gaúcho, a redação do Correio do Povo. As luzes estavam apagadas e o ambiente era naturalmente escuro, quase sombrio. Mas quando as luzes foram acesas foi uma alegria. Os profissionais percorriam a redação para reconhecer as mesas. “Aqui era a mesa do Mário Quintana”, gritou um. “Aqui sentava o Gastal”,disse outro (Gastal era o excelente crítico de cinema do Correio, com o pseudônimo de Calvino). Durante o dia, Renato pediu para encaminhar ao antigo gerente de pessoal do Correio os nomes da minha equipe, com as respectivas funções. Nesse meio tempo boquiabertos, assistimos uma cena insólita: a mulher do novo proprietário da empresa, com uma vassoura, balde de água e pano, varrendo e tirando o pó da antiga sala de Breno Caldas.
    Pensei comigo: “será que Renato vai querer ficar na redação”? E também não me saía da cabeça uma frase dita por Renato durante o jantar: “tenho horror de comunista, mulher liberada e homossexual”. Lembro que pensei: “Ih, acho que teremos problemas”. E enquanto a sra. Ribeiro varria e o pessoal do projeto gráfico e os editores se reuniam numa sala sem janela e abafada, com uma grande mesa, recebi outra informação: o Correio do Povo mantinha uma lista negra de jornalistas que, por várias razões não podiam voltar a trabalhar nos veículos da empresa. Com essa notícia, conclui que minha administração seria uma espécie de cometa na história do Correio do Povo, inclusive sem registro.
    No dia seguinte, Renato me ligou cedo e disse que vários profissionais do meu time constavam da lista negra, que, por sinal, ele tinha decidido que continuaria em vigor. Disse-lhe, então, que isso alterava nosso acerto inicial pois prejudicaria um grupo de profissionais de alta qualidade e que não poderia continuar naquela função. Ele me disse que imaginava isso, e assim terminou o contrato não assinado, nos despedimos educadamente e deixei a diretoria de redação do tradicional Correio do Povo. Comuniquei com tristeza os fatos aos meus colegas e regressamos para a Gazeta.
    Contei ao Luiz Fernando, pelo telefone, tudo o que tinha acontecido. Alguns garantem que fiz um pedido para ele retomar o projeto do Diário. Mas não foi assim. Quando terminei o relato, ele disse: “Vamos fazer esse jornal. Venha amanhã a São Paulo para a gente acertar isso”. Foi o que fiz, levando a tiracolo todos os planos e o orçamento. Quando regressei estava autorizado a colocar em prática o Plano “D”. E foi o que fiz. No dia 4 de novembro de 1986 começou a circular o Diário do Sul. Um dia desses vou contar essa história sobre o jornal que, numa homenagem da Câmara de Vereadores de Porto Alegre, foi definido pelo orador, o grande radialista e vereador Lauro Hagemann, como “um jornal feito com amor”.
    (Transcrição autorizada)

  • Tortura nos quartéis: o caso de Miriam Leitão

    Por Luiz Cláudio Cunha / Observatório da Imprensa / (19.08.2014) |
    A mulher serena na frente do homem inquieto. A repórter experiente perante a autoridade calejada. A entrevistadora firme ante o ministro gelatinoso. A profissional de imprensa olho no olho com sua fonte.
    Uma brasileira, presa e torturada na ditadura, frente a frente com o ministro da Defesa que hoje comanda o Exército que ontem, na ditadura, prendeu e torturou a mulher, a repórter, a jornalista, a brasileira que o questionava (leia abaixo o depoimento inédito de Míriam Leitão sobre as torturas que sofreu).
    Esse dramático confronto de 22 minutos brilhou na tela da TV numa noite de quinta-feira, no final de junho passado, quando a jornalista Míriam Leitão, 61 anos, fez para a GloboNews uma notável entrevista com o ministro da Defesa, Celso Amorim, 72 anos.
    Viu-se então uma aula prática do melhor jornalismo, confrontando a convicção com a dúvida, a energia com a tibieza, o categórico com o evasivo, a verdade com a mentira. A repórter se agigantando num diálogo em que o ministro se apequenava, acuado, hesitante, gaguejante.
    Míriam fez o que o resto da grande imprensa, acomodada e preguiçosa, não fez. Foi a Brasília ouvir o chefe civil dos militares, apenas nove dias após a entrega à Comissão Nacional da Verdade (CNV) de uma insossa, imprestável sindicância de quatro meses realizada pelos três comandantes das Forças Armadas (FFAA).
    Diante de questões objetivas com nomes, datas e locais de mortes e torturas apontadas pela CNV, os chefes da tropa responderam, num catatau de 455 páginas, que não registravam nenhum “desvio de finalidade” em sete centros militares do Exército, Marinha e Aeronáutica onde foram meticulosamente documentados casos de graves violações aos direitos humanos pelo regime militar de 1964-1985.
    Os oficiais-generais das três Armas simplesmente negaram a ocorrência de abusos até mesmo nos sangrentos DOI-CODI da Rua Tutoia, em São Paulo, e da Rua Barão de Mesquita, no Rio de Janeiro, onde a CNV já constatou pelo menos 81 mortes por tortura.
    Os comandantes esqueceram até dos 22 dias de suplício no DOI-CODI paulistano a que sobreviveu em 1970 uma guerrilheira chamada Dilma Rousseff, hoje casualmente presidente da República e, como tal, comandante-suprema dos generais que omitem a crua verdade sobre a ditadura das FFAA (ver “Quem mente? A presidente ou os generais?“).
    Semblante sério, como recomendava o tema e exigia o embate, a jornalista entrou de sola na entrevista:
    Míriam– Ministro, os militares disseram que não houve desvio de função, mas a resposta causou perplexidade…
    Amorim – […] A CNV não perguntou se as pessoas foram torturadas. Ela focaliza muito na destinação dos imóveis. Com esta pergunta, a resposta também sinaliza uma resposta formal. Não houve, não há registro formal de desvio de funcionalidade…
    Míriam– A CNV fez as perguntas erradas?
    Amorim – Ela não fez as perguntas que ela não precisava fazer […] As FFAA não negam, nem comentam. Elas não contestam. Elas simplesmente não entram [no assunto]. Se um estabelecimento, militar ou outro qualquer, é usado para tortura, isso não é um ilícito administrativo. Isso é um crime […] Especificamente sobre as torturas, ela [CNV] não faz nenhuma pergunta, ela afirma. E as afirmações [da CNV] não são contestadas.
    Míriam– Uma coisa é o DOI-CODI prender. Outra coisa é matar o preso.
    Amorim – Isso é horrível. Não é um desvio de finalidade, é um crime. […] Se você disser que as respostas são formais, eu concordo. Até acho que elas são formais. Elas não são mentirosas, nem descumprem formalmente o que foi perguntado. Elas decepcionam quem…
    Míriam– … elas omitem a questão principal, ministro. As pessoas foram mortas dentro de instalações militares, foram torturadas, e não foi para isso que se criaram essas instalações. Elas existem para defender o Brasil, não para torturar e matar brasileiros.
    Amorim – Não há a menor dúvida. Tortura e morte é errado em qualquer lugar. Eu acho isso e a sociedade brasileira acha isso…
    Míriam– Mas os seus comandados não acham. Como ministro da Defesa, o sr. é o comandante dos comandantes militares. O sr. não deveria levá-los a tomar uma decisão sobre isso? O que eles fizeram nessa sindicância foi tergiversar sobre a questão fundamental que se pergunta…
    Amorim – Nós estamos completando uma transição, a última etapa da transição é o relatório da CNV. A CNV vai produzir um relatório final e todos terão que se posicionar diante dele. Quanto às respostas em si à CNV, elas atendem ao que foi perguntado formalmente. Não houve nenhuma pergunta, tipo “o sr. confirma que houve tortura e morte?”. Até porque eu sei que a resposta aí seria: “Todos os documentos da época [da ditadura] foram destruídos”.
    Míriam– É o que eles dizem, aliás.
    Amorim – Não houve nenhum esforço, nenhuma pretensão de negar os fatos…
    Míriam– O jornalista Zuenir Ventura escreveu que, se [tortura e morte]não era desvio de função, então era norma. O que o sr. diz dessa conclusão?
    Amorim – Acho que tortura e assassinato de uma pessoa indefesa é algo indefensável. Se isso era norma explícita, eu não… eu creio que não. Mas, implícita, talvez fosse. Infelizmente, era um governo ditatorial. Ninguém vai discutir isso. Você sabe muito bem: eu deixei meu cargo na Embrafilme porque autorizei a elaboração de um filme pago pela empresa em que a OBAN era o tema central.
    Amorim, sempre diplomata, não esclareceu bem aos telespectadores esse episódio que o dignifica e está relacionado à OBAN, a Operação Bandeirante, a repressão unificada em São Paulo que antecedeu em 1969 o DOI-CODI criado no ano seguinte.
    Ele não “deixou” o cargo, ele foi exonerado em abril de 1982 da presidência da Embrafilme, a estatal de cinema da ditadura, por pressão dos generais do governo Figueiredo, irritados com o temerário financiamento que a empresa concedeu ao cineasta Roberto Farias para produzir Pra Frente, Brasil.
    Era um filme de 105 minutos, estrelado por Reginaldo Faria, Natália do Valle e Antônio Fagundes retratando de forma contundente, pela primeira vez no cinema, os horrores da repressão sem limites.
    Os personagens eram calcados nos algozes da OBAN, no delegado do DOPS Sérgio Fleury e nos empresários que financiavam a tortura do regime. O ator Carlos Zara interpretou o sádico “Dr. Barreto”, o policial inspirado em Fleury, que havia torturado seu irmão, Ricardo Zaratini, um dos presos políticos trocados pelo embaixador americano Burke Elbrick em 1969.
    O ator Paulo Porto encarnou o personagem inspirado no industrial Henning Boilesen que – como caixa da OBAN no meio empresarial e amigo do poderoso ministro Delfim Netto – foi executado por guerrilheiros em abril de 1971. Lançado em 1982, Pra Frente, Brasil ganhou cinco prêmios em festivais internacionais e, após uma arrojada exibição em Gramado, RS, conquistou o troféu de melhor filme do festival de cinema mais importante do país. Em seguida, foi censurado e retirado das salas de exibição. Só voltou a ser mostrado no início de 1983, liberado sem cortes.
    Hoje comandante dos militares que no passado o expurgaram do serviço público, Celso Amorim agora tem bons motivos para medir a diferença no calendário.
    Amorim – O Brasil precisa das FFAA. E os militares de hoje não são os militares de ontem. Nós precisamos dialogar com estes militares de hoje. Eles tem que saber separar o que foi o passado e o que é hoje. O 31 de março já não é mais comemorado…
    Míriam– Mas eles mesmos não fazem esta separação, quando não admitem os erros do passado. Até para preservar a instituição [das FFAA], eles não deveriam fazer esta separação?
    Amorim – Você quer minha opinião pessoal? Acho que devem [fazer a separação]. Mas, isso não se faz com uma ordem. Isso é uma mudança cultural. Porque, as ordens eles podem até obedecer. Isso é uma mudança cultural que vem aos poucos. Essa ordem depende do diálogo. Há outras concepções culturais das corporações. Como isso se concilia, é uma coisa complicada.
    Não vou entrar aqui numa discussão filosófica sobre culpas coletivas, ou culpas intergeracionais. O tempo vai fazer com que isso ocorra. O primeiro passo é eliminar as coisas oficiais, como as comemorações do 31 de março. Nunca ouvi de nenhum militar, pelo menos comigo, nunca ouvi nenhum defender a tortura, sob nenhum aspecto. Nenhum veio aqui e disse: “Ah, mas naquele caso tivemos que fazer isso…”. Nenhum. Nunca ouvi. Nem direta, nem indiretamente.
    Míriam– E nem condenaram, também…
    Amorim fecha os olhos, suspira, e não diz nada. É salvo pelo intervalo do programa de entrevista, aos 13’33’’. Na segunda parte, Amorim volta falando das coisas positivas que vê hoje na área militar.
    Amorim – […] Como a criação do Estado Maior Conjunto das FFAA, subordinado diretamente ao Ministério da Defesa. Ou seja, o Ministro está na cadeia de comando, inclusive das operações militares. E temos um secretário-geral civil, no mesmo nível dos comandantes. Incluímos disciplinas de direitos humanos em todas as escolas militares. Os livros [das escolas militares] devem ser aprovados pelo MEC e fazem parte do currículo. Os colégios militares são excelentes. Você poderia me perguntar: “Mas, o sr. não pode dar uma ordem?” Posso, mas eu prefiro convencer. O convencimento tem mais durabilidade. Aprendi isso com a diplomacia. Acho que o convencimento é melhor do que uma ordem estrita.
    Míriam – Em algum momento as FFAA vão se deixar convencer a pedir desculpas ao País pelos crimes cometidos na ditadura, para que eles não se repitam?
    Amorim – Esta é uma questão complicada. Eu não sei… Acho que… talvez, talvez. Eu esperaria… Acho que o grande input para isso seria o próprio relatório da CNV, o tratamento que ele vai ter e como será recebido pela sociedade. Agora, você tem um conflito entre duas concepções.
    Uma, as FFAA de hoje pedindo desculpas pelo que não foi feito por elas? Não sei… Eu, como ministro das Relações Exteriores, se formos pedir desculpas por tudo que tenha sido feito pelo Itamaraty, inclusive no tempo da ditadura, talvez fosse complicado para mim… Acho melhor ir mudando, mudando a prática, e deixando aquilo que se deve ver e analisar para o Judiciário, o Congresso, a sociedade… Mas, não sei… Talvez fosse bom para eles [os militares]. Eu acho…
    Gaguejando, vacilando, traindo suas dúvidas internas, Amorim revelou na GloboNews as incertezas existenciais que são antigas e comuns entre os sete homens que ocuparam o Ministério da Defesa desde sua criação, em junho de 1999, pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. Nascida 14 anos após a queda da ditadura, a pasta reproduzia a experiência de nações mais avançadas nos padrões democráticos.
    É a realização administrativa da constatação feita por um médico francês do século passado, Georges Clemenceau (1841-1929), o primeiro-ministro da França nos anos turbulentos da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), que diagnosticou: “A guerra é uma coisa demasiadamente grave para ser confiada aos militares”.
    Para expurgar a arrogância natural de 21 anos de regime de exceção no Brasil, onde a voz da caserna com frequência se confundia com os rugidos mais assustadores da caverna autoritária, um Ministério da Defesa ocupado por um civil tinha, como primeira vantagem, tirar o intocado status ministerial das Forças Armadas habituadas ao cachimbo torto da hegemonia sobre a República e do arbítrio sobre todos.
    GRITOS E SUSSURROS
    Rebaixando os ministros militares ao nível de comandantes, sob o tacão de um civil na Defesa, o país imaginava se vacinar contra recidivas no delicado processo da regeneração democrática.
    O problema é que, em vez de Ministro da Defesa do Estado, cada um dos ocupantes do posto assumiu o equivocado papel de ministro da defesa dos comandantes militares.
    Desde o primeiro e mais fugaz, Élcio Alvarez, que durou meros sete meses no cargo, até o mais longevo, Nelson Jobim, que Lula legou a Dilma e sobreviveu no posto por longos 50 meses.
    Mais do que encarnar o papel de comandante civil do governo sobre os escalões militares, os ministros acabaram vestindo a farda de porta-vozes dos quartéis e seus chefes, tornando mais difícil o pleno reconhecimento das diferenças cruciais que existem entre os Exércitos da ditadura e da democracia – e que nem os comandantes sabem separar, como reconheceu Amorim para Míriam.
    O atual ministro da Defesa, profissional do Itamaraty desde 1989, quando o país teve sua primeira eleição direta para presidente em três décadas, levou para o cargo as manhas da diplomacia, esquecido de que o tom acatado nos quartéis é a ordem gritada e peremptória, não o sussurro do lerdo convencimento ciciado nas missões diplomáticas.
    O que Amorim aprendeu com as luvas de pelica nos salões atapetados do Itamaraty não combina com os coturnos empoeirados dos campos de manobra dos generais. São áreas diferentes, são mundos separados.
    O ministro da Defesa, com ingenuidade, confessou na GloboNews que é um chefe que abdica de suas atribuições: em vez de mandar, como se faz e se espera na caserna, prefere convencer, como nem os diplomatas às vezes conseguem.
    Militar, desde a academia, sabe que o ofício do soldado é obedecer, assim como a missão do comandante é comandar. O diplomata Amorim, com a muleta da “durabilidade”, prefere convencer.
    Nas praias da Normandia, nas areias de El Alamein, nas colinas de Waterloo, nas alturas de Monte Castelo, no estreito das Termópilas, no mar revolto de Midway, onde ecoaram algumas das batalhas épicas que todo oficial de Estado-Maior estuda nas aulas de tática e estratégia em combate na academia, os militares não esperavam ser convencidos para cumprir sua missão, para comandar e obedecer, para matar ou morrer.
    Se fossem esperar pelo moroso convencimento proposto por Amorim, os generais teriam perdido a batalha, a guerra, a vida e, talvez, a honra.
    O general francês Charles De Gaulle (1890-1970), que não convencia mas sabia mandar, tinha esta áspera opinião sobre os colegas de carreira de Amorim: “Diplomatas são úteis apenas sob bom tempo. Assim que chove eles se afogam em cada gota”. O parlamentar inglês Henry Wotton (1568-1639), embora embaixador, era ainda mais cínico: “O diplomata é um cavalheiro honesto enviado ao exterior para mentir pelo bem de seu país”.
    AGENTE DA BORRASCA
    Como o cavalheiro honesto que é, Amorim poderia dizer a verdade pelo bem do país começando por um único pedido de desculpas, na condição de ex-ministro das Relações Exteriores, por uma grave truculência cometida por seus polidos pares de diplomacia exatamente no tempo da ditadura: o Centro de Informações do Exterior (CIEx), o serviço secreto criado dentro do Itamaraty, no primeiro governo da ditadura, o do general Castelo Branco.
    Foi obra e engenho de um diplomata sempre útil e que sorvia cada gota da borrasca, Manoel Pio Correa Júnior (1918-2013), um anticomunista ferrenho que se notabilizou pela caça aos comunistas na carreira diplomática e pelo combate aos “vagabundos, bêbados e pederastas” que encontrou pelo caminho.
    Uma de suas vítimas mais notáveis foi o diplomata e compositor Vinícius de Moraes, cassado pelo AI-5. O poetinha brincava com os amigos: “Ei, eu sou o bêbado, viu?”.
    Capitão R/2 da Cavalaria, o sóbrio Pio Correa vestia sobre o terno de diplomata a capa de agente da CIA, servindo na estação do Rio de Janeiro da agência de inteligência norte-americana, conforme revelou o ex-agente Phillip Agee na página 384 de seu livro de memórias, Por Dentro da Companhia (Edição Círculo do Livro, 1976). Ali, para constrangimento de Amorim e qualquer cavalheiro honesto, o homem da CIA no Uruguai relatou, no diário de Montevidéu datado de 17 de junho de 1964, menos de três meses após o golpe no Brasil:
    […] a base do Rio [da CIA] decidiu enviar mais dois de seus elementos para a embaixada do Brasil aqui – além do adido militar, coronel Câmara Sena. Um deles é um funcionário de carreira de alto nível do ministério das Relações Exteriores do Brasil, Manoel Pio Correa, que virá como embaixador; o outro é Lyle Fontoura, protegido de Pio Correa, que será o novo primeiro-secretário. Até o mês passado, Pio era embaixador do Brasil no México, onde, de acordo com o currículo enviado pela base [da CIA] do Rio, demonstrou muita eficiência nas tarefas operacionais para a base [da CIA] da Cidade do México. Contudo, como o México não reconheceu o novo governo militar do Brasil, Pio foi chamado de volta ao seu país e a base [da CIA] do Rio de Janeiro providenciou para que fosse nomeado para Montevidéu, que no momento é o ponto em ebulição da diplomacia brasileira.
    Assim que chegarem os novos elementos do corpo diplomático, Holman [Ned. P., chefe da CIA em Montevidéu] entrará em contato com Pio, enquanto O’Grady [Gerald, subchefe da CIA] se encarregará de entrevistar-se com Fontoura. De uma forma ou de outra, a base [da CIA] do Rio está decidida a elaborar operações contra os exilados, e – ao que parece – Pio é o homem indicado, pois tem perserverança suficiente para manter as pressões sobre o governo uruguaio.
    Com a mão pesada da CIA, Pio Correa foi premiado pelo governo Castelo Branco justamente com a embaixada em Montevidéu, onde se concentravam os inimigos que acompanharam João Goulart e Leonel Brizola ao exílio. Lá, o agente duplo da CIA Pio Correa, com o braço forte do adido militar, o coronel Câmara Senna, outro serviçal da agência americana, começou a montar o seu CIEx, formado inicialmente por uma rede de contatos que incluía políticos, militares, juízes, delegados de polícia, fazendeiros e comerciantes que fechavam o cerco sobre as atividades de Jango e Brizola no Uruguai.
    A bem sucedida experiência uruguaia o levou, como secretário executivo do chanceler Juracy Magalhães, a redigir e assinar a portaria ultrassecreta que criou o CIEx no governo Castelo Branco. Tão secreta que nem constava da estrutura formal do pudico Itamaraty. A existência do CIEx só seria confirmada em 2007, exatamente quando Amorim era o chanceler do segundo governo Lula. A constrangedora revelação coube à monumental série de reportagens produzida pelo repórter Cláudio Dantas Sequeira, do Correio Braziliense, revelando a ação repressiva da primeira agência criada sob o amparo do Serviço Nacional de Informações (SNI) e de seu criador, o general Golbery do Couto e Silva.
    O repórter descobriu que, no início, o secreto CIEx foi camuflado como Assessoria de Documentação de Política Exterior, ou simplesmente ADOC, com verba secreta e subordinado à Secretaria Geral de Relações Exteriores. Dos primeiros anos da ditadura até 1975, funcionou dissimulado como seu criador na sala 410 do quarto andar do “Bolo de Noiva”, o Anexo I do Palácio do Itamaraty, em Brasília.
    Desmontado com a ditadura em 1985, o lugar hoje abriga a inofensiva Divisão de Promoção do Audiovisual. Vasculhando 20 mil páginas de documentos com 8 mil informes escondidos nos arquivos do CIEx, o repórter Sequeira apurou que, dos 380 brasileiros mortos ou desaparecidos durante o regime, os nomes de 64 das vítimas estavam lá, nas pastas secretas de Pio Correa. Atuando em linha com os adidos militares das embaixadas, a tropa civil dos adidos do CIEx de Pio Correa foi decisiva na atuação do Brasil na Operação Condor, o Mercosul da repressão que caçava e matava sob o mando e desmando dos generais do Cone Sul do continente.
    PROPOSTA INDECENTE
    Como chefe dos diplomatas, Amorim não lembrou de pedir desculpas pelo CIEx. Como chefe dos militares, Amorim chegou a pensar em um pedido de desculpas dos generais pelos 21 anos de ditadura.
    Foi o que ele fez em 18 de fevereiro passado, em seu gabinete no Ministério da Defesa, em Brasília, na audiência que concedeu aos seis comissários da Comissão Nacional da Verdade.
    O ministro se remexeu na cadeira, surpreso e incomodado com a entrega inesperada do requerimento da CNV, listando sete locais de tortura e morte administrados pelo Exército, Marinha e Aeronáutica.
    Ele reagiu com uma proposta inusitada, que desconcertou os comissários: ofereceu, em nome dos comandantes das FFAA, um pedido público de desculpas ao país pelos excessos cometidos em duas décadas de arbítrio. Em troca, Amorim pediu à CNV garantias de que não haveria a temida revisão da Lei de Anistia que a ditadura se autoconcedeu em 1979 no governo Figueiredo, para salvar a pele e a biografia dos torturadores até hoje impunes.
    Os comissários reagiram na hora, com a altivez devida, rejeitando a proposta indecente de Amorim. Ela apenas retrata a preocupação crescente dos quartéis com uma provável recomendação de impacto no relatório final da CNV, a ser apresentado ao país em dezembro próximo.
    É cada vez mais forte a tendência na CNV para recomendar a revisão da anistia da ditadura, diante das pesadas evidências e contundentes provas documentais que se acumulam sobre abusos e violências cometidos pelo regime arbitrário de 1964.
    Aceitar os termos do Ministro da Defesa para o pedido de desculpas dos generais seria uma indesculpável barganha política que fere o bom-senso e a ética.
    Seria coisa ainda pior, a transgressão de um mandamento pétreo proclamado pelo mestre maior de Amorim e seus colegas de carreira: “Um diplomata não serve a um regime e sim ao seu país”, ensinou o diplomata José Maria da Silva Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco (1845-1912), o chanceler que atravessou quatro governos da nascente República, no início do Século 20, e ampliou o Brasil redesenhando suas fronteiras.
    Os generais de hoje devem pedir desculpas à Nação pelos erros cometidos pelos generais de ontem como um imperativo ético que demarca fronteiras morais e faz uma justa e sanitária separação entre o Exército da democracia, a que eles servem, e o Exército da ditadura, que eles deveriam repudiar para preservar a honra e a imagem histórica da corporação.
    Amorim esqueceu de se desculpar na GloboNews pelo desonroso CIEx. Não recordou da ideia de um pedido de desculpas dos generais ao país. E, distraído, não lembrou da ficha da repórter que o entrevistava no seu gabinete.
    O ministro da Defesa, até pela autoridade do cargo, conhece os detalhes da biografia de Míriam Leitão que o Brasil desconhece. Amorim esqueceu que era entrevistado por uma sobrevivente da ditadura e das torturas que os generais sob seu comando agora negam, como negaram as torturas no DOI-CODI onde padeceu a guerrilheira da VAR-Palmares Dilma Rousseff.
    O “DOUTOR” E A JIBoIA
    Míriam não integrava a luta armada, como Dilma. Nos idos de 1972, aos 19 anos, Míriam era uma militante da base estudantil do então clandestino PCdoB, que tentava derrubar em Vitória (ES) a mesma ditadura que mantinha Dilma no cárcere, em São Paulo (SP).
    “A gente apenas pichava muros, espalhava cartazes nos pontos de ônibus e nas cabines de orelhões. Lembro que um dia pichei ‘Viva a guerrilha do sul do Pará! Abaixo a ditadura!’. Um idealismo de jovens que acreditavam naquilo, que sabiam que era preciso resistir a tudo aquilo, até mesmo com um simples panfleto”, lembrou Míriam.
    Mineira de Caratinga, filha de um pastor presbiteriano e de uma professora primária, sexto filho do casal (depois de três mulheres e dois homens) numa família de 12 irmãos, ela cursava o primeiro ano de História quando conseguiu um emprego na redação de uma rádio de Vitória, o que mudaria sua carreira para sempre.
    Estreava na profissão como repórter quando sentiu na carne o peso da repressão, sequestrada e presa durante três meses, entre dezembro de 1972 e fevereiro de 1973, no quartel do 38º Batalhão de Infantaria do Exército em Vila Velha, onde foram encarceradas e torturadas cerca de 40 pessoas – a maioria estudantes da Universidade Federal do Espírito Santo e um dos professores, o médico Vítor Buaiz, que fundou o PT, elegeu-se prefeito de Vitória em 1989 e sagrou-se governador do Estado em 1994.
    Na primeira parte do livro Brasil: Nunca Mais, dedicado a “Castigo Cruel, Desumano e Degradante”, o Capítulo 2 fala sobre “Modos e instrumentos de tortura”. Na página 39 do trabalho, um resumo do projeto original em 12 volumes escrito por Ricardo Kotscho e Frei Betto, existem oito depoimentos de presos políticos torturados sob a rubrica “Insetos e Animais”.
    O quarto depoimento, registrado no livro nº 674, volume 3, páginas 782v-783 do projeto Brasil: Nunca Mais, é a transcrição parcial do auto de qualificação e interrogatório de uma jornalista, então com 20 anos, chamada Míriam de Almeida Leitão Netto. Suas palavras:
    […] que, apesar de estar grávida na ocasião e disto ter ciência os seus torturadores […] ficou vários dias sem qualquer alimentação;
    […] que as pessoas que procediam o interrogatórios, soltavam cães e cobras para cima da interrogada; […]
    No livro de Kotscho e Betto havia outro depoimento, de um auxiliar de escritório de 31 anos, Dalton Godinho Pires, que em 1973, no volume 5 do livro n° 75, página 1224, revelou no seu interrogatório:
    […] havia também, em seu cubículo, a lhe fazer companhia, uma jiboia de nome Míriam […]
    Não era uma piada. Era uma jiboia mesmo, um exemplar da boa constrictor,a segunda maior cobra do Brasil (só menor que a sucuri), que mede em média três metros de comprimento.
    O autor deste artigo lembrou desses dados e entrou em contato com Míriam Leitão para esclarecer melhor sua dramática passagem pelo quartel do Exército na praia de Piratininga, no bairro Prainha de Vila Velha, 12 quilômetros ao sul da capital capixaba. Míriam me contou:
    “Fiquei presa ali, no 38º Batalhão. Os torturadores vieram de fora e, depois, sumiram. Eles trouxeram a cobra. Eu lembro que chamavam o pior dos torturadores, o dono da cobra, de Dr. Pablo.”
    Dr. Pablo era o codinome de um dos mais truculentos oficiais do DOCI-CODI do II Exército, na Rua Barão de Mesquita, no bairro carioca da Tijuca: Paulo Malhães, coronel do Centro de Informações do Exército (CIE).
    Em março passado Malhães deu um aterrador depoimento à Comissão Nacional da Verdade, numa sessão no Rio com a presença da imprensa.
    Ali confessou ter arrancado as arcadas dentárias e cortado os dedos de presos mortos sob tortura para não permitir a identificação dos corpos desaparecidos. Um mês depois da confissão, Malhães foi encontrado morto em seu sítio, na Baixada Fluminense, aparentemente vítima de infarto após ter a casa invadida por três bandidos, que fugiram dali levando, entre outros artigos bizarros para um ladrão, três pastas de documentos e o disco rígido de um dos dois computadores do coronel.
    Dois anos antes, em junho de 2012, Malhães confirmou ser o dono da Míriam, a cobra que deslizou pela cela da aterrorizada Míriam no batalhão do Exército em Vila Velha. O coronel do CIE contou aos repórteres de O Globo Chico Otávio, Juliana del Piva e Marcelo Remígio que, na primeira metade da década de 1970, levou cinco filhotes de jacaré e uma jiboia para torturar os presos na carceragem do Pelotão de Investigações Criminais (PIC) do I Exército, na Barão de Mesquita, sede do DOI-CODI carioca, onde podem ter morrido 30 presos, segundo estimativas da CNV.
    Malhães tinha atuado na “Casa Azul”, o QG da repressão à guerrilha do Araguaia, instalado na antiga sede do DNER em Marabá, no sul do Pará. Ali, segundo levantamento da CNV, morreram 24 presos, 22 dos quais militantes do PCdoB, o mesmo partido pelo qual Míriam pichava muros e espalhava panfletos em Vitória antes do encontro dramático com a Míriam do Dr. Pablo.
    O coronel contou aos repórteres de O Globo:
    “Eu estava um dia à beira de um rio, na região do Araguaia, quando senti a terra tremer. Descobri que estava sentado em cima de um ninho com filhotes de jacaré. Consegui pegar cinco, que batizei de Pata,Peta,Pita,Pota eJoãozinho. E ainda peguei uma jiboia de seis metros, que chamei de Míriam. Trouxe todos para o DOI-CODI, no Rio. Os filhotes de jacaré não mordiam. Só faziam tec-tec com a boca…”
    O jornalista mineiro Dalton Godinho Pires, citado pelo Brasil: Nunca Mais, ficou quatro anos preso, mas gravou na pele e na memória os 90 dias de terror no PIC da Barão de Mesquita, graças à Míriam.
    Localizado em 2012 pelo repórter Chico Otávio, Pires lhe contou:
    “Eles chegaram com um isopor enorme, apagaram a luz e ligaram um som altíssimo. Percebi na hora que era uma cobra imensa, que eles chamavam de Míriam. Felizmente, ela não quis nada comigo. Mas, irritada com a música, a cobra não parava de se mexer. O corpo dela, ao se deslocar, arranhou o meu. Cheguei a sangrar. Mas o maior trauma foi o cheiro que ela exalava, um fedor que custei a esquecer.”
    VERSO E REVERSO
    Quando leu esta reportagem dois anos atrás, no jornal em que trabalha, Míriam teve uma longa e privada crise de choro, ao cruzar na memória de dor o relato de cobras e jacarés da repartição de terror do coronel Malhães.
    “Era muita coincidência. A ninguém eu disse isso, nem aos meus filhos”, confessou-me ela, sempre refratária a discutir publicamente o seu drama pessoal. “Guardo aqui a sensação de que a minha dor eu mesmo curo. Não é dela que se trata. O que é importante é a dor do país e ela faz certas exigências às instituições. Uma delas é esse reconhecimento das Forças Armadas de que erraram”.
    Com a elegância exigida, Míriam preservou os limites institucionais de sua entrevista com o Ministro da Defesa, sem jamais confundir sua história de vida com a vida do país, embora elas se cruzem e se confundam.
    A consciência de que tinha diante de si uma sobrevivente da ditadura deve explicar o desempenho nervoso de Amorim na entrevista, ao tentar defender o que ele sabia, de corpo presente, não ser verdade.
    Aos 61 anos, mãe de dois filhos, ambos jornalistas (Vladimir, repórter da Rede Globo em Brasília, e Matheus, repórter da Folha de S.Paulo na sede do jornal), e avó de quatro netos, Míriam é hoje uma das mais importantes profissionais da imprensa brasileira.
    Acumula 24 prêmios de jornalismo, a terceira maior coleção de troféus no ranking nacional do site Jornalistas & Cia, logo atrás dos campeoníssimos José Hamilton Ribeiro, o mais premiado repórter brasileiro de todos os tempos, e Eliane Brum.
    Em 2005, Míriam tornou-se a primeira jornalista brasileira a receber o Prêmio Maria Moors Cabot, patrocinado pela prestigiosa Escola de Jornalismo da Universidade de Columbia (EUA), uma das mais importantes do mundo. Em 2012, Míriam produziu para a GloboNews um programa especial de 50 minutos, A história inacabada, com um devastador relato sobre o sequestro, tortura e morte do ex-deputado Rubens Paiva. O trabalho lhe deu o Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, concedido pelo Sindicato dos Jornalistas de São Paulo.
    Existe uma maneira simples para definir a qualidade do jornalismo e a essência da conduta profissional de Míriam Leitão. Veja e reveja os dois programas que ela conduziu com brilho e coragem para a GloboNews. Aquele sobre a história inacabada do desaparecido Rubens Paiva, este sobre o desempenho do irresoluto Celso Amorim. O ex-deputado e o atual ministro são, por razões opostas, o verso e o reverso de um mesmo país, ainda atolado no medo endêmico e no cinismo contagioso que rebaixa o debate sobre nosso passado recente.
    As perguntas de Míriam e as respostas de Amorim provam, na telinha da GloboNews, que ainda existem jibóias que se enroscam na mentira e jacarés que tentam atemorizar a verdade. O didático enfrentamento na TV entre a repórter e o ministro deixou claro, para os que querem ver, quem enfrenta a jiboia e quem instiga os jacarés.
    O inferno das duas Míriam: a jornalista e a jiboia
    Três anos atrás, sem contar nada ao marido e aos filhos, Míriam Leitão fez uma furtiva viagem de volta ao passado e ao inferno de sua juventude.
    Saiu do Rio de Janeiro e uma hora depois desembarcou em Vitória. Pegou um carro, atravessou a Terceira Ponte, que liga a capital à cidade de Vila Velha, do outro lado da baía, e seguiu em direção a um dos principais pontos turísticos do Estado: o morro da Penha, uma elevação de 150 metros de onde se admira uma bela paisagem. No alto está o velho Convento da Penha, com uma história de 454 anos. Ao pé do morro está outro monumento: o Forte de Piratininga, ali plantado em meados do século 16.
    Míriam não fazia um repentino programa de turista. Era uma dorida viagem interior ao cenário dos piores momentos que a jornalista passou em sua vida. “Quando o país começou a discutir a criação da Comissão da Verdade, por volta de 2011, decidi voltar lá. Eu quis fazer minha viagem pessoal, um retorno particular à minha história”, explica Míriam, no emocionado desabafo que faz pela primeira vez, quatro décadas após o inferno que amargou naquele cenário hoje encantador.
    Desde o final da Primeira Guerra Mundial, o forte lá embaixo abriga um batalhão de infantaria subordinado ao Comando Militar do Leste (antigo I Exército), no Rio de Janeiro. A construção mais antiga, redonda, é o prédio histórico da Fortaleza São Francisco Xavier de Piratininga, reformado no século 17. Foi ali que a Míriam quase adolescente de 1972, uma menina grávida de 19 anos, desceu ao submundo da repressão desatinada que marcava o auge da violência do governo mais truculento da ditadura, o do general Emílio Garrastazú Médici.
    No início do século 20, a unidade ainda se chamava 3º Batalhão de Caçadores. Em setembro de 1972, três meses antes da prisão ali de Míriam Leitão, o lugar mudou de nome, passando a chamar-se 38º Batalhão de Infantaria. Entre os 707 processos políticos vasculhados no Superior Tribunal Militar pelo projeto Brasil: Nunca Mais, seis deles procedem do único quartel do Exército baseado em solo capixaba, oriundos do belo forte de Vila Velha. Neles, constam 46 denúncias de torturas consumadas no antigo 3º Batalhão de Caçadores. Outros 13 casos de torturas envolvem o atual 38º Batalhão de Infantaria. Todos se referem ao ano de 1972. Um deles é o de Míriam.
    Foi lá que Míriam enfrentou a danação de um nome que resumia como ninguém a truculência do regime: o coronel Paulo Malhães, o temido “Dr. Pablo” do DOI-CODI da Rua Barão de Mesquita. Ao ver na TV o velho torturador de 76 anos depondo para a Comissão da Verdade, cinco meses atrás, Míriam chegou a duvidar que fosse o mesmo e fogoso oficial de 34 anos e cabeleira negra e farta que comandou seu interrogatório. Mas ela recorda bem que os outros militares o chamavam de “Dr. Pablo”, o codinome que Malhães usava no DOI-CODI. Existe outra forte coincidência a confirmar a identidade do doutor com o coronel. Malhães veio do Rio trazendo um acessório de tortura que o tornou inconfundível na mitologia da repressão, pelo inusitado da escolha: uma cobra.
    Na verdade, uma jiboia que Malhães trouxe do Araguaia e casualmente apelidou de Míriam. Talvez para assustar ainda mais suas vítimas, o coronel dizia que a cobra media seis metros de comprimento. Um evidente exagero do “Dr. Pablo”, pois nem Míriam lembra de uma cobra tão grande. Jiboia dessa dimensão, com 6 metros e 120 kg de peso, só foi vista anos atrás no Camboja. Uma jiboia amazônica como Míriam é mais modesta, varia entre 2 e 3 metros e tem 50 kg de peso, ainda assim com tamanho suficiente para intimidar qualquer um.
    Durante horas de um dia assustador a jiboia do “Dr. Pablo” foi a solitária companhia na sala onde Míriam Leitão esteve trancafiada no quartel. Quando voltou à vida, libertada três meses depois, a jovem franzina que só pesava 50 kg tinha perdido 11 kg no cativeiro, onde chegou com um mês de gravidez.
    Para a visita agora a esse passado de terror, Míriam contou com a ajuda do ex-governador Paulo Hartung, que conhecia o comandante de 2011 da guarnição e facilitou o acesso da ex-presa. “Fui sozinha, não queria ninguém junto comigo. Era uma jornada só minha. Entrei e não precisei que ninguém me mostrasse o caminho. Era esquisito, não tenho bom senso de orientação, mas eu conhecia aquele quartel como a palma da minha mão. Percebi algumas reformas, paredes que não existem mais, escadas que mudaram de lugar, salas que foram modificadas.
    Não me permitiram ir a alguns lugares, mas o essencial estava na minha memória”, conta Míriam, hoje, com o tremor na voz que trai os demônios que assombraram aquele lugar. Ela posou para fotos junto à porta da cela onde ficou um tempo, tiradas pelo motorista que a acompanhava. E conseguiu voltar à sala grande onde passou a madrugada de horror com sua homônima jiboia. “O lugar agora é um anfiteatro, mas eu fui direto ao ponto onde me mantiveram de pé, nua, durante horas, antes e durante o tempo em que fiquei com a cobra. É uma imagem que não sai da minha cabeça. Ali eu fiz essa foto”, explica, abrindo pela primeira vez seu arquivo pessoal.
    Míriam, em meio a tanto sofrimento, lembra de um paradoxo que vivia na época: “Minha cela ficava na fortaleza. Quando eu saía de lá à noite e era levada para outro local de tortura, eu a contornava e passava pela escadaria. Saía desse belo prédio circular, às margens da baía – e que hoje, por ironia, o Exército aluga para festas –, e era levada para a parte nova do quartel onde funcionavam algumas seções administrativas do quartel.
    Olhava aquele lugar lindo, lindo até hoje, o convento lá em cima, e pensava o quanto nada daquilo fazia sentido. Era uma beleza que contrastava com a violência daquele lugar. Eu não conseguia entender isso. Não entendia naquela época, não entendo até hoje”, diz Míriam, a voz embargada pela emoção da memória. Pela primeira vez, Míriam Leitão conta aqui como viveu, e sobreviveu, naquele lugar:
    DEPOIMENTO DE MÍRIAM LEITÃO
    “Eu sozinha e nua. Eu e a cobra. Eu e o medo”
    Eu morava numa favela de Vitória, o Morro da Fonte Grande. Num domingo, 3 de dezembro de 1972, eu e meu companheiro na época, Marcelo Netto, estudante de Medicina, acordamos cedo para ir à praia do Canto, próxima ao centro da capital.
    Acordei para ir à praia e acabei presa na Prainha. É o bairro que abriga o Forte de Piratininga, essa construção bonita do século 17. Ali está instalado o quartel do 38º Batalhão de Infantaria do Exército, do outro lado da baía.
    Eu tinha dado quatro plantões seguidos na redação da rádio Espírito Santo e já tinha quase um ano de profissão. Eu vestia uma camisa branca larga, de homem, sobre o biquini vermelho. Caminhando pela Rua Sete em direção à praia, alguém gritou de repente:
    – Ei, Marcelo?
    Nos viramos e vimos dois homens correndo em nossa direção com armas. Eu reconheci um rosto que vira em frente à Polícia Federal. Meu ônibus sempre passava em frente à sede da PF e eu tentava guardar os rostos.
    – É a Polícia Federal – avisei ao Marcelo
    Em instantes estávamos cercados. Apareceram mais homens, mais um carro. Voltei a perguntar:
    – O que está acontecendo?
    Eles nos algemaram e empurraram o Marcelo para o camburão. Era uma camionete Veraneio, sem identificação. Eu tive uma reação curiosa: antes que me empurrassem sentei no chão da calçada e comecei a gritar, a berrar como louca, queria chamar a atenção das pessoas na rua. Mas ainda era cedo, manhã de domingo, havia pouca gente circulando.
    Achava que quanto mais gente visse aquela cena, mais chances eu teria de sair viva. Como eu berrava, me puxaram pelos cabelos, me agarraram para me colocar no carro. Eu, ainda com aquela coisa de Justiça na cabeça, reclamei:
    – Moço, cadê a ordem de prisão?
    O homem botou a metralhadora no meu peito e respondeu com outra pergunta:
    – Esta serve?
    As algemas eram diferentes, eram de plástico, e estavam muito apertadas, doíam no pulso. Viajamos sem capuz, eu e Marcelo, em direção a Vila Velha, onde fica o quartel do Exército. Eu ainda achava que não era nada comigo, que o alvo era o Marcelo.
    Ele estava no quarto ano de Medicina e tinha acabado de liderar a única greve de estudantes do país daquele ano, que trancou por dois dias as aulas na universidade de Vitória e paralisou os trabalhos no Hospital de Clínicas. Achei que estava presa só porque estava indo à praia com o Marcelo.
    A Veraneio entrou no pátio do quartel, o batalhão de infantaria. Nos levaram por um corredor e nos separaram. Marcelo foi viver seu inferno, que durou 13 meses, e eu o meu.
    Sobre mim jogaram cães pastores babando de raiva. Eles ficavam ainda mais enfurecidos quando os soldados gritavam: “Terrorista, terrorista!”. Pareciam treinados para ficar mais bravos quando eram incitados pela palavra maldita. De repente, os soldados que me cercavam começaram a cantar aquela música do Ataulfo Alves: “Amélia não tinha a menor vaidade/ Amélia é que era mulher de verdade”.
    Só então percebi que minha prisão não era um engano. “Amélia” era o codinome que o meu chefe de ala no PCdoB tinha escolhido pra mim: “Você, a partir de agora, vai se chamar Amélia”. Quis reagir na hora, afinal não tenho nada de Amélia, mas não quis discordar logo na primeira reunião com o dirigente”.
    O comandante do batalhão era o coronel Sequeira [tenente-coronel Geraldo Cândido Sequeira, que exerceu o comando do 38º BI entre 10 de março de 1971 a 13 de março de 1973], que fingia que mandava, mas não via nada do que acontecia por lá. O homem que de fato mandava naquele lugar, naquele tempo, era o capitão Guilherme, o único nome que se conhecia dele.
    Ele era o chefe do S-2, o setor de inteligência do batalhão. Todos os interrogatórios e torturas estavam sob a coordenação dele. Ele pessoalmente nada fazia, mas a ele tudo era comunicado. Nesse primeiro dia me deu um bofetão só porque eu o encarei.
    – Nunca mais me olhe assim! – avisou.
    Fui levada para uma grande sala vazia, sem móveis, com as janelas cobertas por um plástico preto. Com a luz acesa na sala, vi um pequeno palco elevado, onde me colocaram de pé e me mandaram não recostar na parede.
    Chegaram três homens à paisana, um com muito cabelo, preto e liso, um outro ruivo e um descendente de japonês. Mandaram eu tirar a roupa. Uma peça a cada cinco minutos. Tirei o chinelo. O de cabelo preto me bateu:
    – A roupa! Tire toda a roupa.
    Fui tirando, constrangida, cada peça. Quando estava nua, eles mandaram entrar uns 10 soldados na sala. Eu tentava esconder minha nudez com as mãos. O homem de cabelo preto falou:
    – Posso dizer a todos eles para irem pra cima de você, menina. E aqui não tem volta. Quando começamos, vamos até o fim.
    Os soldados ficaram me olhando e os três homens à paisana gritavam, ameaçando me atacar, um clima de estupro iminente. O tempo nessas horas é relativo, não sei quanto tempo durou essa primeira ameaça. Viriam outras.
    Eles saíram e o homem de cabelo preto, que alguém chamou de Dr. Pablo, voltou trazendo uma cobra grande, assustadora, que ele botou no chão da sala, e antes que eu a visse direito apagaram a luz, saíram e me deixaram ali, sozinha com a cobra.
    Eu não conseguia ver nada, estava tudo escuro, mas sabia que a cobra estava lá. A única coisa que lembrei naquele momento de pavor é que cobra é atraída pelo movimento.
    Então, fiquei estática, silenciosa, mal respirando, tremendo. Era dezembro, um verão quente em Vitória, mas eu tremia toda. Não era de frio. Era um tremor que vem de dentro. Ainda agora, quando falo nisso, o tremor volta.
    Tinha medo da cobra que não via, mas que era minha única companhia naquela sala sinistra. A escuridão, o longo tempo de espera, ficar de pé sem recostar em nada, tudo aumentava o sofrimento. Meu corpo doía.
    Não sei quanto tempo durou esta agonia. Foram horas. Eu não tinha noção de dia ou noite na sala escurecida pelo plástico preto. E eu ali, sozinha, nua. Só eu e a cobra. Eu e o medo. O medo era ainda maior porque não via nada, mas sabia que a cobra estava ali, por perto.
    Não sabia se estava se movendo, se estava parada. Eu não ouvia nada, não via nada. Não era possível nem chorar, poderia atrair a cobra. Passei o resto da vida lembrando dessa sala de um quartel do Exército brasileiro. Lembro que quando aqueles três homens voltaram, davam gargalhadas, riam da situação.
    Eu pensava que era só sadismo. Não sabia que na tortura brasileira havia uma cobra, uma jiboia usada para aterrorizar e que além de tudo tinha o apelido de Míriam. Nem sei se era a mesma. Se era, talvez fosse esse o motivo de tanto riso. Míriam e Míriam, juntas na mesma sala. Essa era a graça, imagino.
    Dr. Pablo voltou, depois, com os outros dois, e me encheu de perguntas. As de sempre: o que eu fazia, quem conhecia. Me davam tapas, chutes, puxavam pelo cabelo, bateram com minha cabeça na parede. Eu sangrava na nuca, o sangue molhou meu cabelo.
    Ninguém tratou de minha ferida , não me deram nenhum alimento naquele dia, exceto um copo de suco de laranja que, com a forte bofetada do capitão Guilherme, eu deixei cair no chão.
    Não recebi um único telefonema, não vi nenhum advogado, ninguém sabia o que tinha acontecido comigo, eu não sabia se as pessoas tinham ideia do meu desaparecimento. Só três dias após minha prisão é que meu pai recebeu, em Caratinga, um telefonema anônimo de uma mulher dizendo que eu tinha sido presa.
    Ele procurou muito e só conseguiu me localizar no fim daquele dezembro. Havia outros presos no quartel, mas só ao final de três semanas fui colocada na cela com a outras presas: Angela, Badora, Beth, Magdalena, estudantes, como eu.
    Fiquei 48 horas sem comer. Eu entrei no quartel com 50 kg de peso, saí três meses depois pesando 39 kg. Eu cheguei lá com um mês de gravidez, e tinha enormes chances de perder meu bebê.
    Foi o que médico me disse, quando saí de lá, com quatro meses de gestação. Eu estava deprimida, mal alimentada, tensa, assustada, anêmica, com carência aguda de vitamina D por falta de sol. Nada que uma mulher deve ser para proteger seu bebê na barriga. Se meu filho sobrevivesse, teria sequelas, me disse o médico.
    – A má notícia eu já sei, doutor, vou procurar logo um médico que me diga o que fazer para aumentar as chances do meu filho.
    Mas isso foi ao sair. Lá dentro achei que não havia chance alguma para nós. Eu era levada de uma sala para outra, numa área administrativa do quartel, onde passava por outras sessões de perguntas, sempre as mesmas, tudo aos gritos, para manter o clima de terror, de intimidação.
    Na noite seguinte, atravessei a madrugada com uma sessão de interrogatório pesado, o Dr. Pablo e os outros dois berrando, me ameaçando de estupro, dizendo que iam me matar. Um dia achei que iria morrer.
    Entraram no meio da noite na cela do forte para onde eu fui levada após esses dois dias. Falaram que seria o último passeio e me levaram para um lugar escuro, no pátio do quartel, para simular um fuzilamento.
    Vi minha sombra refletida na parede branca do forte, a sombra de um corpo mirrado, uma menina de apenas 19 anos. Vi minha sombra projetada cercada de cães e fuzis, e pensei: “Eu sou muito nova para morrer. Quero viver”.
    Um dia, um outro militar, que não era nenhum daqueles três, botou um revólver na minha cabeça e falou: “Eu posso te matar”. E forçou aquele cano frio na minha testa. Me deu um sentimento enorme de solidão, de abandono. Eu me senti absolutamente só no mundo. Pela falta de notícias, imaginava que o Marcelo estava morto. Entendi que iria morrer também e que ninguém saberia da minha morte, pensei. Mas não quis demonstrar medo.
    Lembro que o homem do revólver tinha olhos azuis. Olhei nos seus olhos e respondi: “Sim, você pode pode me matar”. E repeti, falando ainda mais alto, com ar de desafio: “Sim, você pode!”
    Um dos interrogatórios foi feito na sala do capitão Guilherme, o S-2 que mandava em todos ali. Era noite, ele não estava, e me interrogaram na sala dele. Lembro dela porque havia na parede um quadro com a imagem do Duque de Caxias. Estava ainda com o biquíni e a camisa, era a única roupa que eu tinha, que me protegia. Nessa noite, na sala, de novo fui desnudada e os homens passaram o tempo todo me alisando, me apalpando, me bolinando, brincando comigo.
    Um deles me obrigou a deitar com ele no sofá. Não chegaram a consumar nada, mas estavam no limite do estupro, divertindo-se com tudo aquilo.
    Eu estava com um mês de gravidez, e disse isso a eles. Não adiantou. Ignoraram a revelação e minha condição de grávida não aliviou minha condição lá dentro. Minha cabeça doía, com a pancada na parede, e o sangue coagulado na nuca incomodava.
    Eu não podia me lavar, não tinha nem roupa para trocar. Quando pensava em descansar e dormir um pouco, à noite, o lugar onde estava de repente era invadido, aos gritos, com um bando de pastores alemães latindo na minha cara. Não mordiam, mas pareciam que iam me estraçalhar, se escapassem da coleira.
    E, para enfurecer ainda mais os cães, os soldados gritavam a palavra que enlouquecia a cachorrada: “Terrorista, terrorista!…”
    As primeiras três semanas que passei lá foram terríveis. Só melhorou quando o Dr. Pablo e seus dois companheiros foram embora. Entendi então que eles não pertenciam ao quartel de Vila Velha. Tinham vindo do Rio, é o que chegaram a conversar entre eles, em papos casuais: “E aí, quando voltarmos ao Rio, o que a gente vai fazer lá…” Isso fazia sentido, porque o quartel de Vila Velha integra o Comando do I Exército, hoje Comando do Leste, que tem o QG no Rio de Janeiro.
    Quando o trio voltou para o Rio, a situação ficou menos ruim. Eles já não tinham mais nada para perguntar. Me tiraram da cela da fortaleza e me levaram para a cela coletiva. Foi melhor. Na cela do forte não havia janelas, a porta era inteiriça e minhas companhias eram apenas as baratas. Fiz uma foto minha, agora em 2011, ao lado da porta.
    Até que chegou o dia de assinar a confissão, para dar início ao IPM, o inquérito policial-militar que acontecia lá mesmo, dentro do quartel. Me levaram para a sala do capitão Guilherme, o S-2, e levei um susto. Lá estava o Marcelo, que eu pensava estar morto.
    Os militares saíram da sala e nos deixaram sozinhos. Quando eu fui falar alguma coisa, o Marcelo me fez um sinal para ficar calada. Ele levantou, foi até a parede e levantou o quadro do Duque de Caxias. Estava cheio de fios e microfones lá atrás. Era tudo grampo.
    Depois disso, o Marcelo foi levado para o Regimento Sampaio, na Vila Militar, no Rio de Janeiro, e lá ficou nove meses numa solitária. Sem banho de sol, sem nada para ler, sem ninguém para conversar. Foi colocado lá para enlouquecer. Nove longos e solitários meses… Nós, todos os presos, e os que já estavam soltos nos encontramos mais ou menos em junho na 2ª Auditoria da Aeronáutica, para o que eles chamam de sumário de culpa, o único momento em que o réu fala.
    Eu com uma barriga de sete meses de gravidez. O processo, que envolvia 28 pessoas, a maioria garotos da nossa idade, nos acusava de tentativa de organizar o PCdoB no estado, de aliciamento de estudantes, de panfletagem e pichações. Ao fim, eu e a maioria fomos absolvidos. O Marcelo foi condenado a um ano de cadeia. Nunca pedi indenização, nem Marcelo. Gostaria de ouvir um pedido de desculpas, porque isso me daria confiança de que meus netos não viverão o que eu vivi. É preciso reconhecer o erro para não repeti-lo. As Forças Armadas nunca reconheceram o que fizeram.
    Nunca mais vi o capitão Guilherme, o S-2 que comandou tudo aquilo. Uma vez ele apareceu no Superior Tribunal Militar como assessor de um ministro. Marcelo foi expulso do curso de Medicina, após a prisão, e virou jornalista. Fomos para Brasília em 1977.
    Por ironia do destino, Marcelo só conseguiu vaga de repórter para cobrir os tribunais. E lá no STM, um dia, ele reviu o capitão Guilherme. Depois disso, não soubemos mais dele. Nem sei se o S-2 ainda está vivo.
    O que eu sei é que mantive a promessa que me fiz, naquela noite em que vi minha sombra projetada na parede, antes do fuzilamento simulado. Eu sabia que era muito nova para morrer.
    Sei que outros presos viveram coisas piores e nem acho minha história importante. Mas foi o meu inferno. Tive sorte comparado a tantos outros.
    Sobrevivi e meu filho Vladimir nasceu em agosto forte e saudável, sem qualquer sequela. Ele me deu duas netas, Manuela (3 anos) e Isabel (1). Do meu filho caçula, Matheus, ganhei outros dois netos, Mariana (8) e Daniel (4). Eles são o meu maior patrimônio.
    Minha vingança foi sobreviver e vencer. Por meus filhos e netos, ainda aguardo um pedido de desculpas das Forças Armadas. Não cultivo nenhum ódio. Não sinto nada disso. Mas, esse gesto me daria segurança no futuro democrático do país. [Depoimento a Luiz Cláudio Cunha]


    Luiz Cláudio Cunha é jornalista, autor de Operação Condor – O Sequestro dos Uruguaios: uma reportagem dos tempos da ditadura

  • Vem Pro Samba, de Gafieira

    O samba de gafieira é a expressão de dança a dois mais praticada no Brasil e, em Porto Alegre, o ritmo tem atraído centenas de pessoas aos mais de 30 estúdios. Os interessados em aprender um dos principais ritmos abordados dentro da dança de salão têm idades que variam dos 16 aos 70 anos.
    Isso explica o sucesso do Vem Pro Samba, evento cultural que já está na quinta edição, iniciativa da EA Produção, a produtora do maior evento de dança de salão do estado, o Dança Porto Alegre, e do Gafieira Club, escola especializada em dança de salão na Capital.
    As palestras e aulas para quem nunca dançou e quer dar os primeiros passos acontecem nos dias 23 e 24 de agosto, no Clube Farrapos, em Porto Alegre.
    O samba de gafieira tem sua origem no Rio de Janeiro, passou por transformações e influências em diversos estados brasileiros, incluindo o Rio Grande do Sul, que é uma das capitais da dança de salão no país.

    Ranieri Camargo e Carolina Dias / Foto Divulgação
    Ranieri Camargo e Carolina Dias / Foto Divulgação

    Palestras e aulas
    No dia 23 de agosto, ocorrem palestras ministradas por personalidades do samba de Porto Alegre como Diogo da Saldanha e Caio Martinez.
    O objetivo é discutir assuntos ligados à história, música e cultura do samba em Porto Alegre, assim como a história e caracterização do estilo de dançar samba no mundo.
    A inscrição é um quilo de alimento não perecível destinado ao Asilo Padre Cacique. Durante o evento haverá duas palestras e uma mesa redonda.
    As aulas para quem nunca dançou e para aqueles que desejam aperfeiçoar seus passos tem valores que giram entre R$ 30,00 e R$ 200,00.
    Fernando Campani / Foto Divulgação
    Fernando Campani / Foto Divulgação

    Programação
    Dia 23 – 11h – Palestra sobre a história do Samba em Porto Alegre, ministrada por Diogo Fonseca, da Saldanha, uma das casas mais tradicionais de samba da cidade.
    Dia 23 – 14h – Palestra sobre a música e a dança, ministrada pelo músico e compositor de samba de gafieira, Caio Martinez.
    Dia 23 – 17h – Palestra sobre os elementos essenciais para dançar samba de gafieira, ministrada pelos experientes padrinhos do evento, Ricardo e Camilla de São Paulo.
    Dia 24 – 18h – Mesa Redonda com a presença dos palestrantes, professores e convidados para esclarecer dúvidas sobre o samba de gafieira.
    Dia 23 – Aulas de Samba de Gafieira para quem nunca dançou e no dia 24 para aqueles que já dançam e buscam aperfeiçoamento.
    O projeto de ensino é apadrinhado pelo casal Ricardo Oliveira e Camilla Varjão, estudiosos do Samba de Gafieira em São Paulo e que promovem um dos maiores eventos do gênero no Brasil, o Conexsamba.
     

  • "Brasil pode dobrar produção sem tocar na Amazônia"

    Entrevista com Luiz Fernando Cirne Lima
    POR Geraldo Hasse
    Dificilmente se encontra no Brasil de hoje uma autoridade técnica tão qualificada quanto o ex-ministro Luiz Fernando Cirne Lima para falar sobre o cruzamento da agricultura de grãos com a criação de gado, um dos assuntos do momento no mundo dos negócios rurais.
    Aos 81 anos, ele já doou a fazenda em Dom Pedrito (RS) para os filhos, mas continua trabalhando como consultor e palestrante em zootecnia – sua maior especialidade, desenvolvida desde meados dos anos 1950 como livre docente da Faculdade de Agronomia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, primeiro cargo de uma carreira brilhante.
    Com pouco mais de 30 anos, Cirne Lima foi o primeiro brasileiro a julgar bovinos de raça na Inglaterra, berço da genética que deu impulso à pecuária do sul da América.
    Era presidente da poderosa Farsul em 1968 quando a Secretaria da Agricultura decidiu fazer a primeira Expointer em Esteio, abandonando o parque do Menino Deus, no centro de Porto Alegre, onde desde o início do século XX se realizavam as exposições da pecuária gaúcha.
    Como ministro da Agricultura no período 1969/1973, assinou a lei da fundação da Embrapa, um dos vetores do boom da soja no Brasil.
    Neste depoimento, Cirne Lima fala não apenas da história da Expointer, mas do futuro do agronegócio brasileiro. “Podemos dobrar nossa produção sem tocar na Amazônia”, diz ele, sintetizando a confiança no desempenho dos agricultores brasileiros.
    “A EXPOINTER ESTÁ NUMA ENCRUZILHADA”
    O senhor se lembra do início da Expointer?
    CIRNE LIMA – A Expointer nasceu no fim da década de 60, quando as exposições estaduais do Rio Grande do Sul, que eram apenas feiras de gado, tornaram-se praticamente inviáveis diante das limitações do parque de exposições do bairro Menino Deus, em Porto Alegre. Havia ali quatro hectares da Secretaria da Agricultura. Era um parque muito bonito, muito bem conservado pelo governo do Estado. Os criadores faziam uma exposição de bom nível técnico em termos regionais, mas muito limitada em termos nacionais e diante dos países vizinhos, que historicamente nos forneciam reprodutores.
    Como se deu a mudança?
    CIRNE LIMA – A mudança ocorre depois que o primeiro brasileiro é convidado a julgar na Inglaterra e um grupo de criadores o acompanha para visitar a Royal Show…
    Quem foi esse brasileiro?
    CIRNE LIMA – Eu.
    Quantos criadores gaúchos visitaram a exposição inglesa?
    CIRNE LIMA – Uns 10 ou 12. Na volta ao Brasil, já havia um pensamento dominante: “Temos de sair do parque do Menino Deus e procurar um outro local”. O secretário da Agricultura era Luciano Machado, um bacharel em direito que havia sido um brilhante deputado federal. Ele era muito identificado com o setor agropecuário e acatou a mensagem trazida pelos visitantes da Royal Show. Isso significava uma mudança na própria concepção da exposição.
    O que significa “mudança na concepção”?
    CIRNE LIMA – No parque de Porto Alegre não se podia fazer mais do que uma exposição de animais. A Royal Show era uma feira de 55 hectares em que a pecuária ocupava apenas um segmento dessa enorme exposição, no centro geográfico da Inglaterra, perto da cidade natal de Shakespeare. A maior parte da área era para exposição de máquinas agrícolas e demonstração de tecnologias pecuárias e agrícolas.
    O secretário Luciano Machado e uma comissão de produtores, uns três ou quatro, entre eles Dorval Ribeiro e Lauro Macedo, começaram a procurar um local e logo se fixaram numa propriedade da família Kroeff,  em Esteio, junto à BR-116, defronte à refinaria Alberto Pasqualini, da Petrobras. Como era amigo da família Kroeff, não participei da negociação. Mas o parque de Esteio, com 141 hectares, é fruto do trabalho de Luciano Machado e do veterinário-sanitarista Evelino Arteche, então diretor de produção animal da Secretaria da Agricultura.
    É verdade que muita gente foi contra a transferência da feira de Porto Alegre para Esteio?
    CIRNE LIMA – A realização da primeira Expointer foi muito polêmica porque algumas pessoas consideravam que a mudança fora precipitada. Naquela época se achava que Esteio era longe demais. Alguns criadores se negaram a expor seus animais. É verdade que faltava concluir caminhos dentro do parque e havia pistas de exposição em situação precária, mas desde a primeira vez se fez ali uma exposição diferente, com muitas máquinas e estandes de tecnologia agrícola. E o fato é que a Expointer se transformou num grande sucesso, é uma das maiores do mundo, sem dúvida a maior da América do Sul, em amplitude. Se existem hoje no mundo cinco grandes centros de negócios agrícolas, a Expointer é uma delas. A Royal Show, que foi modelo, não se realiza mais no mesmo local por causa dos custos. Hoje na Inglaterra se realizam exposições menores no interior.
    No momento o parque de Esteio está em crise existencial: ser ou não ser um grande recinto de exposições…
    CIRNE LIMA – Hoje o parque de Esteio precisa encontrar um modelo para administrar esse espaço que, fora a Expointer, é pouco utilizado ao longo do ano. A Expointer dura dois fins de semana. Os outros eventos do correr do ano não utilizam toda a potencialidade do parque, que se tornou um patrimônio público pouco aproveitado.
    Fala-se muito em parceria público-privada.
    CIRNE LIMA – Não tem outro caminho senão esse. Tem que se achar uma vocação a fim de dinamizar o parque. Hoje já existem umas tentativas. Muitas associações de criadores têm sede ali durante o ano, mas isso é pouco para o tamanho da área, a infraestrutura de energia elétrica e fornecimento de água.
    É uma “cidade” que fica vazia a maior parte do ano.
    CIRNE LIMA – Tem-se que achar um modelo de gestão. A Associação dos Criadores de Cavalos Crioulos está fazendo um projeto de ter lá dentro uma pista coberta para utilizar mais vezes durante o ano. É um desafio. Até agora Esteio cumpriu largamente sua missão como difusor de tecnologia, mas está numa encruzilhada.
    Apesar da crise existencial do parque, a Expointer continua batendo recordes todos os anos.
    CIRNE LIMA – A Expointer é muito representativa do momento que vive o agronegócio como um todo. A exposição de máquinas agrícolas de Esteio é um verdadeiro “salão do automóvel” da maquinaria agrícola do Brasil. Ainda que tenhamos em Não-Me-Toque uma exposição excepcional de tecnologia e de máquinas agrícolas, a Expointer é a grande feira brasileira de lançamentos de máquinas, novos modelos etc.
    O fato de estar dentro da Grande Porto Alegre é uma vantagem?
    CIRNE LIMA  – Historicamente, para o então chamado setor produtivo, a Expointer tinha um objetivo subliminar – servir como um ponto de encontro cidade-campo. Em 1970, a população brasileira estava distribuída meio a meio no campo e nas cidades, mas não havia uma integração, principalmente no aspecto psicológico. O citadino enxergava o rural como um elemento menos qualificado, menos educado etc.
    JUNTO COM A EXPOINTER, OCORREU A ASCENSÃO DA SOJA
    O senhor acha que houve uma integração cidade-campo?
    CIRNE LIMA – O objetivo subliminar foi alcançado. No início a Expointer era visitada apenas pelas populações próximas de Esteio. Em seguida ela passou a ser visitada pela população de todo o Rio Grande. Hoje vêm ônibus de regiões longínquas que viajam 500 quilômetros para passar um dia no parque de Esteio. Num sábado ou domingo de sol entram na Expointer 150 mil pessoas. A Expointer contribuiu para uma melhor compreensão entre esses dois segmentos sociais. Hoje a população que trabalha na terra é altamente minoritária, mas a  aproximação se fez de maneira mais fácil e, sentimentalmente, mais favorável, mais simpática. Hoje se pode dizer que o citadino brasileiro é simpático ao homem rural. No máximo é indiferente, mas antagonismo ou antipatia…não vejo mais. Há 50 anos não era bem assim. A própria literatura tratava o homem rural pejorativamente.
    Por coincidência, no início do parque de Esteio, a soja ensaiava sua expansão no Rio Grande do Sul.
    CIRNE LIMA – No início dos anos 1950, quando me formei agrônomo, a soja era uma mera curiosidade para os estudantes. Naquela época a população consumia gordura animal. Havia um pouco de óleos vegetais – o linho incentivado pela indústria Renner e um pouco de girassol na região de São Borja e Itaqui, no oeste gaúcho. A substituição da gordura animal pelos óleos vegetais provocou uma revolução na suinocultura, que derivou para o porco-carne. Em 1970, a soja mal alcançava uma produção anual de um milhão e meio de toneladas, a maior parte no Rio Grande do Sul, mas já começava a se tornar uma lavoura industrial que se expandiria do sul do Brasil até o extremo norte. Aliás, dentro dessa revolução temos de colocar como geradora de tecnologia a Embrapa, fundada em 25 de abril de 1973.
    Este ano a produção de soja chegou a quase 90 milhões de toneladas. Qual pode ser o teto para a expansão dessa lavoura?
    CIRNE LIMA – Eu tenho dito que a soja está constituindo para o Brasil o mesmo que o milho foi para os Estados Unidos, mas a lavoura de soja não deve ser encarada isoladamente. Hoje é importante considerá-la ao lado do milho e do algodão como parte da integração lavoura-pecuária, que é a coisa mais importante hoje no agronegócio brasileiro.
    Por que a integração lavoura-pecuária é tão importante?
    CIRNE LIMA – Nós temos um rebanho bovino estimado em 190 milhões de cabeça e que utiliza uma área de 190 milhões de hectares, mas nossa pecuária não precisa dessa área toda. Talvez com a metade disso podemos manter nosso rebanho de forma produtiva. Naturalmente, a área dispensada pela pecuária poderá ser usada pela agricultura, que está concentrada em 72 milhões de hectares – 55 milhões de hectares de culturas anuais e 17 milhões de hectares de culturas permanentes. Os quase 90 milhões de toneladas de soja saem dessa área de lavouras anuais. Fora isso, ainda falta incorporar ao processo produtivo 70 milhões de hectares não utilizados nem para pastos nem para lavouras. São áreas espalhadas por todo o país e com problemas de uso, como encostas etc., mas parte disso pode virar produtiva. Hoje o incremento da produção de soja, milho e algodão está ocorrendo em áreas de pastagens degradadas. Dos 190 milhões de hectares de pastagens, 30 milhões são degradadas. A implantação de lavouras é barata, basta usar fertilizantes. É assim que podemos dobrar a produção do nosso agronegócio.
    Sem tocar na Amazônia?
    CIRNE LIMA – Na Amazônia tem 400 milhões de hectares que não precisam ser tocados. A ideia do desmatamento zero não é unânime no meio rural, mas tende a se tornar dominante.
    Mas na Amazônia temos uma pecuária implantada com incentivos fiscais do governo…
    CIRNE LIMA – O que aconteceu na Amazônia nos anos 60 e 70 tem que ser pensado de acordo com o pensamento de Ortega Y Gasset – “o homem e sua circunstância”. Naquele tempo, havia uma campanha para transformar a Amazônia em território internacional, patrimônio da humanidade… A reação brasileira foi grande, nasceu o projeto militar de estabelecer uma mínima ocupação humana da região e uma série de outras coisas, inclusive o Projeto Radam, que descobriu campos de aviação clandestinos etc. Nessa esteira foi feito um desmatamento irregular, nocivo e lamentável. A pecuária na Amazônia foi implantada de forma desordenada, mas do ponto de vista de política pública era impossível fazer diferente.

    Cirne Lima no parque de exposições / Foto Divulgação ABCD
    Cirne Lima no parque de exposições / Foto Divulgação ABCD

    No cerrado a ocupação agrícola também foi feita de maneira predatória.
    CIRNE LIMA – Na floresta amazônica houve abusos e os solos foram degradados porque os projetos eram menos tecnificados. No cerrado, os solos foram melhorados pela agricultura. A integração gado-soja é tremendamente importante. A soja faz uma rotação extraordinária.
    O senhor considera positiva a entrada da soja em áreas de arroz do Rio Grande do Sul?
    CIRNE LIMA – Eu como agrônomo não tenho vergonha de dizer que ainda não sei plantar soja. Na minha fazenda, que já passei para os filhos, produzimos 40 a 50 sacas de soja por hectare em terras de coxilha. Em terras baixas ainda não temos a tecnologia adequada, mas a Embrapa de Pelotas está mergulhada nisso. A gente precisa escolher a variedade certa, plantar na época correta, corrigir o solo… Há pouco fui dar uma palestra para agricultores em Santa Rosa, o berço da soja no Brasil. Na conversa depois do almoço, perguntei qual a expectativa deles para o rendimento da soja. Um produtor disse que um agrônomo que  produza menos de 70 sacas por hectare baixa a cabeça pra não passar vergonha. Esse mesmo produtor disse que a meta em Santa Rosa é chegar a 100 sacas por hectare ou, seja, 6 mil quilos.
    Isso é o dobro da média regional.
    CIRNE LIMA – No oeste do Mato Grosso, onde chove muito bem, estão colhendo 60 sacas por hectare, o que é mais do que se produz em Illinois e Iowa. Mas não podemos esquecer que os Estados Unidos produzem 330 milhões de toneladas de milho. Ou, seja, só de milho produzem quase o dobro do que o Brasil produz de grãos. E um terço do milho americano é usado para fazer etanol. Enfim, o Brasil se consolida como a segunda maior produção do mundo e tem áreas a incorporar ao processo produtivo. Todo isso sem tocar no bioma amazônico.
    O Brasil não se tornou por demais dependente da soja?
    CIRNE LIMA – De 180 milhões de toneladas de grãos que produzimos, 90 milhões são de soja. Sim, mais de 50% do valor é soja. Mas não vejo riscos. A mesma coisa acontece nos EUA, com o milho. A China, nosso grande mercado para soja, tem optado por produzir mais milho do que soja. Todos os programas de governo da China seguem anunciando compras de 10, 20, 30 milhões de toneladas por ano de soja. Os chineses não querem ficar dependentes dos EUA em milho. Em relação à China, acho que o Brasil tem 10 a 20 anos de tranquilidade. Se você considerar que todo ano 30 milhões de chineses entram no mercado consumidor, não há dúvida de que a soja brasileira vai continuar sendo comprada.
    O Brasil vai continuar avançando na exportação de carne?
    CIRNE LIMA – O Brasil é o maior exportador do mundo. Vende para 130 países. Conquistamos mercado vendendo carne barata mas estamos nos preparando para exportar carne mais cara. Em 1970 o rebanho brasileiro era de 80/90 milhões de cabeças. Chegamos a 190 milhões de cabeças graças a três elementos. Primeiro, a capacidade desbravadora do criador brasileiro. Segundo, os capins do gênero brachiaria tremendamente adaptados a quase todas as latitudes brasileiras. Terceiro, a raça bovina nelore, que se adaptou ao clima brasileiro e cruzou bem com todas as raças existentes no Brasil. O gado pé duro do Brasil Central ao norte, cruzado com o nelore, em duas gerações passou a produzir carne de boa qualidade.
    Nesse contexto, qual o papel da pecuária do Sul?
    CIRNE LIMA – O Rio Grande do Sul é uma região subtemperada dentro de um país tropical e se especializou em produzir uma carne diferenciada. Trabalhar sob extremos climáticos oferece dificuldades, mas o produtor gaúcho tem conseguido desenvolver coisas próprias como o trigo, a maçã, carnes, laticínios e a integração lavoura-pecuária, que começou no Rio Grande e virou um modelo para todo o Brasil. A experiência do Rio Grande do Sul mostra o quanto é importante a diversidade genética para produzir carne de boa qualidade. Veja o que aconteceu com as galinhas. Nos aviários industriais não se cria mais uma raça definida e, sim, o resultado de cruzamentos genéticos altamente sofisticados. Hoje você importa ovos de avós dos elementos produtivos. Nesses cruzamentos entram raças como a nossa carijó, nome nacional de uma raça inglesa chamado Plymouth Rock Barrach. A carijó tem alguns gens que fazem parte de um segredo comercial da avicultura. Quando a Embrapa foi fundada, um frango comia 4,5 quilos de ração para engordar um quilo. Hoje tem frango que come 1,1 kg para engordar um quilo. O progresso que houve nisso é uma coisa extraordinária. Nas raças bovinas é a mesma coisa.
    PELA PRIMEIRA VEZ O ANGUS VENDEU MAIS SÊMEN DO QUE O NELORE
    Mas como se explica o recente sucesso comercial da raça angus?
    CIRNE LIMA – A explicação para o sucesso da raça aberdeen angus está no esforço brasileiro para deixar de vender carne barata e vender carne mais cara. No ano passado pela primeira vez no Brasil o angus passou o nelore em venda de sêmen. É quase inacreditável. Há dez anos atrás ninguém seria capaz de imaginar isso. As raças angus, devon e hereford predominam nos cruzamentos que buscam carne mais macia. Mas, das raças inglesas, o angus é especializado em produção de carne de alta qualidade. Ele não tem o tamanho do hereford, a conformação perfeita do shortorn, não tem a velocidade de crescimento do charolês. Mas a qualidade de carcaça é o apanágio do angus, que levou 100 anos para chegar nisso.
    Há quem diga que é mais um fenômeno de marketing.
    CIRNE LIMA – Os pioneiros do angus pareciam visionários há 50 ou 60 anos, quando eu comecei minha vida profissional. Eles diziam que um dia o angus teria qualidade de carne e ia vender bem. Hoje já existem preços diferenciados para essas carcaças – cruza angus, cruza devon, cruza hereford.
    O que aconteceu no Brasil com aquela beleza – o shortHorn?
    CIRNE LIMA – É o mais perfeito, na conformação, mas é pouco rústico, acumula muita gordura, não tem a fertilidade dos outros…
    E por que o charolês saiu de moda?
    CIRNE LIMA – O charolês tem velocidade de crescimento e peso vivo. Não acumula gordura. Sua carne seca não dá bom assado de grelha ou de fritura. A carne de charolês é boa pra caçarola, especialidade da cozinha francesa.
    Mas o charolês esteve na moda no Rio Grande do Sul…
    CIRNE LIMA – Houve um momento em que o charolês vendia mais do que o angus para cruzar com o nelore. Na década de 70, sem dúvida. Naquela ocasião se queria carne e tamanho. Hoje se quer qualidade de carne para vender por preço melhor. O charolês está esquecido, mas vamos matar tudo que é gado branco? Nada disso, é uma genética para dar tamanho que, amanhã ou depois, pode ser útil.
    É verdade que a vaca charolesa tem maior dificuldade para parir?
    CIRNE LIMA – Sim, por causa do tamanho dos filhotes, por isso é preciso selecionar animais de cabeça pequena para não dar problema de parto. No Mato Grosso do norte, aquelas criações de 10 mil vacas no pasto…Imagine ter de atender vaca, puxar bezerro. Impossível. Aqui no Rio Grande do Sul, numa fazenda de 30 vacas, o proprietário vai lá e puxa o bezerro, mas lá em cima morrem a vaca e a cria, não é? Como zootecnista, digo que o charolês tem que ser conservado porque pode ser necessário. Porque décadas atrás o angus estava numa situação muito pior do que o charolês hoje. Muito pior. O angus parecia um deleite de meia dúzia de fazendeiros ricos que criavam aqueles animais apostando que um dia haveria remuneração por qualidade de carne. E houve.
    LEMBRETE HISTÓRICO
    LF Cirne Lima
    “A pecuária brasileira começa em 1532 com a introdução por Martim Afonso de Souza das primeiras cabeças de gado trazidas de Portugal para a capitania de São Vicente, de onde Álvaro Nunez Cabeza de Vaca difunde o gado para o interior do continente. No Rio Grande do Sul a pecuária começa com os jesuítas em 1632. Os padres Cristóvão Jacques e Pedro Mendonça atravessam gado vicentino da Argentina para as Missões. A pecuária se expande graças às boas condições mesológicas da metade sul do Rio Grande do Sul e se espalha por esse território que vai até as margens do Prata, hoje o Uruguai. As lutas fronteiriças tinham por objetivo o gado, que era o alimento para as tropas. Daí a noção de que muitos dos nossos guerreiros eram ladrões de gado. Na verdade o gado era o grande produto econômico da região. E os cavalos eram armas de guerra, máquinas vivas. Cavalos e gado são os móveis da Expointer.”