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  • "Isso aqui é uma verdadeira universidade do crime"

    O mutirão carcerário da OAB começou ontem por Porto Alegre, onde o Presídio Central desponta como um dos piores do país. “É um dos piores presídios que já vi. Isso aqui é uma verdadeira universidade do crime.
    Presos provisórios são misturados a condenados, facções mandam na cadeia, decidindo, inclusive, quem tem direito a atendimento medido e jurídico, além de esgoto e fezes correndo pelas paredes dos pavilhões e a céu aberto”, disse o presidente nacional da Ordem, Marcus Vinicius Furtado Coêlho.
    O vice, Claudio Lamachia, que esteve no local em 2012
    com o Cremers e o Crea-RS, encontrou as mesmas condições degradantes. Coêlho anunciou que a OAB entrará com uma nova ação contra os Governos Estadual e Federal junto à Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) da OEA.
    “Vamos ingressar com uma nova denúncia, com pedido de liminar, para que a CIDH se manifeste de modo imediato, cobrando melhorias no sistema prisional gaúcho, que é vergonhoso e não reabilita. Promessas não adiantam!”
    O Presídio Central de Porto Alegre foi vistoriado ontem pelo presidente e o vice-presidente nacional da OAB, Marcus Vinicius Furtado Coêlho e Claudio Lamachia. Constataram que nada mudou em relação à última inspeção, em abril de 2012.
    Um dos piores
    O mutirão carcerário da OAB, que deve circular por todos os estados, iniciou por Porto Alegre, onde o Central desponta como um dos piores do país. Em 2012, Lamachia esteve no local com o Cremers e o Crea-RS. Encontraram condições degradantes em todos os aspectos: direitos humanos, higiene, saúde, alimentação e infraestrutura. Laudos apontaram a necessidade de interdição do Central.
    Após, os dossiês foram entregues ao secretário estadual de Segurança Pública, Airton Michels, que prometeu soluções para os problemas e a criação de mais de três mil vagas. Juntamente com outras entidades, denúncia foi enviada à Organização dos Estados Americanos (OEA).
    Estarrecido, Marcus Vinicius afirmou que as condições indignas do Central motivarão uma nova ação contra os Governos Estadual e Federal junto à Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) da OEA. “Vamos ingressar com uma nova denúncia, com pedido de liminar, para que a CIDH se manifeste de modo imediato, cobrando melhorias no sistema prisional gaúcho, que é vergonhoso e não reabilita. Promessas não adiantam!”, ressaltou o presidente do Conselho Federal da OAB, frisando que a medida é semelhante à que foi adotada semana passada no Maranhão, depois de uma rebelião de presos que resultou em nove mortes.
    Donos da cadeia
    “É um dos piores presídios que já vi. Isso aqui é uma verdadeira universidade do crime. Presos provisórios são misturados a condenados, facções mandam na cadeia, decidindo, inclusive, quem tem direito a atendimento medido e jurídico, além de esgoto e fezes correndo pelas paredes dos pavilhões e a céu aberto”, disse Marcus Vinicius.
    Acompanhado do presidente em exercício da OAB/RS, Luiz Eduardo Amaro Pellizzer; do secretário-geral, Ricardo Breier; e da secretária-geral adjunta, Maria Cristina Carrion Vidal de Oliveira; Lamachia voltou ao Central decepcionado, diante da certeza de que muito pouco havia mudado em relação à vistoria do início do ano passado.
    “Muito foi prometido pelo Governo do Estado e quase nada foi cumprido, como a geração de três mil vagas para desafogar o Central, mas o número atual de presos pouco se alterou – são 4,4 mil, contra 4,6 mil em abril de 2012.
    Estamos em dezembro de 2013 e a população carcerária é quase a mesma. Os presos saem daqui mais violentos. É o quadro de uma tragédia anunciada. Há detentos permanentes e provisórios no mesmo espaço, o que garante o índice de reincidência de 80%”, ressaltou o vice-presidente nacional da OAB e presidente da Ordem gaúcha em 2012.
    Em parceria com a OAB, Cremers e Crea-RS voltaram ao Central. Sobre o atendimento de saúde, o presidente do Cremers, Fernando Matos se mostrou decepcionado. “Fizeram pintura nas paredes, aumentou a limpeza do ambiente, mas não houve melhoras. As promessas não foram cumpridas. Deveriam ter 72 profissionais, mas existem apenas 10. A única coisa que mudou foi a municipalização da saúde dentro do presídio.
    O engenheiro do Crea-RS, Nelson Agostinho Burille, também saiu do presídio preocupado, pois nada evoluiu desde a última inspeção em termos de condições de estrutura. “Não existe plano de prevenção e combate a incêndio, hidrantes estão com torneiras quebradas e faltam mangueiras para água, além da dezenas de fios expostos nas paredes. A fiação elétrica é um caos. Se um preso quiser matar outro não precisa de alguma arma ou faca, basta pegar dois fios e a vítima vai morrer torrada”, afirmou Burille.
    Também participaram da vistoria a Comissão de Direitos Humanos da OAB/RS, Rodrigo Puggina (coordenador-geral) e Roque Reckziegel; os conselheiros seccionais Domingos Baldini Martin e Gustavo Junchem; a coordenadora do Fórum Nacional de Conselhos Penitenciários, Maira Fernandes; e o chefe de gabinete da presidência, Julio Cezar Caspani.
    Mutirão da OAB segue pelo País
    A vistoria ao Central é a primeira de um mutirão nacional realizado pelo Conselho Federal da OAB, que vai inspecionar os maiores e mais problemáticos presídios do País até o final de fevereiro. Após, será elaborado um relatório com cobranças ao Ministério da Justiça, que poderá resultar em pedidos de interdição e fechamentos de presídios.
    (Fonte: OAB-RS)

  • Visita da ONU impulsiona obras de saneamento

    Em março, a presidente Dilma Rousseff anunciou a liberaçãp de R$ 16 bilhões para obras de saneamento básico no Brasil. Na manhã desta quinta-feira, véspera de Natal, o governador gaúcho, Tarso Genro, vai assinar o contrato da verba destinada ao Rio Grande do Sul. Será às 10 horas, no Palácio Piratini. O documento será firmado também pelo Ministério das Cidades, Caixa Econômica Federal (CEF) e Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan).
    O dinheiro faz parte da terceira seleção do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC II), para investimentos em água e de esgoto em 16 cidades do Estado. O anúncio ocorre logo depois de uma visita ao Brasil da relatora especial das Nações Unidas sobre Água e Saneamento, Catarina de Albuquerque. Ela apresentou conclusões preliminares e as recomendações iniciais ao governo brasileiro sobre as condições sanitárias do país.
    O governador Tarso Genro assina contrato de R$ 1 bilhão destinado ao saneamento no Rio Grande do Sul, nesta quinta-feira (26), às 10h, no Palácio Piratini. O documento será firmado também pelo Ministério das Cidades, Caixa Econômica Federal (CEF) e Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan).
    Dinheiro vem do PAC II
    O valor já havia sido garantido em março deste ano, quando a presidente Dilma Rousseff anunciou a liberação de R$ 16 bilhões para o setor em todo o país. O dinheiro faz parte da terceira seleção do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC II) e será utilizado para empreendimentos de água e de esgoto em 16 cidades do Estado. Com financiamento da CEF, estão sendo contratados R$ 479,95 milhões. Por meio do Orçamento Geral da União (OGU), as cifras chegam a R$ 521,91 milhões.
    Em outubro, 11 cidades gaúchas foram contempladas com mais R$ 394 milhões na 4ª seleção do PAC II. A previsão é de que essa contratação ocorra até o fim do primeiro semestre de 2014. Assim, cerca de R$ 4,4 bilhões, entre recursos próprios da Corsan e do PAC, serão investidos no Rio Grande do Sul até 2017.
    Municípios contemplados – Orçamento Geral da União:
    • Canoas (Esgoto): R$ 216,25 milhões
    • Estância Velha (Esgoto): R$ 71,41 milhões
    • Nova Hartz (Água): R$ 5,15 milhões
    • Nova Santa Rita (Esgoto): R$ 29,76 milhões
    • Parobé (Esgoto): R$ 42,63 milhões
    • Portão (Esgoto): R$ 23,27 milhões
    • Santo Antônio da Patrulha (Esgoto): R$ 16,31 milhões
    • Sapiranga (Esgoto): R$ 34,76 milhões
    • Taquara (Esgoto): R$ 82,35 milhões
    Municípios contemplados – Caixa Econômica Federal:
    • Alvorada/Viamão (Água): R$ 58,72 milhões
    • Cachoeirinha (Esgoto): R$ 45,9 milhões
    • Campo Bom (Esgoto): R$ 78,33 milhões
    • Gravataí (Esgoto): R$ 123,16 milhões
    • Guaíba (Esgoto): R$ 28,26 milhões
    • Guaíba – repactuação PAC I(Esgoto): R$ 26,37 milhões
    • Santa Maria (Esgoto): R$ 119,19 milhões
    O anúncio ocorre logo depois de uma visita ao Brasil da relatora especial das Nações Unidas sobre Água e Saneamento, Catarina de Albuquerque. Ela apresentou conclusões preliminares e as recomendações iniciais ao governo brasileiro sobre as condições sanitárias do país. Disse que ficou chocada com as desigualdades regionais no acesso ao saneamento básico, sendo a Região Norte a mais afetada.
    Segundo ela, o Brasil está entre os dez países onde mais faltam banheiros – 7 milhões de brasileiros estão nessa situação. Cinquenta e dois por cento da população não têm coleta de esgoto e somente 38% do esgoto é tratado. “É inaceitável de uma perspectiva de direitos humanos”
    (Com informações da Secom/RS e Agência Brasil)

  • Respeito à biografia de Mario Quintana

    Carlos Alberto de Souza, jornalista |

    O 2013 não pode, por questão de justiça, cerrar suas pesadas portas sem que se conteste publicamente uma ofensa perpetrada contra a biografia e a memória de Mario Quintana. A afronta foi cometida por um doutor em Literatura e, lamentavelmente, contou com a conivência da intelectualidade gaúcha, que se omitiu e silenciou diante do fato.
    Com todos os méritos do título, o doutor em questão é o professor Luís Augusto Fischer. Em declaração de rara infelicidade, em entrevista concedida ao caderno Cultura de Zero Hora de 12 de outubro passado, na condição de patrono da Feira do Livro de Porto Alegre que se iniciaria a 1º de novembro, ele disse que Erico Verissimo, Cyro Martins e Dyonelio Machado não eram habitués da Feira e que Quintana a frequentava “porque ele nos últimos anos era um velhinho folclórico, e havia trabalhado ali no Correio do Povo, morava no Centro…”
    Fischer, nessa sua resposta, sustenta que “a intelectualidade”, “os escritores mesmo”, como o triunvirato citado, não eram atraídos pela Feira, que reunia “jornalistas, professores”.
    Referir-se a Mario Quintana como um “velhinho folclórico” é revelar um juízo distorcido da figura do poeta, além de menosprezar e desrespeitar sua história de vida. Imaginei que o disparate seria alvo de imediata refutação por algum integrante da intelectualidade, mas nenhuma voz se levantou por Quintana que, morto em 1994, aos 87 anos, não pode se defender.
    Tentei expressar em Zero Hora, por meio de artigo, o sentimento de repulsa que manifesto aqui, mas a contradita não foi acolhida pelo jornal que veiculou a gafe. Além da busca do desagravo, creio que o reparo se impõe, entre outras razões, para que a opinião de Fischer não transite como uma verdade inconteste e eventualmente seja absorvida por um desavisado pesquisador do mundo acadêmico. Afinal, a pecha foi lançada por um especialista.
    Por ironia, não houve escritor mais identificado com a Feira do Livro do que Mario Quintana, que viveu com graça, encantamento, simplicidade e dignidade. Não por acaso, ele está eternizado em bronze na Praça da Alfândega, Centro de Porto Alegre, ao lado da estátua de Drummond.
    Dois gigantes. Patrono da Feira em 1985, Quintana foi sempre uma espécie de atração extra do evento, caminhando entre as bancas ou sentado num dos bancos da praça. Não são poucas as pessoas que guardam com imenso carinho um livro autografado por ele, com dedicatórias poéticas e bem-humoradas.
    Certamente, Quintana frequentou a Feira, criada em 1955 – quando Fischer ainda não havia nascido -, desde sempre. Na primeira edição, o poeta tinha 49 anos e já trabalhava havia dois anos no Correio do Povo. O evento concentrava três de suas paixões: a rua (“Olho o mapa da cidade como quem examinasse a anatomia de um corpo…”), a praça e a literatura. Não é demais lembrar que, além de consagrar-se na arte da poesia, ele marcou no país como tradutor, vertendo, para a lendária Editora Globo, nomes como Marcel Proust, Virginia Woolf, Aldous Huxley, Guy de Maupassant.
    A que atribuir o deslize que sugere a existência de um Quintana inconsequente, vazio, indigno de ser levado a sério quando “velhinho”, pois, afinal, são essas as características de um sujeito dito “folclórico”? Para deixar barato, digamos que ao paradoxo, uma vez que na sua atividade Fischer mostra zelo pelas coisas de valor do passado, sendo um profundo e respeitado estudioso da obra de Simões Lopes Neto, um dos maiores nomes da literatura rio-grandense, por exemplo.
    Até por essa razão é que o epíteto aplicado ao poeta choca e causa perplexidade. Mario Quintana, um “velhinho folclórico”?! Por favor, professor…

  • História da tropicalização da soja

    Geraldo Hasse
    Até 50 anos atrás, a cana-de-açúcar, a laranjeira e o cafeeiro eram os principais exemplos da fácil adaptação de vegetais exóticos ao clima e aos solos do Brasil. Aqui e ali, também se pode apontar a boa assimilação do algodoeiro, do arroz, do coqueiro, do eucalipto e da videira, plantas presentes no território nacional há pelo menos um século. Entretanto, nenhum caso foi tão rápido e intenso quanto o da soja. Em apenas meio século a leguminosa chinesa Glycine max passou por um processo de “tropicalização” sem precedentes.
    [floated align=”left”]Tendo partido do zero nos anos 1960, a soja representa hoje 50% do produto agrícola brasileiro.[/floated]
    O grão inicialmente cultivado em roças coloniais no clima temperado do Sul do Brasil adaptou-se de forma espantosa às terras quentes do Brasil Central, do Nordeste e da Amazônia. Nesse avanço, apresentou ainda notáveis ganhos de produtividade e de qualidade. Maior exportador mundial de soja, o Brasil pode conquistar na safra a ser colhida no primeiro semestre de 2014 o titulo de campeão mundial na produção de soja, desbancando os EUA de um reinado secular.
    O mérito dessa conquista é coletivo e deve ser dividido entre pelo menos sete protagonistas:
    1 – os agricultores, que apostaram sem medo na leguminosa, a ponto de dar origem a dois “reis da soja” – Olacyr de Moraes nos anos 1970/80 e Blairo Maggi na década de 1990 –, assim chamados por produzir grandes volumes em áreas da chamada fronteira agrícola, explorando terras nunca antes cultivadas;
    2 – os pesquisadores, que desenvolveram novas variedades de sementes e defenderam a nova cultura de doenças e pragas;
    3 – a indústria de beneficiamento da soja, que construiu plantas no rastro das fronteiras abertas pela soja;
    4 – os produtores de máquinas, implementos e insumos;
    5 – os importadores de soja e seus derivados;
    6 – o governo, que andou na frente (oferecendo crédito farto) e vem correndo atrás (na oferta de infraestrutura);
    7 – São Pedro, que mais ajudou do que atrapalhou na expansão e no fortalecimento do elo mais dinâmico da cadeia do agronegócio.
    Tendo partido do zero nos anos 1960, a soja representa hoje 50% do produto agrícola brasileiro. Por tudo isso se pode afirmar que esta leguminosa rica em óleo, proteínas e outras virtudes nutricionais é a protagonista central da maior aventura agrocientífica da história da humanidade na segunda metade do século XX.
    Cabe perguntar se esse fenômeno teria acontecido com outra planta. A resposta é: provavelmente não. Falando a propósito da surpreendente adaptabilidade revelada pela Glycine max no Brasil, o agrônomo Eduardo Antonio Bulisani (Jundiaí, 1945-), ex-diretor adjunto do IAC, disse a este repórter em 1996: “Não sei se houve uma tropicalização ou se, simplesmente, o deslocamento para o Brasil Central revelou um potencial genético até então apenas desconhecido na soja”.
    Alguns anos antes, em 1988, quando lutava para não perder o cetro de “rei da soja”, o banqueiro e empreiteiro de obras públicas Olacyr de Moraes (Itápolis, 1931-) admitiu a um repórter da revista Veja: “No fundo devemos quase tudo ao trabalho desses rapazes, técnicos e cientistas agrícolas”. Por incrível que pareça, essa foi a primeira vez que um representante da iniciativa privada reconheceu publicamente o mérito do pessoal da pesquisa genética na expansão da cultura da soja em território brasileiro.
    Olacyr tinha consciência de que não teria alcançado sucesso sem ajuda técnica no cultivo de variedades adaptadas ao clima e ao solo de Ponta Porã (MS), onde havia comprado terras virgens no início da década de 1970, quando a soja começava sua fenomenal arrancada no Sul do Brasil. Para adaptar a leguminosa aos solos ácidos do cerrado, o megagricultor emergente cercou-se de técnicos de ascendência japonesa liderados por Tuneo Sediyama (Itápolis, 1943-), PhD em genética formado na Universidade Federal de Viçosa, um dos principais núcleos de estudo da soja no Brasil.
    Esforço coletivo global
    A tropicalização da soja foi um empreendimento conjunto de brasileiros, orientais, europeus e norte-americanos. A lista da legião de melhoristas da soja no Brasil começa no final do século XIX com o agrônomo Gustavo D’Utra, autor do primeiro documento técnico sobre o cultivo de soja na Bahia no final do século XIX; prossegue na primeira década do século XX com o francês Guilherme Minssen, professor de agronomia em Pelotas; avança na década de 1910 com o norte-americano E.C. Craig, professor de agronomia em Porto Alegre; continua na década de 1920 com Henrique Löbbe, pesquisador do Ministério da Agricultura em São Simão, no coração da zona cafeeira paulista; na década de 1930 recebe o impulso do polonês Czeslaw Biezanko, que difunde a soja entre os colonos do norte do Rio Grande do Sul e, nos anos 1940, experimenta o esforço de propaganda de Neme Abdo Neme, do Instituto Agronômico de Campinas.
    Sem dúvida, porém, é nos anos 1950 que a difusão da soja se multiplica com o entusiasmo do agrônomo paulista José Gomes da Silva, brilha no vale do Paraiba do Sul com Shiro Miyasaka e Geraldo Guimarães; evolui no Sul com Jamil Feres, João Rui Jardim Freire e Francisco de Jesus Vernetti; na década de 1960, rende tributo ao norte-americano Edgard Hartwig e curva-se diante do paulista Romeu Kiihl; e triunfa nos anos 1970 com Emidio Rizzo Bonato, Manoel Miranda, Francisco Terasawa, Johanna Döbereiner, Flavio Moscardi, Tuneo Sediyama et alllii…
    Para ser completa, a lista precisaria conter muitos mais nomes. Apenas o time permanente de pesquisadores da soja mantido pela Embrapa congrega uma centena de agrônomos, que trocam informações e compartilham experimentos com entidades e empresas que trabalham pela propagação da planta no Brasil.
    Dessa rede fazem parte o Instituto Agronômico de Campinas; as faculdades de agronomia de Porto Alegre, Pelotas, Santa Maria, Curitiba, Piracicaba, Rio de Janeiro, Lavras e Viçosa; o Ipagro, a Empasc, o Iapar, a Epamig e a Emgopa; e dezenas de estações experimentais oficiais e/ou campos particulares de melhoramento espalhados pelo Brasil com a cumplicidade de centenas de agricultores. Tudo isso sem contar instituições situadas nos Estados Unidos que ao longo da história colaboraram mais estreitamente com os técnicos brasileiros.
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    Metamorfose
    A adaptação da soja ao Brasil baseou-se no melhoramento genético de um material extremamente diversificado. Aqui se plantaram sementes originárias do Japão, da Europa e dos Estados Unidos.
    A maior parte das variedades comerciais introduzidas no Brasil veio dos Estados Unidos, cujos técnicos haviam coletado material diretamente na China e em outros pontos da Ásia – fato registrado no prefixo PI (Planta Introduzida) que se encontra na nomenclatura básica da soja norte-americana.
    Em sua fantástica metamorfose ocidental, a Glycine max cresceu em número de cultivares, linhagens e variedades, recebendo por isso uma quantidade enorme de nomes pelos quais se tornou conhecida dos técnicos, comerciantes de sementes e agricultores.
    Enquanto nos Estados Unidos, depois da Segunda Guerra Mundial, muitas variedades foram batizadas com o sobrenome de comandantes militares (Lee, Davis etc.), no Brasil criou-se o costume de homenagear o lugar onde a semente revelou sua importância. Hoje no Brasil a soja possui centenas de “marcas regionais”.
    Parece fora de dúvida que a primeira variedade de soja conhecida no Brasil foi a Amarela ou Comum. Num trabalho intitulado “A Soja no Brasil”, que escreveu na década de 1950 em parceria com Neme Abdo Neme e que não chegou a ser publicado em forma de livro, José Gomes da Silva anotou que a variedade Amarela ou Comum, muito cultivada pelos colonos gaúchos, chegou a ser conhecida por “Rio Grande” em São Paulo na arrancada da Campanha da Soja, no início da década de 1950, quando a variedade mais difundida entre os agricultores paulistas era a Abura, “coletada há cerca de 20 anos, por técnicos do Instituto Agronômico, entre lavradores japoneses do município de Campinas”, segundo a pesquisa de Silva e Neme.
    Na realidade, soube-se depois, a Abura foi doada ao IAC em meados da década de 1930 pelo Consulado do Japão em São Paulo.
    Pesquisa avança
    Tanto a Amarela/Comum como a Abura eram consideradas boas produtoras de óleo para a época – com teores, respectivamente, de 18,3% e 19,37% –, mas apresentavam alguns “defeitos”, escreveram Silva e Neme: acamavam com facilidade, “soltavam” as sementes (característica das vagens conhecida tecnicamente por deiscência) e eram suscetíveis a nematóides.
    Parecida com a Abura, mas melhor do que ela, segundo os dois pesquisadores do IAC, era a 455, de porte ereto e menos propícia a jogar longe os grãos. Outras variedades coletadas nas colônias japonesas do interior paulista foram as asiáticas Otootan e Chosen, citadas como “boas forrageiras”, capazes de produzir em torno de 10 toneladas de massa verde por hectare, segundo ensaios de 1952/53.
    Em seu trabalho, baseado em dados do começo da década de 1950, Gomes da Silva e Neme admitem que, mesmo depois de realizar ensaios com cerca de 400 variedades de procedência norte-americana, o pessoal do IAC ainda não tinha encontrado a soja “ideal para as nossas condições”.
    O que se buscava selecionar para cultivo em solo paulista eram principalmente plantas mais altas/eretas e resistentes à deiscência (visando a colheita mecânica, pois nessa época já operavam nas lavouras de grãos algumas marcas de automotrizes importadas dos EUA); que não fossem suscetíveis ao ataque de nematóides; que se mostrassem mais produtivas por área; e, finalmente, que apresentassem bons índices em dois aspectos essenciais – massa verde e teor de óleo.
    Desse esforço objetivo de melhoramento genético foram surgindo nomes que merecem registro como marcos da pré-história da soja no Brasil. A nomenclatura das sementes testadas nos anos 1950 em diversos campos experimentais “cita” locais como Avaré, Araçatuba, Aliança, Morro Agudo, Pereira Barreto, Paraná – quase todas, variedades selecionadas em municípios paulistas onde estava presente o imigrante japonês chegado ao Brasil em 1908 com um punhado de grãos de soja para cultivo rudimentar em hortas.
    Dessas variedades pioneiras, consideradas “rústicas”, a mais importante para o pessoal do IAC foi a Mogiana, coletada em 1947 na região de Ribeirão Preto. Não fez grande carreira. No Sul, em 1960, os técnicos gaúchos batizaram a variedade Pioneira (seleção do cruzamento Biloxi x Chosen). Também não foi longe, mas a grande aventura da transformação genética da soja no Brasil estava começando.
    Liderança técnica
    Em todos os casos de sucesso das sementes desenvolvidas para as condições brasileiras, a pesquisa realizada no Brasil contou com a retaguarda de cientistas de outros países, especialmente dos Estados Unidos. Henrique Löbbe, que na década de 1920 testou cinco variedades asiáticas (recebidas de um agrônomo japonês que as trouxe da Manchúria) e 59 variedades norte-americanas (adquiridas pessoalmente em viagem aos Estados Unidos) na estação experimental do Ministério da Agricultura em São Simão (SP), manteve correspondência com o agrônomo William J. Morse, responsável pelo deslanche da lavoura de soja nos Estados Unidos na primeira metade do século XX.
    Num artigo publicado em 19 de fevereiro de 1928 em O Estado de S. Paulo, Löbbe afirma ter selecionado três mutações espontâneas, denominadas Jomichel, Julieta e Joalo, de ciclo vegetativo muito precoce (90 dias). Diz ainda ter obtido por cruzamento outra variedade, a Artofi, “muito produtiva, de tamanho grande e coloração original”.
    Depois, nas décadas de 1930 e 1940, outros técnicos nativos ou estrangeiros contribuíram para difundir a soja no Brasil. Os mais notórios foram o polonês Czeslaw Biezanko (1895-1986), no Rio Grande do Sul, e o sírio naturalizado brasileiro Neme Abdo Neme (1908-1973), no estado de São Paulo.
    De modo geral, entretanto, é praticamente unânime entre os técnicos que o nome-chave na história da soja no Brasil é o do ribeirãopretano José Gomes da Silva (1925-1996).
    Evidentemente beneficiado pelo trabalho de observação, pesquisa e seleção dos técnicos mais antigos do Instituto Agronômico de Campinas e de outras instituições, Gomes da Silva deu o pulo do gato quando, recém-formado em agronomia em 1946 em Piracicaba, passou dois anos fazendo mestrado em Iowa, nos Estados Unidos, de onde voltou, no final de 1948, disposto a promover aqui a exemplar integração norte-americana entre lavoura, pesquisa, indústria e governo.
    No final da década de 1940 já se sabia em São Paulo e no Rio Grande do Sul que a simples garantia de compra de uma indústria, por mais estimulante que fosse, não era suficiente para manter os agricultores no cultivo regular da soja.
    Swift
    O esforço da inglesa Swift para fomentar a produção de soja no interior paulista, entre 1945 e 1948, deu bons resultados mas não foi à frente, talvez por falta de uma liderança técnica que promovesse a necessária articulação entre todas as pontas do processo produtivo, especialmente entre a lavoura e a pesquisa.
    Foi esse o papel de Gomes da Silva. Com sua dedicação – tão grande que lhe rendeu o apelido de Zé Sojinha – ele mostrou que, ao apontar caminhos e buscar novas saídas, o pesquisador científico possui também uma missão política.
    Contratado como pesquisador do IAC, José Gomes da Silva pegou na unha o esforço da indústria de óleos por uma matéria-prima mais rendosa e segura que algodão, amendoim, mamona e girassol.
    Embora articulado com a indústria, visava principalmente ao consumidor. Na convivência com os norte-americanos, havia adquirido a convicção de que a leguminosa chinesa estava predestinada a ter grande futuro no Brasil. Falava com frequência na mística da soja.
    “Desde o início eu pensei na soja como alternativa proteica para sanar a deficiência nutricional das populações pobres do Brasil, especialmente do Nordeste”, disse ele a este repórter em janeiro de 1996, alguns dias antes de morrer de um ataque cardíaco.
    Dono da Fazenda Baguaçu, em Pirassununga, onde desenvolveu principalmente o plantio regular da cana-de-açúcar, Zé Sojinha cultivava idéias que lhe valeram a imagem de “comunista”. Para isso contribuiu seu engajamento na luta pela democratização da posse da terra.
    No início da década de 1960 ele fundou em Campinas, junto com Carlos Lorena, também agrônomo, a Associação Brasileira de Reforma Agrária, que ficou na história como um dos primeiros focos de resistência ideológica à ditadura militar implantada em 1964.
    Não há como negar que a Glycine max tripudiou cruelmente sobre o idealismo socialista de Zé Sojinha. Ele acreditava sinceramente que a soja poderia fortalecer a renda das pequenas propriedades e servir como instrumento de redistribuição fundiária.
    Na realidade, deu-se o inverso: cultivada em larga escala, como monocultura, a planta contribuiu especialmente para reduzir o número de minifúndios e ampliar a concentração fundiária no Brasil.

  • REVISTA JÁ ganha mais um prêmio ARI

    A Revista JÁ ganhou ontem mais um Prêmio ARI, pela reportagem econômica “A redescoberta do carvão”, de Elmar Bones e Cleber Dioni Tentardini. O trabalho foi publicado em maio, como reportagem de capa da edição especial sobre energia, a primeira de uma série de cinco edições sobre infraestrutura no Rio Grande do Sul. A segunda edição desta série, sobre logística de transportes, circulará ainda este ano. Para o outono, já está sendo preparada a edição sobre saneamento.
    O Prêmio ARI, o segundo mais antigo do Brasil, foi entregue no dia em que a Associação Riograndense de Imprensa, fundada em 19 de dezembro de 1935, completou 78 anos. Em 2013 recebeu um número recorde de inscrições: 260 trabalhos. A lista dos ganhadores está na página www.ari.org.br. Para ler a edição da Revista JÁ, clique no alto da página, à direita.
    A entrega do prêmio ocorreu no momento em que o Sindicato dos Jornalistas está numa campanha salarial inédita na história recente da categoria, que tem um vergonhoso piso salarial de 1540 reais no interior e 1690 reais na capital.

  • Dilma inaugura Rodovia do Parque e promete mais

    Depois de uma polêmica que envolveu até a presidente Dilma Rousseff, a BR-448 – maior obra rodoviária federal em andamento no Estado – finalmente fica pronta.
    A polêmica surgiu depois que o presidente do Tribunal de Contas da União, Augusto Nardes, visitou a obra no início de novembro e disse à imprensa que ia recomendar a suspensão dos trabalhos, para que seja investigada a suspeita de fraude, apontada em relatórios técnicos. A obra, com orçamento superior a R$ 1 bilhão, teria R$ 90 milhões superfaturados.
    Com apenas 22 quilômetros, ligando Porto Alegre a Sapucaia do Sul, a BR-448 contorna o Parque do Delta do Jacuí e por isso foi alvo de protestos dos movimentos ambientalistas.
    Mesmo assim foi batizada de Rodovia do Parque. Projetada há mais de uma década para desafogar a BR-116 no seu trecho mais congestionado (Porto Alegre-Vale do Sinos), foi licitada e executada em onze meses.
    Por contar com o apoio e a torcida da presidente da República, a 448 é conhecida no meio como “a Rodovia da Dilma”. Não por acaso, a presidente reagiu à recomendação do TCU. De passagem pelo Estado no mesmo fim-de-semana, ela protestou dizendo que seria “uma injustiça” paralisar uma obra tão urgente, já quase concluída. “Sejam as irregularidades apuradas e os culpados punidos, mas parar a obra quase pronta não tem sentido”.
    Concebida como altenativa para o trânsito na Região Metropolitana de Porto Alegre, a 448 deve absorver cerca de 30% dos 130 mil veículos que trafegam diariamente pela BR 116, entre a capital e o Vale do Sinos. Ela receberá também parte do tráfego da região serrana, contornando Porto Alegre para alcançar a BR-290 na altura de Eldorado do Sul.
    Com mais essa carga, a duplicação da BR 290 até Pantano Grande, que ainda está em fase de licitação, torna-se urgente.
    O prolongamento da BR-448 de Sapucaia do Sul até Estância Velha já está previsto. O Estudo de Viabilidade já está em andamento, com conclusão prevista para março de 2014. O traçado final desse trecho de 32 quilômetros ainda não está definido mas, como atravessa uma região menos densamente povoada, deve ter um custo bem mais baixo – estimativas preliminares do DNIT falam em R$ 500 milhões.
    Outras obras
    Na mesma região, no Vale do rio dos Sinos, estão sendo feitos estudos e projetos para alargar as pistas e melhorar as condições de segurança da congestionada BR-116. A resolução desses gargalos vai custar mais de R$ 200 milhões. A prioridade do governo federal é desafogar o tráfego de automóveis de passeio e caminhões de carga nos horários de pico na região metropolitana e nas rodovias que ligam a capital ao Vale do Sinos, a Pelotas (BR-116) e esta ao porto de Rio Grande(BR-392).
    As duplicações de rodovias existentes visam nitidamente recuperar um atraso de décadas. É um esforço superior ao realizado para duplicar a BR-101 no trecho Osório-Torres, obra de 90 quilômetros que começou em 2004 e levou oito anos para ficar pronta e foi inaugurada várias vezes, por trechos, pelo presidente Lula. Registre-se ainda que foi concluída este ano, sem foguetes, a penosa duplicação dos menos de 20 quilômetros da BR-290 no trecho Eldorado do Sul-Guaíba.
    Ao inaugurar a BR-448, hoje, Dilma confirmou investimentos para melhorias na BR-116, entre Porto Alegre e Novo Hamburgo, para segunda ponte sobre o Rio Guaíba e a assinatura da ordem de serviço para duplicação de 57,5 km da BR-290, a principal rodovia transversal do Estado. O DNIT e o Consórcio TB – ECB – Etel assinaram contrato para elaboração de projetos e execução de obras de duplicação e de melhorias da BR-290, no valor de R$ 302 milhões em investimentos. Esses lotes fazem parte das obras previstas para o trecho compreendido entre Eldorado do Sul e Pântano Grande com 115,7 quilômetros.

  • Sinal dos tempos: sai Médici, entra Marighella

    O Colégio Presidente Médici, em Salvador (BA), quer mudar de nome, para Colégio Estadual Carlos Marighella. Foi uma eleição histórica. Os eleitores, a maioria alunos, deram 406 votos (69%) a Marighella e 128 ao geógrafo Milton Santos, 25 nulos e 27 brancos. Ainda depende do encaminhamento da Secretaria da Educação e da palavra final do governador Jacques Wagner.
    O político, guerrilheiro e poeta nascido em Salvador foi assassinado em São Paulo em 1969, primeiro ano do governo Médici (69-74), o período mais violento da ditadura. O colégio foi inaugurado em 1972. O geógrafo Milton Santos era baiano de Brotas de Macaúbas.
    A notícia foi dada primeiro pelo blog do jornalista carioca Mário Magalhães, autor da biografia “Marighella – o guerrilheiro que incendiou o mundo” (Cia das Letras). O livro inspirou a comunidade escolar a refletir sobre o nome da escola.
    Numa eleição histórica encerrada anteontem, a comunidade do Colégio Estadual Presidente Emílio Garrastazu Médici, de Salvador, decidiu que a instituição deve ser rebatizada como Colégio Estadual Carlos Marighella.
    Eleição
    Os eleitores, na maioria alunos, deram 406 votos (69%) a Marighella e 128 ao geógrafo Milton Santos. Os nulos foram 25, e os brancos, 27. O resultado será encaminhado à Secretaria da Educação da Bahia, para que o Estado promova uma “reinauguração”, palavra empregada pela diretora do estabelecimento, Aldair Almeida Dantas, em conversa com o blog.
    O colégio foi inaugurado em 1972, quando o general gaúcho Médici (1905-85) ocupava a Presidência da República, sem ter recebido um só voto popular. Seu governo (1969-74) marcou o período de maior repressão e falta de liberdades na ditadura imposta em 64.
    Do golpe que derrubou o presidente constitucional João Goulart até 1985, nos 21 anos em que ditadores ocuparam o Palácio do Planalto, ao menos 400 oposicionistas foram mortos por agentes públicos. Boa parte havia sido presa com vida, estava sob custódia do Estado e foi torturada até a morte. Mais de 130 cidadãos tiveram os corpos desaparecidos para sempre, sem que as famílias pudessem lhes oferecer um enterro digno. Nem mesmo a legislação da ditadura autorizava tortura e execução de seres humanos.
    O guerrilheiro baiano Carlos Marighella (1911-69) foi declarado pela ditadura, em novembro de 1968, “inimigo público número 1”. Militante comunista na maior parte da vida, ele se incorporou em 67 à luta armada contra o regime. Fundou a maior organização guerrilheira de combate à ditadura, a Ação Libertadora Nacional, ALN.
    Foi assassinado em 1969, no governo Médici, por ao menos 29 membros da polícia política armados até os dentes. Desarmado, Marighella não portava nem um canivete. Em decisões de 1996 e 2011, a União reconheceu que o “inimigo” poderia ter sido preso vivo, assumiu a responsabilidade por seu homicídio e pediu perdão à sua família.
    afrodescendentes
    O outro candidato da eleição, o geógrafo baiano Milton Santos (1926-2001), foi um dos pensadores brasileiros mais brilhantes do século XX. Perseguido pela ditadura, foi obrigado a passar mais de uma década no exílio, inclusive durante a administração do general Médici.
    Milton Santos e Carlos Marighella eram afrodescendentes. Médici era branco.
    O pleito foi coordenado pelo colegiado da escola, composto por professores, funcionários, estudantes e pais de alunos _segmentos que tiveram direito a voto. Ninguém propôs manter na cédula o nome atual _insatisfeitos com as opções votaram branco e nulo. O colégio Médici é de ensino médio e profissionalizante.
    Continuam a existir no Brasil centenas ou milhares de sítios públicos batizados em homenagem a próceres e símbolos da ditadura. Seria como eternizar na Alemanha reverências do tempo do nazismo ou, na Argentina, da ditadura 1976-83. Mas não existe escola berlinense Adolf Hitler ou praça portenha Jorge Rafael Videla, o ditador que principiou o ciclo genocida. Tiranos e açougueiros do passado não devem servir de exemplo aos jovens.
    É esse o caminho apontado no colégio Médici, futuro colégio Marighella.
    Como assinalou a diretora Aldair, na origem da escolha pela mudança de nome esteve uma exposição dos alunos, derivada de “um trabalho espetacular da professora Maria Carmen”. Chamaram-na “A vida em preto e branco: Carlos Marighella e a ditadura militar”.
    Um vídeo com a socióloga e professora Carmen apresentando a exposição pode ser assistido clicando aqui.
    Testemunho pessoal
    Sou autor da biografia “Marighella – O guerrilheiro que incendiou o mundo” (Companhia das Letras). Um exemplar aparece no vídeo, entre os objetos expostos no _ainda_ colégio Médici. A professora Carmem disse, comovendo-me: “Seu livro foi uma base e uma inspiração para esse trabalho”.
    Como sabe quem leu a biografia, não produzi nem uma hagiografia, promovendo os feitos do protagonista, nem um libelo contra ele. Escrevi uma reportagem, contando o que Marighella fez, disse e, na medida do possível, pensou. Não o julgo ou trato como herói ou bandido _empenho-me em fornecer informações para cada leitor formar seu próprio juízo.
    Mas, como dizia João Saldanha, grande amigo de Marighella, eu não sou filho de chocadeira _tenho opinião. A ditadura foi um mal, e seus crimes devem ser narrados, bem como os criminosos, punidos. A história não deve apagar personagens, como a ditadura e suas viúvas tentaram fazer com Marighella, ou como os artistas de Stálin faziam eliminando das fotografias as pessoas caídas em desgraça.
    A professora Carmem e seus alunos orgulham o Brasil. Assim como é legítimo haver escolas com o nome de Carlos Lacerda (1914-77), líder de direita de gigantesco talento, é legítimo reverenciar um dirigente de esquerda como Carlos Marighella.
    Ilegítimo é bajular em prédio público a memória de ditador, perenizando o elogio das trevas.
    Tomara que o governo Jacques Wagner não barre a decisão democrática e soberana da comunidade que decidiu pela civilização, contra a barbárie.

  • Barbosa vem ver o pior presídio do Brasil?

    Joaquim Barbosa em Porto Alegre para conhecer o pior presídio do Brasil. A notícia é da colunista da Folha de S. Paulo, Mônica Bergamo. Ela informa que Barbosa retomará seus “mutirões carcerários” e vai começar dia 20, pelo presídio Central de Porto
    Alegre.
    Num ranking do Ministério da Justiça, o Central aparece como o pior do país. Vários governos já anunciaram a sua demolição, mas não têm onde colocar os 4 mil presos que lá se amontoam em condições sub-humanas.
    O presidente do STF defende que os presídios sejam administrados pelo Judiciário, “único
    poder que poderia mexer no vespeiro sem temer consequências eleitorais”. A informação da visita do ministro não foi confirmada pelo Palácio Piratini, nem pelo Supremo Tribunal Federal e nem pelo Conselho Nacional de Justiça.

  • Defensoria atuará em demandas ambientais

    “Sim, vamos atuar também nas demandas ambientais”. Esta foi a resposta pronta do Defensor Geral, Nilton Arnecke Maria, aos representantes do movimento ambientalista que no início de dezembro levaram à Defensoria Pública do Rio Grande do Sul um abaixo assinado pedindo que os advogados que prestam assistência judicial gratuita à população, ampliem sua atuação para incluir também as causas relacionadas ao meio ambiente.
    “Foi uma grande vitoria, mais uma ação pioneira da nossa cidadania”, comemorou o advogado Arno Carrard, que coordenou a iniciativa dos ambientalistas.
    Segundo ele, a decisão vai remover uma das maiores dificuldades das entidades de defesa ambiental, que é ter apoio técnico jurídico para levar à Justiça demandas que envolvem o meio ambiente, no âmbito cível e criminal. “Até agora, as entidades tinham que recorrer a voluntários, que muitas vezes não tinham conhecimentos específicos para atuar nesses processos”, explicou.
    Para Carrard, a maior importância dessa iniciativa é que ela vai completar um ciclo iniciado em 2010, quando o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, atendendo também uma reivindicação do movimento ambientalista, aprovou a criação duas Varas Ambientais. “Agora teremos o apoio técnico para orientar as nossas ações e as varas especializadas para agilizar esses processos”, explicou o advogado Caio Lustosa, um dos signatários do documento.
    Decisão é inédita no país
    Assim que circulou na internet a informação de que a Defensoria Pública do Rio Grande do Sul se capacitar para atuar também em causas ambientais, manifestações de diversas partes do país e até do exterior a chegaram ao advogado Arno Carrard.
    “Todos querem informações sobre como conseguimos isso, pois consideram um grande avanço. Pelo que sei, é uma decisão inédita no país”, diz ele.
    Primeira ação está a caminho (foto Lewgoy pode prever um “boneco”)
    A primeira demanda a ser levada pelo movimento ambientalista à Defensoria Pública do Rio Grande do Sul tem base num estudo do professor Flávio Lewgoy sobre as emissões da fábrica de celulose da CMPC, que está ampliando a capacidade de produção da sua planta em Guaiba.
    Segundo Lewgoy, que é químico e geneticista aposentado da UFRGS, apesar de ter melhorado os controles de suas emissões para a atmosfera e para a água do Guaiba, a indústria ao elevar sua produção para 1,8 milhão de toneladas (quatro vezes a capacidade atual), vai lançar no ar e na água volumes consideráveis de poluentes nocivos à saúde humana.
    “Eles dizem que tem os melhores controles, de padrão internacional. Pode ser, mas acontece que não há lugar nenhum onde uma fábrica desse porte esteja à beira do principal manancial de água de uma capital e de frente para as zonas nobres da cidade”. Em seus estudos, Lewgoy constatou os seguintes volumes de emissões aéreas e líquidas:
    Para a atmosfera
    Emissões das lagoas de tratamento do efluente líquido : 1.920 toneladas/ano de clorofórmio
    Emissões da caldeira (não consideradas no EIA-Rima):
    – Fluor (como HF) – 91 kg/dia
    -Cloro gasoso – 309 kg/dia
    -Cinzas de carvão – 123 kg/dia*
    *Cinza finíssima inalável, contendo metais tóxicos: cromo, níquel, chumbo, arsênio, cádmio, berílio e radioativos (tório e urânio)
    -Dioxinas, hidrocarbonetos aromáticos, mercúrio (90% do mercúrio é volatilizado na queima do carvão)
    Para a água do Guaiba
    AOX (organoclorados mutagênicos e cancerígenos) : 180 toneladas/dia
    Cloreto de sódio : até 28,8 toneladas/dia
    Cloratos (?)
    Sulfetos: até 17,8 kg/dia
    Fenóis: até 4,9kg/dia
    Mercúrio total: até 792/dia
    Este é o documento entregue ao Defensor Público-Geral do Rio Grande do Sul:
    PEDIDO DE APOIO PARA DEMANDAS DESTINADAS À TUTELA COLETIVA, ATINENTES AOS
    DIREITOS DE NATUREZA DIFUSA, ESPECIALMENTE LIGADOS AO MEIO AMBIENTE.
    Os signatários do presente documento, pessoas físicas e entidades voltadas em prol da luta em favor da preservação do meio ambiente e demais interesses difusos, têm a honra de submeter à elevada consideração de Vossa Excelência postulação com o escopo de obter o indispensável apoio dessa prestimosa instituição estadual, em busca de um esforço conjunto destinado à prestação de orientação jurídica, judicial e extrajudicial, bem como a defesa dos valores aludidos em todos os graus, nos termos do art. 5º, inciso LXXIV da Carta Magna da República.
    Enfatizam os subscritores que se postam num trabalho incessante alinhado ao programa global que vêm mobilizando os organismos internacionais, liderados pela Organização das Nações Unidas, Organização dos Estados Americanos, a União Europeia, estes pontificando todos os redutos espalhados pelo planeta e que são movidos pela consciência de tratar-se de questão extremamente importante e grave, porquanto traz o significado da sobrevivência humana.
    Entrementes, nos limites geográficos do Estado do Rio Grande do Sul, acumulam-se cada vez mais os atos de degradação ambiental, como consequência não só dos tentáculos de ambições e insensibilidade dos que exploram a natureza, mas, no mesmo nível o despreparo, a desídia e as manipulações políticas de autoridades que teriam a incumbência de impor o devido respeito. Em contraposição, os movimentos defensivos mencionados, carecem da necessária estrutura para conduzir os pleitos judiciais, coincidentemente neste difícil momento que vem sendo submetido o aparato judiciário no País.
    Em verdade, já foi dado um grande passo neste mesmo sentido, tendo em conta a compreensão do colendo Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, em atenção à iniciativa de ambientalista gaúchos, num certo pioneirismo, instituiu Câmara e Varas especializadas na área ambiental que vêm operando com o desempenho desejado, considerando terem sido implantadas em tempo recente.
    Portanto, Excelência, sendo a Defensoria Pública definida como essencial à jurisdição do Estado, por conseguinte da sociedade brasileira, felizmente no Rio Grande do Sul, a instituição se revela com toda a eficiência e abnegação, correspondendo à expectativa que lhe tributa a comunidade estadual, entendem os signatários ser justo e de direito, reivindicar sua proteção nas demandas que, de caráter coletivo, sejam destinadas a escudar as impostergáveis responsabilidades que cabem a todos os cidadãos.
    Dispensável enunciar que nos quadros dos propugnadores da preservação ambiental, invariavelmente, todos são pessoas de modestos recursos pessoais, insuficientes para arcar com despesas judiciais, flagrantemente desproporcionais comparados com as forças detratoras desse bem natural. Ademais, a complexidade dos processos aumenta cada vez mais e isso exige um aparato de defesa bem estruturado, e respeitado como é a Defensoria Pública do Estado.
    Em assim sendo, confiantes de que este pedido de apoio converge com os postulados insertos na Constituição do Brasil, na política do Estado, e no mister abraçado pela Defensoria Pública, pedem a Vossa Excelência se digne de determinar sejam procedidos estudos e providências, a fim de que esse Órgão passe a contar com um departamento ou setor, em condições de recepcionar e desenvolver essas tarefas de forma ágil como tem sido apanágio da conduta dessa instituição.
    Cordialmente
    Porto Alegre, 03 de dezembro de 2013.
    (Assinam diversas entidades e ativistas da causa ambiental)

  • Dilma criará sistema de combate à tortura

    O Brasil terá um Sistema de Combate à Tortura criado por decreto, adiantou a ministra Maria do Rosário, da Secretaria dos Direitos Humanos (SDH), no Fórum Internacional de Direitos Humanos que acontece desde ontem em Brasília.
    De acordo com a ministra, peritos terão autorização prévia para entrar em penitenciárias, instalações militares, delegacias, instituições de longa permanência de idosos, para tratamento de doenças psíquicas e similares. Esses peritos avaliarão possíveis violações de direitos humanos nos locais, depois de receberem denúncia de conduta suspeita.
    “A autorização prévia serve para verificar denúncias de violações de tortura e processar agentes do Estado responsáveis por isso ainda nos dias atuais”, disse Maria do Rosário.
    A presidente Dilma Rousseff só chegará ao evento amanhã, ao retornar da África do Sul, onde participou das homenagens a Nelson Mandela, em companhia dos quatro ex-presidentes vivos: Lula, Fernando Henrique, Fernando Collor e José Sarney. O fórum marca também os 65 anos da Declaração Universal de Direitos Humanos, e teve mais de 10 mil inscrições.