Celso Amorim: “Não estão privatizando o país, estão desnacionalizando"

ANDRES VINCE
No âmbito da programação “Forúm dos Grandes Debates” da Assembleia Legislativa (ALRS), Celso Amorim veio a Porto Alegre, nesta quarta-feira, 25 de outubro, palestrar sobre “A política externa e o desenvolvimento”. A apresentação iniciou por volta das 19h no Teatro Dante Barone, para uma audiência de cerca de 300 pessoas.
Logo que subiu ao palco, o diplomata e ex-ministro Celso Amorim foi ovacionado de pé pela plateia, que em seguida não se furtou em entoar um já clássico “Fora Temer!”.

Edegar destacou a importância dos jovens no aprofundamento da democracia / Caco Argemi / Agência ALRS

O evento foi aberto pelo presidente da ALRS, Edegar Pretto (PT), que ressaltou a importância do acordo que determinou o consenso em torno da alternância da presidência da casa entre as quatro maiores bancadas eleitas.
Pretto destacou também a importância dos jovens na luta pela manutenção da democracia, assim como criticou a ausência de protestos da classe média diante de tantos escândalos comprovados. Logo em seguida, a palavra foi dada ao mediador, professor Benedito Tadeu César, presidente do Comitê Gaúcho do projeto Brasil-Nação, entidade apoiadora do evento.
Tadeu disse que estava emocionado com a calorosa recepção dada ao convidado num momento tão negativo pelo qual o País passa e ressaltou que as pessoas devem estar preparadas para um longo período de resistência ao golpe perpetrado em 2016.
Com a palavra, o embaixador Celso Amorim falou do carinho que tem pelos gaúchos, tentando se esquivar de citar nomes pra não ser injusto com ninguém. Porém, não pode deixar de citar, também com o mesmo carinho, o tempo em que trabalhou como ministro junto de Miguel Rossetto.
Amorim elogiou a inciativa de criação do projeto Brasil-Nação como forma legítima e eficaz de dialogar politicamente com a sociedade.
A mídia “bombardeou” o Mercosul para favorecer a Alca
Fazendo um paralelo com o golpe de 64, o embaixador afirmou que, mesmo tendo vivido naqueles tempos tenebrosos, jamais havia presenciado tamanha tentativa de desmonte do estado: “Não é privatização, é desnacionalização. Quem está comprando o patrimônio nacional são as empresas estrangeiras, muitas delas, ironicamente, estatais”, disse referindo-se ao projeto de governo atualmente instalado ao país.
Falando em acordos de comércio, Amorim disse que o BRICS nasceu de um projeto implantado já no segundo dia da gestão Lula, o IBAS. Segundo o embaixador, a inclusão da China e da Rússia se deu exclusivamente do interesse e insistência desses dois países, devido ao grande prestígio internacional que o Brasil gozava então: “Naquela época todos os líderes mundiais queriam uma foto com o Lula. Quem quer tirar foto com o atual mandatário do País? Ninguém, o pessoal foge. É comprometedor.”
Em tom de anedota, ele disse que até os jornalistas surfaram nesse prestígio: “Quando estávamos em alguma missão diplomática, os ministros de outros países abordavam os jornalistas da comitiva e perguntavam se eles eram brasileiros e, diante da afirmativa, diziam ‘vem cá, que eu quero te dar uma entrevista’”.
Amorim disse que, mesmo assim, a imprensa não se furtou de implantar a ideia de que o Mercosul havia implodido: “É mentira da mídia que o Mercosul fracassou, prova disso é que o comércio entre os países do bloco aumentou 12 vezes desde a criação do bloco. Problemas há, mas os números desmentem a crítica da imprensa.”
O embaixador descreveu a forma como se deu o processo de derrubada dos subsídios europeus e norte-americanos à agricultura, tornando os produtos de outros países competitivos nesses mercados. Segundo ele, o G20, que já havia se sobreposto em poder de barganha ao G8, resolveu incluir nas negociações um grupo de países de menor expressão política chamado G90. Assim surgiu o G110, com musculatura e legitimidade para tomar decisões realmente democráticas.
Corrupção, cenário internacional e a era Trump
Amorim acredita que o combate à corrupção não se dá apenas com operações jurídico-policiais. Afirmou que acredita que a diminuição da desigualdade social é parte importante nesse processo. Citou escândalos de corrupção da Wolksvagen e da Enron como exemplos de casos graves de corrupção no setor privado que não geraram “caça as bruxas” como houve no processo da Petrobras.
Celso Amorim em palestra na ALRS / Caco Argemi / Agência ALRS

Sobre a situação política mundial, disse acreditar muito mais em uma era Xi (Xi Jinping, da China) do que numa era Trump. Afirmou que o mundo passa por um processo de enfraquecimento das democracias, causado em grande parte pelos interesses do grande capital mundial, atingidos em cheio pela crise da bolha financeira de 2008: “O capital não liga se o país é democrático, o importante é o ganho que ele pode proporcionar”.
“O Brasil não é tratado como nação [pelo atual governo]. É tratado como uma empresa. O Brasil não é uma empresa”, disse o embaixador . “O mundo apresenta novos desafios e a mudança aqui só virá através do aprofundamento da democracia, sem se submeter, com paz e autonomia”. Encerrando sua palestra bradou: “Viva o Brasil, viva o povo brasileiro.”
Perguntas da plateia
Público lotou o teatro Dante Barone para ouvir o ex-ministro / Caco Argemi / Agência ALRS

Após a palestra, foi aberto espaço para perguntas, que foram feitas em grande parte por universitários de cursos ligados à área internacional, e giraram em torno dos mais diversos assuntos, como EUA, base de Alcântara, ilhas Malvinas, Síria, Palestina, Irã, Israel, China e África.
Todas as perguntas foram gentilmente respondidas por Amorim, que encerrou salientando a importância de apoiar o manifesto lançado pelo ex-ministro Bresser Pereira em apoio à eleições diretas e irrestritas em 2018.

Adquira nossas publicações

texto asjjsa akskalsa

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *